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29 de janeiro de 2009

A contradecepção de Vik Muniz

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Confesso que fui com um pé atrás. Sou um cara cheio de preconceitos contra alguns aspectos da arte contemporânea e antes de ir à exposição de Vik Muniz esperava encontrar uns trabalhos bonitinhos, interessantes, mas sem grande consistência artística.

Experimentei, todavia, uma agradável decepção ao contrário. Embora Muniz seja o protótipo, quase um estereótipo, do artista contemporâneo pop, ele consegue sê-lo com assombrosa originalidade e inegável competência estética. Feitos com técnicas esdrúxulas, como dispor objetos sobre desenhos gigantes, de forma a obter reproduções não-convencionais de clássicos das artes plásticas, seus trabalhos são, antes de você entendê-los, extremamente bonitos, com forte densidade visual.

Com obra eclética e numerosa, é claro que nem todos os trabalhos mantêm a mesma força, mas boa parte das obras em exposição no Museu de Arte Moderna me causou uma excelente impressão. O cara é bom. Não porque usa lixões para fazer seus trabalhos, mas porque, fazendo-o, obtém bons resultados, alcançando contrastes, profundidades, linhas e contornos que me proporcionaram momentos de legítimo prazer estético, aquele velho e milenar prazer que somente Kant conseguiu explicar, fazendo-me recordar dos belos versos de Leopardi:

"Cosí tra questa
immensità s'annega il pienser mio:
e il naufragar m'é dolce in questo mare"

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Por falar em arte, o link Gallery Flickr, no alto, está recebendo contribuições novas de arte contemporânea. Quem quiser dar uma espiada, está ficando bem legal.

21 de janeiro de 2009

Arquivo: Ensaio sobre o filme Cidade de Deus

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Esse artigo, publicado originalmente no extinto site Arte & Política, circulou muito pela internet, sendo reproduzido no site Janela Indiscreta. Se não me engano, é um artigo escrito em 2001 ou 2002.

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A volta do marginal




Ensaio sobre o filme Cidade de Deus

Com o filme Cidade de Deus se consolida uma nova escola do cinema brasileiro contemporâneo, superando inclusive a "Retomada", como está sendo conhecido a etapa que se seguiu ao vácuo do início dos anos 90, após o fim da Embrafilme, com os lançamentos de Carlota Joaquina e, um pouco mais tarde, Terra Estrangeira, sob os auspícios da Lei do Audivisual. A exploração estética da poesia suburbana das metrópoles representa um ressurgimento triunfal da idéia preconizada por Glauber Rocha, que nos anos 60 escrevia que o cinema dos países periféricos só alcançaria produzir um efeito estético contundente através da manipulação artística da violência e da fome. O rebelde politizado de Glauber, porém, será substituído pelo bandido cínico do cinema marginal pós-64, como por exemplo o Bandido da Luz Vermelha, visto que a produção cinematográfica estará sob severa vigilância da censura militar.

Esta nova estética marginal do cinema brasileiro não deve ser confundida com a eterna paixão pelo gangsterismo de holliwood, embora as influências sejam inevitáveis. Enquanto o bandido americano (Poderoso Chefão, Scarface, Bons Companheiros, Pulp Fiction) é um capitalista que optou pelo enriquecimento fácil, ou então um caso de perturbação psicológica (Psicose, Kannibal), o bandido brasileiro é mostrado sempre como uma vítima social, um rebelde cínico ou politizado, cujos valores morais foram submergidos por circunstâncias alheias à sua vontade.

Um épico da modernidade - Nesta volta surpreendente da estética marginal, o mesmo herói bandido aparece inserido num contexto sócio-político definido com assombrosa lucidez e encaixado numa película elaborada com um profissionalismo de fazer inveja aos melhores técnicos de holliwood.
Embora a censura tenha se esvaído com o fim da ditadura, os cineastas continuam vigiados por executivos dos departamentos de publicidade que aprovam os projetos de patrocínio. Os heróis marginais de Cidade de Deus, por exemplo, não têm nenhum discurso político consistente, porque são totalmente, ou quase, analfabetos. Ainda não é o momento do cinema engajado, se é que ele terá seu momento, já que a arte não necessita de uma forma explícita para atingir um determinado objetivo estético ou político. O ritmo da câmera, a música, as cores, enfim a linguagem, serão suficientes para influenciar a percepção moral dos personsagens. Através destes recursos, Meirelles consegue iluminar os bandidos com uma luz que parece vir da consciência do espectador, que lhes compreende o desvio moral como resultado da realidade dolorosa do Rio ou de qualquer outra metrópole.

Universalismo - Trata-se, antes de tudo, de um filme universal, o que fica acentuado pelo título bíblico. Logo no começo, a vista do alto da comunidade lhe confere um ar de lugar divino, atemporal, um microcosmo onde se desenrolará um drama épico. Mesmo a guerra das gangues tem um motivo digno da Ilíada: o estupro da mulher de Zé Galinha lembra o rapto de Helena, e a fúria titânica do vingador aparece como a ira de Ulisses. Nesta parte mesma, o narrador diz: "só mesmo um milagre... mas existe um lugar melhor para um milagre do que uma cidade com o nome de Cidade de Deus?". E Zé Galinha, como que protegido por Atenas, deusa da guerra, irrompe atirando, sozinho, contra um bando de mais de doze homens armados, colocando-os em fuga e matando um deles. As mulheres que o rodeiam, enquanto ele observa sua primeira vítima, recordam o coro de uma tragédia grega, expressando os pensamentos da comunidade: "Legal você... Matou bem... Esse foi um, mas ainda não foi todos...".

A galinha em pânico - Voltemos ao início do filme. Churrasco, samba, cerveja, caracterizam, em traços rápidos e precisos, o ambiente da favela. A alegria é contagiante, envolve completamente o público através do contraste desconcertante entre a realidade vibrante da comunidade e a imobilidade quase mórbida da sala de cinema. A galinha, esse personagem inesquecível, símbolo do ser em perigo, do medo e, enfim, da fuga, a galinha escapa da morte, com suas próprias pernas, e pôe-se a correr pelas ruelas, acompanhada pela câmara que, assim, apresenta o público à Cidade de Deus. A cena continua alegre, apesar dos empurrões que Zé Pequeno dá nas pessoas que atravessam seu caminho. Uma introdução clássica, idílica, que mostra de quebra o adorável vestígio rural da periferia onde as galinhas ainda são compradas vivas. Em poucos quadros, alguns elementos centrais do filme são apresentados: Zé Pequeno, líder de um bando armado, obviamente um traficante, a favela, a inocência constante dos personagens, exacerbada pela presença de crianças no grupo. A galinha chega a uma rua mais larga e encontra Buscapé, ele também um ser em fuga, como mais tarde se evidenciará no filme. Buscapé e o animal se enfrentam, como iguais. Começa de fato o drama. Não admira que uma cena tão espetacular fosse o fio que amarra o começo ao fim da história.

Estética negra - A linearidade da história é total. Depois desta introdução, o filme segue uma ordem lógica e tocantemente simples, dando mostra de uma preocupação peculiar de tornar o filme acessível a qualquer pessoa. E ainda temos um narrador onisciente - o próprio protagonista - que explica, em linguagem coloquial e voz pausada, as origens da favela e outros pontos capitais do filme. O recurso à imobilização das cenas, descansando a vista do espectador e dando tempo para a compreensão de determinada cena ou personagem, e os flash backs, que refrescam a memória ou explicam situações, completam uma linguagem assumidamente didática, legitimando a veracidade absoluta da narrativa. Esta veracidade extremada se desenvolve com diálogos espontâneos e personagens escolhidos a dedo, tipos físicos negros e mestiços absolutamente verdadeiros. Com isso, Meirelles consegue enfim superar o próprio Glauber Rocha, que apesar de sua busca apaixonada pela legitimidade social, não conseguiu nunca transformar o homem do povo em sujeito da narrativa. O vaqueiro Manuel, de Deus e Diabo, assim como Corisco, é um personagem de Glauber, uma fantasia bem construída de um diretor genial, mas o Zé Pequeno e demais personagens da Cidade de Deus não são criações de Meirelles, nem de Paulo Lins. Eles são reais, autônomos, personagens nascidos prontos, senhores de seu mundo e auto-referentes. E aí temos outra característica efetivamente revolucionária de Cidade de Deus, digna de ser louvada como um marco na história do cinema brasileiro: a consolidação estética da beleza negra. Com uma honestidade comovente, Meirelles mostrou a negritude essencial do brasileiro, sem traços finos, sem subterfúgios de espécie alguma, praticamente inaugurando uma nova referência estética-racial para o cinema nacional, ainda fortemente preso a uma estética branca e "global".

Pequenas dissonâncias - É difícil encontrar defeitos em Cidade de Deus, mas uma crítica sincera não pode deixar de opinar sobre os pontos mais problemáticos. Alguns personagens são um pouco mal construídos, como o puxa-saco de Zé Pequeno, embora ele seja importante. O próprio Zé Pequeno, apesar de interpretado magistralmente por Leandro Firmino da Hora, peca por um maniqueísmo exagerado, como vilão de história em quadrinhos, enquanto Bené, seu comparsa, assume ares de bom moço um pouco incoerentes com o seu envolvimento em tantos crimes e assassinatos. Esses defeitos, contudo, se é que são defeitos, fazem parte do filme, como nossos defeitos fazem parte de nossa personalidade.

Falta falar da fotografia e da música. Sobre a primeira, o filme consegue um efeito bastante eficiente, ao conferir uma cor antiga, fosca e tênue, e mesmo em preto e branco, aos períodos mais antigos da história, os anos 60, e cores vivas aos períodos mais recentes. A trilha sonora também participa desta ambientação histórica. A entrada das primeiras cenas dos anos 70 é acompanhada por uma música tipo discoteca que serve como uma descrição perfeita da época. Todas as músicas parecem ter sido feitas especialmente para o filme, desde o emocionante Cartola, que sublinha as cenas mais românticas, até o Seu Jorge, com seu suíngue dançante da cena inicial do churrasco.

O sacrifício dos inocentes - Muitos espectadores devem ter ficado chocados, com razão, com a cena de brutalização de duas crianças pequenas, exacerbada pelo fato de que o autor do disparo mortal em uma delas ser ainda uma criança, também violentada pela coerção da qual é vítima por parte dos bandidos mais velhos. Esta cena, porém, tem um significado crucial e representa, paradoxalmente, o momento mais humanista do filme. É porque ela é construída de maneira a evitar, a todo custo, a banalização da morte. As crianças estão ali, contorcendo-se de medo e dor, diante do espectador impotente. Não são bandidos cínicos e cruéis, nem vítimas anônimas. São crianças, frágeis, aterrorizadas, que haviam participado de um assalto tosco de uma padaria, para roubar frango assado, e que não conseguiram fugir dos algozes no momento que eles surgem para cumprir a lei da favela, que não permite assaltos dentro da comunidade. O espectador participa da cena, a qual é recortada do que vem antes e depois, aprofundando o sentido de estranhamento e perplexidade perante o ato irracional, quase inacreditável, que introduz brutalmente, com uma violência de forma perfeitamente ajustada à violência de conteúdo, uma crítica amarga e ferina a uma sociedade indiferene ao destino das primeiras gerações. Com esta cena, o filme rompe por completo certa solidariedade com o público, a qual é retomada contudo nas cenas seguintes. A participação destes guris, o bando da "caixa baixa", será constante no filme e serão eles, inclusive, que ao fim darão cabo ao vilão-mor da história. A narrativa termina com eles confabulando, de maneira infantil, e terrível, sobre quem deverá morrer na favela.

O galã marginal - O personagem Bené, comparsa boa praça de Zé Pequeno, faz parte do instrumental do diretor para forçar o público a uma atitude compreensiva perante o fenômeno do banditismo. Bené é um rapaz bom, um contra-ponto à ferocidade incontrolável do parceiro. É leal, simpático, carinhoso, sabe amar, sabe ser amigo, e o público não o vê em nenhum momento matando alguém, pelo contrário a sua intervenção é sempre no sentido de preservar a vida dos outros. "Você quer matar todo mundo!", é o protesto que ele repete mais de uma vez para Zé Pequeno. A cena do baile - a despedida de Bené - é um dos pontos altos do filme. Bené conquista o amor da musa da história, Angélica, garota de classe média baixa – filha de um sargento -, que lhe convence a abandonar o crime. Bené não é obcecado pelo poder como Zé Pequeno, ele representa a busca da felicidade. Com o dinheiro do tráfico, ele ascende socialmente, ingressando na turma dos "cocotas", usando roupas de marca, pintando o cabelo de loiro, ganhando um charme irresistível que conquista o público. Após construir uma intensa relação afetiva de Bené com o espectador, o roteirista decide matá-lo no auge da festa, provocando um forte efeito dramático. A despedida de Bené, afinal, era mesmo o fim de sua participação na história. Após sua ida, tudo fica mais sombrio na Cidade de Deus. Bené simbolizava o coração de Zé Pequeno. Sem Bené, o bandido vai desenvolver, sem limites, toda a sua crueldade, como fica claro na primeira cena após a morte do amigo, o estupro da namorada de Zé Galinha. A guerra é deflagrada. Temos um combate. Tiros, muitos tiros. Entra o personagem que vende armas, mancomunado com a polícia. Um personagem espetacular, chamado Tio Sam, numa referência interessante ao principal país produtor de armas do mundo, que gasta tanto dinheiro em repressão de drogas, mas é tão tolerante com o contrabando de armas para o terceiro mundo.

O combate - As cenas de combate, todavia, são apressadas, entrando o filme numa etapa um pouco mais descuidada e fantasiosa, o que revela talvez um certo desinteresse do diretor pelas cenas puras de violência, priorizando os dramas pessoais dos personagens. Apesar de apressadas, contudo, são eficientes e transmitem o efeito desejado, de que uma violência caótica e desorganizada se instalou na Cidade de Deus. Os assaltos do bando de Cenoura e Zé Galinha, por outro lado, são magistralmente encenados, embora bastante rápidos. A entrada de Zé Galinha na história, com todos os seus dilemas morais, reforça novamente a idéia de que um destino trágico, mais do que a má índole, força os personagens a romperem com a ordem jurídica e moral da sociedade.

The End - E aí chegamos ao final do longa-metragem, em que se repete algo da cena inicial. Buscapé, já contratado pelo jornal, consegue a foto desejada. Enquanto as crianças desfilam armadas, adultos anônimos cruzam as ruelas, atarefados. Buscapé conversa com seu amigo sobre suas expectativas profissionais. O narrador diz seu nome verdadeiro: Wilson Rodrigues. Os bandidos se perdem no passado, mortos, presos, distantes em sua aventura tresloucada, ou reduzidos a crianças inconsequentes. O personagem de Buscapé ganha realce, é um rapaz inteligente, esforçado e irremediavalmente honesto, como aliás a grande maioria dos moradores da Cidade de Deus, expostos constantemente às maiores privações, mas sempre dispostos a vencer pelo trabalho. Em tempos pós-modernos, em que não julgar, não se posicionar é sinônimo de qualidade estética, Cidade de Deus termina com uma mensagem moralista explícita e corajosa, como tudo neste filme brilhante, que abre tantas perspectivas novas para o cinema brasileiro.

18 de janeiro de 2009

A Gomorra machadiana de Reinaldo Moraes

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"A cabeça do pau ficou presenciando os acontecimentos por cima da cueca".  Abacaxi, Reinaldo Moraes


Existe um egoísmo tão marcante na arte que chega a doer. Quando a gente desfruta uma bela obra, que nos toca particularmente, sentimos um prazer tão intenso, tão singular, e ao mesmo tempo tão incomunicável, que dá a sensação de um segredo estupendo que não podemos contar a ninguém. Como se, após uma semana de sexo animal com Angelina Jolie, não pudéssemos revelar o fato a nenhum amigo, sob pena de torturas excruciantes.

É que a arte, apesar de atingir universalmente a humanidade, se realiza no âmbito individual. O artista cria sozinho e nós, enquanto fruidores, a consumimos solitariamente. Não é por outra razão que a arte é, de longe, o melhor remédio para a solidão e o tédio. Lembro de um personagem de Truffaut que gritava, brigando com sua esposa: "eu não sinto tédio! Eu leio livros!"

Esses pensamentos me vieram à cuca depois de uma tarde lendo Abacaxi, o segundo romance de Reinaldo Moraes. Fez um lindo domingo de sol no Rio, e passei-o na biblioteca do CCBB lendo o romance. Trata-se da continuação da mesma história iniciada em Tanto Faz, primeiro livro do escritor paulistano. O personagem, depois de passar dois anos farreando em Paris, bancado por uma bolsa de estudos, volta ao Brasil. A festa acabou. O patrocínio, c'est fini. Mas ele quer viver os últimos dias de Gomorra em grande estilo e compra uma passagem de volta para o Brasil com escala em Nova York. Com 1.500 dólares no bolso de trás da calça jeans surrada, o personagem aterrisa na fervilhante Manhattan e hospeda-se no apartamento de uma amiga mucho crazy.

Não adianta contar as peripécias vividas pelo personagem. O que apreciei no livro, mais que as histórias, engraçadíssimas, é a forma elegante e enérgica com que Moraes as relata. Mesclando a leveza machadiana com a verve lisérgica de um Bukóswki, Moraes imprime vida ao texto. Ele realiza a utopia de Henry Miller: transforma literatura em vida. Ler Abacaxi não é somente ler um romance, é vivenciar uma experiência fantástica, divertida e, a seu modo, profunda.

É um livro, acho, difícil de encontrar por aí. Por enquanto. Logo logo aparecem outras edições. Se o  encontrar, compre-o. Melhor, use-o. Porque é livro pra ser usado. Usado como remédio, ou antes, como bebida. Ler Abacaxi, como aliás qualquer livro de Moraes, é como beber uma dose de boa vodka num pub escuro, num dia frio e triste de inverno. A vodka desce pelo esôfago e aquece a alma. E nos faz lembrar e reviver os belos dias de uma juventude que nunca tivemos. As belas inesquecíveis eternas loucas madrugadas que deixamos de viver mas que, através da arte e da imaginação, ainda temos a chance de experimentar.

Diante da caretice terrível que predominou nos anos 90, e que só resultou em violência gratuita e no consumo fútil de drogas, diante das utopias mórbidas e tediosas que as passeatas pela paz nos oferecem, a leitura de Moraes nos brinda com a possibilidade de uma paz excitante e jovial, como sempre deveria ser, e uma atitude existencialista perante as drogas infinitamente mais rica e aventurosa. Moraes recupera nossa irresponsabilidade primeva, com a dignidade e autenticidade que somente a paixão pela arte e o respeito pelo amor proporcionam. De maneira que seus textos, que avermelhariam nossos cascudos fariseus até suas faces adquirirem uma cor profundamente sanguínea, quiçá violeta, deveriam ser distribuídos aos jovens pelo Ministério da Educação de um governo futurista e revolucionário. Isso ainda demorará, todavia, e me recuso a usar o advérbio "infelizmente" num resenha sobre Abacaxi. Tudo bem. Ou melhor foda-se. Afinal, como diz Quincas, protagonista do romance, "não há questão que não se resolva com um foda-se bem aplicado".

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PS: Esse link aqui explica tudo.

31 de outubro de 2008

Anotações desvairadas para uma resenha sobre o pintor Helcio Barros

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(Noturno, de Helcio Barros)

Que bicho estranho é o homem! Uns se apegam a gatos, outros alimentam pombos. Compram kits para montar aviões de plástico, instalam rádio-amadores no quartinho dos fundos. Fazem trabalho voluntário em presídios, hospícios e áreas devastadas por fome e guerra. Esgoelam-se e brigam nas ruas por causa de seus times de futebol. Eu me interesso por artes plásticas e literatura. E nos últimos anos tive a honra de conhecer inúmeros artistas plásticos. Tantos que hoje eles são parceiros em diversos empreendimentos - tipo investir no mercado local de bebidas.

Agora que as horas do meu dia se alongaram, pretendo escrever mais sobre artes plásticas. Andei lendo e relendo diversos livros sobre o tema. Li resenhas de Mario Pedrosa, Frederico Moraes, Ronaldo Brito, Rodrigo Naves, e nessa onda de ler resenhas, acabei chegando num homem de cinema, Paulo Emilio, que eu conhecia muito de nome, e por ser o autor do conto que inspirou Ao Sul do meu Corpo, do Sarraceni, um dos filmes mais lindos do cinema brasileiro; e li crônicas deliciosas e eruditas sobre a sétima arte, inclusive uma interessantíssima série sobre Orson Welles da qual falarei mais tarde.

Ainda estou me preparando para escrever o ARTIGO para a Inteligência, mas agora tenho que escrever algo urgente para a edição atual de Manuskripto, então escolhi Helcio Barros, um exímio expressionista abstrato, colorista de primeira linha, que possui ateliê em Santa Teresa, Rio de Janeiro, além de ser meu eventual parceiro de copo nas madrugadas da Lapa.

Desde que resolvi escrever mais textos sobre arte, deparo-me com sérios dilemas. O principal deles é a própria incomunicabilidade escrita da arte visual. Como artista e crítico não-conceitual, os textos sobre arte sempre me pareceram forçados, desagradáveis, indignos. O crítico alinhava chavões em linguagem deleuziana, com vôos forçadamente poéticos, ou envereda por análises pesadas escritas com jargão ultra-especializado, com objetivo único de intimidar leitores e impor respeito aos simplórios que apenas querem apreciar um bom trabalho de arte, seja pintura, objeto, assemblage, técnica mista, aquarela, land art, instalações ou performances.

Houve quem conseguisse escrever maravilhosamente sobre arte. Baudelaire, por exemplo. Mas o livro que mais gosto é o clássico Arte Moderna, de Giulio Carlo Argan. Como transmitir em palavras uma sensação visual? Naturalmente é impossível, então o resenhista busca trilhas alternativas, vai pelos flancos. Sempre é mais fácil discorrer sobre obras e autores consagrados, mortos e consagrados. Mas vamos lá. Os desenhos e pinturas de Helcio Barros nos dissolvem, nos fazem escorrer para um lugar lá embaixo, estranho, um mundo líquido, cruel, cheio de dor. No entanto, sente-se que esse universo de cores destruídas, de seres se decompondo, de céus tortos, ébrios e sombrios, tem amor, tem pensamento, e tem a ansiedade gloriosa da juventude.

Quiçá a crítica de arte seja, portanto, esse processo dilacerante, dilacerado e dilacerador, como a própria arte, mas que, por razões de mercado ou covardia, evita saltar no mesmo abismo para onde a arte se lançou. Então permanece no alto do penhasco, olhar perdido no horizonte, solitária, sem saber que direção seguir. Talvez a arte seja essa renúncia lenta, desesperada, essas linhas e cores inconsequentemente belas, como um pássaro resfolegando na tempestade. Talvez a crítica, a vida, a morte, Antônio Conselheiro, a imprensa conservadora, a revolução tecnológica, não sejam nada mais que variações trágicas dos seres disformes pintados por Helcio Barros.

Confira o site do artista.

http://www.helciobarros.com.br/

E seu blog:
http://www.helciobarros.blogspot.com/

9 de outubro de 2008

Sobre solidão & outros demônios

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À margem de super-produções, os latinos prosseguem fazendo filmes muito bons. Ontem assisti Amorosa Soledad e Acne, o primeiro, dirigido por Martín Carranza e Victoria Galardi, conta a história de uma jovem de Buenos Aires que, após ser abandonada pelo namorado, decide ficar sozinha por uns tempos. A personagem, hipocondríaca e aficcionada por hospitais, tem sua personalidade meticulosamente construída, com vícios, trejeitos, pequenos defeitos e sensibilidades, gerando uma figura muito autêntica, que conquista e com quem o espectador sente afinidade. É um sensível e delicado drama urbano, sobre amor, solidão e sobrevivência em meio à selva de cinismo e cobiça em que vivemos. O filme mostra o quanto o cinema brasileiro, cuja ambição desmesurada o torna às vezes demagógico, histérico, por demais preocupado com prêmios de crítica e resultados comerciais, tem a aprender com as fórmulas simples, humanistas e geniais de nossos hermanos. Acne é outro exemplo interessante, parecido: as angústias sexuas de um adolescente judeu de Montevideo.

Assisti ainda Pachamana, último filme de Eryk Rocha, e posso dizer que se trata de um documentário comovente sobre a realidade política da Bolívia. Deveria ser obrigatório para jornalistas que cobrissem política ou que escrevessem qualquer coisa sobre o vizinho. O filme revela, com singeleza brutal, o cinismo apátrida, ingrato, traiçoeiro e egoísta dos autonomistas de Santa Cruz. Falam em diferenças culturais entre eles e os índios das cordilheiras, dos Andes, afirmando que eles não guardam ressentimentos, que sempre foram amigos dos espanhóis. O filme depois corta para uma visita às minas de prata de Potosi, de onde foram extraídas toneladas de prata e onde pereceram milhões de bolivianos que trabalhavam em condições sub-humanas. Os autonomistas de Santa Cruz fingem não entender a relação direta de sua história e de seu bem-estar econômico com a exploração da prata, primeiro, e do estanho, depois, nas montanhas bolivianas. O filme acendeu-me ódio profundo e abalou novamente minhas convicções de paz, dando-me ganas de defender cacetadas naqueles fascistas safados.

Fatal, filme de Isabel Coixet, com Penelope Cruz e Ben Kingsley, é baseado no romance de Philip Roth, Animal Agonizante. Bem construído, linear e competente, na linha norte-americana, o filme peca porém por falta de densidade narrativa, obviedade dos personagens, e por um final previsível e melancólico.

Doidão (The wackness), filme de Jonathan Levine, levou o disputadíssimo prêmio do Sundance. O roteiro fala de um garoto, recém egresso do segundo grau escolar, que passa o dia vendendo maconha no Central Park, tem pais vivendo uma crise financeira, e faz amizade com um psicanalista (Ben Kingsley) maconheiro e imaturo. É um filme muito bonito sobre a descoberta do sexo e do amor pelo jovem em questão, em contraste à crise do "garotão" de sessenta anos vivida pelo psicanalista.

15 de julho de 2008

Onde os fracos têm vez

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Anatole France dizia que a principal distinção entre homem e animais era a mentira. Não sei se concordo, porque os bichos sabem se disfarçar muito bem. Para mim, o que mais distingue os homens é sua fraqueza. E compreender e até gostar de suas fraquezas. Estou mais com Graciliano Ramos, que não queria livrar-se seus defeitos, porque sem eles, dizia, perderia sua própria personalidade. Lembro essas coisas para falar de uma peça de teatro.

Jornalista revoltado, ególatra, neurastênico, isola-se numa choupana distante da cidade, em busca de sossego. Um amigo o descobre lá e decide fazer uma visita, trazendo uma mala cheia de bebidas. Os dois iniciam um diálogo agressivo, marcado pelos furiosos desabafos do protagonista. Assim resumo personagens e trama de Efeito Urtigão, assinada e interpretada por Mario Bortolotto, com participação do ator Paulo de Tharso.

Marcos - o jornalista - não parece interessado na opinião de Emerson, o amigo. Diz, ou melhor, vocifera, o que pensa com uma franqueza brutal. O amigo está lá, atento. Vê-se, pelas caretas, que não aprova algumas coisas, mas entende tudo. Um dos elementos bonitos da peça é justamente essa compreensão. Que também é do espectador. O amigo de Marcos também somos nós, que ouvimos, divertidos, suas invectivas absurdas, ou nem tanto, tristemente sérias, hilariamente estapafúrdias.

O autor trabalha com muitos silêncios e uma trilha sonora extremamente precisa. Silêncio, olhares, discretas expressões faciais - realizando um teatro com notória influência do cinema, conforme o próprio autor reconhece. Com isso, faz um teatro dinâmico, moderno, sem cacoetes espetaculares ou circenses.

- Me diz o nome de uma só pessoa que gosta de você! Me dá um nome! Um só! - diz Marcos, desafiando o amigo (a citação é de memória, não literal). E aí temos outro elemento importante da peça: o afeto. Ou a falta de. A grande amargura, e também a grande liberdade, de Marcos é a ausência de afetos. Não tem amigos. Ou achava que não. Por isso a visita o perturba tanto. O amigo quer fazer uma reportagem sobre Marcos e sua vida de "Urtigão", o inesquecível personagem de Walt Disney. Eis um ponto engraçado: Marcos quer se comparar a Hunter Thompson, o fundador do jornalismo gonzo, que encerrou seus dias isolado num rancho, atirando nos raros e imprudentes visitantes. Mas Emerson prefere equipará-lo a um antipático caipira, que também perseguia, a tiros, os incautos intrusos.

Amizade, revolta e solidão. Eis os elementos centrais desse belo trabalho de Bortolotto, que aprendeu a fazer arte com os mil defeitos e fraquezas que nos fazem tão absurdos, patéticos - e surpreendentes.




PS: Neste final de semana, Bortolotto volta ao Rio com Kerouac, peça que ainda não assisti, mas da qual tenho excelentes referências. No teatro Ziembiski, de sexta a domingo.