Ontem assisti minha primeira aula de Filosofia Política na Universidade de Yale, uma das mais caras e prestigiadas do mundo. Não, não ganhei uma bolsa. Entrei no site Open Culture. Estou dizendo isso aqui para convidá-los a assistir comigo. É em inglês, claro, mas visto que vem com a transcrição, é possível seguir o curso mesmo não sendo fluente na língua, além de ser uma excelente maneira de praticá-la. Talvez algum de vocês se interesse, então explico como faço.
A página inicial do Curso é esta. Guarde-a em seus favoritos.
Eu faço assim: abro duas páginas no navegador. Uma com o texto transcrito da aula, outra com o vídeo do professor (entre nessa página e clique no link abaixo do vídeo) falando. Minimizo os dois e os ponho lado a lado. Interessante também abrir uma terceira página, com um dicionário de inglês-português.
O primeiro livro indicado para acompanhar o curso, e que já estou lendo (na verdade relendo pela terceira vez), é Apologia de Sócrates.
Ah, o curso é grátis. Fiquem alertas também para o fato de Yale ser a universade dos republicanos, por excelência. Lá foi onde estudaram as figuras mais conservadoras da política norte-americana. Mas, para mim, isso a torna ainda mais interessante, porque acho fundamental que a gente saiba como pensam nossos adversários.
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1 de outubro de 2011
Curso de Filosofia Política em Yale
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Miguel do Rosário
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sábado, outubro 01, 2011
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5 de agosto de 2011
Notas antipreguiça
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(Eugene Delacroix)
A substituição de Nelson Jobim por Celso Amorim balançou minha decisão de não escrever sobre política por uns tempos. O fato incendiou a blogosfera, que odiava Jobim (com razão) e ama Amorim, com mais razão ainda, pois foi um dos melhores chanceleres da nossa história, e um dos melhores do mundo, segundo a prestigiada revista Foreign Policy, especializada em política internacional.
Jobim, na verdade, "pediu para sair", após uma sequência de declarações estapafúrdias, desrespeitosas, provocadoras. Diferentemente do grande Vargas, porém, Jobim não sai da vida nem entra na história. Ele sai do governo para engrossar as fileiras da oposição.
Quando a presidenta formou seu ministério e fiquei sabendo da permanência de Jobim, eu cogitei que a decisão servia a nova estratégia do governo de suavizar um pouco a imagem de anti-americano. O Brasil havia saído de um confortável superávit comercial com os EUA para um pesado déficit. Ou seja, durante a era Lula, as exportações brasileiras para os EUA estagnaram-se - e as exportações deles para nosotros explodiram, e conhecendo a mentalidade fanática dos americanos, é possível que a política externa independente do governo tenha contribuído para esse quadro negativo.
A solução, naturalmente, não é baixar a guarda nem mudar a nossa nova postura de altivez diplomática. Mas Lula não recebeu e abraçou George Bush em 2003, no ano seguinte à invasão ao Iraque, por amor aos ianques nem interessa ao povo brasileiro esnobar o mercado americano por proselitismo ideológico.
A soberania e altivez política dos novos tempos incluem pôr de lado nossos complexos de inferioridade e sermos tão pragmáticos quanto os americanos e os chineses. O Brasil vê uma luz no fim do túnel, mas o túnel é muito comprido, e possivelmente ainda temos uns vinte anos pela frente de luta árdua para chegarmos perto dos EUA e Europa em termos de justiça social, avanços tecnológicos, educação pública e qualidade de vida, mesmo eles vivendo hoje uma crise. Talvez mais de vinte anos...
Não gosto da frase "pragmatismo tem limite". Acho que não tem sentido lógico, e reflete na verdade esse iberismo romântico e retrógrado que tão mal fez aos países latinos e a seus povos. É um lugar comum idiota. Não é que pragmatismo tenha limite, mas sim que ele não significa bater a cabeça contra a parede. Muito pelo contrário. A afirmação parte do pressuposto, algo trêmulo e inseguro, de que o pragmatismo é uma virtude pró-conservadora. Nada a ver. Não há nada mais pragmático do que a luta de classes, e se há condições históricas para a deflagração de um processo revolucionário, então o mais pragmático é fazer a revolução.
Dilma chamar Celso Amorim para o ministério da Defesa, por exemplo, foi pragmático.
Entrar numa reunião de sindicalistas e pedir desculpas pelo erro - grosseiro - de não ter criado um canal de diálogo entre governo e centrais sindicais para discutir o pacote de incentivos à indústria nacional, foi... pragmático.
Por outro lado, há uma série de coisas aparentemente bizarras que, no entanto, revelam-se pragmáticas ao longo da história. Bob Marley era um sonhador que fumava dois quilos de maconha por mês e escrevia canções. Hoje o seu nome vale mais do que o PIB da Jamaica. O que é mesmo ser pragmático?
Eu tenho a impressão, além disso, que o pós-modernismo (o supra-sumo do antipragmatismo ocioso e reacionário) não passou de uma revolução charlatã. Todos aqueles filósofos franceses e americanos, estruturalistas ou pós-estruturalistas ou coisa que o valha, a começar por Deleuze, são uns charlatães sem caráter (embora com um talento incrível para engambelar os outros) e deram início a uma tradição de charlatanismo nas universidades que tomou proporções épicas. Foi como um anti-renascimento. Uma volta à escolástica.
O que me trouxe grande alívio, e fez-me recuperar o humor e a auto-estima, foi saber que Immanuel Kant criou a filosofia moderna após confessar, a si mesmo e aos outros, que simplesmente não conseguia entender a ladainha dos pensadores da idade média.
Estou tentando estudar ciência política e desasnar-me. Há questões que me intrigam. Por exemplo: quais são os limites entre um texto de análise política e outro que visa fazer pressão política? Se um texto analítico, mesmo sem aparentar fazer nenhuma pressão, gera consequências mais positivas (no sentido progressista, ou revolucionário, se quiser), ele não também é um documento de pressão política? E mais eficiente, certo?
Qual o valor moral de um ato bem intencionado que gera danos ao bem comum? Em outras palavras: um blogueiro supostamente revolucionário que só escreve asneiras, clichês irritantes, embora repleto de boas intenções, tem valor revolucionário real?
Enfim, resolvi fazer - por diversão (olha que blasé me tornei!) - uma prova para um curso de mestrado em ciência política. Não sei se vai dar tempo para ler aqueles livros todos: Weber, Faoro, etc. Já comecei contudo a ler um livrinho do qual sempre ouvi falar, Coronelismo, Enxada e Voto, do Victor Nunes Leal. É um pouco chato e repetitivo tanto jurisdiquês sobre a luta dos municípios brasileiros por mais autonomia política. Mas é um aula e tanto de história.
Terminei de ler um clássico, A Cultura do Renascimento na Itália, estou na metade do Antigo Regime e Revolução Francesa, do Tocqueville e avancei bastante num calhamaço do Jacques Le Goff, A Civilização do Ocidente Medieval.
Digo isso para lhes mostrar que o blogueiro está mais ativo do que nunca, mesmo que não escreva tanto, e também por vaidade, pois em se tratando de livros, sou um vaidoso convicto e satisfeito. Gosto de falar dos livros que leio, discuti-los, analisá-los, comparar suas teorias aos tempos de hoje. E observando as vicissitudes e tragédias da história, antiga e contemporânea, com todo seu rol de tiranos sádicos e truculentos, não posso deixar de olhar para nossa democracia com invencível ternura.
No entanto, meu otimismo babão quase trincou semana passada, quando levei minha esposa a uma reunião de trabalho em Bonsucesso, numa gráfica. Saímos da Avenida Brasil, entramos por algumas ruas principais da zona norte e daí viramos à direita, passando por uma pequena, feia e semi-destruída passagem subterrânea chamada Buraco do Lacerda. Daí em diante, vi-me num filme do pós-guerra alemão. Escombros e lixos diante das casas. Calçadas em ruínas. Edifícios e sobrados caindo aos pedaços. Hordas de crianças viciadas em crack vagando nas ruas. Algumas com olhar assassino, segurando pedras. Na rua da gráfica, vimos uma cena dantesca. Dez garotos sentados no meio-fio, vestindo farrapos, sujos, olhos vidrados, fumando crack.
Eu conheço bem a cidade inteira, periferia, favelas, zona norte e oeste. Mesmo assim aquilo me impressionou terrivelmente . O Rio de Janeiro vive uma crise urbana e social muito grave! Como pode? Uma das cidades mais ricas da América Latina, hoje capital do estado que mais produz petróleo no país, abrigar bairros completamente abandonados pelo poder público? O que me espanta mais é que não são regiões economicamente falidas. São bairros economicamente vivos, com empresas, pequenas e médias indústrias, gráficas, lojas, supermercados, e densamente povoados.
Acho que essa situação apenas irá se resolver quando tivermos um prefeito que adote decisões realmente revolucionárias. Talvez realizar uma divisão autêntica da cidade em zonas administrativas e dar dinheiro e poder para o administrador de cada zona fazer as mudanças e reformas necessários. Provavelmente, minha ideia é um tanto utópica e ingênua, afinal é sempre fácil falar e fazer revoluções no teclado de um notebook.
Seja como for, eu até que estou satisfeito com os governos locais da cidade. Pelo menos, se compararmos ao que tínhamos antes, Garotinho e César Maia, já temos um avanço e tanto. O Eduardo Paes, tirando a sua decisão destrambelhada de começar o governo fazendo um "choque de ordem" que não passou de uma perseguição covarde aos vendedores ambulantes, até que está fazendo um governo razoável, sobretudo em virtude de seu bom relacionamento com as instâncias estadual e federal. Tudo dando certo, o centro histórico do Rio passará por uma transformação incrível. Os cariocas, como bons cosmopolitas, mesclam esperança, cinismo, desconfiança, fé e desencanto. Todos reclamam da ladroagem no governo; aguardam, resignados, sarcásticos, os desvios de verba pública que as obras da Copa e Olimpíadas irão provocar; mas estão otimistas. Os bares continuam cheios e a maioria evita conversar sobre política - com exceção de algumas observações óbvias sobre escândalos de corrupção.
Em suma, tudo que eu não quero é ver a blogosfera converter-se numa caixinha de reclamações e achar que essa é a melhor maneira de fazer política. Por outro lado, não pretendo, em absoluto, desvalorizar a importância dos movimentos sociais e seu modus operandis, que é justamente... protestar. Procuro fugir também do partidarismo e, por incrível que pareça (depois de tudo que escrevi aqui contra a teoria da imparcialidade), ser... imparcial. Por exemplo, é importante que a esquerda tenha a humildade de agradecer ao governador Sérgio Cabral por ter tido a coragem que quase nenhum político petista teve: propor, defender e festejar a aprovação do casamento gay, mesmo com todos os riscos eleitorais que isso implica num estado fortemente evangélico como o Rio de Janeiro.
Quanto à Dilma, evitarei falar dela por enquanto. Deixemo-la apanhar, aprender, errar, corrigir-se. O importante, para mim, é analisar o processo político como um todo, sem esquecer o principal: as transformações econômicas e sociais. O desemprego atingiu seu patamar mais baixo na história, e isso seguramente se reflete no estado de espírito do país, inoculando confiança e auto-estima na população, que se sente mais estimulada para estudar, especializar-se, crescer profissionalmente.
Sou da opinião que o tempo, agora, é de esperar menos do governo e trabalhar duro (sendo que, às vezes, passar uma tarde na praia, lendo um livro, é também "trabalhar duro"). Sou a favor de um Estado forte e tenho uma série de ideias socialistas sobre a participação do setor público na sociedade, mas entendo igualmente que o governo é uma instituição totalmente inútil sem a criatividade, o empreendedorismo e o empenho profissional de seus cidadãos.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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sexta-feira, agosto 05, 2011
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15 de dezembro de 2010
Chomsky: 10 estratégias de manipulação midiática
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Por Noam Chomsky
1. A estratégia da distração.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
2. Criar problemas e depois oferecer soluções.
Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.
3. A estratégia da gradualidade.
Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4. A estratégia de diferir.
Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade.
A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “A e alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico
6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”).
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.
Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.
9. Reforçar a autoculpabilidade.
Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!
10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.
No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.
* Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts
** Colaboração do Centro de Estudos Políticos Econômicos e Culturais
CEPEC para o EcoDebate, 07/12/2010
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Miguel do Rosário
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quarta-feira, dezembro 15, 2010
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5 de dezembro de 2010
O poema de Gutemberg
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Meus caros, esse é mais um livro-blog, com um ensaio bem legal que eu escrevi sobre filosofia de comunicação de massa, inspirado no Leviatã, de Thomas Hobbes. Vou vendê-lo a um custo bem barrratinho. R$ 5,00. Se fosse um livro normal, acho que daria umas 80 páginas, e se trata de um trabalho que faz um análise bem pertinente aos dias atuais.
Para adquirir, é só clicar no botão abaixo, daí eu cadastro pra você poder acessar o livro-blog. Só tem uma restriçãozinha, que ainda não consegui resolver. Para ler tem que ter um email do Gmail. Não se preocupe em me enviar email com comprovante porque o Pay Pal faz isso automaticamente.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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domingo, dezembro 05, 2010
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17 de novembro de 2010
Fugindo do tédio
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(Outra foto da Resende).
Tento ler os jornais, mas não vou muito longe. Os assuntos parecem repetir-se. A mesma guerrinha de sempre. Ontem, papeei com um amigo sobre os assuntos do dia, sobretudo o surto de racismo & regionalismo observado no período pós-eleitoral. Esta semana, parei de ler uma coluna no segundo parágrafo, quando o autor afirmou não suportar aeroportos porque pareciam uma extensão do churrasco na laje. Se fosse uma piada, tudo bem. Não era. O cara falava à sério.
São atitudes que merecem um desprezo profundo. O que fazer? São lamentáveis e tristes, em alguns casos até trágicas (como o espancamento de gays em São Paulo); marginais, porém. Não creio (ou não quero crer) que refletem nova força racista emergindo na sociedade.
Uma amiga namora um rapaz que conseguiu convites para assistir ao GP de Fórmula I em São Paulo. Ela contou-me, há poucos dias, que ela e o namorado foram várias vezes agredidos, verbalmente e com chuva de objetos, por grupos de jovens. Gratuitamente. Ela relatou, impressionada, que o ingresso custava R$ 600 e os rapazes tinham todos aparência de estudarem em bons colégios e terem uma vida confortável. Esse é o jovem paulistano que estuda em colégio particular e votou em Serra.
Quer dizer, ainda existe, claro, racismo e preconceito na sociedade brasileira. Só mesmo o Ali Kamel - talvez por ter atravessado a juventude protagonizando filmes eróticos, em vez de estudar - que não vê. Mas não acredito que tenha aumentado em relação ao período anterior (ao contrário do que vemos nos EUA e Europa, onde há, de fato, recrudescimento do racismo e xenofobia).
Há, por outro lado, como vemos nesse patético artigo do Pondé, que prefiro nem linkar, uma irritação com a derrota sofrida pelo partido da mídia e das elites. Natural. A maneira como essa irritação tem sido externada, porém, serve apenas para ilustrar porque perderam. E desmoraliza ainda mais o conservadorismo brasileiro, que assume ares melancolicamente terceiromundistas.
O que não podemos fazer, entretanto, é subestimar o poder midiático de construir consensos. Essa é uma das principais lições do grande Noam Chomsky. Quando se põe humoristas, chargistas, colunistas, historiadores, âncoras de tv, todos para afirmar a mesma cosia, é muito difícil, mesmo para um intelectual, fugir da rede armada para capturar as consciências.
Porque uma coisa é o talento, outra a consciência política. É tristemente comum, não só no Brasil e não só hoje, vermos pessoas extremamente talentosas mas desprovidas completamente de senso político. Heidegger, um dos maiores filósofos da modernidade, destacando-se inclusive com um pensamento do tipo progressista, apoiou o nazismo.
E pensando bem, não adianta culpar ninguém.
Por isso gosto tanto do Hegel, porque um dos pontos importantes de sua filosofia da história é não julgar açodadamente nenhum indivíduo ou grupo, visto que os mesmos muitas vezes sequer tem consciência do papel que representam.
Essa menina, por exemplo, Mayara Petruso. Uma boba, que de repente viu-se no meio de um furacão, condenada pela OAB, servindo de bode expiatório num processo onde os verdadeiros culpados eram os meios de comunicação. Claro, ela é maior de idade e responsável por seus atos... mas isso é uma interpretação fria das coisas.
Enfim, a gente dá umas voltas por aí e acaba sempre, ao final do rolé, batendo a cabeça contra a mídia, que se torna como que a origem de todos os males... Afinal, os governos, mesmo os mais ruins, sempre podem ser derrotados nas urnas, ou mediados por um legislativo crítico. A imprensa tornou-se o único poder público que ainda é hereditário e livre das amarras republicanas. Sem contar que há uma contradição gritante no processo de redemocratização: os profissionais que se sentiram prejudicados pela ditadura tem recebido polpudas indenizações e pensões do Estado brasileiro (que tem mais é que pagar mesmo), e ao mesmo tempo toda a sociedade, que também foi vítima, não recebe nada; pior, os jornais que açularam o golpe e que beneficiaram-se enormemente dele (de várias formas, inclusive pelo fechamento de seus concorrentes), sequer pediram desculpas pelo que fizeram. Não pediram desculpas e este ano ainda repetiram os mesmos bordões usados contra João Goulart em 1964.
A história é um todo orgânico, e os contrastes existentes numa sociedade são a própria vida desta sociedade, são eles que a fazem avançar. Marx usaria essa fórmula para viajar em suas teorias de revolução (que se revelaram, apesar de tudo, acertadas; as revoluções aconteceram; falar que o comunismo morreu é simplesmente ignorar a China). Há uma força histórica (o Espírito da história) que ultrapassa a compreensão humana e mesmo as tragédias e vicissitudes são assimiladas por ela, e convertidas posteriormente em etapas para o autoconhecimento do mundo. Pessoas e países ignoram o seu próprio papel na história.
"A crítica subjetiva que apenas visa o particular e seus defeitos, sem aí reconhecer a Razão Universal, é coisa fácil; ela autoriza todas as fanfarronadas de exibicionismo, na medida em que ela confere, com ares de generosidade, a segurança da devoção ao bem geral", diz Hegel, em A razão na história.
As pessoas condenam o bolchevismo, o código florestal, o nordestino pobre, a Katia Abreu, muito seguras de que estão dando uma grande contribuição à sociedade. E talvez estejam mesmo, mas não da forma que elas pensam. Vide o caso Mayara: ela contribuiu para trazer luz ao racismo que existe concretamente em São Paulo e outras partes do Brasil, ligado à política, mas que ficava enrustido. A emoção da derrota, enfurecendo a cobra, fê-la cometer um erro: mostrar-se. Só assim podemos decepar sua cabeça. Ela fez um bem, e deveria, ao invés de ser crucificada, receber um tratamento, na mesma filosofia com que tratamos os viciados em crack. Taí, o mundo midiático se tornou uma grande crackolândia...
A natureza busca o equilíbrio, o qual se dá através da luta. A postura golpista da mídia brasileira ajudou a construir uma enorme massa crítica, ou seja, acendeu um alerta que ainda é tímido no mundo: numa sociedade globalizada, o poder midiático multiplicou-se e atingiu um patamar inédito, incontrolável, perigoso. O princípio do poder numa democracia emana do povo, e somente do povo; se há um setor corporativo que lida diretamente com o poder, como é a mídia, mas à diferença dos outros poderes, não é regulado democraticamente, temos um problema. Ah, pode-se dizer que o mercado faz o papel de povo, porque as pessoas decidem se assistem ou não determinado canal de TV, ou lêem ou não determinado jornal. Certo. Mas se pensarmos assim, imporemos a lei do mais forte. Com um agravante: sabemos muito bem qual foi a academia onde as empresas brasileiras de comunicação formaram seus músculos. Na academia militar...
Como eu dizia, no entanto, a natureza procura o equilíbiro e cumpre ao Estado proteger essa tendência. Por isso, as verbas de publicidade estatal, hoje, representam um forte fator de injustiça. Ou não dá para ninguém, ou dá para todo mundo. A partir do momento em que eu, como blogueiro, assumo um papel de mediador e uma função de importância pública, não entendo e não quero aceitar que a revista Veja e, por conseguinte, os colunistas e os blogueiros da Veja, recebam ajuda do contribuinte brasileiro (e logo de mim mesmo!) e eu continue a ver navios.
Aos poucos vou desenferrujando e voltando a escrever...
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quarta-feira, novembro 17, 2010
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15 de novembro de 2010
Les temps libres
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Ah, a paz finalmente. Missão cumprida! Dilma eleita, traduções feitas, blog novo.
Escutando música clássica na Rádio Mec, pensando na vida, revezando entre um suspense trash-cult e filosofia alemã, provocando polêmicas no twitter (como defender Aldo Rebelo, o novo código florestal e, por tabela, meio que sem querer, a Katia Abreu, os bolchevistas, e uma visão menos maniqueísta da história ), as feridas de guerra vão secando, enfim.
Cada um luta por seus deuses e vive sua forma particular de loucura. Entretanto, como dizia William Blake (e os presocraticos, o Velho Testamento e o Alcorão), o que é loucura para os homens é razão para os deuses.
A vida é cheia de paradoxos irônicos e trágicos, como o fato de que os maiores índices de suicídio do mundo se darem no norte da europa.
Cada filósofo tem suas portas de entrada, livros por onde você pode escalar o conhecimento de seu universo de ideias. No caso de Hegel, acho que são os títulos Razão na História e Introdução a História da Filosofia, obras repletas de paixão humanista. Esse ano (o ano de 2010 para mim terminou no dia 31 de outubro; estou em 2011) tentarei encarar novamente a Fenomenologia do Espírito, voltar a escrever sobre arte, arriscar um pouco de ficção, beber menos (ou mais, ainda estou na dúvida quanto a isso), e, claro, ganhar dinheiro (promessa que me faço todo ano).
E ainda tem toda história da blogosfera. O Rio Blog Prog... Os blogueiros progressistas. Ontem divaguei um pouco sobre algumas questões práticas para nossa organização.
http://rioblogprog.blogspot.com/2010/11/propostas-praticas.html
*
Agora vou confessar uma coisa. Estou decepcionado com a instabilidade do meu provedor. Toda hora sai do ar e eu não posso fazer nada. Mas não vou mudar de novo tão cedo porque não tenho mais paciência. É muito suplício. A internet tinha que ser livre, sem provedor sem nada. Você criava um site e podia usar. O sistema de provedor é algo medieval.
Também não acho o wordpress a maravilha que os programadores dizem. Primeiro: tem que pagar para mexer no layout. O blogspot é aberto gratuitamente. O valor é pequeno, mas não gostei disso.
A plataforma do wordpress também é mais lenta. Um site wordpress demora mais para carregar que um blogspot, pelo menos esta é forte impressão que eu tenho.
Se o serviço continuar ruim assim, eu mudo de volta para o blogspot. Já sou dono do endereço gonzum.blogspot.com, onde tem hoje o Sebo Gonzum, idéia minha de uns anos atrás, atualmente aposentado, o qual deixo no ar porque tem umas resenhas legais de minha autoria. Devia ter me mudado diretamente para lá...
Mas vou dar um tempo por aqui, até por cansaço.
*
Encerro com a tradução de um poema de Robert Frost:
Nada que é dourado pode subsistir
O primeiro verde da Natureza é dourado,
para ela a cor mais difícil de fixar.
Sua primeira folha é uma flor;
mas apenas por uma hora.
Depois folha sucede à folha,
e o Paraíso recai na dor;
a aurora dá lugar ao dia,
o ouro morre em agonia.
Robert Frost (1874 - 1963)
Tradução de Miguel do Rosário, nov.2010
Original:
Nothing Gold Can Stay
by Robert Frost (1874-1963)
Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
*
E um vídeozinho documentário de celular que a Priscila fez em Los Angeles, este ano.
Escutando música clássica na Rádio Mec, pensando na vida, revezando entre um suspense trash-cult e filosofia alemã, provocando polêmicas no twitter (como defender Aldo Rebelo, o novo código florestal e, por tabela, meio que sem querer, a Katia Abreu, os bolchevistas, e uma visão menos maniqueísta da história ), as feridas de guerra vão secando, enfim.
Cada um luta por seus deuses e vive sua forma particular de loucura. Entretanto, como dizia William Blake (e os presocraticos, o Velho Testamento e o Alcorão), o que é loucura para os homens é razão para os deuses.
A vida é cheia de paradoxos irônicos e trágicos, como o fato de que os maiores índices de suicídio do mundo se darem no norte da europa.
Cada filósofo tem suas portas de entrada, livros por onde você pode escalar o conhecimento de seu universo de ideias. No caso de Hegel, acho que são os títulos Razão na História e Introdução a História da Filosofia, obras repletas de paixão humanista. Esse ano (o ano de 2010 para mim terminou no dia 31 de outubro; estou em 2011) tentarei encarar novamente a Fenomenologia do Espírito, voltar a escrever sobre arte, arriscar um pouco de ficção, beber menos (ou mais, ainda estou na dúvida quanto a isso), e, claro, ganhar dinheiro (promessa que me faço todo ano).
E ainda tem toda história da blogosfera. O Rio Blog Prog... Os blogueiros progressistas. Ontem divaguei um pouco sobre algumas questões práticas para nossa organização.
http://rioblogprog.blogspot.com/2010/11/propostas-praticas.html
*
Agora vou confessar uma coisa. Estou decepcionado com a instabilidade do meu provedor. Toda hora sai do ar e eu não posso fazer nada. Mas não vou mudar de novo tão cedo porque não tenho mais paciência. É muito suplício. A internet tinha que ser livre, sem provedor sem nada. Você criava um site e podia usar. O sistema de provedor é algo medieval.
Também não acho o wordpress a maravilha que os programadores dizem. Primeiro: tem que pagar para mexer no layout. O blogspot é aberto gratuitamente. O valor é pequeno, mas não gostei disso.
A plataforma do wordpress também é mais lenta. Um site wordpress demora mais para carregar que um blogspot, pelo menos esta é forte impressão que eu tenho.
Se o serviço continuar ruim assim, eu mudo de volta para o blogspot. Já sou dono do endereço gonzum.blogspot.com, onde tem hoje o Sebo Gonzum, idéia minha de uns anos atrás, atualmente aposentado, o qual deixo no ar porque tem umas resenhas legais de minha autoria. Devia ter me mudado diretamente para lá...
Mas vou dar um tempo por aqui, até por cansaço.
*
Encerro com a tradução de um poema de Robert Frost:
Nada que é dourado pode subsistir
O primeiro verde da Natureza é dourado,
para ela a cor mais difícil de fixar.
Sua primeira folha é uma flor;
mas apenas por uma hora.
Depois folha sucede à folha,
e o Paraíso recai na dor;
a aurora dá lugar ao dia,
o ouro morre em agonia.
Robert Frost (1874 - 1963)
Tradução de Miguel do Rosário, nov.2010
Original:
Nothing Gold Can Stay
by Robert Frost (1874-1963)
Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
*
E um vídeozinho documentário de celular que a Priscila fez em Los Angeles, este ano.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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segunda-feira, novembro 15, 2010
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9 de novembro de 2010
Esse chá eu não quero
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(Eu e os rapazes acima defendemos a liberdade, mas não a mesma do Teaparty)
Uma reflexão sobre individualismo, Teaparty e o neoconservadorismo norte-americano.
Alguns colunistas de jornalões brasileiros iniciaram uma defesa (discreta, disfarçada, mas incontestável) do novo surto de ultraconservadorismo americano, cuja face mais visível e barulhenta é o movimento Tea Party, como manifestação legítima dos ideais de liberdade individual, tão arraigados na história dos Estados Unidos.
João Pereira Coutinho, colunista da Ilustrada, afirma hoje que "o Brasil que elegeu Dilma é o que depende do governo; nos EUA, avanço do Tea Party se liga ao DNA do país".
Em resumo, Coutinho repete a xaropada reacionária que trata o Estado como um ente invasivo e nocivo às liberdades individuais. Na verdade, é o contrário. O Estado moderno surge para proteger os direitos individuais contra grupos privados que se associam justamente para violar a liberdade das pessoas. No caso do Estado democrático contemporâneo, com todas as suas ferramentas de transparência e auto-controle, a acusação de ser um inimigo do indivíduo é ainda mais equivocada e tendenciosa.
Não se pode subestimar o perigo que este tipo de pensamento representa, ao tentar inocular na sociedade brasileira uma ideia que flerta com o fascismo mais odioso. No fundo, ele representa o lobby ideológico de magnatas, associados politicamente, que se sentem acima de qualquer responsabilidade perante o resto do planeta, e continuamente se esforçam para demonizar o papel do Estado junto ao cidadão comum com vistas a poderem exercer o seu poder neo-feudal com mais desenvoltura.
O discurso antiestatista na Saúde, para mim, é o mais estúpido. Diz-se que o cidadão trabalhador e bem-sucedido não deveria arcar com os gastos de Saúde de seu colega preguiçoso e fracassado. Os termos usados são esses mesmos: cria-se uma dicotomia entre o trabalhador e o preguiçoso, o que é um absurdo, mas até aí tudo bem. O problema, a meu ver, é a burrice desse pensamento, como se os vírus, as bactérias, e as doenças em geral, deixassem de ser transmitidos de pobres para ricos apenas porque estes últimos tem plano de saúde privado. A Saúde tem que ser pública e universal por uma questão de sobrevivência da espécie, visto que os grandes inimigos que ameaçam a humanidade deste século XXI são pandemias globais. Além do mais, planos de saúde não pesquisam curas de doença. A comunidade médica científica deve democratizar seus conhecimentos, e portanto deve torná-los públicos, para que os pesquisadores do mundo inteiro intercambiem experiências.
A questão fundamental é que ninguém gosta de pagar imposto, e quanto mais se ganha, mais se paga. Quanto mais rico o sujeito seja, mais vai odiar o Estado. Isso produz toda espécie de monstros teóricos, uma filosofia intrincada, bolorenta, em torno de uma obscura liberdade, apenas para defender o direito de alguns bilionários de economizar uns milhõeszinhos ao fim do ano. Daí que um americano que vive num trailer, numa cidadezinha isolada do Texas, e que poucas vezes na vida cruzou com um funcionário público, que nunca recebeu uma carta do governo, e que sequer tem plano de saúde (ou quando tem, é um plano vagabundo), vive com medo do Estado invadir sua vida.
A solução para o problema das liberdades individuais, tanto aqui como nos EUA, passa, portanto, por reformas tributárias, que melhorassem um pouco a imagem do Estado perante a sociedade. Como? Através de processos mais simples e inteligentes e justos de cobranças de impostos. Sei que falar é fácil, o difícil, já dizia Maiakósvksi, é a vida e seu ofício. Mas um pouco de inovação e criatividade nesse quesito não fariam mal nenhum.
Há também uma tradição cultural que contribui muito, a meu ver, para esse individualismo excessivo da sociedade americana. Há anos que observo, em qualquer filme, que o herói das histórias é sempre um indivíduo isolado. No máximo um grupinho associado pelas circunstâncias. Os perigos e males nunca são enfrentados por uma sociedade organizada (a qual é sempre falha, corrupta e inepta),mas por um indíviduo de capacidade excepcional.
Não é verossímil.
Os grandes problemas que assolam qualquer sociedade apenas são resolvidos, de maneira definitiva ou sistemática, pela organização coletiva, quase nunca por um indivíduo com super-poderes físicos ou intelectuais. Claro que há cientistas geniais que descobrem curas de doenças, mas mesmo nesses casos há um trabalho acumulado, coletivo, muitas vezes internacional.
Essa tradição de atribuir virtudes somente ao indíviduo tem origem, talvez, no próprio cristianismo, onde há um Salvador, um messias. Mas sua lenda deve ser relativizada pela cultura democrática moderna. Jesus, houve apenas um, se que é existiu. E certamente Ele não desejaria que nos tornássemos uma sociedade brutal, cruel, onde uma minoria abastada se refestelasse numa vida confortável e rica, enquanto a maioria (como é hoje no mundo) sobrevive em condições miseráveis.
Ironicamente, contudo, essa mitologia contemporânea só poderia ser quebrada por iniciativa de gênios individuais, que conseguissem produzir obras-primas onde a sociedade organizada também fosse a heroína. Criar-se-ia, assim, uma nova tradição literária e cinematográfica que poderia desencadear, ao longo das gerações, uma ideologia que entendesse o indivíduo como parte de um coletivo, e que somente fortalecendo e democratizando esse coletivo (e o coletivo mais organizado e legítimo é um Estado VERDADEIRAMENTE DEMOCRÁTICO, ou seja, com saúde e educação públicas e universais), teríamos a consolidação de individualidades fortes. No mundo em que vivemos, prega-se cada vez mais o individualismo e temos, na prática, indivíduos cada vez mais padronizados, medíocres e com poucas qualificações... individuais.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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terça-feira, novembro 09, 2010
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29 de outubro de 2009
Desfragmentando o futuro
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Ontem eu fui num evento muito legal, chamado Mate com Angu. É um encontro mensal de cineastas e amantes da sétima arte, onde são exibidos curta-metragens do circuito alternativo e experimental. Depois rolou uma festa. A tertúlia acontece em Caxias, na Baixada Fluminense. Os organizadores põem ônibus de ida e volta a 10 reais saindo da Lapa, para que os moradores do Rio possam ir.
Daí que acordei tarde e cansado, e ainda tinha que compilar e imprimir os documentos necessários à inscrição no mestrado de história, cujo prazo termina neste dia 30. Amanhã eu quero escrever um texto sobre o Mate com Angu. Tenho que aprontar agora a Carta Diária de amanhã.
Por hoje, deixo vocês com essa bela citação de Hegel:
Burckhardt é Jacob Burkhardt, autor do primeiro grande clássico moderno de história cultural, "A Cultura do Renascimento na Itália". De Hegel, vocês já ouviram falar.
Caso eles aprovem minha inscrição, eu farei leituras bem pesadas este ano. Mas tentarei, nesse espaço, usar sempre a linguagem mais simples possível, porque, para citar um trecho do meu anteprojeto...
A íntegra do anteprojeto está aqui.
* La Raison Dans L'Histoire – Introducion à la Philosophie de l'Histoire - Hegel – Le monde em 10:18 – pág.48-49.
*
Aproveito para publicar um texto fundamental, porque trata de um tema sempre importante: educação e respeito aos professores. É a réplica do sindicato de professores de São Paulo à uma entrevista do secretário de educação do mesmo estado, Paulo Renato, à revista Veja. Eu pesquei esse texto no excelente blog Esquerdopata. Agora, que estou decidido a ser historiador e professor, além de blogueiro, escritor, etc, mais que nunca tenho que defender a categoria. Este blog, claro, dá apoio aos professores, que estão lá, ralando, ensinando, e não a esses almofadinhas, como Paulo Renato, e seus tiques napoleônicos, sempre querendo humilhar os trabalhadores. Aumentar salário, que é bom, nada. Em vez disso, criam novas dificuldades e constrangimentos.
APEOESP responde à última flor do fascio
Carta à Veja sobre a entrevista do secretário da Educação
Carta enviada à Veja sobre a entrevista do secretário Paulo Renato nas Páginas Amarelas.
Senhor editor,
A entrevista do secretário Paulo Renato (Veja, 28/10) apenas confirma que o governo do PSDB no estado de São Paulo está mais preocupado em fomentar a “competitividade” entre os professores e aplicar receitas empresariais ao sistema público de ensino do que com a melhoria da qualidade de ensino para todos os estudantes das escolas estaduais.
O secretário culpa os sindicatos de professores pela queda na qualidade de ensino, como forma de fugir de suas próprias responsabilidades. Ele já foi secretário de Educação no governo Franco Montoro e ministro da Educação por longos oito anos, no governo FHC. Seu viés é sempre o da exclusão. Quando criou o FUNDEF, deixou descobertas as duas pontas da educação básica: a educação infantil e o ensino médio, concentrando recursos apenas no ensino fundamental, praticando assim uma política de foco. Esta é a forma como vê a educação.
Um projeto que exclui, de imediato, 80% dos professores de reajustes salariais e, ainda assim, não assegura que os demais 20% terão mesmo direito à melhoria salarial (pois depende de disponibilidade orçamentária) não vai contribuir para a qualidade de ensino e sim para gerar mais revolta e desestímulo na categoria. Os professores tem como ofício educar e sua ferramenta é a educação; e a educação não está sendo valorizada.
As posições externadas pelo secretário estão na contramão de todos os avanços que se tem verificado na educação nacional nos últimos anos. Por certo são ainda insuficientes, mas apontam na direção da escola pública de qualidade.
Por outro lado, é difícil entender como, num Estado democrático de direito, todo o espaço é reservado apenas para um dos lados, que se permite fazer juízos de valor sobre o sindicato, sem que nos seja oferecido espaço equivalente. O que queremos, em nome dos 178 mil associados da APEOESP, é que nos seja aberto espaço nesta revista para que nós próprios possamos expor nossas posições.
Não somos corporativistas. O que nos move é a qualidade da educação e a valorização dos profissionais que nela trabalham, pois a educação abrange bem mais que a relação professor-aluno em sala de aula. Entretanto, ainda que fôssemos corporativistas, o papel de um sindicato não é justamente defender os direitos e reivindicações da categoria que representa?
Aguardamos a publicação desta carta e a abertura de espaço para que possamos expor e defender nossos pontos de vista.
Atenciosamente,
Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP
Membro do Conselho Nacional de Educação
Daí que acordei tarde e cansado, e ainda tinha que compilar e imprimir os documentos necessários à inscrição no mestrado de história, cujo prazo termina neste dia 30. Amanhã eu quero escrever um texto sobre o Mate com Angu. Tenho que aprontar agora a Carta Diária de amanhã.
Por hoje, deixo vocês com essa bela citação de Hegel:
Perseguindo seus interesses pessoais, os homens fazem história e são, ao mesmo tempo, as ferramentas e os meios de qualquer coisa de mais elevada, de mais vasta, que eles ignoram, e que eles realizam de maneira inconsciente. *E mais, dou acesso universal a meu anteprojeto de mestrado, intitulado Desfragmentando o Futuro: Relendo Burckhardt à luz de Hegel.
Burckhardt é Jacob Burkhardt, autor do primeiro grande clássico moderno de história cultural, "A Cultura do Renascimento na Itália". De Hegel, vocês já ouviram falar.
Caso eles aprovem minha inscrição, eu farei leituras bem pesadas este ano. Mas tentarei, nesse espaço, usar sempre a linguagem mais simples possível, porque, para citar um trecho do meu anteprojeto...
Nietszche afirmava que os grandes escritores da Antiguidade procuravam se distinguir usando uma linguagem mais simples e despojada que a usada pelo povo. A linguagem popular é que era considerada arrojada, complexa, complicada, em oposição à simplicidade e clareza da escrita culta. Hoje é o contrário. A segmentação do conhecimento fez surgir verdadeiros sub-idiomas acadêmicos. A popularização do ensino acadêmico levou intelectuais a priorizarem o vocábulo e a sintaxe mais difíceis como forma de conferir distinção (o capital simbólico de Bordieu) ao texto especializado, perdendo-se, por outro lado, a noção de um leitor universal. No debate sobre os valores universais, o tema da linguagem certamente será sempre relevante, e deverá influenciar a própria forma do texto do meu ensaio.
A íntegra do anteprojeto está aqui.
* La Raison Dans L'Histoire – Introducion à la Philosophie de l'Histoire - Hegel – Le monde em 10:18 – pág.48-49.
*
Aproveito para publicar um texto fundamental, porque trata de um tema sempre importante: educação e respeito aos professores. É a réplica do sindicato de professores de São Paulo à uma entrevista do secretário de educação do mesmo estado, Paulo Renato, à revista Veja. Eu pesquei esse texto no excelente blog Esquerdopata. Agora, que estou decidido a ser historiador e professor, além de blogueiro, escritor, etc, mais que nunca tenho que defender a categoria. Este blog, claro, dá apoio aos professores, que estão lá, ralando, ensinando, e não a esses almofadinhas, como Paulo Renato, e seus tiques napoleônicos, sempre querendo humilhar os trabalhadores. Aumentar salário, que é bom, nada. Em vez disso, criam novas dificuldades e constrangimentos.
APEOESP responde à última flor do fascio
Carta à Veja sobre a entrevista do secretário da Educação
Carta enviada à Veja sobre a entrevista do secretário Paulo Renato nas Páginas Amarelas.
Senhor editor,
A entrevista do secretário Paulo Renato (Veja, 28/10) apenas confirma que o governo do PSDB no estado de São Paulo está mais preocupado em fomentar a “competitividade” entre os professores e aplicar receitas empresariais ao sistema público de ensino do que com a melhoria da qualidade de ensino para todos os estudantes das escolas estaduais.
O secretário culpa os sindicatos de professores pela queda na qualidade de ensino, como forma de fugir de suas próprias responsabilidades. Ele já foi secretário de Educação no governo Franco Montoro e ministro da Educação por longos oito anos, no governo FHC. Seu viés é sempre o da exclusão. Quando criou o FUNDEF, deixou descobertas as duas pontas da educação básica: a educação infantil e o ensino médio, concentrando recursos apenas no ensino fundamental, praticando assim uma política de foco. Esta é a forma como vê a educação.
Um projeto que exclui, de imediato, 80% dos professores de reajustes salariais e, ainda assim, não assegura que os demais 20% terão mesmo direito à melhoria salarial (pois depende de disponibilidade orçamentária) não vai contribuir para a qualidade de ensino e sim para gerar mais revolta e desestímulo na categoria. Os professores tem como ofício educar e sua ferramenta é a educação; e a educação não está sendo valorizada.
As posições externadas pelo secretário estão na contramão de todos os avanços que se tem verificado na educação nacional nos últimos anos. Por certo são ainda insuficientes, mas apontam na direção da escola pública de qualidade.
Por outro lado, é difícil entender como, num Estado democrático de direito, todo o espaço é reservado apenas para um dos lados, que se permite fazer juízos de valor sobre o sindicato, sem que nos seja oferecido espaço equivalente. O que queremos, em nome dos 178 mil associados da APEOESP, é que nos seja aberto espaço nesta revista para que nós próprios possamos expor nossas posições.
Não somos corporativistas. O que nos move é a qualidade da educação e a valorização dos profissionais que nela trabalham, pois a educação abrange bem mais que a relação professor-aluno em sala de aula. Entretanto, ainda que fôssemos corporativistas, o papel de um sindicato não é justamente defender os direitos e reivindicações da categoria que representa?
Aguardamos a publicação desta carta e a abertura de espaço para que possamos expor e defender nossos pontos de vista.
Atenciosamente,
Maria Izabel Azevedo Noronha
Presidenta da APEOESP
Membro do Conselho Nacional de Educação
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quinta-feira, outubro 29, 2009
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11 de maio de 2009
Espinoza, protegei-nos dos Tartufos midiáticos!
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(Henri Cartier Bresson - a "informante" da Gestapo)
Não sou gaúcho mas creio que não há outra palavra que expresse melhor o que estou sentindo do que a tradicional interjeição: Bah! Entendo que significa algo próximo a um dar de ombros, uma mescla de enfado, raiva e desprezo, mas sem muito sentimento, como quem não deseja sequer se alterar muito com determinada coisa, por entender que ela não vale nem isso.
Bah!
É o que eu penso quando leio clichês. Se existe uma coisa que realmente me dá vontade de falar Bah! é um clichê. Os piores, naturalmente, são os clichês moralistas.
E vem o Globo entrevistar, mais uma vez, o tal Roberto Romano, professor e doutor em ética. Bah! Que maravilha! Agora temos um doutor em ética! Mas isso é maravilhoso! Esse cara é mais que um sábio! É um sacerdote! Se a Igreja Católica tivesse pensado nisso há alguns séculos, teria evitado todos aqueles problemas com vendas de indulto, etc. E São Francisco nem precisaria ter se dado ao trabalho de peregrinar, descalço, até o Vaticano para denunciar o luxo e a corrupção eclesiásticas!
Esse Romano, aliás, como o próprio sobrenome sugere, deve ser descendente de algum venerável santo nascido no berço da Igreja Católica Apostólica Romana. Pressentindo, em si mesmo, o dom da "ética", resolveu estudar para adquirir o status necessário para iluminar o mundo com sagradas preleções sobre a moral e os bons costumes!
Ainda bem que o Brasil tem um homem como esse. Pena que este sábio ético tenha sido descoberto pela mídia apenas agora, e não durante o processo da privatização da Vale, ou durante as denúncias de compra de voto para o projeto de reeleição.
Ética... Esses caras conseguiram uma proeza: conspurcar a palavra ética. Agora toda vez que ouço essa palavra sinto cheiro de tartufice.
Daí que esta noite tive insônia e fiquei papeando com meus botões: qual é a virtude mais importante para o homem? Será a ética?
Acho que não... Essa palavra, ou mesmo esse conceito, me parece vazio demais. Mole demais. O próprio fato de ser tão facilmente manipulável pelos tartufos demonstra a sua debilidade.
Lembrei então de outra coisa. No lema da revolução francesa não consta a palavra ética, apenas liberdade, igualdade e fraternidade. Na Ilíada, também não aparece a palavra ética em nenhum dos longos trechos em que Homero fala das qualidades e virtudes de seus heróis. Aparece sempre a coragem, a inteligência, a generosidade. Não lembro, igualmente, de nenhum poema em que a ética é louvada como importante virtude. Os poetas louvam o amor, a coragem, a renúncia, a bondade, a doçura e a força; misteriosamente nunca citam a ética.
Por quê? Eu sei o valor da ética, mas ela me parece um conceito frouxo, um conceito líquido, que se deixa corromper facilmente pela linguagem, que não tem brilho próprio.
No entanto, não quero ser injusto com um conceito que talvez seja belo e poderoso, que talvez tenha grande valor, e que certamente está sendo grosseiramente vilipendiado, falseado e manipulado por interesses baixos.
Resgatemos, então, a ética do pântano hipócrita e medíocre em que ela foi mergulhada por nossos tartufos midiáticos.
A principal obra sobre ética foi escrita por Baruch Espinoza. Em 1677, o grande filósofo afirmava que "o homem que é guiado pela razão é mais livre num Estado onde vive segundo um decreto em comum, do que na solidão onde somente obedece a si mesmo". Ele demonstra este axioma da seguinte forma: O homem que é guiado pela razão, não o faz por medo, e sim enquanto se esforça para conservar o seu ser conforme os ditames da razão; isto é, quando se esforça em viver com liberdade, almeja observar uma norma de vida em comum com outros homens, segundo o decreto comum do Estado. O homem, portanto, que é guiado pela Razão, deseja observar as leis comuns do Estado.
O que significa isso? A ética de Espinoza não é essa aguinha com açúcar de nossos tartufos, que a põem acima da Lei e da Constituição. No afã de condenar nossos parlamentares por terem usado passagens aéreas as quais tinham direito por Lei e segundo a Constituição, dizem que, apesar de não estarem infringindo a Lei, não estariam sendo éticos.
Ora, a ética, segundo Espinoza - e, desculpem-me, prefiro ler Espinoza do que esse tartufão chamado Roberto Romano - é o respeito às leis do Estado, e, portanto, respeito às próprias instituições que encarnam o Estado. Nossos tartufos midiáticos, porém, acham-se muito mais valorosos que o Estado e suas instituições. As empresas para as quais os tartufos trabalham (ou para as quais dão entrevistas) não têm seus líderes eleitos democraticamente, não são devassadas anualmente por tribunais de conta, e não tem nenhuma obrigação de ser transparentes. E mesmo assim, elas se acham guardiãs da ética e crêem que a desmoralização das instituições públicas constitui um enorme serviço à ética.
Mas Espinoza foi ainda mais longe e, além da citada Ética, escreveu um livro intitulado Política, que inicia com uma brilhante denúncia contra aqueles que pretendem estabelecer um governo composto por homens que não existem, homens que não são reais, que não possuem os vícios comuns a todos os homens.
Leiam:
"Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através de seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem. Daí por consequência, quase todos, em vez de uma Ética, hajam escrito artigos satíricos, e não tinham sobre Política nenhuma idéia que pudesse ser posta em prática, devendo a política, tal como a concebem, ser tomada por Quimera, Utopia de uma idade de ouro sem instituições humanas e seus defeitos inevitáveis.
Por isso, entre todas as ciências que tem aplicação, é a política o campo em que a teoria passa por diferir mais da prática, e não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos".
É isso! Espinoza, lá do século XVII, faz uma denúncia ferina e definitiva contra o tartufismo filosófico, sobretudo o que pretende ministrar aulas à política. Grande Espinoza! Você sim eu respeito como Mestre de Ética, porque você, como um verdadeiro pensador, compreendia os homens e seus vícios; não pretendia julgá-los, e sim entendê-los e ajudá-los; e sobretudo entendia que a maior ética do homem moderno é o respeito às leis do Estado, e ao próprio Estado enquanto ente democrático, representante dos interesses comuns da sociedade.
Eu entendo assim. Há parlamentares corruptos, repugnamente corruptos, mas a imprensa precisa tomar muito cuidado para evitar generalizações que atinjam a reputação da Casa em si, porque, quando faz isso, pratica a maior de todas as injustiças, que é denegrir a imagem dos símbolos maiores da ética moderna, que são as próprias instituições republicanas democráticas. Um leitor contumaz da imprensa tartufa poderá até rir de uma afirmação dessas, porque não tem consciência sobre a lavagem cerebral a que foi submetido.
Jornais privados são uma reminiscência pré-republicana. São instituições monárquicas, porque passam de pai para filho. O princípio que norteia um jornal é, sobretudo, a busca pelo lucro máximo; esta é uma lei de sobrevivência de uma empresa jornalística, visto que ela sofre concorrência de outras empresas e, com a internet, de outros meios de comunicação; para realizar mais lucros, precisa de mais poder, e para isso, precisa rebaixar o poder alheio. O ataque sistemático da imprensa aos poderes públicos visa ampliar o seu próprio poder. Poder gera dinheiro. A imprensa não pode atacar nenhum setor privado importante, porque depende de sua publicidade. Mas ela pode atacar livremente o Estado, que é obrigado constitucionalmente a distribuir a publicidade pública entre as grandes mídias.
Todos esses argumentos reforçam ainda mais a minha convicção de que a imprensa é um poder com função pública, portante é um poder público sem regulamentação nenhuma; constituindo, portanto, uma excrescência antirrepublicana, um poder desestabilizador; não é por outra razão que a imprensa latino-americana tem sido, ao longo dos últimos cinquenta anos, um dos maiores adversários da democracia. Analisem a história de nosso continente e verão que, por trás de todos os golpes de Estado contra regimes democráticos, houve uma participação ativa e intensa de órgãos de imprensa. E continua havendo.
Agora, por exemplo, no Paraguai, transformaram um filho bastardo do presidente Lugo em seis, e tentaram desestabilizar o seu governo por causa disso. Bom exemplo. O rei de nossos tartufos, o queridinho midiático Fernando Henrique Cardoso, tem um filho fora do casamento que nunca foi alvo da curiosidade jornalística. Circulam rumores há tempos que este filho, inclusive, teria sido criado com recursos oriundos da família Marinho; mas jornalista algum jamais ousou fazer qualquer pergunta sobre o tema à FHC. Quando se trata de qualquer desafeto midiático do momento, como Renan Calheiros, a curiosidade sobre a vida privada não tem limites. Essa é a ética de nossa mídia, compartilhada por uma elite cínica e por uma classe média otária.
Bom Espinoza que estais no céus, protegei-nos!
Bah!
É o que eu penso quando leio clichês. Se existe uma coisa que realmente me dá vontade de falar Bah! é um clichê. Os piores, naturalmente, são os clichês moralistas.
E vem o Globo entrevistar, mais uma vez, o tal Roberto Romano, professor e doutor em ética. Bah! Que maravilha! Agora temos um doutor em ética! Mas isso é maravilhoso! Esse cara é mais que um sábio! É um sacerdote! Se a Igreja Católica tivesse pensado nisso há alguns séculos, teria evitado todos aqueles problemas com vendas de indulto, etc. E São Francisco nem precisaria ter se dado ao trabalho de peregrinar, descalço, até o Vaticano para denunciar o luxo e a corrupção eclesiásticas!
Esse Romano, aliás, como o próprio sobrenome sugere, deve ser descendente de algum venerável santo nascido no berço da Igreja Católica Apostólica Romana. Pressentindo, em si mesmo, o dom da "ética", resolveu estudar para adquirir o status necessário para iluminar o mundo com sagradas preleções sobre a moral e os bons costumes!
Ainda bem que o Brasil tem um homem como esse. Pena que este sábio ético tenha sido descoberto pela mídia apenas agora, e não durante o processo da privatização da Vale, ou durante as denúncias de compra de voto para o projeto de reeleição.
Ética... Esses caras conseguiram uma proeza: conspurcar a palavra ética. Agora toda vez que ouço essa palavra sinto cheiro de tartufice.
Daí que esta noite tive insônia e fiquei papeando com meus botões: qual é a virtude mais importante para o homem? Será a ética?
Acho que não... Essa palavra, ou mesmo esse conceito, me parece vazio demais. Mole demais. O próprio fato de ser tão facilmente manipulável pelos tartufos demonstra a sua debilidade.
Lembrei então de outra coisa. No lema da revolução francesa não consta a palavra ética, apenas liberdade, igualdade e fraternidade. Na Ilíada, também não aparece a palavra ética em nenhum dos longos trechos em que Homero fala das qualidades e virtudes de seus heróis. Aparece sempre a coragem, a inteligência, a generosidade. Não lembro, igualmente, de nenhum poema em que a ética é louvada como importante virtude. Os poetas louvam o amor, a coragem, a renúncia, a bondade, a doçura e a força; misteriosamente nunca citam a ética.
Por quê? Eu sei o valor da ética, mas ela me parece um conceito frouxo, um conceito líquido, que se deixa corromper facilmente pela linguagem, que não tem brilho próprio.
No entanto, não quero ser injusto com um conceito que talvez seja belo e poderoso, que talvez tenha grande valor, e que certamente está sendo grosseiramente vilipendiado, falseado e manipulado por interesses baixos.
Resgatemos, então, a ética do pântano hipócrita e medíocre em que ela foi mergulhada por nossos tartufos midiáticos.
A principal obra sobre ética foi escrita por Baruch Espinoza. Em 1677, o grande filósofo afirmava que "o homem que é guiado pela razão é mais livre num Estado onde vive segundo um decreto em comum, do que na solidão onde somente obedece a si mesmo". Ele demonstra este axioma da seguinte forma: O homem que é guiado pela razão, não o faz por medo, e sim enquanto se esforça para conservar o seu ser conforme os ditames da razão; isto é, quando se esforça em viver com liberdade, almeja observar uma norma de vida em comum com outros homens, segundo o decreto comum do Estado. O homem, portanto, que é guiado pela Razão, deseja observar as leis comuns do Estado.
O que significa isso? A ética de Espinoza não é essa aguinha com açúcar de nossos tartufos, que a põem acima da Lei e da Constituição. No afã de condenar nossos parlamentares por terem usado passagens aéreas as quais tinham direito por Lei e segundo a Constituição, dizem que, apesar de não estarem infringindo a Lei, não estariam sendo éticos.
Ora, a ética, segundo Espinoza - e, desculpem-me, prefiro ler Espinoza do que esse tartufão chamado Roberto Romano - é o respeito às leis do Estado, e, portanto, respeito às próprias instituições que encarnam o Estado. Nossos tartufos midiáticos, porém, acham-se muito mais valorosos que o Estado e suas instituições. As empresas para as quais os tartufos trabalham (ou para as quais dão entrevistas) não têm seus líderes eleitos democraticamente, não são devassadas anualmente por tribunais de conta, e não tem nenhuma obrigação de ser transparentes. E mesmo assim, elas se acham guardiãs da ética e crêem que a desmoralização das instituições públicas constitui um enorme serviço à ética.
Mas Espinoza foi ainda mais longe e, além da citada Ética, escreveu um livro intitulado Política, que inicia com uma brilhante denúncia contra aqueles que pretendem estabelecer um governo composto por homens que não existem, homens que não são reais, que não possuem os vícios comuns a todos os homens.
Leiam:
"Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através de seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem. Daí por consequência, quase todos, em vez de uma Ética, hajam escrito artigos satíricos, e não tinham sobre Política nenhuma idéia que pudesse ser posta em prática, devendo a política, tal como a concebem, ser tomada por Quimera, Utopia de uma idade de ouro sem instituições humanas e seus defeitos inevitáveis.
Por isso, entre todas as ciências que tem aplicação, é a política o campo em que a teoria passa por diferir mais da prática, e não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos".
É isso! Espinoza, lá do século XVII, faz uma denúncia ferina e definitiva contra o tartufismo filosófico, sobretudo o que pretende ministrar aulas à política. Grande Espinoza! Você sim eu respeito como Mestre de Ética, porque você, como um verdadeiro pensador, compreendia os homens e seus vícios; não pretendia julgá-los, e sim entendê-los e ajudá-los; e sobretudo entendia que a maior ética do homem moderno é o respeito às leis do Estado, e ao próprio Estado enquanto ente democrático, representante dos interesses comuns da sociedade.
Eu entendo assim. Há parlamentares corruptos, repugnamente corruptos, mas a imprensa precisa tomar muito cuidado para evitar generalizações que atinjam a reputação da Casa em si, porque, quando faz isso, pratica a maior de todas as injustiças, que é denegrir a imagem dos símbolos maiores da ética moderna, que são as próprias instituições republicanas democráticas. Um leitor contumaz da imprensa tartufa poderá até rir de uma afirmação dessas, porque não tem consciência sobre a lavagem cerebral a que foi submetido.
Jornais privados são uma reminiscência pré-republicana. São instituições monárquicas, porque passam de pai para filho. O princípio que norteia um jornal é, sobretudo, a busca pelo lucro máximo; esta é uma lei de sobrevivência de uma empresa jornalística, visto que ela sofre concorrência de outras empresas e, com a internet, de outros meios de comunicação; para realizar mais lucros, precisa de mais poder, e para isso, precisa rebaixar o poder alheio. O ataque sistemático da imprensa aos poderes públicos visa ampliar o seu próprio poder. Poder gera dinheiro. A imprensa não pode atacar nenhum setor privado importante, porque depende de sua publicidade. Mas ela pode atacar livremente o Estado, que é obrigado constitucionalmente a distribuir a publicidade pública entre as grandes mídias.
Todos esses argumentos reforçam ainda mais a minha convicção de que a imprensa é um poder com função pública, portante é um poder público sem regulamentação nenhuma; constituindo, portanto, uma excrescência antirrepublicana, um poder desestabilizador; não é por outra razão que a imprensa latino-americana tem sido, ao longo dos últimos cinquenta anos, um dos maiores adversários da democracia. Analisem a história de nosso continente e verão que, por trás de todos os golpes de Estado contra regimes democráticos, houve uma participação ativa e intensa de órgãos de imprensa. E continua havendo.
Agora, por exemplo, no Paraguai, transformaram um filho bastardo do presidente Lugo em seis, e tentaram desestabilizar o seu governo por causa disso. Bom exemplo. O rei de nossos tartufos, o queridinho midiático Fernando Henrique Cardoso, tem um filho fora do casamento que nunca foi alvo da curiosidade jornalística. Circulam rumores há tempos que este filho, inclusive, teria sido criado com recursos oriundos da família Marinho; mas jornalista algum jamais ousou fazer qualquer pergunta sobre o tema à FHC. Quando se trata de qualquer desafeto midiático do momento, como Renan Calheiros, a curiosidade sobre a vida privada não tem limites. Essa é a ética de nossa mídia, compartilhada por uma elite cínica e por uma classe média otária.
Bom Espinoza que estais no céus, protegei-nos!
# Escrito por
Miguel do Rosário
#
segunda-feira, maio 11, 2009
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5 de maio de 2009
Pode existir uma democracia sem imprensa privada?
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(outra esquina da Gomes Freire com Visc.Rio Branco, Lapa)
A criatividade não é necessária apenas para se escrever poemas, fazer filmes ou compor canções. Entender a história, a política, a humanidade, também exige criatividade e juízo estético. A faculdade do juízo, segundo Kant, é inata ao ser humano: não são apenas as "bichinhas culturais" (para usar a expressão consagrada por Mirisola), além dos artistas propriamente ditos, que a possuem. Esta faculdade tem como função produzir um esquema mental intuitivo, mas sempre com um formato conceitual que não agrida nossa razão. Para produzir esse esquema, a faculdade do juízo usa a imaginação, que lhe ajuda a compor um quadro minimamente inteligível para a mente humana, reunindo o universal e o particular numa síntese dialética.
A função racional não consegue dar conta da realidade. Não tem esse poder. A realidade exterior supera a capacidade racional humana. Clarice Lispector sabia disso quando alertou: "não tente entender, a vida ultrapassa todo entendimento". Nossa ferramenta de acesso à realidade cotidiana é a intuição, a qual, aliás, também forma a base originária de qualquer elaboração racional. Em Crítica da Razão Pura, Kant observa que todo postulado racional deriva de uma intuição originada em nossas faculdades inatas de perceber o tempo e o espaço. O racional será, de fato, o terreno da inteligência e do humanismo, mas o conhecimento do mundo advém primordialmente da faculdade do juízo, que usa a imaginação para formar uma ficção da realidade em nossa mente, a qual depois irá refletir esta ficção no espelho de nosso entendimento racional, para burilar suas arestas e ajustá-la a nossa consciência.
E o que isso tem a ver com o título deste artigo? O que tem a ver com imprensa ou democracia? Tudo. A imprensa é uma instituição consagrada na democracia moderna, que opera como uma faculdade mental do corpo coletivo, ou pelo menos assim se pretende. A imprensa almeja ser os olhos e os ouvidos do corpo social. Mas não é. A imprensa não faz parte do corpo democrático. Não é uma instituição republicana, por razões muito simples: não cumpre as exigências éticas, jurídicas e democráticas para tal.
Agora eu entendo perfeitamente porque o comunismo real se viu obrigado a deter o monopólio da comunicação. É porque a comunicação social, ou mais especificamente o seu agente principal, a imprensa privada, representa um poder real, constante, agressivo, que rivaliza com os poderes republicanos constituídos.
O surgimento e a consagração da internet foi um fenômeno que surpreendeu até mesmo os seus criadores. Produzida por instituições públicas norte-americanas, a internet tinha como função inicial (depois de um curto período em mãos de militares, que usaram-na para transmissão de mensagens cifradas) permitir a troca online de informação entre pesquisadores.
A explosão da internet, o seu sucesso estrondoso, relaciona-se a uma força aprisionada do mundo contemporâneo: a necessidade de informação, que é a grande paixão do homem. Curiosidades aparentemente fúteis, como saber o que pensa um esquimó - que irá criar seu próprio blog e se dar a conhecer - são tão dignas como a de conhecer o tamanho real dos astros. A internet se tornou, de fato, uma ferramenta de conhecimento, um grande cérebro coletivo, com características verdadeiramente republicanas e democráticas - e quando digo isso, incluo aí o caos, a corrupção, a imoralidade, e todos os defeitos agarrados ao caráter humano. Sua diferença é a transparência, desde sempre proporcionada pela alternância de poder e pelo sufrágio, características basilares das democracias. A internet facilita esse processo.
Na realidade, a internet permitiria uma simplificação brutal do sistema democrático. A divisão administrativa em estados e municípios era necessária para dar conta dos vastos territórios nacionais. Com a internet, porém, esse federalismo gera superposição e duplicação de poderes, ou seja custos excessivos e supérfluos para o povo brasileiro.
O estudo da história nos mostra que toda sociedade, quando perde o viço criativo e inovador, entra em declínio acelerado e irreversível. O Brasil precisa, portanto, de criatividade. A extinção das administrações estaduais e municipais não acarretaria em prejuízo de seus funcionários. Ao contrário, estes não só seriam mantidos, integralmente, como teriam seus rendimentos ampliados e muito mais liberdade de ação, podendo escolher sair de seus estados de origem e residir em áreas diferentes do país. A internet permitiria uma administração centralizada, racional, transparente e enxuta (e quando digo enxuta, pelo amor de Deus, não me refiro à demissões em massa e sim a uma estrutura hierarquicamente mais racional).
Não penso num Estado totalitário e sim num Estado mais democrático, com mais transparência e que possa ofertar melhores serviços para a sociedade, com a contratação de mais médicos, professores, e sobretudo com o pagamento, para estes dois segmentos, de salários mais dignos.
A imprensa não tem função importante na democracia (na verdade, nunca teve; na América Latina, a imprensa foi a maior adversária da estabilidade democrática) porque ela não se mostra disposta a permitir inovações sociais. Tornou-se uma instância rudemente conservadora, que chantageia o poder e os cidadãos, e que apregoa uma ideologia mentirosa sobre a realidade política que nos cerca. A imprensa brasileira, por exemplo, transmite a idéia de que a corrupção existe apenas no sistema público. Cansei de ver matérias que comparavam sistemas de gestão privados, que seriam mais "eficientes", com seus irmãos estatais, que seriam gordos, lentos e burros. Com isso, criou-se espaço ideológico para a privatização de serviços estratégicos do Estado. Falácia, como ficamos sabendo. Grandes grupos privados realizavam, há décadas, fraudes em suas contas, para enganar consumidores, acionistas e o Estado; e porque deveríamos acreditar que agora, após a crise, eles se tornaram, subitamente, éticos?
Com essa crise mundial, ficamos sabendo o que nunca deveríamos ter perdido de vista: as instituições públicas são as únicas que, embora com problemas de corrupção, podem ser monitoradas online pelos cidadãos, desde que instalem sistemas de transparência na internet - uma necessidade cada vez mais possível e mais aconselhável. Os grupos privados não precisam de transparência e, por isso, podem continuar exibindo sua "eficiência" e "ética", uma boa imagem pela qual pagam polpudos anúncios na imprensa.
O mundo que eu vejo é um mundo mais público e mais centralizado, com governos mundiais articulados entre si e poderosas e influentes organizações multilaterais. Essa já é uma realidade que vemos acontecer. O que gostaria de chamar a atenção é para a possibilidade de modernizar o regime administrativo nacional, através da centralização total das instituições. Com a internet, cada município poderá abrigar unidades executivas e legislativas federais, que teriam, no entanto, um poder maior ou com mais qualidade, porque integrariam o próprio núcleo de poder nacional.
Cada município teria, em vez de um prefeito com quase nenhum poder de intervenção ou captação de recurso, uma secretaria da presidência da república. Quando tenho essas idéias, não penso em Lula ou Serra. Acredito que esse tipo de modernização seria benéfica a todos os espectros ideológicos, embora eu confie muito mais plenamente em políticos que tenham consciência sobre a importância fundamental do poder público para o desenvolvimento das sociedades.
O capitalismo pós-moderno parece estar entendendo, após muita surra, que o Estado é seu aliado. Somente através da existência de um Estado forte, centralizado, e ao mesmo tempo democrático e transparente, teremos segurança de enfrentar as pandemias, as crises de crédito e as rixas comerciais entre nações. As instituições privadas contribuirão com empreendedorismo e criatividade. O que é inviável é caminharmos, passivamente, para um mundo dividido em castas de privilegiados, com acesso a todas as novas tecnologias da saúde, da comunicação e da cultura, e uma maioria de despossuídos. Isso, definitivamente, não é democrático. As pessoas perderam a noção do que é democracia. "O amor à democracia é o amor à igualdade", afirma Montesquieu, o primeiro grande teórico da democracia moderna. Com isso ele não queria dizer um mundo com todos recebendo o mesmo salário, conforme a caricatura produzida pela experiência da União Soviética, e que resulta numa situação em que, em vez de eliminar a pobreza, universaliza-a - queria significar, antes de tudo, um mundo onde as oportunidades seriam parecidas.
A introdução filosófica dos primeiros parágrafos desse texto visou articular uma teoria que venho tentando demonstrar há tempos, e sobre a qual ainda discorrerei muito neste blog. Trata-se do meu esforço para enterrar, de vez, a arrogância "letrada" das classes médias e altas brasileiras, que se acreditam possuidoras de um entendimento superior por conta de suas noções escolares. Não percebem que o conhecimento não reside nestas noções, necessariamente imperfeitas e sectárias. O conhecimento humano é, antes de tudo, criatividade, intuição e vigor. Esta aí a explicação para que intelectuais sobrecarregados de títulos acadêmicos, como Roberto DaMatta, ostentem uma burrice e uma pequenez espiritual constrangedoras, enquanto uma figura como Lula, que nunca fez faculdade, venha conquistando a imprensa e os presidentes do mundo inteiro com sua verve e inteligência. Demétrio Magnoli, Bolivar Lamounier, Marco Antonio Villa, são outros exemplos de mediocridade intelectual.
Conhecimentos teóricos, naturalmente, são fundamentais para compreender o mundo. Mas se não forem acompanhados de um juízo honesto, original e profundo, nascido de uma faculdade que é inata e logo não adquirível em universidades americanas, não valem nada.
Kant afirma que "todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a faculdade de se conhecer, se não fosse pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem por si mesmos representações, e de outra parte, impulsionam a nossa inteligência a compará-los entre si, a reuni-los ou separá-los, e deste modo à elaboração da matéria informe das impressões sensíveis para esse conhecimento das coisas que se denomina experiência?"
Ou seja, o filósofo alemão indica, na introdução de sua obra capital, que somente a experiência pode ativar e dar forma real ao conhecimento. Este não pode ser adquirido em livros ou nas salinhas da PUC. É preciso que seja exposto à luz forte do sol, que interaja com outras idéias, que seja constantemente posto à prova pelo contraditório.
Há outro ponto importante. O que a nossa classe "letrada" entende por "cultura" não passa de um amontoado de clichês europocêntricos ou americanizados. O conhecimento do homem, diz o Velho Testamento, é loucura para Deus. O ser humano pode apreender conhecimento a partir de qualquer referência, desde que tenha a oportunidade de conhecer a si mesmo e exercer um diálogo criativo com o mundo. Assim como Proust pode criar romances fantásticos a partir do aroma de um biscoito, um ser humano pode entender a política e a economia globais a partir da observação de um camelô fugindo do rapa. Claro que simplifico - quero apenas mostrar que o universo de conhecimentos ofertados ao homem é infinito. Sua sabedoria consiste na capacidade de açambarcar essa miríade de informações com um olhar judicioso e sensato, articulando uma síntese dialética entre a mais singela manifestação particular, como o choro de fome de uma criança, e a contemplação da humanidade como um todo. Esse tipo de conhecimento não se aprende em faculdade. Aprende-se na vida, e por isso vemos jovens que estudaram em boas escolas tratarem os outros com estupidez, arrogância e agirem tão insensatamente, enquanto outros, com acesso a menos recursos, apesar de, aparentemente, progredirem a um ritmo mais lento, fazerem-no de maneira mais sólida e definitiva. A tartaruga ultrapassa a lebre e assim a classe média assiste, perplexa, os concursos públicos terem participação de cada vez mais gente oriunda das camadas mais humildes.
Volto à pergunta do título: pode existir democracia sem imprensa privada? Pode, desde que todos os órgãos públicos publiquem seus trabalhos na internet. Desde que a produção oficial estatística seja acessível pela internet de forma simples e confiável. Desde que a imprensa pública se descole do governo, tornando-se uma autarquia independente e democrática. Desde que a blogosfera prossiga crescendo e se institucionalizando, com surgimento de blogs especializados confiáveis e competentes, possivelmente financiados por editais públicos.
A função racional não consegue dar conta da realidade. Não tem esse poder. A realidade exterior supera a capacidade racional humana. Clarice Lispector sabia disso quando alertou: "não tente entender, a vida ultrapassa todo entendimento". Nossa ferramenta de acesso à realidade cotidiana é a intuição, a qual, aliás, também forma a base originária de qualquer elaboração racional. Em Crítica da Razão Pura, Kant observa que todo postulado racional deriva de uma intuição originada em nossas faculdades inatas de perceber o tempo e o espaço. O racional será, de fato, o terreno da inteligência e do humanismo, mas o conhecimento do mundo advém primordialmente da faculdade do juízo, que usa a imaginação para formar uma ficção da realidade em nossa mente, a qual depois irá refletir esta ficção no espelho de nosso entendimento racional, para burilar suas arestas e ajustá-la a nossa consciência.
E o que isso tem a ver com o título deste artigo? O que tem a ver com imprensa ou democracia? Tudo. A imprensa é uma instituição consagrada na democracia moderna, que opera como uma faculdade mental do corpo coletivo, ou pelo menos assim se pretende. A imprensa almeja ser os olhos e os ouvidos do corpo social. Mas não é. A imprensa não faz parte do corpo democrático. Não é uma instituição republicana, por razões muito simples: não cumpre as exigências éticas, jurídicas e democráticas para tal.
Agora eu entendo perfeitamente porque o comunismo real se viu obrigado a deter o monopólio da comunicação. É porque a comunicação social, ou mais especificamente o seu agente principal, a imprensa privada, representa um poder real, constante, agressivo, que rivaliza com os poderes republicanos constituídos.
O surgimento e a consagração da internet foi um fenômeno que surpreendeu até mesmo os seus criadores. Produzida por instituições públicas norte-americanas, a internet tinha como função inicial (depois de um curto período em mãos de militares, que usaram-na para transmissão de mensagens cifradas) permitir a troca online de informação entre pesquisadores.
A explosão da internet, o seu sucesso estrondoso, relaciona-se a uma força aprisionada do mundo contemporâneo: a necessidade de informação, que é a grande paixão do homem. Curiosidades aparentemente fúteis, como saber o que pensa um esquimó - que irá criar seu próprio blog e se dar a conhecer - são tão dignas como a de conhecer o tamanho real dos astros. A internet se tornou, de fato, uma ferramenta de conhecimento, um grande cérebro coletivo, com características verdadeiramente republicanas e democráticas - e quando digo isso, incluo aí o caos, a corrupção, a imoralidade, e todos os defeitos agarrados ao caráter humano. Sua diferença é a transparência, desde sempre proporcionada pela alternância de poder e pelo sufrágio, características basilares das democracias. A internet facilita esse processo.
Na realidade, a internet permitiria uma simplificação brutal do sistema democrático. A divisão administrativa em estados e municípios era necessária para dar conta dos vastos territórios nacionais. Com a internet, porém, esse federalismo gera superposição e duplicação de poderes, ou seja custos excessivos e supérfluos para o povo brasileiro.
O estudo da história nos mostra que toda sociedade, quando perde o viço criativo e inovador, entra em declínio acelerado e irreversível. O Brasil precisa, portanto, de criatividade. A extinção das administrações estaduais e municipais não acarretaria em prejuízo de seus funcionários. Ao contrário, estes não só seriam mantidos, integralmente, como teriam seus rendimentos ampliados e muito mais liberdade de ação, podendo escolher sair de seus estados de origem e residir em áreas diferentes do país. A internet permitiria uma administração centralizada, racional, transparente e enxuta (e quando digo enxuta, pelo amor de Deus, não me refiro à demissões em massa e sim a uma estrutura hierarquicamente mais racional).
Não penso num Estado totalitário e sim num Estado mais democrático, com mais transparência e que possa ofertar melhores serviços para a sociedade, com a contratação de mais médicos, professores, e sobretudo com o pagamento, para estes dois segmentos, de salários mais dignos.
A imprensa não tem função importante na democracia (na verdade, nunca teve; na América Latina, a imprensa foi a maior adversária da estabilidade democrática) porque ela não se mostra disposta a permitir inovações sociais. Tornou-se uma instância rudemente conservadora, que chantageia o poder e os cidadãos, e que apregoa uma ideologia mentirosa sobre a realidade política que nos cerca. A imprensa brasileira, por exemplo, transmite a idéia de que a corrupção existe apenas no sistema público. Cansei de ver matérias que comparavam sistemas de gestão privados, que seriam mais "eficientes", com seus irmãos estatais, que seriam gordos, lentos e burros. Com isso, criou-se espaço ideológico para a privatização de serviços estratégicos do Estado. Falácia, como ficamos sabendo. Grandes grupos privados realizavam, há décadas, fraudes em suas contas, para enganar consumidores, acionistas e o Estado; e porque deveríamos acreditar que agora, após a crise, eles se tornaram, subitamente, éticos?
Com essa crise mundial, ficamos sabendo o que nunca deveríamos ter perdido de vista: as instituições públicas são as únicas que, embora com problemas de corrupção, podem ser monitoradas online pelos cidadãos, desde que instalem sistemas de transparência na internet - uma necessidade cada vez mais possível e mais aconselhável. Os grupos privados não precisam de transparência e, por isso, podem continuar exibindo sua "eficiência" e "ética", uma boa imagem pela qual pagam polpudos anúncios na imprensa.
O mundo que eu vejo é um mundo mais público e mais centralizado, com governos mundiais articulados entre si e poderosas e influentes organizações multilaterais. Essa já é uma realidade que vemos acontecer. O que gostaria de chamar a atenção é para a possibilidade de modernizar o regime administrativo nacional, através da centralização total das instituições. Com a internet, cada município poderá abrigar unidades executivas e legislativas federais, que teriam, no entanto, um poder maior ou com mais qualidade, porque integrariam o próprio núcleo de poder nacional.
Cada município teria, em vez de um prefeito com quase nenhum poder de intervenção ou captação de recurso, uma secretaria da presidência da república. Quando tenho essas idéias, não penso em Lula ou Serra. Acredito que esse tipo de modernização seria benéfica a todos os espectros ideológicos, embora eu confie muito mais plenamente em políticos que tenham consciência sobre a importância fundamental do poder público para o desenvolvimento das sociedades.
O capitalismo pós-moderno parece estar entendendo, após muita surra, que o Estado é seu aliado. Somente através da existência de um Estado forte, centralizado, e ao mesmo tempo democrático e transparente, teremos segurança de enfrentar as pandemias, as crises de crédito e as rixas comerciais entre nações. As instituições privadas contribuirão com empreendedorismo e criatividade. O que é inviável é caminharmos, passivamente, para um mundo dividido em castas de privilegiados, com acesso a todas as novas tecnologias da saúde, da comunicação e da cultura, e uma maioria de despossuídos. Isso, definitivamente, não é democrático. As pessoas perderam a noção do que é democracia. "O amor à democracia é o amor à igualdade", afirma Montesquieu, o primeiro grande teórico da democracia moderna. Com isso ele não queria dizer um mundo com todos recebendo o mesmo salário, conforme a caricatura produzida pela experiência da União Soviética, e que resulta numa situação em que, em vez de eliminar a pobreza, universaliza-a - queria significar, antes de tudo, um mundo onde as oportunidades seriam parecidas.
A introdução filosófica dos primeiros parágrafos desse texto visou articular uma teoria que venho tentando demonstrar há tempos, e sobre a qual ainda discorrerei muito neste blog. Trata-se do meu esforço para enterrar, de vez, a arrogância "letrada" das classes médias e altas brasileiras, que se acreditam possuidoras de um entendimento superior por conta de suas noções escolares. Não percebem que o conhecimento não reside nestas noções, necessariamente imperfeitas e sectárias. O conhecimento humano é, antes de tudo, criatividade, intuição e vigor. Esta aí a explicação para que intelectuais sobrecarregados de títulos acadêmicos, como Roberto DaMatta, ostentem uma burrice e uma pequenez espiritual constrangedoras, enquanto uma figura como Lula, que nunca fez faculdade, venha conquistando a imprensa e os presidentes do mundo inteiro com sua verve e inteligência. Demétrio Magnoli, Bolivar Lamounier, Marco Antonio Villa, são outros exemplos de mediocridade intelectual.
Conhecimentos teóricos, naturalmente, são fundamentais para compreender o mundo. Mas se não forem acompanhados de um juízo honesto, original e profundo, nascido de uma faculdade que é inata e logo não adquirível em universidades americanas, não valem nada.
Kant afirma que "todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a faculdade de se conhecer, se não fosse pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem por si mesmos representações, e de outra parte, impulsionam a nossa inteligência a compará-los entre si, a reuni-los ou separá-los, e deste modo à elaboração da matéria informe das impressões sensíveis para esse conhecimento das coisas que se denomina experiência?"
Ou seja, o filósofo alemão indica, na introdução de sua obra capital, que somente a experiência pode ativar e dar forma real ao conhecimento. Este não pode ser adquirido em livros ou nas salinhas da PUC. É preciso que seja exposto à luz forte do sol, que interaja com outras idéias, que seja constantemente posto à prova pelo contraditório.
Há outro ponto importante. O que a nossa classe "letrada" entende por "cultura" não passa de um amontoado de clichês europocêntricos ou americanizados. O conhecimento do homem, diz o Velho Testamento, é loucura para Deus. O ser humano pode apreender conhecimento a partir de qualquer referência, desde que tenha a oportunidade de conhecer a si mesmo e exercer um diálogo criativo com o mundo. Assim como Proust pode criar romances fantásticos a partir do aroma de um biscoito, um ser humano pode entender a política e a economia globais a partir da observação de um camelô fugindo do rapa. Claro que simplifico - quero apenas mostrar que o universo de conhecimentos ofertados ao homem é infinito. Sua sabedoria consiste na capacidade de açambarcar essa miríade de informações com um olhar judicioso e sensato, articulando uma síntese dialética entre a mais singela manifestação particular, como o choro de fome de uma criança, e a contemplação da humanidade como um todo. Esse tipo de conhecimento não se aprende em faculdade. Aprende-se na vida, e por isso vemos jovens que estudaram em boas escolas tratarem os outros com estupidez, arrogância e agirem tão insensatamente, enquanto outros, com acesso a menos recursos, apesar de, aparentemente, progredirem a um ritmo mais lento, fazerem-no de maneira mais sólida e definitiva. A tartaruga ultrapassa a lebre e assim a classe média assiste, perplexa, os concursos públicos terem participação de cada vez mais gente oriunda das camadas mais humildes.
Volto à pergunta do título: pode existir democracia sem imprensa privada? Pode, desde que todos os órgãos públicos publiquem seus trabalhos na internet. Desde que a produção oficial estatística seja acessível pela internet de forma simples e confiável. Desde que a imprensa pública se descole do governo, tornando-se uma autarquia independente e democrática. Desde que a blogosfera prossiga crescendo e se institucionalizando, com surgimento de blogs especializados confiáveis e competentes, possivelmente financiados por editais públicos.

