
Dando sequência a minha (nem tão) promissora missão pública de ombudsman do jornal O Globo, comento a matéria em destaque na edição de hoje (16/07/2009), na página 3, onde diversos ex-caras pintadas, ao estilo surrado do "petista arrependido", derramam lamúrias contra a foto que o jornal, na véspera, estampou na capa. Era a foto, agora famosa, de Lula abraçando Collor.
É realmente engraçado. Bastou falar mal de Lula para ganhar uma foto tamanho família na página 3. A história mostra que a manipulação da ingenuidade tem sido uma estratégia constante daqueles que precisam enganar a opinião pública. Heródoto relata um caso assombroso ocorrido na Grécia Antiga, em Atenas, que o revoltou especialmente. Pisístrato, um tirano que os atenienses haviam, com muita dificuldade, logrado expulsar da cidade, restabelecendo assim o regime democrático, apela para uma artimanha incrível para voltar ao poder. Nas palavras de Heródoto:
"(...) usaram, para o retorno de Pisístrato, o artifício mais grosseiro que, em minha opinião, se pode imaginar, principalmente considerando que os gregos eram tidos, desde há muito tempo, como mais astutos que os bárbaros e menos expostos a se deixarem deslumbrar por esse tipo de coisa, e que os atenienses, em particular, eram reputados como os mais sábios e perspicazes de todos os gregos. (...) Havia uma mulher muito formosa, chamada Phya, dotada de grande estatura. Armada completamente, e vestida com trajes que a fizeram parecer ainda mais bela e majestosa, puseram-na sobre um luxuoso carro e a conduziram à cidade, enviando na frente emissários para dizer ao povo desta forma: "Recebei, ó atenienses, de boa vontade, aquele que a própria deusa Atenas restitui ao poder, dando a ele uma demonstração nunca usada com outro mortal". Gritavam isto por todas as partes, de maneira que, muito breve, a fama se espalhou por toda a cidade e toda província. E os que se achavam na fortaleza central, acreditando que aquela mulher era realmente a deusa Atenas, abriram os portões para Pisístrato e seus comparsas."
Assim Pisístrato restabelece sua tirania. Heródoto se espanta com a facilidade com que os atenienses, tidos como astutos e perspicazes, se deixaram enganar por uma mentira tão grosseira.
Saltemos alguns milênios. A experiência tornou os espertos mais espertos e os bobos menos bobos, mas a ingenuidade é a condição natural do ser humano. A esquerda, particularmente, carrega o DNA da ingenuidade e talvez seja esse o seu maior defeito, assim como o egoísmo é a característica mais negativa da direita.
A luta contra a ingenuidade é uma frente de batalha importante para este blog, porque percebi há tempos que esse é um ponto extremamente vulnerável de muitas pessoas progressistas e bem intencionadas. "Soyons realistes, demandons le impossible!", gritavam os jovens de 68. Era um lema bonito, mas os europeus, com seu espírito pragmático, nunca o levaram muito à sério e os americanos, como é tão bem mostrado em Sonhadores, obra-prima de Bertolucci, consideravam-no falso e pedante; os que o levaram ao pé da letra, tornaram-se, além de derrotados politicos, pessoas amargas e desiludidas. Aliás, a consequência inevitável, necessária, da ingenuidade política, é tristeza e desilusão. Tentar enxergar na política uma pureza que não existe, nem em si mesmo nem no mundo real, é ingenuidade, ignorância e, às vezes, megalomania moral, doença crônica dos hipócritas.
O PIG adora os ingênuos porque sabe que eles são inofensivos. Sempre interessou ao PIG uma esquerda ingênua, que se limitasse a empunhar bandeiras bonitinhas e graciosas, mas que nunca tivesse a ousadia de disputar, à vera, o poder político, e muito menos o discernimento de saber conservá-lo - não, isso é para os "adultos", ou seja, para os conservadores. Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC e nunca vimos uma matéria negativa sobre a figura. Bastou mudar o governo e Renan aderir a Lula para que ele passasse a integrar o "eixo do mal" da política brasileira.
Desde que Collor elegeu-se senador da república por Alagoas, a mídia corre atrás de uma foto sua com o presidente. A desta semana não é a primeira. Os fotógrafos catam os ângulos mais enviezados para enquadrar, na mesma imagem, Lula e os "vilões". Até aí tudo bem. Todo mundo sabe que O Globo faz oposição à Lula e, portanto, seus empregados cumprem a determinação editorial de bater diariamente no ex-barbudinho. Cada um a seu jeito. Os chargistas fazem charges, os jornalistas escrevem matérias, os fotógrafos tiram fotos, os colunistas escrevem colunas. O trabalho é bem pago e obedece quem tem juízo.
Daí que Lula participou de um ato importante em Alagoas e quem estava lá? Fernando Collor de Melo, senador da República. Ora, Collor e Renan Calheiros pertencem a partidos que compõem a base aliada no Senado, onde a situação do governo é extremamente delicada, vide as inúmeras CPIs criadas ininterruptamente pela oposição, sempre com o entusiástico apoio da mídia corporativa. Lula agradeceu o apoio que Collor e Renan davam aos projetos do governo. E depois, em determinado momento, cumprimentou pessoalmente Collor.
Lula é um estadista, um político no sentido lato do termo, e sabe pôr o interesse nacional acima de questões pessoais e, sobretudo, sabe deixar o passado para trás e olhar o futuro. O Brasil é um Estado democrático onde, se o sujeito é absolvido na Justiça e ganha as eleições, ele é um representante do povo e como tal deve ser respeitado, quer gostemos dele ou não. Seria demais, aí sim, entregar um Ministério a Fernando Collor, mas ir lá e cumprimentar o homem, qual o problema? Agradecer o seu apoio no Senado, qual o problema? É razão para histeria? Para chorar pelos cantos?
As organizações Globo tem uma saudade enorme dos "caras pintadas" porque sabem a influência que tiveram sobre o fenômeno. A Globo ataca sistematicamente o movimento estudantil enquanto força organizada, institucional, partidária. Para o Globo, o movimento estudantil ideal é essa festinha de caras pintadas, sem ideologia, sem partido, sem organização, reunidos esporadicamente para protestar contra "vilões" de manchete de jornal.
"Pragmatismo tem limite", diz um dos ex-caras pintadas. Ok, filho, mas qual é o limite? Cumprimentar Collor? E daí? Collor tem lepra? Collor foi cassado, pagou sua dívida política, foi absolvido no Supremo Tribunal Federal, e foi eleito pelo povo de Alagoas. Se alguém tem culpa é o povo de Alagoas, e os meios de comunicação de lá (certamente ligados aos representantes locais dos platinados), que preferiam Collor a um cara de esquerda.
A gente sabe muito bem quem elegeu Collor - os mesmos globais que agora o transformam em vilão de história em quadrinhos. Quem editou debate na TV para prejudicar Lula? Quem ajudou Collor a se eleger em 1989? Agora ele é senador da república, num Senado onde o governo vive uma situação, como já disse, extremamente instável. Que raios de ingenuidade é essa, beirando a estupidez, que acha que Lula deveria fazer carinha feia para o Collor? É absurdo, para os neo-lacerdistas midiáticos, que a esquerda seja pragmática e astuta. Prefere-a, claro, sonhadora, ingênua - e derrotada. Churchill dizia que se aliaria ao diabo se fosse para derrotar Hitler. O Brasil tem um inimigo que matou, nos últimos séculos, muito mais que o nazismo, que é a pobreza, que não apenas destrói vidas, mas devasta sonhos, esperanças e a alegria das pessoas, e se Collor, Sarney, Renan, apóiam o governo (por interesse político lá deles, ou mesmo por estarem acuados eleitoralmente num nordeste onde Lula tem 90% de aprovação), Lula tem mais é que, humildemente, agradecê-los e tocar a vida pra frente. A oposição acaba de criar uma CPI bastante perigosa, num Senado sob fogo cerrado de uma mídia disposta a derrubar Lula, e o presidente precisará, logicamente, do apoio de cada senador da base aliada, seja o vilãozinho Collor seja o heroizinho Pedro Simon. Lula não pode contar 100% nem com os senadores de seu próprio partido, que volta e meia lhe puxam o tapete, como poderia deixar de ser educado com um senador que lhe empresta apoio?
O Globo e seus priminhos paulistanos, assim como aquele tirano grego, estão sempre a pintar alguém de deus, ou de diabo, na tentativa de convencer a legião de desencantados e ingênuos (ou que fingem sê-lo) a abrir os portões da república aos adversários do povo.
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A pintura no início do post é de Flavio Shiró, um dos maiores nomes, vivo ou morto, da história das artes plásticas do Brasil, talvez apenas superado pelo meu amigo Juliano Guilherme (vale 1 cerva essa, héin?).







