26 de abril de 2006

Miriam Leitão e o novo conservadorismo latino-americano

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A coluna desta quarta-feira da jornalista Miriam Leitão, do Globo, incomodou-me particularmente. É sabido que Leitão vem se consolidando como uma das mais influentes colunistas conservadoras do país. Seu posicionamento anti-Lula, que já beirou a histeria, não encontrando justificação econômica, em função dos bons índices financeiros e sociais do governo, agora se volta contra um suposto surto de "populismo" latino-americano. Na verdade, a própria escolha do termo "populismo" é uma maneira bem maquiavélica de tentar desconstruir o significado do crescimento das esquerdas na América Latina. Ao usar o termo populismo, em vez de "esquerda", a jornalista tenta mascarar o que seria óbvio: ela é de direita, e como tal, está atacando governos de esquerda.

A vitória de Evo Morales e os atritos do novo governo com os interesses da Petrobrás e do Brasil na exploração do gás boliviano despertaram na colunista a idéia de explorar esse conflito para criticar todos os governos de esquerda do continente. O fato do governo Lula não ter "comprado" esse conflito e continuar apoiando Morales, mesmo contra supostos interesses da Petrobrás, vem irritando Leitão, que, como todo conservador tupiniquim, não compreende que um governo coloque interesses políticos de longo prazo acima de pendências financeiras de curto prazo.

Leitão não consegue compreender que um governo brasileiro esteja realmente preocupado com o desenvolvimento da Bolívia. O nacionalismo de Leitão é torto e contraditório. Ela não se preocupa com o desenvolvimento do Brasil, visto que não repercute o extraordinário ambiente econômico do país, com inflação e juros em baixa, salários e renda em alta, dívidas sendo pagas, e forte redução dos índices de miséria. E agora se mostra muito preocupada que a Petrobrás vá perder 1 ou 2 bilhões de investimento na Bolívia.

O fato, porém, é que a Petrobrás e o governo brasileiro estão conseguindo resolver o conflito de interesses de forma racional e, de qualquer forma, o importante é que o povo boliviano, muito mais pobre que o brasileiro, encontre um caminho para o desenvolvimento. Um analista político mais isento, mesmo sendo conservador, saberia que o Brasil será muito beneficiado, no longo prazo, com o desenvolvimento econômico e social de seus países vizinhos, porque estes se tornarão parceiros comerciais, políticos e culturais mais fortes e mais influentes no mundo.

Leitão volta a criticar o governo Lula por ter se envolvido no conflito interno da Venezuela, ajudando o país com o fornecimento de petróleo para o pais. Que falta de visão! Leitão queria que o governo brasileiro tratasse chavistas e anti-chavistas com igualdade! Ora, se os EUA, pátria idolatrada de Leitão se intromete, de uma forma muito mais acintosa e anti-democrática no conflito venezuelano, tendo inclusive apoiado o golpe contra Chávez, porque o Brasil não deveria usar sua influência para ajudar um país irmão a encontrar harmonia? Além do mais, a isenção do governo brasileiro diante dos anti-chavistas seria como pedir que também fôssemos isentos com os neo-nazistas da França, afinal quem foi eleito democraticamente é Chávez. Portanto, segundo a democracia, é Chávez quem representa a maioria do povo venezuelano. O governo brasileiro deve ajudar Chávez e não uma minoria reacionária, golpista e preconceituosa. Mais uma vez, Leitão perdeu uma grande oportunidade de não falar besteira. Bem que ela podia voltar a falar de economia...

Outra pérola de Leitão é que, com a briga entre Morales e uma empresa de Eike Batista, a EBX, a jornalista diz que a obrigação "do Itamaraty não é compreender as razões de Morales e até justificá-las. É defender os interesses do Brasil". Certo, dona Leitão, mas a senhora realmente acha que os interesses do Brasil estão sintonizados com os interesses do milionário Eike Batista? Nunca lhe passou pela cabeça que o mais interessante para o Brasil é unir a América Latina, incluindo a Bolívia e fomentar o desenvolvimento social e econômico em todos os países da região?

Leitão está voltando suas baterias para todos os governos de esquerda da América Latina. Não escapa nenhum: Chávez, Kirchnner, Morales, Tabárez, Lula e o próximo do Peru, Ollanta. Só não incluiu ainda a Michelet, do Chile, por "corporativismo feminino". Leitão fala sobre a volta do "populismo que nos leva aos anos 50". Ora, dona Leitão, nos anos 50 está a senhora. Os novos governos latino-americanos são populistas? Ótimo. Populista, segundo o Aurélio, significa "que é amigo do povo", e isso certamente essas novas lideranças são, bem mais do que os corruptos governos de direita com os quais a senhora deveria ter feito a devida comparação, visto que não trouxeram nem desenvolvimento econômico, nem social.

Às vezes acho que o ideal de desenvolvimento dessa turma da direita é somente o fortalecimento de uma classe média forte e conservadora ideologicamente, que assine jornais e revistas conservadores e sustentem um crescimento econômico baseado na concentração de renda. No entanto, diante do aumento da criminalidade, da miséria, do sofrimento de milhões de pessoas, da humilhação moral que um processo desses acarreta, pergunto-me: como a Miriam Leitão pode reclamar dos tiroteios na Rocinha? Devia ela agradecer ao governo Lula por ter criado o Bolsa Família e estar contribuindo para a redução da miséria e, portanto, da criminalidade no país.

E não me venham falar em assistencialismo, porque todo país desenvolvido, capitalista (digo isso para calar a boca da direita, que chama o Bolsa Família de assistencialismo populista, dentre outros epítetos menos elegantes), tem seus programas sociais de assistência aos pobres. Na verdade, o Bolsa Família é assistencialismo sim, e daí? Desde quando assistencialismo virou palavrão? No caso do programa social brasileiro, ele exige contra-partidas como filhos na escola, vacinação, além de estar ligados aos programas de compra de alimentos e leite de produtores familiares e ao programa de biodiesel. Além disso, sua execução é descentralizada, controlada pelas prefeituras, de forma que não pode ser acusaada de ser apenas uma medida eleitoral de Lula. É um programa premiado e elogiado no mundo inteiro e conta com recursos de entidades internacionais, que viram nele uma estratégia inteligente de superar a miséria. Não fosse a mídia tão egoísta, o programa poderia ter crescido ainda mais no Brasil, recebendo mais doações e contribuído com um número maior de pessoas. Não. A mídia quer só executar seu próprio programa, Criança Esperança, e destruir os programas sociais de governo, que têm o potencial de ajudar muito mais gente.

Se liga, Miriam Leitão!

22 de abril de 2006

Enquanto os cães ladram...

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É impressionante a criatividade do Globo, e da mídia em geral, de inserir o termo "em ritmo de campanha" para designar todo ato de Lula. Está ficando repetitivo, de mau gosto. Por ocasião da entrada em funcionamento da P-50, a gigantesca plataforma que produzirá 180 mil barris de petróleo por dia, ou 11% do consumo nacional, o Globo usou e abusou dessa estratégia chula, mesquinha, sem dar o devido destaque ao fato do Brasil ter ingressado no seleto grupo de países que possuem auto-suficiência em petróleo.

Na atual conjuntura geopolítica mundial, em que o preço do petróleo atinge valores recordes, esta auto-suficiência representa, para o Brasil, um grande trunfo para consolidar e acelerar o seu processo de desenvolvimento.

Qualquer cidadão com um mínimo de senso histórico e espírito nacionalista deveria estar comemorando este feito, que não é mérito de Lula mas da luta cidadã, que soube enfrentar as forças alienígenas e reacionárias às quais não interessavam que o Brasil encontrasse petróleo, nem que se desenvolvesse. As campanhas nacionalistas que se iniciaram com a Inconfidência Mineira, ao fim do século XVIII, data que comemoramos neste 21 de abril, e que tiveram tantos outros exemplos, culminaram com a criação da Petrobrás em 1953 por Getúlio Vargas. A mesma luta cidadã que agora se volta contra o golpismo e pelo respeito aos 54 milhões de votos de Lula.

Entretanto, se o mérito da auto-suficiência não é de Lula, é preciso reconhecer em nosso atual presidente um símbolo poderoso de nossa independência. A prova disso é que a sua vitória foi muito mais comemorada, em todo país do que a estréia da plataforma. Por que símbolo? Porque representa a derrota de um projeto de país baseado na venda do patrimônio público, no endividamento, na dependência crescente do mercado internacional, na desvalorização da agricultura familiar e na falta de projetos sociais consistentes.

Neste momento, contudo, muitos cidadãos observam, apreensivos, os avanços sociais conduzidos por Lula, com apoio dos 54 milhões que nele votaram, serem ameaçados de retrocesso pela mesma estratégia midiática que caracterizou a histeria lacerdista contra Vargas, contra JK e contra João Gourlat.

Há um agravante nos dias de hoje. O país é infinitamente mais rico do que há 30 ou 50 anos. A industrialização brasileira atingiu um dos patamares mais altos de todo Hemisfério Sul e o Brasil consolidou-se como a maior economia da América abaixo do Rio Grande.

Curiosamente, tantos avanços sociais e econômicos ainda não foram assimilados por parte de nossas elites. Tenho escutado, em representantes da classe média, manifestações constantes de pessimismo em relação ao Brasil e acusações sobre seu atraso. Fico imaginando estas pessoas no Brasil dos anos 30, com mais de 70% de analfabetismo, eleições manipuladas por coronéis do interior, monocultura cafeeira, quase nenhuma industrialização, balança comercial negativa.

Se era possível ser otimista e nacionalista naquela época, hoje deveria ser bem mais fácil. No entanto, alguns setores de nossas classes médias, dominadas pelo discurso moralista, não gostam do Brasil. Não há personalidade mais representativa dessa idolatria da mediocridade cínica e pusilânime do que o dramaturgo Diogo Mainardi.

Chegamos num momento crucial para a história nacional. A direita tenta desferir mais um golpe. Desmoralizadas por terem optado por vias não-democráticas, pelo militarismo truculento, as mesmas forças que apoiaram e organizaram o golpe militar de 64 agora usam as armas da manipulação midiática, tentando converter em vilão moral um governo que se destaca em todos os índices sociais e econômicos, com uma perfomance bastante superior a de governos anteriores.

Felizmente, a inteligência dos brasileiros não é feita de gelatina. Isso irrita os golpistas. Desespera-os. Em vez de praticaram a auto-crítica, atacam o povo brasileiro, manifestando seus preconceitos de classe, denegrindo o caráter e a moral brasileiras. Em vez de criticarem a si próprios, insultam 185 milhões de brasileiros. Quando falo em povo, não o digo no sentido marxista, mas num sentido mais moderno, como população, englobando todas as classes e tipos psicológicos.

Não posso deixar de manifestar aqui minha admiração pelo trabalho do escritor e blogueiro Eduardo Guimarães, que através de seu blog Cidadania vem atraindo o ódio de muitos adversários do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores.

Prezado Eduardo, continue sua luta. Como sói acontecer, ela é bem mais importante do que você poderia imaginar. Ao posicionar-se de maneira tão valente no meio da arena política, praticando a luta ideológica, você inspira confiança e insufla força em todos os participantes desta briga, às vezes dolorosa, mas sempre saudável, constituindo a própria essência da democracia. Afora isso, desvia, para si mesmo, energias malignas que poderiam estar servindo para agredir pessoas menos preparadas que você.

Os que lhe insultam, prezado Eduardo, já são derrotados e passam exatamente essa imagem à opinião pública. Os fortes argumentam, os fracos xingam. Por isso, também acho tão importante a bronca que você deu nos supostos petistas que atacaram tucanos de forma desleal. A luta ideológica deve procurar não apenas vencer o adversário, mas também conservar a integridade e a moral dos que lutam. Não esqueça, porém, que há muitos fracos também do nosso lado. Sempre haverá, infelizmente. É a vida. Isso quando não descobrimos que os fracos somos nós mesmos, mas isso é outra história, filosofias que não cabem aqui...

Acredito que a confusão envolvendo os temas de esquerda, direita, comunismo e capitalismo, está começando a se dissipar. O exercício de poder pelo PT e por Lula, assim como seus congêneres ideológicos de outros países latinos, tem ajudado as esquerdas a superarem antigos dilemas, abandonando alguns dogmas sectários, ultrapassados e ganhando novas convicções. Os sectários acham que somente as idéias do passado é que servem, mas somente a prática do poder é que indica o caminho a seguir. Não adianta elocubrar sobre governo. Somente quando se chega ao governo é que se aprende a governar. É claro que Lula erra. É claro que o PT erra. Aliás, vale lembrar artigo de um articulista do campo lulista que afirma que irá votar novamente em Lula porque ele é o único político que erra, que admite o erro, que volta atrás e que faz diferente.

O PSDB não admite que erra. O PSDB é hipócrita e mentiroso. Em vez de procurar modernizar as leis eleitorais do país, que incentivam e conduzem à prática de Caixa 2, eles preferem usar um discurso moralista, com ajuda da imprensa golpista.

Arthur Virgílio, hoje vestal da ética e furioso inimigo do caixa 2, admitiu em diversas entrevistas à grande imprensa que fez uso do caixa 2 e que todas as eleições no Brasil praticam o caixa 2. Ora, porque a imprensa, que está sempre revirando no baú da história fatos negativos contra o atual governo, não resgata também as declarações de Virgílio?

Que dizer então desses dois canalhinhas de segunda e terceira geração: Rodrigo Maia e ACM Neto, que não procuram trabalhar pelo progresso nacional, mas vem apenas tentando à todo custo desestabilizar o país e prejudicar a economia? Ah, contra estes... não fôsse eu um articulista elegante e bem educado, lançaria catárticos epítetos...

Gostaria de parabenizar aqui a todo povo brasileiro, que vem demonstrando inteligência surpreendente para detectar e desmascarar as armadilhas mais sutis da mídia. Não é fácil manter-se acima desta manipulação. O nazismo conquistou mentes brilhantes. Bush cativa cérebros sofisticados. Não é de estranhar que a mídia golpista brasileira tenha fascinado muitos espíritos bem-intencionados e vulneráveis.

Não há homem que não possa ser vencido. Não há homem que não tenha seu ponto-fraco. Não há homem que não tenha seus vícios, seus pecados. Cristo criticou violentamente os fariseus que jogavam pedras na prostituta, dizendo: que atire a primeira pedra quem nunca pecou.

Digo isto porque estas CPIs são realmente desestabilizadoras. Elas cercam ministros, deputados, funcionários, confundindo-os, ameaçando-os, fragilizando-os, até que cometem erros. Erros que se tornam extremamente graves nas mãos de um sujeito com poder, como foi a quebra do sigilo do caseiro, ao que parece comandada pelo ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

No entanto, é ridículo desestabilizar um país por causa da quebra do sigilo de um cidadão, sobretudo em face das circunstâncias.... O dito caseiro estava participando ativamente do jogo político, atacando a honra de um Ministro de Estado. Qualquer um pode atacar um Ministro, ok. Liberdade de expressão? Todavia, ao atacar um Ministro no meio de uma crise política, na sala do Senado, numa CPI conhecida como CPI do fim do mundo, dar entrevistas, pavoneando-se na TV, e ainda receber 38 mil reais (sim, porque essa história de sacar 15 paus e depositar de novo, só para dizer que foram 25 mil reais, não cola pra mim), o sujeito está, no mínimo, numa situação em que seu sigilo bancário está mesmo por um fio de ser quebrado...

Consta que o jardineiro da casa vizinha daquela onde trabalhava o caseiro estranhou o fato do cujo estar esbanjando dinheiro pelas redondezas, comprando celulares de última geração, pesquisando compra de terrenos, etc, e que essa informação foi sendo repassada até chegar aos ouvidos de Palocci, que desesperado e arrasado emocionalmente, acabou fazendo a cagada que fez.

Não querem complacência? Então tá. Então que se acuse também o deputado federal Rodrigo Maia (PFL-RJ), que quebrou sigilo da CPI ao revelar saques no Banco Rural, acusando deputados petistas, acusação que se revelou falsa. Cadê os editoriais pedindo a renúncia de Maia?

Há quem diga que o erro de uns não justificam o erro de outros. Claro que não. Mas a política é um jogo, na medida em que há um combate entre forças contrárias. Se houvesse um jogo de futebol em que o juiz só marcasse falta para um dos times, o outro sempre ganharia. É o que vem acontecendo. Por isso, há um clamor crescente na sociedade em proteção do PT e de Lula. Há injustiça, há perseguição, e isso é nocivo à democracia. O PT é o partido com maior índice de preferência no país, segundo todas as pesquisas. O ataque sistemático ao PT, portanto, é uma violência contra milhões de pessoas. E quem se sente agredido quer revidar.

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos disse numa entrevista que o PFL é o partido laranja do PSDB. Eu acrescento que, ao liderar a defesa do impedimento de Lula, o PPS age como laranja do PFL. O cientista supra-citado foi o único que previu o golpe de 64 contra Jango e agora, em 2005, foi também o único cientista a usar sem meias palavras o termo "golpe branco" para se referir ao linchamento do PT e do governo Lula. Passado o auge da crise, já temos diversos intelectuais que acusam o golpismo midiático, embora seja expressiva a quantidade de acadêmicos e "intelectuais" que operam do lado golpista, devido ao poderio financeiro da mídia, que compra sua opinião e também em função da classe a que muitos pertencem, ou pela qual sentem afinidade.

Juízes, advogados, donos de jornal, grandes empresários, latifundiários, formam a elite que sempre dominou o país, e que, quando esteve fora do poder, ou antes, quando dividiu o poder com outros setores sociais, nunca se conformou e sempre lutou para recuperar a hegemonia política.

É o que ocorre agora. O nosso querido blogueiro Eduardo Guimarães escreveu em artigo recente que Lula é covarde porque deveria ter feito como Chávez e enfrentado as elites com mais vigor. Ele repetiu artigo do José Arbex, editor da Caros Amigos e do Brasil de Fato. Arbex é um cara respeitável e bem intencionado, mas representa, na minha opinião pessoal, uma esquerda raivosa, apegada a teorias de aplicação duvidosa e marcada por um criticismo inflexível, viciado, agressivo. Sem falar na estética dura, insossa, que tem aplicado às suas publicações. Participei de algumas reuniões para a criação do Jornal Brasil de Fato. Foi bonita a tentativa deles de revolucionar a maneira de se fazer jornal, mas foi também um tanto ingênua e aventureira, e por fim quem acabou sendo o chefão foi o Arbex, impondo o estilo esquerda durona que já citei aí em cima. O título Brasil de Fato, a meu ver, não é bonito, não é apelativo, além de ser um pouco arrogante.

Gostaria de indicar a meu amigo diversos artigos sobre isso, em que argumento que, se Lula tivesse adotado uma postura mais agressiva, seria muito pior. Aqueles que preferem se calar e suportar as ofensas em silêncio, muitas vezes são mais fortes, mais inteligentes e mais lúcidos do aqueles que respondem no mesmo tom, contra-atacando com virulência. O Brasil não pode queimar pontes com a Casa Branca, por exemplo, como vem fazendo Chávez. Ao mesmo tempo, Lula sempre foi um crítico da guerra no Iraque e defensor dos direitos dos palestinos. Agora, louco tem que ser tratado como louco... e com prudência.

Sobre a reforma agrária, posso dizer que, quietinho, Lula fez mais pela agricultura do que Chávez. O MST é um movimento social extremamente importante, mas até Chávez advertiu suas lideranças, esta semana, para refletirem e aumentarem seu apoio à Lula. O MST tem um DNA crítico, rebelde por natureza, porque é um movimento extremamente ambicioso, e não reflete, necessariamente, o espírito do homem do campo. No entanto, há de se respeitar o MST e qualquer outro movimento social, porque eles canalizam energias que, de outra forma, poderiam explodir em criminalidade, terrorismo e guerrilha civil, além de prover milhares de famílias com uma dignidade e uma esperança que simplesmente não tem preço.

Sou jornalista especializado em agribusiness e recentemente fiz uma viagem de 10 dias pela zona da mata mineira. Os benefícios do Pronaf, Programa de Crédito para a Agricultura Familiar, estão chegando a número grande de cidadãos, possibilitando a eles um apoio financeiro fundamental para tocarem seus negócios. Os recursos para este setor foram muito ampliados e universalizados na gestão atual. Isso também é fazer reforma agrária.

De qualquer forma, o Fórum Social Brasileiro, realizado recentemente em Recife, terminou com o compromisso dos movimentos sociais brasileiros de apoiarem a reeleição de Lula e isso a mídia não vai informar, muito menos dar destaque. A mídia só dá destaque quando os movimentos sociais criticam Lula, nunca quando o apóiam.

Na atual conjuntura geopolítica da América Latina, coube a Lula o papel de pacificador, de ponte política com os EUA, afastando para bem longe das mentes doentias que dominam a Casa Branca a possibilidade de maiores intervenções por estas bandas. Isso é muito importante. É lamentável que tanto a direitona quando os xiitas de esquerda não compreendam isso.

Além disso, a Pedeveza, controlada pelo governo federal venezuelano, ou seja, por Chávez, responde por 60% do orçamento federal, o que permite ao líder bolivariano dar uma banana para as classes médias e para setores econômicos oposicionistas e seguir um caminho independente. Sem contar que a população da Venezuela é de 20 milhões, contra 185 milhões no Brasil.

De qualquer forma, os índices sociais e econômicos da era Chávez não são muito melhores do que Lula, além de serem mais robustos e "sustentáveis", porque poucos baseados na intervenção estatal direta, como é o caso da inflação e da geração de empregos. Que importa mais? Vociferar contra o imperialismo ou elevar o salário mínimo? Xingar Bush ou controlar a inflação? Mandar Bush à merda ou gerar empregos?

Esta semana, Chávez esteve no Brasil e disse o óbvio: a América Latina precisa de Lula para continuar seu programa de união e independência política e econômica, programa que conta agora com Evo Morales, Michelet, Kirchnner, Tabarez Vasques, todos eleitos recentemente, todos de esquerda ou centro-esquerda.

A participação brasileira na estabilização política da Venezuela não pode ser subestimada. Em entrevista recente de Lula à revista The Economist, havia um pergunta bem capciosa sobre Chávez, aquele tipo de pergunta que pressiona o entrevistado a responder de acordo com a opinião do entrevistador. Tipo assim: que você tem a dizer sobre o governo totalitário de Chávez e seus constantes ataques à democracia; ele não estaria desestabilizando a região? Lula respondeu com uma defesa veeemente e equilibrada de Chávez, dizendo que o presidente venezuelano era um amigo e estava fazendo um grande governo para seu povo. A resposta foi um gesto político poderoso, na revista mais influente do mundo. É desse tipo de apoio que Chávez precisa. Por essas e outras é que prefiro Lula à Alckmin na presidência, porque tenho certeza de que Alckim não tardaria a entrar em conflito com Chávez e com outras lideranças progressistas da América Latina, e poderia romper, por um conservadorismo vulgar e cretino, parcerias internacionais importantes, fazendo nossa política externa regredir à era tucana, em que ministros tiravam sapatos em aeroportos e se negociava a Alca sem olhar vantagens para nossas empresas e trabalhadores. Repito o termo cretino porque essa atitude não é producente, e só nos rebaixava aos olhos do mundo. Os Estados Unidos, como toda nação soberana e forte, só respeitam e estimam outras nações igualmente soberanas e fortes.

Bem, o feriado da Independência passou e só nos resta molhar as mãos, em pensamento, no petróleo brasileiro, imitando Vargas, imitando Lula e proclamar com o peito cheio de orgulho e esperança: o petróleo finalmente é nosso! Ou antes, podemos proclamar, quase bêbados de tanta alegria, uma alegria que pode mesmo se transformar em ódio se tentarem aprisioná-la, podemos proclamar, com uma pontinha, vá lá, de raiva: esse país é nosso, porra!

16 de abril de 2006

A OAB é golpista

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Quer dizer que quando o último presidente articulou para aprovar sua própria reeleição, em pleno exercício do mandato, contrariando qualquer prurido de ética, legalidade, bom senso, a OAB não disse nada; quando o governo anterior segurou o câmbio artificialmente até pouco depois das eleições, causando prejuízo incalculável para empresas e trabalhadores brasileiros; quando o governo anterior fez explodir nossa dívida pública, sacrificando nossa capacidade de investimento; vendeu uma das mais estratégicas empresas do mundo, a Vale, num processo imoral, anti-ético, com o preço avaliado pelos próprios compradores; quando o governo passado repassou bilhões dos cofres públicos para o sistema financeiro (Proer), devido à sua incompetência na gestão macro-econômica; poderia listar mais centenas de casos similares, entre eles o abafamento sistemático de investigações sobre lavagem de dinheiro, gasto ilegal em campanha, corrupção nos altos escalões; quando isso ocorria às barbas da nação, a OAB não se pronunciava, pelo contrário, defendia esse governo.

E agora, a OAB vem a público dizer que pretende pedir o impeachment do presidente Lula, símbolo da moderna democracia nacional, cuja posse foi festejada com entusiasmo e alegria jamais observado na história? Que estancou o processo de pauperização do povo brasileiro e conseguiu controlar a inflação e criar um vasto programa social sem prejudicar fiscalmente o país, ou antes, pagando e reduzindo nossas dívidas?

Quer dizer que a OAB quer fraudar a democracia brasileira, abortando a vontade de 54 milhões de eleitores?

Que OAB é essa? A mesma OAB que apoiou a ditadura? A mesma OAB que participou dos preâmbulos golpistas midiáticos que antecederam tanto os golpes mal sucedidos antes de 64 quanto aquele que lançou o país nas trevas da ditadura?

A verdade é que a OAB é uma instituição reacionária, herdeira dos valores oligárquicos do Brasil colonial, quando os fazendeiros mandavam seus filhos se formarem em Direito, de forma a consolidar seu poder sobre a estrutura política nacional.

Pois escutem bem, doutores conselheiros da OAB, não sou formado em Direito mas tenho cultura suficiente para saber que as leis modernas de uma república não são fatwas religiosos que podem ser usados arbitrariamente de acordo com o oportunismo de determinados grupos de poder. Estou ciente de que as leis são a expressão escrita da justiça humana, e enquanto tal devem seguir o bom senso e as necessidades de ordem social, bem estar e estabilidade política e econômica. No caso em questão, não é nada aconselhável usar artimanhas jurídicas para desmoralizar a democracia brasileira. Depois reclamam que o povo não é fanático por democracia, visto que a vontade democrática é usada ou descartadada segundo o interesse de certos grupos...

Esse golpismo descarado da OAB é prova de que há setores no país que ainda não acordaram para o Brasil industrial, dinâmico, com economia múltipla, estão ainda presos à mentalidade de republica de bananas. Que se juntem aos golpistas fracassados da Venezuela, provavelmente todos bacharelados em Direito...

Que as leis no Brasil foram feitas por ricos e para os ricos, é o que nos ensinaram professores de história revoltados e mal pagos, e mesmo assim nós nos entregamos ao império da lei para fugir ao caos, sabendo que as leis são flexíveis e sempre podem ser aperfeiçoadas e sempre podem ser interpretadas com mais ou menos equanimidade, bom senso e justiça.

Entretanto, o uso da lei contra a democracia é uma velha tradição latina. Hoje se esquece, mas todas as ditaduras latinas se valeram de artimanhas jurídicas para se legitimarem. É bem curioso aliás que a seção do Globo que repete, num quadrinho do Segundo Caderno, a primeira página do jornal há cinquenta anos, não vem reproduzindo as manchetes golpistas da época contra Juscelino Kubisheck. Parece que voltamos no tempo. As manchetes da época parecem as mesmas, com os mesmos pedidos de impeachment, os mesmos editoriais dramáticos.

Miriam Leitão tem a cara de pau de falar em maior crise da república. Quer dizer que a crise de 64, que culminou com o hediondo golpe militar, que abortou nossa história, destruindo nossa democracia e fazendo submergir milhares de projetos de educação, reforma agrária, distribuição de renda, combate à corrupção, esse golpe não representou a nossa crise maior?

Lembremos sempre que a mesma mídia, as mesmas instituições, as mesmas famílias que conspiram hoje contra a democracia foram os mesmos que apoiaram o golpe, que apoiaram todas as tentativas de golpe antes do triunfo do mal em abril de 1964.

Vamos lembrar, vamos repetir: o Estadão apoiou o golpe de 64, a Folha apoiou o golpe de 64, o Globo não só apoiou, como deve seu atual poderio e monopólio à boa vontade dos ditadores militares.

Ah, dessa vez não. Toda ação conduz a uma reação. Aceitamos perder democraticamente. Não aceitamos golpe. Os mesmos bravos que se insurgiram contra a ditadura, se insurgirão contra o golpe de hoje. Dessa vez, o povo está mais politizado. Os sindicatos estão atentos. Os trabalhadores estão vigilantes.

Tentem fazer isso e ficarão desmoralizados para sempre, estigmatizados eternamente pela Histórica implacável, que os chamarão de golpistas, de traidores dos interesses maiores da pátria, de covardes, odiados hoje e amanhã pela maioria do povo brasileiro, estudantes, professores, artistas, trabalhadores, não só por aqueles votaram em Lula mas por todos que acreditam que princípios democráticos não podem ser escamoteados por artimanhas jurídicas oportunistas e má-intencionadas.

Na repúbica, o poder emana do povo e somente o povo pode eleger ou depor seus líderes. Em vez de praticarem o golpismo, a oposição poderia ter a decência de andar pelas periferias, subir as favelas, conhecer as necessidades do povo, entender o que pensam os trabalhadores. Não é frequentando a Daslu ou resorts milionários que vocês elegerão seus candidatos.

Tomem vergonha na cara seus safados!

15 de abril de 2006

Observador da luta política

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Os amantes, observadores e participantes da vida política nacional podem reclamar de tudo, menos de tédio. Nos últimas dias, tivemos a divulgação do resultado de dois importantes institutos de pesquisa eleitoral, Datafolha e Sensus, que confirmaram a consolidação da popularidade de Lula e o seu favoritismo nas eleições deste ano. Tivemos o fim da CPI dos Correios, numa votação final tumultuada, confusa, agressiva. Tivemos, por fim, a denúncia do Procurador Geral da República, divulgada com sensacionalismo pela imprensa, que procura desesperadamente uma chancela para o tom dramático que vem usando nos últimos tempos. O troféu do ridículo ficou com o JB, com sua manchete adolescente: O mensalão existiu. PT saudações.

Os golpistas do Globo, Merval Pereira e Miriam Leitão, não tecem uma crítica ao boicote que as oposições vêm fazendo ao país, ao obstruir a votação do Orçamento.

O presidente Lula está sendo obrigado a liberar verbas através de Medida Provisórias e o filho do César Maia, o deputado federal Rodrigo Maia (PFL-RJ), membro da ala golpista do Congresso, ainda tem o desplante de dizer que entrará na Justiça contra a edição das MPs. O irritante é ver que a colunista Miriam Leitão, diante de tal descalabro, que afeta tão gravemente o equilíbrio financeiro do país, não diz uma palavra.

O Observatório de Imprensa é um fórum de respeito, mas está perdendo credibilidade ao tentar assumir um papel de crítico da crítica, com seus colunistas gastando impulsos eletrônicos para tentar provar que os milhares de cidadãos indignados com a parcialidade da imprensa estão enganados e que a imprensa é que está certa. Mesmo assim, a OI tem o mérito de ser um site aberto ao contraditório e que investe e incentiva uma diversa, ampla e múltipla participação democrática, tanto nas áreas de comentários quanto na seção dos Leitores. A impressão que eu tenho é que os jornalistas do OI, como todos seus pares no país, aliás, sentem-se acuados pelo poder e agressividade da mídia corporativa, única com bons (?) empregos, em termos salariais.

Por outro lado, o movimento pró-democracia, pró-Brasil e pró-Lula cresce, ganha novos adeptos, novos sites, blogs e se expande na internet, nos sindicatos e na sociedade brasileira como um todo. Já tive a oportunidade de escrever sobre isso, mas vale a pena repetir. A internet trouxe para o microfone democrático toda uma classe de cidadãos não intelectuais que antes se contentavam em alinhar-se ou não com determinados professores ou políticos, monopolizadores da palavra escrita e falada.

O espaço democrático da internet está dando visibilidade para donas-de-casa, aposentados, engenheiros, garçons, professores de ginásio, advogados, pequenos funcionários públicos expressarem suas opiniões políticas e suas idéias sobre o Brasil. Trata-se de um contingente que, através da internet, está tendo acesso a fontes variadas de informações, o que permite a construção de um olhar crítico e mesmo algo rebelde, muito lúcido e sagaz sobre a conjuntura política. Não somente lêem o que os colunistas dizem sobre a pesquisa do Sensus: entram no site do Sensus e analisam diretamente as estatísticas. Lêem editoriais do Estadão, da Folha, cotejam com as críticas do Observatório da Imprensa e, por fim, se manifestam, em linguagem coerente, na maioria das vezes num estilo sóbrio, conciso, com uso abundante de números e dados confiáveis sobre economia, desemprego, crescimento econômico.

A consciência política do brasileiro está evoluindo e o golpismo tem forçado as pessoas a aperfeiçoarem seu nível de consciência. Diante do risco de verem roubadas, pelas mesmas elites de sempre, sua fé e sua esperança na democracia, noto um saudável desespero das pessoas em se informarem com mais cuidado, em se manifestarem com mais coerência. As pesquisas eleitorais estão apontando uma grande recuperação de Lula junto ao eleitorado jovem e às pessoas mais esclarecidas, sobretudo depois da sagração de Alckmin como principal adversário. Alckmin representa o atraso, é aliado de primeira hora de todas aquelas velhas oligarquias nordestinas. Ele mesmo é um almofadinha provinciano, sem carisma, sem idéias, além de um moralismo vulgar, direitista, carola, retrógrado, elitista e mentiroso.

A luta ideológica é mais intensa, naturalmente, entre as pessoas com formação política mínima, em geral da classe média. O povão vota com o estômago, com o instinto, razão pela qual se mantém fiel ao presidente. Nesta batalha ideológica, nota-se o número contra a força, muitos blogs e sites contra o poderio da mídia. Mesmo que a mídia corporativa triunfe nessa guerra (Deus nos proteja!), a experiência desta organização blogueira, internáutica, representa uma vitória importante, existencial, cultural e política, uma força com a qual, a partir de agora, políticos e poder econômico terão que conviver. Em última instância, a coligação direita & mídia pode até ganhar, aqui e ali, o poder político, mas nunca nossas mentes e corações.

A recuperação da renda dos trabalhadores, o aumento recorde do salário mínimo, a geração de emprego, a valorização das estatais, o controle da inflação, a redução da dívida pública, a nova orientação da política internacional, são fatores que estão ajudando a reconstruir a auto-estima dos brasileiros e a sua confiança de que o país é viável, desde que não seja novamente entregue às mãos desastradas e à sanha golpista da oposição.

Uma imagem me vem à mente: quando Lula esteve, recentemente, na Inglaterra, momento em que foi homenageado por políticos, empresários e pela famíila real, sempre havia grupos de imigrantes brasileiros às portas dos locais onde o presidente estava. A Band entrevistou alguns, a Globo não. Sabe por quê? Por que os brasileiros no exterior, em sua maioria, tem grande admiração pelo presidente Lula, porque, observando de longe, vêem como o país ganhou em prestígio, em respeito, sob a gestão Lula. Um entrevistado pela Band foi um rapaz de seus vinte e poucos anos que veio à Londres estudar e trabalhar, como tantos outros. Sua declaração me comoveu, ele disse: "quando eu vim a Londres, há uns quatro anos atrás, não pensava em voltar. Queria estudar e depois trabalhar e morar na Inglaterra. Hoje não. Hoje eu sei que vou voltar para o Brasil." Reparem que ele não falou nem que pretendia voltar; não, ele estava decidido, e disse aquilo, diante das câmeras, com orgulho, altivez e alegria. Era um rapaz educado, sensível, uma dessas pessoas que realmente sofrem em pensar na crescente miséria de parte de nossa população; e que se sentem felizes e aliviadas quando constatam que o processo de pauperização do país foi estancado, e que o navio Brasil novamente singra em direção a um futuro mais promissor.

Entretanto, me entristece, me revolta ver que possuímos ainda uma certa esquerda oportunista, falastrona, hipócrita e cínica, que se apropria de conceitos de esquerda de forma totalmente arbitrária, falsa, porque estão se ligando cada vez mais aos interesses da direita nacional.

No Globo, li que durante evento na Universidade de São Carlos, trabalhadores e sindicalistas encresparam-se contra estudantes que pretendiam fazer um infantil protesto contra o presidente Lula. "Abaixo a burguesada, quem manda aqui é a peãozada!", bradavam os trabalhadores, indignados que um pequeno bando de almofadinhas de olho azul (sem preconceito, só metáfora) estragassem o evento, histórico para eles, de encontro com seu presidente. O Globo, está claro, noticiou de forma a prejudicar os manifestantes pró-Lula, mas não conseguiu. Ficou evidente, para mim, que um segmento cada mais maior de trabalhadores e cidadãos está disposto a sacrificar sua energia e seu tempo para lutar contra a volta da direita oligárquica e usurpadora ao poder, ajudada pelo apoio esporádico (ampliado artificialmente) de setores alienados do esquerdismo juvenil (tipo Psol) ou senil (tipo PPS e PDT)e pela parcialiade vergonhosa de nossa mídia corporativa.

9 de abril de 2006

A pele grossa de Lula

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"as elites adoram guerras/ apesar de sempre fugirem à linha de frente"
Crises Políticas, de Miguel do Rosário




A mídia bate em Lula com seus instrumentos mais cortantes e afiados, mas não conseguem sangrá-lo. A pele grossa do presidente é um fato político que está causando perplexidade na inteligentzia oposicionista.

Bem, eu sei porque. E fico triste ao constatar que as oposições são míopes, egoístas e surdas. Ontem, sábado, fui lá na portaria pegar meu Globo, voltei pra casa, fiz um café e, xícara à mão, dei mais uma olhada nas manchetes. Abri na terceira página.

A reportagem falava dos aumentos concedidos aos aposentados que ganham mais de um salário mínimo. Os que ganham 1 salário já haviam sido contemplados com o aumento do mínimo para R$ 350. Mas os que ganham 2 ou 3 salários, quase tão pobres quanto, estavam ainda a ver navios.

Pois bem, os redatores do Globo, no afã de colar a pecha de eleitoreira na medida de Lula, não perceberam que estavam agredindo, de forma suja e insensível, todas as 8,2 milhões de pessoas que seriam beneficiadas pela medida.

Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento da realidade brasileira sabe que a Previdência tem sido o principal programa social do país, além de ser o mais importante agregador familiar. Milhões de famílias vivem da renda de seus membros mais idosos. O aumento do salário para estas pessoas, através do incremento do mínimo e com a recente medida, constituirá uma melhora da qualidade de vida de milhões de pessoas.

A população brasileira não reconhece uma medida dessa como eleitoreira. Eleitoreiras são as famosas promessas dos políticos, em discursos de campanha, que após a vitória, não se concretizam. Quando um político não promete, mas realiza um bem ao povo, isso não é eleitoreiro, mas simplesmente uma ação política afirmativa.

O Globo foi grosseiro, ofensivo com as famílias que se beneficiaram da medida, ao tratá-la apenas como uma medida eleitoreira que resultará em gastos da Previdência Social. Os jornalistas esqueceram de entrevistar economistas de verdade e não esses economistaszinhos tucanóides que vêem em qualquer medida em prol do povo uma ofensa pessoal. Economistas de verdade diriam que a medida representará uma vigorosa injeção de crédito no país, visto que os aposentados hoje em dia constituem um dos segmentos consumidores mais ativos e mais confiáveis, com acesso aos programas de crédito popular, e com grande responsabilidade junto às suas famílias.

A pesquisa do Datafolha divulgada neste domingo, mostrando a queda de Alkmin, revela que a sua última ascenção teve algo de artificial e sugere que ele tenha atingido um teto. Lula, por outra parte, mostrou que ainda tem espaço para crescer, pois ganharia muitos votos de Garotinho e dos indecisos.

A verdade que não quer calar é que o Brasil está vivendo, depois de décadas de estagnação ou crescimentos artificiais, provocados com base em aumentos histéricos do endividamento interno e externo, um verdadeiro momento do que se chama "crescimento sustentável". Reclamaram que o Brasil cresceu menos de 3% em 2005, mas foi o ritmo temperado pelas condições brasileiras, com enorme geração de emprego, redução da miséria, redução do endividamento, melhora na distribuição de renda e crescimento do consumo das classes populares.

A venda de computador está crescendo este ano mais de 200% em relação à 2005, que já havia sido um ano muito bom. O povo está comprando computador, em parte devido às facilidades permitidas pelo governo federal, como a liberação de impostos e financiamentos às redes comerciais e distribuidoras de material de informática.

Alguns diretores de marketing da mídia devem estar começando a ficar irritados com os editores políticos dos jornais, que insistem numa estratégia sucida de negar a forte popularidade de Lula inclusive entre os leitores de jornal. Vão perder cada vez mais assinantes. Na hora de renovar a assinatura do Globo, considerarei atentamente a sua linha editorial. Se continuar pendendo para o lado golpista, não renovarei, se eu notar que há uma distensão, com uma postura mais imparcial e mais respeitosa com o nosso presidente, eleito com nosso voto democrático e que conta ainda com nosso apoio, poderei renovar. Isso é democracia.

Enquanto isso, Reinaldo Azevedo, editor da Primeira "Nossa Caixa" Leitura, continua falando merda, com seu pedantismo rasteiro, tentando comparar o povo brasileiro com o povo romano, conforme descrito por Shakespeare, em Julio César. Já li esse livro. É forçar muito a barra. Olha só a pérola golpista do Azevedo, ao criticar o fato dos partidos de oposição não terem ainda pedido o impedimento de Lula. "Nas democracias, se elege e se depõe", diz o Apedeuta Tucano.

Isso é golpismo. Fascismo em estado bruto. Inclusive já separei alguns livros sobre o fascismo para ler, reler e ter conteúdo para lutar contra o ressurgimento dessa praga, com vestes tupiniquins, engraçadinhas, disfarçadas de humorismo machartiano de um Mainardi ou histeria pedante, de um Reinado Azevedo. Só espero que a psicose bushiana e apocalíptica-nuclear de um Olavo de Carvalho não volte a envenenar a opinião pública brasileira, pois sabemos que há uma camarilha de ratinhos de Olavo no Brasil que são responsáveis por muita agressão mau educada, fascista, lembrando os camisegras negras da Itália, que matavam judeus pobres e desafetos em nome do ideal de "ética" e "morala" do fasci-nazismo. Competência pra otário, diga-se de passagem, pois dizer que os tucanos são competentes, depois da merda que fizeram de 1994 a 2002, é uma inominável ofensa à inteligência da raça humana.

Esqueceu Azevedo que quem elege é o povo, e portanto, quem depõe, tem que ser o povo. Essa é a razão de democracias avançadas, como a norte-americana, nunca terem usado o impeachment, medida radical, de qualquer forma uma violência contra a vontade democrática popular, só se justificando portanto em casos extremos de guerra civil ou colapso social e econômico. Não é o caso do Brasil. De outra forma, é um golpe. Um putsch jurídico, imoral e próprio de covardes traidores da pátria.

Ademais, seria loucura. O impedimento de Lula estimularia a criação de guerrilha, pois os trabalhadores, eu inclusive, não suportaríamos uma violação tão suja e desonesta dos princípios republicanos, que são, como o nome diz, princípios e portanto não podem ser escamoteados por artimanhas jurídicas anti-democráticas, fascistas, que visam fraudar a vontade popular, verdadeira essência das democracias.

6 de abril de 2006

Um olho fechado, outro aberto

6 comentarios

Estou atento a tudo que está acontecendo, mas as necessidades profissionais têm me consumido muito tempo. Além disso, também venho me dedicando à produção de crônicas e contos não políticos, que publico em sites de literatura. Mas não posso de deixar de registrar aqui a minha admiração pelo blog do Eduardo Guimarães e pelos escritos de Fernando Soares Campos, no La Insignia e no Manifeste-se da Novae. Tá tudo linkado aí ao lado. Tenho assinado embaixo tudo que eles dizem.

Não estou abandonando o blog, apenas explicando porque o ritmo de postagens tem diminuído. Devo admitir também que tomei náuseas de algumas coisas. Por exemplo, não assisto mais Jô, não entro mais nos blogs políticos, não leio a Folha ou Estadão. Leio somente o Globo, porque tenho assinatura. Já é o bastante para me atazanar. A linha central do Globo é descaradamente anti-Lula. A aprovação do relatório da CPI do Serraglio, por exemplo, é festejada pelo Globo como "confirmação" do mensalão, termo usado e abusado pelo jornal nos últimos 300 dias. Grande vitória da democracia, agora a "verdade" é votada... por deputados da oposição. O outro lado não foi ouvido, é absurdo. Bem, mas a vida é curta. Por isso mesmo admiro os que lutam pelo Brasil, sei que estão lutando com o coração limpo, por bravura e altruísmo.

Também faço parte desta luta, só tô tirando umas férias, ou antes, diversificando um pouco as estratégias, pois é importante não esquecermos a importância da arte para combater a intolerância, a hipocrisia, o egoísmo, a estupidez, e ajudar as pessoas a fortalecerem a sua individualidade, de maneira a não se deixarem manipular com tanta facilidade pelos meios de comunicação.

O Lula está forte, consolidado. Tem o favoritismo agora e tem a vantagem da perspectiva de um bom ano econômico para o Brasil. É um político brilhante, agora com toda a experiência que os 4 anos de governo lhe conferiram. O Lula candidato este ano será um Lula mais forte, sem a pecha de aventureiro ou maluco comunista, com a insígnia de um estadista sério e nacionalista. Mesmo os escândalos poderão ser, em parte, neutralizados pelo fato de terem sido exaustivamente investigados por todas as instâncias possíveis, mesmo por aquelas mais tendenciosas, como as CPIs, que o isentaram de qualquer culpa. Desta vez, não será possível atacar Lula dizendo que se trata de um "inexperiente" que nunca governou sequer uma prefeitura, conforme era dito. Agora, são os adversários que são inexperientes, porque nunca foram presidentes, e Lula foi. É respeitado lá fora, mais que qualquer outro presidente jamais o foi, pelos países ricos e mais ainda pelos países pobres, a quem tem ajudado muito, com ações práticas e posições políticas corajosas. Lula foi o primeiro presidente a verdadeiramente visitar a África, indo a dezenas de países. FHC no máximo deu pulinho na África do Sul. O Lula presidente também será melhor, porque a experiência um fator importante. Os grandes erros de Lula, explicáveis por seu desempenho ímpar no exterior, quando conseguiu fechar parcerias internacionais que foram extremamente importantes para o aumento das exportações brasileiras, foram o seu relacionamento com o Congresso Nacional. No próximo mandato, tanto Lula como o PT e os partidos aliados estarão mais capacitados para lidar com as forças oposicionistas que necessariamente transitam com grande arrojo pelo Legislativo.

As tentativas golpistas têm despertado grande indignação de amplos setores da sociedade. Leiam os artigos de Mauro Santayanna, da Agência Carta Maior. Acessem a RadioBrás, o Vermelho. Fiquem tranquilos. Como dizia Leminski, "distraídos, venceremos", sendo que não interpreto essa frase como uma sugestão ao abandono, e sim uma proposta de otimismo, de que venceremos as lutas quando menos esperarmos, porque as forças que regem a História são mais fortes que nós, embora tenhamos a plena consciência de que nós também compomos a força da História.

Ah, a História é como uma mulher extremamente bela, atraente e sedutora, mas tão confusa, tão complicada e, eventualmente, tão agressiva e vingativa, que o melhor que fazemos é mantermos uma distância respeitosa, cautelosa, tentando influenciá-la sem que ela perceba nossas intenções.

Terminando, gostaria muito que vocês baixassem meus livros (link ao lado), imprimissem, lessem e dessem sua opinião. Abraço em todos.