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10 de janeiro de 2011

Reciclando lixo

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Neste domingo fui à praia do Leme e fiz questão de não ler os jornais. A azia mencionada por Lula certa feita, referindo-se à sensação que o assaltava sempre que lia os periódicos pela manhã, há muito que corresponde, no meu caso, a uma espécie de úlcera espiritual. A imprensa tem exercido, por mais que eu tente negá-lo, uma irresistível influência sobre mim: faz-me, perder, às vezes por dias a fio, qualquer interesse pela politica. Como hoje. Fui à praia equipado com um livro de Denis Lehane que eu sempre quis ler. Um policial bem escrito, pleno de situações e personagens interessantes, com uma trama envolvente e um toque poético aplicado na medida certa.

O título é Gone, Baby, Gone, assim mesmo na tradução em português.

Imprudentemente, passei a vista no Globo, mas reduzi os riscos evitando olhar a Folha. Agi muito bem. Tive uma tarde esplêndida, lendo e bebendo as cervejas que o diligente funcionário da barraca guardou num pequeno isopor, com gelo, ao lado da minha cadeira. Diante de mim, descortinava-se a sensual, grandiloquente praia de Copacabana.

Gosto do Leme por causa da comprida faixa de areia, mais de quinhentos metros entre a calçada e o mar. Mesmo que a população inteira do estado se mobilize para frequentar o Leme aos domingos, haverá espaço de sobra para todo mundo.

Quando eu fui embora, o sol ainda brilhava forte, mas já ocupando uns trinta e cinco graus em relação ao horizonte. O guarda-sol teve que ser posicionado a quinze metros de distância para que eu pudesse continuar lendo sem ser incomodado pelos raios.

Pagamos a conta. Vinte e oito reais por quatro cervejas, uma água, duas cadeiras e o sombreiro. Nada mal para curtir uma das melhores praias do planeta. Houve uma certa confusão na saída, porque haviam me cobrado um refrigerante a mais; minha esposa percebeu o erro a tempo e eles devolveram a diferença.

Então fizemos compras no supermercado zona sul, em frente à praia, e voltamos para casa de táxi, fornidos de queijos, melancia e cervejas importadas. O dólar barato me permite ficar alto com um pouco mais de classe, bebendo Hoegarden e Erdinger. Um blogueiro progressista, sempre que tem dinheiro, sabe aproveitar a vida. Conto isso para desfazer a imagem de miserável e desgraçado que porventura eu faço por aqui toda a vez em que me sinto realmente miserável e desgraçado. Nem sempre é assim. Há tempos de vacas gordas na vida de um free-lancer.

Em casa, os queijos não duram muito e as cervejas não tardarão a ser bebidas e devidamente expelidas no vaso sanitário com tampa quebrada.

A gente assiste Sob o signo de Leão, primeiro filme do Eric Rohmer, um clássico do cinema francês e mundial, alugado na locadora Macedônia (que fica no Largo do Machado e é uma das melhores do Rio de Janeiro, competindo apenas com a Paradise, de Copacabana). O protagonista recebe telegrama informando que sua tia falecera deixando-lhe enorme herança: fábricas, plantações, edifícios, ações. Ele imediatamente telefona para um amigo e pede um empréstimo de cinquenta mil francos para que pudessem fazer uma grande farra naquele mesmo dia. O amigo, um repórter da revista Paris Match, consegue o dinheiro e eles, e mais os que vão encontrando pelo caminho, tem uma barulhenta e inesquecível noite.

No dia seguinte, o amigo repórter viaja a trabalho para o exterior. Quando volta, seu amigo está desaparecido. Logo ficamos sabendo o que acontecera: ele não ganhara a herança, que ficara somente para um primo com quem ele não tinha boas relações. Ele fica sem nada, e passa a viver fugindo de hotéis e pensões porque não pode pagar, e pedindo dinheiro emprestado a todo amigo que encontra. Termina na indigência total, arrastando-se pelas ruas ao lado de outro mendigo, fazendo esquetes teatrais. No finzinho, uma reviravolta, que prefiro não contar.

Bem, tudo isso para dizer que, já no início da madrugada, depois da praia, do filme, mais páginas de Denis Lehane... eu resolvo passar a vista na Folha e deparo com textos que me fazem lembrar de minha triste função na blogosfera. Comparo-me a um funcionário da empresa responsável pelo recolhimento de lixo na cidade. Não é a primeira vez que me vem a ideia. Ultimamente, tenho observado, com admiração, os lixeiros trabalhando nas ruas. Em poucos minutos, eles removem todo lixo do quarteirão. No bairro onde eu moro, nos arredores da Lapa, o lixo é deixado em sacos amontoados diante dos prédios. Rapidamente aparecem mendigos para furá-los, revirá-los, espalhando a porcaria pelo chão. Os garis são obrigados a lidar, portanto, com um lixo exposto a céu aberto, exalando vapores insuportáveis; e aparentemente cumprem sua tarefa com muita eficiência e retidão, sem reclamar de nada.

É a mesma coisa que eu faço. Ao me deparar com a coluna de Eliane Cantanhede deste domingo, a primeira coisa que eu fiz foi... olhar para o relógio. Quase duas horas da manhã, pensei; mas tenho, como obrigação cívica, que recolher esse lixo... Relanceei a vista para o Lehane sobre a mesa e prometi retomar a leitura ainda hoje à noite, preparei um café e vim aqui escrever. Não adianta, posso me iludir com cervejas belgas e alemãs, mas prossigo exercendo um dos ofícios mais baixos da escala social, como diria o Casoy. Sou um gari do lixo midiático.

Por isso mesmo que, mais tarde, quero propor um negócio a quem estiver interessado. Como não acredito que terei estômago para fazer esse serviço por mais muito tempo, e ao mesmo tempo como acho que se trata de um trabalho terrivelmente necessário ao equilíbrio no fechado e influente universo das opiniões políticas, creio que chegou a hora de unir forças para criar um grande blog coletivo voltado apenas para a contra-informação midiática. Refiro-me a uma empresa bem estabelecida, criteriosa, com redatores especializados e criativos que ganhariam para exercer seu ofício. Quem estiver interessado em discutir a criação dessa empresa, e disposto a investir dinheiro nisso, entre em contato via email para estudarmos o caso. Enquanto isso não acontece, limpamos as ruas com as próprias mãos.
ELIANE CANTANHÊDE - A novíssima elite
BRASÍLIA - Tem toda a razão Fernanda Torres ao dizer que "ser considerado parte da elite virou ofensa das mais graves" e em seguida perguntar: "Mas quem é a elite?".
Os bancos, que nunca lucraram tanto, as empreiteiras, eternamente gratas a Lula, a oligarquia, recheada de ministérios? Ou as levas de petistas em todos os escalões?
Há inclusive a elite enxovalhada por Lula e pelos lulistas radicais sempre que lhes falta explicação para alguma peraltice tipo mensalão. Aí, a elite somos nós, que damos um duro danado, ganhamos a vida honestamente, temos apreço aos princípios e exigimos moralidade e exemplo dos governantes.
Hoje, nada encarna melhor a neoelite que o time de Ronaldinhos de Lula -os Lulinhas. Os meninos são uns craques. Entraram pobres em 2003 e saem com seis empresas em 2011, um deles vivendo em apartamento de R$ 12 mil mensais pagos por empresário com contratos, ora, ora, com o governo do pai.
Não se pode discordar de Nelson Jobim quando ele diz que é "ridícula" a crítica a Lula por usar dependências militares para veraneio depois da Presidência. Também não é totalmente absurda a fala de Marco Aurélio Garcia de que um passaportezinho diplomático a mais ou a menos não faz mal a ninguém, referindo-se ao passaporte exclusivo de autoridades que Lulinhas sacaram no último dia do governo.
São, sim, coisas menores. O problema é a cultura, a soma do veraneio, dos passaportes, da Gamecorp, dos padrinhos, dos atos assinados à sombra, das empresas, do aluguel pago pelo amigo. O resultado é que Lula se sente dono do Brasil, acha que os filhos têm de aproveitar a "oportunidade" e desconsidera o exemplo que ele dá à nação como mito, como ídolo que é.
Se o presidente pode, a ministra da Casa Civil pode, o amigão Sarney pode, todo mundo pode. É educativo. Ou melhor, deseducativo.
Nunca antes neste país se viu uma herança tão maldita.

elianec@uol.com.br

Não vou responder tudo. Comento somente um pedaço, porque bastará aplicar a mesma regra ao resto:

"Entraram pobres em 2003 e saem com seis empresas em 2011 (...)"

As seis empresas que dois dos filhos de Lula abriram tem capital irrisório, menos de mil reais cada. Várias estão inativas. São apenas projetos, sonhos. Não tem nada de criminoso. Pode até ser que tenham (algo de criminoso) no futuro; pode ser que os filhos de Lula se tornem grandes traficantes de armas, drogas ou coisa pior: donos do trem-bala ou de partes do pré-sal. De antemão, porém, não existe crime nenhum em abrir empresa no Brasil. Vivemos num país livre e capitalista. Para abrir um, dois ou vinte CNPJs basta pagar as taxas, que a Fiesp aliás tem se esforçado para que sejam reduzidas, tentando incentivar justamente o espírito empreendedor nacional. A filha de FHC foi funcionário fantasma do Senado por quase dez anos e ninguém a incomodou. Os filhos de Lula abrem um CNPJ tentando, como qualquer cidadão, ganhar dinheiro, e se tornam alvo de interminável campanha editorial nos jornalões.

Às outras frases da colunista correspondem a respostas semelhantes.

Volto a parabenizar os lixeiros de todo Brasil. E sugiro que se respeite também os lixeiros da blogosfera, que lemos esse tipo de porcaria, essa tentativa de açular os preconceitos mais mesquinhos, essa intriga constante, venenosa e hipócrita. Damo-lhes (à porcaria) o devido tratamento, levando-a para aterros sanitários virtuais, ou reciclando-a. Essa manipulação do moralismo pede estômago forte para ser assimilada e combatida. Por isso eu reitero: precisamos dar uma resposta profissional, no âmbito da iniciativa privada. Precisamos articular um eficiente sistema de contra-informação, que nos liberaria para falar de outras coisas, de política com P maiúscula, de economia, cultura, arte, humor... Analisar coluna de Cantanhede, meus caros, é um serviço que deveríamos dar a garotos recém-saídos da faculdade, a estagiários de dezenove anos, sob a orientação de algum blogueiro experiente. Todos os blogueiros lhes ajudariam, é claro, fornecendo-lhes subsídios para que exercessem seu trabalho. Mas estaríamos livres e bem mais tranquilos.

Eu quero curtir a minha praia e meus livros em paz, sem me preocupar se a Folha articula um novo Tea Party, ou algum tipo diferente de golpe midiático. Preciso me dedicar a uma série de leituras, dentre outros projetos pessoais, sem ficar tão angustiado se o lixo acumulado nas ruas da opinião pública provocará epidemias violentas e súbitas de preconceito e reacionarismo. Quero, de uma ver por todas, me libertar do PIG!

6 de janeiro de 2011

O velho jornaleiro

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Por Maurício Caleiro, do Cinema & outras artes

Um dia de desses, ao voltar a São Paulo para visitar meus pais, descendo a principal rua do bairro onde morei dos três anos ao final da adolescência – um enclave português no subúrbio –, tomei um susto ao notar que a banca de jornais de “seu” Ari transforma-se em um ponto comercial vulgar, de venda de acessórios para motos.

“Seu” Ari era um nissei muito franzino, de uma educação e de uma dignidade evidentes por trás dos óculos de aros finos e dos cabelos precocemente grisalhos. As primeiras vezes que fui à sua banca – na verdade, uma portinha de um metro de largura, dando em um fundo corredor ladeado por dezenas de revistas - ele devia ter uns 40 e poucos anos e já tinha essa aparência, enquanto eu começava a sair da infância rumo à puberdade.

Foi quando comecei a ler com regularidade jornais e revistas. O Jornal do Brasil já deixara de ser o mítico JB, a grande referência na imprensa brasileira dos anos 60/70, e a Veja era ainda uma revista bem-escrita e com atraente projeto gráfico, e, embora ligeira, às vezes leviana e sempre de má vontade com a cultura nacional, a anos-luz do panfleto obscurantista que ora se tornou.


Aparências mantidas
O grande jornal brasileiro era a Folha de S. Paulo, ainda beneficiário das reformas promovidas por Claudio Abramo e de uma alardeada obsessão pelo profissionalismo que ao menos mantinha as aparências. Nessa época meu interesse por política era superficial, eu tendia a pular os cadernos iniciais e devorar a Ilustrada, que, a cargo de jovens jornalistas – com o reforço de pesos-pesados como Sergio Augusto e, para o bem ou para o mal, Paulo Francis - modernizava a crítica cultural e, abrindo-se ao universo pop-rock mais atual, ajudava a tornar respirável a lentíssima abertura política que marcou os estertores da ditadura.

Logo, a Folha ganharia ainda mais cacife, ao se transformar no principal porta-voz das Diretas-Já na imprensa.


Tempos idos
Lembro claramente de chegar algumas vezes da balada e, resistindo à tentação de afanar um exemplar da pilha que ficava em plena calçada, ao relento, ficar esperando “seu” Ari abrir a banca. Ele aparecia pontualmente às 05h (e ia embora às 19h), e na eventualidade de eu, "durango", ter gastado todo o meu dinheiro na noite, deixava que eu “pendurasse” – e ainda trocava algumas palavras gentis com o pirralho impertinente. Um gentleman.

Eram outros tempos. Hoje sabemos que o outrora promissor jornal tornou-se uma publicação mesquinha, apequenada por um diretor de redação aloprado, que não hesita em publicar fichas policiais falsas na capa, em atacar grosseiramente respeitados professores universitários, em valer-se de um militante desequilibrado para difamar com leviandade o mais popular presidente do país - cujos méritos se recusa a reconhecer - , em criar factóide atrás de factóide no afã de fazer valer seus interesses político-econômicos, dando uma banana para o leitor, cujas opiniões menospreza.

Passa, portanto, a haver uma incompatibilidade evidente entre uma publicação tão negligente para com a ética profissional e a dignidade civilizada de alguém como “seu” Ari.


Cai o pano
A última vez que o vi, em uma visita anterior a São Paulo, fiquei impressionado ao constatar o quanto envelhecera: os cabelos, agora ralos, tornaram-se todos brancos, estava encurvado, alquebrado pelo peso dos anos, e, por trás dos óculos agora mais grossos, sua fronte se tornara um feixe flácido de rugas. Só restava, no fundo dos olhos, um brilho agudo de sabedoria - e, intacta, sua dignidade.

Não obstante tal constatação, já nessa ocasião a metáfora contrapondo a débâcle física do jornaleiro e a decadência dos jornais e revistas que comercializava impôs-se, epifânica.

A transformação, em um ponto comercial vulgar, da banca de jornais da qual “seu” Ari retirou, por uma vida, seu sustento, forma, assim, uma alegoria - e um presságio – para o destino da grande imprensa brasileira. A qual, ao renunciar ao jornalismo em prol da defesa de interesses corporativos,atentando contra sua função institucional, republicana, e desrespeitando o eleitor, só restará cumprir sua sina. E o fará sem um pingo da dignidade do velho jornaleiro.

27 de novembro de 2010

Guimarães: A cor da tragédia no Rio

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A cor da tragédia no Rio



Por Eduardo Guimarães

Sábado, fim da manhã, dou uma escapada do escritório. Fui trabalhar em um dia que costumo dedicar ao descanso porque precisava “preparar” a viagem de negócios que começo a fazer no dia seguinte.

Preciso almoçar. Café e cigarros, ininterruptamente – consumo um e outro sem perceber, quando trabalho ou escrevo –, fizeram-me cair a pressão.

O bar serve uma das feijoadas mais honestas da região da Vila Mariana. De carro, chego lá em 5 minutos. Gasto mais cinco esperando pela comida e mais dez para comer. Antes da uma estarei de volta.

Meu escritório está na região há quase 15 anos. Vários conhecidos freqüentam o estabelecimento em que matarei a fome. Ao chegar lá, cumprimentam-me e me convidam a sentar à mesa repleta de garrafas de cerveja vazias.

Hesito. São pessoas que têm por costume fazer comentários que me desagradam. A educação, porém, fala mais alto e aceito. Encaro a turma que têm os olhos injetados pelo álcool.

Alguns dos homens, estando todos na mesma faixa etária que eu, mencionam a entrevista com Lula e começam a fazer piadinhas próprias da mentalidade política e ideológica que infesta a parte de São Paulo em que vivo.

Permaneço impassível e calado. Percebem que não estou achando graça. Um deles, menos grosseiro, resolve mudar de assunto:

– E o Rio, hein! Que tragédia!

Percebo que é outro tema que não vai prestar e me abstenho de comentários. Dedico-me à excelente batidinha de limão que servem ali.

Um outro decide escancarar a bocona: “Sabe qual é o problema do Rio?”. Percebendo que vem pedrada, mas já começando a me irritar, pergunto qual seria o “problema do Rio”.

– Pretos, cara. Notou que são todos pretos?

– Todos, quem, cara-pálida?

– Todos. Bandidos, moradores da região. Tudo preto. Esse é o problema do Rio.

Reflito, antes de responder. Ao menos em uma coisa esse demente tem razão: a tragédia carioca tem cor. Realmente, bandidos e população atingida por eles são negros em expressiva maioria. Então respondo:

– Mas a culpa não é deles, é sua. São racistas como você que fizeram com que mesmo depois de mais de um século do fim da escravidão os negros continuassem mergulhados nessa tragédia…

– Mas…

– Aqueles traficantes quase todos negros, um dia foram crianças que se inebriaram pelo poder que os bandidos exercem sobre essas comunidades.

A mesa com seis homens de meia idade fica em silêncio, perplexa com o que acabara de ouvir. Levanto-me, vou até o caixa, pago pela comida que não comi, subo no carro, sem me despedir de ninguém, e vou embora sem almoçar.

Já não havia mais fome.

Levo comigo, porém, uma certeza: a tragédia no Rio tem cor. Existe por conta dessa cor.

Aquelas populações, pela cor da pele, foram mantidas em guetos miseráveis, longe das preocupações dos setores exíguos e preconceituosos da sociedade que fingem que a culpa é dos governantes.

Matéria publicada originalmente no blog Cidadania.

26 de novembro de 2010

Os tempos estão mudando, Mr.Pig!

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A entrevista de Lula aos blogueiros abalou psicologicamente a mídia, tanto na casa grande (editorias) como na senzala (redação). Ficaram doidinhos da silva. Não entenderam nada. Uns criticaram o fato de serem "chapas-brancas". O Globo deu na capa: "foi a primeira entrevista a favor". Ué, então os repórteres fazem entrevista "contra"? Tudo foi novo, original, estranho. O pasquim kamelista centrou fogo especificamente no Cloaca News, sabe-se lá porque. O Cloaca é um blog singelo, humilde, com uma ironia agreste e poética, repleto de misticismo; magnético, direto, silencioso, fulminante, como aquele matador interpretado por Javier Bardem do filme dos irmãos Cohen... Na blogosfera, no entanto, os fracos tem sua vez.


Houve um pouquinho de ciumeira entre os próprios blogueiros, e inclusive me pediram para falar disso, mas acho bobeira. Normal também. Minha mulher tá trabalhando em São Paulo e quando eu falei com ela da novidade, sua primeira reação foi negativa: "por que VOCÊ não está lá?". Aí expliquei-lhe calmamente que isso não importava, era como se eu estivesse, o grupo que foi era a minha galera, muitos dos quais conheci pessoalmente, que reproduzem meus textos, e, sobretudo, autênticos soldados dessa duríssima batalha contra os desmandos midiáticos que travamos há anos. Normal porque minha mulher me vê mergulhado nessa luta, empenhando todos meus recursos intelectuais e físicos, recusando-me a procurar emprego ou qualquer outro trabalho, para fazer o que eu gosto tanto de fazer, que é escrever e dar combate ao golpismo odioso das famiglias que dominam a comunicação de massa no Brasil, trabalhando (eu) com um espírito quase missionário, quase messiânico, quase louco, normal que ela fique ansiosa por ver resultados concretos para MIM. Mas não é assim que funciona, expliquei-lhe, a nossa luta é coletiva.

Tanto foi diferente que pela primeira vez os próprios "entrevistadores" foram entrevistados. Com todo respeito aos jornalistas, os blogueiros ocupam uma posição bem mais interessante. Eles tem opinião própria. Eles são donos de seus blogs. Cada blogueiro é o Cidadão Kane de seu próprio espaço na internet. Num jornal, temos uma legião de repórteres submissos, calados e obedientes e dois ou três colunistas-estrela, que ganham dez vezes mais, e que supostamente tem direito à própria opinião mas que, agora isso é claro como cachaça, apenas fazem o papel de porta-vozes dos proprietários. O blogueiro, o verdadeiro blogueiro, dono de seu blog, não o que trabalha para a Veja e O Globo, é uma figura original no campo da comunicação.

Só ontem à noite consegui, finalmente, assistir com calma as duas horas de vídeo e constatei, orgulhoso, que os blogueiros entrevistaram o presidente de igual para igual, sem o ar superior e agressivo dos medalhões do jornalismo e sem o nervosismo cabisbaixo da arraia-miúda das redações. Eles estavam ali com nomes próprios, não apenas como representantes de um filhinho de papai que passa os finais de semana em Nova York, mas como intelectuais! Como homens! Ah, por falar nisso, acusou-se a ausência de mulheres. Os organizadores alegaram a falta de sorte de todas as mulheres convidadas não terem podido ir. E o fato foi minimizado pela participação virtual da indefectível Maria Frô, também conhecida por Conceição Oliveira. De qualquer forma, esse é o tipo de iniciativa que não se faz pensando em cotas de gênero, do tipo, ah vamos levar tantas mulheres, negros e índios. Mas mudemos de assunto antes que eu seja trucidado por minhas leitoras. Há que se pensar sim nas mulheres, e mais particularmente agora, com a chegada de Dilma Rousseff. Já pensando numa eventual entrevista de Dilma com a blogosfera, falou-se em levar uma turma só de mulheres. Pode ser, mas aí também não seria cristalizar o que foi acusado como erro nessa entrevista com Lula, de não haver diversidade de gêneros? Bem, sei lá.

Houve um pouco de confusão também, entre a blogosfera, sobre se foi uma iniciativa dos Blogueiros Progressistas, com letra maiúscula, ou do Renato Rovai. Ora, Rovai é um dos idealizadores do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, um evento cujo objetivo justamente era dar visibilidade política à blogosfera de esquerda. E conseguiu! Rovai e outros estavam ali como representantes da Blogosfera Progressista (com maiúscula), além de representarem naturalmente - e sobretudo - as suas próprias biografias. Na verdade, a peça-chave de toda a organização da blogosfera progressista é o jornalista e blogueiro Altamiro Borges, um talentoso articulador político, que faz as coisas acontecerem. Miro é o contato com as centrais sindicais, a única fonte de financiamento segura com a qual a blogosfera de esquerda pode contar. Não é a tôa que os jornalões procuram demonizar tanto o sindicalismo. Serra, durante a campanha, andou repetindo até o bordão dos golpistas de 64, acusando a existência de uma "república sindical", uma expressão idiota e preconceituosa contra toda a classe trabalhadora, visto que apenas o sindicato permite ao trabalhador participar da vida política nacional. Os banqueiros e donos da mídia patrocinam regiamente os institutos milleniums da vida. As centrais, por sua vez, no mundo inteiro, patrocinam as esquerdas. Cumpre a esquerda desmontar o discurso pseudomoralista que continuamente procura constrangê-la, intimidá-la, impedindo-a de crescer, florescer, organizar-se também fora do âmbito partidário, de se institucionalizar e se fortalecer para enfrentar a guerra contra a direita mafiosa que (infelizmente) ainda domina o mundo.

Voltando à entrevista, gostei muito do conteúdo em si. Falou-se dos temas mais candentes para a blogosfera. Discordei de Lula no ponto em que ele diz que não quer o Estado dominando a banda larga. Esse é um dos poucos pontos onde eu mantenho uma visão bastante radical, mas com embasamento. Se o sinal da TV aberta é público e dominado pelo Estado, o sinal da banda larga, que é muito mais importante, também deveria ficar sob o controle democrático do Estado brasileiro, e deveria ser gratuito. Tenho uma ideia quase explodindo minha cabeça sobre isso, sobre a economia que traria ao Estado, como poderia ajudar o Brasil a dar o salto qualitativo na educação e na formação profissional que o sistema convencional não dá conta. E na Saúde também, visto que a banda larga pública e gratuita abriria novos horizontes na relação do Estado com as pessoas doentes (ou seja, todos nós, visto que não existe pessoa 100% saudável), permitindo algumas consultas médicas online. Seria uma revolução!

Mas houve um momento na entrevista que merecemos dar atenção especial e partiu do nosso incansável Eduardo Guimarães, um Dom Quixote com juízo. Acho que nem o Eduardo esperava a reação do presidente. O blogueiro, provocativo, mencionou a sigla PIG, sem sequer se dar ao trabalho de explicá-la. Coube ao secretário de Imprensa dizer que significava Partido da Imprensa Golpista, fazendo Lula sorrir discretamente, olhando para o papel, talvez analisando o perfil do Edu traçado por um de seus assessores. O que estaria escrito ali? Blogueiro entusiástico, dotado de grande capacidade de liderança, capaz de mobilizar milhares de pessoas em manifestações públicas. O Eduardo é como que o Charlie Parker da blogosfera. Já havia um movimento grande, mas foi ele que botou fogo em tudo. Como dizia Dizzy Gilespie sobre seu amigo Bird: foi ele quem trouxe a... pirotecnia.

Pois então, Eduardo mencionou o aspecto mais grave do golpismo midiático, trazendo à lembrança um exemplo trágico: quando se tentou criar pânico na população por conta da febre amarela, na contramão de tudo que os especialistas diziam. Eduardo lembrou que a mídia provocou uma onda de terror que levou as pessoas a se vacinarem sem necessidade, fazendo com que, pela primeira vez na história do mundo, mais ou tanta gente morresse da doença quanto dos efeitos colaterais da vacina. Pior, quando o ministro veio à público tentar esclarecer a população, disseram para NÃO acreditar nele. Colunistas escreveram editoriais desacreditando o governo. Uma coluna na Folha chegou a cometer a irresponsabilidade e a infâmia de fazer proselitismo político em cima da pandemia, convocando as pessoas a se vacinarem, não importa o que o governo dissesse. Aquilo provocou uma correria tão ansiosa da população em busca da vacina, que houve gente que entrou três vezes na fila (lembrou Eduardo ao presidente).

Recordo-me muito bem disso. Minha mãe estava na Bahia, com sua irmã, e ligou-me entre orgulhosa e aliviada para dizer que havia "se vacinado". Ora, minha mãe tem saúde frágil e toma vários remédios. Poderia muito bem ter tido uma reação negativa... Ela não precisava ter tomado aquela vacina, mas apavorou-se com o que lia nos jornais.

Eduardo mencionou passar aquela pauta, de proteger a população da sanha irresponsável de meia dúzia de donos de jornais, que enquanto bebericam champagne no Caribe mandam seus capangas espalhar pânico no Brasil, à Dilma Rousseff. A surpresa veio da resposta de Lula, que não apenas complementou a intervenção de Eduardo com outros exemplos de irresponsabilidade midiática envolvendo questões de saúde pública, como disse que iria tomar providências em relação àquilo ainda em seu mandato! Não passou a bola para Dilma não. Lula comprou a briga!

Todos os blogueiros fizeram perguntas, o presidente estendeu a entrevista por quase o dobro do tempo inicialmente previsto, e houve ainda um outro momento importantíssimo sobre o qual eu queria falar. Espontaneamente, sem que ninguém houvesse perguntado, Lula falou do Irã, de Ahmadinejad, e de política externa. Era justamente a pergunta que eu queria fazer e que publiquei aqui no blog!

Lula contou mais uma vez sobre o momento em que, durante uma de suas primeiras reuniões internacionais, estando sentado ao lado de Amorim, viu Bush irromper na sala. Todos se levantaram e Amorim fez o gesto de se erguer também. Lula segurou-o na cadeira e disse: vou me levantar por quê? Ninguém se levantou quando eu entrei! Resultado: Bush veio diretamente falar com Lula e cumprimentou-o especialmente. Lula sabe das coisas: ninguém gosta de puxa-saquismo e subserviência. Aquele gesto de se levantar era desnecessário, a menos que houvessem levantado para todos! Os críticos da diplomacia brasileira tentam há anos pespegar o selo de antiamericanismo na política externa do governo, mas ficam desmoralizados quando vêem Lula manter um diálogo amistoso com a Casa Branca, tanto na era Bush como na Obama. Na eleição presidencial americana de 2008, os jornalões, sentindo a onda obamista se erguer também no Brasil, tentaram ridiculamente vender a ideia de que Lula apoiava os republicanos. Quanta besteira! Nossos colunistas tentaram se desvincular da imagem de diretistas emprestando um apoio canino e jacú a Obama. Pois bem, Obama ganhou e falou que Lula era "o cara"! Entraram em parafuso e hoje todos, com exceção de Caetano, que é "artista", fazem beicinho para o negão.

Ainda nessa parte da entrevista, Lula procurou desmistificar a campanha de satanização do Irã e seu presidente. Contou mais uma vez sobre o diálogo que manteve com Ahmadinejad sobre a questão do holocausto. Perguntou-lhe se realmente acreditava que não teria havido holocausto: "se o senhor pensa isso, é o único no mundo". O presidente do Irã respondeu que não era isso que pensava, sua implicância era contra o pensamento de que somente judeus morreram na II Guerra, quando na verdade, tivemos 70 milhões de mortos. É incrível que jamais nenhuma mídia tenha procurado fazer a pergunta certa a Ahmadinejad. Se o objetivo é demonizá-lo, não interessa esclarecer seus pontos de vista sobre essas questões delicadas, e com isso, de confusão em confusão, cria-se uma atmosfera extremamente envenenada entre as autoridades islâmicas e o mundo ocidental, para lucro da indústria bélica, que assim melhor convence as opiniões públicas e os governos de seus países a assinarem cheques mais polpudos...

Enfim, foi uma grande entrevista, de grandes blogueiros com um grande presidente. A imprensa golpista ficou se mordendo porque pela primeira vez foi obrigada a se recolher a sua insignificância. O Brasil sabe muito bem o que eles fizeram, ontem, hoje e o que pensam fazer amanhã. São previsíveis, nocivos e totalmente descompromissados com o bem estar da população. A história é linda e sábia! Os blogueiros surgiram como anticorpos para os vírus midiáticos... Lembrando Dylan, the times they are a-changin'. Os tempos estão mudando, Mr.Pig!

22 de novembro de 2010

O almofadinha que odeia Papai Noel

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Pondé escreve na Folha como se o fizesse para um jornalzinho de primeiro período da Mackenzie. Ler sua coluna corresponde a uma experiência antropológica, algo assim como ir morar um tempo no Complexo do Alemão ou pegar um trem na Central. Semana passada ele declarou que não gostava mais dos aeroportos brasileiros porque haviam sido invadidos por emergentes e semelhavam, segundo ele, a um churrasco na laje. Muito melhor um aeroporto norte-americano, né, onde policiais nos fazem massagem grátis nas bolas... Desculpem o termo chulo, mas é que nunca entendi bem porque esses xaropinhos odeiam tanto o "politicamente correto" sendo eles mesmos as figuras mais terrivelmente convencionais, caretas e "corretas" do universo... Tentando mostrar que são contra o "politicamente correto", dizem coisas malvadinhas como "gosto de matar passarinhos", frase que (juro) era o mote principal de uma coluna no Globo assinada por um deles.

Em sua coluna de hoje, Pondé tenta nos provar que era uma inteligência tão precoce que nunca se deixou levar por essa história de Papai Noel. Até hoje, pelo jeito, ele briga contra o pançudo:
Depois de tantos anos, ainda me irrito com quem acredita em "Papai Noel" ou com quem tenta fazer os outros aceitarem suas crenças infantis.

Agora, olhem que pérola:
Acabei vindo para São Paulo. Nunca senti preconceito (começo a detestar essa palavra, porque hoje ela é usada normalmente para calar a boca de quem diz o que não é politicamente correto, essa praga contemporânea).

Meditem um pouco sobre a afirmação: "Nunca senti preconceito". Por que será, hein? Talvez por ser branco e rico, apesar de nordestino?

Saboreiem a maturidade da observação feita entre parênteses. Ela deve ter sido lida em voz alta, entre aplausos, em certas rodinhas da PUC-SP, da Mackenzie e do Shopping Paulista...

A melhor parte, no entanto, vem em seguida.
Em apenas dois episódios, que me lembre, ouvi comentários que claramente faziam referência à minha "nordestinidade" como traço de ignorância. E as duas pessoas, pasme você, leitor, eram pessoas "de esquerda" e "inteligentes".

O que dizer sobre isso? Ele tá querendo provar o quê? Que pessoas "de esquerda" e "inteligentes" acham nordestinos ignorantes?

Eu acho incrível o poder desses intelectuais midiáticos de falar besteira. Sabe o que é engraçado? Provavelmente um coleguinha de faculdade, quinze anos atrás, fez uma brincadeira "politicamente incorreta", e hoje ele foi às forras. Ué, não havia dito que "nunca sofreu preconceito"? Na ânsia de associar, esquizofrenicamente, esquerda e preconceito, o cara nem se preocupa em ser coerente. Ele não está fazendo justamente aquilo que ele acusou no parágrafo anterior? Não estaria usando o pretexto do preconceito apenas para atacar alguma frase "politicamente incorreta" e vingar-se de uma derrota em discussão política? O indício de que foi isso mesmo é que, ao afirmar que as tais pessoas eram "de esquerda", diz que eram também "inteligentes", revelando o complexo de inferioridade que, desde aquela época, lhe rói as entranhas.

Mais indícios desse complexo (além do texto sofrivelmente escrito) vêm logo em seguida. Como se continuasse uma discussãozinha qualquer que teve na Mackenzie (ou USP), ele vomita:
Nada de novo. As pessoas "de esquerda" foram responsáveis pela maior parte da chacina política no século 20. As patologias do pensamento hegeliano-marxista e sua vocação para o "Estado total" mataram mais gente do que o nazismo.

Ã? Fazendo uma manobra radicalíssima com seu velocípede mental, ele associa sabe-se lá o que seu coleguinha "de esquerda" e "inteligente" lhe disse no recreio a um clichê maluco da direita indigente que venera o psicopata e dublê de filósofo Olavo de Carvalho. O comunismo matou, sim, muita gente, mas em virtude das vicissitudes históricas de cada momento, sobretudo causadas por guerras civis e dificuldades econômicas. Não foi por nenhuma malignidade intrínseca das pessoas "de esquerda". E se fôssemos enveredar por essa seara, a direita mata até hoje milhões por ano, com seu egoísmo alucinado e a concentração de renda obscena que persiste no mundo.

E aí ele começa a se empolgar, e decide mostrar toda a sua exuberância livresca:
E ainda querem me convencer de que posso confiar nas suas boas intenções? Contra os delírios de Hegel, leia Isaiah Berlin e seu brilhante "Limites da Utopia" (Companhia das Letras; R$ 48, 224 págs.). O Inferno está cheio de reformadores políticos. O Estado deve ser ocupado por pessoas que não querem reformar o mundo. Fora, Papai Noel!

Nas boas intenções de quem? Do seu coleguinha "de esquerda" e "inteligente" que talvez lhe tenha roubado a namorada? Aí ele fala em "delírios de Hegel" como se referisse a um revolucionário de Sierra Maestra, e não um dos maiores filósofos da modernidade, respeitado profundamente tanto por conservadores empedernidos quanto por comunistas radicais. Claro, agora entende-se porque Pondé sentiu-se humilhado por seu coleguinha "inteligente" e "de esquerda" da faculdade: é que ele (o coleguinha) era leitor de Hegel enquanto Pondé se restringia a ler os autores meiaboca que o titio Olavo indica em seu site... Ao encerrar o parágrafo com um "Fora Papai Noel!", ele me intrigou: por que será que este sujeito odeia tanto o velhinho, símbolo apenas de coisas boas: generosidade, bondade, carinho? Seria porque ele é uma pessoa mesquinha, ruim, egoísta?

Seu entusiasmo cresce e ele resolve se aprofundar em questões ideológicas:
Pessoas que se dizem defensoras de "uma sociedade melhor" ou da "liberdade igual para todos" são autoritárias e são as que primeiro aderem à violência contra a liberdade de fato e contra aqueles que pensam diferente delas.

Será que ele ainda tá pensando no rapaz "de esquerda" e "inteligente" da faculdade? Ou será apenas que ele se confundiu e botou crack em vez de fumo em seu cachimbo? Sei que vocês devem estar pensando: Miguel, porque você perde tempo com tolices assim? Respondo: é porque isso realmente me preocupa. O cara tem uma coluna na Ilustrada, o caderno de cultura do principal jornal do país. Eu tenho sorte de ter lido alguns livros e participar da vida brilhante da blogosfera. Mas e os jovens que ainda estão se formando? É para isso que o governo de São Paulo mandou assinar a Folha para todas as escolas públicas do estado?

Então eu tento descer ao nível de Pondé. Vou fingir que entendo o que ele disse. O problema de seus chavões é que ele, além de se referir a uma esquerda autoritária há muito superada historicamente, além de omitir que, em nosso Brasil, ou seja, em nossa realidade, o autoritarismo real, que matou gente que pensava diferente, provinha da direita, e não da esquerda, ele provoca uma grande confusão no leitor desatento, visto que, obviamente, ele visa associar a esquerda brasileira atual, democrática e pacífica, com os desatinos de Stálin no início do século passado! Ora, se fôssemos por aí, valeria associar a direita brasileira de hoje - e ele, Pondé, é um direitista assumido - às loucuras de Hitler!

O que ele diz em seguida é simplesmente inacreditável:
Quer uma dica? Quem usar muito expressões como "repúdio", "isso é desprezível", "interesse coletivo" "estou indignado", "preconceito", não merece confiança.

Ou seja, ao mesmo tempo em que defende (mentirosamente) a liberdade, ele prega a censura moral, que é pior em certo sentido do que qualquer censura governamental, a quem usa determinadas expressões! Cadê a liberdade! Quer dizer que eu não posso sequer usar o termo "preconceito" sob o risco de ser tratado como alguém que "não merece confiaça" por um colunista que escreve para o maior jornal do Brasil? Não espanta que São Paulo tenha se tornado um berço de Mayaras Petrusos e que nas faculdades e colégios a tortura de colegas tenha se tornado banal. Pondé não tem a mínima noção do que escreve, para quem escreve e dos públicos imensos que seu jornal atinge.

Eu acho interessante estudar textos de figuras como Pondé porque eles me dão a idéia de como era a vida intelectual do Brasil escravocrata, e como as inteligências mais grotescas, monstruosas, doentias, surgem em indivíduos supostamente cultos.

Vamos lá, força. Está quase acabando. Vamos dissecar essa cobrinha metida a venenosa até o final.
São Paulo é maravilhosa porque acolhe quem trabalha sem por a culpa nos outros. Liberdade não é sinônimo de felicidade, liberdade é conflito, agonia, solidão.

Se Pondé tivesse lido Hegel ou tivesse um pingo de poesia em seu espírito, teria vergonha em dar uma definição tão pobre para a liberdade, seguramente o conceito mais bonito, poderoso, universal, jamais concebido pela inteligência humana. Imagine um negro que, após fugir de uma fazenda onde era brutalizado diariamente, houvesse alcançado um quilombo dos bons, e após banhar-se e comer, contemplasse a paisagem do alto de uma montanha. Imagine um povo, moderno ou da Antiguidade, que após décadas de opressão, consegue conquistar a sua independência. Imagine um trabalhador que, depois de anos passando terríveis dificuldades financeiras, consegue um ótimo emprego. Imagine um preso político, como a nossa presidente que, depois de ser torturada e presa por dois anos, livra-se das garras dos brutamontes que tinham sua vida em suas mãos, e sai da cadeia. Aí sim, terá uma bela e autêntica intuição do que é a liberdade. Falar que liberdade é agonia e solidão, é apenas assinar um atestado de mediocridade e pequenez espiritual. É coisa de quem nunca viveu, nunca sonhou, nunca amou, nunca teve imaginação.

Pondé tampa o latão de lixo:
Até onde conhecemos a história, só há liberdade onde há capitalismo, mesmo com suas miseráveis contradições. Todo mundo que quis "inventar outra liberdade" queria mesmo era meter a mão no patrimônio alheio e matar o dono.

A liberdade é um conceito que vai muito além do capitalismo. É um conceito espiritual. Pode-se viver num país comunista e se sentir livre, pode-se viver num país capitalista e não ser livre. O que Pondé tenta é justificar a miséria, a opressão econômica e a injustiça social. O homem apenas conseguiu a proeza de chegar até aqui através de sucessivas lutas em prol da liberdade. Não é a liberdade que é agonia, conflito, solidão. Isso é a vida. Lave a boca antes de falar em liberdade. Este é um conceito belo demais para ser compreendido por um colunista engaiolado numa ideologia tão mediocremente reacionária. Como dizia Goethe, "ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser".

Para quem se interessar, a íntegra da coluna de Pondé pode ser lida aqui.

19 de novembro de 2010

Golpismo forever

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Essa matéria do Globo e a forma como o assunto é abordado reforçam minha tese de que a luta contra a ditadura continua. Acusações desse quilate envolvendo a presidente da república eleita há poucas semanas deveriam receber um tratamento editorial minimamente responsável. Ainda bem que o Supremo Tribunal Militar teve a lucidez de liberar os dados somente após as eleições, porque se a campanha já estava suja, imagine o nível a que chegaria se a imprensa, no auge da disputa, tivesse estampado isso:



Não há mentiras na reportagem, e por isso mesmo ela é ainda mais pérfida. O Instituto Millenium tratou de reproduzir rapidinho...

O título confunde o eleitor, ao estampar uma afirmação que consta de um processo notoriamente viciado, conduzido por um governo ilegal, assassino e totalitário, alçado ao poder por um golpe de Estado que derrubou um presidente eleito, cassou parlamentares e acabou com a liberdade de imprensa e expressão no país. O texto em seguida vai mais longe e tenta colar em Dilma a imagem de delatora.

É como se um jornal alemão publicasse, na primeira página, acusações contra um herói nacional da resistência ao nazismo, feitas por um tribunal nazista!

Que os depoimentos dos presos políticos da ditadura não tem valor legal, já sabemos, por causa do uso sistemático de tortura e por serem realizados por um regime que violou a nossa democracia. O mais importante, porém, seria informar aos cidadãos brasileiros que não tiveram a oportunidade (como eu tive), de ler livros de história e filosofia de história, de assistir filmes sobre o tema, de papear com pessoas cultas ou que viveram de perto os anos de chumbo, o mais importante seria informar essas pessoas que os depoimentos não tinham valor MORAL!

Francamente, eu chorei lendo essa matéria. Não de ódio à perfidez do Globo ou coisa parecida. Chorei ao imaginar uma jovem culta, sensível e inteligente de vinte anos de idade sendo seviciada barbaramente por homens truculentos e impiedosos. Flaubert já falava que para se entender a história é preciso ter imaginação: porque só assim se poderia conceber, segundo ele, a dimensão de uma tragédia histórica como a destruição de Cartago. Então eu penso: e as tragédias humanas? Há coisas tão terríveis que talvez seja melhor nem imaginarmos. Todos queremos esquecer. Nosso próprio cérebro oculta de nós mesmos, escondendo em desvãos quase inacessíveis da memória, as nossas lembranças mais terríveis, mais humilhantes. Dilma sempre manteve um silêncio digno, mas também machucado, em relação ao que viveu durante a ditadura. Se ela tivesse se tornado uma pessoa rancorosa, ninguém poderia culpá-la. Pô, eu nunca fui torturado pela ditadura e odeio essa mídia golpista de um jeito que nem consigo explicar direito. Imagina se eu tivesse sido torturado? Acho que me tornaria uma pessoa tão rancorosa que fundaria uma seita apocalíptica cujo objetivo principal seria a destruição, física e espiritual, de todos os jornais e empresas que apoiaram o golpe.

Deixe-me explicar direito. Eu sou cristão. Ateu (momentaneamente ao menos), mas cristão, se é que isso faz algum sentido. Ou seja, acho que todo mundo tem direito de errar e tem a obrigação de perdoar os outros. Mas o Globo não só "apoiou" o golpe de 64. É isso que estou tentando dizer há anos por aqui. Eu estudei as edições do Globo de janeiro a abril de 1964. Os microfilmes estão todos na Biblioteca Nacional, na Cinelândia, Rio de Janeiro. Alguém deveria urgentemente digitalizar tudo e publicar na internet. Vocês não imaginam o que o Globo (e a Folha e o Estadão, a trinca maldita) publicava naquele tempo. O governador Carlos Lacerda disparava as calúnias mais grotescas, como dizer que Jango iria implantar, em questão de dias!, uma república soviética no Brasil. E o Globo repercutia descaradamente.

Lacerda era completamente louco, mas com método! Criou-se uma atmosfera de histeria de tal monta que as pessoas sentiam-se sufocadas. A tortura, portanto, não foi implantada pela ditadura, e sim pela mídia, que deflagrou um processo de tortura psicológica violentíssimo nas semanas de antecederam ao golpe.

De vez em quando alguém tenta minimizar o papel da mídia, dizendo algo como: "meu pai me falava que o Globo não era tão importante assim..." Mentira. Os editoriais do Globo, assim como hoje, eram lidos em voz alta no plenário da Câmara dos Deputados! Jânio Quadros, assim que foi escolhido como candidato da UDN, correu para as páginas do Globo para dar entrevista.

Esses jornalões não "apoiaram" o golpe. Eles articularam o golpe. Três forças políticas derrubaram Jango: os governadores de Minas, São Paulo e Rio; os generais; e a mídia. Sem a mídia, não haveria golpe, ou seria muito mais difícil que ele ocorresse.

A gente tem que pensar com um mínimo de grandeza. Tem que ver as coisas sob uma perspectiva histórica. Quais foram as consequências da ditadura? Que forças emergiram ali? A partir dos anos 80, a América Latina começa a despertar do pesadelo totalitário, e o que vimos? Um continente arrasado social, politica, cultura e moralmente. Enquanto EUA e Europa viveram intensamente os anos 60 e 70, um período emocionante, pleno, de crescimento econômico e densidade cultural, a nossa juventude morria de fome, de tristeza, de tortura... Eu não me conformo com esses números frios que mencionam apenas algumas centenas de jovens mortos durante o regime militar. E os milhões de brasileiros que morreram de fome, sede, doenças e desastres naturais, sem que sequer uma notinha fosse publicada nos jornais? Em regimes democráticos, essas mesmas pessoas talvez também tivessem morrido, mas aí a culpa seria de toda a sociedade, e não do governo, porque este seria um representante do poder que, na realidade, emana da população. No caso de um regime totalitário, ilegítimo, que usurpou a soberania sagrada do povo, a culpa de todos os males nacionais passa a ser exclusivamente sua.

Então, como eu dizia, eu sou cristão e estou disposto a perdoar quem apoiou a ditadura, desde que esta empresa peça desculpas! Pô, até a Igreja Católica pediu perdão pela inquisição, porque nossa mídia não pode pedir desculpas pelo que fez durante a ditadura? Mas não. Não pede desculpas e agora publica documentos da ditadura que difamam uma de nossas maiores heroínas, a nossa presidente recém-eleita Dilma Rousseff, sem o mínimo cuidado de contextualizá-los perante seus leitores. Sem alertá-los sobre os vícios do processo. Estampando títulos capciosos.

Aí não tem cristão que dê jeito! Não posso perdoar quem não pede perdão e continua cometendo o mesmo erro que antes. É muita petulância!

Perguntamo-nos: o que fazer? As pessoas congestionam a blogosfera com milhares de comentários indignados, alguém idealiza manifestações, a sociedade propõe regulamentar a mídia, eu escrevo longos textos políticos para meu blog, mas sempre fica aquela sensação de impotência, de que é preciso fazer mais. É bonito isso por outro lado, porque essa sensação é o próprio espírito da justiça agitando-se dentro da gente. O espírito da justiça e o espírito da história, por mais poderosos, belos e infinitos que sejam, apenas podem se realizar através do indivíduo. E vale a recíproca: por mais que seja este poço de vaidade, ambição, vício, medo e fragilidade, o homem carrega em si o espírito do mundo, um código genético aperfeiçoado ao longo de milhões de anos que nos dotou de uma inteligência e uma intuição que nem sabemos usar direito. E a culpa nem é nossa. Simplesmente não dá tempo! Mal a gente começa a aprender umas coisas e já está na hora de ir embora. A gente acorda, toma um café da manhã, lê os jornais, trabalha e já está na hora de dormir de novo. Eu fico pensando sempre: quando teremos tempo, meu Deus! Minhas estantes estão repletas de livros que eu amo mas que exigiriam mais duas ou três vidas para ler e reler.

Enfim, a luta é árdua e a cerveja (ou o dinheiro) sempre acaba um pouco antes da hora. Hegel ensina que temos que perseguir nossas próprias paixões, desde que devidamente filtradas pelos neurônios remanescentes, pois nada de valor no mundo jamais foi ou será feito sem paixão. Então, como diria o impagável Jânio, fá-lo-emos!

17 de novembro de 2010

Fugindo do tédio

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(Outra foto da Resende).

Tento ler os jornais, mas não vou muito longe. Os assuntos parecem repetir-se. A mesma guerrinha de sempre. Ontem, papeei com um amigo sobre os assuntos do dia, sobretudo o surto de racismo & regionalismo observado no período pós-eleitoral. Esta semana, parei de ler uma coluna no segundo parágrafo, quando o autor afirmou não suportar aeroportos porque pareciam uma extensão do churrasco na laje. Se fosse uma piada, tudo bem. Não era. O cara falava à sério.

São atitudes que merecem um desprezo profundo. O que fazer? São lamentáveis e tristes, em alguns casos até trágicas (como o espancamento de gays em São Paulo); marginais, porém. Não creio (ou não quero crer) que refletem nova força racista emergindo na sociedade.

Uma amiga namora um rapaz que conseguiu convites para assistir ao GP de Fórmula I em São Paulo. Ela contou-me, há poucos dias, que ela e o namorado foram várias vezes agredidos, verbalmente e com chuva de objetos, por grupos de jovens. Gratuitamente. Ela relatou, impressionada, que o ingresso custava R$ 600 e os rapazes tinham todos aparência de estudarem em bons colégios e terem uma vida confortável. Esse é o jovem paulistano que estuda em colégio particular e votou em Serra.

Quer dizer, ainda existe, claro, racismo e preconceito na sociedade brasileira. Só mesmo o Ali Kamel - talvez por ter atravessado a juventude protagonizando filmes eróticos, em vez de estudar - que não vê. Mas não acredito que tenha aumentado em relação ao período anterior (ao contrário do que vemos nos EUA e Europa, onde há, de fato, recrudescimento do racismo e xenofobia).

Há, por outro lado, como vemos nesse patético artigo do Pondé, que prefiro nem linkar, uma irritação com a derrota sofrida pelo partido da mídia e das elites. Natural. A maneira como essa irritação tem sido externada, porém, serve apenas para ilustrar porque perderam. E desmoraliza ainda mais o conservadorismo brasileiro, que assume ares melancolicamente terceiromundistas.

O que não podemos fazer, entretanto, é subestimar o poder midiático de construir consensos. Essa é uma das principais lições do grande Noam Chomsky. Quando se põe humoristas, chargistas, colunistas, historiadores, âncoras de tv, todos para afirmar a mesma cosia, é muito difícil, mesmo para um intelectual, fugir da rede armada para capturar as consciências.

Porque uma coisa é o talento, outra a consciência política. É tristemente comum, não só no Brasil e não só hoje, vermos pessoas extremamente talentosas mas desprovidas completamente de senso político. Heidegger, um dos maiores filósofos da modernidade, destacando-se inclusive com um pensamento do tipo progressista, apoiou o nazismo.

E pensando bem, não adianta culpar ninguém.

Por isso gosto tanto do Hegel, porque um dos pontos importantes de sua filosofia da história é não julgar açodadamente nenhum indivíduo ou grupo, visto que os mesmos muitas vezes sequer tem consciência do papel que representam.

Essa menina, por exemplo, Mayara Petruso. Uma boba, que de repente viu-se no meio de um furacão, condenada pela OAB, servindo de bode expiatório num processo onde os verdadeiros culpados eram os meios de comunicação. Claro, ela é maior de idade e responsável por seus atos... mas isso é uma interpretação fria das coisas.

Enfim, a gente dá umas voltas por aí e acaba sempre, ao final do rolé, batendo a cabeça contra a mídia, que se torna como que a origem de todos os males... Afinal, os governos, mesmo os mais ruins, sempre podem ser derrotados nas urnas, ou mediados por um legislativo crítico. A imprensa tornou-se o único poder público que ainda é hereditário e livre das amarras republicanas. Sem contar que há uma contradição gritante no processo de redemocratização: os profissionais que se sentiram prejudicados pela ditadura tem recebido polpudas indenizações e pensões do Estado brasileiro (que tem mais é que pagar mesmo), e ao mesmo tempo toda a sociedade, que também foi vítima, não recebe nada; pior, os jornais que açularam o golpe e que beneficiaram-se enormemente dele (de várias formas, inclusive pelo fechamento de seus concorrentes), sequer pediram desculpas pelo que fizeram. Não pediram desculpas e este ano ainda repetiram os mesmos bordões usados contra João Goulart em 1964.

A história é um todo orgânico, e os contrastes existentes numa sociedade são a própria vida desta sociedade, são eles que a fazem avançar. Marx usaria essa fórmula para viajar em suas teorias de revolução (que se revelaram, apesar de tudo, acertadas; as revoluções aconteceram; falar que o comunismo morreu é simplesmente ignorar a China). Há uma força histórica (o Espírito da história) que ultrapassa a compreensão humana e mesmo as tragédias e vicissitudes são assimiladas por ela, e convertidas posteriormente em etapas para o autoconhecimento do mundo. Pessoas e países ignoram o seu próprio papel na história.

"A crítica subjetiva que apenas visa o particular e seus defeitos, sem aí reconhecer a Razão Universal, é coisa fácil; ela autoriza todas as fanfarronadas de exibicionismo, na medida em que ela confere, com ares de generosidade, a segurança da devoção ao bem geral", diz Hegel, em A razão na história.

As pessoas condenam o bolchevismo, o código florestal, o nordestino pobre, a Katia Abreu, muito seguras de que estão dando uma grande contribuição à sociedade. E talvez estejam mesmo, mas não da forma que elas pensam. Vide o caso Mayara: ela contribuiu para trazer luz ao racismo que existe concretamente em São Paulo e outras partes do Brasil, ligado à política, mas que ficava enrustido. A emoção da derrota, enfurecendo a cobra, fê-la cometer um erro: mostrar-se. Só assim podemos decepar sua cabeça. Ela fez um bem, e deveria, ao invés de ser crucificada, receber um tratamento, na mesma filosofia com que tratamos os viciados em crack. Taí, o mundo midiático se tornou uma grande crackolândia...

A natureza busca o equilíbrio, o qual se dá através da luta. A postura golpista da mídia brasileira ajudou a construir uma enorme massa crítica, ou seja, acendeu um alerta que ainda é tímido no mundo: numa sociedade globalizada, o poder midiático multiplicou-se e atingiu um patamar inédito, incontrolável, perigoso. O princípio do poder numa democracia emana do povo, e somente do povo; se há um setor corporativo que lida diretamente com o poder, como é a mídia, mas à diferença dos outros poderes, não é regulado democraticamente, temos um problema. Ah, pode-se dizer que o mercado faz o papel de povo, porque as pessoas decidem se assistem ou não determinado canal de TV, ou lêem ou não determinado jornal. Certo. Mas se pensarmos assim, imporemos a lei do mais forte. Com um agravante: sabemos muito bem qual foi a academia onde as empresas brasileiras de comunicação formaram seus músculos. Na academia militar...

Como eu dizia, no entanto, a natureza procura o equilíbiro e cumpre ao Estado proteger essa tendência. Por isso, as verbas de publicidade estatal, hoje, representam um forte fator de injustiça. Ou não dá para ninguém, ou dá para todo mundo. A partir do momento em que eu, como blogueiro, assumo um papel de mediador e uma função de importância pública, não entendo e não quero aceitar que a revista Veja e, por conseguinte, os colunistas e os blogueiros da Veja, recebam ajuda do contribuinte brasileiro (e logo de mim mesmo!) e eu continue a ver navios.

Aos poucos vou desenferrujando e voltando a escrever...

15 de novembro de 2010

Les temps libres

4 comentarios

Ah, a paz finalmente. Missão cumprida! Dilma eleita, traduções feitas, blog novo.

Escutando música clássica na Rádio Mec, pensando na vida, revezando entre um suspense trash-cult e filosofia alemã, provocando polêmicas no twitter (como defender Aldo Rebelo, o novo código florestal e, por tabela, meio que sem querer, a Katia Abreu, os bolchevistas, e uma visão menos maniqueísta da história ), as feridas de guerra vão secando, enfim.

Cada um luta por seus deuses e vive sua forma particular de loucura. Entretanto, como dizia William Blake (e os presocraticos,  o Velho Testamento e o Alcorão), o que é loucura para os homens é razão para os deuses.

A vida é cheia de paradoxos irônicos e trágicos, como o fato de que os maiores índices de suicídio do mundo se darem no norte da europa.

Cada filósofo tem suas portas de entrada, livros por onde você pode escalar o conhecimento de seu universo de ideias. No caso de Hegel, acho que são os títulos Razão na História e Introdução a História da Filosofia, obras repletas de paixão humanista. Esse ano (o ano de 2010 para mim terminou no dia 31 de outubro; estou em 2011) tentarei encarar novamente a Fenomenologia do Espírito, voltar a escrever sobre arte, arriscar um pouco de ficção, beber menos (ou mais, ainda estou na dúvida quanto a isso), e, claro, ganhar dinheiro (promessa que me faço todo ano).

E ainda tem toda história da blogosfera. O Rio Blog Prog... Os blogueiros progressistas. Ontem divaguei um pouco sobre algumas questões práticas para nossa organização.

http://rioblogprog.blogspot.com/2010/11/propostas-praticas.html

*

Agora vou confessar uma coisa. Estou decepcionado com a instabilidade do meu provedor. Toda hora sai do ar e eu não posso fazer nada. Mas não vou mudar de novo tão cedo porque não tenho mais paciência. É muito suplício. A internet tinha que ser livre, sem provedor sem nada. Você criava um site e podia usar. O sistema de provedor é algo medieval.

Também não acho o wordpress a maravilha que os programadores dizem. Primeiro: tem que pagar para mexer no layout. O blogspot é aberto gratuitamente. O valor é pequeno, mas não gostei disso.

A plataforma do wordpress também é mais lenta. Um site wordpress demora mais para carregar que um blogspot, pelo menos esta é forte impressão que eu tenho.

Se o serviço continuar ruim assim, eu mudo de volta para o blogspot.  Já sou dono do endereço gonzum.blogspot.com, onde tem hoje o Sebo Gonzum, idéia minha de uns anos atrás, atualmente aposentado, o qual deixo no ar porque tem umas resenhas legais de minha autoria. Devia ter me mudado diretamente para lá...

Mas vou dar um tempo por aqui, até por cansaço.

*

Encerro com a tradução de um poema de Robert Frost:

Nada que é dourado pode subsistir

O primeiro verde da Natureza é dourado,
para ela a cor mais difícil de fixar.
Sua primeira folha é uma flor;
mas apenas por uma hora.
Depois folha sucede à folha,
e o Paraíso recai na dor;
a aurora dá lugar ao dia,
o ouro morre em agonia.

Robert Frost (1874 - 1963)
Tradução de Miguel do Rosário, nov.2010

Original:

Nothing Gold Can Stay
by Robert Frost (1874-1963)

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

*

E um vídeozinho documentário de celular que a Priscila fez em Los Angeles, este ano.