9 de outubro de 2008

Sobre solidão & outros demônios

À margem de super-produções, os latinos prosseguem fazendo filmes muito bons. Ontem assisti Amorosa Soledad e Acne, o primeiro, dirigido por Martín Carranza e Victoria Galardi, conta a história de uma jovem de Buenos Aires que, após ser abandonada pelo namorado, decide ficar sozinha por uns tempos. A personagem, hipocondríaca e aficcionada por hospitais, tem sua personalidade meticulosamente construída, com vícios, trejeitos, pequenos defeitos e sensibilidades, gerando uma figura muito autêntica, que conquista e com quem o espectador sente afinidade. É um sensível e delicado drama urbano, sobre amor, solidão e sobrevivência em meio à selva de cinismo e cobiça em que vivemos. O filme mostra o quanto o cinema brasileiro, cuja ambição desmesurada o torna às vezes demagógico, histérico, por demais preocupado com prêmios de crítica e resultados comerciais, tem a aprender com as fórmulas simples, humanistas e geniais de nossos hermanos. Acne é outro exemplo interessante, parecido: as angústias sexuas de um adolescente judeu de Montevideo.

Assisti ainda Pachamana, último filme de Eryk Rocha, e posso dizer que se trata de um documentário comovente sobre a realidade política da Bolívia. Deveria ser obrigatório para jornalistas que cobrissem política ou que escrevessem qualquer coisa sobre o vizinho. O filme revela, com singeleza brutal, o cinismo apátrida, ingrato, traiçoeiro e egoísta dos autonomistas de Santa Cruz. Falam em diferenças culturais entre eles e os índios das cordilheiras, dos Andes, afirmando que eles não guardam ressentimentos, que sempre foram amigos dos espanhóis. O filme depois corta para uma visita às minas de prata de Potosi, de onde foram extraídas toneladas de prata e onde pereceram milhões de bolivianos que trabalhavam em condições sub-humanas. Os autonomistas de Santa Cruz fingem não entender a relação direta de sua história e de seu bem-estar econômico com a exploração da prata, primeiro, e do estanho, depois, nas montanhas bolivianas. O filme acendeu-me ódio profundo e abalou novamente minhas convicções de paz, dando-me ganas de defender cacetadas naqueles fascistas safados.

Fatal, filme de Isabel Coixet, com Penelope Cruz e Ben Kingsley, é baseado no romance de Philip Roth, Animal Agonizante. Bem construído, linear e competente, na linha norte-americana, o filme peca porém por falta de densidade narrativa, obviedade dos personagens, e por um final previsível e melancólico.

Doidão (The wackness), filme de Jonathan Levine, levou o disputadíssimo prêmio do Sundance. O roteiro fala de um garoto, recém egresso do segundo grau escolar, que passa o dia vendendo maconha no Central Park, tem pais vivendo uma crise financeira, e faz amizade com um psicanalista (Ben Kingsley) maconheiro e imaturo. É um filme muito bonito sobre a descoberta do sexo e do amor pelo jovem em questão, em contraste à crise do "garotão" de sessenta anos vivida pelo psicanalista.

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