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16 de janeiro de 2011

Fabiano Santos: Base aliada dará trabalho

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Fabiano Santos, à direita. O estranho à esquerda sou, o blogueiro sujo.

Base aliada dará mais trabalho a Dilma que oposição, diz analista

Por BERNARDO MELLO FRANCO
FOLHA DE SÃO PAULO

A presidente Dilma Rousseff deve enfrentar mais turbulências no Congresso com os próprios aliados do que com a oposição.

A previsão é de Fabiano Santos, coordenador do Núcleo de Estudos sobre o Congresso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ele aposta que o encolhimento de PSDB e DEM vai transferir o foco da tensão parlamentar para o campo governista. Em plena guerra por cargos no governo, Santos aponta nova crise à vista com o PMDB: as eleições de 2012.

Fabiano Santos é coordenador do Núcleo de Estudos sobre o Congresso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Folha - O PMDB já abriu uma crise nos primeiros dias do governo Dilma. O partido será um aliado confiável?

Fabiano Santos - PT e PMDB viverão uma relação tensa, mas precisam um do outro para o projeto nacional dar certo. Se Dilma fracassar, será ruim para os dois.

Há um jogo de ameaças, de idas e vindas, mas não interessa ao PMDB inviabilizar o governo. Por outro lado, como sua base local é muito forte, o partido terá novos embates com o PT em 2012, nas eleições municipais.

Os dois terão que encontrar um equilíbrio, mesmo que na corda bamba.

A oposição encolheu. O que muda na relação do governo com o novo Congresso, que assume em fevereiro?

A base de centro-esquerda cresceu. Dilma não deve ter tanta dependência dos partidos clientelistas de centro-direita, como PR, PP e PTB.

Numericamente, ela encontra uma correlação de forças mais favorável, com uma supermaioria de três quintos na Câmara e no Senado.

A tensão agora está na base, sem participação da oposição. As votações do salário mínimo e da presidência da Câmara serão um teste de fogo logo no início do governo.

Os aliados vão complicar mais a vida da presidente do que os oposicionistas?

Lula teve que administrar embates com a oposição, especialmente no Senado. Dilma terá que administrar mais tensões na própria base.

No governo passado, era preciso olhar os humores da oposição para saber se ela ia obstruir, se ia votar contra os projetos importantes.

Agora teremos que olhar para os conflitos dentro da coalizão. As tensões entre governo e oposição serão deslocadas para a base.

Em princípio, Dilma terá mais poder de barganha e autonomia para impor sua agenda ao Congresso. Mas seu poder também dependerá da capacidade de definir prioridades e equilibrar conflitos entre aliados.

A falta de experiência pode prejudicá-la?

Dilma nunca tinha disputado uma eleição e surpreendeu na campanha. Começou muito insegura, mas conseguiu definir um estilo próprio. Minha expectativa é que também aprenda rápido na relação com o Congresso.

Ela já foi bastante flexível na composição do ministério, até com certo exagero. Deu ministérios a políticos que têm força no Congresso porque depende deles para aprovar a sua agenda lá.

O que a oposição deve fazer para sobreviver?

Encontrar parceiros em outro campo ideológico e sinalizar à sociedade que tem teses a serem discutidas.

A oposição não pode permanecer escanteada. Seu problema, no passado recente, foi ficar um pouco autista.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) tem um diagnóstico correto de que é importante costurar novas alianças. Veja que ele dialoga bem com gente da esquerda.

A eleição de deputados como Tiririca, Romário e Popó aponta tempos piores?

Há um pouco de exagero nesta discussão. Quem manda no Congresso são políticos profissionais, que têm vida partidária e experiência regimental. O jogo é institucionalizado. Eles podem surpreender, mas a tendência é que isso não ocorra.

Créditos das fotos: a foto da capa (thumb) é de Paula Giolito, da Folhapress. A foto acima é da Rede Liberdade.

Lula e sua Herança

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Por Wanderley Guilherme dos Santos, na Carta Capital, ed.629, jan/2011.

Um desigual – No poder o ex-operário realizou a maior ruptura nos últimos 80 anos da República

O balanço de Lula contraria os tradicionais compassos das transações correntes, balança comercial, taxas de câmbio e rubricas aparentadas. São números relevantes, sem dúvida, mas tratados com interessada subserviência, servem como disfarces da realidade – ora apresentando como diferentes entidades semelhantes, ora pretendendo ser iguais a água e a vinho. Uma variação anual positiva de 6% do PIB, por exemplo, não quer dizer que o número total de pares de sapatos produzidos no ano foi de 6% superior ao total produzido nos 12 meses anteriores, ou do total de geladeiras, aspirinas, preservativos e tudo mais. Alguns números reais corresponderiam a bem mais do que à porcentagem registrada, outros a bem menos, e ainda outros a exatos 6%, sem mencionar os números novidadeiros. Uns pelos outros é que desembocam nessa média. Trivial, mas fácil de esquecer e dócil a interpretações marotas.

O economista Fernando Augusto Mansor, do Ipea, calculou a taxa de variação do PIB brasileiro dividido pela população (PIB per capita) nos últimos 60 anos, subdividindo o período por 14 mandatos presidenciais, acabados ou interrompidos, ditatoriais ou eleitos – de Getúlio Vargas e Café Filho a Lula I e II. Vista de longe, parece que a história econômica do país reprisa sequências de picos e vales de crescimento, variando não mais do que o maior ou menor intervalo de tempo entre uma escalada e uma queda. Uma rotina, quase. E nada melhor que uma rotina para sugerir aos candidatos a cientistas da economia a existência de uma “lei da natureza”. Daí a se imaginar que abundância e escassez caem do céu e que todas as abundâncias se parecem não toma além de dois passos.

Mais um passo e alcançamos a tese rústica de que o governo Lula representou um prolongamento de governos anteriores, no que estes apresentaram de positivo, acrescido de bonançosos ventos internacionais. Virtude e acaso encarnados em sujeitos distintos, operando em tempos sucessivos, a tese excitaria o falecido Maquiavel. Pace Niccolo, a história não é bem essa.

O crescimento de 4,9%, em média, dos prometidos 50 anos em 5 do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-1960), único presidente progressista eleito a concluir mandato antes do golpe militar de 1964, e o melhor a partir de então entre os de inspiração liberal, em nada se parece aos 4,1% do Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, de Ernesto Geisel, cerca de 20 anos depois (1974-1978). Mais 30 anos passados, os modestos 3,5 de Lula II, em novo governo progressista legitimamente eleito, embora apontando ligeiro declive diante do pico JK, representaram a mais espetacular ruptura das últimas oito décadas da República. Mas a interpretação reduzida a números não ultrapassa o registro de que houve 0,8 ponto percentual de diferença entre o PIB per capita de JK e o de Geisel, e que o de Lula ficou atrás de ambos ( o modus faciendi democrático desaparece nos números). Em outras palavras, quem só vê porcentagens significantes não enxerga o conteúdo sendo significado, ignorando que, na economia, importante é o que está dentro dela, estúpido! - diriam os suecos.

Por exemplo: dentro da taxa média de crescimento do PIB per capita de Lula II faltam números satisfatórios de aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, justamente o que existe em abundância embutido nas taxas dos anos JK. Os “50 anos” recuperados “em 5” de Juscelino chegaram por via aérea ou recebidos em terminais rodoviários construídos às dezenas, acompanhando o ritmo de conclusão das estradas interestaduais planejadas pelos técnicos do então BNDE. Nada a lembrar o irritante congestionamento atual de aeroportos e estradas, invadidos por passageiros de primeira ou segunda viagem e por motoristas calouros em fins de semana fora da cidade onde moram. Sem esquecer o crescente tempo de espera para desembarque das mercadorias importadas nos portos nacionais. Muitas das quais enviadas da China, com a qual – ninguém podia imaginar – praticamente não falávamos nos anos 50 do século XX. Enfim, os itens em atraso na composição do PIB de Lula I e II fizeram a glória do desfile do PIB estilo JK nos sorridentes anos dourados de meados do século passado. É bem verdade que nem todos sorriam, faltavam os dentes, mas isso fica para depois.

Segundo os conservadores, ou bem o Brasil crescia ou evitava a inflação. Escolha difícil, à falta de terceira opção, e JK, apoiado pelo País inteiro, escolheu crescer, enquanto outros, antes e depois dele, preferiram a estagnação. Perfilhou, inclusive, o desafio de transferir a capital da cidade do Rio de Janeiro para o Planalto Central. (Corre a lenda de que o escritor carioca, católico e engenheiro por formação Gustavo Corção – 1896-1978 -, autor do célebre romance Lições de Abismo, apostou contra a viabilidade civilizatória de Brasília, assegurando que ela não teria condições de se comunicar nem telefonicamente com o resto do Brasil. Perdeu a aposta, é claro, e provavelmente teria apostado também contra a invenção do celular, jamais imaginando que tal artefato, se existisse, viesse a estar ao alcance de mais da metade da população brasileira em 2010 – cerca de 100 milhões de assinantes – quatro vezes superior ao número de celulares em circulação em 2003. Esta referência parentética destinou-se a ilustrar, com um item que de conspícuo transformou-se em básico, a rápida evolução recente do consumo em todas as rubricas típicas, como fogão, geladeira, televisão etc., consignadas pelos balanços usuais.)

Pois a tese da improbabilidade de crescimento econômico sem inflação era outro dos dogmas do período JK, adotado por todos os governos posteriores, o mesmo que se brandia à véspera do primeiro mandato de Lula. A ver as experiências históricas.

As entranhas do PIB juscelinista deram ganho de causa aos conservadores. As taxas de crescimento anual da economia foram exuberantes: 1956 = 3,2; 1957 = 8,1; 1958 = 7,7; 1959 = 5,6; 1960 = 9,7. E não seria impróprio atribuir ao carry-over do período juscelinista parte da saborosa taxa de 10,3, em 1961, já no mandato de Jânio Quadros (Conjuntura Econômica, 1972, Separata: 25 anos de Economia Brasileira, Estatísticas Básicas – FGV). Em contraposição, o índice de preços saiu de um patamar de aumento já elevado de 12,4%, em 1955, avançando a 24,4%, em 1956, e terminando o ano de 1959 com 39,5%, recorde desde o restabelecimento da democracia em 1945. Como de costume, o decreto 39.604-A, de 14 de julho de 1956, concedeu adicional de salário somente aos trabalhadores da indústria. Mais usual ainda, não houve reajuste salarial em 1957 ou em 1958 (Ibre/FGV, Índice de Preços Selecionados – Variações Anuais, 1946/1980).

A decomposição pelo avesso compromete um pouco o brilho do desempenho agregado dos indicadores econômicos de JK.

O oposto se dá com as taxas agregadas de aumento do PIB per capita de Lula I e II. Se mais modestas, elas revelam, contudo, a falsificação da tese hegemônica de que vigoroso crescimento econômico seria incompatível com taxas inflacionárias cadentes. Manutenção do poder de compra dos salários, então, segundo a ortodoxia republicana, nem pensar, sendo ademais delirante a hipótese de que, no Brasil, a economia suportaria aumentos reais na renda dos assalariados. Tentativas anteriores teriam conduzido o País ao limite da anarquia política e à desorganização das contas públicas (fortíssimos indícios, de acordo com as mesmas fontes midiáticas conservadoras e seus conselheiros, de planos sindicalistas revolucionários). Como se vê, não é tanto a história que se repete quanto à natureza e origem dos obstáculos que dificultam a sua progressão.

A avalanche de indicadores positivos durante o governo Lula soterrou o pessimismo.

A retomada do crescimento econômico veio acompanhada de inflação cadente e sob controle, acrescida de inédito aumento na massa de rendimento do trabalho. Em particular, o salário mínimo real dos empregados formais aumentou em 54%, entre 2002 e 2010, estendendo-se o número de trabalhadores com carteira assinada a mais da metade da população economicamente ocupada (Dieese: Política de Valorização do Salário Mínimo, in: Nota Técnica n˚ 86, São Paulo, 2010). Foram mais 15 milhões de brasileiros a obter empregos com direitos trabalhistas reconhecidos (Caged, novembro 2010). Naturalmente, também cresceu o número de assistidos pelo sistema da Previdência Social. A curva do desemprego, outro fantasma da excessiva prudência conservadora, apresentou uma evolução favorável, com taxas cadentes desde 2005 até o recorde favorável de 2010, quando a taxa de desocupação foi reduzida a 5,9% da população economicamente ativa.

Vale registrar que o desmonte das hipóteses econômicas sombrias se processou com crescente e pacífica participação nos assuntos públicos por parte de todos que o desejaram. Não houve qualquer repressão oficial a movimentos populares, opiniões ou manifestações políticas. Nenhum grupo social popular ou conservador teve cerceados ou amputados direitos de expressão pública. Ao contrário, entre 2003 e 2009, foram promovidas 59 conferências nacionais sobre os mais variados temas, com o envolvimento de mais de 4 milhões de pessoas, ademais da criação ou reorganização de 18 conselhos para tratamento de problemas históricos da população (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Caderno Destaques, novembro/dezembro 2009, Brasília).

Ao contrário da anarquia prevista, a substituição de um sistema de valores e de práticas de perfil tradicionalmente elitista por uma orientação de governo comprometido com a promoção econômica, social e cultural da vasta maioria de trabalhadores brasileiros, em particular de suas camadas mais pobres, inaugurou um clima de temperatura política tolerante e cooperativa. São os extremos de dogmático espectro ideológico que, hoje, lastimam a redução na intensidade dos conflitos que, preveniam, seriam atiçados pelo governo Lula da Silva. O absoluto respeito por parte do Executivo às regras do jogo e às demais instituições do País – judiciárias, legislativas, estaduais – é um dos aspectos incluídos no reconhecimento que a população dispensou ao governo, em porcentagens acima até mesmo do apoio eleitoral que deu.

A comoção que acompanhou a transmissão da faixa presidencial à presidenta eleita, Dilma Rousseff, bem como a despedida do presidente Lula da Silva, testemunha a extensão de seu sucesso, excepcional contradita às suspeitas que cercaram sua posse em janeiro de 2003.

Crescer economicamente, administrando a inflação com racionalidade, promovendo a criação de empregos e a valorização real da renda dos trabalhadores não é equação a ser resolvida em demonstrações doutorandas, mas pelo compromisso axiomático do governo com a justiça social e com o progresso material e soberano do País.

Para ser desigual alguém precisa existir. Parece óbvio, mas, em 2006, de acordo com projeções do IBGE, 12,6% da população não existia oficialmente. Em 2002, teriam sido 20,9%. Em Rondônia, o número de nascidos e não registrados no primeiro ano de vida alcança 40%, recorde nacional, e, no Amapá, 33% (Secretaria de Comunicação Social, Caderno Destaques, nov/dez 2009). No total, são pessoas que não dispõem ou dispunham de documento comprobatório de existência, nascimento, nome ou residência. Consequentemente, desassistidas de qualquer tipo de política pública ou direito civil. Para a maioria da população, o acesso a registros tais como certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF e carteira de trabalho aparece como fatos tão naturais quanto o nascer, crescer e trabalhar. Não obstante, foi necessário um governo popular se interessar por essa multidão oficialmente invisível e passar a despender recursos para trazê-la à luz do dia. Mutirões foram realizados e outros 1.225 previstos para 2010, particularmente na Amazônia Legal e no Nordeste, para execução do Programa de Ampliação do Acesso à Documentação Civil Básica. O alvo é o contingente de brasileiros construído de povos indígenas, quilombolas, ciganos, ribeirinhos, trabalhadores rurais, moradores de rua, catadores de recicláveis, crianças e idosos em abrigos, distribuídos em municípios de elevados índices de sub-registro.

É duvidoso que um item dessa natureza seja facilmente encontrável na decomposição de qualquer indicador agregado dos governos anteriores, próximos ou remotos. Mas eles fazem parte do povo de Lula, tanto quanto a vanguarda operária dos centros industriais das grandes cidades e a classe média recém-engordada por passageiros vindos das classes D e E.

Na vasta maioria dos casos, o acesso à documentação representa o ingresso em alguma ou várias formas reconhecidas de desigualdade. Nada mais fácil para um brasileiro do que se incorporar a um desequilíbrio social, de um lado ou de outro: gênero, cor, instrução, renda, idade, geografia de nascimento e até estética são portais escancarados à estratificação e discriminação. Entre outros, e crucial, é o portal da Justiça.

A Justiça é dispendiosa para todas as pessoas e para os pobres em particular, além de cara, amedronta mais do que apazigua. Ainda agora o IBGE publicou preciosa pesquisa sobre Características da Vitimização e do Acesso à Justiça no Brasil (IBGE, 2009), com números sobre violência contra pessoas e contra a propriedade, repetindo em certa medida investigação semelhante que realizara em 1988, há 22 anos, portanto. Entre as infaustas novidades encontram-se as que dizem respeito às vítimas preferenciais da violência por classe de renda e idade, por exemplo, e seus algozes. Com base em amostra nacional de 399.387 pessoas e 153.837 unidades domiciliares distribuídas por todas as unidades da Federação, os resultados revelam um quadro comparativo ainda desalentador. Mesmo em casa, não mais do que 78,6% das pessoas se sentem seguras, porcentagem que cai para alarmantes 52,8% da população quando estão na cidade, longe de casa e do bairro.

Há substancial variação regional nesses números, aparecendo a Região Norte como aquela em que a população se sente menos segura, seja em casa (71,6%), no bairro (59,8%) ou na cidade (48,2%). Segundo a pesquisa, os homens sentem-se mais seguros que as mulheres, sem diferença marcante entre brancos e pardos, nesse item sobre subjetividade, em qualquer dos locais investigados. Cerca de 8,7 milhões de pessoas, 5,4% da população residente de 10 anos de idade ou mais, foram vítimas de roubo e/ou furto no período de 27 de setembro de 2008 e 26 de setembro de 2009, com a maior incidência ocorrendo com pessoas de 16 a 34 anos de idade. A violência física caminha na direção inversa à da renda, com a maioria agredida situando-se na faixa de um quarto do salário mínimo. Os autores da violência física foram desconhecidos, em 39% dos casos, pessoas conhecidas em 36,2%, cônjuge ou ex-cônjuge, 12,2%, parentes em 8,1% das agressões e 4,1% de autoria de policiais ou seguranças privadas. Entre as mulheres, 25,9% delas foram agredidas por cônjuge ou ex-cônjuge. Sujeitas a várias discriminações, as mulheres e a população não branca atestam vários dos desequilíbrios sociais praticados pela sociedade, não obstante a legislação penal existente.

Entre 1988 e 2009, a violência contra a população branca foi reduzida de 64,6% para 52%, enquanto a população preta ou parda, vitimada, aumentou de 34,9% para 47,1%. O mesmo fenômeno se deu na comparação por gênero: a porcentagem de homens roubados ou furtados decresceu de 58,3% para 53,1%, enquanto a das mulheres aumentou de 41,7% para 46,9%. As porcentagens relativas à violência física seguem o mesmo padrão: enquanto a população branca, em particular a masculina, obteve acréscimos de segurança, nos últimos 20 anos, a probabilidade de sofrer agressões corporais aumentou para a população feminina, preta e parda.

Embutido nesses números está o testemunho da extensão em que níveis de pobreza, por certo, mas igualmente da aspereza da cultura cívica somam-se para fabricar uma sociedade ainda predatória e discriminatória. Sua superação exige largo intervalo de tempo.

Do outro lado da ponta da prevenção, que claudica, encontra-se a oferta de proteção jurídica. A nova Lei Orgânica da Defensoria Pública, de outubro de 2009, ampliou e tornou efetiva a possibilidade de que cidadãos sem capacidade financeira para a contratação de advogados obtenham condições de trazer pleitos junto aos tribunais. Entre 2003 e 2008, o número de defensores públicos passou de 3.250 para 4.525, e o número de atendimentos jurídicos de 4,5 milhões para 9,6 milhões, um acréscimo de 113% (Fonte: Ministério da Justiça).

O Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, criado em 2003, embora não implantado ainda em todos os Estados, já atendeu 1.375 crianças e adolescentes e 2.255 familiares. Diante da incessante fábrica de desigualdades, discriminações e violência que é a sociedade brasileira, programas como o (PPCAAM), entre outros, e inovações institucionais como as Secretarias Especiais da Mulher e da Promoção da Igualdade Racial, que atuam, sobretudo na reparação de transgressões, não deixarão de apresentar resultados mais substantivos no longo prazo.

Se a violência estrutural é difusa e resistente, a redução das carências iminentes da população pobre – atendimento à saúde e educação – depende fortemente da disposição e ação governamentais. O número de Farmácias Populares ara atendimento ao povo de Lula cresceu 1.826%, entre 2004 e 2008, vendendo mensalmente medicamentos a preço de custo a 1 milhão de pessoas. Outro milhão de pessoas adquire medicamentos, por mês, com descontos de até 90%.
O Programa Saúde da Família é conhecido, mas nem tanto o programa Brasil Sorridente, para o povo malcuidado, tópico embaraçoso para governos de elite. Em 2004, foram instalados 100 Centros de Especialidades Odontológicas, aumentados para 771, em 2009. Com 18.650 equipes, atenderam 87 milhões de brasileiros em 2009 (Ministério da Saúde, Boletim, novembro de 2009).

Programas para portadores de deficiência física, que alcançam 14% da população do País, incluíram a adequação de 10.489 escolas, entre 2007 e 2009, para atendimento especializado (Seesp/MEC). O ProUni, educacional, o Programa de Agricultura Familiar, produção de alimentos, e o Minha Casa, Minha Vida, habitacional, somam-se aos referidos para orquestrar o que constitui o compasso essencial do balanço de Lula. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem papel destacado na composição do PIB dos últimos anos, com certeza, assim como as iniciativas nas áreas da grande agricultura e da exportação. A visibilidade do programa Bolsa Família e suas dezenas de milhões de famílias recuperadas à miséria a instala por gravidade no centro da atenção midiática.

Mas o pernóstico debate sobre atribuído assistencialismo do programa ofusca o princípio ordenador das prioridades do governo e o sentido histórico dos dois mandatos do presidente Lula da Silva. Crescimento econômico, inflação sobre controle, expansão do emprego e redução das desigualdades sociais são metas compatíveis, sim, entre si e com a democracia, desde que o governante adote políticas em harmonia com a agenda preferencial do povo – isto é, do povo de Lula.

O Longo Ciclo Vargas (de 1930 a 2014)
Um estancieiro gaúcho; um operário pernambucano e uma militante política mineira

A Inglaterra inaugurou a modernidade liderando a primeira Revolução Industrial entre 1780 e 1820. Quarenta anos. Mas o pioneiro ciclo de modernização só se encerrou no início do século XX, com o amadurecimento de um sistema público de seguridade social e a universalização do direito de voto masculino e feminino em 1924. Nessa cronologia, o Brasil ainda teria um crédito de 20 ou 30 anos à disposição.

Os primeiros países modernos contaram com duas vantagens históricas. A primeira, conferida pela originalidade, foi a de estabelecer velocidade e conteúdo da própria “modernidade” sem competidor à frente. Qualquer avanço material, tecnológico, cultural, era, por definição, “progresso”. Aos emergentes, contudo, foi imposta a necessidade de descontar o atraso, além de crescer, visto que a tese da convergência civilizatória mundial se revelou ideológica. Em acréscimo, esta a segunda vantagem, os países modernos da primeira onda foram dispensados de sobrepujar a oposição interna de grupos que preferiam a estagnação ou a subordinação a estratégias de outras nações.

No Brasil, ademais dos percalços de governos conservadores, o caminho da modernização enfrentou interesses que, congregados, levaram um presidente legitimamente eleito ao suicídio, em 1954, tentaram impedir a posse de outro, em 1955, e interromperam, pela força das armas, o mandato de um terceiro em 1964.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro efetivamente popular na história da República a terminar pacificamente não um, mas dois mandatos, eleger uma sucessora e transmitir o cargo. Retrospectivamente, registre-se que os dois principais momentos de avanço dos direitos da população pobre do País ocorreram sob regimes autoritários: a Consolidação das Leis do Trabalho, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), e a criação do Fundo de Amparo ao Trabalhador Rural, durante a ditadura militar do general Emílio Garrastazu Médici (1970-1974).

O governo Lula avançou na reformulação da estrutura econômica do País, na indústria, na agricultura e nos serviços, revelou inédita independência na administração dos constrangimentos de crises externas (2008-2009) e alterou a agenda de prioridades nacionais. O resgate de mais de 20 milhões de pobres e o anúncio do programa para a erradicação da miséria extrema, com o governo de Dilma Rousseff, além da desejável e indispensável capacidade de produção autônoma de conhecimento e tecnologia, indicam o término do ciclo de ajustamento do País à modernidade.

É bem possível que a travessia iniciada por um estancieiro gaúcho, que pouco se ausentava do palácio de governo instalado em uma cidade marítima do Sudeste, esteja sendo encerrada por um ex-metalúrgico paulista, migrante nordestino, associado a uma mulher, ex-presa política de origem mineira. Tão Brasil.

Extraído da Revista CartaCapital n˚629
autor: Wanderley Guilherme dos Santos
enviado por Jotamorim (via Redecastorphoto).

Charge extraída daqui.

10 de janeiro de 2011

Folha retoma baixaria religiosa

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Todos se lembram que as baixarias religiosas da campanha de Serra foram abraçadas, sem muito disfarce (apenas com o disfarce necessário para o bem da estratégia...) pelos jornalões. Pois bem, uma semana depois de eleita, a Folha, sem ter muito pretexto para atacar, resolveu apelar novamente para a tática de gritar que alguém atirou pedra na cruz... Reproduzo abaixo texto do Rodrigo Vianna.

Ministra desmente “Folha” pelo twitter! Jornal queria usar religião contra Dilma

Por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador.

Estranhei quando vi a “reportagem” da “Folha” logo cedo nesse domingo: os jornalistas Valdo Cruz, Simone Iglesias e Breno Costa trouxeram - no pé de uma matéria na página A9 – a informação de que Dilma retirara o crucifixo do gabinete e a Bíblia da mesa de trabalho do Palácio do Planalto.

Uma pulga atrás da orelha: por que o jornal não deu foto, mostrando o gabinete “antes” (com crucifixo e Bíblia) e “depois” (sob a intervenção da malvada presidenta atéia)?

E, se o fato era tão importante (a ponto de os editores botarem em primeira página), por que os repórteres incluíram a informação no pé e não na abertura do texto? Jabuti não sobe em árvore – é o que dizem. O assunto talvez não interessasse aos jornalistas que assinaram a matéria, mas certamente interessou aos donos do jornal. E certamente interessa à direita que trouxe a religião para o centro do debate político, sob os auspícios de Serra, na última campanha eleitoral. É uma forma de mandar o recado: nós avisamos, ela é a favor do aborto, não é religiosa, esses comunistas são perigosos!

Pois bem. Isso estava evidente. Mas o mais interessante veio no começo da tarde. A minstra-chefe da Secom, Helena Chagas, usou o twitter para desmentir a “Folha”. Entendam bem: a ministra não minimizou, não tentou explicar a decisão (que, aliás, seria legítima) de retirar curcifixo e Bíblia. Não! A ministra, simplesmente desmentiu o jornal!

E o curioso: desmentiu não com nota oficial, mas pelo twitter!!!

O que disse Helena Chagas:

- “Pessoal, só esclarecendo:a presidenta Dilma não tirou o crucifixo da parede de seu gabinete.A peça é do ex-presidente Lula e foi na mudança”;

- “Aliás,o crucifixo,que Lula ganhou de um amigo no início do governo,é de origem portuguesa.Mais:Dilma também não tirou a bíblia do gabinete.”;

- “A bíblia está na sala contígua, em cima de uma mesa – onde, por sinal, a presidenta já a encontrou ao chegar ao Planalto. Por fim…”;

- “…um último detalhe:embora goste de trabalhar com laptop,a presidenta não mudou o computador da mesa de trabalho.Continua sendo um desktop.”

Ou seja: segundo a ministra, a “Folha” errou no factual!

A “Folha” pode detestar a Dilma, e pode até achar que deve insuflar a direita religiosa. Mas, pra isso, precisa se ater aos fatos!

De todo jeito, sejamos cuidadosos: vamos aguardar as explicações do jornal da família Frias…

Esse espisódio, do “crucifixogate”, tem tudo pra entrar na mesma lista do “bolinhagate”, do grampo sem áudio e da ficha falsa da Dilma! Com um detalhe extra: ao desmentir o jornal pelo twitter, Helena Chagas não deixa de mandar um recado pra turma da Barão de Limeira – vocês já não estão com essa bola toda.

Humilhante: o maior jornal (?!) do país desmentido pelo twitter!

A primeira semana de Dilma

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Por Eduardo Guimarães, no blog Cidadania.

No sábado, completou-se uma semana desde que a presidente Dilma Vana Rousseff tomou posse e começou a governar. Desde a posse até o presente momento, os movimentos iniciais do novo governo – repletos de simbolismo – induzem à crença em uma drástica mudança de estilo na Presidência da República, ao menos do ponto de vista político.

A começar pela diferença entre a posse de Lula, em 2002, e a de Dilma agora. Há oito anos, Lula chegou ao poder passando por uma campanha eleitoral light, em que a virulência da direita foi constrangida pelo estado de miséria em que estava o país; Dilma se elegeu na campanha mais suja e violenta desde a redemocratização, que deixou a de 1989 na poeira.

Já nos discursos de posse de cada um, afloraram os indícios do que seria o governo Lula e do que será o governo Dilma. Lula fez um discurso politizado, com referências à “esperança” ter “vencido o medo” – referência que enlouqueceu de raiva a direita e a mídia – e ao preconceito por ele não ter diploma universitário; Dilma fez um discurso burocrático e despolitizado.

Aliás, enquanto que o discurso de Lula, em 2002, foi de afronta aos inimigos políticos que amealhou nas três campanhas eleitorais anteriores (1989, 1994 e 1998), o de Dilma foi todo no sentido de amainar os ânimos ainda exacerbados ao espantoso durante a campanha eleitoral.

Houve dois momentos isolados de maior emoção no discurso de posse de Dilma e nas duas vezes ela foi às lágrimas. No primeiro momento, ao se emocionar com a afirmação de que era presidente de “todos os brasileiros”, como que propondo a “paz”; no segundo, ao lembrar dos colegas que tombaram diante da ditadura, da qual a presidente garantiu não guardar rancor.

Durante a primeira semana de Lula, declarações sobre “Herança Maldita” e de que “A esperança venceu o medo” exacerbaram o clima político de uma forma que dura até hoje – mesmo depois de ele ter deixado o cargo, continua sendo atacado pela mídia como se ela quisesse lhe dizer que agora pode insultá-lo sem que tenha como reagir, pois não tem mais o palanque presidencial.

A primeira semana do governo Dilma foi fria, do ponto de vista político, e restrita a fotos de reuniões da presidente com sua equipe de governo, sem que se metesse nas polêmicas da estadia de Lula e família em instalações militares e dos passaportes diplomáticos dos seus filhos.

Acostumados que estamos a ver o ex-presidente fazer discursos diários durante anos, com respostas aos ataques da imprensa, com críticas às elites, a potências estrangeiras, de exaltação dos feitos que o seu governo inegavelmente ia logrando, enfim, com a emoção transbordando por cada poro, todos estão sentindo que Dilma pretende despolitizar o seu início de governo.

Haverá que combinar com os russos. Dilma tem imensos abacaxis para descascar, como a questão dos aviões militares que o Brasil tem que escolher ou o caso Cesare Battisti e o projeto do marco regulatório da mídia, nos quais o novo governo terá que se posicionar, em algum momento.

Há vários fatores que explicam a postura de Dilma. Em primeiro, sai de cena a emotividade de Lula para dar lugar à atitude sempre cerebral que marca o perfil técnico da presidente, em contraposição com a formação eminentemente política do antecessor. E também o fato de que ela ainda parece pretender desfazer a especulação de que seria mais de esquerda do que ele.

A menos que Dilma comece a ceder sem parar às exigências da direita midiática, confrontos surgirão. Se o seu governo não se tornar tucano, terá que enfrentar o debate político. A única manifestação que a mídia não poderá ignorar ou distorcer muito será a dela. Se não se manifestar, seu governo será censurado.

É cedo para dizer que Dilma cometerá o erro de governar o Brasil como uma gerente. Mas se fizer isso, será, sim, um erro. O cargo de presidente é político. Os brasileiros votaram nela seguindo um líder político – o maior da história brasileira, ao lado de Getúlio Vargas. Ninguém segue gerentes. E sem liderar politicamente, ela não se reelegerá.

8 de janeiro de 2011

Mídia não "desencarnou"

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Passaporte: Estadão desmoraliza a Folha

Por Altamiro Borges, em seu blog.

A Folha inventou mais um factóide para arranhar a alta popularidade de Lula e, de quebra, criar constrangimentos para Dilma Rousseff bem no início do seu governo. Ela deu manchetes para a "grave" concessão de passaportes diplomáticos aos filhos do ex-presidente. Todo dia ela bate bumbo com este assunto "altamente relevante". Mas este escárceu todo é ridículo e, como tal, foi desmoralizado pelo concorrente Estadão.

Reportagem de Denise Madueño e Leandro Colon revela que a emissão destes passaportes é um fato corriqueiro há muito tempo. E não beneficia apenas os filhos de Lula, como a Folha insinua maldosamente - com objetivos políticos, de oposicionista hidrófoba. Outros ex-presidentes também tem esse direito, além de deputados e seus parentes.

Emissão de 360 passaportes

Segundo a reportagem, "pelo menos dois terços dos passaportes especiais solicitados pela Câmara dos Deputados ao Itamaraty, entre esta sexta-feira, 7, e fevereiro de 2009, foram para mulheres, maridos e filhos dos parlamentares. E cerca de 87% dos vistos internacionais para esses documentos tiveram motivação turística, segundo dados da Segunda Secretaria da Câmara, responsável por essa tarefa".

"Quem tem esse documento recebe privilégios em aeroportos, como filas e atendimentos especiais, prioridade em bagagens e, dependendo do país, fica até dispensado da necessidade de tirar visto... O balanço da Câmara mostra que cerca de 360 passaportes diplomáticos foram emitidos nestes últimos dois anos... De acordo com os dados, pelo menos 125 passaportes foram emitidos para filhos e 110 para cônjuges".

Guerra queimou a língua

O presidente do PSDB, Sérgio Guerra - que fugiu da disputa pela reeleição ao Senado em Pernambuco, mas adora posar de jagunço -, emitiu uma nota com duras críticas ao ex-presidente na esteira do factóide da Folha. Ele devia ser mais cuidadoso com sua língua ferina. O registro da Segunda Secretaria mostra que, no dia 21 de dezembro do ano passado, o deputado Carlos Leréia (PSDB-GO) mandou o ofício 250/2010 pedindo passaporte diplomático e visto para ele, a mulher e três filhos viajarem para Miami.

Parlamentares de vários outros partidos também gozam deste privilégio. "Em julho de 2010, a Segunda Secretaria providenciou passaportes diplomáticos para dois filhos de Ratinho Júnior (PSC-PR) viajarem a 'turismo', segundo a Câmara, para Miami". A legislação para emissão de passaporte diplomático é vinculada ao decreto 5.978/2006 e garante este direito aos membros do Congresso e seus dependentes. O benefício pode até ser impopular, mas é legal - o que confirma a baixaria da Folha.

Tratamento diferenciado e seletivo

O curioso é que esse mesmo jornal, de propriedade da Famíglia Frias, nunca foi atrás das várias denúncias envolvendo o ex-presidente FHC. Alguns dos seus colunistas, até pelas relações íntimas que mantêm com o tucano, conheciam as denúncias, mas sempre o trataram como um "princípe da Sorbonne" acima de qualquer suspeita. No seu ranço de classe, preferem criticar o peão Lula, que tira suas férias em quartéis no litoral brasileiro, do que falar mal do aristocrático FHC, que sempre viajou para a Europa.

Como observou Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, a cobertura sobre factóide do passaporte especial - que a Folha detonou e, na dobradinha orquestrada, a TV Globo amplificou - é totalmente distorcida. Ela só engana os ingênuos, metidos a puristas. O tratamento diferenciado dados aos dois ex-presidentes só confirma a manipulação.

A mídia "jamais incomodou FHC com a história do filho ilegítimo que gerou com uma jornalista da Globo... As encrencas de outros filhos de FHC, os assumidos por ele, jamais chegaram tão rápido ao noticiário. Só em 2009, oito anos depois de o tucano deixar o poder, a mídia soltou notinhas sobre Luciana Cardoso, que recebia salários do Senado sem aparecer por lá para trabalhar", afirma, indignado, Eduardo Guimarães.

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PS Gonzum: A Rede Globo também entrou na festa, claro. Estadão pode até brigar com a Folha, mas não a Globo. Confira a reportagem que saiu no Jornal Nacional.

Passaporte para o preconceito provinciano da classe média

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Por Conceição Oliveira, do blog Mariafro.

Ando espantada com a pequenez humana. A Folha, Veja e Cia tentarão de todas as formas manchar a história de um presidente que durante os seus dois mandatos beneficiou não apenas os mais pobres, mas também a classe média e empresários.

O crescimento econômico do país foi benéfico para todos, a importância que o país ganhou no cenário internacional beneficia até mesmo uma parcela da classe média rancorosa e moralista com a vida alheia e que muito embora beneficiada, culturalmente não mudou nada.

Ontem no twitter li mensagens agressivas, equivocadas e até mesmo detratoras dirigidas aos filhos de Lula. Algumas delas eram a revisitação do Cansei. Na mídia velha teve até presidente da OAB, cuja presteza para exigir a devolução dos passaportes dos filhos do presidente Lula renovados legalmente foi espantosa, pena que o presidente da OAB não tenha a mesma rapidez pra repudiar crimes homofóbicos praticados no Brasil, que não se mexa para punir grupos protofascistas que querem acabar com os nordestinos e outras sandices desta parcela da classe média preconceituosa, rancorosa e vergonha alheia.

O factóide da Folha, o twitter e o respeito do Brasil no exterior

A história da renovação dos passaportes especiais já estava na imprensa há pelo menos uns dois dias. Não houve absolutamente nada ilegal na renovação. Os filhos do presidente têm direito a ter passaporte especial cujo único benefício é passar por uma fila diferenciada destinada a diplomatas, alguns artistas e empresários que também podem conseguir tal benefício.

Lula governou por dois mandatos, os passaportes emitidos (e nunca usados) foram renovados, este é o fato. Poderiam ter sido renovados antes, mas possivelmente algum burocrata do Itamaraty esqueceu de fazê-lo e o fato de tê-los renovado poucos dias antes da saída do presidente fez a Folha jogar lama na família de Lula e a classe média moralista, que em governos anteriores economizava anos pra fazer uma viagem internacional e hoje tem raiva de ver pobre no aeroporto, caiu matando no twitter contra Marcos Lula e Luís Cláudio.

Durante o governo Lula esta mesma classe média pôde viajar para os 27 países da União Européia, ficar por três meses sem precisar de vistos. Antes tiravam até as cuecas pra passarem em detector de metal, éramos humilhados, viajantes do terceiro mundo para o Velho, pomposo e preconceituoso mundo. Lula mudou isso.

É inegável o respeito que experimentamos ao viajar para o exterior (falo dos que viajam realmente para turismo, dado que a xenofobia européia tem crescido e se voltado contra os estrangeiros que querem migrar ilegalmente).

Em alguns países dizer que é brasileiro imediatamente nos concede um ‘passaporte’ de boas vindas, um tratamento mais simpático. Vivi isso nos vários países africanos que fui e em Portugal, o único país europeu para o qual viajei até então. Lula é o Cara também para cidadãos de países estrangeiros.

Tudo isso aconteceu porque o governo Lula soube impor respeito e fazer os demais governos respeitar o Brasil. Anos atrás o governo espanhol desrespeitou brasileiros e imediatamente nosso governo reagiu. O princípio da reciprocidade vem sendo aplicado pelo Itamaraty:  sempre que ocorreu abusos, xenofobia e preconceito em relação a brasileiros no exterior e não prevaleceu o entendimento bilateral, o governo brasileiro reagiu protegendo os brasileiros.

Os direitos de presidentes e ex-presidentes e suas famílias

Filhos de presidente têm direito à segurança da PF e é bom que tenham, porque presidente é alvo de todo tipo de chantagem. Em 2008, Fernando Beira-Mar tramou junto com Marcola e Abadia o seqüestro do caçula de Lula. Imaginem se a PF não agisse o que ocorreria com um presidente que tem seu filho em mãos de traficantes sanguinários como estes.

Eu conheci o Marcos Lula na Paulista, nas comemorações da vitória da eleição de Dilma, logo após sabermos o resultado do segundo turno.

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Marcos estava alegre, eufórico, tinha vindo dirigindo um carro de som de São Bernardo até a Paulista. É um homem bastante simples no falar, agir, se vestir. Marcos Lula não gosta de andar com seguranças (e até então ele tinha este direito garantido constitucionalmente) e neste dia tinha enganado todos eles e estava sem seguranças. Todos nós nos espantamos e ele levou bronca dos amigos. Nesses oito anos, Marcos não viajou para os EUA, Europa, Ásia ou África e muito possivelmente não conheça nem os EUA ou qualquer dos países desses continentes.

Vi fotos de Marcos Lula durante a posse da presidenta Dilma Rousseff. Ele poderia estar ao lado do pai na cerimônia de entrega da faixa presidencial, mas estava como a gente, no meio do povo.


Fico imaginando o quão complicado é lidar com toda esta exposição de modo tão gratuito, virando motivo de chacota pelos oportunistas de sempre e sendo achincalhado inclusive por fogo amigo. Poucos foram os que se dirigiram ao Marcos para perguntar o ocorrido. Compraram de bom grado a versão de que mesmo legal é ‘imoral’ (houve até quem tentou vender a idéia de que o passaporte legalmente renovado fazia parte da filosofia do ‘rouba mais faz’).

Alguns petistas ou simpatizantes se sentiram desconfortáveis com a renovação dos passaportes e a exposição na imprensa do factóide. O blogueiro@viniciusduarte, que não tem nada a ver com esta classe média rancorosa que descrevi anteriormente, achou que a renovação foi uma carteirada burra. Caro Vinícius, por acaso Lula obrigou o Itamaraty a renovar os passaportes? Outro blogueiro, @aleportoblog achou o ‘regalo’ dispensável. Discordei também, não é possível tratar a renovação legal de um documento como ‘regalo’.

Nas críticas de pessoas como Vinícius e Alê a renovação soou como privilégio da cultura do “você sabe com quem está falando”. Se conhecessem Marcos veriam que isto é uma bobagem, aliás tenho até dúvidas se o Marcos em pessoa foi atrás desta renovação (de um passaporte que jamais usou e que nem pegou e diante da fúria da esquerda e direita já até dispensou). Na minha opinião isto sim é um erro, afirmar que vai dispensar o passaporte.

Há nas críticas que  enxergo como crítica da ‘esquerda’ um purismo bobo, que caiu no jogo plantado pela Folha de que se é legal não deixa de ser ‘imoral’.

É bom lembrar que para a Folha qualquer direito do ex-presidente é tratado como coisa de deslumbrado. O preço do vinho que Lula tomou em 2003, os seus ternos, ou as roupas de dona Marisa, o avião da presidência ou o staf das viagens internacionais que no Brasil é chamado de SCAV (escalão avançado).

O staf de Lula perto do que acompanha Obama em suas viagens internacionais chega a ser ridículo em números. Lula durante seus dois mandatos viajava com 30, 40 pessoas no máximo, Obama com 2000 pessoas. A direita que adora comparar o Brasil inculto com os EUA civilizados acha o que disso?

Ora, Lula foi um chefe de Estado e tem de seguir os protocolos do cargo. Mas da esquerda à direita se cobrou do presidente que ele se portasse como um operário. A esquerda para manter o purismo das origens e a direita, porque não engole mesmo o fato de um ex-operário tornar-se o presidente mais bem sucedido da história do país.

Voltando aos moralistas de plantão: eles precisam apontar o dedo, porque afinal Marcos é ainda aquele rapaz simples, filho de ex-operário, o mesmo que era xingado na escola quando pequeno e viu seu pai preso e os amigos apontando o dedo e o chamando de ‘filho de ladrão’. À época seu pai era o líder operário mais importante do país, resistindo à ditadura militar. Hoje, seu pai é o líder político mais importante do Brasil, porque reconstruiu um país sem esperanças, injusto, desigual, com baixa auto-estima e deixou o governo com 87% de aprovação.

Nesta primeira semana após a troca de governantes na Presidência não foi só Marcos e Luis Cláudio que foram desrespeitados pelos falsos moralistas de plantão, alimentados pelo factóide da Folha: também o pai deles, o ex-presidente Lula, foi perseguido pelos fotógrafos do jornal da Ditabranda que acha que o ex-presidente não pode descansar, ter alguns dias de férias. Não passa pela cabeça destes jornalistas desrespeitosos que Lula jamais vai conseguir ficar tranqüilo com sua família mesmo que seja no resort de Comandatuba. A simples presença de Lula em qualquer espaço atrairá multidões de fãs e de paparazis sem noção. Onde mais Lula poderia ter um pouco de paz que não fosse em uma base militar?

Ex-presidentes constitucionalmente têm alguns direitos. Eles têm, por exemplo, direito a seguranças e transporte. Foi fundamental este direito nestas eleições. Após o episódio da bolinha de papel, havia um boato circulando de que ocorreria tumulto na caminhada de FHC em São Paulo em apoio a candidatura Serra.

Lembro-me do ator José de Abreu no twitter e em suas famosas twitcams chamando a atenção para o fato de que isso seria um factóide, lembrando que FHC estaria rodeado de seguranças.

FHC pode ir aonde quiser desde que deixou a Presidência da República e o maior risco que corre é levar uma bolinha de papel na cabeça e o exaltado que ousar agredir um ex-presidente vai ter muita dor de cabeça.

FHC é um presidente impopular, antipático, síntese desta mesquinharia que acomete uma parcela da intelectualidade brasileira que se sente superior aos demais e assim é tratada, inclusive pela velha mídia.

FHC teve um filho fora do casamento que toda a imprensa sabia, mas demorou cerca de 20 anos pra falar no assunto, enquanto em 1989 Collor, que teve todo espaço na mídia pra seu jogo sujo, fez da filha de Lula, Lurian, criada pela mãe de Lula, reconhecida por Lula e nascida antes do casamento com Marisa Letícia e após a morte de sua primeira esposa, um escândalo eleitoral.

A filha de FHC trabalhou tranquilamente no Senado sem que a família fosse incomodada pela imprensa. Mas a renovação legal de dois passaportes para os filhos de Lula (que ainda era o presidente quando o fato ocorreu) foi transformada num escândalo com direito até mesmo de presidente da OAB se meter.

Não vai me surpreender nada ver um novo Cansei querendo cassar os direitos legais até então usufruídos tranquilamente por Collor, Itamar, FHC e agora por Lula. Porque para estes falsos moralistas de plantão, é uma afronta um ex-operário ter sido duas vezes presidente, quem dirá viver com a dignidade que um ex-presidente constitucionalmente tem direito de viver.

Lula passou oito anos sendo esculhambado, mas mesmo assim deu tudo de si para o Brasil e o Brasil pós-Lula é um Brasil muito melhor para o seu povo. Será que os brasileiros farão coro aos leitores da Folha e não tomarão conta de Lula?

PS. Atualização, aconselho aos inconformados a ler o bom post do Eduardo Guimarães e as matérias citadas do Estadão e do R7.

Ps2: Um tweet do ex-presidente da FioCruz, Carlos Morel, sintetizou em tão poucos caracteres tudo que eu queria ter dito:



@aleportoblog @MarcosLula Ex-Presidentes e famílias têm tratamento similar e digno na maioria dos países democráticos. Só Lula não pode ter?about 18 hours ago via web





Passaportes dos filhos de Lula são legais

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Por Eduardo Guimarães, do blog Cidadania.

Nos últimos dias, a “dobradinha” entre mídia e oposição a que se referiu , em dezembro, o então ministro da Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins, apareceu de novo, provavelmente como prenúncio dos tempos que virão de continuidade das eternas picuinhas da mídia contra o agora ex-presidente petista, fantasma que esses veículos de comunicação aliados ao PSDB e aos seus satélites partidários julgam que precisam exorcizar até 2014.

Como dissera Martins, a mídia “levanta a bola” e a oposição “corta”. Foi assim no caso da RENOVAÇÃO dos passaportes diplomáticos de familiares do ex-presidente Lula. A mídia inventou uma ilegalidade qualquer na medida do Itamaraty, em uma conduta hipócrita que será explicada mais adiante, construiu uma manchete propícia à “escandalização do nada” e a oposição já veio “cortando”, dando declarações difamantes contra o ex-presidente da República e sua família.

Em seguida, cumprindo o bom e velho script de guerra a Lula que vige desde 1989 na mídia, o indefectível Ophir Cavalcante, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, sempre disposto a oferecer teses “legais” para a dobradinha tucano-midiática, faz uma “ameaça” aos filhos de Lula, de que se não devolverem os passaportes diplomáticos que têm desde que o pai se tornou presidente pela primeira vez, em 2003, serão “denunciados”.

A principal tese da mídia é a de que o Itamaraty não poderia ter “concedido” – e o correto seria dizer “renovado” – o passaporte diplomático a Marcos Cláudio Lula da Silva, de 39 anos, e a Luiz Cláudio Lula da Silva, de 25 anos, porque são maiores de 21 anos e esta faixa etária seria o limite para concessão desse documento a que têm direito o ex-presidente da República e seus dependentes. Estes, contudo, só teriam esse direito até essa idade.

Só agora a mídia transformou em escândalo um fato que vigeu durante os oito anos do governo Lula. Por que não “denunciou” antes que ao menos o filho de 39 anos de Lula tem passaporte diplomático? Simples, porque está começando uma campanha difamatória contra o ex-presidente que fará a que se viu durante o seu mandato parecer uma prolongada declaração de amor.

O PSDB, por meio de Globos, Folhas, Vejas e Estadões, bem como dos seus babados, está se dedicando a transformar em escândalo uma prática que vige há muito tempo e que beneficia a um espectro amplo de pessoas, incluindo gente da oposição tucano-midiática, como revela boa matéria do jornal O Estado de São Paulo sobre o assunto.

A concessão de passaportes diplomáticos no Brasil, no entanto, é muito mais comum do que se pensa, tendo até uma página do Itamaraty na internet em que é possível obter as informações necessárias para a concessão de um documento que o Estado brasileiro concede a qualquer um que considere que deve recebê-lo, pois decreto da Casa Civil da Presidência da República dá à autoridade competente a prerrogativa de tomar tais decisões.

A questão de idade dos dependentes dos beneficiados por passaportes diplomáticos é, também, passível da subjetividade do ministro das Relações Exteriores, em última instância. Não é por outra razão que o Itamaraty oficializou, em maio do ano passado, a concessão de passaportes diplomáticos a parceiros gays de servidores que trabalham nas representações do Brasil no exterior, conforme matéria do portal R7 que pode ser lida aqui.

A mídia está usando a decisão de Marcos Cláudio Lula da Silva de devolver um passaporte que afirma que nunca usou como “prova” de que estaria se beneficiando de uma ilegalidade, da qual só abre mão por ter sido “denunciado”. Será uma pena se Marcos fizer isso, pois, apesar da “ameaça” do tucanérrimo Ophir Cavalcante, não existe a menor possibilidade de um processo dessa natureza prosperar sem que venha a tona que há muito gato gordo do setor privado – inclusive da mídia – beneficiado por passaporte diplomático.

Na verdade, o passaporte diplomático não importa em qualquer ônus para a sociedade. Apenas dá regalias àqueles que o Ministério das Relações Exteriores considera que, por projeção social, política, econômica ou cultural, entre outras, devem ter.

As regalias são de trâmites mais rápidos e isentos de maiores constrangimentos nos setores de imigração de outros países. Os passaportes diplomáticos não geram custo de qualquer espécie para os cofres públicos. A concessão deles, historicamente comum no Brasil, só poderia ser questionada com chance de sucesso se um cidadão como qualquer outro o recebesse sem uma explicação tão boa quanto a de ser filho de um ex-presidente da República.

O PT e a presidente Dilma Rousseff cometerão o mesmo erro que cometeram no primeiro turno da campanha eleitoral do ano passado se acharem que podem adotar uma postura fleumática diante dos ataques da mídia confiando em que esses ataques não lhes reverterão em prejuízos políticos. Mas esse é assunto para um outro post, a ser publicado no momento certo.

Tagged as: filhos de Lula, Itamaraty, OAB, Ophir Cavalcante, passaporte diplomático, passaportes diplomáticos

7 de janeiro de 2011

Cromwell da Silva

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Poucas pessoas sabem disso, mas a Inglaterra, por um breve periodo, 1649 a 1653, foi uma república. Os próprios ingleses, durante muito tempo, esforçaram-se por apagar esse fato histórico e anular o valor moral e político de sua principal personalidade. Refiro-me a Oliver Cromwell. Até hoje, o nome suscita ásperas discussões. Populista, ditador, republicano, hipócrita, puritano? Teria sido um grande homem, ou um homem desprezível?

Em 22 de maio de 1840, Thomas Carlyle, o mais brilhante ensaísta de sua época, participou de uma conferência na qual expressou uma opinião surpreendente sobre o nome mais perturbador da história inglesa: Cromwell foi um herói, afirmou. Um herói político.

A conferência era a sexta e última de uma série que o escritor vinha fazendo sobre o papel do herói na cultura ocidental. Carlyle não teve papas na língua. Faz um elogio, bastante ousado para uma época em que as paixões políticas eram incendiárias - e perigosas para quem as incitava -, de uma figura extremamente polêmica. Cromwell, o "rude", o "confuso" Cromwell, "que não sabia falar", que se exprimia com "selvagem profundeza", a "profundeza e a ternura de seus afetos rudes".

É um texto muito bonito, o de Carlyle. Romântico. Bastante confuso também, como se ele, para falar de Cromwell, conhecido por seus intrincados discursos, mesclando uma ardente paixão evangélica e anti-papal a um patriotismo místico, quisesse igualmente usar imagens e metáforas dúbias, complicadas, barrocas, mas sempre comoventes.

Imagino que quando um brasileiro contemporâneo, qualquer brasileiro, lê esse texto, a comparação é inevitável. Lula é nosso Cromwell. Nesse Brasil quase sem heróis, nesse Brasil vira-lata, com sua elite ferozmente autodepreciativa, para a qual o fracasso do país, não apenas em termos econômicos, mas sobretudo em termos políticos, em termos morais, é um imperativo, é uma necessidade, também temos um líder rude, odiado pelas elites e amado pelo povo, que não segue "a liturgia" do cargo que ocupa, e, no entanto, em sua alma, possui a verdadeira nobreza de um estadista. Assim era Cromwell, e Carlyle denuncia a mediocridade, o pensamento de lacaios, dos que almejam apenas enxergar, na pessoa de um rei, as suas vestes, as suas maneiras, ao invés de buscar a nobreza em suas ações, na consequência de seus atos! "O que nós dissemos do criado aplica-se ao cético. Ele não conhece um herói quando o vê. O criado espera encontrar mantos de púrpura, cetros dourados, guardas de corpo e floreados de trombetas; o cético do século XVIII busca as fórmulas regulares e respeitáveis".

Carlyle parece falar aos missivistas do jornal O Globo. Acusa-os de esperteza excessiva, paranóica. Procuram charlatães em toda parte, mas não conseguem reconhecer um homem digno de confiança. "Os ludibriados, na verdade, são muitos: mas de todos os ludibriados, não há nenhum tão fatalmente situado como aquele que vive sob o injustificado terror de ser ludibriado."

"Reconheçamos primeiro o que é verdadeiro, para depois discernirmos o que é falso", afirma o escritor, acrescentando que "só os sinceros podem reconhecer a sinceridade".

Cromwell, o mais admirado e o mais achincalhado dos reis ingleses. Aliás, nem chegou a ser um rei legalmente falando, mas um Lorde Protector, líder máximo do Parlamento, mais poderoso que muitos reis de verdade. Ele, que na guerra civil entre as forças do Parlamento e as forças do Rei, afirmou que, se viesse a lutar frente a frente com o próprio monarca, não hesitaria em matá-lo! E que, poucos anos depois, votou em favor da execução do Rei. E o Rei inglês foi executado!

Sempre tive admiração por esses ingleses que aliam um pragmatismo absoluto a uma paixão ardente. E que tomam decisões inusitadas e corajosas, como o rei que, excomungado pelo Papa, rasgou a Carta de Excomunhão na frente do povo e fundou uma nova religião na Inglaterra! Como os trabalhadores ingleses, com sua história de lutas terríveis, cujas modestas conquistas práticas se contrapunham à vitória esmagadora de sua dignidade! A classe trabalhadora inglesa, uma das mais vilipendiadas em seus primórdios, tornou-se, à mercê de imensas e dolorosas lutas, que em verdade não se iniciaram na revolução industrial, mas atravessaram séculos e séculos, tornou-se uma classe vitoriosa. A maior conquista do trabalhador britânico, afinal, não foi o salário decente, mas sobretudo a altivez política, o orgulho de olhar para sua própria história com o espírito satisfeito: sofremos, lutamos, vencemos!

Alguns anos depois de morto, quando a monarquia é restaurada na Inglaterra, o corpo de Cromwell é exumado, profanado, enforcado e decapitado, em praça pública, com o objetivo de humilhar seus milhões de seguidores, sobretudo as pessoas simples que aprenderam a amar um rei sem realeza, um rei que havia sido lavrador, um rei que, um dia, ao responder à acusação de um adversário no parlamento, de que promovia pessoas rudes a altos cargos militares, falara que "preferia mil vezes lutar ao lado de um soldado em trajes simples mas dotado de coragem e valor verdadeiros do que ao lado de um cavalheiro refinado que era apenas isso: um cavalheiro refinado".

Carlyle argumenta que o herói político, como homem, está sujeito a toda espécie de erros e confusões. As próprias mentiras que se atribuem a Cromwell, diz o escritor, deviam-se ao fato de que todos os partidos se enganaram com ele, porque cada um entendia Cromwell à sua maneira. Isso também me lembrou Lula: todos que procuraram dar-lhe um significado, não em relação ao que ele realmente era e o que veio a ser, mas com base no que eles pensavam que ele deveria ser, enganaram-se redondamente; e em vez de reconhecerem o erro próprio, lançam acusações sobre o personagem que lhes inspirou as fantasias.

Apenas o povo não se enganou com Lula, porque o povo revelou-se muito mais sensato e mais prático do que todos os politizados e intelectuais: o povo não queria o Lula dos sonhos, das utopias, e sim o Lula do cotidiano, das realizações, o Lula pragmático, o fanático pelo bom senso e pelo caminho mais seguro. Essa é a razão do sucesso de Lula, no Brasil e no exterior.

Cromwell teve, contudo, um final melancólico, e um pós-morte vergonhoso, porque cada vitória sua significou também mais ódio acumulado entre seus detratores. A profanação de seu corpo por parte dos monarquistas envergonha, sobretudo, os próprios autores daquele ato, assim como o calunioso artigo de César Benjamin serve apenas para envergonhar o próprio César Benjamin.

A frase de Brecht, de que "infeliz o povo que precisa de heróis", é mais uma dessas citações inócuas, desprovidas de sentido histórico, e o fato de hoje um dramaturgo revolucionário e comunista ser citado por intelectuais da direita apenas corrobora essa confusão. Todos os povos precisaram e precisam de heróis. Os pais são os heróis de seus próprios filhos. Nós somos os heróis de nós mesmos. E os heróis do povo, não nos esqueçamos, são respeitados por suas qualidades, mas amados, verdadeiramente amados, por seus defeitos.

2 de janeiro de 2011

Azenha: A torcida anti-Lula continua

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por Luiz Carlos Azenha, no VioMundo.

Eles não descansam nunca. Primeiro, lá atrás, bem antes da eleição, eles diziam assim: Lula não fez nada, apenas não mexeu no governo Fernando Henrique que, para todos os efeitos, continua. Ou: Lula teve sorte, pegou uma conjuntura internacional favorável e apenas surfou nela (pré-crise econômica mundial). Mas os argumentos para desmerecer Lula e seu governo não pararam por aí. Lula não redistribuiu renda, apenas “transferiu” renda do governo para os mais pobres (este é o favorito da esquerda que a direita ama).

Depois que Lula escolheu Dilma, os argumentos passaram a ser: quem é este poste? O poste não dá conta. O poste não vence eleição. Vejam o caso do Chile, o poder de transferência de votos de Lula é limitado.

Com Dilma eleita, mudou o disco: não existe governo Dilma, Lula dá muito palpite, Lula está indicando ministro, ainda não ouvimos a voz de Dilma.

Com Dilma empossada, agora o disco é: Lula não consegue deixar o palácio, Lula não consegue se aposentar, Lula quer voltar em 2014. O objetivo, neste momento, é óbvio: tirar Lula do jogo político para enfraquecer Dilma.

Se um presidente fracassado como FHC continua na política, por que Lula se aposentaria?

Nassif analisa era Lula - 2

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Por Luis Nassif, em seu blog.

No primeiro post de avaliação do governo Lula (clique aqui), houve um bom comentário da Cláudia Stefani (clique aqui) sobre o conceito de "oportunidade perdida". Dizia ela que esse conceito não é bem aceito pela historiografia devido ao fato de que as oportunidades acabam dependendo das circunstâncias do momento histórico. Se existem as circunstâncias adequadas, as oportunidades se realizam. Se não existem, não adianta reescrever a história no condicional.

Ela respondia a um artigo onde eu lembrava "oportunidades perdidas" que menciono no livro "Os Cabeças de Planilha": uma, no início da República, outra na segunda metade dos anos 60; a terceira, e maior, na partida do Real. Nos três momentos, perdeu-se a oportunidade de criar um mercado de massas, capaz de lançar o país em uma nova dinâmica de desenvolvimento.

Para Cláudia, na virada da República a não inclusão social dos libertos – um dos fatores que levaram à perda da oportunidade, segundo entendo –, se deveu ao fato de que a jovem República tinha outras prioridades. As circunstâncias culturais da época não permitiam às elites aceitarem ex-escravos nem colocar a inclusão como prioridade. A vizinha Argentina recorreu ao "branqueamento" da raça através de medidas radicais. O Brasil contemporizou, deixando de lado, não incluindo. Assim, mesmo a não inclusão dos libertos teria sido um avanço, do lado brasileiro, em relação ao argentino.

É uma discussão antiga, mas sempre uma boa discussão, especialmente quando amparada em argumentos sólidos e bem colocados como os da Cláudia.

Mesmo assim, discordo. Se as circunstâncias sempre se impusessem sobre os personagens, a rigor não haveria diferenciação entre os governantes: todos seriam guiados pelas circunstâncias. Não haveria a figura do Estadista, o homem que consegue enxergar o caminho e colocar o país na nova rota, aproveitando melhor as circunstâncias do que o não-estadista. Ou seja, as circunstâncias existem para todos, mas apenas alguns conseguem realizar o futuro.

Na época da Proclamação da República, as circunstâncias permitiram o aparecimento de um pensamento diferenciado de Joaquim Nabuco e André Rebouças, das teorias anti-raciais de Manoel Bonfim, mas não foi o suficiente. O país não estaria preparado ou foi vítima de um acúmulo de opções erradas, culminando com as malandragens do Ministro da Fazenda Rui Barbosa, que levaram ao "encilhamento"?

Ora, havia uma febre de industrialização, uma reorganização da poupança, as experiências (ainda que incipientes) de criação de um mercado de capitais. A bandeira industrialista se impunham trazida pelos ares de renovação da República. Não fosse a tragédia do encilhamento – fruto de escolhas erradas de Rui Barbosa, movidas por interesses menores - , consolidar-se-ia o novo modelo econômico, que – a exemplo dos Estados Unidos de 50 anos antes – teria necessidade de ampliar o mercado de consumo de massa criando uma nova dinâmica. Os erros levaram a quatro décadas de estagnação.

Mesmo no caso vizinho da Argentina, o que diferenciaria a elite visionária de fins do século 19, das sucessivas gerações que, ao longo do século 20, dissiparam todo o potencial acumulado do país?

Segundo Cláudia, o "branqueamento" proposta pela elite argentina visava emular os países europeus. Mas a mesma elite que queria o "branqueamento" – estimulou a vinda dos "olhos azuis", acabaram chegando turquinhos e quetais – também tornou obrigatório o ensino básico e abriu as escolas públicas aos imigrantes que chegavam, embora lhes negasse a posse da terra. Unificou a Argentina, permitindo que o potencial de recursos financeiros e humanos de Buenos Aires se estendesse para outras regiões.

Enxergou a tomada dos pampas e aproveitou as oportunidades abertas pelas novas tecnologias – tanto na produção quanto no resfriamento da carne para exportação para a Europa – para tornar a Argentina a quarta ou quinta economia do mundo e a primeira, no Novo Mundo, a abolir a miséria absoluta.

Implementar seu plano, superar o pesado regionalismo argentino, obrigar Buenos Aires a abrir mão da exclusividade sobre os recursos da alfândega foi um trabalho ciclópico que dependeu de um conjunto de opções e decisões bem sucedidas. Como imaginar que um trabalho de tal complexidade teria o mesmo resultado, independentemente de que estivesse na sua implementação? Após esses 15 anos, Buenos Aires continuou querendo ser Europa, mas as novas elites perderam totalmente o fio da meda que conduziria o futuro.

Deixemos a Argentina de lado. Temos a história passando na nossa frente aqui no Brasil, em tempo real, para conferir o papel dos governantes e suas circunstâncias.

Física e ciências sociais

E aí seria interessante se os cientistas sociais, analistas políticos e economistas fossem buscar na física maneiras diferentes de entender a dinâmica social.

Em geral tendem a ver essa dinâmica como um "processo", algo cumulativo que pode se acelerar mais ou menos de acordo com as circunstâncias, mas sempre seguindo uma linearidade, uma continuidade.

Nessas análises, não conseguem ser encaixados os momentos de ruptura, que podem lançar um país em um novo patamar de desenvolvimento ou levar uma nação ao suicídio. Para eles, tudo é linear, como a máquina de prever o futuro de Monteiro Lobato no livro "O presidente negro". Futuro = passado + presente; se tenho o passado e o presente, posso projetar o futuro.

Não é bem assim. Todas as circunstâncias que projetam o desenvolvimento podem estar presentes em um país. Mas o desenvolvimento só se realiza em sua plenitude quando aparece o Estadista (uma pessoa ou um grupo de visão diferenciada) que junta os ingredientes, enxerga o todo, faz as escolhas corretas e, principalmente, monta a estratégia política que permitirá o nascimento do novo (que, por ser novo, não tem influência) sobre o antigo (que, embora decadente, mantém o poder).

Cabe a ele juntar as partes e mostrar o novo todo. Quando as partes conseguem se enxergar como parte de um conjunto maior, cria-se uma sinergia nova, uma nova dinâmica fundamentalmente diferente do momento anterior, quando as partes existiam mas de forma independente e descosturada.

O caso chinês é exemplar. Antes, houve o investimento em educação, a inclusão social inicial que tirou bilhões da miséria absoluta, a superação da "revolução cultural", a experiência capitalista de Hong Kong.

Nenhum historiador ousaria afirmar que a dinâmica da sociedade chinesa nas duas últimas décadas obedeceu a uma linearidade em relação aos períodos anteriores. O país aproveitou cada circunstância desenvolvida nos períodos anteriores, mas quando os dirigentes chineses juntaram todas as circunstâncias em torno de um plano estratégico e de um objetivo claro de desenvolvimento, mudou o patamar.

É totalmente diferente, é um crescimento exponencial, com todas as forças do país unificadas pelo projeto maior de desenvolvimento nacional. E esse modelo foi montado em cima de decisões, de escolhas. O nacionalismo chinês poderia ter levado o governo a uma posição xenófoba em relação às empresas estrangeiras; ou a uma posição subserviente. A escolha foi atrair as empresas de fora, oferecer a possibilidade de participar dos ganhos do novo mercado que se formava, da mão de obra, do câmbio. Mas, em contrapartida, transferir tecnologia, montar parcerias com empresas chinesas.

Em 1994 – como mostro em meu livro – China e Brasil eram as bolas da vez dos investimentos internacionais, em um momento em que as multinacionais redefiniam radicalmente sua lógica de investimento.

A China negociou corretamente seu mercado interno. O Brasil implementou uma abertura financeira equivocada que provocou 12 anos de estagnação. Um foi vitoriosa, outra derrotada. As circunstâncias na época não permitiriam a FHC adotar decisões corretas? Claro que sim. Dispunha da popularidade de ter vencido a inflação, os melhores quadros técnicos do país, a visão do potencial do mercado de massas que se formaria dali pela frente. Jogou tudo pela janela para garantir, com o câmbio controlado, o fortalecimento de grandes grupos financeiros que garantiriam o futuro político do partido e uma vida de riqueza para os implementadores do modelo.

Supor que as circunstâncias definem per si o modelo é ignorar a existência de linhas alternativas, que permitem a escolha; que escolhas certas levam ao desenvolvimento; que escolhas erradas levam ao desastre.

Por si, as circunstâncias não moldam uma trajetória previsível. Nos momentos de ruptura, o futuro ainda não foi desenhado, há uma balbúrdia, a mistura do bolo ainda não é clara. O futuro do país dependerá, então, da capacidade de acerto ou de erro dos governantes nas suas decisões.

Se não fosse assim, a Irlanda dos anos 90 não teria perdido o bonde no final dos anos 2000. Nem Portugal, que conseguiu um enorme salto nos anos 90 graças à União Europeia mas também aos acertos das medidas implementadas na época, em torno de uma visão de futuro clara –que esmaeceu nos últimos anos.

Lula e suas circunstâncias

As circunstâncias que levaram o Brasil ao salto dos últimos anos já estavam presentes desde fins dos anos 90, algumas plantadas nos anos 80 ainda no governo Figueiredo, outras ganhando expressão nos dois fatos políticos mais relevantes do período: a Constituição de 1988 e o primeiro ano do governo Collor.

No meu "Os Cabeças de Planilha" faço uma síntese dessas ideias-força, desses "fatores portadores de futuro", – na denominação dos estrategistas políticos.

Relaciono os diversos grupos de conhecimento acumulados nas últimas décadas – de saúde, gestão, inovação, políticas sociais -, os avanços institucionais – mercado de capitais, multinacionais brasileiras, as cadeias produtivas, o sistema de apoio às pequenas e micro empresas -, a nova diplomacia que se desenhava, a recuperação da autoestima, dos valores culturais nacionais. Previa que todas essas circunstâncias levariam a um novo modelo assim que houvesse a ruptura trazida pela crise final do neoliberalismo (o livro foi lançado em 2005, em cima de artigos publicados nos anos anteriores e a crise prevista aconteceu em 2008). E dizia que esse potencial somente se realizaria quando, junto com a crise, aparecesse o Estadista capaz de mostrar o todo, colocar os grupos lado a lado e passar a ideia de Nação, do todo.

Jamais supus que, poucos anos depois, do Lula confuso do primeiro mandato emergisse o Estadista do segundo mandato.

A crise de 2008, de fato, permitiu romper o círculo de ferro que amarrava o futuro ao passado. Mais à frente me permito analisar alguns "se" em relação à crise. A crise abriu espaço para o novo modelo. Mas o resultado final dependeu das escolhas feitas no período.

Com FHC, as escolhas teriam sido outras e os resultados completamente diversos.

Esse capítulo foi uma espécie de adendo ao primeiro, tentando responder às boas colocações da Cláudia e explicitar melhor a maneira como entendo o papel de Lula na construção dessa nova etapa.

Sobre isso, falarei mais adiante.

Leia mais:

Balanço de Lula 1: a criação de um mercado de massas

Comentário de Cláudia Stefani

Nassif analisa era Lula - 1

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(Foto: Ricardo Stuckert)

Balanço de Lula 1: a criação do mercado de massa

Por Luis Nassif, em seu blog.

A grande discussão acadêmica do momento é se o governo Lula inaugurou uma nova era – ao consolidar uma economia de massa – ou se foi uma continuidade do governo FHC.

O divisor de águas é a formação da sociedade de massas, com a inclusão econômica e política, definindo uma nova etapa no desenvolvimento brasileiro, um novo paradigma para as políticas públicas.

Na primeira metade dos anos 2000 escrevi um conjunto de artigos explorando esse tema – e que acabaram se constituindo na espinha dorsal do meu livro "Os Cabeças de Planilha".

Não é um livro de historiador. É um livro de jornalista com alguns "insights" que, creio eu, só agora estão tendo desdobramentos junto ao mundo acadêmico. Um deles, o da reavaliação do "encilhamento", ainda não foi suficientemente cinzelado pela Academia, especialmente a estratégia política em torno da remonetização (introdução de um novo padrão monetário) da economia – que seria seguida no Plano Real. Há bons livros analisando os erros, mas nenhum casando os erros com a estratégia de tomada de poder por parte de Rui Barbosa - que serviu de base para o modelo desenhado por Gustavo Franco para o Real.

O ponto que, agora, domina o debate acadêmico – graças aos estudos do André Singer – é o do impacto político e econômico da formação de uma economia de massa. Já tinha delineado no meu livro.

No "Cabeças de Planilha" trabalho o conceito de "janelas de oportunidade" na vida dos países, aqueles momentos únicos que, sendo aproveitados, lançam o país em um novo patamar; não sendo aproveitados, entram na cota do desperdício histórico.

Identifico três janelas na história do país, todas elas relacionadas com a possibilidade de ampliação dos mercados econômico e político, através da inclusão de novas massas - o mesmo conceito aprofundado por Singer para analisar o governo Lula.

A primeira, o período da Proclamação, onde se junta a Abolição e a política de atração de imigrantes. Ali se poderia ter dado o primeiro grande salto na criação de uma sociedade moderna. Morreu devido aos erros do Encilhamento, à falta de políticas públicas que ajudassem na inclusão dos libertos, e as enormes dificuldades colocados no caminho dos imigrantes. Em vez de um salto, criaram-se as bases para a vergonhoso concentração de renda que dominaria o século 20. Enfim, havia falta de elite.

A segunda grande janela se deu na segunda metade dos anos 60. O processo de industrialização ganhara fôlego, tivera início o grande movimento de urbanização, acelerado pela seca no nordeste. A falta de uma política agrária, de fixação do homem no campo, a carência de investimentos nos sistemas de educação e saúde, em vez de um salto no mercado trouxeram o inchaço das grandes metrópoles. Quando esgotou-se o modelo exportador e o salto do "milagre", não havia mercado interno para sustentar o crescimento.

A terceira janela de oportunidade desperdiçada – dizia eu no livro – foi justamente o Plano Real.

Em geral abre-se a oportunidade de grandes movimentos de mobilidade social ou em eventos políticos traumáticos (como na Proclamação) ou em grandes desastres geográficos.

Com o Real, FHC recebeu o prato pronto, de presente. O fim da inflação trouxe para o mercado de consumo milhões de brasileiros, sem traumas políticos, sem tragédias ambientais. E isso em um momento de grande reorganização da estrutura das multinacionais, com o Brasil despontando como um dos países sede das unidades produtivas.

Esse movimento foi abortado porque inclusão social, criação de bases sólidas econômicas, nunca fizeram parte das prioridades de FHC. E essa história de que primeiro precisaria consolidar a estabilidade monetária não resiste aos fatos.

Têm estudos de Edmar Bacha, no primeiro semestre de 1995, admitindo que a luta contra a inflação já tinha sido completada e que, agora, seria o desenvolvimento. Impôs-se a estratégia de criação de grandes grupos financeiros à custa da apreciação do real. O contraponto tímido - de pessoas como Luiz Carlos Bresser Pereira e José Serra - se dava no campo do desenvolvimentismo tradicional, jamais na ampliação de políticas sociais como base para um novo mercado de massas.

Os poucos avanços que ocorrerem em educação e saúde foram decorrência exclusiva da Constituinte, que criou transferências obrigatórias para o setor. Durante toda sua gestão, o Ministro Pedro Malan tentou acabar com a vinculação.

Digo isso para salientar que é falsa a ideia de continuidade entre FHC e Lula na criação desse mercado de massa. E de que consumou-se com Lula porque as condições sociais e políticas impuseram-se por si próprias.

FHC jamais implementaria esse modelo, em nenhuma circunstância, porque não fazia parte de suas prioridades. Aliás, quem leu a entrevista com ele, com que fecho meu livro, perceberá uma absoluta ignorância de FHC em relação a pontos essenciais desse novo modelo, que o livro percebia latente, mas que só se materializou nos últimos anos. Sua única visão de país consistia na geração de grandes grupos financeiros, internacionalizados, que avançariam levando o país consigo.

Assim, considero correta a avaliação de que a grande marca de Lula, que mudou o Brasil no plano econômico, político, regional, foi o da criação do enorme mercado de massa, político e econômico. Esse é o divisor de águas, a mudança de paradigma.

Volto a falar do tema nos próximos capítulos.