8 de julho de 2007

Por que não vou à Flip?

(outro texto do arquivo do extinto AP, publicado aqui por razoes de backup. Coincidentemente, é atual por causa da Flip, que esta rolando no momento)


Bem, primeiro porque provavelmente - não quero ser tão pessimista para dizer "seguramente" - não terei dinheiro. Não falo nem do preço dos ingressos, que serão bem salgados, mas da grana para estadia, comida e, sobretudo, cerveja. Afinal, que graça teria comparecer a este evento não fosse para viver a poesia etílica das noites paratyanas? Entretanto, se a grana cair do céu, mesmo assim não vou, por outras razões, que explicarei adiante.

Antes que alguém pense tolices, esclareço que não tenho nada contra a Festa Literária Internacional de Paraty. Ou, antes, até tenho, mas acho que não se deve levar tão a sério uma festa literária. Como o nome diz, é uma festa. No entanto, sempre é uma oportunidade de se discutir os rumos da literatura brasileira e mundial; além de ter se tornado extremamente importante para a economia da cidade; gera empregos, renda, colabora com alguns pontinhos para o desenvolvimento nacional. Não fica bem, portanto, ficar falando mal da Flip. É um evento para se divertir, frequentar os restaurantes e bares, conhecer gente interessante, beber até cair nas pedras centenares, maravilhar-se com a maré noturna invadindo as ruas da cidade, assistir a excelentes shows musicais e perfomances poéticas; para ser tragicamente feliz ou euforicamente triste. Celebrar o fato de ainda existir gente apaixonada por essa coisa maluca chamada poesia.

Dito isto, vamos às razões que me impedem de voltar à Paraty esse ano.

Estive em Paraty há alguns meses, a trabalho, ou quase. Acompanhava uma guia de turista que, por acaso, é minha mulher. Pra mim, foi ótimo: tudo grátis, pousada, jantar, transporte. Estávamos com um grupo de quarenta franceses. Aliás, uma curiosidade: os franceses são os que mais gostam e vão à Paraty. Os americanos preferem Búzios...

Ao final do trabalho, a guia recebeu uma polpuda gorjeta dos franceses, que seguiram para São Paulo, e decidimos gastar o dinheiro ali mesmo, ficando mais uns dias na cidade. Aproveitamos para fazer uma pesquisa de preço em vários hotéis e pousadas e ficamos sabendo que muitos, sobretudo os melhores, estavam lotados para a Flip (isso em abril, a Flip é em julho). Outros prepararam pacotes cujos preços equivalem ao triplo das diárias normais.

Tudo bem, pensamos. Ainda podemos vir à Flip: iremos acampar. Lá tem um camping muito bom, o qual visitamos e, segundo o gerente, sempre tem vaga pra mais dois, a preços módicos e estáveis.

Então relaxamos e mergulhamos na suave rotina Paratyana. Fizemos uma passeio de barco fantástico. Por 17 reais por pessoa, você conhece umas cinco ilhas, com praias maravilhosas. De graça, você passeia pelas ruelas do século XVII, sentindo ainda o cheiro do ouro que era embarcado de lá com destino à Inglaterra, fazendo às vezes uma breve parada em Portugal.

Não me saía da cabeça um lugar que conhecera da primeira vez que fora à Paraty, em 2002. Queria voltar lá de qualquer jeito, para tentar sentir a mesma magnífica sensação que senti naquela vez, olhando o mar azul-cinema, as ilhas verdes, o sol quente secando qualquer tipo de melancolia, o vento nos lambendo a cabeça e produzindo alegres sonhos de liberdade.

Em nosso último dia, domingo, conseguimos, finalmente, reencontrar esse local. O acesso é pelo pátio do simplório museu de Paraty, onde foi filmado - senão me engano - o também simplório "O Alienista". Há ali um caminho que desce para as pedras que, gentilmente, adentram as águas plácidas.

Sentamos nas pedras, como da primeira vez, e contemplamos o espetáculo.

Foi quando observamos que não estávamos sós.

Há uns vinte metros de onde estávamos, numa outra pedra, um casal parecia fazer a mesma coisa que fazíamos. A moça estava de short e biquini e parecia muito bonita. Tinha uma vasta cabeleira negra, que flamulava elegantemente à brisa cheirosa que vinha do mar. O rapaz era um negro alto, magro, cujo rosto não pudemos ver, por estar sempre virado para o lado da namorada. Eles se beijavam.

Esquecemos o casal e voltamos a nos concentrar na difícil labuta de não fazer nada, contemplar as águas calmas da baía de Paraty e sentir o sol nos aquecer a alma.

Tudo tranquilo, tudo legal, tudo maravilhoso.

Aí escutamos um grito abafado. Mas nitidamente um grito de socorro. E vimos a bela morena com uma faca na mão esquerda (não sei porque marquei o fato de ser a mão esquerda, tenho certeza disso) e a faca estava toda ensanguentada. O rapaz jazia aparentemente morto sobre a pedra.

A X, minha esposa, cujo nome prefiro não dizer, gritou; e a moça da faca voltou-se pra nós com uma expressão esquisita. Tenho até receio de dizer isso, mas parecia... demoníaca.

Ela levantou-se, sempre segurando a faca, e avançou em nossa direção. Mas parou, porque havia um pequeno precipício no caminho. E aí foi a nossa vez de nos levantarmos e fugirmos, subindo as pedras, às carreiras.

Não me achem medroso. Na verdade, eu o sou, mas qualquer um ficaria apavorado diante daquele rosto. Mais tarde, já na segurança e conforto de nossa pousada, procuramos entender o que havia acontecido, e concluímos que se tratava de uma psicopata perigosíssima que certamente estaria nos procurando para nos matar. Por algum motivo, talvez ligado ao desprestígio de nossas autoridades, só então lembramos de chamar a polícia.

No momento em que saíamos da pousada, para nos dirigir ao posto policial de Paraty, vimos a moça meio escondida atrás de uma casa, a um quarteirão de distância de onde estávamos. X sentiu medo e entrou correndo na pousada. Eu decidi enfrentar nossa inimiga. Pensei com meus botões: sou homem ou gafanhoto? E fui na direção dela.

Ao chegar na esquina, dei de cara com a moça. Ela não tinha mais a expressão diabólica da tarde. Pelo contrário, parecia inclusive inofensiva, além de parecer-me incrivelmente bonita e atraente. Tinha mais ou menos a minha altura, um metro e setenta e nove, e peitos bem avantajados. Recordo-me de que, no meio da confusão em que se encontravam meus pensamentos, perguntei-me se eram verdadeiros ou de silicone.

Ficamos um diante do outro, calados, por um bom tempo. Eu não sabia o que dizer. Devia atacá-la ou o quê? Enfim, rompi o silêncio; perguntei:

- Quem é você?

Ela não respondeu, então perguntei outra coisa.

- Quem era aquele rapaz?

Seus olhos brilharam, ela sorriu e disse:

- Era um imbecil que desejava ser escritor.

Estremeci, mais por estranheza do que por medo. Tive a sensação de estar imerso num daqueles delirantes contos de Borges. Olhei ao redor para me certificar de que estava no mundo real. Fiz outra pergunta, dessa vez com uma entonação indignada.

- E por quê você o matou, meu Deus? Que direito você tem de tirar a vida de uma pessoa?

Ela respondeu prontamente, como se tivesse escutado milhares de vezes aquela mesma pergunta.

- É o seguinte, meu querido. Eu sou representante do Mercado Literário. Meu trabalho é exterminar os jovens escritores. Eu ganho pra isso. Se alguém tem culpa não sou eu, é o Mercado. Também não me pergunte o porquê, nem como meus patrões escolhem as vítimas. Sua hora, por enquanto, ainda não chegou. Se você me dedurar, serei demitida e o Mercado contratará outra pessoa, mais discreta e eficiente. Neste caso, me vingarei, inflingindo uma morte horrível a você e sua esposa.

Foi assim. Foi isso que ela disse. Foi isso que aconteceu comigo em Paraty. Até então, não revelara essa história a ninguém. Agora estou publicando o caso na internet. Tenho que me esconder em algum lugar para não ser morto. E, como diria aquele corvo do Poe: Paraty, never more.

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