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5 de agosto de 2013

2 poemas

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ressaca moral

 na manhã esverdeada, ele contemplava as donzelas mortas. fantasmas de uma amizade turbulenta, agitada por sonhos destruídos mas ainda ricos em radiotividade. as dívidas não-pagas de amor. os filmes vistos dez vezes. as noites de insônia e sofrimento, uma agulha penetrando sob as unhas de conversas mal digeridas, discussões vazias, qual pesadelos violentíssimos sendo tragados rapidamente, junto ao vinho, junto às savanas secas e famintas do planalto central.

 as discussões de bar entre amigos são a coisa mais linda da vida, e as mais duras. as brincadeiras e as divergências. os erros, os exageros, os cancelamentos de eventos internacionais, as revoluções, os governadores, nada disso, de madrugada, vale um pensamento de amor. mas resistimos, entre desculpas e ressacas, e acreditamos no perdão do pós-guerra, no café, na democracia e no cinema. eu te amo, meu irmão.

3 de novembro de 2012

Rosbife amanhecido

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Estupenda, a montanha que arqueia suas corcovas
enlameadas sobre os caminhos, os caminhos
de sangue das bromélias,

...das bromélias
de antigamente

Estúpida e linda
esta lua sem manchas
radioativa e lúcida
qual um camelo
um vira-lata
uma canção...

se lhe resta
o sol espiando por entre as folhas
antes das águas
e dos clamores
vai-te feliz por entre as ruas
por entre os bares
por entre os seres
que lhe roubaram
o futuro, as flores
da vitória, amarelas
e fúnebres


as flores da morte
nas quais revives
solitário, infeliz, triunfante
elefante negro e robusto
pouco antes de ser caçado

terás o desencontro
das noites vazias e manhãs atormentadas
mas de ponteiros velozes,
traiçoeiros
como flechas envenenadas

um sinal fechado
o trem que surge, universal
na direção de tua queda
fracasso de sombras
elefantes, flores e negras

jogos de sinuca na segunda-feira
não são como outrora

calma, leia a bíblia
termine a cerveja respire fundo
após a manhã chuvosa, virá o desespero,
o sol esfomeado e brutal
de seu trabalho...

sevando as flores
rudes de um amor
infindo

20 de agosto de 2011

Ultranascimentos

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janelas bizantinas
pelas quais saltava
como um sírio (não um círio)
em fogo

mas avistava
ao longo do canal
sem gôndolas
os fantasmas que assombravam
bonsucesso

tudo isso há muito tempo
lá em caxias
num motelzinho barato
adjacente à boca de fumo

onde se vendiam
tickets de ida e volta ao inferno
ao preço muito menor
que uma edição popular de dante

àquela altura, porém,
não tinha mais importância:
saltávamos das pontes
como quem recita
um poema ruim

como quem vende
livros xerocados
na porta da biblioteca nacional

enquanto outros ofereciam
a preços módicos
seu mau humor na internet

nem a cerveja, de qualquer forma,
nem a tristeza,
nem as feridas auto-inflingidas
poderiam te redimir

oh, tu,
esperança arruinada
dos esgotos em si bemol
dos ratos que ouvem blues
das prostitutas
que não gorjeiam

fodam-se as palmeiras,
e todas as merdas
que cantarolam
e espirram
por lá

de agora em diante,
as glórias mortas dos partigianos
cujas estátuas nos espreitam
desconfiadas
nos jardins públicos
de veneza?
crato?
caxias?

*

estenda a toalha
no varal do banheiro
vomite delicadamente
no lugar apropriado

leia os jornais, acesse os blogs,
aprimore sua indignação
comporte-se

há olhos postos em você.

seja bom, revoltado, justo,

há um prêmio ao fim da trilha
uma embalagem bonita
dentro da qual encontrará
um cocô de sabiá

8 de abril de 2011

Luto eterno pela inocência perdida

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Não tenho o que comentar sobre essa tragédia ocorrida no Rio. Nem acho que existam explicações satisfatórias. Para mim, é algo que emerge lá do fundo negro e diabólico da alma humana. A única resposta para isso é o amor, a arte, o carinho, a poesia. Não adianta culpar os filmes americanos, a internet, a mídia, o governo, a educação. Esses monstros surgem do nada, imprevisivelmente, nas melhores famílias. Nas cidades mais pacatas e nos países mais desenvolvidos. Infelizmente, um deles nasceu aqui.

Evidentemente, muitas besteiras serão ditas. Preconceitos vêm à tôna. Intelectuais darão opiniões apressadas, porque raramente admitem que não sabem, que estão tão perplexos como nós.

Não sei, realmente, o que dizer. Vou arriscar um poema:

nas entranhas, sufocado pelo sangue,
o verme se agita
sem amor, sem compaixão,
ele simplesmente se agita
e talvez gritasse,
se soubesse gritar

é quase isso, porém.
o berro de um verme
preso no meio das entranhas
ensanguentadas de uma criança

uma criança, meu deus,
tão linda como uma praia,
uma manhã de sol
de temperatura amena
e ar úmido
em frente ao mar sereno
o mar azul e livre
livre qual uma criança
sem entranhas
sem vermes
sem vida

falam em religiões,
em deus,
em doenças psiquiátricas,
mas esquecem do principal
das entranhas sujas
e dos vermes
estranhos que nelas
se debatem, ariscos,
quase felizes em sua agonia
de monstros em seu habitat

não haverá mais belas manhãs,
o Rio perdeu sua inocência
o Rio perdeu o amor
o Rio perdeu a esperança

A cidade se debruça
à bordo de suas montanhas,
vomita sobre todos nós
e depois chora
copiosamente.

chores também, você,
a sua vida perdida
o luto eterno
a morte que nos espreita
sem ligar se o dia é belo
ou se as meninas são belas

o rio morreu nesta quinta-feira
baleado na cabeça
por um psicopata filhodaputa
que pagará no inferno
dez milhões de anos
mastigado lentamente pelo próprio chefe
dos subterrâneos incendiados

inconsoláveis
acordaremos amanhã
semimortos
como zumbis,
e perambularemos pelas ruas
vazias de sentido
como quem vagueia
perplexo
por uma cidade destruída por uma bomba
e ainda cheia de radioatividade

vamos dormir então
por uns bons anos
tornarmo-nos alcóolatras
bater em nossos filhos
enganar os amigos
pois a moral e o amor já não tem sentido

expulsamos os anjos
do paraíso,
e os substituimos
por homens cínicos
e armados

as entranhas já estão corroídas
pelos vermes
pela tristeza
e pela maldade

adentremos o inferno,
as entranhas em fogo
o coração frio
sem ouvir os gritos

das crianças

sem ouvir nosso próprio grito
de desespero
e desesperança

mas depois fugiremos
de novo para cima
para a luz
e costuraremos o abdômem
rompido, por onde elas
as entranhas, nos escapavam

e talvez dormiremos
ao ar livre,
o coração batendo muito forte
por causa da fuga
e pela emoção também

de estarmos vivos
e sermos novamente pessoas boas
cidadãos notáveis
que culpam a mídia e o governo
e dormem um sono pesado
após a cachaça da terça-feira

mas acordarás de madrugada
para vomitar
assim como a cidade
vomita sobre você do alto dos picos da tijuca

então pegará os jornais pela manhã
pingando sangue, e na cozinha,
ralando cenoura e cortando o tomate,
esquecerás dos anjinhos
que nunca leram dante
as mocinhas bonitas
que podiam se tornar suas amigas
daqui a alguns anos.

concentrar-te-ás somente na faca
laminando o tomate
lentamente
cruelmente
eternamente.


*


E um pouco de música para relaxar. Escolhi algo que, imagino eu, tem um pouco a ver. Uma música tão linda e tão triste de Jimi Hendrix, O vento chora por Maria. The wind cries Mary.

8 de agosto de 2010

domingo é sábado

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nem reparou no sol,
atravancando as ilusões. E a vida.
Mas fazer o quê?

não tem desculpas baby,
mas sorrisos e distâncias
e o sol secando a noite

porque tanta claridade
se ainda estamos no bar?

hora de ir pra casa,
os cartazes na parede
não me dizem nada,

love dirty cerveja
e os estranhos, os olhares,
as sombrancelhas
que se arqueiam.

não há desculpas,
apenas a fogueira ardendo
os olhos o brilho
chicote batendo
impiedosamente nas minhas costas

não deveria ser assim,
o amor cheio de culpa

não era o céu,
alegria e loucura
morte e prazer
música e poesia
não era assim?

mas chegou a polícia e ela apenas
se defendeu de uma violação.

se a beleza não lhe faz chorar
eu choro por você

e um dia voltaremos a estar juntos
bebendo num bar

nós dois e os apartamentos de dois quartos,
cozinha e lábios

a emoção a tristeza as frases de efeito
que a gente repete um para outro
com sinceridade

falta um minuto,
para explodir o infinito
estou só,
e persevero
nas quimeras pontudas, ácidas
que usei como pólvora

melhor se preparar,
porque haverá samba
por toda parte
e eu sei que você prefere o blues.

deus, porém, também
vai ao banheiro.
e alguém tem que segurar
o peso dos versos
transfigurando janeiro.

até logo, desdêmona
hoje não tem jantar, o dia correu
e bateu no meu rosto,
como um segredo
morrendo em agosto.

tchau e mil vezes, esqueci de te dar
poemas e presentes
de aniversário.

se alguma dignidade, contudo,
respira por dentro, inventivamente,
eu piso com força
o cadáver do cadáver

e lembro enfim de amélia
e todas as mulheres
que me fizeram

rasgar o amor, e subir
os arcos da lapa.

amélia, sim,
era mulher de verdade

mas também era, baby,
tremendamente vaidosa.

29 de março de 2010

Soneto da fraude

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Amigos, fiz um sonetinho, uma paródia do Soneto da Separação, do Vinícius.


De repente da queda fez-se a alta,
Misteriosa, estranha como a bruma,
E das bocas tristes, um sorriso.
Uma esperança chocha se alevanta.

De repente a pesquisa trouxe a nova,
Que da Folha desfez o último crédito.
Se a ficha falsa foi seu mérito,
Agora nada mais já nos espanta.

De repente, não mais que de repente
Fez-se alegre quem estava triste,
E campeão o há pouco decadente.

Ninguém ainda quer ser o vice;
Mas com o Datafolha a seu lado,
Agora sim o Serra vai em frente.

Miguel do Rosário

30 de janeiro de 2010

mormaço

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porque o aço
de teus devaneios, imensos,
hipertensos,
deságuam sempre neste mar
de lama
ferro derretido
sangue

porque há tempo
em que a dor vacila
no interior das tragédias
os dentes estragados
sem olhos
triste como um cão

lá fora os incêndios
a luta
sorrisos, cerveja
aqui dentro o amor
o aço
mormaço
ferro sangue derretido
os terremotos cegos
como quem mata
suavemente
milhões de pessoas

17 de novembro de 2009

limiares

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verdade que o tédio,
procura as cores,
e as plantas mortas.
e os horizontes
incendiados

esmurra as portas,
depois hesita
quando se abrem

porque o abismo
abre-se no limiar
de todas as portas

hesita mas segue
adiante, e vê as cores,
os incêndios,
os cadáveres
das plantas
e dos horizontes,

vai lá, e sonha,
e ama e goza no inferno,
infeliz!

persegue os abismos
incolores e devastados,
de teus anseios,
de tua solidão nervosa,
que te encara depois da porta,
como um rosto
conhecido cujo nome
não te lembras

Disparates & cervejas

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Com olhos macios, ela pediu um pouco,
antes das cenas, dos filhos,
antes da tempestade
afugentar o instante,
e os sorrisos
antipoliciais.

além da cerveja,
bebíamos nossa vaidade
triste e desesperada
de poetas

nossas conversas
cheiravam a versos
de fernando pessoa

e havia a lourinha
culta, louca,
e seus olhos macios

bem ao lado,
ou talvez abaixo
de nossos pés
havia um inferno
cheio de luzes
e desgraças

mas a gente olhava
apenas nos olhos
uns dos outros
e tentava não perceber

embebedávamos
lentamente,
com uma tristeza
nervosa,
com orgulho,
de nós mesmos,
(desde que não olhássemos para baixo)

a lourinha
tinha pernas brancas
e bonitas
mas toda machucada,
e com manchinhas roxas.

havia, portanto,
uma violência pura
e poética
no ar, nas vozes,
que era força,
solidão,
e desatino.

7 de setembro de 2009

Bukowski e o 7 de setembro

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Edifício na rua do Riachuelo.


Porque a independência material caminha junto com a do espírito.


Poem for my 43rd birthday

By Charles Bukowski

To end up alone
in a tomb of a room
without cigarettes
or wine —
just a lightbulb
and a potbelly,
gray-haired,
and glad to have
the room.

... in the morning
they’re out there
making money:
judges, carpenters,
plumbers, doctors,
newsboys, policemen,
barbers, carwashers,
dentists, florists,
waitresses, cooks,
cabdrivers...

and you turn over
to your left side
to get the sun
on your back
and out
of your eyes.

***

Poema para meus 43 anos

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.

... de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas,
longe
de seus olhos.

***

Copiado do site Germinal Literatura (com alguns retoques meus na tradução).

16 de fevereiro de 2009

Da série: Os melhores poemas da língua portuguesa

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(por falar em poema, escute este belíssimo texto de Bob Dylan, interpretado pelo Mestre. Estude a letra da canção)

Os dois poemas abaixo são os melhores já escritos em língua portuguesa, ou pelo menos é o que penso nesse momento. Ambos são de João Cabral de Melo Neto. Um é o Cão sem Plumas. O outro transcrevo abaixo:

Psicologia da composição

João Cabral de Melo Neto

1.
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

2.
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

3.
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;

pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

4.
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)

5.
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.

6.
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

7.
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

8.
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

Fonte: Melo Neto, J. C. 1994. Obra completa: volume único. RJ, Nova Aguilar. Poema originalmente publicado em 1947. O autor dedica o poema a Antonio Rangel Bandeira, e a parte 2 a Lêdo Ivo.


*

12 de fevereiro de 2009

Lembrei do grande Drummond

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Carta a Stalingrado

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

(Andrade, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Record, 1987)


Link da ilustração.

22 de janeiro de 2009

Olaria News

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ela me lançou um chinelo
e disse coisas horríveis
não estava nem um pouco interessada
na posse do novo presidente americano
e sim no que eu tinha feito
na madrugada de segunda-feira

vinha cheia de amor e ódio e suspeitas
cuspindo e beijando,
arranhando, batendo, mordendo,
xingando, com loucura, paixão,
e egoísmo

minha linda sabina de subúrbio
lançou-me um olhar
cheio de ira, medo, ternura
um olhar louco
risonho e homicida
como uma águia

21 de janeiro de 2009

obama dreams

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Escrevi um poema em homenagem à posse de Barack Osama. Como de praxe, bati na minha olivetti, mas estou sem escanner, então tive que digitar novamente. Reproduzo abaixo:

obama dreams




um casal de cãezinhos brinca
no tapete da sala, uma senhora
de brincos espalhafatosos observa
amorosamente, aí ouve um barulho
na cozinha, ela vai até lá
com uma sombra 
de cem mil anos no olhar

um garotinho negro ri
diante de um copo quebrado
ela briga com o menino
ele chora, a empregada aparece
e pega o menino no colo
- desculpa senhora
diz a empregada de cor

a senhora responde
- tudo bem, me dá ele aqui
beija a criança e diz
meu filho, tem que tomar cuidado
essas coisas não nos pertencem

logo desiste de continuar explicando
ao filho que os objetos 
daquela casa pertencem
ao povo americano, em vez disso
beija o moleque seguidamente
e diz - meu fofinho, cuidado
você pode se machucar.


miguel do rosário, 21 de janeiro de 2009

Imagem: Robert Rauschenberg

7 de janeiro de 2009

Palestina Mon Amour

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6 de janeiro de 2009

Tempo instável

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4 de janeiro de 2009

Alergias

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7 de dezembro de 2008

Ninguém merece seu amor, amem

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Por Fernando Soares Campos

Ninguém morreu, portanto estou desolado
Ninguém estava no velório
Ninguém chorou
Ninguém sentiu saudades de ninguém
Ninguém rezou
Ninguém cantou o réquiem das carpideiras
Ninguém nem mesmo reclamou o corpo de ninguém

Ninguém precisa fazer alguma coisa para que ninguém padeça
De solidão tumular

Nínguém deve tomar uma atitude para que ninguém
Continue abandonado à própria sorte

Ninguém está sentindo dificuldade de encontrar o túmulo de ninguém
Ninguém precisa que ninguém eleve uma prece por ninguém
Ninguém, sem isso, pode ressurgir dos mortos
Ninguém merece seu amor
Amem

4 de dezembro de 2008

conversa póstuma

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(Helcio Barros)



"Porque nenhuma batalha se vence ele disse. Elas não são nem ao menos disputadas. O campo de batalha revela ao homem somente a sua loucura e desespero".
O Som e a Fúria, William Faulkner.


*

de que adianta morrer
se deixas teu cheiro
e contas não pagas
em hotéis baratos
da praça tiradentes?

de que adianta fugir
para outros mundos
sem compreenderes
que o amor
não cobra dívidas?

ainda estamos aqui
apreendendo
a poesia
enquanto te entorpeces
junto a são pedro

tua festa póstuma,
sinto informá-lo
foi cancelada

mesmo agora
perante o vazio
tua amizade
continua se esfacelando

não há bondade
sem elegância
e as cegonhas
daquele filme russo
ainda voam

*

nem as bandeiras
que agito
nem os versos
canhestros
os pombos mortos
a neuro-solidão
e as cigarras
histéricas do aterro
nada se compara
ao grito de guerra,
covarde, louco,
ecoando lá no fundo
infinito
da história

*

talvez uma autópsia
permita descobrir
o poema
oculto em tuas entranhas
aquele que nunca
lograstes escrever

só não me peça
benevolência

com muito custo
e cerveja
mantenho vivos
minha burrice
e talento

a compaixão, porém,
eu guardo
para as crianças
que me pedem dinheiro

*

não te verei mais
no quadrilátero
do crime e talvez
sinta saudades

mas, you know,
bêbados
não tem saudades
bêbados bebem
escutam música
jogam sinuca
arrumam confusão
e se apaixonam
perdidamente
pelas amigas
desempregadas

por isso,
perdoe-me
seu grandessíssimo
filho-da-puta

não tenho tempo
para pensar em ti
estou ocupado
ouvindo john hammond

3 de novembro de 2008

cigarro molhado

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os poetas, as
dores descalças
auto-comiseração e delírios
que voam tão alto como
demônios libertos,
e canários loucos.

qual a dialética
de um pintassilgo?

enfim, as solidões
de pátrias vazias
as mesmas crianças
alertas
criminosas
de sempre, cara

enfim o poema
esparso, líquido, nojento
que você lambuza no rosto
não me espanta

o espetáculo
do aço resfriado
libelos mancos
desequilíbro dos mares
dos xaropes
vomitados à céu aberto

não, cara,
eu não acredito
no poder da minha covardia
na força da minha tristeza

eu alimento a morte
simplesmente
com algas sem música
e sonhos medíocres

o tempo me aperta
me bolina
me engana
cafetão desgraçado

duro, cara,
não é a vida,
e seus degraus
e ossos quebrados

duro é a morte
espreitando
no silêncio dos livros
ainda não lidos

nem o medo,
nem tudo ao redor
as filhas, os ratos
os sequestros
a polícia,
o pior são os homens
que dançam na chuva
e mordem o rabo
dos cães

o pior são as chuvas
silenciosas, quentes,
sujas,
molhando meu último cigarro