Os ingênuos também vão para o inferno




Dando sequência a minha (nem tão) promissora missão pública de ombudsman do jornal O Globo, comento a matéria em destaque na edição de hoje (16/07/2009), na página 3, onde diversos ex-caras pintadas, ao estilo surrado do "petista arrependido", derramam lamúrias contra a foto que o jornal, na véspera, estampou na capa. Era a foto, agora famosa, de Lula abraçando Collor.

É realmente engraçado. Bastou falar mal de Lula para ganhar uma foto tamanho família na página 3. A história mostra que a manipulação da ingenuidade tem sido uma estratégia constante daqueles que precisam enganar a opinião pública. Heródoto relata um caso assombroso ocorrido na Grécia Antiga, em Atenas, que o revoltou especialmente. Pisístrato, um tirano que os atenienses haviam, com muita dificuldade, logrado expulsar da cidade, restabelecendo assim o regime democrático, apela para uma artimanha incrível para voltar ao poder. Nas palavras de Heródoto:

"(...) usaram, para o retorno de Pisístrato, o artifício mais grosseiro que, em minha opinião, se pode imaginar, principalmente considerando que os gregos eram tidos, desde há muito tempo, como mais astutos que os bárbaros e menos expostos a se deixarem deslumbrar por esse tipo de coisa, e que os atenienses, em particular, eram reputados como os mais sábios e perspicazes de todos os gregos. (...) Havia uma mulher muito formosa, chamada Phya, dotada de grande estatura. Armada completamente, e vestida com trajes que a fizeram parecer ainda mais bela e majestosa, puseram-na sobre um luxuoso carro e a conduziram à cidade, enviando na frente emissários para dizer ao povo desta forma: "Recebei, ó atenienses, de boa vontade, aquele que a própria deusa Atenas restitui ao poder, dando a ele uma demonstração nunca usada com outro mortal". Gritavam isto por todas as partes, de maneira que, muito breve, a fama se espalhou por toda a cidade e toda província. E os que se achavam na fortaleza central, acreditando que aquela mulher era realmente a deusa Atenas, abriram os portões para Pisístrato e seus comparsas."


Assim Pisístrato restabelece sua tirania. Heródoto se espanta com a facilidade com que os atenienses, tidos como astutos e perspicazes, se deixaram enganar por uma mentira tão grosseira.

Saltemos alguns milênios. A experiência tornou os espertos mais espertos e os bobos menos bobos, mas a ingenuidade é a condição natural do ser humano. A esquerda, particularmente, carrega o DNA da ingenuidade e talvez seja esse o seu maior defeito, assim como o egoísmo é a característica mais negativa da direita.

A luta contra a ingenuidade é uma frente de batalha importante para este blog, porque percebi há tempos que esse é um ponto extremamente vulnerável de muitas pessoas progressistas e bem intencionadas. "Soyons realistes, demandons le impossible!", gritavam os jovens de 68. Era um lema bonito, mas os europeus, com seu espírito pragmático, nunca o levaram muito à sério e os americanos, como é tão bem mostrado em Sonhadores, obra-prima de Bertolucci, consideravam-no falso e pedante; os que o levaram ao pé da letra, tornaram-se, além de derrotados politicos, pessoas amargas e desiludidas. Aliás, a consequência inevitável, necessária, da ingenuidade política, é tristeza e desilusão. Tentar enxergar na política uma pureza que não existe, nem em si mesmo nem no mundo real, é ingenuidade, ignorância e, às vezes, megalomania moral, doença crônica dos hipócritas.

O PIG adora os ingênuos porque sabe que eles são inofensivos. Sempre interessou ao PIG uma esquerda ingênua, que se limitasse a empunhar bandeiras bonitinhas e graciosas, mas que nunca tivesse a ousadia de disputar, à vera, o poder político, e muito menos o discernimento de saber conservá-lo - não, isso é para os "adultos", ou seja, para os conservadores. Renan Calheiros foi ministro da Justiça de FHC e nunca vimos uma matéria negativa sobre a figura. Bastou mudar o governo e Renan aderir a Lula para que ele passasse a integrar o "eixo do mal" da política brasileira.

Desde que Collor elegeu-se senador da república por Alagoas, a mídia corre atrás de uma foto sua com o presidente. A desta semana não é a primeira. Os fotógrafos catam os ângulos mais enviezados para enquadrar, na mesma imagem, Lula e os "vilões". Até aí tudo bem. Todo mundo sabe que O Globo faz oposição à Lula e, portanto, seus empregados cumprem a determinação editorial de bater diariamente no ex-barbudinho. Cada um a seu jeito. Os chargistas fazem charges, os jornalistas escrevem matérias, os fotógrafos tiram fotos, os colunistas escrevem colunas. O trabalho é bem pago e obedece quem tem juízo.

Daí que Lula participou de um ato importante em Alagoas e quem estava lá? Fernando Collor de Melo, senador da República. Ora, Collor e Renan Calheiros pertencem a partidos que compõem a base aliada no Senado, onde a situação do governo é extremamente delicada, vide as inúmeras CPIs criadas ininterruptamente pela oposição, sempre com o entusiástico apoio da mídia corporativa. Lula agradeceu o apoio que Collor e Renan davam aos projetos do governo. E depois, em determinado momento, cumprimentou pessoalmente Collor.

Lula é um estadista, um político no sentido lato do termo, e sabe pôr o interesse nacional acima de questões pessoais e, sobretudo, sabe deixar o passado para trás e olhar o futuro. O Brasil é um Estado democrático onde, se o sujeito é absolvido na Justiça e ganha as eleições, ele é um representante do povo e como tal deve ser respeitado, quer gostemos dele ou não. Seria demais, aí sim, entregar um Ministério a Fernando Collor, mas ir lá e cumprimentar o homem, qual o problema? Agradecer o seu apoio no Senado, qual o problema? É razão para histeria? Para chorar pelos cantos?

As organizações Globo tem uma saudade enorme dos "caras pintadas" porque sabem a influência que tiveram sobre o fenômeno. A Globo ataca sistematicamente o movimento estudantil enquanto força organizada, institucional, partidária. Para o Globo, o movimento estudantil ideal é essa festinha de caras pintadas, sem ideologia, sem partido, sem organização, reunidos esporadicamente para protestar contra "vilões" de manchete de jornal.

"Pragmatismo tem limite", diz um dos ex-caras pintadas. Ok, filho, mas qual é o limite? Cumprimentar Collor? E daí? Collor tem lepra? Collor foi cassado, pagou sua dívida política, foi absolvido no Supremo Tribunal Federal, e foi eleito pelo povo de Alagoas. Se alguém tem culpa é o povo de Alagoas, e os meios de comunicação de lá (certamente ligados aos representantes locais dos platinados), que preferiam Collor a um cara de esquerda.

A gente sabe muito bem quem elegeu Collor - os mesmos globais que agora o transformam em vilão de história em quadrinhos. Quem editou debate na TV para prejudicar Lula? Quem ajudou Collor a se eleger em 1989? Agora ele é senador da república, num Senado onde o governo vive uma situação, como já disse, extremamente instável. Que raios de ingenuidade é essa, beirando a estupidez, que acha que Lula deveria fazer carinha feia para o Collor? É absurdo, para os neo-lacerdistas midiáticos, que a esquerda seja pragmática e astuta. Prefere-a, claro, sonhadora, ingênua - e derrotada. Churchill dizia que se aliaria ao diabo se fosse para derrotar Hitler. O Brasil tem um inimigo que matou, nos últimos séculos, muito mais que o nazismo, que é a pobreza, que não apenas destrói vidas, mas devasta sonhos, esperanças e a alegria das pessoas, e se Collor, Sarney, Renan, apóiam o governo (por interesse político lá deles, ou mesmo por estarem acuados eleitoralmente num nordeste onde Lula tem 90% de aprovação), Lula tem mais é que, humildemente, agradecê-los e tocar a vida pra frente. A oposição acaba de criar uma CPI bastante perigosa, num Senado sob fogo cerrado de uma mídia disposta a derrubar Lula, e o presidente precisará, logicamente, do apoio de cada senador da base aliada, seja o vilãozinho Collor seja o heroizinho Pedro Simon. Lula não pode contar 100% nem com os senadores de seu próprio partido, que volta e meia lhe puxam o tapete, como poderia deixar de ser educado com um senador que lhe empresta apoio?

O Globo e seus priminhos paulistanos, assim como aquele tirano grego, estão sempre a pintar alguém de deus, ou de diabo, na tentativa de convencer a legião de desencantados e ingênuos (ou que fingem sê-lo) a abrir os portões da república aos adversários do povo.

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A pintura no início do post é de Flavio Shiró, um dos maiores nomes, vivo ou morto, da história das artes plásticas do Brasil, talvez apenas superado pelo meu amigo Juliano Guilherme (vale 1 cerva essa, héin?).

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A guerra que antecede o bocejo

(Luis Felipe Noe, pintor argentino)


Quosque tandere abutere, Catilina, patienta nostra? Assim começa Cícero o seu primeiro discurso contra um golpista da Antiguidade. Catilina planejava matar todos os senadores e tribunos do povo e tomar, à força, o poder em Roma. Para isso, contratou milhares de mercenários, a quem prometeu riquezas e terra. A história vive se repetindo, e a figura de Catilina vive reaparecendo na história da humanidade. No Brasil, Catilina é a mídia. Leiam abaixo os dois primeiros parágrafos do discurso de Cícero, trocando o nome do golpista em questão por Mídia Corporativa, e vejam se não encaixa às mil maravilhas. Detalhe: a função de cônsul era semelhante a de presidente da república, então substituam um pelo outro para estabelecer uma comparação ainda mais viva.

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?

Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes factos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. À morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.


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Em editorial, o Globo de hoje (14/07/2009) lança mais um de seus gritinhos de guerra. Misturando velhas e preconceituosas ladainhas antisindicais com acusações genéricas e levianas, os platinados mostram que vão cobrir a CPI da Petrobrás com o rosto pintado, berrando com a voz em falsete. Cumprimento-os pela audácia. O alvo, a maior empresa da América Latina, não podia ser mais simbólico. A Petrobrás não é apenas um símbolo de nossa soberania. Ela é a nossa soberania. É uma verdade dura, mas implacável: sem a Petrobrás, o Brasil não é nada. Por isso, sindicatos, estudantes e todos os matizes da esquerda deixaram divergências de lado para defendê-la.

Recentemente, Lula afirmou, brincando, que o presidente da Petrobrás deveria ser eleito pelo povo e indicar o chefe da República, e não o contrário. É uma brincadeira que flerta com uma verdade perturbadora. Cada país tem as suas jóias da coroa. Não se trata apenas do petróleo, mas do imenso e incalculável patrimônio intelectual, industrial, marítimo, científico, acumulado pela empresa. A Petrobrás não é apenas uma estatal. É a mãe de todas as estatais, a mais importante de todas, a que permitiu ao Estado brasileiro, depois do criminoso desmantelamento sofrido durante o governo FHC, manter um bom nível de investimento em infra-estrutura, projetos sociais e cultura.

Esta semana, o Globo publicou, no alto da página, em destaque, uma cartinha de leitor que dizia mais ou menos o seguinte: "já fui defensor da Petrobrás, etc, agora acho que ela deve ser privatizada, como foi a Vale, para não ficar nas mãos de sindicalistas". O leitor alinha-se ao pensamento do Globo e sua missiva, como vem ocorrendo sistematicamente na página de "cartas do leitor", integra a seção editorial. A vênus de prata, portanto, tem uma postura bastante clara em prol da privatização da Petrobrás. Para ela, a Vale é um grande exemplo. Não importa que a Vale privatizada esteja exportando ferro a 30 dólares a tonelada pra China e cometendo o crime histórico de não investir em siderurgias que permitam ao Brasil processar o minério aqui para vendê-lo com valor agregado. Não importa que a Vale, no momento mais crítico vivido pelo Brasil, por causa da crise financeira global e da histeria catastrofista da mídia brasileira, tenha anunciado demissões em massa. A Vale é um exemplo! A Petrobrás, que tem saltado posições no ranking mundial das empresas mais modernas, mais transparentes e mais respeitadas do mundo, que é a empresa petrolífera que mais achou petróleo nos últimos 30 anos, que está hoje na vanguarda mundial por conta de ser a única com tecnologia para exploração em águas ultra-profundas, a Petrobrás é tratada pelos platinados como uma "república de sindicalistas".

A matéria dos platinados que trata da tal "república de sindicalistas" foi um dos ataques mais ridiculamente preconceituosos e reacionários já vistos na imprensa brasileira. Não se trata, todavia, de uma matéria isolada, mas de uma campanha sistemática, repetida diariamente, com apoio editorial de cartinhas selecionadas.

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Instalada a CPI da Petrobrás, li na internet que a oposição convocou o ex-senador Paes de Barros para chefiar o "comitê" de guerra montado para atacar a empresa e o governo. Barros, para quem não se lembra, é aquele amigo de bandidos do Centro-Oeste, como o Comendador Arcanjo, que se destacou durante a tentativa de derrubar Lula em 2006. Dotado daquela desenvoltura fabulosa que a ausência de escrúpulos confere, Barros é expert em jogadas de contra-informação e artimanhas políticas. Seu histórico sujo, naturalmente, será carinhosamente poupado pela mídia conservadora.

Entretanto, conforme observou brilhantemente Santayana, as intenções da oposição devem se voltar contra ela mesma. A presente configuração política mudou muito. A blogosfera de esquerda converteu-se num poderoso exército ideológico em prol dos interesses populares, bagunçando definitivamente a venda de teses pré-fabricadas à opinião pública.

Há agora uma grande expectativa em relação à postura dos senadores da base aliada, sobretudo a bancada petista. Mais que nunca, terão que mostrar verve, astúcia, inteligência, oratória, agressividade, e procurarem se afastar da capciosa rede construída pelo discurso midiático com objetivo de capturar psiques bem intencionadas mas ingênuas e, em alguns casos, decrépitas.

Espera-se que Mercadante, senador mais votado da história do Senado, com mais de 10 milhões de votos em 2002, reverta a impressão de pusilanimidade e incompetência política que ele começa a ganhar na blogosfera.

Alguns não tem solução. Pedro Simon, por exemplo, é uma figura esclerosada politicamente. Não atualizou-se. É um indignado de manchete de jornal e, como tal, facilmente manipulável pela mídia. Confortável em seu trono de rei dos "éticos", obedece caninamente à cartilha ditada pelo editorial do dia. Quando foge ao roteiro, é repreendido e disciplinado imediatamente pelos capatazes éticos a serviço das "famiglias".

Muitos senadores trabalham em plenário com seus laptops conectados ao blog do Noblat. Não perceberam, por burrice, incompetência, preguiça ou interesse, que Noblat obedece aos ditames ideológicos e políticos de seus patrões? Naturalmente que ele, Noblat, tem seus pruridos de independência. É um ser humano(?), tem contas a pagar, e possui o direito de vender sua força de trabalho e sua inteligência para quem bem entender. Não devemos crucificar ninguém. O ridículo é ver senadores se curvando, ou pior, se acovardando, aos interesses obscuros de grupos de comunicação.

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Tem umas coisas que não dá para engolir. A omissão na cobertura do golpe de Honduras, por exemplo. Onde estão os editoriais, as entrevistas, as longas reportagens, os históricos, a análise detalhada dos envolvidos? Não. Isso vai ficar marcado. Através de fontes alternativas, ficamos sabendo que os golpistas de Honduras suprimiram os direitos civis, fecharam jornais, rádios e canais de TV críticos ao governo, reprimiram violentamente manifestações, assassinaram lideranças sindicais e estudantis, enfim, cumpriram integralmente a agenda de horrores de uma ditadura latino-americana do século passado. Onde está a dramaturgia jornalística? Onde estão os indignados? A partir do momento em que a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) não condenou, até agora, o golpe em Honduras, e a mídia brasileira não se preocupou com o fato do órgão maior que a representa no continente estar omisso nesse assunto, nunca o epíteto "golpista" ajustou-se tão bem à realidade.

Haverá um dia em que não mencionarei a grande imprensa. Estão certos os que falam que a internet deve produzir uma agenda própria, não apenas reagir ao que sai na mass media. Mas tudo tem sua hora. A blogosfera é sensível à grande agenda política, não ao que sai nos jornais. Enquanto a agenda for ditada pela imprensa corporativa, estaremos lá, mordendo os pés da mídia, servindo-lhe de contraponto e freiando-lhe a ambição de manipular os parlamentares. Aguardo ansiosamente, no entanto, o momento em que poderemos responder-lhes, aos abutres da nossa soberania, com um solene bocejo.

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O mesmo de sempre


Na sexta-feira, acompanhei minha mulher a um lugar em Botafogo, e fiquei esperando numa lanchonete enquanto ela resolvia seu problema. Sem ter o que fazer, atravessei a rua e comprei a Folha de São Paulo. Já falei pra vocês: eu gosto de jornal, talvez porque eu seja viciado em ler. Quando não tenho nada para ler num banheiro, por exemplo, abro minha carteira e examino minha identidade, ou o desenho numa cédula. Cansei de observar onças, tartarugas, tamanduás, toda a fauna brasileira estampada no glorioso dinheiro nacional. Enfim, comprei a Folha e voltei à lanchonete. Pedi um chope e, de pé mesmo (é tão bom beber chop de pé!), pus-me a folhear, com prazer semelhante ao de contemplar um mico-leão-dourado. Reparem que usei uma palavra que odeio: pus-me. Foi proposital, já que este jornal parece uma enorme ferida babando pus. Certamente, se eu não possuísse o privilégio de ter esse canal de desabafo, autodefesa ideológica e trincheira antimidiática, já teria desistido, há tempos, de dar atenção a esses boçais.

Então esbarrei na coluna do venerando Clóvis Rossi, na qual (pasmem, ou melhor, pusmem), ele desanca Lula e o petismo! Que novidade! Começa mais ou menos assim: “era uma vez a teoria da mídia golpista cantada por intelectuais vendidos ao PT e pela mídia chapa branca”. Rossi leu que Berlusconi culpou a imprensa por seus problemas. Daí, por uma analogia fascinante e original, ele compara o primeiro ministro italiano a Lula. Omitiu alguns detalhes, claro, como o fato de Berlusconi ser o homem mais rico da Itália e proprietário dos principais canais de TV, jornais e rádios. Outros detalhes, como o fato do partido de Berlusconi patrocinar uma política de extrema direita, também são, convenientemente, postos de lado. Ou melhor, "pustos" de lado.

O que me chamou a atenção, no entanto, não foi isso. Quer dizer, não foi esse texto previsível, leviano e rasteiro que despertou meu interesse. O que me tocou foi o fato de eu não ter ficado tão irritado. Senti desprezo, só, e um pouco de melancolia em constatar que milhares de árvores foram derrubadas para imprimir estultices. Afinal, que espécie de análise política se pode esperar de uma coluna com o número de caracteres tão restrito, e sem a mínima abertura ao contraditório? Essa é a grande força e a grande superioridade da blogosfera. Um textinho imbecil como aquele seria massacrado na internet. Milhares de cidadãos brasileiros publicariam comentários engraçados, ofensivos, raivosos, sentimentais, astutos, desmoralizando cabalmente o colunista da Folha. Somente a proteção quentinha do papel impresso possibilita esse tipo de mediocridade militante. O que me impressiona, sobretudo, é a baixa qualidade intelectual de colunistas como Clovis Rossi. Encontramos, na internet, na seção de comentários, milhares de pensamentos infinitamente mais originais do que as colunas de opinião da Folha de São Paulo – e que não consomem as árvores de nossas florestas.

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A Miriam Leitão voltou a ficar louca, se é que algum dia deixou de sê-lo. Diante da possibilidade do governo iniciar um programa inédito de redução da carga tributária sobre a folha salarial, o que é, a meu ver, um problema real no Brasil, ela agora é contra. Diz que o governo já reduziu imposto demais e não tem como ampliar os cortes. Depois de anos pregando contra a carga tributária, Leitão se torna, de súbito, defensora dos impostos altos.

Na realidade, ela está totalmente destrambelhada. Suas previsões catastróficas não se realizam e ela começa (assim espero) a desconfiar que vem se tornando motivo de chacota pública. A reação, todavia, ao invés de vir na forma de uma revisão de atitudes, manifesta-se por uma intensificação de histeria e demonstração de desequilíbrio emocional.

Entretanto, há um ponto que começo a gostar na Miriam. Na falta de um apoio mais firme para criticar o governo, ela vem ensaiando tornar-se uma ecoxiita, uma ambientalista radical. Acho ótimo. É uma tremenda evolução, e o governo precisa mesmo ser fortemente criticado nessa área. Não porque esteja (necessariamente) fazendo feio, mas porque sempre se pode fazer melhor. Além disso, prefiro mil vezes uma Miriam ecoxiita do que a profetiza de calamidades sociais e econômicas que ela vem sendo nos últimos anos.

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Neste domingo, o Globo publica uma reportagem adorável. Num acesso esquizóide de franqueza, o jornal informa que a fonte de uma matéria sobre o governo federal é um secretário do governo de São Paulo, do PSDB. Então tá, façam matérias sobre o flamento consultando os torcedores do vasco... Será que deram emprego para o Tarso da novela? O texto critica o aumento de gastos do governo federal, dizendo que se trata de uma bomba a estourar no colo da próxima gestão. A matéria, ironicamente, parece uma belíssima peça de propaganda de Lula, pois mostra aumento de gastos como: merenda e transporte escolar, auxílios sociais, financiamento a pequena agricultura, e assim vai. Estou curioso para saber que doente vai criticar aumento de gastos em merenda escolar...

O que a matéria não diz – também aí é querer demais – é que, com a redução dos juros básicos, o governo está economizando dezenas, quiçá centenas, de bilhões de reais por ano, e este dinheiro, em vez de pagar banqueiros e rentistas, está sendo usado em programas sociais, aumento do salário mínimo e reajuste do funcionalismo.

Aliás, sobre o funcionalismo, acho impressionante a campanha midiática contra as demandas trabalhistas do serviço público. A direita deixa bem claro que pretende realizar um choque de gestão no serviço público brasileiro através de arrocho salarial e demissão em massa. Recentemente, a prefeitura de São Paulo tomou uma decisão estarrecedora. Muita gente da esquerda, inocentemente, aprovou a medida. Trata-se da publicação dos salários dos funcionários da prefeitura na internet.

Meu Deus! Que grosseria. Não sou, por princípio, contra uma medida como essa. Mas fazer isso unilateralmente, sem negociação com os sindicatos, é uma violência imperdoável, que só demonstra o incompreensível ódio ideológico que a direita alimenta contra o funcionalismo público. Os prejudicados, como sempre, são a parte mais fraca, aqueles trabalhadores que residem em áreas pobres, que possuem famíliares em situação financeira precária, e que passarão pelo constrangimento de saber que todos seus parentes e amigos pidões estão agora cientes de quanto eles ganham.

Passado um tempo, a situação se estabilizará, mas quem pagará pelo sofrimento moral desses trabalhadores? Salário, afinal, sempre foi uma informação privativa. O sujeito trabalha no setor público mas tem direito a privacidade. Não é um político eleito, com imagem pública. Qual a grande vantagem que a sociedade brasileira obterá em saber que aquele fulaninho da repartição ganha 1.105 reais ao mês? Além disso, numa cidade com problemas trágicos de assalto e sequestro, como São Paulo, será um prato feito para os ladrãozinhos de bairro saberem que sicrano, que todo mundo achava que não possuía um centavo, ganha 7.200. De qualquer forma, o mínimo que podiam fazer era estabelecer um cronograma de divulgação, para que os trabalhadores se preparassem para essa novidade. Divulgaram tudo no susto, sem o menor respeito para com a opinião dos funcionários.

Transparência é importante, claro, mas também não pode virar uma pantomina, uma palhaçada. O que a sociedade quer ver publicada na internet é a planilha das obras públicas, a jogatina de precatórios e títulos, essas coisas, e não o salário de todos os barnabés do município.

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A mídia brasileira está sonegando informações sobre o golpe em Honduras. Os acontecimentos mais graves, como a suspensão dos direitos civis, e a repressão aos órgãos de imprensa críticos ao golpe, têm sido omitidos. Reproduzo aqui um comentário que alguém deixou no post anterior, reproduzindo nota da Reuters:

Periodistas abandonan Honduras -
Tegucigalpa. Miembros de la cadena venezolana VTV y de Telesur abandonan el hotel donde se hospedaban, luego de que policías hondureños detuvieron a integrantes de su equipo, según denunciaron los mismos periodistas. Reuters

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Fizeram (e continuam fazendo) aquele escarcéu todo em cima do Irã, onde ocorreram ELEIÇÕES DEMOCRÁTICAS, e agora abafam o que acontece aqui do lado, em Honduras: um golpe de estado contra um presidente eleito em sufrágio universal, num continente traumatizado por esse tipo de acontecimento. E mais: porque nenhum desses colunistas da grande mídia não opina sobre a posição da Veja, que não só apoiou o golpe de estado em Honduras como deixou claro que o mesmo poderia ocorrer aqui? Reitero: são uns golpistas filhos da puta. A hora de cada um ainda vai chegar. Esse episódio em Honduras, apesar de trágico, teve o mérito de desvelar a carantonha golpista e racista da direita latino-americana. A Sociedade Interamericana de Imprensa está caladinha até agora, o que é outra coisa inacreditável. Zuenir Ventura, que eu admirava, publicou coluna em que dizia ter visto e revisto, várias vezes, o vídeo que mostrava a garota iraniana morrendo. Que espécie de tarado vê e revê uma coisa dessas? E aí vem com um texto em que descreve, em detalhes, a morte da moça. Para quê? Qual a finalidade disso? Mostrar a crueldade desumana dos iranianos? Ou fazer o joguinho da direita bélica americana? Ora, valha-me Deus. Morrem milhares de pessoas por semana no Iraque e o mundo não está nem aí. Na África sub-saariana, morrem milhões por ano, das formas mais humilhantes, de doença e fome, em países que nem eleições tem, e esse lacerdinha não fala nada? Eu admirava o Zuenir pelos livros "1968: o ano que não terminou" e "Cidade Partida", mas, diante de sua pusilanimidade senil e desinformada, eu fico, ao mesmo tempo que tentado a repensar a qualidade de suas obras, desinteressado totalmente em ler qualquer coisa sua no futuro. O dinheirinho fácil da grande mídia está ajudando a desfazer muitos mitos do jornalismo tupiniquim.

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Tô falando. O Globo intoxica qualquer um. Até Chico Caruso, até ele, converteu-se num verdugozinho da direita. Em charge publicada no Globo desta segunda-feira, 13 de julho, vemos cinco presidentes da república, eleitos pelo sufrágio universal, do Irã, Paraguai, Bolívia, Chávez e Equador, sob o chapéu: "Andar para trás? Agora só com os Ahmadinejackson Five"! Meu Deus! Ainda procurei o novo ditadorzinho de Honduras por ali, mas não, ele colocou só o "eixo do mal" do Bush. Com certeza vai ganhar presentinho do Ali Kamel.

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Comprem o livro de Altamiro Borges: "A ditadura da mídia"

Leiam abaixo o texto de apresentação do livro "A ditadura da mídia", de Altamiro Borges, escrito (o texto abaixo e o livro) por ele mesmo.

A mídia hegemônica vive um paradoxo. Ela nunca foi tão poderosa no mundo e no Brasil, em decorrência dos avanços tecnológicos nos ramos das comunicações e das telecomunicações, do intenso processo de concentração e monopolização do setor nas últimas décadas e da criminosa desregulamentação do mercado que a deixou livre de qualquer controle público. Atualmente, ela exerce a sua brutal ditadura midiática, manipulando informações e deturpando comportamentos. Na crise de hegemonia dos partidos burgueses, a mídia hegemônica confirma uma velha tese do revolucionário italiano Antonio Gramsci e transforma-se num verdadeiro “partido do capital”.

Por outro lado, ela nunca esteve tão vulnerável e sofreu tantos questionamentos da sociedade. No mundo todo, cresce a resistência ao poder manipulador da mídia, expresso nas mentiras ditadas pela CNN e Fox para justificar a invasão dos EUA no Iraque, na sua ação golpista na Venezuela ou na cobertura tendenciosa de inúmeros processos eleitorais. Alguns governantes, respaldados pelas urnas, decidem enfrentar, com formas e ritmos diferentes, esse poder que se coloca acima do Estado de Direito. Na América Latina rebelde, as mudanças no setor são as mais sensíveis.

No caso do Brasil, a mídia controlada por meia-dúzia de famílias também esbanja poder, mas dá vários sinais de fragilidade. Na acirrada disputa sucessória de 2006, o bombardeio midiático não conseguiu induzir o povo ao retrocesso político. Pesquisas recentes apontam queda de audiência da poderosa TV Globo e da tiragem de jornalões tradicionais. O governo Lula, com todas as suas vacilações, adota medidas para se contrapor à ditadura midiática, como a criação da TV Brasil e a convocação da primeira Conferência Nacional de Comunicação.

Este quadro, com seus paradoxos, coloca em novo patamar a luta pela democratização da mídia e pelo fortalecimento de meios alternativos, contra-hegemônicos, de informação. Este desafio se tornou estratégico. Sem enfrentar a ditadura midiática não haverá avanços na democracia, nas lutas dos trabalhadores por uma vida mais digna, na batalha histórica pela superação da barbárie capitalista e nem mesmo na construção do socialismo. Aos poucos, os partidos de esquerda e os movimentos sociais percebem que esta luta estratégica exige o reforço dos veículos alternativos, a denúncia da mídia burguesa e uma plataforma pela efetiva democratização da comunicação.
O livro A ditadura da mídia tem o modesto objetivo de contribuir com este debate. Não é uma obra acadêmica, mas uma peça de denúncia política. Ela não é neutra nem imparcial, mas visa desmascarar o nefasto poder da mídia hegemônica e formular propostas para a democratização dos meios de comunicação. O livro foi prefaciado pelo professor Venício A. de Lima, um dos maiores especialista no tema no país, e apresenta também um comentário do jornalista Laurindo Lalo Leal Filho, ouvidor da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Ele reúne cinco capítulos:

1- Poder mundial a serviço do capital e das guerras;
2- A mídia na berlinda na América Latina rebelde;
3- Concentração sui generis e os donos da mídia no Brasil;
4- De Getúlio a Lula, histórias da manipulação da imprensa;
5- Outra mídia é urgente: as brechas da democratização.

O exemplar custa R$ 20,00. Na venda de cotas para entidades sindicais e populares (acima de 50 exemplares), o valor unitário é de R$ 10,00. Para adquirir sua cota, escreva para: aaborges1@uol.com.br.

Altamiro Borges.

Clique aqui para ir ao blog do Altamiro Borges.

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A hora e a vez do negrinho

Essa é boa, essa é muito boa. O ministro de relações exteriores de Honduras, Henrique Ortez, em entrevista para um canal de TV local, afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, era "um negrinho que sequer conhecia Tegucigalpa". Depois pediu desculpas, não sei se antes ou depois da embaixada americana no país fazer um "protesto veemente". Mas isso não é uma coisa passível de "desculpas". No Brasil, se uma autoridade fizesse uma afirmação dessas, seria imediatamente linchada pela opinião pública, tanto a verdadeira (ruas e internet), quanto a "de mentirinha", ou seja, pelos seis ou sete colunistas da imprensa corporativa.

Não se pede desculpas por uma coisa dessas. Não estamos diante de um deslize diplomático, mas de uma manifestação explícita de racismo. Em primeiro lugar, ofende a maioria do povo hondurenho, formado por mestiços, negros e índios, ofendendo igualmente negros e mestiços do mundo inteiro. Em segundo, revela o imbricamento ideológico entre o racismo e a direita política, que existe em todo o continente americano. Hugo Chávez e Morales têm sido, sistematicamente, agredidos racialmente em seus países. Esse racismo é sinal de decadência política, degeneração moral, desequilíbrio psicológico e uma profunda ignorância. Aliás, sobre ignorância, esse comportamento mostra que há uma espécie de ignorância infinitamente mais perniciosa do que o tropeçar na sintaxe, num detalhe jurídico, numa etiqueta diplomática qualquer. Falamos aqui de preconceito racial, uma violência que constitui agressão indescritível à dignidade humana.

Diversas fontes informam que teriam morrido mais de cinquenta pessoas nos últimos enfrentamentos. A mídia brasileira prossegue sonegando informações e a inteligentzia corporativa (ou seja, os escribas midiáticos), sempre tão pronta a vender sua indignação, parece não ter recebido nenhuma oferta generosa, visto que não encontramos, até agora, nenhuma demonstração um pouco mais emotiva sobre os acontecimentos.

O tal chanceler hondurenho não parou nas ofensas racistas à Obama. Referindo-se à El Salvador, ele disse que: "Não vale a pena [falar de El Salvador]. Não quero falar sobre um país tão pequeno que nem se pode jogar futebol porque a bola sai."

É muito engraçado. Ou melhor, é tragicômico. Honduras, país menor que o Sergipe, esnobando do tamanho de El Salvador! Essa é a direita apoiada entusiasticamente pela revista Veja.

Lula falou grosso, em Paris, contra o governo golpista de Honduras. Os olhos da América Latina agora se voltam para "o negrinho". Qual será a reação de Obama quando ele ler nos jornais ou algum assessor lhe contar que foi vilipendiado torpemente por um governo sem nenhuma legitimidade democrática, um governo criminoso e golpista?

Obama é um negro orgulhoso, como todos os negros norte-americanos. Mas também, como a maioria dos americanos, é infinitamente pragmático. Creio que a resposta de Obama não será um latido, mas uma belíssima e definitiva mordida. Afinal, até as moscas paulistas sabem que os EUA tem poder político, militar e financeiro para esmagar o governo golpista de Honduras com a mesma facilidade com que Obama matou um jornalista da Ditabranda.

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Procurando no Google imagens de Honduras, esbarrei no blog sabe de quem? Do Gabeira. E não é que a nossa "instalação artística" também não se posiciona claramente neste caso? Nos dois posts que escreveu sobre o tema, Gabeira se mantém em cima do muro, ficando ainda mais à direita do que os jornalões. Confira os posts de Gabeira, reproduzidos abaixo. É estarrecedor perceber no que Gabeira se tornou, um político sem opinião, medíocre, guiado pela mídia como um cordeirinho. Gabeira diz que está se informando pelos "jornais" de Honduras, "como El Heraldo, conservador". Nossa, que parlamentar mais bem informado! No post mais recente, de 28 de junho de 2009, parece torcer contra o presidente deposto, ao afirmar que "Zelaya já está de pijamas". Não imaginaste, ó tolo Gabeira, a reação feroz que o golpe iria desencadear no mundo inteiro? Claro que não. Agora tu és um "ético" e tua única preocupação é tranquilizar as senhorinhas indignadas do Leblon com um discursinho lacerdista qualquer.


28.06.2009
Zelaya já está de pijamas

A esta hora do domingo, o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, já está de pijamas na Costa Rica. O golpe que o derrubou teve como objetivo evitar que fizesse um referendo para continuar no poder , depois de janeiro. Mesmo sem apoiar o referendo, vale perguntar se não havia outro caminho para punir o presidente eleito, uma vez que o referendo ainda não havia sido realizado. Estados Unidos, Brasil e OEA condenaram o golpe militar. Os norte-americanos foram claros ao dizerem que o presidente não era Micheletti (eleito pelo Congresso) mas sim o que foi deposto. Chávez afirmou que um embaixador da Venezuela foi sequestrado, assim como o representante de Cuba. Prometeu retaliação militar. Será grave a crise a partir de Honduras, embora talvez não tenha o desfecho dramático que Chávez está prevendo.
Gabeira

28.06.2009
Honduras em transe

A chapa está fervendo em Honduras. O presidente Manuel Zelaya teria sido preso. Zelaya foi eleito pela direita e agora quer se aproximar da esquerda, com um projeto parecido com o de Chávez. Nesse momento, parece que apenas grupos rivais aparecem nas ruas de Tegucigalpa, sem incidentes sérios. Chávez pediu a intervenção de Obama para salvar seu aliado. O Brasil terá de entrar nessa dança. Estamos acompanhando o que se passa, através dos informes dos jornais hondurenhos. El Heraldo, conservador, considera que a partida está chegando ao final e que Zelaya não respeitou a Constituição, partindo para o modelo de consultas populares, como Chávez e Morales.
Gabeira

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Sarney e a República de Weimar




(Pois é, não resisti. Deixei o trabalho de lado e corri pra cá).

Eis que Sarney se torna o inimigo público número um! Ele é a vítima perfeita, pelas mesmas razões que Renan Calheiros também era uma excelente presa para os ódios midiáticos. Sarney não tem a simpatia da esquerda porque é um político conservador e tradicionalista. E desde que tornou-se um importante suporte do governo Lula, perdeu também a simpatia das direitas. Restou-lhe a tolerância morna, quase indiferença, do centro político da opinião pública.

A campanha midiática contra Sarney, portanto, conseguiu ganhar corpo com imensa facilidade. Por quê?

1) Por que a mídia tem facilidade de fazer campanha contra qualquer um, sobretudo se apoiar Lula. Se o Papa elogiar Lula, no dia seguinte, encontraremos todos os podres dele estampados nos jornais. Obama, que chamou Lula de "o cara", perdeu a graça junto a mídia. A cobertura da política obamista esfriou repentinamente.

2) Sarney pertence a uma das famílias mais enraizadas na política. Tem centenas, talvez milhares, de parentes e contraparentes e sei lá mais quem trabalhando com política. Achar um sobrinho, um apadrinhado, um amigo-do-filho de Sarney trabalhando em alguma das milhões de sinecuras de Brasília é a coisa mais fácil do mundo. Mas pelo menos a filha do Sarney, Roseana, foi pra rua e elegeu-se pelo voto popular, ao contrário da filha de FHC, que, ao ser flagrada trabalhando "em casa" para o senador Heráclito Fortes, reagiu dizendo que "o Senado é uma bagunça". Essa arrogância, de comer no prato onde se refestelou, é de lascar.

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O que está em jogo, afinal, não é o destino de Sarney, mas a cadeira de presidente do Senado num momento em que a oposição, com apoio obstinado e histérico da mídia, se prepara para iniciar a CPI da Petrobrás. A mídia está louca para trocar Sarney por outro menos comprometido com a governabilidade. Fale-se o que quiser de Sarney, mas ele tem prestado um importante apoio ao presidente Lula.

O Senado é o calcanhar de aquiles do governo Lula. É onde a oposição é mais forte. Por isso, a mídia se ocupa tanto do Senado, porque sabe que é ali que pode surgir um ataque efetivo ao presidente Lula. O Senado pode votar um pedido de impeachment. Pode atrasar indefinidamente a liberação de um orçamento. Pode destruir, através de uma CPI bem orientada, a reputação de uma candidata...

Ao infernizar a vida dos senadores da base aliada, a mídia manda o seu recado: tudo bem, podem apoiar Lula, mas pagarão caro por isso!

A campanha para derrubar Sarney, no entanto, não desgasta somente o Senado. Serve também para mostrar à classe política que ela não pode mais fugir à batalha ideológica travada nos meios de comunicação. Deve partir para o enfrentamento usando as armas que os eleitores deram. As armas são as leis. Se existem legisladores, é porque as leis precisam estar sendo constantemente atualizadas para dar conta de uma realidade dinâmica que muda a cada instante.

A classe política precisa, portanto, votar leis que moralizem a comunicação pública no Brasil. E agora que teremos também um Parlamento do Mercosul, cumpre estabelecer parâmetros legais e democráticos comuns a todo continente americano.

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A situação de Sarney lembrou-me a República de Weimar, o breve governo republicano e democrático que vigiu na Alemanha entre as duas grandes guerras, e que foi derrubado pelo nazismo. A república era atacada duramente pela esquerda e pela direita. O país enfrentava uma severa crise econômica, em consequência da derrota militar em 1918 e agravada pela crise das bolsas em 1929, e os políticos do weimar se tornaram, de repente, símbolo de todos os males que afligiam os alemães. A república de weimar era o sarney germânico. Os sindicatos alemães, muito fortes e organizados, uniram-se à campanha das elites para desmoralizar o governo. Os objetivos eram opostos, naturalmente, mas o adversário era um só. Enfim, conseguiram derrubar a república. E daí nasceu o nazismo.

A lição dessa história é que os sindicatos alemães e a inteligentzia de esquerda incorreram num imperdoável erro estratégico. Ajudaram a desestabilizar um governo sem considerar as consequências para a classe trabalhadora, para o povo alemão em geral, e para o mundo. É sempre confortável unir-se à gritaria moralista e vociferar que os políticos são todos corruptos. Mas e aí? Quid prodest? A quem beneficia a campanha? Remover Sarney da presidência do Senado às vésperas da instalação da CPI da Petrobrás me parece extremamente oportuno para a direita golpista, para essa direita que, agora vemos claramente, ainda acredita em golpes militares.

Link da ilustração.

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Honduras em chamas




O que acontece em Honduras talvez seja, como já disse em outro post, a última grande batalha pela democracia na América Latina. Todos os elementos que caracterizam o clássico golpe de Estado latino-americano, incluindo aí o golpe no Brasil, estão presentes em Honduras. Mídia + elite + exército.

O papel do exército e das elites vêm sendo abordado por nossa imprensa, embora com as distorções de sempre. A grande ausência na cobertura midiática dos eventos em Honduras é a função da mídia local e regional na construção de um discurso ideológico que explique e justifique uma violência dessa magnitude. Um golpe desses não se constrói de um dia para outro. É resultado de um processo lento e eficaz de desgaste das instituições democráticas, a começar pela presidência da república. A instituição mais democrática de todas é a presidência da república e não é por outra razão que as mídias golpistas do continente atacam-na mais encarniçadamente. Os elementos reacionários da América Latina sempre se penduraram nos supremos tribunais, que abusam de seu poder para lançar as leis ao fogo - ao mesmo tempo em que bradam defendê-las!

Neste exato momento, em Honduras, há grande revolta contra alguns jornais e canais de TV, que não estão informando a população sobre as greves, manifestações e repressões que acontecem em todo país. Há, portanto, duas grandes violações da liberdade de opinião neste momento, em Honduras. A primeira é o fechamento de jornais contrários ao golpe. O segundo é a manipulação das notícias por parte das empresas pró-golpistas. A demora da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) em se posicionar sobre estes acontecimentos, torna-a cúmplice. A mesma coisa vale para os meios de comunicação brasileiros. E a defesa, pela Veja, do golpe de Estado em Honduras, inclusive com a sugestão reiterada de que o mesmo poderia ser feito no Brasil, deixa qualquer democrata estarrecido.

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Não é compreensível, portanto, que um senador da república do partido dos trabalhadores, do partido do presidente da república, o senhor Tião Viana, permita-se dar uma entrevista à revista Veja!

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Ainda sobre Honduras, esse texto de Laerte Braga, via Azenha, pega na veia.

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Nessas horas que vemos a importância da Carta Maior. O site está fazendo uma excelente cobertura dos acontecimentos em Honduras. Destaco três artigos:

1) Este, de Sandra Russo, analisando como o golpe em Honduras excitou as direitas em todo continente.

2) Esse, do sempre impagável Gilson Caroni, meu articulista político preferido nos últimos tempos.

3) Este outro, também traduzido pela Katarina Peixoto.

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Tem um outro da própria Katarina, publicado na Carta Maior.

Link da ilustração.

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Esse outro artigo, via Azenha, também esclarece alguns pontos.

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Dilemas antimidiáticos

(Ronald Binnie)


Nós blogueiros vivemos um dilema. A situação, afinal, é um tanto ridícula. Desde que me entendo por gente eu leio O Globo. Minha família não apenas lia O Globo, como vivia dele. Meu pai trabalhou lá, como Repórter Especial, por quinze anos, na área de Economia. Ele só largou esse "empregão" por um outro ainda melhor, onde trabalharia como chefe. Sempre foi bem tratado pela família Marinho. Detalhe: meu pai era comunista. Sempre foi comunista. Estudou na Tchecoslováquia com bolsa de um governo comunista. Mas "renunciou" a qualquer ideologia já nos anos 70, aparentemente frustrado com a invasão soviética à... Tchecoslováquia.

Enfim, meu pai foi comunista quando todo intelectual era comunista e deixou de sê-lo quando todos deixaram de sê-lo. Passou inclusive a votar no PSDB, o que gerava discussões políticas homéricas em casa, porque eu, muito cedo, já percebera que o engodo neoliberal era um capitalismo pra otários do terceiro mundo. Infelizmente, meu pai morreu no início de 1999, antes do debacle cambial do país, que revelou a gigantesca fraude eleitoral perpetrada por FHC, que, para garantir a vitória nas urnas, esvaziou nossas reservas internacionais. Se ele não tivesse morrido, eu teria vencido, magistralmente, aqueles encarniçados debates domésticos...

Meu pai trabalhou no JB, no Correio da Manhã, até que caiu na rede macia dos platinados. Foi muito bem tratado, foi muito bem pago. Plano de saúde, viagens ao exterior, presentes ao final do ano, Tivoli Park gratuito para os filhos.

Meu pai largou o Globo nos anos 80, para ser editor da Revista do Café, depois saiu da Revista e abriu seu próprio jornal, o Coffee Business, a primeira newsletter especializada em café do Brasil. Aí eu entrei na jogada, trabalhando com ele, fazendo de tudo. Isso é outra história que conto depois.

Minha tese é a seguinte. Não tenho razão pessoal nenhuma para não gostar do jornal O Globo. Muito pelo contrário. Eu queria gostar do Globo, não só porque meu pai foi bem tratado por lá, mas porque eu gosto de ler jornal. Parafraseando Hegel, o jornal é o meu "café-da-manhã de realidade".

A coisa é ainda mais séria. Como carioca com veleidades literárias, minha posição antiglobal é profundamente prejudicial aos meus objetivos. Tenho contato com assessores de imprensa, e estou ciente como é importante, para um artista, para um empresário, para qualquer cidadão carioca com necessidade profissional de projeção pública, estabelecer uma boa relação com o jornal dos Marinho.

Quando existiam outros jornais, essa dependência era muito menor, porque um "desafeto" global sempre podia ganhar espaço junto aos concorrentes. Antes da ditadura militar, aliás, O Globo ocupava o terceiro ou quarto lugar no ranking de circulação no Rio, atrás do Correio da Manhã e do JB. Enquanto a ditadura asfixia seus concorrentes, o Globo ganha vultosos financiamentos públicos e consegue, inclusive, mudar a Constituição (vejam só, mudar a Constituição! Em Honduras fazem golpes de Estado diante desta possiblidade!) para que as Organizações Globo possam receber recursos financeiros dos Estados Unidos.

Concorrentes falidos, o jornal O Globo emerge no pós-ditadura exercendo o monopólio do jornalismo político e cultural do Rio de Janeiro. E a TV Globo, por sua vez, conquista um monopólio nacional. O poder imenso de Roberto Marinho torna-se lendário. Recordo que, desde garoto, ouvia as pessoas afirmarem que era ele, Roberto Marinho, quem mandava de fato no Brasil.

Voltando à minha tese, reitero que não tenho nenhum motivo pessoal para ter passado para este lado das trincheiras e me tornado um "combatente antimidiático". Estou consciente de quão quixotesco e ridículo isso deve soar aos ouvidos de muita gente. Eu mesmo procuro não me levar assim tão à sério. Há coisas na vida, no entanto, que nos arrastam, inexoravelmente. Minhas razões para atacar o Globo são políticas e ideológicas; e quanto mais se acentua o caráter reacionário e direitista do Globo, mais as paixões políticas me arrastam para as trincheiras antimidiáticas.

Confesso que tento fugir o tempo todo. Invento mil subterfúgios. Trabalho, leituras, lazer, há tanta coisa a fazer. A troco de que eu preciso me lançar nesta batalha quixotesca, perdendo meu tempo respondendo a figurinhas tão absolutamente medíocres como Cora Ronai? Não sei. Patriotismo? Justiça? Esses conceitos parecem tão ridículos, tão falsos... A onda de cinismo que se espraiou sobre o cenário cultural brasileiro é tão poderosa, tão elegante, tão inteligente, que humilha e esmaga esse tipo de coisa... Evito, portanto, por defesa pessoal, sequer pensar nesses termos. Guio-me pelo sentimento, ou seja, pela minha loucura, e já li Don Quixote.

O grande dilema a que eu me referia no início do post, portanto, é o seguinte: se desprezamos tão solenemente a mídia corporativa, que identificamos com os interesses políticos mais mesquinhos e mais reacionários, não seria melhor simplesmente não falar dela? Não seria melhor esquecê-la completamente? Talvez. Talvez num momento futuro, e não muito no futuro, essa seja a melhor estratégia. Mas não podemos, agora, subestimar o adversário. Ele agoniza, mas ainda berra alto. Lembra-me os porcos que meu pai mandava matar lá no sítio. Sabe porque é difícil matar porco? Porque o coração dele fica escondido no meio do peito, protegido por ossos, músculos e muita gordura. E o pobrezito sente dor, naturalmente, e seus gritos parecem gritos humanos.

Esses pensamentos todos me ocorreram enquanto lia o Globo hoje. De certa forma, sinto-me até agradecido ao jornal por me proporcionar tanto assunto. Imagino que os jacobinos deviam experimentar uma sensação semelhante diante dos aristocratas presos: ah, obrigado pelo prazer de cortarmos suas cabeças!

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+ firulas literárias


(Gomes Freire. O prédio vermelho é o bar recém inaugurado Será o Benedito)

Não posso parar de escrever. A cada vez que o faço, torna-se mais difícil voltar. Não é como andar de bicicleta ou nadar, que são técnicas que não se esquecem jamais. Escrever tem uma complexidade singular, porque movimenta toda uma engrenagem mental e emocional, cujos roldões e esteiras, quando interrompemos o trabalho, começam imediatamente a sair de seus lugares, e a enferrujar. O retorno sempre é penoso, um pouco demorado. A prova disso é esse post mesmo, que não passa de um exercício de aquecimento. Não dêem muita bola pra ele.

Até porque, em verdade, não se pára de escrever. Quer dizer, a energia continua lá, os pensamentos continuam lá, as emoções continuam lá, o que se interrompe é o fluxo final, a sua consubstanciação num texto vivo. Parar de escrever é sentar no meio do córrego, tentando interrompê-lo. As águas se acumulam e vazam pelos lados, caoticamente.

Por isso, não podemos parar de escrever, nunca.

De certa forma, não mais escolhemos sobre o quê escrever. O advento da internet é apenas a demolição final do castelo em que o escritor foi obrigado a se esconder desde seus primórdios, e do qual começou a escapar durante a modernidade. Os gêneros se misturaram. Ensaio, romance, poesia, conto, crônica, muitos autores modernos decidiram abandonar os rótulos que amarravam a sua criatividade. Para se afirmar como artista verdadeiramente livre, o escritor tem de escrever em linha com a sua consciência e em conformidade às exigências de seu tempo. É conduzido, e se deixa conduzir, pela violência de suas paixões, embora sempre evitando sair da estrada pelo esforço concentrado de sua razão.

Daí que a história da literatura e da arte em geral abunda de parasitas oportunistas voando ao redor da lâmpada; que se acham muito inteligentes e espertos por estarem próximos à luz - inconscientes de que apenas abreviam a sua vida e apequenam o significado de sua existência. A liberdade das mariposas é a grande noite escura, e não a pequena lâmpada amarela pendurada no quintal.

*

Existe uma espécie de desespero que revigora. Como um sarcasmo de Deus, os desesperados, os tristes, os angustiados, encontram em sua própria dor a inspiração para produzir um lamento criativo. Digo sarcasmo porque esse lamento apenas aprofunda o sentimento de ridículo que envolve seu autor.

*

Então voltamos ao pavoroso início de tudo. O momento em que nos encontramos com aquilo do qual mais fugimos, ou seja, nós mesmos e nossa drástica vaidade. Não se pode encarar a própria imagem por muito tempo, a menos que se seja muito burro. A solução é, mais uma vez, esquecer e seguir em frente, sem reparar nas desoladas paisagens passando no cine da memória.

*

Um dia frio e ensolarado é uma ótima oportunidade para se ler um livro bebendo cerveja.

*

Antes de fazer essas anotações bestas, pensei em escrever um artigo cheio de filosofadas e citações históricas para comentar as últimas peripécias da imprensa corporativa brasuca, mas acho melhor resumir tudo num parágrafo:

Se eu encontrar um jornalista do Globo na minha frente, desejo sorte, a ele e a mim, para que eu resista a dar-lhe um murro na cara. Golpistas filhos da puta. Ninguém se salva ali. Até os mais "legais", com o tempo, vão se acovardando, se intoxicando com esse lacerdismo babaca, hipócrita, cínico, safado. A reação ao golpe em Honduras desnudou-lhes a todos.

*

Tenho que reler o Escrivão Isaías Caminha, do grande Lima Barreto, em que ele critica os jornalistas de seu tempo.

*

Estou lendo dois livros muito bons: A história das instituições políticas romanas, de León Homo; e Lincoln, de Gore Vidal. O primeiro nos revela que as lutas sociais têm origem nas civilizações mais antigas, e que o povo, uma hora ou outra, acaba sempre triunfando, porque é mais numeroso, mais forte e está sempre crescendo. Como dizia Jim Morrison em Five to One:



The older get older, the young get stronger. May take a week, may take longer. Gonna win and take over.

Pois é, os intelectuais vendidos que a mídia contrata vão perdendo espaço. Five to one, a cada blogueiro que se vende para a elite golpista, outros cinco abraçam a causa dos trabalhadores. As forças retrógradas da imprensa escrita envelhecem, a jovem blogosfera ganha musculatura.

Não se trata de otimismo, que arrenego. Mas espírito de luta. Uma luta feita com bom humor, talento e sensibilidade, mas que sabe muito bem a hora de virar a mesa e quebrar o boteco.


*

O amor é lindo. Tião Viana, senador do PT, deu longa entrevista à Veja, atacando o governo Lula. Que maravilha. Será que nenhum de seus trezentos assessores não lhe avisou que a Veja defende golpe de estado no Brasil e que ofende e calunia diariamente, várias vezes por dia, o PT e seu governo? E a pergunta que não quer calar: por que esses senadores do PT são tão bundões? São burros, são inocentes úteis, são covardes, ou o quê? Ou todas as opções reunidas? Não tem ninguém ali com culhão pra peitar a mídia?

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Boa sorte, Honduras

(A foto acima tem a função de usar a beleza para expurgar o blog das influências tóxicas do post anterior)


Esse tipo de golpe bananeiro desnorteia qualquer um, não apenas pelo fato em si, terrível, mas sobretudo pelo rastilho de reacionarismo histérico que se acende em todo o continente. São minorias, mas obtêm enorme visibilidade, porque sua ideologia está enraizada no espírito da elite encastelada nos medios. Todos os grandes jornais brasileiros relativizaram o golpe; criticam-no como que a contra-gosto, por causa da reação internacional; e todos, invariavelmente, põem parte de culpa na vítima, no presidente preso em sua casa às cinco horas da manhã e deportado para fora de seu país. A máscara democrata da mídia brasileira agora caiu de vez, mostrando sua carantonha golpista.

Desejo coragem aos hondurenhos, para enfrentar o que talvez seja uma das últimas batalhas pela consolidação de um espírito democrático autêntico na América Latina. Esses golpistas massacram a Constituição com o dedo apontado em parágrafos e cláusulas constitucionais. Ignorantes, que não conhecem a filosofia do direito. A justiça não está na Constituição, mas nos homens, porque são os homens que escrevem as Constituições. Não se aprende a ser bom e justo decorando a Constituição e sim entendendo a si mesmo e ao mundo. Numa democracia, o princípio basilar da justiça está no homem e em suas opções soberanas. Se o povo quer mudar a Constituição para poder reeleger um presidente mil vezes, e daí? As cidades-estado gregas mudavam de constituição frequentemente, às vezes adotando as leis mais estranhas, como aquela de Sólon, patriarca da democracia ateniense, que condenava todo cidadão que não tomasse partido.

O que permanece são os Princípios Fundamentais, que repito aqui:

TÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.

Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:

I - independência nacional;
II - prevalência dos direitos humanos;
III - autodeterminação dos povos;
IV - não-intervenção;
V - igualdade entre os Estados;
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X - concessão de asilo político.

Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.


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A justiça não está no papel, na Bíblia, num Alcorão qualquer misterioso, passível de interpretações duvidosas. Com alguma imaginação e técnica sofística, pode-se encontrar justificativas para assassinatos e estupro na Constituição. A justiça está em como entendemos e interpretamos a Constituição. Se alguém usa a Carta para, sem o devido direito à defesa, sem nenhum julgamento honesto e transparente, mandar prender um presidente da República eleito pela vontade soberana do povo, e deportá-lo para fora do país, é porque perdeu o juízo.

Afinal não somos governados pela Constituição, mas pelo juízo. As Constituições são um esforço das sociedades em produzirem leis que sejam as mais justas possíveis, mas é evidente que a imperfeição do homem o impede de criar leis perfeitas. No decorrer dos séculos a experiência fornece dados que nos permitem formular leis melhores. Não é por outra razão que elegemos, a cada quatro anos, 513 deputados federais e 81 senadores, para estarmos sempre atualizando as leis.

Desde que se tornou independente, o Brasil já teve oito constituições. Todas eram consideradas "sagradas" e todas contêm graves problemas. O poder não está, portanto, na Constituição. O poder emana do povo. Por isso, dos três poderes que constituem a república, a presidência é o mais importante, porque é o único constantemente julgado pelo escrutínio popular, pelo sufrágio universal. Deputados e senadores são votados apenas por seus conterrâneos de província. O presidente da república é votado por todos os brasileiros, ou por todos os hondurenhos. O presidente não está acima da lei, naturalmente, mas o Judiciário, que passa ao largo do sufrágio popular, também não. Não esqueçamos que nas democracias antigas, ateniense e romana, os juízes também eram escolhidos pelo povo.

Eu falo tudo isso apenas para derrubar o principio de qualquer argumentação constitucional. Mas não é o caso. O golpe de estado em Honduras foi um crime constitucional em todos os sentidos. Não se pode julgar um tema político com base em apenas um parágrafo ou outro da Constituição, e sim no todo, na íntegra do texto constitucional. Não fazer isso é realizar uma argumentação juridicamente debilóide. É evidente que esse golpe de estado violou centenas de leis hondurenhas. É absolutamente inconstitucional, em qualquer país democrático do mundo, permitir que o Exército derrube um presidente desta maneira, sem direito à defesa, na calada da noite.

A democracia tem uma longa e dolorosa história de lutas, onde não guerrearam apenas homens, mas também idéias. A vitória dos gregos sobre os persas, no século V antes de nossa era, significou o triunfo de uma idéia, da idéia democrática, que supunha a participação cidadã nas lutas de sua cidade e no debate político interno. Uma vitória do bom senso simples e democrático do pensamento grego, sobre o misticismo sofisticado, sedutor e pavorosamente oligárquico dos soberanos autocráticos da Ásia.

Esse espírito democrático é desafiado a cada vez que ocorrem golpes como esse, em Honduras. Ele - o espírito da democracia - ainda não conseguiu se restabelecer dos ferimentos sofridos nas últimas décadas. Nos anos 60, uma onda hedionda, sinistra, coesa e poderosa, de reacionarismo e totalitarismo político, esmagou a América Latina de ponta a ponta. Esses golpes aqui e ali (Venezuela e agora Honduras) são espasmos deste Leviatã nojento que dominou o continente por tantos anos, e que ainda não está morto totalmente. Como guerreiros liliputianos prosseguimos enterrando nossas lanças sobre o gigante odioso. Um dia ele morre. Tem de morrer.

Não queria tirar licença deixando como último post aquele aí de baixo, que exala um perfume tão desagradável. Agora vou-me.

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