9 de novembro de 2010

Esse chá eu não quero


(Eu e os rapazes acima defendemos a liberdade, mas não a mesma do Teaparty)


Uma reflexão sobre individualismo, Teaparty e o neoconservadorismo norte-americano.

Alguns colunistas de jornalões brasileiros iniciaram uma defesa (discreta, disfarçada, mas incontestável) do novo surto de ultraconservadorismo americano, cuja face mais visível e barulhenta é o movimento Tea Party, como manifestação  legítima dos ideais de liberdade individual, tão arraigados na história dos Estados Unidos.

João Pereira Coutinho, colunista da Ilustrada, afirma hoje que "o Brasil que elegeu Dilma é o que depende do governo; nos EUA, avanço do Tea Party se liga ao DNA do país".

Em resumo, Coutinho repete a xaropada reacionária que trata o Estado como um ente invasivo e nocivo às liberdades individuais. Na verdade, é o contrário. O Estado moderno surge para proteger os direitos individuais contra grupos privados que se associam justamente para violar a liberdade das pessoas. No caso do Estado democrático contemporâneo, com todas as suas ferramentas de transparência e auto-controle, a acusação de ser um inimigo do indivíduo é ainda mais equivocada e tendenciosa.

Não se pode subestimar o perigo que este tipo de pensamento representa, ao tentar inocular na sociedade brasileira uma ideia que flerta com o fascismo mais odioso. No fundo, ele representa o lobby ideológico de magnatas, associados politicamente, que se sentem acima de qualquer responsabilidade perante o resto do planeta, e continuamente se esforçam para demonizar o papel do Estado junto ao cidadão comum com vistas a poderem exercer o seu poder neo-feudal com mais desenvoltura.

O discurso antiestatista na Saúde, para mim, é o mais estúpido. Diz-se que o cidadão trabalhador e bem-sucedido não deveria arcar com os gastos de Saúde de seu colega preguiçoso e fracassado. Os termos usados são esses mesmos: cria-se uma dicotomia entre o trabalhador e o preguiçoso, o que é um absurdo, mas até aí tudo bem. O problema, a meu ver, é a burrice desse pensamento, como se os vírus, as bactérias, e as doenças em geral, deixassem de ser transmitidos de pobres para ricos apenas porque estes últimos tem plano de saúde privado. A Saúde tem que ser pública e universal por uma questão de sobrevivência da espécie, visto que os grandes inimigos que ameaçam a humanidade deste século XXI são pandemias globais. Além do mais, planos de saúde não pesquisam curas de doença. A comunidade médica científica deve democratizar seus conhecimentos, e portanto deve torná-los públicos, para que os pesquisadores do mundo inteiro intercambiem experiências.

A questão fundamental é que ninguém gosta de pagar imposto, e quanto mais se ganha, mais se paga. Quanto mais rico o sujeito seja, mais vai odiar o Estado. Isso produz toda espécie de monstros teóricos, uma filosofia intrincada, bolorenta, em torno de uma obscura liberdade, apenas para defender o direito de alguns bilionários de economizar uns milhõeszinhos ao fim do ano. Daí que um americano que vive num trailer, numa cidadezinha isolada do Texas, e que poucas vezes na vida cruzou com um funcionário público, que nunca recebeu uma carta do governo, e que sequer tem plano de saúde (ou quando tem, é um plano vagabundo), vive com medo do Estado invadir sua vida.

A solução para o problema das liberdades individuais, tanto aqui como nos EUA, passa, portanto, por reformas tributárias, que melhorassem um pouco a imagem do Estado perante a sociedade. Como? Através de processos mais simples e inteligentes e justos de cobranças de impostos. Sei que falar é fácil, o difícil, já dizia Maiakósvksi, é a vida e seu ofício. Mas um pouco de inovação e criatividade nesse quesito não fariam mal nenhum.

Há também uma tradição cultural que contribui muito, a meu ver, para esse individualismo excessivo da sociedade americana. Há anos que observo, em qualquer filme, que o herói das histórias é sempre um indivíduo isolado. No máximo um grupinho associado pelas circunstâncias. Os perigos e males nunca são enfrentados por uma sociedade organizada (a qual é sempre falha, corrupta e inepta),mas por um indíviduo de capacidade excepcional.

Não é verossímil.

Os grandes problemas que assolam qualquer sociedade apenas são resolvidos, de maneira definitiva ou sistemática, pela organização coletiva, quase nunca por um indivíduo com super-poderes físicos ou intelectuais. Claro que há cientistas geniais que descobrem curas de doenças, mas mesmo nesses casos há um trabalho acumulado, coletivo, muitas vezes internacional.

Essa tradição de atribuir virtudes somente ao indíviduo tem origem, talvez, no próprio cristianismo, onde há um Salvador, um messias. Mas sua lenda deve ser relativizada pela cultura democrática moderna. Jesus, houve apenas um, se que é existiu. E certamente Ele não desejaria que nos tornássemos uma sociedade brutal, cruel, onde uma minoria abastada se refestelasse numa vida confortável e rica, enquanto a maioria (como é hoje no mundo) sobrevive em condições miseráveis.

Ironicamente, contudo, essa mitologia contemporânea só poderia ser quebrada por iniciativa de gênios individuais, que conseguissem produzir obras-primas onde a sociedade organizada também fosse a heroína. Criar-se-ia, assim, uma nova tradição literária e cinematográfica que poderia desencadear, ao longo das gerações, uma ideologia que entendesse o indivíduo como parte de um coletivo, e que somente fortalecendo e democratizando esse coletivo (e o coletivo mais organizado e legítimo é um Estado VERDADEIRAMENTE DEMOCRÁTICO, ou seja, com saúde e educação públicas e universais), teríamos a consolidação de individualidades fortes. No mundo em que vivemos, prega-se cada vez mais o individualismo e temos, na prática, indivíduos cada vez mais padronizados, medíocres e com poucas qualificações... individuais.

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