28 de setembro de 2009

É fácil, Honduras, deixá-la à mercê dos pássaros

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(Óleo em tela de Leonel Obando, um dos principais expoentes
das artes plásticas hondurenhas contemporâneas.)


Nos últimos dias, assistimos a um verdadeiro show de horrores. A mídia brasileira, que havia se posicionado de forma neutra na primeira semana do golpe em Honduras, certamente (já havíamos suspeitado disso, agora é uma certeza) acuada pela dura reação internacional contra o mesmo, e que, posteriormente, durante várias semanas, pôs em prática um sinistro pacto de silêncio, omitindo qualquer informação sobre o desenrolar dos acontecimentos no país, agora, que a situação voltou a esquentar, abriu o jogo: está apoiando descaradamente uma violenta e injustificável ruptura institucional ocorrida num membro da OEA. Uma ruptura que caminha, a passos pavorosamente rápidos, para se tornar uma ditadura sangrenta.

Os argumentos usados para dar aparência legal ao golpe são patéticos. Enchem a boca para falar em "cláusula pétrea", mas omitem os fatos principais:

1) O plebiscito pedido por Zelaya não incluía reeleição. Era tão somente uma consulta sobre uma Assembléia Constituinte. Consistia numa única pergunta: "Você está de acordo que nas eleições gerais de 2009 se instale uma quarta urna na qual o povo decida pela convocação de uma assembléia naconal constituinte? Sim / Não". Só sendo muito cínico e mau caráter para justificar um golpe de Estado por causa disso.

2) Caso a Assembléia Constituinte fosse formada, e a reeleição aprovada, Zelaya não seria beneficiado, mas outros presidentes.

3) Há diversas outras "cláusulas pétreas" e artigos de lei na Constituição de Honduras que vedam expressamente a usurpação do poder democrático.

4) Um presidente, que é, num regime presidencialista, o representante máximo da soberania popular, tem, como qualquer outro cidadão, direito à defesa, em seu próprio país, com nomeação de advogados, com debates públicos.

5) As principais democracias do mundo possuem o regime de reeleição, inclusive o Brasil e os EUA. É uma hipocrisia incompreensível, portanto, acusar a tentativa, através das regras democráticas, e consultando o povo, de instituir a reeleição, de ser uma manobra golpista, ou totalitária ou inconstitucional.

*

É tudo muito absurdo. Estudantes de direito aprendem, logo nos primeiros períodos da faculdade, a diferença entre o espírito das leis e as leis propriamente ditas. Mais importante do que decorar as leis é conhecer seu espírito, sua essência, porque as leis podem ser mudadas, e efetivamente o são, mas o espírito das leis é muito mais estável. Se as leis não pudessem ser mudadas, não haveria necessidade de um poder legislativo, que custa caríssimo e, de certa forma, constitui sempre uma pedra no sapato do poder executivo.

O mais importante conceito jurídico numa democracia é a soberania popular. Não há "cláusula pétrea" que possa anular o que constitui a essência moral de uma democracia: o poder emana do povo, que o exerce através do sufrágio. Naturalmente, presidentes podem sofrer processos de impeachment, mas são casos de exceção, muito raros numa democracia, e quando realizados, devem seguir rigorosamente os preceitos legais, com direito à defesa do presidente, votação em Congresso Nacional, e, de preferência, realização de escrutínio público para conferir a opinião real da população.

Tivemos um impeachment no Brasil que não realizou consulta formal da população, mas houve uma mobilização muito grande contra o presidente Collor, que fez um péssimo governo, onde todos os indicadores sociais registraram uma piora acentuada. De qualquer forma, Collor teve oportunidade de se defender, tanto em cadeia nacional, quando no Congresso. Sobretudo, pôde se defender aqui mesmo no Brasil. Ninguém invadiu a casa de Collor às 3 horas da manhã, prendeu-o, e o deportou para o Panamá. Ele ficou aqui, com todas as regalias de presidente da república, até que o processo de impeachment chegasse ao final.

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O que me surpreende, nos defensores brasileiros do golpe em Honduras que usam o argumento de "mudança na Constituição", é o fato de, aqui no Brasil, termos um político que patrocinou uma mudança constitucional em benefício próprio, sem nenhuma consulta popular, havendo mesmo acusações de compra de voto, feitas pelos próprios deputados "comprados", e, mesmo assim, jamais passou pela cabeça de ninguém, a não ser talvez da ultra-esquerda (que, de qualquer maneira, está sempre querendo derrubar o governo, seja qual for), entrar na casa de FHC de madrugada, mandá-lo para o Panamá, e empossar o presidente do Congresso; considerando que todos os defensores do golpe em Honduras são ligados ao tucanato, como podem lidar com tamanha incoerência?

Nossa mídia disse que o "governo interino" estava organizando novas eleições, para novembro, e tudo voltaria à normalidade. Como é que é? Isso abre um precedente gravíssimo, o qual não podemos permitir. A América Latina é uma grande fileira de dominós de pé. Se derrubarmos esta peça, a fileira irá desabar inteiramente. Foi assim antes. Começaram derrubando um governante legitimamente eleito, Jacobo Arbenz Guzmán, na Guatemala, em 1954, sempre com apoio midiático, e daí todos os governos latino-americanos, com raras exceções, foram sendo derrubados, um a um.

A mídia brasileira se agarrou ansiosamente às "eleições" de novembro, marcadas pela ditadura hondurenha, como prova de que Micheletti não era tão mau assim e que a situação no país iria se normalizar. Ora, não tem sentido. A ditadura hondurenha está fechando todos os canais de comunicação que davam algum espaço para Zelaya e os que o apoiam poderem se expressar. Proibiu reuniões de mais de 20 pessoas. Aliás, acaba de baixar uma espécie de AI-5. A mídia hondurenha pró-golpe tem feito propaganda sistemática contra Zelaya, inventando casos escabrosos de corrupção, da mesma forma como a mídia brasileira fez com João Goulart, logo após o golpe de 64, para mostrar como o Brasil podia respirar aliviado por ter derrubar um presidente tão corrupto, que iria, em questão de semanas, implantar o mais severo e totalitário regime comunista no país.

Com essas condições, como pode haver um pleito justo? O que é mais importante, sobretudo, é que esse tipo de palhaçada não existe numa democracia. Pelo menos não em pleno século XXI. Não aqui nas Américas. Se as elites e a mídia hondurenha queriam Zelaya fora do poder, então que construíssem um discurso político e encontrassem um candidato capaz de conquistar votos. O que ocorre é que, como as direitas políticas da América Latina não estão dispostas a realizar ações concretas no sentido de melhorar a vida dos pobres, elas não podem competir eleitoralmente com candidatos que estão dispostos a isso. É um pensamento medieval, claro. Parte da elite latino-americana, em função de seu racismo, de seu egoísmo, de sua degeneração, se recusa a enxergar que a melhoria social em seus países é condição necessária para o desenvolvimento econômico.

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O golpe de Estado em Honduras assemelha-se muito ao que ocorreu no Brasil, em 1964. Um cerco midiático violento, antes e depois. Apoio dos sindicatos patronais. Cooptação, sempre através da mídia, das lideranças militares, que passam a ser bajuladas de uma forma incrível, pois a mídia sabe, como ninguém, manipular egos e vaidades. E não se esqueçam que, no Brasil de 1964, assim como em Honduras hoje, empossou-se o presidente do Congresso Nacional.

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Sou da opinião que, por questão de saúde, é melhor não ler algumas coisas. Há anos que não chego perto da Veja, por exemplo. Ela é infecciosa, como diz Paulo Henrique Amorim. Através da internet, todavia, acabamos tropeçando, sem querer, em muito lixo que preferíamos nunca ter conhecido. Esse rodeio todo é para dizer que, num descuido, acabei caindo numa poça de lama chamada Roberto Pompeu Toledo. Li assim, aos trancos, meio assustado, como quem contempla um macaco de três cabeças, ou qualquer monstruosidade do tipo. É um texto simplesmente nazista, sem tirar nem pôr. O desprezo superior com que ele fala de Honduras e América Central nos faz pensar que se trata de um aristocrata francês do século XVII referindo-se a uma região atrasada qualquer da África. Não há um pingo de humanismo. O cara é um monstro. A Veja, ela sim, se tornou uma aberração hedionda. Não vou entrar naquele joguinho de citar trechos do texto e fazer o contraponto porque não é necessário. Nem aconselho vocês a clicar no link. Acho que, a essa altura do campeonato, a fama da Veja é suficiente para fazê-los acreditar em mim. No caso de duvidarem de minha palavra, confiram vocês mesmos.

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O caso é que a mídia brasileira, e seguramente suas primas de vários outros países latinos, resolveu se posicionar na contra-mão de todo o mundo democrático, o que dá alguma relevância à minha tese, segundo a qual o aprofundamento da democracia nos países obrigou o Leviatã - um símbolo criado pelo filósofo Thomas Hobbes para se referir aos aspectos brutais do poder político - a abandonar o terreno público-institucional e refugiar-se nas mídias corporativas, onde ele pode exercer a sua brutalidade e prepotência com a liberdade com a qual se acostumou, durante milhares de anos, à frente de monarquias, czarismos, impérios, etc, e que soube adaptar, igualmente, ao comunismo soviético. No caso das democracias ocidentais, o Leviatã não conseguiu se sentir à vontade ganhando salários medianos e julgado pelo escrutínio popular, sobretudo a partir da II Guerra, quando mulheres, negros, analfabetos e pobres conquistaram direitos políticos. O Leviatã, então, partiu para o mundo dos negócios, construiu grandes empresas, organizou lobbies. Nenhum outro setor, porém, lhe agradou tanto, pela proximidade do poder político, como as mídias corporativas.

O que vemos hoje em Honduras é talvez o primeiro grande embate mundial entre o Leviatã midiático e o poder democrático. Todos os governos do mundo rejeitaram o golpe em Honduras, contra as mídias latino-americanas, que o apóiam ou são tolerantes com ele.

*

A grande incógnita é sobre o papel dos Estados Unidos nessa encrenca. Embora tenha, pela primeira vez, perdido o protagonismo para o Brasil, os EUA ainda são uma peça geopolítica fundamental nesse delicado e perigoso jogo geopolítico. A Casa Branca condenou o golpe, declarou que considera unicamente Zelaya como presidente legítimo, cancelou o visto para as principais autoridades golpistas, aprovou sanções econômicas e tem apoiado inequivocamente as decisões da Organização dos Estados Americanos (OEA), principal órgão político regional, o qual tem condenado de forma particularmente severa a ditadura imposta em Honduras.

É preciso atentar, no entanto, que os EUA possuem uma sociedade incrivelmente heterogênea. A direita americana tem autonomia financeira para agir independentemente da Casa Branca. Talvez os serviços secretos pudessem identificar os grupos americanos que, possivelmente, participaram do golpe em Honduras. Mas os serviços secretos americanos, historicamente, fogem ao controle direto da presidência da república. Espero que Obama consiga se reeleger e que, até o final de seu segundo governo, debilite a ideologia golpista presente em setores da sociedade americana. Os contribuintes americanos gastaram mais de 1 trilhão de dólares para impor "valores democráticos" ao Iraque. Não faria sentido participar de um golpe contra os valores democráticos em seu próprio quintal. Sabemos, no entanto, que a política externa americana não costuma obedecer a nenhum valor, e sim cumprir a agenda do lobby armamentista, em particular, e do interesse econômico, em geral. Mas o importante é que, desta vez, os golpistas de Honduras não têm apoio político oficial dos EUA, e as sanções oficiais impostas por EUA, Europa e OEA ao país devem estar destruindo uma economia frágil. Diante do total isolamento dos golpistas de Honduras, os grupos americanos que os estiverem apoiando devem estar, a este altura, preparando o terreno para os abandonar. Como já fizeram em tantas outras ocasiões. Honduras é insignificante demais, economicamente, para correrem demasiado risco.

*

Não, Pompeu Toledo, Honduras não é uma "aberração", como você se refere. O poeta Roberto Sosa diz que Honduras é um "país de poetas". Lá tem gente, seu imbecil. Gente bonita, humanista, que pensa o mundo, que pensa a vida, que ama e sofre, e que você, seu merdinha insignificante prestes a ser lançado no lixo da história, com seu preconceito babaca e sua mediocridade militante, acaba de ofender profundamente. Você não ofendeu apenas Honduras, não ofendeu apenas a América Central. Você ofendeu toda a América Latina. Ofendeu a humanidade inteira.

Neste momento, o mínimo que podemos fazer é nos informarmos um pouco mais sobre a história e a cultura de Honduras. Toledo, do alto de sua desmedida arrogância em relação à América Central, continente pobre, mas com uma história de muita luta, e que abriga, nos arquétipos profundos do inconsciente coletivo, em sua pele morena, nos traços rasgados do rosto, a dignidade e a força de civilizações tão antigas, Toledo, do alto de sua arrogância, cometeu o erro apontado por Roberto Sosa, um dos maiores poetas hondurenhos, que os homens costumam cometer diante de uma criança:

Da criança ao homem


É fácil deixar um menino
à mercê dos pássaros.

Observá-lo sem assombro,
os olhos de luz indefesa.

Deixá-lo gritando no meio da multidão.

Não entender o idioma
claro de sua meia-língua.

Ou dizer para alguém:
ele é seu para sempre.

É fácil,
facilíssimo.

O difícil é dar-lhe
a dimensão
de um homem verdadeiro.

(Tradução: Miguel do Rosário).
Original aqui.

*

A mídia e a sociedade civil americana sempre apoiaram as iniciativas norte-americanas de defender a democracia mundo afora. Em geral, essas iniciativas vinham pontuadas por bombas, gases tóxicos e muita mortandande. O Brasil, pela primeira vez, resolve apostar na democracia, mas de forma quase passiva, apenas emprestando a embaixada para Zelaya permanecer, íntegro, em seu próprio país, ou seja, sem gastar um centavo do contribuinte brasileiro, sem violência, e a mídia tupinambá, a mesma que sempre apoiou as ações pró-democracia dos EUA, se posiciona radicalmente contra a iniciativa nacional, tachando-a de "interferência" num outro país. Ora, Zelaya, como presidente eleito e único reconhecido no mundo inteiro, é que está pedindo ajuda ao Brasil. Os milhares de hondurenhos que apóiam Zelaya estão pedindo ajuda ao Brasil. Não é interferência, é dever do Brasil, porque um dos Princípios Fundamentais da nossa Constituição é:

IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;

Claro, é fácil, como no poema de Sosa, deixar Honduras "à mercê dos pássaros" (ou melhor, dos falcões), ou "gritando no meio da multidão". O difícil é vê-la em sua inteireza, tratá-la como "um homem verdadeiro", e estender a mão em solidariedade, como compete a um país amigo.

25 de setembro de 2009

Woodstock não aconteceu Honduras

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Ontem começou o Festival do Rio, a maior mostra internacional de cinema da América Latina. O filme de abertura foi Aconteceu em Woodstock, uma história baseada no livro de Elliot Tiber, um rapaz cujos pais, austeros imigrantes russos, possuíam um hotel em Bethel, vilarejo do interior do estado de Nova York. Artista gay (embora ainda pouco ou quase nada assumido) residente em Nova York, ele investe suas magras economias no decadente hotel da família, tentando salvá-lo da falência. Mais: volta a morar em Bethel, para ajudar os pais a não perderem a propriedade para seus credores.

Quando a situação parecia incontornável, Tiber tem uma idéia. Há dias, vinha lendo nos jornais sobre as dificuldades dos produtores de um festival de rock, cuja realização vinha sendo adiada indefinidamente, porque nenhuma cidade queria abrigá-lo. Tiber possuía uma licença, concedida pela câmara de comércio municipal, da qual ele era o presidente, para realizar um festival de música naquele verão. Sua idéia é ligar para os produtores de Woodstock, e oferecer sua licença para que o maior show de rock da história mundial fosse realizado ali mesmo, na pacata e insignificante Bethel.

Não é, definitivamente, um filme-arte. É um filme assumidamente comercial, no estilo dos outros filmes de Ang Lee, como o Segredo de Brokeback Mountain. É um entretenimento, contudo, delicioso, e muito sensível, com inteligentes doses de humor. Ang Lee adaptou Woodstock à família americana, extraindo-lhe todo o conteúdo transgressor. Essa operação, que a primeira vista pode soar reacionária, tem um valor dialético incomensurável, o que talvez seja uma das funções mais importantes da arte, a de unir extremos e criar pontes entre rincões ideológicos adversários.

A história conta os bastidores da organização do Woodstock, fala dos pepinos, prejuízos, processos judiciais, ameaças de moradores locais insatisfeitos, etc, mas sem enfatizá-los, ou transformar tudo numa tragédia. Os produtores de Woodstock eram jovens otimistas e corajosos, e magnificamente pragmáticos em relação à luta que travavam. Enfrentaram tudo e todos, e realizaram Woodstock. O lançamento desse filme produziu uma exploração midiática bastante saudável sobre o evento de 1969, e lembro que li num artigo que os produtores tomaram um prejuízo enorme com o show, mas ficaram todos milionários, posteriormente, com a venda dos direitos autorais do filme que fizeram.

Daí que pensei em Honduras. Sei que é meio forçação de barra incluir Honduras numa resenha de cinema, mas é isso mesmo. Woodstock foi uma manifestação política. O filme mostra bem isso. Foi um dos protestos mais efetivos contra a guerra no Vietnã. Tanto que vários artistas falaram disso no palco. Cantaram canções anti-guerra. Jimi Hendrix encerrou o evento, que durou três dias, tocando sua versão do hino americano, em que as notas da Star-Spangled Banner imitavam bombas e gritos de dor.

Os americanos lutaram, e ainda lutam, com flores, música, e cinema, para fazer os ideais democráticos prevalecerem no país, contra aqueles que pretendem transformar a democracia num engodo plutocrata, uma competição selvagem que só produz sofrimento, miséria e ditaduras. Sim, porque a direita americana não apenas procurava sufocar as forças libertárias que vinham germinando em seu território, mas também patrocinou golpes de Estado em todo continente. Nós sofremos com isso. A América Central, mais próxima e mais frágil, sofreu ainda mais. Esse golpe em Honduras foi praticado por aquelas mesmas forças contras quais Woodstook se insurgiu.

Mas o que aprendemos desde Woodstook? Pelo jeito não muita coisa. As forças conservadoras, por outro lado, aprenderam muito, e se reformularam formidavelmente, de maneira que, se os anos 60 e 70 se caracterizaram pela eclosão de grandiloquentes movimentos libertários, em todo o mundo, os anos 80 e 90 assistiram a uma reação brutal das forças conservadoras, e o resultado foi o que vimos: uma expansão da miséria e da injustiça num grau jamais visto antes na história da humanidade. Todas as épocas da civilização tiveram sua face cruel, mas não creio que houve momento em que percentual tão grande da população humana sofreu de fome e doenças como vimos nos anos 80, 90, e até hoje.

De maneira que não basta lutarmos com flores e música. A luta precisa acontecer na esfera política. Há que se ganhar eleições, para ser mais preciso. A utopia de se fazer política fora do ambiente institucional revela-se debilitante e ineficaz. O controle democrático do Estado é fundamental. De certa forma, as pessoas aprenderam isso. E votaram em Obama, surpreendendo profundamente o conservadorismo global. Os reacionários tupiniquins até hoje gaguejam e respiram acelerado, trêmulos e ansiosos, com essa mudança simbólica, geopolítica e ideológica profunda que foi a eleição de um negro democrata, com idéias de esquerda, para o comando da Casa Branca.

Precisamos, por isso mesmo, reagir ao que acontece em Honduras com muita perspicácia, porque se trata de mais uma batalha contra as forças do atraso. Não basta esmagarmos esse golpe, mas usá-lo a nosso favor, o máximo possível. É preciso otimizar a vitória. É a única maneira de dignificar e dar um sentido maior ao sofrimento por que passa o povo hondurenho. Já contei que meu tio, Francisco do Rosário Barbosa, foi barbaramente torturado, mutilado e assassinado em 1981, por policiais da 9ª Delegacia do Catete no Rio de Janeiro. Era um jovem poeta, sem ligações partidárias, um cidadão brasileiro inocente, cheio de sonhos e ideais, que foi morto covardemente por brutamontes pagos com nosso dinheiro. Então somos todos culpados. O Brasil é culpado pela ditadura militar, porque se acovardou. O país inteiro se acovardou, porque o povo brasileiro havia sido mantido na ignorância por governos anteriores, e estava debilitado pela pobreza e pela falta de perspectivas, e a ditadura triunfou. Os poucos que se revoltaram foram massacrados.

Mas falei do meu tio porque meu pai (já falecido) contou-me que, após a sua morte, extremamente traumática para a família, ele reuniu a todos e disse o seguinte: "perdemos nosso querido Chico. Nossa obrigação agora é dar sentido a essa tragédia, transformá-la numa batalha contra a ditadura militar." E assim foi. Meu pai foi a todos os jornais e canais de TV. Apareceu no Fantástico. Fez um escarcéu. Publicou um livro. Foi o único caso, na época, em que os policiais foram presos, embora só depois de dois anos de um processo judicial kafkiano. Então, temos que usar o golpe em Honduras como arma para desmascarar a mídia golpista brasileira, e que agora, mais que nunca, merece o epíteto "golpista" que lhe vem sendo pespegado por uma blogosfera cada vez mais barulhenta, lúcida e influente.

Eis que os mesmos setores da mídia que apoiaram e depois legitimaram a ditadura militar no Brasil agora apoiam, uns abertamente, outros de forma mais discreta, o golpe de Estado em Honduras. Antes de Zelaya voltar à Honduras e abrigar-se na embaixada brasileira, a imprensa brasileira havia estabelecido um sinistro pacto de silêncio. Havia dado destaque ao golpe nos primeiros dias, mas depois reinou um estranho e apavorante silêncio sobre Honduras. Agora, é obrigada a falar, e ficou nua. Merval Pereira, em sua coluna de hoje, reproduz, e chancela, um artigo de um jurista de São Paulo (tinha que ser paulista), chamado Lionel Zaclis, publicado no site Consultor Jurídico, no qual afirma que o golpe em Honduras não foi golpe. Jabor, no Jornal da Globo, ou seja, numa TV aberta, uma concessão pública, diz que se tratou de "um golpe democrático", porque teve apoio, entre outros, da Igreja... Faltou citar o Rotary Club...

É desespero? É obsessão? Esses caras estão com problemas mentais? Todas as organizações políticas internacionais condenam veementemente o golpe, nenhum governo do mundo aceita a legitimidade do novo governo, e Merval Pereira brande, como prova de que o golpe não foi golpe, um artigo de um jurista de São Paulo?! E Jabor diz que foi um "golpe democrático"? Quer dizer que agora Chávez é "ditador" e Micheletti é "presidente interino"? Vale falar qualquer coisa?

Então, Senhora PIG, o negócio é o seguinte. Você cometeu um erro crasso. Vai apanhar feio agora, porque, o Brasil "verás que o filho teu não foge à luta". Quer dizer, fugiu na ditadura, mas aprendeu a lição. Não foge mais. Até 2010, até enfiarmos todas as bandeirolas nesse touro furioso, vai rolar muita porrada. Vai ser divertido e a pátria amada não será tão gentil desta vez...

*

Por fim, convido-os a ler também os textos do grande http://altamiroborges.blogspot.com/.

24 de setembro de 2009

O golpismo brasileiro tirou a roupa: assistam Jabor falar em "golpe democrático"

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Ué, Jabor? O FHC mudou a Constituição para se reeleger. E nem fez plesbiscito nem nada. Comprou o Congresso, teve apoio na mídia e pronto. E que mané "cláusula pétrea"! As leis fundamentais de qualquer democracia, o próprio espírito que dá sentido e vida à democracia, são: 1) soberania popular exercida através do sufrágio universal e... plebiscitos; 2) direito a defesa. Onde foi que Zelaya teve espaço para se defender? É assim agora? A Suprema Corte não é uma entidade acima da lei.

Confira esse trecho da Constituição Brasileira, que é mais ou menos parecida com qualquer outra carta democrática:

CAPÍTULO IV
DOS DIREITOS POLÍTICOS

Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

I - plebiscito;

II - referendo;

III - iniciativa popular.


Cara, está dando muita raiva disso. Esses acontecimentos em Honduras, por outro lado, foram muito úteis para esses golpistas livrarem-se do último restinho de fantasia "democrática" que ainda vestiam e exibirem seu corpo peludo, fedorento e repugnante, com uma suástica tatuada no traseiro. No caso do Zelaya, era uma consulta popular sem valor de lei, e que nem se referia à reeleição. E se, num futuro eventual, fosse reunida a assembléia constituinte, e fosse aprovada a reeleição, não valeria para Zelaya e sim para o próximo governo.

E o que tem Chávez a ver com tudo isso, meu Deus! Chávez é presidente legítimo, eleito e reeleito. Se ajudou Zelaya, foi um chefe de Estado ajudando outro chefe de Estado em dificuldades. Se Zelaya viesse num avião norte-americano ou francês ninguém falaria nada. Vão ser colonizados assim no raio que o parta!

Zelaya não é um menino de 8 anos sendo enganado pelo tio Chávez. É bem grandinho para tomar suas próprias decisões. Se Chávez o ajudou é porque Zelaya pediu, ou permitiu que fosse ajudado. Não é proibido ajudar um presidente de uma nação amiga em dificuldades. Ao contrário, é obrigação!

Este é um dos Princípios Fundamentais da Constituição Federal Brasileira:

IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;

O golpe em Honduras não tem nada de "democrático", Jabor. Chávez passsou anos no poder e nunca fechou uma rádio, um canal de TV, embora todos o insultassem diariamente. Mais tarde, fechou apenas um canal de TV que havia participado do golpe de Estado contra ele em 2002, mas só depois que venceu o prazo de concessão pública do mesmo. O tal Micheletti, presidente golpista de Honduras, já fechou dezenas de órgãos de comunicação no país, em poucas semanas. Isso é democracia? Está proibido, em Honduras, reunião de grupos com mais de 20 pessoas. Isso é democracia? Cercaram a embaixada brasileira. Cortaram água, luz, e a chegada de alimentos. Deixaram funcionários da embaixada brasileira passando fome. E Jabor, mesmo assim, defende os golpistas. "Golpe democrático"? Pelo amor de Deus. Em vez de mandar repórteres para apurar os abusos que estão sendo cometidos por lá, mandam seu âncora falar que se tratou de um "golpe democrático"... Estão usando os mesmíssimos argumentos da imprensa golpista hondurenha.

Nenhum país do mundo aceitou a nova legitimidade do novo governo. Mas a Globo aceita. A OEA e a ONU acabam de emitir nota de respaldo à decisão brasileira de abrigar Zelaya. A Globo não. O Brasil deve contribuir sim para que a normalidade democrática volte reinar em Honduras. Ajudar a democracia em Honduras não é "interferir", e por uma razão simples: o presidente eleito, representante do povo hondurenha, é que está pedindo ajuda. Os hondurenhos estão pedindo. Cadê a divulgação dos twitters e blogs, como fizeram no caso do Irã? No momento, centenas de hondurenhos denunciam o totalitarismo de Micheletti por essas mídias e a imprensa brasileira faz um silêncio absoluto sobre isso. Devemos ajudar sim Zelaya a derrotar os golpistas e evitar que se abra um perigosíssimo precedente na América Latina. É a opinião da ONU, da OEA, dos EUA, do Brasil, da União Européia, do mundo inteiro. O PIG é cada vez mais patético.

Ainda sobre o Ibope

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(Jorge Guinle)


Então. O original do Ibope está aqui. Em post anterior, eu usei o arquivo simplificado que o Ibope editou para o CNI. Esse de agora é muito mais completo. Os resultados confirmam o que outros institutos haviam apurado. Confiram as tabelas abaixo. Dilma Rousseff é mais forte entre as faixas de maior renda, o que é incongruente com o fato dela ser candidata de Lula, que reina soberano entre as classes mais baixas. O Ibope não fez uma pergunta essencial, que é: você sabe qual é o candidato preferido do presidente? Aí poderíamos apurar precisamente até onde a falta dessa informação interfere no resultado eleitoral. Isso é importante porque, em algum momento, e provavelmente antes mesmo do início do período eleitoral, essa informação irá chegar ao eleitor.

Entre as classes que ganham mais de 10 salários mínimos, Serra tem 33%, contra 15% de Dilma e 9% de Ciro Gomes. Marina Silva e Heloísa Helena atingem 11%, cada uma, nesse mesmo eleitorado.

A vantagem de Serra diminui ainda mais quando analisamos o quadro de escolaridade. Entre o eleitorado com curso superior, Dilma tem 16%, contra 29% de Serra, 16% de Ciro Gomes, e 11% de Marina Silva.

Minha tese parece se confirmar. Afinal, trata-se de simples bom senso. A população simples ainda não conhece Dilma Rousseff. Ainda não sabe que ela é a candidata de Lula. O presidente e a Dilma não tem ainda liberdade para transmitirem essa informação ao público.





23 de setembro de 2009

Sobre Honduras e pesquisas eleitorais

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(A Anunciação, de Leonardo da Vinci)


A mídia tentou culpar o Brasil pela condução de Zelaya a Honduras. No Jornal da Globo da noite de terça (22/09/2009), William Waack perguntou a Heraldo Pereira se "alguém acreditava" na versão do governo, e entrevistou senadores da oposição. Ora, a função da imprensa, naquele momento, era buscar informações e não declarações de senadores que não tinham idéia do que estava acontecendo e se limitaram a formular a opinião, irresponsável e leviana aliás, de que o governo brasileiro teria ajudado Zelaya a entrar em Honduras. O Zelaya, por estar na Embaixada Brasileira, está dando total prioridade à imprensa tupi, tanto que, quando eu mudei o canal para o SBT, ouvi uma entrevista com o mesmo, negando qualquer participação brasileira em sua vinda para Honduras. Ou seja, se o governo nega que tenha ajudado e Zelaya nega que tenha recebido ajuda; se não há nenhuma testemunha dizendo o contrário; então é irresponsável acusar o Brasil de ter ajudado Zelaya a entrar em Honduras.

Aqui entre nós, essa acusação está eivada de preconceito contra Zelaya e contra a política externa brasileira. Apesar de estar mais claro que nunca que a política externa de Lula ajudou o Brasil a elevar fortemente suas exportações, sobretudo de produtos industrializados, de maneira que hoje, a América Latina é o principal destino de nossas exportações e, de longe, o parceiro que paga os melhores preços e compra nossos produtos mais sofisticados; apesar disso, para a direita, encarnada na grande imprensa e na oposição demo-tucana, o bom seria o Brasil continuar exportando matéria-prima para a Europa e Estados Unidos, em vez de autopeças para Argentina e eletrônicos para América Central e África. O resultado, se não mudássemos nossa política externa da orientação colonial que ainda vigorava no governo FHC, seria trágico para o país, considerando a crise econômica que se abateu sobre as economias centrais.

Enfim, o preconceito contra Zelaya também está claro. A Constituição Brasileira afirma categoricamente que o Brasil não deve interferir na soberania de outros países. Por isso, não seria, de fato, aconselhável que o Brasil ajudasse Zelaya a ingressar em seu país. Por outro lado, temos uma situação bastante confusa aqui. Afinal, Zelaya é o presidente eleito, o verdadeiro representante do povo hondurenho. E ele é hondurenho, tem o direito, garantido inclusive por tratados internacionais, de voltar para seu país. Do ponto-de-vista diplomático e legal, portanto, não haveria problema em ajudar um presidente amigo, de uma nação amiga, a entrar em seu próprio território. A condenação alevantada pelo Globo, além de leviana, é equivocada. O Globo, mais uma vez, registra seu antipatriotismo e seu hipócrita apreço pela democracia, ao focar suas baterias não nos golpistas que estão violentando a liberdade em Honduras, mas no governo brasileiro, que está tentando ajudar as forças democráticas, encarnadas no presidente Zelaya, a vencê-los.

Há um outro ponto extremamente importante. A imprensa brasileira não está informando de forma completa e aí reside o mecanismo mais comum usado para manipular a opinião pública. Nilson Lage, no livro "O Controle da Opinião Pública", Editora Vozes, denuncia esse tipo de ardil. A mentira mais eficaz não é inventar fatos inexistentes e sim contar meia-verdades, omitir aspectos, descontextualizar. Em Otelo, de Shakespeare, os personagens mais em evidência são o próprio Otelo e sua mulher, Desdêmona. Mas sem Iago, o intriguista que envenena o ciumento Otelo contra sua esposa, a peça não tem sentido. Da mesma forma, não é possível entender Honduras sem analisar o papel que a mídia local exerce sobre as consciências do país. A mídia hondurenha é partícipe do golpe. Divulga apenas as versões do golpe e desrespeita os direitos mais básicos da população hondurenha de conhecer as dificuldades que o seu país atravessa.

A mídia nacional e internacional, por razões corporativas escusas e mesquinhas, ao não falar sobre a existência do Iago hondurenho, ou seja, do golpismo midiático no país, omite uma informação fundamental para se contextualizar esse golpe. A elite hondurenha lê os jornais e asssiste aos canais de TV e acha que o golpe é muito bom e tem muito apoio. Em entrevista à Folha, o (pseudo) embaixador de Honduras no Brasil (cuja credencial já foi cassada) disse que as eleições que o governo quer, unilateralmente, agendar para novembro, tem "apoio internacional". Perguntado que apoio era esse, não teve pejo de falar: "O Rotary Club" irá mandar observadores... Esse é o apoio internacional que eles têm... do Rotary Club... e olhe que, possivelmente, se trata, até isso, de uma mentira. Possivelmente daqui a pouco o Rotary divulga nota desmentindo...

Onde estão os editoriais virulentos contra o golpe em Honduras? Contra a mídia golpista em Honduras? Tantos anos condenando a marcha "inexorável" da democracia venezuelana rumo à uma ditadura, embora até hoje cientistas políticos estejam tentando entender como uma ditadura pode se coadunar a sufrágios populares sucessivos... tantos anos, e Honduras vive uma ditadura clássica, golpe militar, com fechamento de jornais, canais de tv e revistas, com toque de recolher, com prisões políticas em massa, etc, e não vemos editoriais... As associações internacionais de imprensa se calam...

[Digressão conspiratória: E aquela turminha que protestava contra as fraudes no Irã? Ficaram tão revoltadinhos e agora não se manifestam diante de um golpe de Estado que tanto lembra o sinistro histórico de golpes na América Latina, que tanto lembra o que aconteceu aqui no Brasil. São os otários internacionais dos lobbies armamentistas americanos. Odeio teorias de conspiração, mas não consigo me livrar desta, de que a demonização do Irã é movida por interesses bélicos. O lobby armamentista americano é legalizado; até porque, lá nos EUA, lobby não é crime. A imprensa americana fala disso abertamente. No caso do Irã, eles repetiram as estratégias de sempre. Todas as pesquisas eleitorais, inclusive uma feita por uma respeitável instituição conservadora norte-americana, apontavam o atual presidente como o favorito nas eleições. Ele ganha as eleições e o que acontece? Acusam fraude! É tudo muito simples. Interessava ao lobby armamentista norte-americano que Mahmud Ahmadinejad vencesse as eleições, porque ele representa um perigo e, como tal, obriga o Pentágono a realizar compras vultosas da indústria bélica ianque, que é privada. Mas interessava que ele, além de eleito, não tivesse legitimidade, transmitindo ao mundo, e sobretudo aos americanos, a sensação de insegurança. Com isso, cria-se a fórmula perfeita para pressionar Obama a assinar um vistoso cheque nominal aos barões das armas. Mas isso é apenas uma digressão, uma especulação política. É que me irrita muito essa turma que repete, acriticamente, bovinamente, o que a Foreign Policy, ou publicações do mesmo teor ideológico, publicam por lá. São as mesmas publicações que defenderam a guerra do Iraque e a eleição de George Bush. E agora essa turma, que posa de modernosa, criticou Bush e a guerra, continua ecoando as mesmas ladainhas... Seria tão bom se eles se restringissem a votar no Gabeira... Agora, apoiar o Gabeira e defender a indústria bélica americana, é dose pra leão! Que é isso? Mas dá certo, enfim. Defender a direita (norte-americana, que é sempre mais chique, e mais neutro), no Brasil, é a credencial mais segura para arrumar um bom emprego na grande imprensa... Defendem a direita lá fora, e, para salvar as aparências, ou seja, evitarem a pecha de "reacionários", abraçam o Gabeira por aqui.]

*

Analisando a pesquisa eleitoral do Ibope

O Ibope divulgou, esta semana, pesquisa eleitoral para 2010. Primeiramente, convido todos a dar uma olhada no arquivo original completo (PS: acabo de ser informado de uma versão da mesma pesquisa ainda mais completa), que guardei numa página pessoal. A blogosfera deve se libertar o máximo possível da mídia corporativa, indicando os links dos arquivos originais, e comentando a partir deles, evitando fazer ponderações de segunda mão. É importante fazermos a crítica midiática, mas justamente por isso precisamos nos independentizar e buscar as fontes primárias. A pesquisa completa traz vários aspectos interessantes que merecem ser considerados. Ao se informar apenas pela grande mídia, alguns blogueiros, inclusive o Rodrigo Vianna e o Azenha, repetiram os mesmos cacoetes.

O Azenha está acompanhando de perto esse assunto, publicando opiniões próprias e de terceiros. Estou mais na linha do Azenha. Acho que o processo eleitoral já começou. Numa democracia madura, e o Brasil caminha para isso, as eleições começam a ser decididas um ano antes. Quero destacar um ponto que ninguém parece ter percebido. A imprensa repetiu ad infinitum que Ciro "ultrapassou" Dilma. Não é verdade.  Na lista 1 do Ibope, que inclui Serra, Ciro Gomes, Dilma, Heloísa Helena e Marina, Dilma e Ciro aparecem empatados com 14%. Ciro ultrapassa Dilma apenas quando Heloísa Helena não participa do páreo, o qual fica bastante apertado, de 17% para 15%, ou seja, permanece empate técnico.




Um dos cacoetes da grande mídia que a blogosfera repercutiu acriticamente foi sobre a suposta "rejeição" de 40% de Dilma Roussef. Conferi o arquivo original da pesquisa CNI/Ibope e topei com um dado bastante elucidativo, que ninguém citou. O Ibope perguntou aos potenciais eleitores se eles conhecem bem ou mais ou menos os candidatos apresentados. Reparem nas respostas do quadro abaixo:





Ou seja, Dilma Roussef só é conhecida por 32% dos entrevistados, enquanto Serra é por 66% e Ciro Gomes, por 45%. Esses dados se conformam perfeitamente com os das outras pesquisas, que mostram o crescimento mais rápido de Dilma junto às classes educadas, com ensino superior e com renda mais alta, as quais, provavelmente, já sabem muito bem quem é Dilma e que ela deverá ser a candidata apoiada pelo presidente Lula. Cotejando a pesquisa com a sólida popularidade de Lula, as perspectivas de Dilma são as mais positivas. Confira abaixo, três gráficos da recente pesquisa do Ibope sobre a aprovação de Lula. Repare no segundo, que mostra a aprovação monstruosa de Lula em TODAS as faixas de renda. Entre os  menos escolarizados, Lula tem aprovação de 88%. Para mim é evidente que, quando o presidente estiver liberado para participar do horário eleitoral e informar os cidadãos de que sua candidata é Dilma, este povão simples e honesto irá votar em peso nela. Mas Lula também tem aprovação de 71% entre os que tem curso superior completo ou mais, e 72% tanto entre os que ganham de 5 a 10 salários como entre os que ganham mais de 10 salários. Ou seja, mesmo entre o público alvo da grande imprensa, aqueles que tem poder aquisitivo para comprar carros e  imóveis, Lula tem uma vasta e sólida aprovação. Repare ainda que a aprovação de Lula no Nordeste é de 90%, um índice jamais visto em nenhum país democrático, ainda mais para um governante em final de mandato, com todos os desgastes daí decorrentes.

Nas cidades pequenas, com menos de 20 mil habitantes, onde outras pesquisas apontaram que Dilma ainda é pouco conhecida, a popularidade do presidente é de 87%. Esse é um fator importante, porque, por mais pequena que seja a cidade, ela é uma unidade política independente, com prefeito e câmara de vereadores, afetando, portanto, as máquinas partidárias. Se o presidente tem toda essa popularidade nas cidades pequenas, é claro que o PMDB deverá associar-se à candidata dele, na esperança de surfar na onda e crescer, ou ao menos consolidar-se, nessas áreas.

Clique nas imagens para ver num tamanho decente.












E o crescimento de Ciro Gomes se dá no momento em que o ex-governador do Ceará e atual deputado federal amplia sua presença na mídia com declarações muito duras contra setores midiáticos, identificados por ele, de forma muito direta, como "golpistas" e representantes de uma elite atrasada do Sudeste; e fazendo uma defesa cada vez mais veemente do presidente Lula. Sobre isso, reproduzo um comentário pescado no blog do Nassif que sintetizou muito bem o significado de Ciro Gomes para o pleito de 2010:

Por weden

(...)

Os 34% de Serra mostram que ele não oscila mais: desce a ladeira consistentemente.

É a perda do fôlego: não só não consegue superar os “votos” depositados em Alckmin, como não consegue se manter estável.

Isso é péssimo, porque pode assinalar que “desgastes” do governo podem não se transformar em votos para o tucano, mas a procura de outros nomes.

Do lado das esquerdas é um pouco indiferente quem esteja na frente. E é até oportuno ficar em segundo, em certo momento: todos que assumirem a liderança passam a receber contra si ‘ a força do vento’ da imprensa, enquanto que o segundo ficará no vácuo, como numa corrida de ciclismo por equipe.

Para piorar, a partir de hoje, a imprensa pró-Serra não sabe se deverá bater em Dilma ou em Ciro. É o pior cenário, porque os dois podem caminhar empatados enquanto Serra despenca.

Como é impossível centrar fogo em dois, é lógico que a tarefa fica muito mais complicada.

Conclusão: as eleições de 2010 permanecem incertas. A coisa está assim: a direita, sem apoio de nenhum movimento social, sindicato, sem apoio do PMDB, de um lado; e a esquerda, com Lula no comando da máquina federal, com 81% de popularidade, apoio do PMDB, movimentos sociais, sindicatos, e com dois candidatos muito fortes, Dilma Roussef e Ciro Gomes empatados em segundo lugar, de outro. A decisão final será do povo brasileiro. Eu voto na Dilma, mas votaria também tranquilamente no Ciro Gomes. Não podemos esquecer que Dilma ainda enfrenta uma doença perigosa, e por isso é importante termos o Ciro Gomes ali, para garantir a derrota da direita truculenta (e aí discordo radicalmente do Lula, ao declarar que não teremos direita truculenta em 2010; teremos sim, e das piores, das mais radicalizadas. A extrema-direita está toda pendurada no cangote do Serra), e assegurarmos que o Brasil termine a sua travessia para etapas mais avançadas de desenvolvimento sócio-econômico.

Solidariedade a Eduardo Guimarães

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(A luta de Jacó com o anjo, de Eugene Delacroix.)

Eu costumo falar muito de história por aqui, citando gregos, romanos, procurando resgatar as raízes ocidentais do que chamamos cidadania. Mas nada me ensinou tanto como o exemplo do blogueiro Eduardo Guimarães, com sua generosidade, seu talento e sua coragem. Nem precisava saber nada de história para aprender o significado de cidadania, bastava conhecer o combativo blog do Eduardo, o que mostra como a humanidade renasce, inteira, quase do zero, a cada geração, trazendo, nos lugares mais recônditos e mais sagrados do espírito, os conhecimentos necessários para esta eterna e maravilhosa reinvenção da espécie.

Mas a nossa vida, justamente pela posse de uma consciência tão aguda sobre a existência, o amor e a liberdade, flerta com a dor e a perplexidade de uma forma que nos levaria à loucura senão tivéssemos inventado deuses para nos confortar. A nossa racionalidade soçobra perante a tragédia, e há também um motivo forte para isso - é que existe uma forma de inteligência muito acima da razão. Possuímos uma intuição mais poderosa que qualquer racionalidade, e o pensamento em Deus é uma forma de disciplinarmos essa intuição e a aplicarmos à vida. Não por outra razão, a maioria dos filósofos sempre trabalhou com a idéia de Deus.

Esse post é uma tentativa canhestra de expressar minha mais profunda solidariedade a Eduardo, que vive o momento mais difícil na existência de um homem, que é o temor de perder um filho, ou filha. Quero igualmente participar, com minha fé nesta inteligência superior, presente em nós mesmos, fonte de infinita força, capaz de salvar vidas e vencer a morte, na corrente de orações em prol da menina Victoria, filha de Eduardo, que está lutando para superar uma crise de pneumonia, conforme o aflito pai nos relata.

Eu nunca passei por nada similar. A única experiência próxima a essa dor foi quando meu pai sofreu um infarte e passou algumas semanas numa UTI. Mas não quero falar sobre isso agora. Lembro disso apenas porque, na época, escrevi um poema, dentro do ônibus que me levava ao hospital onde ele se encontrava. Desafortunadamente, perdi esse texto, mas recordo-me que era inspirado num belíssimo poema de Dylan Thomas, o qual, portanto, reproduzo abaixo, dedicando-o à menina Victória, a seu corajoso pai, Eduardo Guimarães, e a toda sua família.

É um poema de luta, que o poeta escreveu para seu pai amado. Uma declaração de guerra à morte. Eu acho bonito porque a nossa vida é mesmo uma eterna luta. A menina Victória está lutando; do jeito dela, demonstra uma coragem incomparável, única. Esse tipo de luta, tão humana, está presente nos milhões de seres humanos que lutam encarniçadamente contra a morte, todos os dias. Nem sempre vencendo, mas quase sempre dando mostras de uma dignidade e uma valentia que poucos "saudáveis" possuem.

Prezado Eduardo, sinta-se abraçado e amparado por todos os leitores deste blog, e tenha certeza de que torcemos fervorosamente pela recuperação de sua filha.

Cordialmente.

Abaixo o poema, na tradução de Ivan Junqueira.

NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA

Tradução: Ivan Junqueira

Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

*


Aconselho àqueles que entendem inglês a ler o original, neste link, que traz ainda o áudio do próprio poeta recitando o texto.

22 de setembro de 2009

O destino do mundo está em Honduras

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(foto tirada da Marina, da Glória)


Honduras voltou a chamar atenção da mídia internacional. E por uma razão. Zelaya regressou ao país e agora se encontra na embaixada brasileira de Tegucigalpa, capital. O que ocorre hoje em Honduras é, de longe, o fato político e geopolítico mais importante nas Américas. Todos os elementos que caracterizam as lutas políticas nos países latino-americanos encontram-se em Honduras em estado bruto e radicalizado. Imprensa e elite associadas, mafiosamente, em atitude golpista. Povo acuado e desorganizado, de outro. Políticos no meio, ao sabor do vento. Um presidente sendo empurrado cada vez mais para a esquerda.

A história é uma mulher triste e chorando, mas sempre linda. O golpe em Honduras desmoralizou a direita, e pôs em cheque a honestidade da Sociedade Interamericana de Imprensa e demais organizações sindicais midiáticas do continente. O que a imprensa fez e está fazendo em Honduras é tortura psicológica inconcebível. Acompanho, no RSS aí do lado, dois blogs hondurenhos, de luta antigolpista, os quais também estão no Twitter, e o protesto principal que vejo por lá é a desonestidade sem limite da mídia nacional, que procura distorcer absolutamente tudo que acontece no país.

Como é um país pobre, com baixo uso de internet, a influência da mídia convencional é muito forte. A mídia hondurenha criou uma realidade virtual, com apoio dos intelectuais midiáticos (as mesmas repugnantes espécies que temos por aqui), que justificam o golpe juridica e politicamente.

Uma das coisas que realmente me impressionam foi a maneira repentina e inexplicável como Honduras sumiu da pauta midiática brasileira por várias semanas. Depois da cobertura dos primeiros dias, a mídia iniciou uma cobertura cada vez mais hesitante. Ontem, ouvi o Boris Casoy falar em governo "de fato" em Honduras, substituindo o termo que havia se generalizado antes, "governo golpista".

A verdade é que houve uma campanha da extrema-direita no Brasil, liderada por Reinaldo Azevedo, editorialista da revista Veja, para que a cobertura do golpe em Honduras fosse radicalmente modificada. Como não podia inverter a posição editorial que, embora hesitantemente e pressionada pela reação internacional, havia assumido de início, a mídia brasileira optou pelo silêncio sepulcral. Semanas e semanas sem uma linha, uma notinha, uma palavra sequer sobre Honduras.

Agora, repito, o fato político impõe-se, derrubando o pacto de silêncio, porque o Brasil abrigou Zelaya na embaixada brasileira. Reações negativas midiáticas começam a pipocar, como a entrevista com o embaixador Rubens Barbosa, que é incompetente (patrocinou o plano de retenção de café em 2001, que deu prejuízo superior a 400 milhões de dólares ao Brasil), invejoso e colonizado, quase afirmando que o Zelaya deveria estar na embaixada americana e não na brasileira; e o Estadão dando manchete alarmista sobre os riscos de "fratura social" que a volta de Zelaya traz ao país.

Pesquisadores, historiadores, jornalistas, cientistas políticos, ativistas, parlamentares, cidadãos, observem atentamente o que acontece em Honduras. O destino da democracia da América Latina reside neste pequeno e sofrido país centro-americano. O golpe vai fracassar, disso eu tenho certeza. O que devemos observar é todo o contexto político, a reação das mídias latinas ao pós-golpe. Depois que Zelaya retornar ao poder, deverá ocorrer, uma hora ou outra, um julgamento interno sobre os responsáveis por esse tenebroso atentado contra o espírito democrático das Américas. É muito pior que qualquer atentado terrorista, porque mexe com nossos traumas mais profundos. Milhões de latino-americanos que sofreram, na pele, as consequências nefastas de ditaduras militares, seguramente sentiram um horrível frio na espinha quando chegaram notícias de Tegucigalpa. Esse progressismo latino, forjado nas lutas sangrentas anti-totalitárias, revelou-se na condenação veemente e absoluta, pela classe política de todo o continente. O golpe em Honduras pendurou-se, então, no apoio midiático interno, no silêncio dos sindicatos internacionais de imprensa, além da participação histérica de figuras isoladas, mas barulhentas, da extrema-direita no continente, do Brasil aos Estados Unidos.

*

Um leitor pediu-me que falasse alguma coisa sobre a entrevista de Ciro Gomes à rede Bandeirantes, no último domingo. Pois é, por coincidência, eu assisti. Tenho a dizer o seguinte: valeu Ciro! A entrevista lavou-me a alma. Assisti-a pontuando de palmas. Ciro Gomes não fugiu de nenhum tema político. Ao contrário, trouxe-os à baila: Chávez, corrupção, mensalão, Lula, mídia, golpismo midiático, golpismo de setores da elite. Não gaguejou uma vez. Não tergiversou. Mais uma vez cito aquela moça triste, sempre chorando, e contudo tão absurdamente linda, a História. O radicalismo midiático produziu um fenômeno interessante: a esquerda brasileira, mesmo estando no poder, tem à sua disposição um eficaz e necessário discurso de oposição. Isso é ótimo, porque a esquerda pode bater em seus adversários por todos os lados. Bate no Congresso, onde tem maioria; bate no Executivo, onde tem o controle, através de Lula, Dilma Roussef e Tarso Genro; e bate na mídia, através do debate político que começa a esquentar agora; e o melhor, bate aqui na blogosfera, onde nossa diversão, nos últimos anos, não tem sido outra. Eu quero mais é que a direita se dane. A direita já matou e torturou centenas de milhões de latino-americanos desde o início da colonização e não merece, por isso, nenhuma compaixão em nome de uma hipócrita e interessada "diversidade" ideológica.

Quando analisamos a história das civilizações, observamos que sempre houve uma dialética entre esta grande clivagem política que divide a humanidade desde seus primórdios em "conservadores" e "progressistas". A Roma Antiga experimentou lutas acirradas entre as forças populares e conservadoras, e ambas obtiveram vitórias memoráveis. Roma não foi apenas a sociedade dos patrícios e dos escravos, foi também onde os plebeus exerceram o poder através de seus tribunos sagrados. Os plebeus romanos experimentaram diversos momentos emocionantes de vitória, com Mario, com os irmãos Graco e, enfim, com Júlio César. Da Grécia, então, nem se fala, porque foi uma civilização notoriamente de esquerda, democrática, em oposição à Ásia conservadora, mística e totalitária.

Na Europa, tivemos a revolução francesa e as repercussões ideológicas que até hoje se desdobram em todo o continente. Nos EUA, a revolução americana da independência, foi um movimento de cunho fortemente progressista. Presidentes como Roosevelt, a própria continuidade democrática e a estabilidade econômica, que permitiu à cultura se organizar de maneira que o cinema e a literatura norte-americanos desenvolveram uma sólida musculatura ideológica, com capacidade de resistir e combater os governos mais odiosamente conservadores.

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Enfim, a América Latina precisa aprender a praticar o debate ideológico com a ferocidade e a determinação que ele merece, por constituir a base da civilização e da cultura. No Brasil, o processo de Anistia não pode significar a distorção da História. Nossas crianças e adolescentes devem saber que forças apoiaram o golpe de Estado de 1964, e quais foram os métodos usados: moralismo hipócrita, mentira sistemática, terrorismo ideológico, denúncias de corrupção seletivas. Por exemplo, o golpe militar foi patrocinado com desvio de recursos públicos do Adhemar de Barros, governador de São Paulo. Esses desvios não eram denunciados pela imprensa nacional, que focava suas denúncias na esquerda, como faz até hoje. E a imprensa teve uma participação central na preparação do golpe, inventando factóides, mentiras, fazendo terrorismo (dizia-se que o Brasil se tornaria algo parecido com Cuba ou União Soviética), envenenando sistematicamente a opinião pública e incitando - quase ameaçando - militares e empresários a se radicalizarem contra o governo.

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Todos os assuntos abordados no post de hoje estiveram presentes na entrevista de Ciro Gomes à Bandeirantes, e por aí podemos ver como um debate político franco e corajoso será útil para esclarecer a nação brasileira sobre sua história e seu destino. A participação de Ciro na campanha eleitoral de 2010, seja na presidencial, seja para o Estado de São Paulo, será valiosa, porque ele sentiu de onde vem o cheiro ruim que infesta a política nacional e tem a coragem de dar nome aos bois. Sua presença é particularmente importante em função da atitude frágil de Marina Silva. A força de Ciro Gomes, pode-se notar, é física, concreta. Para enfrentar os setores golpistas da imprensa e da elite, precisa-se de uma coragem física. É triste que tantos parlamentares do PT, por exemplo, deixem tanto a desejar nesse quesito; mesmo apanhando feio no lombo não se resolvem a assumir uma postura mais combativa e orgulhosa, que é o que os brasileiros desejam. Sempre que um parlamentar abaixa a cabeça para a mídia no debate político, os milhões de brasileiros que não querem a volta da direita ao poder, e intuem, com razão, que a vitória, ou derrota, se contrói nessas pequenas lutas cotidianas, sentem-se impotentes, humilhados e, por fim, revoltados e indignados. A humilhação, convertida em revolta, torna-se uma força. A mídia anseia continuamente em produzir um exército de indignados, mas é frustrada pela ação política concreta do governo Lula, de um lado, e pela argumentação ideológica inovadora produzida na internet, de outro.

*

Registro também que setores importantes da Academia e da classe artística estão antenados na crescente polarização entre as forças políticas do continente americano, com uma mídia corporativa inclinando-se cada vez mais para uma postura reacionária e neoliberal, e classes políticas, pressionadas pelo voto popular, indo para o lado oposto, para ampliação do papel do Estado, adotando políticas públicas de redistribuição de renda. Debate ocorrido no Centro Cultural Banco do Brasil no último final de semana falou sobre a nova lei de mídia da Argentina.

Em todo continente, começa-se a discutir novos marcos regulatórios para a imprensa. Essa é a razão de ser da democracia: um regime político dinâmico, com parlamentares eleitos pelo povo para estar sempre atualizando as leis aos novos tempos, às novas forças sociais que emergem. A liberdade não pertence aos proprietário de meios de comunicação. A liberdade, assim como o poder, pertence ao povo. E quando falo em povo, não refiro-me à massa ignara, e sim ao povo compreendido diacronicamente, ou seja, o povo na história, organizado, com suas vanguardas intelectuais e artísticas.

O futuro da humanidade é a união dos povos. É a criação de uma moeda única. É ser governada por organizações internacionais centralizadas, democráticas, que garantam a liberdade das nações e dos indivíduos. Mas isso é outra história. Por enquanto, o destino do mundo reside em Honduras. Prestemos atenção.

18 de setembro de 2009

Anotações sobre cinema e literatura & um comentário sobre Clovis Rossi

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(Décadence avec élégance na Riachuelo)


Ontem descobri um livro legal sobre cinema, intitulado Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, com artigos de Glauber Rocha. Para quem não sabe, Glauber fez crítica antes de fazer filmes, e boas críticas, muito bem informadas, eruditas, ao mesmo tempo passionais, engajadas, combativas, as mesmas qualidades que, mais tarde, ele aplicaria à película.

Segundo Rocha, o filme que fê-lo abandonar o ceticismo e o libertou, ele e toda sua geração, do "complexo de inferioridade", mostrando "que era possível fazer cinema com dignidade" no Brasil, foi Rio 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos, lançado em 1955. Nelson tinha 30 anos, Glauber 17. Este filme pode ser considerado, portanto, um dos marcos inaugurais do Cinema Novo. Foi feito com poucos recursos, filmando cenas do subúrbio carioca, sem uso de figuração.

Em artigos para o Jornal do Brasil, Glauber diz que Nelson "é a mais fértil, madura e corajosa mentalidade do cinema brasileiro, um dos intelectuais mais sérios de sua geração, consciente de seu papel histórico".

Mas houve um cineasta, antes de Nelson, que também influenciou muito a geração de Glauber. Foi Humberto Mauro, sobretudo com seu primeiro filme falado, Ganga Bruta, de 1933, cujas qualidades técnicas e estéticas Glauber põe ao lado dos melhores autores europeus da época. O fotógrafo desse filme, Edgar Brasil, também havia trabalhado para o lendário Mario Peixoto, em seu longa-metragem mais famoso, Limite, de 1930. Glauber afirma que Edgar Brasil foi para Humberto Mauro o mesmo que Tissé foi para Eisenstein; Kaufman para Dziga Vertov e Jean Vigo; Gregg Toland para Orson Welles e William Wyler; e Raoul Coutard para a Nouvelle Vague.

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Nelson Pereira dos Santos fez o corte e a montagem do primeiro filme de Glauber, Barravento, que ganhou o Festival Internacional de Cinema da Tchecoslováquia em 1963. A Tchecoslováquia, país socialista, tinha um vasto programa de bolsas de estudos para estudantes da América Latina, e realizava um importante festival de cinema, cujos prêmios, priorizando filmes independentes do terceiro mundo, ajudaram muito no desenvolvimento da arte cinematográfica nessas partes menos favorecidas do planeta.

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Além dos filmes de Nelson, os primeiros filmes do Cinema Novo foram Arraial do Cabo, de Paulo Cesar Saraceni, e Aruanda, de Linduarte Noronha e Rucker Vieira.

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Recado para mim mesmo: Assistir ao filme Linha Geral, de Eisenstein. Ler alguma coisa do famoso teórico de cinema André Bazin.

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Terminei de ler Recordações do Escrivão Isaías Caminha. O final do livro é bastante afobado, com alguns lances meio inverossímeis. O revoltado Caminha tem uma ascenção fulminante, e se torna amigo do odioso dono do jornal. As últimas cenas são extremamente mal desenvolvidas, apressadas, o que talvez se explica pela inexperiência de Lima, que tinha apenas 27 ou 28 anos quando escreveu o romance. O livro tem alguns trechos interessantes, descritas com uma desenvoltura e franqueza que o colocam como um dos primeiros romancistas (pré-) modernos da literatura brasileira. Mas sua técnica ressente-se da pouca experiência do escritor, cujo desenvolvimento foi atrapalhado pela pobreza, pelo alcoolismo, pela esquizofrenia (problema às vezes omitido por biógrafos de orelha), e pelo complexo de inferioridade gerado pelo racismo da época, pois Lima era mulato escuro, filho de ex-escravo. Provavelmente sua instabilidade psicológica tenha nascido da baixa auto-estima associada à sensibilidade exacerbada de artista erudito. Ressente-se, sobretudo, de sua morte precoce, aos 41 anos. É sempre bom lembrar que o próximo grande mestre que iria aparecer nas letras nacionais, o alagoano Graciliano Ramos, estreou na literatura já quarentão.

Os cumes mais altos de Lima Barreto talvez tenham sido atingidos em alguns de seus contos, como o Homem que sabia Javanês, e nas suas crônicas para publicações independentes.

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Eu não ia falar de política hoje, mas aí lembrei de uma coisa. Voltei a ler os jornais de São Paulo, disponíveis num centro cultural aqui perto. E hoje topei com uma preciosidade da mais absoluta estupidez de Clovis Rossi. Este é um caso patológico curioso. Colunista conceituado por quase todos, depois que a Folha iniciou sua campanha hidrofóbica contra Lula, Rossi, como bom cão amestrado, diariamente tenta aplicar uma mordida no presidente operário ou adjacências. Acontece que, de tanto morder, acabou perdendo os dentes. Ontem escreveu uma coluna totalmente senil, intitulada "Quem me defende da internet livre", onde ele lapida essa pedra preciosa:

Não falta a praga dos blogs. Todo blogueiro parece achar que eu não consigo começar o dia (ou terminá-lo) sem ler o seu imperdível blog. É claro que, em época de campanha eleitoral, só pode aumentar a quantidade.

Ler aqui o post do Rodrigo Vianna reproduzindo esse texto de Rossi e comentando-o.

Será que o grupo Folha está tão decadente que não pode mandar um técnico de informática explicar ao sr.Rossi que basta ele dar delete nos emails indesejáveis, ou bloqueá-los? Além do mais, é desonesto, porque certamente os emails que recebe de blogueiros (eu nunca mandei email para ele) devem representar menos de 1% do que chega em sua caixa postal.

Mas hoje (sexta-feira 18/09/2009) Rossi consegue realmente se superar. Comentando o fato de Obama ter cancelado o programa de escudo anti-mísseis da Europa Oriental, um plano de Bush, que vinha causando muita tensão com a Rússia, e optado pelo desenvolvimento de sensores ultra-modernos, capazes de detectar mísseis de longo alcance, o genial Clovis Róssi, pergunta-se se não seria melhor o Brasil, em vez de adquirir caças e submarinos, importar essa tecnologia dos EUA.

Ler aqui o texto do Rossi, reproduzido pelo Nassif, acrescido de comentários irônicos e arrasadores.

Ah, meu Deus, mais uma vez, perdoe-os. Eles não sabem o que dizem. Em primeiro lugar, os EUA não transferem tecnologia militar avançada. Em segundo, não se defende um país com sensores. Imaginem que algum país ou grupo terrorista ataque a Amazônia, ou ocorra um cataclisma natural qualquer, como um ataque de gafanhotos gigantes, o governo irá enviar o que para defender nossa soberania? Vai mandar um sensor para lá? Que homem burro, sô! Os EUA tem sensores, mas tem a maior frota mundial de caças e submarinos. Valha-me Nossa Senhora da Aparecida!

A gente sabe muito bem de onde nasce tamanha estupidez. Da arrogância, da histeria ideológica, da falta do que falar e, principalmente, da neurose jornalística gerada pela obsessão em perseguir o presidente Lula.

16 de setembro de 2009

A imprensa! Que quadrilha!

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(Sobrado da esquina da Riachuelo com Rezende, onde talvez 
Lima Barreto tenha morado, em criança, com seu pai e irmãos).


Como diria o Manoel dos secos & molhados, estou a r'ler toda a obra de Lima Barreto. Li também a sua biografia, escrita por Francisco de Assis Barbosa. Ele estudou na rua do Rezende (onde eu moro), na Lapa, e passava as tardes na biblioteca nacional, que na época funcionava no prédio hoje ocupado pela Escola Federal de Música, no Passeio. Quando a situação apertou, após o adoecimento de seu pai, Lima alugou uma casa para sua família, no subúrbio, e passou num concurso para um emprego público.

Lima Barreto me intriga. Sua obra é muito irregular. Está longe de ser um gênio da técnica literária, como Machado de Assis. Por que, então, Lima Barreto é colocado, por quase todos os críticos, apesar de tantos defeitos, como o segundo maior escritor brasileiro do início do século XX, superado apenas pelo hors concours Machadão? Por que não José de Alencar? Por que não tantos outros, com obras muito mais impecáveis, do ponto de vista técnico, mais coesas, mais "trabalhadas"?

Pensando nisso, pus-me a reler a obra de Lima e, no momento, percorro as páginas de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Acho que encontrei algumas pistas. Lima é sincero. Suas páginas exalam uma dor real. Talvez seja o primeiro escritor brasileiro a romper as barreiras formais para realizar uma literatura moderna, com mais despojamento e, sobretudo, mais verossimilhança e autenticidade emocional. Há trechos do Isaías Caminha que parecem sair diretamente do coração torturado de Lima.

Esse livro, conforme sabemos hoje através dos dados biográficos à nossa disposição, e como se pode depreender de sua própria leitura, nasceu de um profundo sentimento de revolta contra a imprensa brasileira de sua época, considerada por ele racista, reacionária, despreparada, e demais epítetos similares, que encontramos em abundância aplicados aos personagens-jornalistas do romance.

Vamos a um trecho:

A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba Roxa ressuscitasse, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; (...) um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova... E assim dominam tudo, (...) fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação. Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos parvos, imorais e bestas... (...) E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção de mediocriades (...).

O responsável por esse monólogo é um dos personagens do livro, mas está claro que a voz por trás é de Afonso Henriques Lima Barreto.


É importante notar que o lançamento desse livro, e mesmo a opção de Lima em fazer uma crítica virulenta à Imprensa já em sua primeira obra literária, consistiu num erro estratégico fatal para o escritor. E digo isso porque Lima tinha outro livro escrito, mas decidiu lançar esse primeiro justamente por achar que a sua virulência causaria uma polêmica positiva. Ele queria chocar e, com isso, vender muitos exemplares. Mas subestimou sobejamente seus adversários. Os jornais fecharam-lhe as portas de forma definitiva e fizeram um pacto de silêncio sobre sua pessoa e suas obras. Tornou-se uma persona non grata na mídia nacional e vários amigos se afastaram, receiosos de que seu inevitável ostracismo pudesse contaminá-los.

A partir de então, Lima Barreto cai, literalmente, na marginalidade. Abandona os cafés chiques onde bebia uísque e cerveja com seus amigos mais bem colocados, e passa a frequentar botequins populares e a beber cachaça. À diferença do Machadão, sempre um funcionário público exemplar, Lima talvez tenha sido, nesse quesito, o pior exemplo na história nacional. Faltava ao trabalho sistematicamente, alegando doenças ou depressão, e afundava-se numa boemia violenta e triste, na qual passava dias e dias bebendo cachaça pelos bares, até cair e dormir no chão, como um mendigo. Por sorte teve chefes tolerantes e pode contar com inúmeras licenças médicas, de forma que, mesmo após meses de afastamento, por conta de seu alcoolismo severo e da doença mental de que foi acometido ao final da vida, continuou recebendo seu ordenado.

Apesar da vida desregrada, Lima conseguia tempo para escrever em profusão. Segundo seu principal biógrafo, Francisco de Assis, Lima escrevia rápido, com pressa, ansioso, como que ciente da brevidade de sua vida. Produziu uma obra considerável para alguém morto aos 41 anos. O ostracismo imposto pela grande mídia fê-lo mergulhar de cabeça na imprensa alternativa e proletária. Fundou jornais e revistas de vida efêmera, como é de praxe nesse tipo de empreendimento.

Voltando ao Isaías Caminha, há um outro trecho que gostaria de citar:

Pelos longos anos que estive na redação do O Globo, tive a ocasião de verificar que (...) a submissão dos subalternos ao diretor de um jornal só deve ter equivalente na administração turca. É de santo o que ele faz, é de sábio o que ele diz. Ninguém mais sábio e poderoso do que ele na terra.

É, meus queridos. Só mesmo o valente Lima Barreto para fazer uma crítica violenta aos jornais mais importantes da época (ele irá, ao longo do livro, espinafrar outros jornais e jornalistas). Satirizar violentamente os próprios donos dos jornais. E isso num tempo onde o escritor não tinha internet para se defender. Existia imprensa alternativa, mas eram, naturalmente, iniciativas desprovidas de capital e com circulação quase ridícula.

O primeiro jornal que o protagonista conhece é O Globo (jornal fictício, o real seria fundado apenas em 1925; o Globo e o diretor ao qual o narrador se refere são, na verdade, o Correio da Manhã e seu proprietário, Edmundo Bittencourt), para onde vai atrás de um emprego que um dos jornalistas, que conhecia, havia lhe prometido. Caminha está sem comer há dois dias e espera seu amigo, que estava fora da redação naquele instante. Ouve as conversas dos jornalistas. E o narrador (o próprio personagem, mais velho), enquanto isso, faz comentários sobre a fundação daquele jornal. Esse é um trecho interessante também, mas não copiei. Ele diz que O Globo fora criado há pouco tempo, pela iniciativa de um playboy nunca antes vinculado ao jornalismo ou à literatura. E logo chama a atenção do público pela virulência com que passa a atacar o governo e as autoridades. A redação do Globo, diz o narrador, funcionava com um pequeno exército. O general (o dono do jornal) escolhia suas vítimas entre as espécimes da classe política e ordenava que seus soldados disparassem impiedosamente contra o alvo. Todos trabalhavam com esse objetivo, inclusive os comediantes, ou chargistas, que se encarregavam de aplicar o tiro de misericórdia na vítima já combalida, em retirada.

*

Enfim, parece que a imprensa da época de Lima não mudou muito de lá pra cá. Durante a recente crise que assolou o mundo, nossos jornalistas babaram de euforia. A Miriam Leitão, que só por estar de férias faz o céu ficar mais azul no Brasil, entrevistou, no auge da crise, o tal José Pastore, que afirmou que o Brasil deveria perder este ano cerca de 1 milhão de empregos. Uma amiga minha, que trabalhou 12 anos no Estadão, riu quando eu falei isso, porque ela me contou que todo mundo entrevistava o Pastore, o cara mais conservador que ela conhecia. Pois bem, a expectativa do governo e do mercado agora é de que o Brasil CRIE um milhão de empregos esse ano. Mas ninguém vai lá cobrar explicação do Pastore, que forma, junto com Marco Antônio Vila e Roberto Romano, a tríade dos sábios que a imprensa entrevista sempre que precisa de alguém para corroborar suas teses pré-fabricadas e atacar o governo Lula.

*

E agora, para encerrar o post, uma matéria, minha mesmo, acompanhada de tabela e gráfico, sobre os números do Caged sobre o emprego no Brasil em agosto, divulgados hoje.


O Ministério do Trabalho divulgou os dados do emprego em agosto. Segundo o Cadastro Geral do Emprego (Caged), houve um volume de empregos admitidos, em agosto, da ordem de 1,457 milhão de postos de trabalho. Considerando as demissões, o saldo em agosto ficou positivo em 242.126 postos. Ou seja, o Brasil emerge, nos estertores da maior crise econômica desde a II Guerra, com um mercado de trabalho ainda maior do que aquele com que entrou.

Para efeito de comparação, observe os meses de agosto dos últimos quatro anos do governo FHC, com os últimos quatro anos de Lula. Parece que falamos de países diferentes. A geração de empregos na era FHC foi medíocre, porque o governo era incompetente. A fama de "bons gestores" dos tucanos é a maior falácia da histórica republicana nacional. Eles deixaram o país de joelhos, pedindo esmolas aos Estados Unidos. E isso por várias razões. Por isso, sempre que você ouvir falar que Lula deu "continuidade" à política econômica, não acredite, e rebata com os seguintes argumentos:

1) O governo passou a investir muito dinheiro na base da pirâmide social, dinamizando um vasto segmento de cidadãos antes excluídos do mercado de consumo. Pessoas que não tinham dinheiro para adquirir alimentos, passaram a tê-lo, e isso faz muita diferença em áreas carentes.

2) Houve uma política muito mais agressiva de redução de juros, os quais já atingiram o patamar mais baixo das últimas décadas.

3) Valorização do salário mínimo, através de decisão política do próprio presidente da República, o que permitiu uma relevante elevação do poder aquisitivo dos trabalhadores. O salário mínimo, cotado a 56 dólares no apagar das luzes do governo FHC, deverá saltar, ao final do governo Lula, para 266 dólares. Isso é quase inacreditável. É difícil achar gente que acreditasse, em 2002, que o salário mínimo pudesse registrar um impressionante ganho real em 6 anos, sem quebrar o país, causar um desemprego maciço, ou incentivar a informalização do trabalho. Pois bem, o salário mínimo cresceu 5 vezes (em dólar), houve uma geração maciça de empregos e a taxa de informalidade no Brasil vem caindo a um ritmo acelerado.

4) Democratização do crédito, através de diversas medidas: criação do crédito consignado; aumento do crédito pelos bancos públicos, ampliação de carteiras, etc.

5) Aumento das verbas destinadas à agricultura familiar.

Bem, não dá para listar tudo aqui. Esse post é só para indicar como é falso e capcioso o argumento de que o governo Lula apenas "deu continuidade". É falta do que falar. Lula não mudou a moeda, manteve uma política monetária prudente e conservadora, e deixou o câmbio livre. Mas nem isso pode ser chamado de continuidade, já que FHC fez uma gestão cambial extremamente temerária e inclusive golpista - pois segurou, a custa de dezenas de bilhões de nossas reservas internacionais, um câmbio artificial, apenas para evitar uma crise que atrapalhasse a sua reeleição. Uma reeleição, sempre é bom lembrar, que por si só foi um golpe de Estado, já que ele patrocinou a mudança nas regras eleitorais para si mesmo.

A classe média, no entanto, continua repetindo o mantra da continuidade, disseminado pela mídia, com a pachorra de um papagaio. Não é possível, porém, que o bom senso dessas pessoas esteja tão destruído que pretendam desviar os olhos a todas as evidências.


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Os gráficos prometidos (me deu uma trabalheira danada compilar e editar da forma simplificada como está). Clique neles para ver num tamanho decente:


14 de setembro de 2009

Espremendo o inchaço da mídia

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(Vou dar um descanso nas fotos dos sobrados da Lapa, senão vocês enjoam. 
Inicio agora uma série de boa arte contemporânea).

Tornou-se redundante falar da importância da blogosfera para o debate político, mas na última sexta-feira me deparei com notícia, no blog do Nassif, que me surpreendeu de um jeito que pensei que já não era possível. É tanta barrigada, tanta manipulação, desmentidas cabalmente nos dias seguintes, que você acaba se cansando desse joguinho enjoado e tenso de credulidade e dúvida a que nos entregamos sempre que lemos um jornal. Depois de um tempo, por simples quebra de rotina, tentamos acreditar em alguma coisa, e o resultado é sempre frustrante.

Pois então, a notícia em questão era uma nota de um comentarista do blog do Nassif, perguntando se ele tinha visto um estudo do Ministério do Planejamento, intitulado "O mito do inchaço da força de trabalho do Executivo Federal".

O estudo é do início deste ano e eu já tinha ouvido falar dele. Inclusive o mencionei superficialmente em um ou outro post. Mas como a grande mídia não o divulgou e como não caiu (ao menos não na intensidade merecida) no boca a boca da blogosfera, esqueceu-se dele, e eu nem cheguei a passar a vista no documento original, disponível gratuitamente no site do Ministério (confira o PDF aqui). Daí que pensei duas coisas: primeiro, como ainda estamos dependentes da mídia, para deixarmos passar quase em branco um trabalho tão importante como este; segundo, como a blogosfera é fundamental para nos salvar dessa dependência.

Esse estudo, ia dizendo, encaixa-se maravilhosamente na candente polêmica que a mídia tem provocado nos últimos tempos, a de que o governo federal estaria promovendo um inchaço do Estado; outro dia, o Estadão publicou editorial falando sobre "herança maldita" para o próximo governo. A gente sabe que se trata de uma acusação típica da direita, e ainda por cima importado da direita norte-americana, mas não deixa de ser um flanco mais ou menos vulnerável da esquerda, porque a população, naturalmente, não quer se sentir extorquida por um Estado perdulário. Pagar imposto é um ato doloroso em qualquer lugar do mundo, e ainda mais no Brasil, onde o senso de pátria é tão ridicularizado.

Sempre fui micro-empresário, além de repórter e tradutor free-lancer; nos últimos tempos, porém, tenho andado muito sem dinheiro; sem embargo, o que já paguei de imposto, nesse mesmo tempo em que ando sem grana, permitiria-me bancar a sagrada cerveja por duas ou três gerações. Minha mãe, tadinha, professora aposentada pelo município, é outra martirizada pelos dentes implacáveis do Leão; caiu na malha fina da Receita, há poucos meses, por conta de uma confusão dos gastos dela com saúde, e terá que parcelar uma enorme dívida por cinco anos.

Sei muito bem, portanto, o que é pagar imposto. Irrita mesmo. Mas é assim no mundo inteiro. A imprensa oposicionista, naturalmente, usa essa irritação natural contra o governo para aplicar um golpe partidário. Ao acusar o governo Lula de inchar o Estado, todavia, sem contextualizar a notícia, realiza antes uma desinformação interessada do que qualquer outra coisa. Seria útil que a imprensa pegasse no pé do governo federal para evitar que ele empregue mais que o necessário; mas o certo seria informar aos cidadãos, em detalhes, quais são os empregos criados; qual o histórico dos últimos anos na relação com o PIB e população; que fizesse a comparação com outros países; e que monitorasse também, para efeito de comparação, a situação nos estados, pois pagamos também altos impostos para o fisco estadual. Pois bem, a imprensa não quis fazer esse tipo de pesquisa, que não seria nenhum difícil empreendimento; com certeza, alguma empresa ou instituição ou sindicato patronal patrocinaria, com farta publicidade, uma iniciativa deste gênero.

O Ministério do Planejamento, no entanto, fez. É a única uma importante pesquisa que temos (conferir comentário sobre uma outra pesquisa, de Wanderley Guilherme dos Santos, ao final do post). Se você não confia nos técnicos do Ministério do Planejamento, então arregace as mangas e faça você mesmo. Esses são dados essenciais para a população poder monitorar o poder público.

Copiei os principais gráficos e tabelas do estudo e os publico aqui, abaixo, acrescentando um gráfico do PIB nos últimos anos, catado no site do Banco Central. Sobre o PIB, note que ele passou de menos de 500 bilhões em 2002 para 1,6 trilhão de dólares em 2008; um aumento de 220%. Enquanto isso, o número de servidores do Executivo federal, segundo o estudo citado, cresceu pouco mais de 11%, de 2003 a 2008. Creio que não é preciso mobilizar todas as células cinzentas para perceber que, se o PIB cresceu de forma tão relevante, temos mais responsabilidades e, portanto, necessidade de elevar um pouco o número de funcionários. A população também cresceu, de 169,6 milhões em 2000 para 191,7 milhões de pessoas hoje (site do IBGE); um aumento superior a 12%. O que a imprensa queria, que o país congelasse seu contingente de funcionários independentemente do crescimento da população e do PIB?

(A imprensa não informa ainda que, durante a gestão Fernando Henrique Cardoso, houve uma enorme transferência de vagas de concursados para empregos temporários, através de contratos com firmas terceirizadas; uma prática condenada pelo Tribunal de Contas da União, e que, felizmente, foi bastante reduzida no atual governo. Mas isso é outra história.)

Enfim, o estudo do Ministério - que recomendo aos interessados ler com atenção (ou pelo menos examinar os gráficos abaixo), pois seu conhecimento será importante na disputa política que se trava hoje entre as divergentes correntes ideológicas - revela que o Brasil tem menos funcionários públicos, em relação ao total da população, que a maioria dos países com os quais vale a pena comparar. Nos Estados Unidos, por exemplo, pátria do liberalismo e das idéias do Estado mínimo, existem 9,82 funcionários para cada 1000 habitantes. Nós temos 5,32 funcionários. Comparar com a França, onde existem 38 funcionários para cada 1000 habitantes, é covardia. O México, sem nenhuma fama de nação que preza o bem estar social, tem 8,46 funcionários públicos por 1000 habitantes. Detalhe: os números referentes ao Brasil incluem funcionários de empresas estatais e de economia mista, o que significa que a piãozada da Petrobrás participa da brincadeira.

O Ministério fez ainda uma comparação entre o tamanho do funcionalismo no Executivo federal e na unidade mais rica da federação, São Paulo; chegando a uma conclusão surpreendente. O Estado de São Paulo tem mais funcionários que o governo federal; incluindo aí apenas funcionários ativos do Executivo. Neste ponto, alguns leitores do Nassif, naturalmente os que defendem os tucanos de São Paulo, advertiram que pode haver diferenças de metodologia que afetem a comparação. Bem, isso somente uma análise rigorosamente técnica e neutra dos dados pode esclarecer e muito me espanta que a imprensa não tenha se dado sequer ao trabalho de fazer isso. Ela simplesmente escondeu o estudo, tão importante para o debate político nacional, do conhecimento de seus leitores. Fortunadamente, temos a blogosfera. Se depender de mim, esse estudo será lembrado toda a vez que eu escutar a ladainha do inchaço da máquina pública.

Também quero pagar menos imposto. O que não admito é ser enganado ou assistir a imprensa tentando enganar o povo, vendendo um inchaço que não existe. Uma das razões d'eu votar na esquerda é que defendo um Estado com serviços públicos melhores e mais abrangentes. Não acredito que há futuro nos serviços médicos privatizados, porque as doenças são públicas e, se houver um doente pobre na rua, ele vai transmitir a doença para o rico com plano de saúde que por ele passar. A saúde, portanto, tem que ser pública, gratuita e universal. E a educação também, para termos uma cultura mais vibrante e democrática.

Clique nas tabelas publicadas ao final do post para poder vê-las num tamanho decente.

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Post Scriptum:

Dois dias depois de publicado o texto acima, eis que descubro uma retumbante ausência nele: o livro do professor Wanderley Guilherme dos Santos, publicado em 2006, intitulado "Ex-Leviatã Brasileiro", exatamente sobre esse tema. Encontrei-o na biblioteca nacional, li-o, e agora teço alguns comentários.

Santos aborda em profundidade a questão do tamanho do funcionalismo público no Brasil. Junto à sólida argumentação científica, uma revolta discreta, nem sempre contida, perpassa a obra: contra a mistificação, constante na história brasileira, sobretudo no pós-vargas, de que o país possuía um funcionalismo "inchado", preguiçoso, incompetente, com salários de marajá. O principal problema identificado por Santos no funcionalismo estatal é a distribuição irregular de cargos, com excesso de burocratas em alguns setores e falta de pessoal em áreas sociais (médicos, professores, cientistas, por exemplo). Mas, no cômputo geral, a conclusão de Santos sobre o funcionalismo público no Brasil pode ser vislumbrada, em parte, nos seguintes trechos, que copiei do livro:

Do exame dos fatos resulta que a burocracia federal brasileira (...) é comparativamente reduzida, correspondente a reduzida percentagem da força de trabalho nacional, (...) face a totalidade do emprego privado, (...) educacionalmente bem qualificada, tendo em sua vastíssima maioria, ingressado no setor público através do exame, ou seja, por mérito, e se apropria de discreta parcela da renda nacional, sob a forma de salários modestos, por comparações internacionais.

(...)

Pesquisas internacionais mais recentes continuam DESAUTORIZANDO [a caixa alta é do blogueiro] manifestação de escândalo diante dos números nacionais. A participação do funcionalismo público brasileiro no emprego total continua significativamente baixa, mesmo quando se tomam todos os níveis de governo.

A obra traz inúmeras estatísticas, de variadas fontes, para corroborar a tese de que o funcionalismo público no Brasil, comparativamente a outros países, é reduzido. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil possuía, em 1996, 7,8 milhões de funcionários públicos, em todas as esferas, o que representava 11,5% do total de empregados na economia. Considerando a pesquisa da OIT em 72 países, apenas sete "contavam com um quadro de funcionários públicos cuja participação no emprego total é inferior à brasileira".

Participação do funcionalismo público no emprego total em alguns países:

Austrália - 21%
Canadá - 20,1%
Dinamarca - 26%
Finlândia - 16%
Inglaterra - 18,9%
EUA - 16%

Santos faz ainda uma outra observação fundamental. Em face do alto nível do desemprego no Brasil, em comparação com as nações desenvolvidas, a participação do funcionalismo público no quadro total do emprego parece maior do que é efetivamente. Tanto é assim que a queda no desemprego verificada em anos recentes tem acarretado em expressiva queda na participação do emprego público no emprego total do país.

Ao avaliar a evolução do emprego público no Brasil, portanto, NÃO É LEGÍTIMO OMITIR [caixa alta do blogueiro] as comparações internacionais, nem o elevadíssimo nível de desemprego no país, pois é sobretudo o desemprego total que favorece a disseminação da HIPÓTESE FANTASIOSA de que a burocracia brasileira é patologicamente desmesurada e está condenada por sua gênese clientelista.

Sobre o livro de Santos cabem ainda muitos outros comentários. Arrisco-me a fazer alguns, à guisa de resenha.

Santos faz uma crítica à forma superficial com que setores políticos do país (aí incluindo a imprensa, embora o cientista jamais a nomine) criticam o significado de Getúlio Vargas para o país. Ele observa que foi na chamada "era Vargas" que o Brasil iniciou, definitivamente, uma ruptura com a prática clientelista e nepotista do serviço público, com a instauração de processos de seleção mais imparciais e modernos. Com Vargas, o serviço público nacional efetivamente se moderniza, em linha com a evolução verificada nos países desenvolvidos.

O livro observa a questão do funcionalismo público no mundo e verifica que o processo de desenvolvimento econômico e social implica, necessariamente, em aumento e sofisticação da participação do funcionalismo público nos serviços essenciais do país. É uma evolução natural e quase inevitável, diante dos problemas gerados pelo próprio desenvolvimento. Ele mostra gráficos, contudo, que indicam que a participação do funcionalismo público no quadro do emprego total tende a se estabilizar quando as carências básicas da nação começam a ser satisfeitas.

Vários problemas complexos do funcionalismo são abordados no livro, inclusive de natureza psicológica. Algumas instituições fechadas, onde os debates, em função da natureza dos serviços (de ordem monetária, fiscal e econômica, por exemplo, que necessitam de segurança e segredo), são interditos, geram tensões emocionais enormes no corpo dos empregados. Invejas, vaidades, fobias, eclodem com violência singular.

Enfim, as instituições públicas têm problemas naturais, vinculados à própria natureza do ser humano, e por isso nunca serão perfeitas. É necessário haver uma crítica ao Estado e ao funcionalismo público. O que se requer, todavia, é um mínimo de esclarecimento científico. A crítica leviana sobre "inchaço" do funcionalismo público, sem um mínimo estudo sobre a literatura especializada, ou seja, sem sequer abordar os estudos acadêmicos realizados sobre o tema, como o trabalho recente do Ministério do Planejamento e o livro de Wanderley Guilherme dos Santos, flertam com a desonestidade jornalística e a histeria anti-nacionalista, prejudicando, efetivamente, o debate político e, com isso, o próprio desenvolvimento do país. Na ponta dessa cadeia de injustiças, é bom não esquecer, estão milhões de brasileiros os quais, durante muitas décadas, foram e ainda são torturados pela fome e pela humilhação econômica, enquanto esperam as elites terminarem de bater boca através dos jornais e decidirem fazer alguma coisa em prol da sociedade da qual - embora de má vontade - fazem parte.

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