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24 de dezembro de 2010

O Redentor esboça um sorriso

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Segue abaixo artigo meu publicado pela Revista Forum deste mês:

Facções do crime organizado que cresceram à sombra do cenário de exclusão social no Rio de Janeiro sofreram um duro golpe. Mas ainda há muito por fazer.

Por Miguel do Rosário

“Se houver tristeza, que seja bonita”, dizia Candeias, um sambista que – assim como tantos outros – conseguiu extrair do ambiente miserável das favelas cariocas uma poesia de alcance universal, capaz de atingir a massa, a intelectualidade, e se tornar um dos símbolos mais representativos da cultura brasileira. Mas foi-se o tempo em que a classe média subia os morros para conhecer o berço do samba. Nem os bailes funks, moda entre a juventude no final dos anos 90, atraem mais a burguesia cult da zona sul. Em tempos de globalização e interatividade, muitas favelas seguiram o caminho inverso e fecharam-se em si mesmas, tristes, abandonadas, violentas. Continuaram crescendo, no entanto, silenciosamente, rapidamente, aproveitando-se da generosidade verde das intermináveis encostas de uma cidade coalhada de montanhas.

A tristeza da favela deixou de ser bonita (se é que foi algum dia). Com a abertura política e a volta da liberdade de imprensa pode-se conhecer o que havia acontecido durante os anos negros da ditadura: o município havia deixado crescer, sob suas barbas, imensas comunidades totalmente desprovidas dos serviços mais básicos. Há favelas no Rio desde o final do século XIX, mas é a partir dos anos 1970 que elas ganham a dimensão monstruosa que têm hoje.

Nesse ambiente caótico e sem esperança, aterrissa na favela, como que de paraquedas, a economia da droga. O resto da história é conhecido. A quantidade enorme de dinheiro que passou a circular no coração das comunidades mais carentes do Rio, impactando profundamente o imaginário do jovem favelado. Uma geração inteira cresceu venerando as lideranças do crime.

Continue a ler no site da revista.

29 de novembro de 2010

Mídia ainda idolatra milicos

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Analisar as recentes operações militares em favelas do Rio requer muito cuidado para não sermos levados, meio que distraidamente, a uma visão cînica e oficialista. O triunfalismo da mídia é constrangedor. Poucos dias antes da tomada do morro do Alemão, o guru dos alienados da rede, Marcelo Tas, escreveu uma mensagem no Twitter em que pedia que o exército, depois de resolver o problema do Rio, se dirigisse ao Congresso Nacional e "limpasse" a casa. Houve resposta imediata, naturalmente. Outro Marcelo, o Branco, rebateu que os militares já tinham feito aquilo, na ditadura. A babação de ovo da mídia pelos milicos é atávica, golpista e doentia. É bom ficar de olho bem aberto.

O carioca quer paz e isso não é um desejo hipócrita da burguesia zona sul. A cidade inteira quer paz. Os acontecimentos dos últimos dias, deflagrados por uma estranha onda de terrorismo, por ordem de lideranças do crime organizado presos em unidades federais, forçaram o Estado a adotar medidas duras de combate ao tráfico de drogas.

O entusiasmo quase bêbado, no entanto, com que as redes de tv descrevem os eventos, revelam que o coração da mídia ainda bate dentro de um uniforme do exército.

É importante dar combate aos traficantes armados, donos (ou gerentes) de um poder paralelo em todas as grandes favelas cariocas. Mas a narrativa midiática dá a entender que se trata de uma ação puramente militar. Paulo Henrique Amorim, com seu estilo cortante, resumiu bem:
Polícia corrupta, políticos corruptos – só tem saída no pau !Com o retumbante sucesso da ocupação do Alemão – clique aqui para ler – pergunta-se: o Padilha vai fazer o Tropa de Elite III ? Vai botar o delegado Beltrame no lugar do maluco do Capitão Nascimento ?

O que estamos assistindo hoje no Rio, e essa é a diferença mais importante em relação a operações anteriores, é uma grande ação política. Primeiro, vem se construindo uma coordenação em caráter PERMANENTE entre as esferas de poder municipal, estadual, federal. Segundo, há ações sociais intensas junto a favelas. O Complexo do Alemão, antes de ser tomado pelas forças de segurança, foi objeto de grandes investimentos, por parte sobretudo do governo federal, através do PAC das favelas, em urbanização, o qual também gerou muito emprego na comunidade. Diminuindo o desemprego, quebrou-se o prestígio do tráfico junto ao imaginário do morador local. Construiram-se creches, escolas e postos de saúde. O deputado Marcelo Freixo, um corajoso lutador em prol dos direitos humanos na cidade, publicou artigo recente nos grandes jornais fazendo uma denúncia bastante genérica das condições sociais do Alemão e das favelas, mas muito convenientemente (do ponto de vista partidário) esqueceu de mencionar os investimentos do PAC nas áreas de favela do Rio, que somam valores que as favelas nunca viram em séculos.

Se um décimo do esforço empregado pelo Globo na cobertura da invasão e ocupação do morro do Alemão fosse usado para nos contar, em detalhes, como andam as obras de infra-estrutura que o governo federal (em parceria com o estado), na mesma favela, eu poderia fingir acreditar que a empresa se preocupa realmente com o bem estar dos cariocas. Não peço elogios não. Se for para criticar o PAC das favelas, que o façam, mas sem veneno e sem mentira. Crítica bem feita e honesta sempre ajuda o governo e a sociedade.

A tomada do Complexo do Alemão, portanto, não deve ser creditada apenas aos militares. Houve ação social antes. E tem que continuar havendo. Por isso o triunfalismo midiático é tão irritante. Os policiais tomam os morros, ótimo. Os âncoras da Globo choram como se os soldados os houvessem libertado de um cativeiro de sete anos junto às Farc. Um comandante do Bope explica, porém, que parte dos traficantes pode ter fugido por túneis para outra favela, de maneira que, enquanto não forem instaladas UPPs nas mil favelas da cidade, os traficantes pularão de galho em galho até encontrarem uma maneira mais discreta de distribuirem sua mercadoria aos consumidores.

O problema não é esse. É muito fácil defender que a polícia prenda ou mate o bandido. O gargalo social do Rio reside numa educação falida e muquirana, que paga salários de fome para os professores (600 reais por mês), um dos menores do país. Os professores do estado do Rio são tão miseráveis que não tem força sequer para se organizarem e lutarem por melhores salários. E quando eles fazem manifestações, a mídia nunca fica do seu lado.

A perseguição constante da mídia ao Congresso, ao Executivo, à blogosfera, contrasta com a euforia lacrimejante com que ela narra a intervenção militar nos morros cariocas.

Aos governos, cabe não se deslumbrar com o apoio ensandecido que o Globo faz da invasão às favelas, e agir com firmeza e equilíbrio, articulando ações de desarmamento com políticas sociais, pois estamos lidando com famílias marcadas pela pobreza e pelo preconceito. E não digo isso como uma sugestão "esquerdista": faz parte da estratégia para combater o crime a médio e longo prazo.

As colunas do Globo, entretanto, vem repletas de aspas fora do lugar.

Entro no site do jornal e me deparou com um texto cheio de veneno:
Além disso, os traficantes têm o seu “lado humano” e são admirados pelos moradores das comunidades na qual vivem.

Tudo o que não queremos é que a mídia use seu poder narrativo para transformar as ocupações dos morros cariocas num discurso protofascista que festeja ações militares como o suprassumo do poder estatal.

Ironia das ironias: a mesma mídia que promove dia e noite a idéia de um Estado mínimo e abre espaço para filósofos do ultraindividualismo, a mesma mídia que se recusa a enxergar virtudes em políticas de transferência de renda, agora se ajoelha, extasiada, perante ações de segurança de alto custo para os contribuintes, necessárias para resolver um problema criado pela proibição ao uso - individual - de certas drogas.

Entendam: eu apoio as UPPs. Não acho que resolve a situação da segurança nem na cidade nem no estado nem no país, mas sei que integra um conjunto de políticas públicas. A UPP pode dar certo justamente porque agrega iniciativas de urbanização e assistência social. O morro Dona Marta, por exemplo, que também recebeu uma unidade permanente de polícia, foi agraciado (com muita justiça) por uma rede de internet sem fio grátis. Quando o Estado oferece direitos, o cidadão cumpre seus deveres. É uma relação dialética um tanto cínica, mas por isso mesmo humana, demasiadamente. A solução do Rio não é militar, é política. Tanques nas ruas e favelas ocupadas por polícia tranquilizam os grandes proprietários mas não resolvem nada. Os ricos tem seus planos de saúde de mil reais por mês e seus filhos hoje só se mobilizam politicamente quando lêem no Globo que houve problema no Enem - todo mundo lotou os cinemas para assistir Tropa de Elite 2 e bateu palmas quando o Capitão Nascimento espancou um político safado, mas ninguém parece ligar muito, nem os novos gênios do solipsismo sociopata que o Instituto Millenium anda patrocinando, para a decadência inexorável dos serviços públicos de saúde, por exemplo. Ter uma boa rede de postos de saúde e hospitais, eis uma vitória que eu quero festejar. Recuso-me a dançar a marcha militar que a mídia tem trombeteado em nossos ouvidos.

23 de fevereiro de 2009

Exercício para uma crônica de carnaval número 1

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Tem gente que ainda não sabe, mas o carnaval do Rio mudou muito nos últimos anos. E pra melhor. Durante a década de 90, o carnaval do Rio dormiu profundamente. Existia somente no sambódromo. A festa havia migrado para as cidades vizinhas: Saquarema, Búzios, Nova Friburgo, Sana, o carnaval comia solto e louco por aí. Eu, como bom carioca, já passei carnavais em todas essas cidades. Insanas e inesquecíveis festas. Lembro de um carnaval em Búzios em que eu e uns amigos dividíamos um quartinho apertado de uma pensão. O dono da pensão não podia saber que éramos cinco dormindo espremidos, porque pagávamos apenas para três ocupantes. Para economizar, compramos várias caixas de cerveja no supermercado, e descobrimos que a geladeira da pensão, onde planejávamos gelar a bebida, não estava funcionando. A solução, para não passarmos o carnaval "de cara" foi beber... tudo quente mesmo! Incrível o que não se faz com dezessete anos. Bebemos umas quarenta long-necks quentes!

Pois bem, eram tempos em que todo mundo fugia do Rio. Hoje é o contrário. De uns dez anos pra cá, o Rio recebe gente de todo país e os blocos de rua renasceram com força total. A prefeitura reativou o carnaval da Avenida Rio Branco, por onde passam os ultra-tradicionais Cacique de Ramos e Bafo da Onça e monta palcos com shows na Lapa e Cinelândia. Este ano, não houve show nos Arcos da Lapa, mas em compensação, as dezenas de casas de show promoveram festas e pagodes. E muitos blocos pequenos surgiram nas imediações do Bairro de Fátima e Lapa.

Um dos blocos mais legais é o Boitatá, que parte às nove horas da manhã da rua do mercado, dá umas voltas pelo centro e termina na praça XV. É frequentado por universitários e belas jovens de toda cidade. A criatividade nas fantasias nos carnavais do Rio é espantosa. Impossível descrever os milhares de tipos que rondam a cidade. Preto velho, mamãe noel, peter pan, minnie, emília, melindrosa. Vi homens e mulheres fantasiados de pia de lavar, ônibus, presidiário, policial, empregadinha.

Enfim, creio que eu faria uma belíssima reportagem se tirasse muitas fotos e publicasse por aqui. Amanhã o farei.

No entanto, não sou tão carnavalesco assim. Musicalmente, acho o Carnaval um tanto enjoativo e, na verdade, passo a maior parte do tempo em casa, fazendo outras coisas. Mas se você não vai ao carnaval, ele vem até você. Qualquer voltinha inocente pela rua, e pimba! o carnaval te pega. No sábado, início de tarde, eu saí para dar um passeio de bicicleta e parei hipnotizado na Mem de Sá, com a quantidade de pessoas fantasiadas, dançando ao som de músicas que vinham dos bares. Era a multidão que refluía do super-bloco Cordão do Bola Preta, na Cinelândia, e vinha pra Lapa. Apareceu um trio elétrico - outro bloco, o Carioca da Gema, que empolgou a galera tocando Tim Maia e Jorge Benjor. Parei ali, tomei uns quatro ou cinco latinhas e dei risada com as fantasias esdrúxulas que passavam.

O melhor bloco de que tenho notícia é o Boi Tolo, filho bastardo do Boitatá. O nome vem dos foliões perdidos em busca do Boitatá, que até poucos anos atrás não tinha hora nem local certo, justamente para não atrair grandes multidões - como atrai agora. Daí surgiu o Boitolo. Neste domingo, encontramos o Boitolo por acaso, vindo pela Sete de Setembro, atravessando a Primeiro de Março e subindo as escadas do suntuoso Palácio Tirandes, sede da Assembléia Estadual. O som rolou primeiro nas escadas, depois subiu um pouco e rolou lá em cima. Depois a banda desceu e voltou pela Sete de Setembro, virou na Avenida Rio Branco, depois virou em outra rua e acabou sob os pórticos do histórico edifício Gustavo Capanema. Todo mundo dançando e cantando muito. A banda trazia, além da percussão básica, muitos instrumentos de sopro. Nada elétrico. Muito autêntico e divertido. Uma diversão totalmente gratuita.

E eu, como de praxe, tentava bater meu recorde pessoal de latinhas de cerveja. A certa hora, o pessoal começou a entoar entuasticamente o refrão: ÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ / O Rio é melhor que Salvadôôôr / O Rio é melhor que Salvadôôôr / O Rio é melhor que Salvadôôôr /O Rio é melhor que Salvadôôôr /O Rio é melhor que Salvadôôôr /O Rio é melhor que Salvadôôôr. Suspeito que euforia com que as pessoas cantavam esse refrão sugere uma denúncia alegre mas enfática do carnaval elitizado e separatista de Salvador, onde as pessoas compram abadás de 400 reais (por dia) para permanecerem dentro de cordões de isolamento, usando uniforme idêntico, afora os camarotes ainda mais caros, de onde se pode assistir confortavelmente os trios elétricos. E, sobretudo, uma denúncia do empobrecimento musical do axé music, hoje um estilo absolutamente vendido, cafona e medíocre. Os foliões do Boitolo cantavam clássicos da MPB em ritmo de samba e marchinhas famosas, ressuscitando os inesquecíveis carnavais que a cidade viveu até os anos 60, quando o baixo astral da ditadura começou a prejudicar a festa.

Eu bebia agora devagar, para não vomitar. Gastei menos que 20 reais e não conseguia nem mais beber. Legítima diversão de rua, barata e democrática, como eu gosto. Como eu preciso. Depois uma turminha que encontrei nos convidou a ir ao Balanga Lafumenga, um bloco do Jardim Botânico. Pegamos um ônibus e fomos todos. Tirei uma soneca no caminho. Chegando, contudo, nos arrependemos de termos ido. Não é difícil agradar intelectualóides respirando arte, cinema e política - como a gente.

Aquele bloco, aquele bairro, era um ninho de playboys marombados e suas pirigetis (tenho assumido preconceito contra a zona sul carioca, foco de pitbulls enlouquecidos, prostitutas disfarçadas de moças de família, gabeiristas alienados e demais bichos escrotos), e estávamos cansados e com fome. Eu, como já contei, havia tomado mais de dez latinhas e a lombeira chegava, insidiosa e dominadora. Voltamos para o centro, onde moramos, e passamos o resto da tarde em nosso quarto-e-sala simples e aconchegante da rua do rezende. À noite, assisti um filme horroroso, intitulado Ataque dos Tubarões e fui dormir sentindo-me culpado por ter perdido meu preciso tempo com um enlatado americano tão ruim.

*

A moça na foto é a Monica Bellucci novinha, e não tem nenhuma relação com a crônica, mas é uma imagem tão bonita que não resisti, e tasquei mesmo assim.

17 de fevereiro de 2009

Ancelmo Gois e seu emprego

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Ancelmo Gois é um cara que oscila entre o progressismo boêmio e um lacerdismo forçado. Isso porque dá para sentir que Gois é um cara "gente boa". Só falta a ele o mais importante: liberdade. Hoje ele publicou uma nota que me aborreceu profundamente.

A nota vem acompanhada de duas fotos da Lapa, junto aos Arcos. Na primeira foto, vemos várias barracas de camelôs vendendo salgado e bebidas, iluminadas, limpas, com pessoas circulando entre elas, tendo ao fundo os Arcos. Na segunda, tirada há cem anos, vemos os Arcos e, junto dele, dezenas de barracas de camelôs.

Até aí tudo bem. Qualquer ser humano racional concluiria que os ambulantes fazem parte da boemia lapiana desde priscas eras. Mas Gois escreve o seguinte: "Apesar dos cem anos de diferença, chama a atençao a presença de ambulantes, que levam caos ao bairro boêmio e angustiam comerciantes e autoridades."

Gois destila, nessa frase, um preconceito e uma estupidez indesculpáveis. Preconceito porque ele desconsidera que o vendedor ambulante seja também um "comerciante". Estupidez porque finge não entender que o "bairro boêmio" só é boêmio por causa de suas características, com a onipresença de ambulantes, que trazem luz, segurança e oferta de comes e bebes a preços populares.

A Lapa, senhor Ancelmo Gois, não é o Jobi, barzinho proto-fascista onde clientes comem dedos de outros por causa de suas opiniões políticas. A Lapa é um bairro de massas, onde todas as tribos se reúnem, a grande ágora carioca e quiçá brasileira. Com ambição de se tornar uma ágora mundial. Os ambulantes, todavia, são fundamentais, porque ocupam os espaços e trazem vida, alegria, luz e empregos para o bairro. Sem esquecer o principal: a liberdade. Talvez por isso o ambulante seja tão odiado pela classe média zona sul leitora de Globo, com sua mentalidade de empregado. O ambulante não é empregado de ninguém. Ele é pobre, ocupa um dos lugares mais baixos da hierarquia social, mas boa parte não gostaria de trocar seu trabalho por nenhum emprego em multinacional, porque eles desfrutam do maior bem: a liberdade.

Essa liberdade é sentida na Lapa. É uma energia que toma conta do bairro. Por isso, Gois, não seja estúpido. Não desrespeite o ambulante, que, como você viu, ocupa a Lapa há mais de cem anos. Matando o ambulante, vocês matarão a Lapa. Pode organizar, pode legalizar. A Associação de Ambulantes da Lapa está aí para isso. Eles querem organização e apoio do Estado. Querem pagar impostos, tudo certinho. Mas querem, sobretudo, respeito, tanto do Estado quanto da mídia. O que você fez, afirmando que eles "trazem o caos ao bairro boêmio" é uma imbecilidade indesculpável, porque ignora a formação histórica da Lapa, tanto antiga quanto recente, onde a presença dos ambulantes foi fundamental para a revitalização do bairro.

Entendo que Gois quer garantir seu emprego. Nada melhor para agradar seus patrões do que criticar camelô. Se tiver interesse, entretanto, em garantir o que ainda resta de seu prestígio junto a seus leitores, terá que rever sua visão sobre a Lapa e seus ambulantes.

1 de fevereiro de 2009

Eduardo Paes, tire as mãos de cima dos ambulantes!

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Há duzentos anos que as autoridades cariocas praticam a mais truculenta e desumana e burra repressão ao comércio ambulante. Ironicamente, o Rio é uma das cidades onde o comércio ambulante, o popular camelô, é uma das instituições mais tradicionais e mais arraigadas. O carioca gosta do camelô. Compra no camelô. E todo carioca vê no camelô uma espécie de "seguro-desemprego". Ou seja, em caso de dificuldades, sempre há a possibilidade de montar uma barraquinha na rua e vender refrigerante, salgadinho, quinquilharias eletrônicas, roupas, livros, tudo.

O camelô, por outro lado, por razões ideológicas que ainda estou tentando compreender, sofre uma perseguição implacável das elites, encasteladas em seus super-apartamentos da zona sul, perseguição esta que tem como porta-voz o house-organ O Globo. Qualquer prefeito, portanto, se deseja conquistar a simpatia da família Marinho e seus leitores do Leblon, basta mandar sentar o cacete nos ambulantes. Será ovacionado pelos aposentados fascistas que mandam cartinhas pros jornais. Por não mais precisarem correr atrás do pão, esses missivistas desnaturados esnobam de quem precisa.

É natural, é necessário, que haja ordenamento. Mas o prefeito precisa ter um mínimo de sensibilidade social e política para entender que o camelô, antes de tudo, é um ser humano com uma história de vida - geralmente dura e triste. Não é sonho de ninguém ser camelô. É uma necessidade. A prefeitura deve ordenar, mas sem truculência, sem roubar a mercadoria de ninguém. E sem fazer "emboscadas". A tática de emboscada, de chegar abruptamente num lugar e sair correndo atrás dos camelôs, produzindo uma verdadeira caça humana, é inadmissível. Em primeiro lugar, a prefeitura deve divulgar, por um bom tempo, o que pretende fazer, antes de sair às ruas caçando camelôs como quem caça mosquito da dengue. Deve abrir linhas de crédito, entrevistar, analisar caso a caso, delimitar áreas que possam ser utilizadas.

A cidade já vive uma situação social à beira de uma explosão. Em vez de ajudar, o prefeito não pode lançar mais lenha no fogo. Há poucos dias, uma equipe da guarda municipal foi até uma avenida situada aos pés do Complexo da Maré, uma rede de favelas conhecida internacionalmente por ser a "sede" operacional dos serviços de Fernandinho Beira-Mar, além de umas das regiões mais violentas do Rio. Ora, foi um Deus nos acuda. Camelôs, entre eles muitas senhoras de idade, correndo pela avenida, em direção à favela, barracos sendo empurrados aos trancos, todos tentando fugir da truculência da guarda municipal. Eu pensei: os traficantes, os bandidinhos da favela vão sentir, mais uma vez, que escolheram o caminho certo. É melhor infringir a lei e ganhar uma grana forte do que fazê-lo para ganhar a merreca obtida pelo comércio ambulante. Sim, porque o comércio ambulante é uma atividade de baixa remuneração. Em geral, o camelô obtém somente o necessário para sua sobrevivência, embora existam muitos, mais talentosos e esforçados, que conseguem faturar uma grana razoável.

Meu ponto-de-vista é que a guarda municipal, ao reprimir de forma truculenta, sem aviso prévio, sem campanhas de esclarecimento, pratica um crime contra a humanidade e uma estupidez política escandalosa, pregando no Estado a pecha de inimigo do povo. Quem pagará a conta serão os policiais mortos por conta do ódio gratuitamente gerado. E nós que pagamos o enterro dos policiais e a diária nos presídios dos criminosos. Entendo que há casos em a repressão é necessária. Mas ela deve ser feita sem truculência e, no caso de recolhimento da mercadoria, a mesma deve ser integralmente devolvida a seu dono, não importando se os produtos têm ou não nota fiscal. São produtos que pertencem ao camelô. Quem pode, eventualmente, confiscar o produto por não possuir nota, é o fiscal, um funcionário especializado, que estudou e fez concurso para essa função, e não a Guarda Municipal. O produto só pode ser apreendido depois de um processo legal e transparente. Se não há estrutura para isso, então não recolham os produtos, ou devolvam-nos rapidamente, para não prejudicar a vida já difícil do camelô, que tem filhos e precisa alimentá-los. Alguém dirá: não importa! A lei tem que ser cumprida! Não é assim, neném. Existe um nome horrível para quem pensa assim: leguleio, aquele que, segundo o Aurélio, interpreta à letra e servilmente a lei, sem atender ao espírito e intenção do legislador. Ou seja, a lei foi feita com um espírito nobre, de justiça social. Ninguém escreveu lei pra guardinha municipal espancar camelô.

Há muitos anos, no Catete, existem sebos de rua. São sebos maravilhosos, que vendem clássicos da literatura a preços módicos. Frequento esses sebos desde que me entendo por gente. Tenho, inclusive, até usado estes sebos para abastecer minha livraria virtual, o Gonzum Livros. Não ficam diariamente por lá, apenas no domingo. Pois é, outro dia, estava eu por aquelas bandas, na companhia de um casal amigo de São Paulo, e disse a eles que lhes mostraria os melhores sebos de rua do Rio, onde era possível adquirir bons livros, de capa dura, por R$ 1,00. Para minha surpresa, não havia mais sebo nenhum. O choque de ordem proibiu tudo. Eles foram os primeiros a sumir do mapa porque sua mercadoria, pesada, não pode ser recolhida rapidamente. Acabar com os sebos mais populares, que constituíam já uma tradição no Catete e Largo do Machado, é outra grosseria incompreensível. Deviam patrociná-los, não combatê-los!

As areias da praia do Flamengo, onde havia, de cem em cem metros, barraquinhas de bebidas, agora estão desertas. Ao redor destas barraquinhas, que também disponibilizavam, gratuitamente, cadeiras de praia para os clientes, reuniam-se pessoas. Alguns trabalhavam ali há mais de vinte anos. O choque de ordem do novo prefeito do Rio, Eduardo Paes, recolheu a mercadoria de todo mundo e proibiu qualquer atividade na área.

O que as autoridades deveriam fazer é entrevistar os camelôs, cadastrar todos, abrir linhas de crédito, concederem autorizações e licenças, enfim, usar essa gente empreendedora, trabalhadora, em prol da geração de empregos e do desenvolvimento econômico da cidade. O que não pode é lhes puxar o tapete, empurrando-os para o desespero, que por sua vez conduz à criminalidade. Se fossem ajudados pela prefeitura, todos os camelôs se tornariam parceiros, teriam mais lucro e poderiam ser inclusive incorporados ao sistema formal de trabalho, pagando impostos.

Os locais onde os camelôs atuam sempre são mais seguros, porque os próprios cuidam de afastar delinquentes, que por razões óbvias atrapalham os negócios. Os camelôs são adversários naturais do assalto a transeuntes.

Nas eleições do ano passado, Eduardo Paes enfrentou o deputado federal Fernando Gabeira. Gabeira talvez não fosse um mau prefeito, mas estava aliado à direita e daria palanque para a direita retomar as rédeas do país em 2010. Lembro de uma crônica do Mauro Santayanna em que ele conta a conversa com um pequeno comerciante de uma cidadezinha mineira, que, apesar de não gostar de um candidato X, votou nele porque ele fazia parte da aliança que apoiava Juscelino Kubitschek e ele, como cidadão brasileiro, pensava no país e no mundo. Pensava num universo maior.

Por isso não votei no Gabeira e apoiei Eduardo Paes. Entretanto, por receber apoio da mídia e se colocar como anti-Lula, além de outras características (aparentemente) libertárias, Gabeira recebeu apoio irrestrito da reacionária zona sul carioca, obtendo mais de 80% dos votos na região. Com a derrota de seu candidato, a zona sul recebeu o novo prefeito, Eduardo Paes, com sua costumeira hostilidade. Lembro de ter conversado com pessoas totalmente histéricas, por causa da vitória de Paes. Não aceitavam a derrota. Fizeram passeata na Cinelândia contra o resultado eleitoral. Uma conhecida minha, num papo informal de botequim, literalmente rogou uma maldição sobre a cidade, afirmando que o Rio de Janeiro iria sofrer consequências terríveis por conta de sua má-escolha.

Não acho isso. O leque de alianças políticas em torno de Eduardo Paes produzirá, provavelmente, resultados muito positivos para a cidade. Mas ele, Paes, é uma pessoa politicamente limitada. Sua aproximação com a esquerda é notoriamente oportunista. Por isso mesmo acho que a esquerda carioca tem a obrigação de, por sua vez, também "usar" Paes, ou seja, influenciá-lo construtivamente, para impedir que ele deixe aflorar seu lado mais reacionário, como é o caso de sua campanha burra contra o comércio ambulante. Os partidos de esquerda do Rio de Janeiro devem assumir posições coerentes com suas próprias plataformas políticas. A Jandira Feghalli (PCdoB), por exemplo, sempre se posicionou de forma bem clara contra a truculência exercida sobre os ambulantes e, quando candidata à prefeita, prometeu estabelecer uma relação de parceria com eles. Agora é secretária de cultura de Paes. É uma força política dentro da máquina. Ótimo. É um sinal de que há gente, dentro do governo, insatisfeita com a política de repressão ao ambulante. Essa tensão interna deve ser estimulada para convencer o prefeito a mudar. Os partidos devem se manifestar. Sem deixar de apoiar Paes, devem ser duros em seu questionamento. É assim que, a meu ver, se faz política.

O prefeito disse que não tocará no comércio ambulante da Lapa antes do carnaval. Somente depois. Ora, mais uma prova de cinismo e estupidez. Ele admite a importância social e econômica do comércio ambulante, o qual, longe de atrapalhar o comércio formal, ajuda-o a faturar diariamente, já que as pessoas sempre vão preferir beber sua cerveja sentados em mesas, confortavelmente, e ao mesmo tempo, sempre preferem frequentar lugares animados, com gente bonita e jovem desfilando pra lá e pra cá. O comércio ambulante ajuda a encher a Lapa, e ocupa os espaços. A criminalidade na Lapa é baixa. Existe, claro, mas é baixa. Enfim, o que o prefeito quer? Quer "usar" o camelô, que anima o centro, e depois descartá-lo? Será um tremendo tiro no pé. Não será o primeiro nem o último prefeito a atacar os camelôs. Lembro que vi, numa dessas exposições, uma charge do início do século XIX mostrando um ambulante fugindo do "rapa". A Lapa mesmo já foi alvo de repressão anti-ambulante por diversas vezes. Como morador do bairro, posso atestar. O resultado sempre foi negativo. A um comércio ambulante estável, organizado, tranquilo, sucedia-se o banditismo desenfreado. Às ruas cheias de música e diversão inocente, sucediam-se ruas escuras, sinistras, tomadas por traficantes perigosos. E por fim os camelôs sempre voltam. Voltam e dão estabilidade e segurança às ruas. Mas voltam, sempre. Prefeitos passam, os camelôs ficam. Por quê? Por que o camelô é uma atividade econômica consagrada no Rio de Janeiro e em todo Brasil. Um dia, no futuro, será uma profissão regulamentada no Ministério do Trabalho, farão estátuas em sua homenagem e o Congresso instituirá o Dia Nacional do Camelô.

Vou dizer mais uma coisa: eu quero que o país se desenvolva e as cidades brasileiras se tornem mais seguras e organizadas, como as cidades do primeiro mundo. Mas não quero que elas sejam chatas como as cidades do primeiro mundo. Quero que a alegria e a loucura da Lapa, das noites cariocas, do Brasil, continue, porque, afinal, não somos europeus frios nem americanos sem-graça, somos um país, como ensina Jorge Benjor, tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza. Portanto tirem as mãos de cima dos ambulantes, políticos fascistas!


(Link original da imagem)