"Você não pode chamar alguém com quem quer negociar de 'eixo do mal'. Imagine que você brigou com sua mulher, que quer reatar ou até mesmo se divorciar, mas em termos amistosos. Mas aí, no começo da conversa, você a chama de 'prostituta'. Os EUA fizeram isso com a Coreia do Norte, então queimaram toda possibilidade de diálogo."
Por João Villaverde
A análise acima é de Paik Hak-soon, cientista político da Coreia do Sul, entrevistado pelo repórter Raul Juste Lores, da Folha.
George W. Bush, quando candidato pelo partido Republicano nas eleições de 2000, já mostrava - ao dizer o que pensava sobre diversas questões - ser altamente conservador. Seu conservadorismo, exemplificado dia a dia durante seus 8 anos de governo, era rancoroso e rançoso. Especialmente a partir do 11 de setembro de 2001, quando Bush ganhou o mote que elevou sua popularidade às alturas, o governo americano instituiu um "novo" modelo.
Passara a usar todo o poder hegemônico - a teoria de conquistar corações e mentes - lapidado ao longo do governo Clinton (muito ajudado, bom que se lembre, pela decadência formal do contraponto ideológico simbolizado pelos soviéticos) como agulha, ou bala, para exercer seu poder de dominação. O que Bush e seus lacaios - a turma que o aparelhava no governo - queriam (e em boa parte fizeram) era forçar o mundo a engolir a supremacia americana.
A supremacia militar, a supremacia ideológica, a supremacia cultural, a supremacia do dólar (econômica e financeira).
Em termos de política externa, Clinton praticara uma política de inteligência de não agressão e persuasão. Tinha o momento histórico ao seu lado, bem como sua posição de negociação. Exercia todo a supremacia dos Estados Unidos de uma forma igualmente unilateral, mas fazia parecer consensual. Havia consenso, mas era um consenso conquistado pela diplomacia e validado pela ideologia. Era hegemônico no sentido stricto senso, ou, melhor dizendo, gramsciano.
Bush jogou tudo isso no lixo.
Estrategicamente falando, foi ruim inclusive para os americanos. Eles perceberam isso no ano passado, quando a disputa pelo cargo de presidente foi evidenciada por dois críticos de Bush. Não apenas o candidato democrata - rival político direto - mas também John McCain, a opção republicana, pertencia a ala mais moderna do partido (mesmo McCain sendo o candidato com idade mais avançada a ter disputado uma eleição).
O moderno, compreendido com um atraso indesculpável pela sociedade americana, é entender as diferenças - todas elas - e prezar pelo poder interminável das negociações.
O governo George W. Bush não era, sob nenhum ponto de vista, moderno.
Ao optar pela guerra, por ignorar a existência dos outros, exemplificada pelo desleixo e mal trato para com a Organização das Nações Unidas (ONU) em 2003 e 2004, e pelo apoio a grupos políticos em outras nações, exemplificados pela direitização israelense vivida no período e o malfadado golpe de Estado ocorrido na Venezuela em 2002, o governo Bush sacramentou as mentes e corações neste início de século XXI.
Bush demonizou Chávez, o Irã, a Coreia do Norte, e os "terroristas" do Hizbollah e do Hamas. (Re)criou-se o maniqueísmo do "conosco ou contra nós". Dos bonzinhos (americanos e seus parceiros) contra os bandidos (os demonizados citados acima).
Hoje a irracionalidade belicista parece irrefreável no Oriente Médio, na Europa Oriental e na Coreia do Norte. E não existem sinais de que isso seja bom para ninguém, como dizia o slogan martelado pelos americanos nos últimos oito anos.
O maior abacaxi que a nova administração dos Estados Unidos herdou não é a crise - que pode ser debitada igualmente na conta de ambas ideologias partidárias dominantes, uma vez que boa parte das medidas de liberalização financeira foram feitas sob os democratas nos anos 90. O verdadeiro abacaxi herdado é o desrespeito ao resto do mundo.
O governo Obama terá de lembrar a todos que do seu país também nascem negociadores, não apenas cowboys.
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12 de maio de 2009
A Coreia do Norte e Bush - a crônica do século XXI
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terça-feira, maio 12, 2009
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13 de abril de 2009
Lambanças policiais
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Por João Villaverde
O corregedor Amaro Vieira Ferreira, da Polícia Federal, foi indicado tempos atrás como relator do inquérito interno da PF para averiguar a conduta do delegado Protógenes Queiroz durante a Operação Satiagraha. O inquérito de Amaro vem gerando uma farra desnecessária: ele ainda não terminou suas investigações, mas trechos mil já foram vazados. Detalhe: o inquérito nasceu para investigar o vazamento e suposto favorecimento da Satiagraha à TV Globo, que foi a única empresa de comunicação a conseguir imagens dos presos pela Satiagraha, no dia 08 de julho do ano passado.
Quer dizer, uma situação ridícula se desenhou: o inquérito do vazamento foi vazado.
Mais que isso, o corregedor Amaro pratica uma série de ilações em seu relatório (que, de tão vazado, pode ser lido clicando aqui). Ao invés de investigar e apurar o suposto vazamento de Protógenes - que nada influi no resultado da Satiagraha, bom lembrar - o corregedor Amaro prefere atacar e desqualificar Protógenes - aí sim, numa tentativa de anular os efeitos da Satiagraha.
Num dos trechos, Amaro afirma que a participação de agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ao lado de funcionários da Polícia Federal durante a Operação Satiagraha foi ilegal. Segundo o corregedor, os servidores da Abin foram "introduzidos e mantidos clandestinamente" nos trabalhos da operação "por iniciativa de Protógenes", sem autorização judicial ou formalização.
Detalhe importante: a Abin e a Polícia Federal pertencem a algo mais amplo: o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). E segundo prevê a legislação que rege os princípios do Sisbin, os agentes da inteligência brasileira - Polícia Federal e Abin - podem participar de operações de ambas instituições e essa ajuda não necessita de autorização judicial ou mesmo de formalização. Enquanto a Abin e a Polícia Federal tem prerrogativas e trabalhos distintos, seus objetivos são os mesmos e algumas práticas operacionais são semelhantes. Ou seja, a participação de agentes de uma instituição em operações e tarefas da outra não é, de maneira alguma, ilegal.
Ao invés de inquerir ou averiguar, o delegado Amaro está desvirtuando seu papel de corregedor, preferindo atacar um delegado de sua instituição, a PF, e o próprio Sisbin.
O mais grave disso tudo é que ninguém discute nada. Só o que vemos é a repercussão do inquérito (vazado) de Amaro, como se aquele conjunto de ilações fossem todos verdadeiros. Fica uma situação engraçada: quando tiveram acesso aos relatórios de Protógenes, foram logo procurando erros e atacando o delegado, acusando a Abin e perseguindo o juiz federal. Já o inquérito (vazado) da corregedoria da mesma PF é tido como indiscutível, como verdade verdadeira. Nessa jogatina de interesses, a mesma instituição - a Polícia Federal - passa de incompetente a super inteligente em questão de meses.
O que incomoda é que não é preciso muito trabalho ou pesquisa para discutir o inquérito (vazado) do corregedor Amaro. Não precisa conhecer o regimento interno da PF, da Abin, a constituição do Sisbin ou mesmo a legislação brasileira. Precisa apenas pegar o telefone, ligar para alguém que conheça e fazer uma pergunta:
"Abin e PF, é ilegal?"
- Não, não é.
Pronto, acabou.
O corregedor Amaro Vieira Ferreira, da Polícia Federal, foi indicado tempos atrás como relator do inquérito interno da PF para averiguar a conduta do delegado Protógenes Queiroz durante a Operação Satiagraha. O inquérito de Amaro vem gerando uma farra desnecessária: ele ainda não terminou suas investigações, mas trechos mil já foram vazados. Detalhe: o inquérito nasceu para investigar o vazamento e suposto favorecimento da Satiagraha à TV Globo, que foi a única empresa de comunicação a conseguir imagens dos presos pela Satiagraha, no dia 08 de julho do ano passado.
Quer dizer, uma situação ridícula se desenhou: o inquérito do vazamento foi vazado.
Mais que isso, o corregedor Amaro pratica uma série de ilações em seu relatório (que, de tão vazado, pode ser lido clicando aqui). Ao invés de investigar e apurar o suposto vazamento de Protógenes - que nada influi no resultado da Satiagraha, bom lembrar - o corregedor Amaro prefere atacar e desqualificar Protógenes - aí sim, numa tentativa de anular os efeitos da Satiagraha.
Num dos trechos, Amaro afirma que a participação de agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ao lado de funcionários da Polícia Federal durante a Operação Satiagraha foi ilegal. Segundo o corregedor, os servidores da Abin foram "introduzidos e mantidos clandestinamente" nos trabalhos da operação "por iniciativa de Protógenes", sem autorização judicial ou formalização.
Detalhe importante: a Abin e a Polícia Federal pertencem a algo mais amplo: o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). E segundo prevê a legislação que rege os princípios do Sisbin, os agentes da inteligência brasileira - Polícia Federal e Abin - podem participar de operações de ambas instituições e essa ajuda não necessita de autorização judicial ou mesmo de formalização. Enquanto a Abin e a Polícia Federal tem prerrogativas e trabalhos distintos, seus objetivos são os mesmos e algumas práticas operacionais são semelhantes. Ou seja, a participação de agentes de uma instituição em operações e tarefas da outra não é, de maneira alguma, ilegal.
Ao invés de inquerir ou averiguar, o delegado Amaro está desvirtuando seu papel de corregedor, preferindo atacar um delegado de sua instituição, a PF, e o próprio Sisbin.
O mais grave disso tudo é que ninguém discute nada. Só o que vemos é a repercussão do inquérito (vazado) de Amaro, como se aquele conjunto de ilações fossem todos verdadeiros. Fica uma situação engraçada: quando tiveram acesso aos relatórios de Protógenes, foram logo procurando erros e atacando o delegado, acusando a Abin e perseguindo o juiz federal. Já o inquérito (vazado) da corregedoria da mesma PF é tido como indiscutível, como verdade verdadeira. Nessa jogatina de interesses, a mesma instituição - a Polícia Federal - passa de incompetente a super inteligente em questão de meses.
O que incomoda é que não é preciso muito trabalho ou pesquisa para discutir o inquérito (vazado) do corregedor Amaro. Não precisa conhecer o regimento interno da PF, da Abin, a constituição do Sisbin ou mesmo a legislação brasileira. Precisa apenas pegar o telefone, ligar para alguém que conheça e fazer uma pergunta:
"Abin e PF, é ilegal?"
- Não, não é.
Pronto, acabou.
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segunda-feira, abril 13, 2009
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12 de março de 2009
Collor e Dantas
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Por João Villaverde
Pesquisando sobre a imprensa escrita e a candidatura de Fernando Collor de Mello à presidência do Brasil, em 1989, me deparei com reportagem da revista IstoÉ, edição de 07 de março de 1990, sobre a futura ministra da Economia, Zélia Cardoso.
Como se sabe, Collor fora eleito presidente no finzinho de dezembro de 1989. Em seguida, viajou à Europa para festas de fim de ano e começou a discutir nomes para pôr seu projeto de "modernizar o Brasil" em prática. Graças aos mecanismos costurados pelo presidente José Sarney durante a Constituinte (1987-88), Collor assumiria ainda sob a regra antiga: no dia 15 de março. Até lá, nos primeiros 2 meses e meio de 1990, o presidente ainda era Sarney.
Collor viajava, conversava, pensava, costurava, escolhia, definia. Ao longo de janeiro e fevereiro, definiu os últimos nomes. Entre eles, o de Zélia como ministra da Economia (o nome anterior da pasta, Fazenda, tinha sido abolido, dentre outras mudanças cosméticas). Com isso - e com a hiperinflação destruindo o poder de compra dos salários - era importante conhecer a futura ministra.
Daí que a IstoÉ, sete dias antes da posse do novo presidente e da ministra Zélia, produz reportagem recontando a vida, a carreira e as negociações em torno de Zélia. Na capa, ela aparece olhando para cima, com feição esperançosa, com a manchete, em letras grandes, logo abaixo de seu rosto: "Confiante em Deus". Transcrevo a seguir, trechos da reportagem da revista.
Até este ponto, a matéria contava que Collor já decidira sobre boa parte de seu ministério, faltando ainda o nome da economia. O mais conhecido, dentre os apontados, era Mario Henrique Simonsen.
Ficaram faltando para a unanimidade, do lado dos que apoiaram Collor, O Globo e o favorito de O Globo, o ex-ministro Mário Henrique Simonsen - derrotado, segundo a versão do próprio jornal, porque radicalizou numa conversa com o presidente eleito a respeito da dívida externa. Simonsen, que é do board do nosso maior credor, o Citibank, não aceita a ideia de que o governo brasileiro retire seu aval na parcela da dívida que a União não contraiu diretamente.
Nesse sentido, aponta a reportagem da IstoÉ, Collor preferia uma linha semelhante a de Dilson Funaro, ministro da Fazenda de Sarney (o segundo, responsável pelo Plano Cruzado), que decretou a moratória da dívida externa. A reportagem segue:
Mas o candidato de O Globo pode ter se desgastado à toa, já que a ministra indicada não toca mais, publicamente, naquela promessa de campanha. Após o anúncio, Simonsen ficou quieto. O Globo, na sua ânsia de nomeação, noticiava, em janeiro, na companhia de seu rival Jornal do Brasil, um convite feito por Collor a Simonsen, durante encontro que, pelo que diziam os dois matutinos, ocorreu na exata hora em que o presidente eleito estava rigorosamente impossibilitado de pronunciar qualquer convite - Collor encontrava-se diante da broca de seu dentista, lá mesmo, no Rio de Janeiro. O episódio pulverizou as últimas esperanças dos cariocas de emplacarem o ministro da Economia - e consolidou uma vitória que começou a se desenhar na chamada batalha de Roma.
Tão logo se refugiou da tensão da campanha, na Europa, na passagem de ano, seu influente ex-sogro, Joaquim Monteiro de Carvalho, o interceptou na capital italiana, tendo a tiracolo o economista Daniel Dantas, funcionário gradualíssimo do banqueiro Antônio Carlos de Almeida Braga e outro ministeriável da facção Rio. Collor percebeu o perigo e imediatamente convocou Zélia a Roma.
Dantas, 35 anos, administrador da Icatu Participações - a holding que coordena os negócios de Almeida Braga - dispunha da torcida aberta do chefe, dos Monteiro de Carvalho, do dr. Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, e do ex-ministro Simonsen. Tinha muitas ideias na cabeça e uma franca disposição a divulgá-las na imprensa. Como eram bastante recessivas, provocaram reações dos sindicatos e deram a chance que Collor esperava: despachou Dantas para uma posterior conversa com Zélia, em São Paulo.
Dias depois, já de volta ao Brasil, Collor confidenciou que Dantas era 'um administrador de fortunas e o Brasil, um país de misérias'. Naquele momento, Zélia talvez ainda não estivesse escolhida - mas Collor deixava claro que tampouco era carta fora do baralho.
- A matéria da IstoÉ não foi assinada. O diretor de Redação era Mino Carta.
- Collor acabaria escolhendo Zélia, e, juntos, baixaram o Plano Collor, no dia seguinte à posse do presidente. O Plano, entre outros pontos trágicos, continha o confisco da poupança. A economia brasileira foi lançada em grave recessão ao longo de 90, 91 e 92. Zélia seria trocada, em 1991, por Marcílio Marques Moreira, o homem que instituiu o regime de taxas de juros explosivas no Brasil. Collor sofreu o impeachment, no fim de 1992.
- Daniel Dantas continuou no Icatu até 1993/94, quando fundou seu próprio negócio, o banco Opportunity, se embrenhando na mais obscura aventura empresarial do Brasil moderno, a partir da privatização da Telebrás, em 1998.
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quinta-feira, março 12, 2009
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2 de março de 2009
Rápida reflexão sobre a excelente telefonia brasileira
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A partir dos anos 80, no longo processo de reforma do modelo varguista de desenvolvimento no Brasil, uma das ideias defendidas com mais ênfase era a privatização da telefonia. Essa ideia foi ganhando massa crítica entre os acadêmicos - majoritariamente de Economia e Administração do eixo Rio-São Paulo - que retornavam com mestrados e doutorados de escolas americanas. Por aqui, esses intelectuais passaram a ocupar cada vez mais espaços estratégicos.
Aos poucos ocuparam a imprensa, ora como fonte, mais à frente como articulistas. Depois, passar a altas posições em grandes empresas. Finalmente, foram ocupando espaços executivos no governo. Nos anos 90, seguindo um processo que se dava em toda a América Latina, o discurso de "inserir o país na modernidade, enxugando o Estado, fortalecendo a iniciativa privada" foi colocado em prática.
A ideia de privatizar a telefonia foi então colocada em prática.
O objetivo do modelo privatizado, conforme se apregoava, seria obter a universalização do acesso às telecomunicações (basicamente, ao sistema de telefonia), por meio de empresas concessionárias que operariam em um mercado concorrencial e competitivo. Adicionalmente, não se deveria esquecer de assegurar o desenvolvimento industrial e tecnológico do país. O argumento principal era de que a concorrência iria conduzir à universalização, sem prejuízo para o desenvolvimento industrial e tecnológico.
Para verificar se todo esse discurso bonitinho valeu a pena ou não é preciso, portanto, medir o que foi alcançado em temos de universalização, competição e desenvolvimento industrial.
Pois hoje, segunda-feira 02 de março, a seguinte nota publicada na Folha Online exemplifica um pouco todo aquele processo de passar os serviços de telecomunicação das mãos do Estado para as mãos das empresas privadas. A matéria pode se lida clicando aqui.
A ONU divulgou hoje estudo que apresenta informações sobre os serviços de telefonia e internet em 150 países. O Brasil aparece entre os 40 em que o uso de telefones fixos e celulares consome a maior fatia da renda per capita.
Tomando como referência o preço de um pacote básico, a União Internacional de Telecomunicações (UIT) chegou à conclusão de que o uso do celular no Brasil é um dos mais caros, consumindo o equivalente a 7,5% da renda média per capita do país. Numa escala crescente de custo, o país ocupa a 114ª posição. A telefonia fixa morde uma fatia menor da renda do brasileiro (5,9%), mas também coloca o país entre os últimos, no 113º lugar.
A internet de banda larga, considerada pela UIT importante ferramenta para o desenvolvimento econômico, tem um preço elevado no Brasil. De acordo com o estudo, seu custo mensal equivale a 9,6% da renda média per capita brasileira. E lembrem-se, na momento da reflexão, que nossa renda é baixa. Somos um país de Terceiro Mundo, bom lembrar. Essa realidade foi totalmente ignorada quando se passou os serviços de telecomunicações para mãos privadas.
Em seu seminal "A Lógica do capital-informação", o pesquisador Marcos Dantas, doutor em Engenharia da Produção pela Coppe-UFRJ, foi enfático: "o modelo que se construiu e tentou implantar nas telecomunicações brasileiras está errado. Está errado porque ignorou a realidade. A conhecidíssima má distribuição de renda brasileira foi completamente ignorada na hora em que o governo Fernando Henrique Cardoso definiu as características básicas do seu modelo para as telecomunicações".
Qualquer análise isenta e desinteressada apontaria para a incapacidade (sem falar na falta de vontade) de o investimento privado lograr superar nossas barreiras de renda, liderando assim um programa destinado a democratizar a telefonia no Brasil.
"A experiência internacional anterior a 1998 (quando se deu a privatização da Telebrás no Brasil) permitia afirmar que em nenhum lugar do mundo a concorrência democratizou as telecomunicações. Pelo contrário: nos (poucos) países onde a telefonia fora de fato universalizada, isso ocorreu por meio de monopólios públicos. Mais: antes dos leilões da Telebrás, também se sabia muito bem que o espaço para a concorrência nas telecomunicações se limita, quando muito, ao chamado mercado corporativo e ao familiar de alta renda. O governo dispunha de levantamentos feitos por empresas de consultoria contratadas pelo BNDES, confirmando que o mesmo se repetiria no Brasil. "
Não há pois surpresa no fato de a concorrência não ter vingado no conjunto do setor. Aliás, nada relacionado a péssima experiência de telefonia privada no Brasil deveria surpreender.
Ao contrário. Deveria fazer pensar.
A partir dos anos 80, no longo processo de reforma do modelo varguista de desenvolvimento no Brasil, uma das ideias defendidas com mais ênfase era a privatização da telefonia. Essa ideia foi ganhando massa crítica entre os acadêmicos - majoritariamente de Economia e Administração do eixo Rio-São Paulo - que retornavam com mestrados e doutorados de escolas americanas. Por aqui, esses intelectuais passaram a ocupar cada vez mais espaços estratégicos.
Aos poucos ocuparam a imprensa, ora como fonte, mais à frente como articulistas. Depois, passar a altas posições em grandes empresas. Finalmente, foram ocupando espaços executivos no governo. Nos anos 90, seguindo um processo que se dava em toda a América Latina, o discurso de "inserir o país na modernidade, enxugando o Estado, fortalecendo a iniciativa privada" foi colocado em prática.
A ideia de privatizar a telefonia foi então colocada em prática.
O objetivo do modelo privatizado, conforme se apregoava, seria obter a universalização do acesso às telecomunicações (basicamente, ao sistema de telefonia), por meio de empresas concessionárias que operariam em um mercado concorrencial e competitivo. Adicionalmente, não se deveria esquecer de assegurar o desenvolvimento industrial e tecnológico do país. O argumento principal era de que a concorrência iria conduzir à universalização, sem prejuízo para o desenvolvimento industrial e tecnológico.
Para verificar se todo esse discurso bonitinho valeu a pena ou não é preciso, portanto, medir o que foi alcançado em temos de universalização, competição e desenvolvimento industrial.
Pois hoje, segunda-feira 02 de março, a seguinte nota publicada na Folha Online exemplifica um pouco todo aquele processo de passar os serviços de telecomunicação das mãos do Estado para as mãos das empresas privadas. A matéria pode se lida clicando aqui.
A ONU divulgou hoje estudo que apresenta informações sobre os serviços de telefonia e internet em 150 países. O Brasil aparece entre os 40 em que o uso de telefones fixos e celulares consome a maior fatia da renda per capita.
Tomando como referência o preço de um pacote básico, a União Internacional de Telecomunicações (UIT) chegou à conclusão de que o uso do celular no Brasil é um dos mais caros, consumindo o equivalente a 7,5% da renda média per capita do país. Numa escala crescente de custo, o país ocupa a 114ª posição. A telefonia fixa morde uma fatia menor da renda do brasileiro (5,9%), mas também coloca o país entre os últimos, no 113º lugar.
A internet de banda larga, considerada pela UIT importante ferramenta para o desenvolvimento econômico, tem um preço elevado no Brasil. De acordo com o estudo, seu custo mensal equivale a 9,6% da renda média per capita brasileira. E lembrem-se, na momento da reflexão, que nossa renda é baixa. Somos um país de Terceiro Mundo, bom lembrar. Essa realidade foi totalmente ignorada quando se passou os serviços de telecomunicações para mãos privadas.
Em seu seminal "A Lógica do capital-informação", o pesquisador Marcos Dantas, doutor em Engenharia da Produção pela Coppe-UFRJ, foi enfático: "o modelo que se construiu e tentou implantar nas telecomunicações brasileiras está errado. Está errado porque ignorou a realidade. A conhecidíssima má distribuição de renda brasileira foi completamente ignorada na hora em que o governo Fernando Henrique Cardoso definiu as características básicas do seu modelo para as telecomunicações".
Qualquer análise isenta e desinteressada apontaria para a incapacidade (sem falar na falta de vontade) de o investimento privado lograr superar nossas barreiras de renda, liderando assim um programa destinado a democratizar a telefonia no Brasil.
"A experiência internacional anterior a 1998 (quando se deu a privatização da Telebrás no Brasil) permitia afirmar que em nenhum lugar do mundo a concorrência democratizou as telecomunicações. Pelo contrário: nos (poucos) países onde a telefonia fora de fato universalizada, isso ocorreu por meio de monopólios públicos. Mais: antes dos leilões da Telebrás, também se sabia muito bem que o espaço para a concorrência nas telecomunicações se limita, quando muito, ao chamado mercado corporativo e ao familiar de alta renda. O governo dispunha de levantamentos feitos por empresas de consultoria contratadas pelo BNDES, confirmando que o mesmo se repetiria no Brasil. "
Não há pois surpresa no fato de a concorrência não ter vingado no conjunto do setor. Aliás, nada relacionado a péssima experiência de telefonia privada no Brasil deveria surpreender.
Ao contrário. Deveria fazer pensar.
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1 de fevereiro de 2009
Considerações sobre auto-confiança e outros assuntos
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Se escrever tem seu preço, fazê-lo num blog tem um preço maior ainda. Alimentar um blog que aborda questões políticas, então, custa caríssimo. Política envolve conhecimentos gerais, intuição, curiosidade, bom senso, sensibilidade, o que não se aprende em nenhum lugar específico. Não se pode saber tudo. Não se pode ler tudo. Aliás, este é um problema interessante que a humanidade está tendo que enfrentar: o excesso de informações, em vez de estimular o debate, silencia-o. Se eu começo a debater sobre agricultura, outro me lança compêndios de duas toneladas sobre o assunto e declara que, se eu não os ler, não posso debater. Não concordo. O conhecimento não está nos livros, e sim na consciência humana. Os livros nos ajudam a construir o conhecimento, mas o processo de dominar e produzir conhecimento se dá na intimidade da alma, e não na frieza do papel.
Esse problema é muito comum na literatura. A produção literária da humanidade, nos últimos três mil anos, foi tão intensa, em todos os países, que é, naturalmente, impossível ler tudo. É impossível ler todos os clássicos. É impossível ler todos os modernos. De maneira que também é impossível estabelecer um cânone para a leitura, e parece-me pedantismo boçal o desprezo blasé com que alguns escritores, às vezes muito jovens, tratam os pobres "mortais" que não conhecem este ou aquele autor iuguslavo. Ora, sou obrigado a ler esse autor iugoslavo? Não posso continuar tranquilo, na minha casa, estudando latim e tentando ler a Ilíada no original? Não acho que me tornarei mais inteligente que os outros por causa de minhas leituras. Não acho que os outros sejam diferentes de mim por causa delas. Elas são importantes para mim, só para mim, talvez sejam para outros, não sei, não me importa. Não estou nem certo de que elas me ajudarão a escrever melhor. Acho que o talento para escrever bem independe de se ler Homero, no original ou não. Independe também de se conhecer ou não este ou aquele Nobel de 1997. Escrever é um ato de intuição. Você tem que ler livros, muitos, para escrever bem, é claro, mas você escreverá bem porque você tem talento e estudou a técnica de escrita, e não porque leu aqueles livros.
*
Entretanto ainda não abordei o assunto que me fez vir aqui. Queria falar sobre a irritação que sinto pairar, entre os internautas, contra blogueiros como eu, que discorrem sobre qualquer assunto com aparente segurança. "Esse jovem tem muita certeza sobre aquilo que escreve", devem pensar uns. "Ele acha que sabe tudo", outros.
Bem, que posso responder? Acho que a melhor resposta é lembrar que um texto de blog não é, nem se pretende ser, uma tese acadêmica ou científica. Ainda mais se tratando de textos políticos. Eu defendo minhas idéias com ênfase, e procuro demonstrar segurança, porque acho que, se as pessoas eventualmente ficam irritadas com um texto confiante "em demasia", ficariam ainda mais com outro deliberadamente inseguro, cheio de não-me-toques, recuos, desculpas, e auto-defesas.
A partir do momento em que me propus escrever diariamente no blog, em que decidi me profissionalizar como blogueiro, eu tenho que me arriscar. Carece coragem, muita coragem, dizia Diadorim a Riobaldo. Eu já declarei isso um milhão de vezes: estou pronto para errar. Mas tombo lutando.
As idéias, afinal, não correspondem somente a fatos. Essa é uma visão mesquinha do mundo das idéias e da política, que leva muita gente bem intencionada a discriminar pessoas que se engajam em defesas ou ataques destas ou aquelas teses. As idéias correspondem a forças, a desejos primevos, àquela vontade, essência do mundo, de que fala Schopenhauer. É algo próximo à idéia de Deus. O que defendemos, portanto, mesmo as idéias erradas, têm um sentido, porque corresponde a uma corrente de forças. Explico melhor: é impossível que um sistema político ou ideológico qualquer seja perfeito, que não apresente, em diversos pontos, falhas graves. Estas falhas, por sua vez, serão denunciadas pelos defensores do sistema adversário. Eles tentarão ampliar essas falhas, dar-lhes uma importância fundamental, para desacreditar todo o sistema. O resultado é lindo: o sistema procura se corrigir, de maneira a não ser mais atacado por aquele lado. Isso é filosofia. Os sistemas adversários, ao se atacarem, se ajudam. Para isso, porém, o sistema precisa ter auto-crítica e estar aberto para se auto-corrigir. Não pode ser sectário. Essa é a explicação para a força do presidente Lula. Atacado diariamente pela imprensa, ele está sempre procurando se corrigir, e daí se torna mais forte. O ditado popular (onde, segundo os filósofos, ocultam-se grandes verdades) já diz: o que não nos mata, nos deixa mais fortes.
Por isso confio que o Brasil, com mídia golpista e tudo, irá superar as dificuldades. O golpismo da midia, ao cabo, também possui um sentido político, que é enfraquecer a própria mídia. Há um verso no Alcorão que diz: quando Deus quer destruir um império, ele enlouquece seus líderes. Aplico isso à nossa imprensa. Com seu sectarismo, a mídia, além de não conseguir mais eleger seus candidatos, vem perdendo credibilidade e, com isso, ajudou a amplificar a blogosfera. Não houvesse uma mídia tão golpista e reacionária, a blogosfera progressista, anti-midiática, não se expandiria de maneira tão rápida e avassaladora. Observem que isso não ocorre apenas no Brasil. Também nos Estados Unidos há uma mídia reacionária. Não é golpista como a brasileira, mas é reacionária. Lá também a blogosfera literamente explodiu, e explodiu a mídia. Enquanto o New York Times, à beira da falência, se oferece promiscuamente para ser comprado por Carlos Slim, um bilionário mexicano famoso por sua corrupção (é o Daniel Dantas do Caribe, ficou rico com a privatização do sistema telefônico mexicano), o blog Hufting Post desfruta de lucro líquido de alguns milhões de dólares por mês.
*
Enfim, é sempre mais fácil não defender nada. Ficar em cima do muro. Creio, todavia, que este blog seria mais do que enfadonho se eu agisse assim. Seria covarde. O caso Battisti é um exemplo. Não simpatizo nenhum pouco com esse cara. Mas a sanha para prender um barnabezinho da ultra-esquerda, por crimes cometidos há mais de trinta anos, me parece legitimar ainda mais a defesa da decisão de lhe conceder refúgio político.
Ocorre, mais uma vez, uma guerra de informação e contra-informação. É aquela velha história do jornalista para o qual pediram para escrever um artigo sobre Jesus Cristo. "A favor ou contra?", respondeu. Sim, o papel, ou melhor, o computador, aceita qualquer coisa, e pode-se recolher argumentos para qualquer tese. Mino Carta decidiu-se que o homem deveria apodrecer numa cadeia da Itália. Outros acham que não. Mino reage esnobando do Brasil. Criticam-no por isso e ele se defende falando que a Itália tem tribunais de dois mil anos, a legislação mais antiga do mundo, etc, como se isso significasse alguma coisa. Então, o fato do Brasil ou os Estados Unidos terem pouco mais de 500 anos de existência nos tornam mais atrasados, juridicamente, do que a Itália?
Mino colheu a ficha policial de Battisti, mostrando-o como ladrãozinho, e inclusive com uma acusação sinistra de ter abusado, ainda bem jovem, de uma doente mental. Ora, aí o caso virou literatura! Vai saber em que confusão um jovem de 19 anos se meteu! Vai saber que juiz ou policial fascista escreveu essas linhas? Não? Eu estou viajando? É impossível que existam fascistas na Itália, Mino? Não temos juízes e policiais fanaticamente anti-comunistas que acusariam Battisti, comunista de berço (seu pai já o era), de qualquer coisa? Um ministro italiano disse que os italianos não deveriam vir ao Brasil, já que há terroristas soltos nas ruas. Ora, Battisti leva uma vida pacata há trinta anos! De fato, o governo que condenou Battisti era uma composição política de centro, com participação dos socialistas. Quem conhece a Itália, porém, sabe muito bem que as coisas não são tão simples. Para se afirmarem, os socialistas tiveram que aceitar a crucificação dos grupos radicais. O jurista brasileiro Dalmo Dallari conta que foi montado um tribunal de exceção sim, e os acusados não tiveram o direito de defesa. O senador Eduardo Supplicy, escritores, intelectuais, cineastas, gente do mundo inteiro vem defendendo a inocência de Battisti. A decisão de Tarso Genro não foi uma loucura isolada do governo Lula. A tese da inocência ou de falhas do processo que lhe condenou vem sendo corroborada por intelectuais de renome. Houve abaixo-assinados em favor de Batistti. E ele não pagou ninguém.
Minha tese é a seguinte. Digamos que ele, de fato, seja culpado. Ele alega inocência, mas todo criminoso sempre faz isso. Digamos, portanto, que ele, de fato, tenha assassinado duas pessoas e tenha sido co-responsável pela morte de outras duas. Bem, para que o Estado italiano quer prendê-lo, trinta anos depois? Para fazer justiça? O conceito de justiça, no Brasil, quer dizer, a concepção do regime carcerário no Brasil, em teoria, não corresponde a um desejo vindicativo do Estado. Em tese (e bota tese nisso), os condenados perdem a sua liberdade para que o Estado tenha a chance de reabilitá-los para a sociedade. Temos uma Constituição bastante liberal. Nesse sentido, também sou liberal. Defendo um Estado forte, com programas sociais vastos e com sistemas de saúde e educação universais e gratuitos, mas ultraliberal na hora de condenar um indivíduo. Não acredito que um regime carcerário duro resolva as coisas. Acredito sim num regime carcerário moderno, que ofereça oportunidades reais para o preso mudar de vida. Os direitistas lerão isso e logo dirão: "Ih, o carinha quer passar a mão na cabeça de bandido! Queria ver se a filha dele fosse estuprada, para ver se ele continuava assim! Tomara que ele leve um tiro na cabeça, e não morra, fique vegetativo por 20 anos, para ver se aprende!" O que esses tarados não percebem, porque são burros, é que os estados mais conservadores dos Estados Unidos, possuem prisões com cursos, oficinas. São limpas, ordenadas, decentes. Em San Quentin, a maior prisão da Califórnia, ocorriam shows de rock regularmente. Jonnhy Cash, depois de alguns anos de ostracismo, voltou à ativa dando um show em San Quentin.
Então, seguindo esta linha de raciocínio, a sanha da Itália em prender Battisti, trinta anos depois, um senhor de idade, sem posses, que vive pacatamente e humildemente de sua produção literária, divulgando opiniões contrárias à luta armada, é uma típica vendeta italiana! Não querem reabilitá-lo, até porque condenaram-no à prisão perpétua. Querem exibi-lo num verdadeiro circo romano. Direita e esquerda querem sua cabeça, por motivos opostos. A direita o quer para mostrar aos italianos um monstro comunista, um assassino, um comedor (literalmente) de criancinhas. A esquerda o quer para provar o quanto eles mudaram e que, agora, são bonzinhos e obedientes seguidores da ordem democrática - esperam com isso os votos das boas e católicas velhinhas italianas, que amam o Papa.
Não posso aprovar essa vendeta. Battisti fica no Brasil e os italianos, com todo o respeito que tenho por Mino Carta, que vão comer seu macarrão na linda Veneza que os pariu.
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Ah, tenho outra tese. A Itália era um país democrático na década de 70. Certo. Mas aceitava e dava legitimidade às ditaduras de toda a América Latina. Os Estados Unidos, violando todas as leis internacionais, lançavam bombas sobre escolas no Vietnam. A Itália era um país democrático, mas não estava isolada do mundo. Havia, entre a juventude da época, um elo de solidariedade, e por isso jovens, mesmo equivocadamente, mesmo em países democráticos, aderiam à luta armada. É preciso considerar o contexto da época. Eram tempos sombrios, em que os EUA, ao arrepio de qualquer respeito à soberania alheia, patrocinavam golpes militares no mundo inteiro. Os jovens italianos sabiam disso. Na decisão de ser revolucionário e comunista pesavam essas informações.
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Ninguém me respondeu até agora porque os Estados Unidos pode dar asilo político a um verdadeiro terrorista, condenado em Cuba, o Posada Carriles, que confessou a responsabilidade por vários atentados, inclusive a explosão de um avião da linha Venezuela e Cuba, que resultou na morte de 73 pessoas, e o Brasil não pode abrigar um barnabezinho de ultra-esquerda que jura que não matou ninguém e escreve livros pregando a inutilidade da luta armada? Ah, eu sei. Por que os EUA são ricos e poderosos e não perdem a pose. Não têm uma imprensa fanaticamente entreguista e colonizada como aqui. Enfim, falando na Itália, gostaria de questionar o maior italiano de todos os tempos e, citando o nobre Bezerra da Silva, faço a seguinte pergunta ao também nobre italiano Mino Carta: Se Leonardo Dá Vinte porque eu não posso dar dois?
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Intelectuais do mundo inteiro dão apoio à decisão de Tarso Genro. Ler aqui.
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Leiam a notinha abaixo, recortada do texto assinado pelos intelectuais a favor de Battisti. Leiam bem. Sarkozy deu asilo político à Marina Petrella, que tem as mesmas condenações de Battisti. A imprensa de lá compreendeu. A Itália não chiou. Ou seja, o problema foi O BRASIL ACHAR QUE TEM DIREITO! ORA, MINO!
Do mesmo modo, e com fundamentos similares, a França vem de conceder asilo político a Marina PETRELLA, também condenada à prisão por atos supostamente cometidos naquele conturbado contexto da história italiana.
Contudo, à diferença do que temos visto ocorrer no Brasil, apesar do protesto protocolar do governo italiano, a imprensa francesa compreendeu as razões do governo Sarkozy, ao conceder o asilo.
Na França, portanto, a decisão não foi ideologizada, mas encarada como uma entre as muitas ações de proteção internacional da dignidade por razões humanitárias.
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Miguel do Rosário
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domingo, fevereiro 01, 2009
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Eduardo Paes, tire as mãos de cima dos ambulantes!
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Há duzentos anos que as autoridades cariocas praticam a mais truculenta e desumana e burra repressão ao comércio ambulante. Ironicamente, o Rio é uma das cidades onde o comércio ambulante, o popular camelô, é uma das instituições mais tradicionais e mais arraigadas. O carioca gosta do camelô. Compra no camelô. E todo carioca vê no camelô uma espécie de "seguro-desemprego". Ou seja, em caso de dificuldades, sempre há a possibilidade de montar uma barraquinha na rua e vender refrigerante, salgadinho, quinquilharias eletrônicas, roupas, livros, tudo.
O camelô, por outro lado, por razões ideológicas que ainda estou tentando compreender, sofre uma perseguição implacável das elites, encasteladas em seus super-apartamentos da zona sul, perseguição esta que tem como porta-voz o house-organ O Globo. Qualquer prefeito, portanto, se deseja conquistar a simpatia da família Marinho e seus leitores do Leblon, basta mandar sentar o cacete nos ambulantes. Será ovacionado pelos aposentados fascistas que mandam cartinhas pros jornais. Por não mais precisarem correr atrás do pão, esses missivistas desnaturados esnobam de quem precisa.
É natural, é necessário, que haja ordenamento. Mas o prefeito precisa ter um mínimo de sensibilidade social e política para entender que o camelô, antes de tudo, é um ser humano com uma história de vida - geralmente dura e triste. Não é sonho de ninguém ser camelô. É uma necessidade. A prefeitura deve ordenar, mas sem truculência, sem roubar a mercadoria de ninguém. E sem fazer "emboscadas". A tática de emboscada, de chegar abruptamente num lugar e sair correndo atrás dos camelôs, produzindo uma verdadeira caça humana, é inadmissível. Em primeiro lugar, a prefeitura deve divulgar, por um bom tempo, o que pretende fazer, antes de sair às ruas caçando camelôs como quem caça mosquito da dengue. Deve abrir linhas de crédito, entrevistar, analisar caso a caso, delimitar áreas que possam ser utilizadas.
A cidade já vive uma situação social à beira de uma explosão. Em vez de ajudar, o prefeito não pode lançar mais lenha no fogo. Há poucos dias, uma equipe da guarda municipal foi até uma avenida situada aos pés do Complexo da Maré, uma rede de favelas conhecida internacionalmente por ser a "sede" operacional dos serviços de Fernandinho Beira-Mar, além de umas das regiões mais violentas do Rio. Ora, foi um Deus nos acuda. Camelôs, entre eles muitas senhoras de idade, correndo pela avenida, em direção à favela, barracos sendo empurrados aos trancos, todos tentando fugir da truculência da guarda municipal. Eu pensei: os traficantes, os bandidinhos da favela vão sentir, mais uma vez, que escolheram o caminho certo. É melhor infringir a lei e ganhar uma grana forte do que fazê-lo para ganhar a merreca obtida pelo comércio ambulante. Sim, porque o comércio ambulante é uma atividade de baixa remuneração. Em geral, o camelô obtém somente o necessário para sua sobrevivência, embora existam muitos, mais talentosos e esforçados, que conseguem faturar uma grana razoável.
Meu ponto-de-vista é que a guarda municipal, ao reprimir de forma truculenta, sem aviso prévio, sem campanhas de esclarecimento, pratica um crime contra a humanidade e uma estupidez política escandalosa, pregando no Estado a pecha de inimigo do povo. Quem pagará a conta serão os policiais mortos por conta do ódio gratuitamente gerado. E nós que pagamos o enterro dos policiais e a diária nos presídios dos criminosos. Entendo que há casos em a repressão é necessária. Mas ela deve ser feita sem truculência e, no caso de recolhimento da mercadoria, a mesma deve ser integralmente devolvida a seu dono, não importando se os produtos têm ou não nota fiscal. São produtos que pertencem ao camelô. Quem pode, eventualmente, confiscar o produto por não possuir nota, é o fiscal, um funcionário especializado, que estudou e fez concurso para essa função, e não a Guarda Municipal. O produto só pode ser apreendido depois de um processo legal e transparente. Se não há estrutura para isso, então não recolham os produtos, ou devolvam-nos rapidamente, para não prejudicar a vida já difícil do camelô, que tem filhos e precisa alimentá-los. Alguém dirá: não importa! A lei tem que ser cumprida! Não é assim, neném. Existe um nome horrível para quem pensa assim: leguleio, aquele que, segundo o Aurélio, interpreta à letra e servilmente a lei, sem atender ao espírito e intenção do legislador. Ou seja, a lei foi feita com um espírito nobre, de justiça social. Ninguém escreveu lei pra guardinha municipal espancar camelô.
Há muitos anos, no Catete, existem sebos de rua. São sebos maravilhosos, que vendem clássicos da literatura a preços módicos. Frequento esses sebos desde que me entendo por gente. Tenho, inclusive, até usado estes sebos para abastecer minha livraria virtual, o Gonzum Livros. Não ficam diariamente por lá, apenas no domingo. Pois é, outro dia, estava eu por aquelas bandas, na companhia de um casal amigo de São Paulo, e disse a eles que lhes mostraria os melhores sebos de rua do Rio, onde era possível adquirir bons livros, de capa dura, por R$ 1,00. Para minha surpresa, não havia mais sebo nenhum. O choque de ordem proibiu tudo. Eles foram os primeiros a sumir do mapa porque sua mercadoria, pesada, não pode ser recolhida rapidamente. Acabar com os sebos mais populares, que constituíam já uma tradição no Catete e Largo do Machado, é outra grosseria incompreensível. Deviam patrociná-los, não combatê-los!
As areias da praia do Flamengo, onde havia, de cem em cem metros, barraquinhas de bebidas, agora estão desertas. Ao redor destas barraquinhas, que também disponibilizavam, gratuitamente, cadeiras de praia para os clientes, reuniam-se pessoas. Alguns trabalhavam ali há mais de vinte anos. O choque de ordem do novo prefeito do Rio, Eduardo Paes, recolheu a mercadoria de todo mundo e proibiu qualquer atividade na área.
O que as autoridades deveriam fazer é entrevistar os camelôs, cadastrar todos, abrir linhas de crédito, concederem autorizações e licenças, enfim, usar essa gente empreendedora, trabalhadora, em prol da geração de empregos e do desenvolvimento econômico da cidade. O que não pode é lhes puxar o tapete, empurrando-os para o desespero, que por sua vez conduz à criminalidade. Se fossem ajudados pela prefeitura, todos os camelôs se tornariam parceiros, teriam mais lucro e poderiam ser inclusive incorporados ao sistema formal de trabalho, pagando impostos.
Os locais onde os camelôs atuam sempre são mais seguros, porque os próprios cuidam de afastar delinquentes, que por razões óbvias atrapalham os negócios. Os camelôs são adversários naturais do assalto a transeuntes.
Nas eleições do ano passado, Eduardo Paes enfrentou o deputado federal Fernando Gabeira. Gabeira talvez não fosse um mau prefeito, mas estava aliado à direita e daria palanque para a direita retomar as rédeas do país em 2010. Lembro de uma crônica do Mauro Santayanna em que ele conta a conversa com um pequeno comerciante de uma cidadezinha mineira, que, apesar de não gostar de um candidato X, votou nele porque ele fazia parte da aliança que apoiava Juscelino Kubitschek e ele, como cidadão brasileiro, pensava no país e no mundo. Pensava num universo maior.
Por isso não votei no Gabeira e apoiei Eduardo Paes. Entretanto, por receber apoio da mídia e se colocar como anti-Lula, além de outras características (aparentemente) libertárias, Gabeira recebeu apoio irrestrito da reacionária zona sul carioca, obtendo mais de 80% dos votos na região. Com a derrota de seu candidato, a zona sul recebeu o novo prefeito, Eduardo Paes, com sua costumeira hostilidade. Lembro de ter conversado com pessoas totalmente histéricas, por causa da vitória de Paes. Não aceitavam a derrota. Fizeram passeata na Cinelândia contra o resultado eleitoral. Uma conhecida minha, num papo informal de botequim, literalmente rogou uma maldição sobre a cidade, afirmando que o Rio de Janeiro iria sofrer consequências terríveis por conta de sua má-escolha.
Não acho isso. O leque de alianças políticas em torno de Eduardo Paes produzirá, provavelmente, resultados muito positivos para a cidade. Mas ele, Paes, é uma pessoa politicamente limitada. Sua aproximação com a esquerda é notoriamente oportunista. Por isso mesmo acho que a esquerda carioca tem a obrigação de, por sua vez, também "usar" Paes, ou seja, influenciá-lo construtivamente, para impedir que ele deixe aflorar seu lado mais reacionário, como é o caso de sua campanha burra contra o comércio ambulante. Os partidos de esquerda do Rio de Janeiro devem assumir posições coerentes com suas próprias plataformas políticas. A Jandira Feghalli (PCdoB), por exemplo, sempre se posicionou de forma bem clara contra a truculência exercida sobre os ambulantes e, quando candidata à prefeita, prometeu estabelecer uma relação de parceria com eles. Agora é secretária de cultura de Paes. É uma força política dentro da máquina. Ótimo. É um sinal de que há gente, dentro do governo, insatisfeita com a política de repressão ao ambulante. Essa tensão interna deve ser estimulada para convencer o prefeito a mudar. Os partidos devem se manifestar. Sem deixar de apoiar Paes, devem ser duros em seu questionamento. É assim que, a meu ver, se faz política.
O prefeito disse que não tocará no comércio ambulante da Lapa antes do carnaval. Somente depois. Ora, mais uma prova de cinismo e estupidez. Ele admite a importância social e econômica do comércio ambulante, o qual, longe de atrapalhar o comércio formal, ajuda-o a faturar diariamente, já que as pessoas sempre vão preferir beber sua cerveja sentados em mesas, confortavelmente, e ao mesmo tempo, sempre preferem frequentar lugares animados, com gente bonita e jovem desfilando pra lá e pra cá. O comércio ambulante ajuda a encher a Lapa, e ocupa os espaços. A criminalidade na Lapa é baixa. Existe, claro, mas é baixa. Enfim, o que o prefeito quer? Quer "usar" o camelô, que anima o centro, e depois descartá-lo? Será um tremendo tiro no pé. Não será o primeiro nem o último prefeito a atacar os camelôs. Lembro que vi, numa dessas exposições, uma charge do início do século XIX mostrando um ambulante fugindo do "rapa". A Lapa mesmo já foi alvo de repressão anti-ambulante por diversas vezes. Como morador do bairro, posso atestar. O resultado sempre foi negativo. A um comércio ambulante estável, organizado, tranquilo, sucedia-se o banditismo desenfreado. Às ruas cheias de música e diversão inocente, sucediam-se ruas escuras, sinistras, tomadas por traficantes perigosos. E por fim os camelôs sempre voltam. Voltam e dão estabilidade e segurança às ruas. Mas voltam, sempre. Prefeitos passam, os camelôs ficam. Por quê? Por que o camelô é uma atividade econômica consagrada no Rio de Janeiro e em todo Brasil. Um dia, no futuro, será uma profissão regulamentada no Ministério do Trabalho, farão estátuas em sua homenagem e o Congresso instituirá o Dia Nacional do Camelô.
Vou dizer mais uma coisa: eu quero que o país se desenvolva e as cidades brasileiras se tornem mais seguras e organizadas, como as cidades do primeiro mundo. Mas não quero que elas sejam chatas como as cidades do primeiro mundo. Quero que a alegria e a loucura da Lapa, das noites cariocas, do Brasil, continue, porque, afinal, não somos europeus frios nem americanos sem-graça, somos um país, como ensina Jorge Benjor, tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza. Portanto tirem as mãos de cima dos ambulantes, políticos fascistas!
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Miguel do Rosário
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domingo, fevereiro 01, 2009
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31 de janeiro de 2009
Muita calma nesta hora
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O exercício da política é uma atividade diária que requer paciência, determinação, bom humor, sabedoria e jogo de cintura. Os meios de comunicação, desde o fim da ditadura, vem lançando, entre a população, campanhas contra as instituições políticas do país. Contra os politicos e contra a política. O brasileiro comum, e notadamente a classe média, passou a acreditar que a classe política brasileira é mais corrupta do que a de outros países. Não é verdade. Existe corrupção em toda parte. Esta semana mesmo, um governador dos EUA foi impedido por ter tentado vender um cargo para senador. Para a vaga deixada por Barack Obama. Fosse aqui no Brasil, tentariam impedir o Obama também, com certeza... E mesmo que a classe política brasileira fosse a mais corrupta do mundo, as pessoas devem entender que essa é mais uma das consequências da ditadura militar, que acabou com os tribunais de conta e intimidava qualquer tipo de denúncia. Quem ousaria denunciar diretores e presidentes das estatais, quase sempre militares de alto escalão ou apaniguados deles? Com o fim da ditadura, uma economia destroçada, instituições políticas desorganizadas, uma sociedade traumatizada, serviram como prato feito para grupos políticos e empresariais tomarem o poder e assaltarem os cofres públicos. Os poucos funcionários ainda honestos que restaram nas instituições de auditoria do Estado ainda não se sentiam seguros (e falo de segurança pessoal e de suas famílias) para começarem a combater efetivamente a chaga da corrupção. Não se fala muito destas sequelas, mas entendê-las serve para não acharmos que a corrupção é inerente ao caráter do brasileiro. Besteira pensar isso. O ser humano é vulnerável à tentação em qualquer parte do mundo. O importante é termos instituições sólidas que possam dar segurança e realizar auditorias constantes da máquina pública. Assim se vence a corrupção, com democracia e Estado forte. É o que estamos fazendo.
A mídia corporativa, há décadas, difunde os valores americanos, mas de forma bastante seletiva. O ideal de nacionalismo, por exemplo, extremamente forte lá, aqui é zero. A participação da classe artística na política, nos EUA, é normal. Recentemente, roteiristas de todo o país realizaram uma greve geral. Pararam a produção audiovisual e teatral dos Estados Unidos! Claro que não vimos nenhuma reflexão por aqui sobre o novo sindicalismo americano. Clint Eastwood foi prefeito de sua cidadezinha natal. Depois se arrependeu, mas só o fato de ter se interessado, já mostra o quanto o americano pensa a política sem o constrangimento que há por aqui. Temos o Michael Moore... e nada me tira da cabeça que a eleição de Obama teve a ver com o prestígio conquistado por Morgan Freeman, Denzel Washington, Wesley Snipes, entre tantos astros negros. Os diretores criaram papéis especiais para eles: investigadores cultos, geniais, criativos; presidentes; gânsgters carismáticos. Enfim, é claro que a cultura tem a ver com a política e o último negro do qual me lembro na tv brasileira, afora a baianagem eterna de Lázaro Ramos, é um deputado corrupto interpretado por Milton Gonçalves. A culpa não é dos atores, nem necessariamente dos diretores. É uma culpa coletiva. Ninguém daria bola, lá, para livros que negassem o racismo. O Estado e as universidades privadas norte-americanos patrocinaram, por décadas, vastos programas de cotas, que inclusive estão agora em fase declinante, pois o percentual de negros no serviço público, por exemplo, chegou a um nível satisfatório.
A mesma coisa vale para o caso Cesare Battisti, o italiano para quem o governo brasileiro decidiu dar asilo político. Não há um colunista da mídia, na imprensa escrita ou na televisão, que defenda a soberania do Brasil. Um leitor do blog lembrou bem: há décadas que a Europa e os Estados Unidos concedem asilo a ditadores sanguinários de todo mundo, que mataram não quatro ou duas pessoas, mas centenas de milhares. Ninguém fala nada. A mídia de seus países não transformou estes casos em crises políticas contra seus próprios governos. Pior, a disputa entre Brasil e Itália só tomou as proporções que tomou porque a imprensa italiana defende a Itália e a imprensa brasileira defende... a Itália. O governo brasileiro não tem onde se apoiar a não ser na internet, na blogosfera, onde as opiniões são sempre fragmentadas, e que, infelizmente, ainda não adquiriu o status que merece junto às instituições formais. De qualquer forma, a blogosfera, universo fortemente anárquico, não transmite a segurança de um editorial de uma grande e tradicional publicação. Aposto que se um colunista da grande mídia, um só, um Veríssimo, um Zuenir Ventura, um Cony, tivesse o culhão de peitar os barões da mídia, esta crise diplomática esfriava rapidamente. Mas isso é difícil acontecer. Essas pessoas vivem cercadas, sob a pressão silenciosa dos sorrisos falsos e tensos que trocam nos coquetéis que frequentam, no custo de vida cada vez mais alto de sustentar filhos, netos e até bisnetos.
Outro problema que identifico é que, em vista dessa situação, algumas pessoas tendem a revelar um desespero que, de forma nenhuma, é conveniente à nossa luta. Demonstra fraqueza, temor, desorganização e falta de confiança. Começam a pedir a intervenção do presidente. Que ele vá para a televisão e debele a rebelião dos poderosos. É uma visão simplista. Esse enfrentamento direto é justamente o que a direita deseja, para poder lançar uma série de adjetivos pré-fabricados que guarda numa sacolinha só para essa ocasião. E vocês acham que a elite ficaria do lado de quem? Não dá para saber. O pior de tudo é que, infelizmente, o Brasil depende da elite. Poucos empresários respondem pela geração de milhões de empregos, e, paradoxalmente, os mesmos empresários não dependem desses milhões de empregos. Se quiserem, podem fechar as fábricas, demitir 600 mil pessoas, e irem desfrutar a terceira idade numa ilha do Caribe. Esse é o lado trágico da história, essa dependência, agravada na fase avançada do capitalismo em que vivemos.
Não importa, contudo. Não podemos nos desesperar. Confiem no povo brasileiro. Já vivemos crises muito piores, com a mesma mídia sempre sabotando tudo. A luta inclui a dor, o sofrimento, a renúncia. Querem desempregar? Querem sabotar o Brasil? Que o façam. O que não faltará são empresários para substituí-los. Nem todo mundo está nadando em dinheiro. Muitos empresários querem uma chance de chegarem ao topo. Se os nababos de São Paulo estão esnobando o país, que vão embora e dêem lugar a outros. É isso que irá acontecer.
Agora, é ingênuo e contraproducente fazer ultimatos ao presidente da república. Qual o sentido? Querem que ele vá à televisão denunciar a mídia em cadeia nacional? Seria cair em provocação. O que ele tinha que fazer já fez, que foi criar a TV Brasil, que não por outra razão sofreu violenta oposição da mídia corporativa e da direita. A TV Brasil ainda está se consolidando. Dêem um pouco de tempo para ela! E mais, não falamos apenas da TV Brasil. A TV pública é um projeto bem mais amplo que a TV Brasil. Cada aparelho de TV terá acesso a quatro canais abertos de TVs públicas, com espaço para programas da sociedade civil local, das câmaras municipais, das assembléias estaduais, além da TV federal.
E temos a internet, que é um fenômeno muito novo, mas que já está fazendo a diferença. O universo virtual e informático brasileiro não está conhecendo nenhuma crise. O comércio eletrônico registrou aumento espetacular em 2008 e continua aumentando. As vendas de computadores idem. O acesso à internet prossegue crescendo a ritmo exponencial. Dêem tempo para esses novos internautas amadurecerem!
Enfim, é preciso ter paciência e confiança. O povo brasileiro tem todas as armas em suas mãos. Vejam só: o aumento do consumo está concentrado nas camadas mais baixas. A expectativa de crescimento econômico também concentra-se nestes segmentos, os quais, por razões culturais, sobretudo de poder aquisitivo, demoram mais tempo para se integrarem de forma mais pro-ativa nas discussões políticas. Mas estão entrando, e enganar-se-á redondamente quem duvidar do potencial revolucionário, filosófico, político, dessa nova classe média emergente. Parte dela poderá até ser conservadora, mas será um conservadorismo diferente. Será um conservadorismo totalmente oposto do que a direita deseja, porque defenderá melhores salários e mais intervenção do Estado na economia. O conservador rico é que deseja Estado mínimo e reclama do salário mínimo. O conservador pobrinho, que ganha de 1 a 3 salários mínimos quer mais um Estado forte e, naturalmente, um padrão de vida mais alto para os trabalhadores. Também é nacionalista. Em qualquer lugar do mundo, os conservadores são fortemente nacionalistas. O Brasil é o único lugar do mundo onde a direita não é nacionalista. Eu sei porque. Porque é uma direita concentrada exclusivamente no topo da pirâmidade social. Mas isso vai acabar. Essa direita está se auto-marginalizando em toda a América Latina, e se não mudar radicalmente, será democraticamente banida de todas as instâncias de poder.
Democracia é isso. Não tem voto, dançou. Não existe "cota" reservada para a direita ou esquerda. Se algum partido ou espectro político quiser sobreviver aos próximos sufrágios, terá que rebolar e não apenas oferecer novas plataformas políticas, mas, quando no poder, pô-las em prática. Mostrar serviço. Reduzir o desemprego, melhorar os serviços públicos, criar um ambiente mais livre para a sociedade. Não creio que o PSDB possa oferecer isso. Fosse um governo do PT que demitisse sumariamente o dirigente da Orquestra Sinfônica de São Paulo, o mundo viria abaixo. Ainda mais sabendo que o presidente da tal orquestra é nada mais nada menos que o famigerado Fernando Henrique Cardoso. E o Globo hoje deu uma notinha que parecia inteiramente escrita pela assessoria de imprensa de FHC. Ninguém faz um editorial protestando contra esta demissão arbitrária, assim também como nenhum colunista cogitou comentar a demissão de Luis Nassif da TV Cultura. Ai, se a TV Brasil demitisse um figurão desses!
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Miguel do Rosário
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sábado, janeiro 31, 2009
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23 de janeiro de 2009
Mulher urubu
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Essa vida de acompanhar a mídia é dura. Se eu ficar respondendo à Miriam Leitão, terei que me dedicar somente a essa função. Às vezes penso que ela deveria me pagar um salário para ser seu ombudsman privê. Hoje, ela nos brinda com essa pérola:
Não vou responder a uma imbecilidade desta, contestada facilmente por dez entre dez publicações internacionais. Vou responder esta outra afirmação, na mesma coluna do jornal impresso, edição de 23 de janeiro de 2008 (o mesmo texto está no blog da urubu, o urublog, aqui):
Daí ela infere que o governo está dando dinheiro para a Petrobrás em vez de dar dinheiro para a pesquisa. Essa frase me irritou porque é mentira. O grosso das verbas federais para a pesquisa não estão no orçamento do Ministério da Ciência e sim na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), em outros órgãos, agências e universidades. Pergunte a qualquer cientista, e ele lhe responderá que os recursos para pesquisa, nos sombrios tempos tucanos, eram virtualmente zero. Cresceram exponencialmente nos últimos anos e devem continuar crescendo. Eu ouvi essa informação diretamente pela boca de diversos cientistas, que fizeram questão de ressalvar que não tinham compromisso nenhum com o governo Lula, não tinham partido nem estavam ali defendendo nenhuma plataforma política; simplesmente estavam dizendo a verdade.
A verba em pesquisa nuclear, por exemplo, bateu recorde nos últimos anos. A própria Petrobrás é grande investidora em diversos tipos de pesquisa científica. O Instituto Oswaldo Cruz, que pesquisa remédios contra a Aids, dentre inúmeros outras coisas, vem recebendo, nos últimos anos, um grande volume de recursos, e os profissionais da área conseguiram reajustes de salários que há décadas o Estado lhes devia. Miriam Leitão, provavelmente, é o tipo de pessoa que não considera aumento de salário para um pesquisador como verba para pesquisa...
Enfim, Miriam Leitão prossegue em sua missão de desinformar a sociedade brasileira. Ora, Míriam, vá plantar maconha na granja do Bush!
Se escaparmos da crise global, teremos uma crise feita pelo governo Lula.
Não vou responder a uma imbecilidade desta, contestada facilmente por dez entre dez publicações internacionais. Vou responder esta outra afirmação, na mesma coluna do jornal impresso, edição de 23 de janeiro de 2008 (o mesmo texto está no blog da urubu, o urublog, aqui):
"O país corta orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia quando o país mais precisa de investimentos em inovação e em ciência, por inúmeros motivos."
Daí ela infere que o governo está dando dinheiro para a Petrobrás em vez de dar dinheiro para a pesquisa. Essa frase me irritou porque é mentira. O grosso das verbas federais para a pesquisa não estão no orçamento do Ministério da Ciência e sim na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), em outros órgãos, agências e universidades. Pergunte a qualquer cientista, e ele lhe responderá que os recursos para pesquisa, nos sombrios tempos tucanos, eram virtualmente zero. Cresceram exponencialmente nos últimos anos e devem continuar crescendo. Eu ouvi essa informação diretamente pela boca de diversos cientistas, que fizeram questão de ressalvar que não tinham compromisso nenhum com o governo Lula, não tinham partido nem estavam ali defendendo nenhuma plataforma política; simplesmente estavam dizendo a verdade.
A verba em pesquisa nuclear, por exemplo, bateu recorde nos últimos anos. A própria Petrobrás é grande investidora em diversos tipos de pesquisa científica. O Instituto Oswaldo Cruz, que pesquisa remédios contra a Aids, dentre inúmeros outras coisas, vem recebendo, nos últimos anos, um grande volume de recursos, e os profissionais da área conseguiram reajustes de salários que há décadas o Estado lhes devia. Miriam Leitão, provavelmente, é o tipo de pessoa que não considera aumento de salário para um pesquisador como verba para pesquisa...
Enfim, Miriam Leitão prossegue em sua missão de desinformar a sociedade brasileira. Ora, Míriam, vá plantar maconha na granja do Bush!
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Miguel do Rosário
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sexta-feira, janeiro 23, 2009
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Mais sobre o Caged
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Publiquei no Google Docs outra tabela interessante, com a variação do nível de emprego por sub-setor da economia.
Recorto um trecho da tabela e publico abaixo. Clique nela se quiser ampliar.
Repare que os setores que registraram mais problemas em dezembro foram também os que registraram os aumentos mais expressivos em números de empregados admitidos no acumulado do ano.
A indústria de transformação, por exemplo, a grande vilão deste dezembro negro, demitiu 390 mil pessoas em dezembro último, mas no acumulado Jan/Dez 2008, o mesmo setor registrou a admissão de 3,52 milhões de trabalhadores, aumento de 13% sobre 2007.
Recorto um trecho da tabela e publico abaixo. Clique nela se quiser ampliar.
Repare que os setores que registraram mais problemas em dezembro foram também os que registraram os aumentos mais expressivos em números de empregados admitidos no acumulado do ano.A indústria de transformação, por exemplo, a grande vilão deste dezembro negro, demitiu 390 mil pessoas em dezembro último, mas no acumulado Jan/Dez 2008, o mesmo setor registrou a admissão de 3,52 milhões de trabalhadores, aumento de 13% sobre 2007.
Considerando que a principal empresa deste setor é a Vale, não resta dúvidas de que a decisão de Rogner Agnelli de realizar demissões em massa no auge da crise, mesmo depois de anos seguidos de lucros recordes, contribuiu significativamente para criar um efeito em cascata em todo o segmento da indústria de transformação.
Outro importante responsável pelos números negativos de dezembro foi o setor de serviços, que demitiu, em todo país, 480 mil pessoas em dezembro. Este segmento caracteriza-se pela pequena empresa. No entanto, o mesmo setor registrou a entrada de 5,8 milhões de postos de trabalho em 2008! Um aumento de 18% sobre 2007, que, todos sabem, já tinha sido um ano de crescimento recorde para a economia brasileira.
Por fim, o setor de construção civil foi o terceiro principal responsável pela queda no saldo de empregos em dezembro. O setor demitiu 163 mil pessoas nesse mês, mas, no ano calendário de 2008, assinou 1,86 milhão de carteiras, registrando um aumento excepcional de 31% sobre o período anterior!
Os três setores, somados, criaram 11,24 milhões de postos formais de trabalho em 2008, mas tiraram 10,2 milhões, obtendo um saldo superior a 1 milhão de empregos.
Se lembrarmos que os EUA, a economia mais poderosa do planeta, vive uma recessão técnica há mais de um ano, a situação brasileira é mais do que confortável. É quase inacreditável que o Brasil tenha gerado uma quantidade tão monstruosa de empregos em 2008, um ano que, desde o início, apresentou-se difícil em todo mundo e, a partir de setembro, viveu os piores meses desde o final da II Guerra.
Com crise e tudo, as empresas brasileiras geraram no ano passado um total de 16,6 milhões de postos formais. Para efeito de comparação, em 2002, ano em que não havia nenhuma crise internacional, a geração de empregos foi de 9,8 milhões de empregos. Lembrando: em dezembro de 2002, o salário mínimo, em valores corrigidos para hoje, correspondia a R$ 257. De lá para cá, este salário registrou ganhos reais de 48% e está hoje em R$ 415.
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Miguel do Rosário
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sexta-feira, janeiro 23, 2009
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Unemployment
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Andei lendo algumas coisas que gostaria de compartilhar com vocês. O saldo negativo do emprego formal de 654 mil em dezembro último causou muito alvoroço. O que não se comentou foi que dezembro, em função dos empregos temporários contratados em outubro e novembro (e dezembro) pelas indústrias e comércio para trabalharem nas prévias de Natal, costuma registrar elevado saldo negativo. Um saldo negativo de 450 mil em dezembro, por exemplo, seria considerado normal. Em dezembro de 2007, um ano excelente para o emprego, o Caged registrou um saldo negativo de 319,4 mil postos de trabalho.
Reparem na contratação no último trimestre.
Geração de empregos formais
1451.205 - outubro 2008
1275.674 - novembro 2008
887.299 - dezembro 2008
Total - 3.614.178
Viu? O Brasil gerou 3,6 milhões de empregos com carteira assinada no último trimestre. O saldo negativo de 654 mil em dezembro deve ser mensurado de acordo com esses números.
Para efeito de comparação, copiei os dados referentes ao último trimestre de 2001. O Brasil gerou 2,25 milhões de empregos com carteira assinada.
Geração de empregos formais
852.227 - out 2001
811.245 - nov 2001
593.996 - dez 2001
Total - 2.257.468
Detalhe: em dezembro de 2001, o Brasil perdeu 253.923 postos formais de trabalho.
*
Mais comparações: 1) em dezembro de 2002, o Caged registrou um saldo negativo de 249.514 postos de trabalhos. 2) Em dezembro de 2003, tivemos um saldo negativo de 300 mil postos. Ou seja, dezembro nunca foi um ano bom para o mercado de trabalho brasileiro.
*
As lições que tiramos desta situação são as seguintes. Como grande parte dos empregos gerados em dezembro são temporários, quando a contratação é volumosa, a dispensa também o é. Os números do IBGE divulgados hoje, longe de entrarem em contradição com os números do Caged, explicam-nos. Houve grande geração de emprego no último trimestre, mas foram, em sua maioria, empregos temporários. O nome diz tudo: tem-po-rá-ri-os. Os trabalhadores foram contratados e dispensados. Em outras palavras, a situação pode ser crítica, mas não podemos perder o senso de proporção. O Brasil é um país com 190 milhões de pessoas, 654 mil postos de trabalho é um número pomposo, mas corresponde a somente 0,3% da população brasileira.
*
Repito um fato que igualmente passou batido. As demissões concentraram-se em São Paulo e Minas Gerais, estados governados pelo PSDB. Somente São Paulo registrou um saldo negativo de quase 250 mil empregos em dezembro. Minas Gerais veio em segundo lugar, com fechamento de 88.062 vagas. São Paulo e Minas, portanto, responderam por mais da metade do número negativo que assustou um país, que tem outras 24 unidades da federação.
Os governadores, pelo jeito, não se esforçaram, junto às lideranças empresariais de seus estados, para evitar essas demissões. Serra liberou uns bilhões para a indústria automobilística, mas sem condicionar à manutenção dos empregos.
Reparem na contratação no último trimestre.
Geração de empregos formais
1451.205 - outubro 2008
1275.674 - novembro 2008
887.299 - dezembro 2008
Total - 3.614.178
Viu? O Brasil gerou 3,6 milhões de empregos com carteira assinada no último trimestre. O saldo negativo de 654 mil em dezembro deve ser mensurado de acordo com esses números.
Para efeito de comparação, copiei os dados referentes ao último trimestre de 2001. O Brasil gerou 2,25 milhões de empregos com carteira assinada.
Geração de empregos formais
852.227 - out 2001
811.245 - nov 2001
593.996 - dez 2001
Total - 2.257.468
Detalhe: em dezembro de 2001, o Brasil perdeu 253.923 postos formais de trabalho.
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Mais comparações: 1) em dezembro de 2002, o Caged registrou um saldo negativo de 249.514 postos de trabalhos. 2) Em dezembro de 2003, tivemos um saldo negativo de 300 mil postos. Ou seja, dezembro nunca foi um ano bom para o mercado de trabalho brasileiro.
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As lições que tiramos desta situação são as seguintes. Como grande parte dos empregos gerados em dezembro são temporários, quando a contratação é volumosa, a dispensa também o é. Os números do IBGE divulgados hoje, longe de entrarem em contradição com os números do Caged, explicam-nos. Houve grande geração de emprego no último trimestre, mas foram, em sua maioria, empregos temporários. O nome diz tudo: tem-po-rá-ri-os. Os trabalhadores foram contratados e dispensados. Em outras palavras, a situação pode ser crítica, mas não podemos perder o senso de proporção. O Brasil é um país com 190 milhões de pessoas, 654 mil postos de trabalho é um número pomposo, mas corresponde a somente 0,3% da população brasileira.
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Repito um fato que igualmente passou batido. As demissões concentraram-se em São Paulo e Minas Gerais, estados governados pelo PSDB. Somente São Paulo registrou um saldo negativo de quase 250 mil empregos em dezembro. Minas Gerais veio em segundo lugar, com fechamento de 88.062 vagas. São Paulo e Minas, portanto, responderam por mais da metade do número negativo que assustou um país, que tem outras 24 unidades da federação.
Os governadores, pelo jeito, não se esforçaram, junto às lideranças empresariais de seus estados, para evitar essas demissões. Serra liberou uns bilhões para a indústria automobilística, mas sem condicionar à manutenção dos empregos.
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Miguel do Rosário
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sexta-feira, janeiro 23, 2009
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22 de janeiro de 2009
Encruzilhada histórica
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Por João Villaverde
Existe um processo pouco percebido sendo desenvolvido aos poucos no Brasil e nos países emergentes semelhantes. Não é nada formal ou mesmo um pacto entre elites dominantes, mas um jogo que estabelece vencedores (os mesmos de sempre e alguns novos jogadores) e esconde dos perdedores a grande derrota. Podemos estar diante de um modelo intermediário entre uma nova dominação ou a restituição da hegemonia clássica.
Explico.
As exportações brasileiras estão diminuindo em volume há anos, pelo efeito do real valorizado (quando Lula assumiu o dólar valia R$ 3,80; antes da crise chegou a R$ 1,55). Mas o saldo comercial não parava de crescer graças a um motor paralelo: o aumento dos preços dos produtos vendidos ao exterior. Quer dizer, vendia-se menos quantidade, mas as mercadorias valiam mais.
Estavam mais caras graças a nossa produção de bens industrializados de maior valor agregado? Não, embora tenhamos nos desenvolvido fortemente em vários setores. Mas nada que alterasse nossa composição exportadora. As mercadorias mais vendidas continuaram sendo os produtos primários de sempre: grãos e minérios. Commodities, em geral. Por que elas aumentavam de preços? Graças a enorme e crescente demanda chinesa.
O desenvolvimento chinês dos últimos trinta anos produziu uma economia fortemente urbana, com moeda desvalorizada (o que incentiva as exportações, uma vez que com a mesma quantidade de dólares recebidos pela venda se consegue maior quantidade de moeda nacional) e mão-de-obra barata, sem direitos trabalhistas e impostos baixos. O modelo era simples: importa-se produtos básicos, industrializa internamente e reverte para exportação. Os dólares entram e enchem as reservas. Essas são aplicadas nos Estados Unidos, ajudando as famílias americanas a se endividarem e adquirirem mais e mais produtos chineses.
A crise financeira americana alterou profundamente os termos desse modelo. Com a falência de bancos, o crédito secou. Sem crédito, as famílias pararam de rolar suas dívidas - asfixiando os bancos ainda mais - e pararam de consumir. No ano passado, 25 bancos quebraram. Outros estão na iminência de quebrar e os grandes bancos estão recebendo aportes bilionários do governo para resistirem. A fanfarra baseada na crença do crescimento eterno do mercado imobiliário foi enorme. Os bancos não param de falir e estão entrando em colapso com mais rapidez. Na última sexta-feira, dois bancos faliram (o National Bank of Commerce, de Illinois, e o Bank of Clark County, de Washington) antes de qualquer tipo de ação do governo - a regulação foi tão afrouxada nas últimas décadas que o governo não tinha nem informações.
A previsão oficial é de outros 20 bancos vão falir, apenas nos primeiros três meses de 2009.
Com isso, o fluxo de dólares para a China diminuiu e tende a diminuir ainda mais. Os países da União Européia não são válvula de escape: a recessão é forte por lá também.
A grande diversificação comercial do governo Lula foi crucial para agüentar o tranco inicial da crise mundial. A maior parte das exportações de produtos de alto valor agregado são direcionadas para nossos vizinhos latinos - o comércio entre países da América Latina aumentou enormemente desde 2003.
Ainda assim, a maior parte do saldo comercial é razão da venda de commodities para os países industrializados. Dentre eles, nosso maior comprador é a China. Isso não mudou. Intensificou-se apenas. Com o Chile aconteceu a mesma coisa. Desde 2003, a produção industrial se diversificou, aumentando exportações e importações com os vizinhos. Mas praticamente 80% da entrada de dólares é oriunda do cobre, uma commodity.
Com a crise financeira internacional destruindo bancos dos países desenvolvidos, o crédito externo travou. Com isso, muitas linhas de financiamento de exportações brasileiras foram fechadas. Ao mesmo tempo, os bancos nacionais também pararam de conceder empréstimos (ou concedem a taxas absurdas, o que equivale a não emprestar). O financiamento, nos últimos dias, tem-se limitado às linhas especiais criadas pelo governo em dezembro. Mesmo o real mais desvalorizado não compensa, uma vez que a própria demanda interna está mais enfraquecida – de novo, efeito da escassez de crédito.
Esse é o panorama de como estamos, de como estão as coisas em janeiro de 2009, ainda que em compasso de espera para as primeiras medidas de Obama à frente dos Estados Unidos. O governo Obama é crucial, mas não agora. Antes é preciso preciso perceber o que há pela frente para depois discutir Obama, China e o resto do mundo (Brasil incluso) no meio disso.
O que importa é perceber a encruzilhada que o momento coloca à frente do Brasil e dos países emergentes de condições semelhantes.
Para manter as exportações fortes – o que é de interesse brasileiro para manter a entrada dos dólares necessários para honrar os compromissos externos, uma vez que nossa moeda não é conversível – o Brasil precisa que a China não pare. A maior parte de nossas exportações, como já se viu, refere-se a produtos básicos. A produção das commodities é relegada ao grande capital do agronegócio. Mas boa parte dos mercados importadores dos bens industriais chineses – os países ricos – estão em recessão. A China deve realocar essa produção para seu próprio mercado interno e para países como o Brasil: abertos, com renda mínima e com grande mercado interno.
Com as famílias americanas cortando seu consumo e a Europa deixando de ser uma alternativa, tudo o que os chineses querem é um Brasil importador. Com a demanda americana e européia em baixa também para as commodities brasileiras, tudo o que o Brasil quer é uma China importadora.
Ou seja, incentiva-se (de maneira indireta, é claro) a China para que ela continue comprando nossos bens primários, que depois serão remetidos de volta para cá sob a forma de produtos industriais.
Dessa maneira, mantendo aumentos do salário mínimo e de programas de transferência de renda (simplificando: para as classes baixas, Bolsa Família; para classes altas, superávit primário), os bancos ficam sem pressa para retomar o crédito, podendo manter o rigor seletivo e o lucro com títulos do Tesouro, e o Banco Central fica livre de se desgastar muito com o combate à inflação. Tanto os bancos quanto o BC, ajudados pelos produtos chineses que chegam com preços baixos e em grande quantidade. A renda mínima promove o consumo dos bens chineses sem necessitar do crédito bancário. A renda elevada mantém a produção dos bens primários que são levados à China.
O modelo desenhado é intermediário de uma troca de modelos, proporcionada pela conjuntura. Podemos entrar de cabeça no modelo sino-cêntrico ou podemos continuar no modelo anterior, vigente a pouco, de dominação americana.
Obama tem a chance única de fazer prevalecer o jogo como todos os participantes (vencedores e perdedores) conhecem: ele pode restituir a hegemonia americana por meio das finanças e do comércio. A hegemonia cultural, como sempre, é conseqüência da dominação econômica.
Com isso, mantém-se o processo de dependência externa, histórico e crônico ao mesmo tempo. O país continua colonizado, trocando ou não de colonizador.
Existe um processo pouco percebido sendo desenvolvido aos poucos no Brasil e nos países emergentes semelhantes. Não é nada formal ou mesmo um pacto entre elites dominantes, mas um jogo que estabelece vencedores (os mesmos de sempre e alguns novos jogadores) e esconde dos perdedores a grande derrota. Podemos estar diante de um modelo intermediário entre uma nova dominação ou a restituição da hegemonia clássica.
Explico.
As exportações brasileiras estão diminuindo em volume há anos, pelo efeito do real valorizado (quando Lula assumiu o dólar valia R$ 3,80; antes da crise chegou a R$ 1,55). Mas o saldo comercial não parava de crescer graças a um motor paralelo: o aumento dos preços dos produtos vendidos ao exterior. Quer dizer, vendia-se menos quantidade, mas as mercadorias valiam mais.
Estavam mais caras graças a nossa produção de bens industrializados de maior valor agregado? Não, embora tenhamos nos desenvolvido fortemente em vários setores. Mas nada que alterasse nossa composição exportadora. As mercadorias mais vendidas continuaram sendo os produtos primários de sempre: grãos e minérios. Commodities, em geral. Por que elas aumentavam de preços? Graças a enorme e crescente demanda chinesa.
O desenvolvimento chinês dos últimos trinta anos produziu uma economia fortemente urbana, com moeda desvalorizada (o que incentiva as exportações, uma vez que com a mesma quantidade de dólares recebidos pela venda se consegue maior quantidade de moeda nacional) e mão-de-obra barata, sem direitos trabalhistas e impostos baixos. O modelo era simples: importa-se produtos básicos, industrializa internamente e reverte para exportação. Os dólares entram e enchem as reservas. Essas são aplicadas nos Estados Unidos, ajudando as famílias americanas a se endividarem e adquirirem mais e mais produtos chineses.
A crise financeira americana alterou profundamente os termos desse modelo. Com a falência de bancos, o crédito secou. Sem crédito, as famílias pararam de rolar suas dívidas - asfixiando os bancos ainda mais - e pararam de consumir. No ano passado, 25 bancos quebraram. Outros estão na iminência de quebrar e os grandes bancos estão recebendo aportes bilionários do governo para resistirem. A fanfarra baseada na crença do crescimento eterno do mercado imobiliário foi enorme. Os bancos não param de falir e estão entrando em colapso com mais rapidez. Na última sexta-feira, dois bancos faliram (o National Bank of Commerce, de Illinois, e o Bank of Clark County, de Washington) antes de qualquer tipo de ação do governo - a regulação foi tão afrouxada nas últimas décadas que o governo não tinha nem informações.
A previsão oficial é de outros 20 bancos vão falir, apenas nos primeiros três meses de 2009.
Com isso, o fluxo de dólares para a China diminuiu e tende a diminuir ainda mais. Os países da União Européia não são válvula de escape: a recessão é forte por lá também.
A grande diversificação comercial do governo Lula foi crucial para agüentar o tranco inicial da crise mundial. A maior parte das exportações de produtos de alto valor agregado são direcionadas para nossos vizinhos latinos - o comércio entre países da América Latina aumentou enormemente desde 2003.
Ainda assim, a maior parte do saldo comercial é razão da venda de commodities para os países industrializados. Dentre eles, nosso maior comprador é a China. Isso não mudou. Intensificou-se apenas. Com o Chile aconteceu a mesma coisa. Desde 2003, a produção industrial se diversificou, aumentando exportações e importações com os vizinhos. Mas praticamente 80% da entrada de dólares é oriunda do cobre, uma commodity.
Com a crise financeira internacional destruindo bancos dos países desenvolvidos, o crédito externo travou. Com isso, muitas linhas de financiamento de exportações brasileiras foram fechadas. Ao mesmo tempo, os bancos nacionais também pararam de conceder empréstimos (ou concedem a taxas absurdas, o que equivale a não emprestar). O financiamento, nos últimos dias, tem-se limitado às linhas especiais criadas pelo governo em dezembro. Mesmo o real mais desvalorizado não compensa, uma vez que a própria demanda interna está mais enfraquecida – de novo, efeito da escassez de crédito.
Esse é o panorama de como estamos, de como estão as coisas em janeiro de 2009, ainda que em compasso de espera para as primeiras medidas de Obama à frente dos Estados Unidos. O governo Obama é crucial, mas não agora. Antes é preciso preciso perceber o que há pela frente para depois discutir Obama, China e o resto do mundo (Brasil incluso) no meio disso.
O que importa é perceber a encruzilhada que o momento coloca à frente do Brasil e dos países emergentes de condições semelhantes.
Para manter as exportações fortes – o que é de interesse brasileiro para manter a entrada dos dólares necessários para honrar os compromissos externos, uma vez que nossa moeda não é conversível – o Brasil precisa que a China não pare. A maior parte de nossas exportações, como já se viu, refere-se a produtos básicos. A produção das commodities é relegada ao grande capital do agronegócio. Mas boa parte dos mercados importadores dos bens industriais chineses – os países ricos – estão em recessão. A China deve realocar essa produção para seu próprio mercado interno e para países como o Brasil: abertos, com renda mínima e com grande mercado interno.
Com as famílias americanas cortando seu consumo e a Europa deixando de ser uma alternativa, tudo o que os chineses querem é um Brasil importador. Com a demanda americana e européia em baixa também para as commodities brasileiras, tudo o que o Brasil quer é uma China importadora.
Ou seja, incentiva-se (de maneira indireta, é claro) a China para que ela continue comprando nossos bens primários, que depois serão remetidos de volta para cá sob a forma de produtos industriais.
Dessa maneira, mantendo aumentos do salário mínimo e de programas de transferência de renda (simplificando: para as classes baixas, Bolsa Família; para classes altas, superávit primário), os bancos ficam sem pressa para retomar o crédito, podendo manter o rigor seletivo e o lucro com títulos do Tesouro, e o Banco Central fica livre de se desgastar muito com o combate à inflação. Tanto os bancos quanto o BC, ajudados pelos produtos chineses que chegam com preços baixos e em grande quantidade. A renda mínima promove o consumo dos bens chineses sem necessitar do crédito bancário. A renda elevada mantém a produção dos bens primários que são levados à China.
O modelo desenhado é intermediário de uma troca de modelos, proporcionada pela conjuntura. Podemos entrar de cabeça no modelo sino-cêntrico ou podemos continuar no modelo anterior, vigente a pouco, de dominação americana.
Obama tem a chance única de fazer prevalecer o jogo como todos os participantes (vencedores e perdedores) conhecem: ele pode restituir a hegemonia americana por meio das finanças e do comércio. A hegemonia cultural, como sempre, é conseqüência da dominação econômica.
Com isso, mantém-se o processo de dependência externa, histórico e crônico ao mesmo tempo. O país continua colonizado, trocando ou não de colonizador.
# Escrito por
João Villaverde
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quinta-feira, janeiro 22, 2009
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Pitacos sobre economia
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Eu gosto de economia. Acho uma pena que uma ciência tão nobre como a economia tenha sido tão apequenada por algumas escolas, que esqueceram o seu aspecto eminentemente humano, subjetivo, filosófico, e, porque não, artístico. Talvez o primeiro economista moderno tenha sido o pensador escolástico William de Ockam (1288 a 1348), um franciscano genial, famoso pela expressão "a navalha de Ockam", que tanto influenciou cientistas contemporâneos. A expressão indica o princípio segundo o qual a solução mais simples para um problema é, em geral, a mais correta. O próprio Ockam alertava para a simplificação grosseira de seu pensamento, visto que, obviamente, há exceções; este conceito, todavia, balizou uma atitude filosófica mais limpa, mais simples, mais honesta, fundamental para a derrocada do pensamento escolástico, que era, em muitos aspectos, inutilmente místico, vaidosamente hermético e convenientemente complicado. A filosofia que florescerá no renascimento, ao contrário, será tocantemente simples, acessível a quase todos, como é o caso do pensamento de Descartes, esse outro grande pensador, que é, aliás, hoje tremendamente injustiçado.
Ockam influenciou profundamente a ciência moderna. Albert Einsten, por exemplo, segundo alguns, teria pensado em Ockam quando escreveu que "as teorias devem ser tão simples quanto possível, mas nem sempre devemos escolher as mais simples", referindo-se a sua revolucionária Teoria da Relatividade. Mesmo aqueles que se professariam anti-ockanianos, como Immanuel Kant, não deixaram, por isso mesmo, de receber os fluxos emanados pelo corajoso franciscano. Sim, porque Ockam foi um homem extremamente corajoso. Sua época não era fácil, e os franciscanos não eram vistos com bons olhos pelo faustoso e opulento Vaticano. Encerrou a vida excomungado pelo Papa, em virtude de sua defesa de um Estado moderno, secular, e sua luta constante pela liberdade do indivíduo.
Ockam também pregava, e nisso antecipou-se a Kant, que o conhecimento nasce da intuição. Com isso, atacava os vaidosos eruditos das universidades católicas, que se arvoraram monopolizadores do conhecimento. É que, se o conhecimento nasce da intuição, ele é, então, essencialmente democrático. Qualquer filho de Deus, independente de sua formação acadêmica, pode alcançar o conhecimento. Na realidade, em alguns casos, a formação acadêmica até atrapalha, ao oprimir a imaginação e a intuição.
Encontro ecos destes belos pensamentos em Moby Dick, de Melville, ao saudar o Deus "democrático", que concede talento e genialidade a seus filhos mais simples. Quando analisamos a história da arte, onde o sangue nobre tão raramente coincide com talento, não podemos discordar de verdade tão simples e duradoura. Melville lembra ainda, com imenso orgulho, da eleição de Andrew Jackson para a presidência dos Estados Unidos em 1829. Jackson era um pobre filho de imigrantes, soldado e pequeno advogado sem diploma, que tornou-se o primeiro presidente americano não aristocrata, com enorme popularidade nas classes pobres, ficando conhecido como "candidato do povo". Mais tarde, os EUA teriam outro presidente identificado com o homem comum, Abraham Lincoln, filho de lenhador cuja educação formal se limitou a 18 meses num colégio público. Lincoln elegeu-se em 1861 e, mesmo com sua pouca educação formal, tornou-se um oradores mais brilhantes da história política americana.
Onde quero chegar? Bem, quero chegar no seguinte ponto. Essa crise mais uma vez nos mostrou que o conhecimento não se compra em universidades caras. O conhecimento é fruto da intuição, um dom da natureza distribuído democraticamente a todos os cidadãos do mundo. Executivos com pós-graduação em Harvard ou Yale responderam pelas burradas financeiras mais retumbantes em séculos. Aliás, nunca é demais lembrar que George W.Bush formou-se em Yale...
Em literatura, a regra de Ockam também é válida; com exceções, naturalmente. A forma linguística mais simples é, na maioria das vezes, a mais elegante, mais eficaz, mais bela. Não quero pregar contra o valor do estudo formal. Estou falando de economia. Estou falando da crise. Gostaria de contribuir, dentro das minhas limitações, para reduzir o pessimismo que se alastra pela sociedade brasileira. Em economia também as soluções mais simples são as mais eficientes e a criatividade vale mais do que a erudição; porque a criatividade é um conhecimento vivo, voltado para o presente e para o futuro, enquanto a erudição seca, formalóide, debruça-se sobre um passado morto, o qual, mesmo assim, não consegue compreender inteiramente.
Essa criatividade de que falo vale, claro, para as análises políticas. Também temos que pensar criativamente para entender melhor um mundo em rápida transformação. Tenho para mim que a atual crise é uma gigantesca reacomodação de forças, gerada pelas mudanças profundas causadas pelas novas tecnologias, que por sua vez permitiram que funções absolutamente complexas e o acesso à informação, antes monopolizados por grupos de grande poder econômico, fossem universalmente democratizados.
Essas mudanças também se refletem dentro do país. A atual crise deverá reduzir substancialmente o peso de São Paulo na economia nacional. A informação, que era monopólio de grupos sociais situados em São Paulo, não mais tem dono. A internet permite que dois ou três amigos em Juazeiro do Norte criem uma assessoria de imprensa tão ou mais eficiente que qualquer empresa similiar sediada nos Jardins. E por aí vai.
Mas não quero aqui fazer uma análise anti-São Paulo, e sim demonstrar como a economia brasileira registrou um salto sem precedentes desde meados dos anos 90. Tentemos esquecer, por um momento, as disputas partidárias. Em 1994, o PIB brasileiro fechou em R$ 349 bilhões. Em 2007, encerramos o ano com um PIB de R$ 2,6 trilhões. As exportações brasileiras, que somaram US$ 43,54 bilhões em 1994, alcançaram US$ 198 bilhões em 2008.
O endividamento do setor público brasileiro também merece destaque. E aí não posso me furtar a uma observação "partidária". A midia, que acusa tanto o governo Lula de ser perdulário, não informa que é este governo que está reduzindo, de forma substancial, o endividamento público nacional. E que foi o governo do PSDB que fez os gastos com dívida explodirem. Ou seja, o Estado "gastador", "perdulário", aconteceu nos anos de 1994 a 2002, quando o endividamento público cresceu de 32,3% do PIB, em janeiro de 1994, para 50,5% do PIB, em dezembro de 2002. Hoje (Dez/2008) o mesmo endividamento caiu para 34,9% do PIB. Ou seja, o Estado brasileiro está gastando muito menos com juros de dívida do que antes. Gastanto algumas dezenas de bilhões a menos. Para nossa mídia insensata, gastos com juros são válidos, o que o governo não pode é gastar com médicos, professores, auditores, técnicos do Ibama, enfim, com pessoal.
*
Por fim, uma tabela atualizada com dados do IBGE sobre o comércio varejista até novembro. Reparem que a queda em novembro deste ano, sobre o mesmo mês de 2007, foi de apenas 0,4%. Deve-se considerar, neste número, que 2007 foi um ano que registrou um crescimento muito vigoroso. O mais importante, todavia, é observar que, no acumulado de 12 meses, o comércio varejista no Brasil registra crescimento de 15,6%! Ou seja, mesmo que dezembro e janeiro apresentem números ruins - e as informações que temos é de uma recuperação nestes meses -, os números acumulados devem permanecer muito positivos.

(Clique na imagem para ampliar)
*
Na questão do desemprego, que registrou um saldo negativo muito acentuado em dezembro, nota-se uma concentração grande em São Paulo e Minas Gerais, dois estados governados pelo PSDB, onde seus mandatários, ao que parece, não realizaram nenhum esforço junto às lideranças empresariais de suas regiões para salvaguardarem o nível de emprego. Também não atuaram, junto aos meios de comunicação de seus estados, que evitassem disseminar um alarmismo nocivo.
Ao contrário, muitas matérias foram escritas, no início do terremoto financeiro, sobre a possibilidade de queda de popularidade do presidente Lula diante do agravamento da crise. E os jornais parecem particularmente entusiasmados em apresentarem notícias negativas, omitindo análises generalizadas sobre a resistência ímpar do Brasil às turbulências internacionais. Mais uma vez se verifica que a mesquinhez política e a desonestidade intelectual, somadas à ambição desmedida e quase desesperada pelo poder, predominaram sobre o interesse nacional e a preocupação com a estabilidade de uma economia onde ainda existem milhões de pessoas vivendo em situação extremamente delicada, extremamente vulneráveis a qualquer oscilação negativa da economia.
As pessoas que pensam e observam a política brasileira estão atentas a essa absurda demonstração de egoísmo e loucura partidários. Espero que os empresários que perderem dinheiro participando desse jogo sujo de chantagem econômica também parem para refletir sobre a utilidade, para si mesmos, para suas empresas, e para o país, de se continuar apostando nessa forma mesquinha e tacanha de se fazer política.
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Opa! Notícia super atualizada! Segundo IBGE, taxa de desemprego cai o menor nível histórico.
Ockam influenciou profundamente a ciência moderna. Albert Einsten, por exemplo, segundo alguns, teria pensado em Ockam quando escreveu que "as teorias devem ser tão simples quanto possível, mas nem sempre devemos escolher as mais simples", referindo-se a sua revolucionária Teoria da Relatividade. Mesmo aqueles que se professariam anti-ockanianos, como Immanuel Kant, não deixaram, por isso mesmo, de receber os fluxos emanados pelo corajoso franciscano. Sim, porque Ockam foi um homem extremamente corajoso. Sua época não era fácil, e os franciscanos não eram vistos com bons olhos pelo faustoso e opulento Vaticano. Encerrou a vida excomungado pelo Papa, em virtude de sua defesa de um Estado moderno, secular, e sua luta constante pela liberdade do indivíduo.
Ockam também pregava, e nisso antecipou-se a Kant, que o conhecimento nasce da intuição. Com isso, atacava os vaidosos eruditos das universidades católicas, que se arvoraram monopolizadores do conhecimento. É que, se o conhecimento nasce da intuição, ele é, então, essencialmente democrático. Qualquer filho de Deus, independente de sua formação acadêmica, pode alcançar o conhecimento. Na realidade, em alguns casos, a formação acadêmica até atrapalha, ao oprimir a imaginação e a intuição.
Encontro ecos destes belos pensamentos em Moby Dick, de Melville, ao saudar o Deus "democrático", que concede talento e genialidade a seus filhos mais simples. Quando analisamos a história da arte, onde o sangue nobre tão raramente coincide com talento, não podemos discordar de verdade tão simples e duradoura. Melville lembra ainda, com imenso orgulho, da eleição de Andrew Jackson para a presidência dos Estados Unidos em 1829. Jackson era um pobre filho de imigrantes, soldado e pequeno advogado sem diploma, que tornou-se o primeiro presidente americano não aristocrata, com enorme popularidade nas classes pobres, ficando conhecido como "candidato do povo". Mais tarde, os EUA teriam outro presidente identificado com o homem comum, Abraham Lincoln, filho de lenhador cuja educação formal se limitou a 18 meses num colégio público. Lincoln elegeu-se em 1861 e, mesmo com sua pouca educação formal, tornou-se um oradores mais brilhantes da história política americana.
Onde quero chegar? Bem, quero chegar no seguinte ponto. Essa crise mais uma vez nos mostrou que o conhecimento não se compra em universidades caras. O conhecimento é fruto da intuição, um dom da natureza distribuído democraticamente a todos os cidadãos do mundo. Executivos com pós-graduação em Harvard ou Yale responderam pelas burradas financeiras mais retumbantes em séculos. Aliás, nunca é demais lembrar que George W.Bush formou-se em Yale...
Em literatura, a regra de Ockam também é válida; com exceções, naturalmente. A forma linguística mais simples é, na maioria das vezes, a mais elegante, mais eficaz, mais bela. Não quero pregar contra o valor do estudo formal. Estou falando de economia. Estou falando da crise. Gostaria de contribuir, dentro das minhas limitações, para reduzir o pessimismo que se alastra pela sociedade brasileira. Em economia também as soluções mais simples são as mais eficientes e a criatividade vale mais do que a erudição; porque a criatividade é um conhecimento vivo, voltado para o presente e para o futuro, enquanto a erudição seca, formalóide, debruça-se sobre um passado morto, o qual, mesmo assim, não consegue compreender inteiramente.
Essa criatividade de que falo vale, claro, para as análises políticas. Também temos que pensar criativamente para entender melhor um mundo em rápida transformação. Tenho para mim que a atual crise é uma gigantesca reacomodação de forças, gerada pelas mudanças profundas causadas pelas novas tecnologias, que por sua vez permitiram que funções absolutamente complexas e o acesso à informação, antes monopolizados por grupos de grande poder econômico, fossem universalmente democratizados.
Essas mudanças também se refletem dentro do país. A atual crise deverá reduzir substancialmente o peso de São Paulo na economia nacional. A informação, que era monopólio de grupos sociais situados em São Paulo, não mais tem dono. A internet permite que dois ou três amigos em Juazeiro do Norte criem uma assessoria de imprensa tão ou mais eficiente que qualquer empresa similiar sediada nos Jardins. E por aí vai.
Mas não quero aqui fazer uma análise anti-São Paulo, e sim demonstrar como a economia brasileira registrou um salto sem precedentes desde meados dos anos 90. Tentemos esquecer, por um momento, as disputas partidárias. Em 1994, o PIB brasileiro fechou em R$ 349 bilhões. Em 2007, encerramos o ano com um PIB de R$ 2,6 trilhões. As exportações brasileiras, que somaram US$ 43,54 bilhões em 1994, alcançaram US$ 198 bilhões em 2008.
O endividamento do setor público brasileiro também merece destaque. E aí não posso me furtar a uma observação "partidária". A midia, que acusa tanto o governo Lula de ser perdulário, não informa que é este governo que está reduzindo, de forma substancial, o endividamento público nacional. E que foi o governo do PSDB que fez os gastos com dívida explodirem. Ou seja, o Estado "gastador", "perdulário", aconteceu nos anos de 1994 a 2002, quando o endividamento público cresceu de 32,3% do PIB, em janeiro de 1994, para 50,5% do PIB, em dezembro de 2002. Hoje (Dez/2008) o mesmo endividamento caiu para 34,9% do PIB. Ou seja, o Estado brasileiro está gastando muito menos com juros de dívida do que antes. Gastanto algumas dezenas de bilhões a menos. Para nossa mídia insensata, gastos com juros são válidos, o que o governo não pode é gastar com médicos, professores, auditores, técnicos do Ibama, enfim, com pessoal.
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Por fim, uma tabela atualizada com dados do IBGE sobre o comércio varejista até novembro. Reparem que a queda em novembro deste ano, sobre o mesmo mês de 2007, foi de apenas 0,4%. Deve-se considerar, neste número, que 2007 foi um ano que registrou um crescimento muito vigoroso. O mais importante, todavia, é observar que, no acumulado de 12 meses, o comércio varejista no Brasil registra crescimento de 15,6%! Ou seja, mesmo que dezembro e janeiro apresentem números ruins - e as informações que temos é de uma recuperação nestes meses -, os números acumulados devem permanecer muito positivos.

(Clique na imagem para ampliar)
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Na questão do desemprego, que registrou um saldo negativo muito acentuado em dezembro, nota-se uma concentração grande em São Paulo e Minas Gerais, dois estados governados pelo PSDB, onde seus mandatários, ao que parece, não realizaram nenhum esforço junto às lideranças empresariais de suas regiões para salvaguardarem o nível de emprego. Também não atuaram, junto aos meios de comunicação de seus estados, que evitassem disseminar um alarmismo nocivo.
Ao contrário, muitas matérias foram escritas, no início do terremoto financeiro, sobre a possibilidade de queda de popularidade do presidente Lula diante do agravamento da crise. E os jornais parecem particularmente entusiasmados em apresentarem notícias negativas, omitindo análises generalizadas sobre a resistência ímpar do Brasil às turbulências internacionais. Mais uma vez se verifica que a mesquinhez política e a desonestidade intelectual, somadas à ambição desmedida e quase desesperada pelo poder, predominaram sobre o interesse nacional e a preocupação com a estabilidade de uma economia onde ainda existem milhões de pessoas vivendo em situação extremamente delicada, extremamente vulneráveis a qualquer oscilação negativa da economia.
As pessoas que pensam e observam a política brasileira estão atentas a essa absurda demonstração de egoísmo e loucura partidários. Espero que os empresários que perderem dinheiro participando desse jogo sujo de chantagem econômica também parem para refletir sobre a utilidade, para si mesmos, para suas empresas, e para o país, de se continuar apostando nessa forma mesquinha e tacanha de se fazer política.
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Miguel do Rosário
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quinta-feira, janeiro 22, 2009
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21 de janeiro de 2009
Obama inaugura novo século com discurso emocionante
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Ontem liguei a tv para assistir o Jornal da Globo, com William Waack. Queria informações sobre a posse de Barack Obama. Fiquei sabendo, então, por Waack, que o discurso de posse do novo presidente dos Estados Unidos não provocara muito entusiasmo na multidão que o assistia, e que havia sido um discurso bastante seco, advertindo o povo americano dos necessários sacrifícios que teria de fazer. O correspondente do Globo em Washington não discordou, embora tenha acentuado, com voz embargada, que havia sido um dia de muitas emoções.
Fui dormir um pouco decepcionado. Esperava um discurso emocionante de Obama. Sem contar o fato estranho, que li na web, de que o pastor escolhido por Obama para fazer o sermão do juramento presidencial, era um sujeito da ultra-direita católica, um histórico racista. O fato gerou comentários maliciosos na internet sobre as "concessões" do novo governo.
Acordei hoje e peguei o jornal na portaria. Olhei as manchetes e, antes de ler, antes portanto de purgar minha "azia" matinal, resolvi escrever um poema. Depois liguei o computador e decidi, ainda antes de ler o jornal, assistir o discurso da posse no youtube, sem tradução simultânea. Acompanhei o áudio do vídeo lendo a transcrição num outro site. E constatei, pela milionésima vez, que se você quiser ficar bem informado, tem que procurar as fontes originais. A opinião de Waack sobre o discurso, definitivamente, não correspondia à realidade.
Obama fez um discurso belo, prudente e corajoso. Se o 11 de setembro fechou o século XX, o século XXI só começou agora, com a posse de Obama. O chamamento ao "sacrifício" resumiu-se a um lugar-comum para tempos de crise, mas também não economizou sua oferta de esperança e não se furtou a citar nenhuma das bandeiras da esquerda americana. A luta contra o racismo foi abordada quando falou que há sessenta anos um negro como ele não poderia sequer entrar num restaurante. A questão da saúde pública entrou no discurso quando prometeu baixar os custos de tratamento. Atacou a má distribuição de renda afirmando que o governo não pode privilegiar os ricos. Acenou para as organizações multilaterais quando observou que os adversários nunca serão vencidos sem o apoio dos países aliados. Lembrou que a força de um país não se mede apenas por sua pujança militar mas sobretudo pela justeza de seus ideais e pela maneira como pretende difundi-los. Disse que o Estado não pode ser mínimo nem máximo, mas em linha com as necessidades de seu povo. Que o mercado deve ser vigiado pelas autoridades para que não fuja ao controle. Obama lembrou ainda a necessidade dos EUA realizarem mudanças profundas em sua matriz energética, reduzindo o uso de petróleo e elevando o de combustíveis alternativos.
Disse, enfim, que a esperança deve triunfar sobre o medo. E que os ideais e valores que fundaram a grande nação americana são sua verdadeira riqueza, aquela que nunca será negociada na bolsa de valores (palavras minhas).
Ao ver o tal pastor de direita lendo o juramento de Obama, pensei que mesmo a escolha do sujeito foi inteligente, pois foi como um ex-escravo chamar seu ex-carrasco para lhe servir o cafezinho. Um sinal de mão estendida e, ao mesmo tempo, um sinal de poder, mostrando aos racistas americanos que podem, se quiserem, continuar exercendo o sagrado direito americano de falar asneiras, mas quem manda na casa agora é ele, um negro filho de pai queniano, um democrata de esquerda, um homem chamado Barack Hussein Obama.
Também falou na recuperação dos investimentos do Estado em pesquisas científicas; e no fato dos EUA serem, além de católicos e protestantes, uma nação muçulmana e budista e atéia.
As pessoas se emocionaram muito. Gritaram, choraram. Talvez não tenham feito o escândalo que William Waack desejava. Talvez não tenham desmaiado em massa. Mas ouviram atentamente. Dois milhões de americanos, de todas as cores e credos, reuniram-se sob um frio abaixo de zero e escutaram, silenciosa e respeitosamente, o seu presidente discursar e incutir-lhes esperança.
*
A mídia brasileira divulgou uma foto mostrando Obama segurando um jornal e soaram vozes por todos os lados: estão vendo, Obama, ao contrário de Lula, lê jornais!
Bem, agora que assumirá a cadeira de presidente da República, creio que Obama, assim como qualquer presidente do mundo, terá que reduzir o tempo dedicado à leitura de jornais, delegando a função de selecionar matérias para seus assessores. Entretanto, mesmo que resolva perder as primeiras preciosas horas de sua manhã lendo o New York Times, Obama seguramente não sentirá a azia que sentiria se fizesse a mesma coisa no Brasil, lendo jornais brasileiros. Primeiro porque os grandes jornais americanos, honesta e transparentemente, divulgam que candidato apóiam, e neste último pleito apoiaram Obama. Os colunistas americanos identificam-se bastante claramente entre conservadores e liberais que, até o surgimento de Obama, cujo carisma e inteligência e conveniência histórica embaralhou as posições, dividiam-se também de forma bastante previsível entre republicanos e democratas. A midia americana, mesmo quando acusava presidentes de serem "comunistas", como fez a Roosevelt, nunca defendeu golpes militares anti-democráticos.
*
A mudança no comando dos EUA deverá se espraiar por todas as instituições americanas. Centenas de milhares de funções serão ocupadas por sangue novo, não conservadores. A paranóia anti-comunista, usada oportunisticamente por conservadores, desde os tempos do senador McCarthy, para defenestrar gente honesta e cérebros independentes, ver-se-á reduzida. Nosso direitaço maior, excelentíssimo senhor Olavo de Carvalho, que até hoje procura comunistas sob sua cama, e que defende a tese de a nossa midia (!!!!) é esquerdista, terá que aumentar sua dose de tranquilizantes.
*
Agora, Obama não é um deus posto no alto do olimpo estadunidense. Ou seja, os decepcionados que voltem para suas igrejinhas e procurem consolo em Deus.
Fui dormir um pouco decepcionado. Esperava um discurso emocionante de Obama. Sem contar o fato estranho, que li na web, de que o pastor escolhido por Obama para fazer o sermão do juramento presidencial, era um sujeito da ultra-direita católica, um histórico racista. O fato gerou comentários maliciosos na internet sobre as "concessões" do novo governo.
Acordei hoje e peguei o jornal na portaria. Olhei as manchetes e, antes de ler, antes portanto de purgar minha "azia" matinal, resolvi escrever um poema. Depois liguei o computador e decidi, ainda antes de ler o jornal, assistir o discurso da posse no youtube, sem tradução simultânea. Acompanhei o áudio do vídeo lendo a transcrição num outro site. E constatei, pela milionésima vez, que se você quiser ficar bem informado, tem que procurar as fontes originais. A opinião de Waack sobre o discurso, definitivamente, não correspondia à realidade.
Obama fez um discurso belo, prudente e corajoso. Se o 11 de setembro fechou o século XX, o século XXI só começou agora, com a posse de Obama. O chamamento ao "sacrifício" resumiu-se a um lugar-comum para tempos de crise, mas também não economizou sua oferta de esperança e não se furtou a citar nenhuma das bandeiras da esquerda americana. A luta contra o racismo foi abordada quando falou que há sessenta anos um negro como ele não poderia sequer entrar num restaurante. A questão da saúde pública entrou no discurso quando prometeu baixar os custos de tratamento. Atacou a má distribuição de renda afirmando que o governo não pode privilegiar os ricos. Acenou para as organizações multilaterais quando observou que os adversários nunca serão vencidos sem o apoio dos países aliados. Lembrou que a força de um país não se mede apenas por sua pujança militar mas sobretudo pela justeza de seus ideais e pela maneira como pretende difundi-los. Disse que o Estado não pode ser mínimo nem máximo, mas em linha com as necessidades de seu povo. Que o mercado deve ser vigiado pelas autoridades para que não fuja ao controle. Obama lembrou ainda a necessidade dos EUA realizarem mudanças profundas em sua matriz energética, reduzindo o uso de petróleo e elevando o de combustíveis alternativos.
Disse, enfim, que a esperança deve triunfar sobre o medo. E que os ideais e valores que fundaram a grande nação americana são sua verdadeira riqueza, aquela que nunca será negociada na bolsa de valores (palavras minhas).
Ao ver o tal pastor de direita lendo o juramento de Obama, pensei que mesmo a escolha do sujeito foi inteligente, pois foi como um ex-escravo chamar seu ex-carrasco para lhe servir o cafezinho. Um sinal de mão estendida e, ao mesmo tempo, um sinal de poder, mostrando aos racistas americanos que podem, se quiserem, continuar exercendo o sagrado direito americano de falar asneiras, mas quem manda na casa agora é ele, um negro filho de pai queniano, um democrata de esquerda, um homem chamado Barack Hussein Obama.
Também falou na recuperação dos investimentos do Estado em pesquisas científicas; e no fato dos EUA serem, além de católicos e protestantes, uma nação muçulmana e budista e atéia.
As pessoas se emocionaram muito. Gritaram, choraram. Talvez não tenham feito o escândalo que William Waack desejava. Talvez não tenham desmaiado em massa. Mas ouviram atentamente. Dois milhões de americanos, de todas as cores e credos, reuniram-se sob um frio abaixo de zero e escutaram, silenciosa e respeitosamente, o seu presidente discursar e incutir-lhes esperança.
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A mídia brasileira divulgou uma foto mostrando Obama segurando um jornal e soaram vozes por todos os lados: estão vendo, Obama, ao contrário de Lula, lê jornais!
Bem, agora que assumirá a cadeira de presidente da República, creio que Obama, assim como qualquer presidente do mundo, terá que reduzir o tempo dedicado à leitura de jornais, delegando a função de selecionar matérias para seus assessores. Entretanto, mesmo que resolva perder as primeiras preciosas horas de sua manhã lendo o New York Times, Obama seguramente não sentirá a azia que sentiria se fizesse a mesma coisa no Brasil, lendo jornais brasileiros. Primeiro porque os grandes jornais americanos, honesta e transparentemente, divulgam que candidato apóiam, e neste último pleito apoiaram Obama. Os colunistas americanos identificam-se bastante claramente entre conservadores e liberais que, até o surgimento de Obama, cujo carisma e inteligência e conveniência histórica embaralhou as posições, dividiam-se também de forma bastante previsível entre republicanos e democratas. A midia americana, mesmo quando acusava presidentes de serem "comunistas", como fez a Roosevelt, nunca defendeu golpes militares anti-democráticos.
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A mudança no comando dos EUA deverá se espraiar por todas as instituições americanas. Centenas de milhares de funções serão ocupadas por sangue novo, não conservadores. A paranóia anti-comunista, usada oportunisticamente por conservadores, desde os tempos do senador McCarthy, para defenestrar gente honesta e cérebros independentes, ver-se-á reduzida. Nosso direitaço maior, excelentíssimo senhor Olavo de Carvalho, que até hoje procura comunistas sob sua cama, e que defende a tese de a nossa midia (!!!!) é esquerdista, terá que aumentar sua dose de tranquilizantes.
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Agora, Obama não é um deus posto no alto do olimpo estadunidense. Ou seja, os decepcionados que voltem para suas igrejinhas e procurem consolo em Deus.
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quarta-feira, janeiro 21, 2009
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18 de janeiro de 2009
Mídia e elites é que não acreditavam na democracia
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Os conservadores costumam atacar os jovens que pegaram em armas para lutar contra o regime militar, afirmando que eles também queriam implantar uma ditadura no Brasil. Com isso, procuram deslustrar não somente seu heroísmo e coragem, mas o próprio fundamento ético e ideológico de seus atos. Com a entrada em cena de uma candidata presidencial que já foi guerrilheira e comunista, esses mesmos argumentos deverão ser repetidos à exaustão, sem compromisso com a sua lógica. A política, infelizmente, não é um lugar de busca da verdade; ao contrário, a prática política no Brasil, notadamente no campo conservador, que monopoliza a mídia e, portanto, domina a ferramenta mais poderosa de persuasão coletiva, caracteriza-se pela flexibilidade de seu rigor na busca pela verdade. De onde vem o dinheiro?, gritavam os conservadores na mídia, na época da crise do mensalão. Quando se descobre que o grosso da bufunfa vinha de empresas guiadas pelo banqueiro-bandido Daniel Dantas, toda a curiosidade se esvai, por causa das implicações desagradáveis que isso pode acarretar para políticos de partidos conservadores. Onde está a energia investigativa da mídia agora? Onde estão os info-gráficos e suas setinhas e diagramas?
A mesma coisa acontece no caso da tentativa de desmerecer a coragem e o valor dos jovens que combateram os militares. Afirmam que eles não queriam uma volta à democracia. Que pretendiam implantar um regime igualmente autoritário. Certo. Estão absolutamente certos. Mas porque esses jovens não mais acreditavam na democracia? Porque jovens, na maior parte de classe média, com boa instrução e, portanto, com plena capacidade para exercer qualquer função intelectual e política, não acreditavam no poder transformador da democracia?
Ora, eles não acreditavam porque a democracia no Brasil fora humilhantemente derrotada pela força bruta dos militares, com apoio irrestrito da imprensa e de setores influentes das classe média e alta. Eles não acreditavam na democracia porque a democracia vinha sendo virtualmente humilhada e derrotada em toda a América Latina. A troco de que esses jovens lutariam pela democracia? De que adiantaria vencer o regime militar e implantar a democracia, e ver a democracia novamente derrotada?
A mesma coisa ocorreu em Cuba. Acusa-se os revolucionários cubanos de não acreditarem na democracia. Que Che Guevara e Fidel Castro não acreditavam na democracia. Mas quem derrubou o regime democrático em Cuba não foram os revolucionários de Sierra Maestra. Não foram Che ou Fidel. Quem derrubou a democracia em Cuba foi, como em toda a América Latina, a direita, as classes conservadoras, com apoio financeiro e político dos Estados Unidos. A revolução cubana realizou-se para derrotar a cruel e corrupta ditadura de Fulgêncio Batista, aliado do governo americano e patrocinado tanto por dinheiro do contribuinte americano quanto por mafiosos americanos interessados em lavar dinheiro na ilha.
Esse é o argumento que devemos usar quando a direita acusar os jovens que lutaram contra a ditadura de não serem "democratas". Quem não acreditava na democracia, no Brasil, não eram os jovens, e sim as elites que marcharam em São Paulo e Rio de Janeiro contra um governo democraticamente eleito, com vistas (hoje se sabe, pelo Gaspari, que as lideranças dessas marchas sabiam do golpe iminente) a dar apoio político à derrubada do regime democrático. Quem não acreditava na democracia era a mídia, incluindo Jornal O Globo, Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, que ajudaram a enfraquecer o governo e defenderam o golpe militar.
Os jovens que lutaram contra a ditadura não acreditavam na democracia porque a democracia fora desacreditada, estuprada, humilhada, ridicularizada pelos militares, pela direita, pela elite e pela mídia. Não só no Brasil, mas em toda a América Latina.
A mesma coisa acontece no caso da tentativa de desmerecer a coragem e o valor dos jovens que combateram os militares. Afirmam que eles não queriam uma volta à democracia. Que pretendiam implantar um regime igualmente autoritário. Certo. Estão absolutamente certos. Mas porque esses jovens não mais acreditavam na democracia? Porque jovens, na maior parte de classe média, com boa instrução e, portanto, com plena capacidade para exercer qualquer função intelectual e política, não acreditavam no poder transformador da democracia?
Ora, eles não acreditavam porque a democracia no Brasil fora humilhantemente derrotada pela força bruta dos militares, com apoio irrestrito da imprensa e de setores influentes das classe média e alta. Eles não acreditavam na democracia porque a democracia vinha sendo virtualmente humilhada e derrotada em toda a América Latina. A troco de que esses jovens lutariam pela democracia? De que adiantaria vencer o regime militar e implantar a democracia, e ver a democracia novamente derrotada?
A mesma coisa ocorreu em Cuba. Acusa-se os revolucionários cubanos de não acreditarem na democracia. Que Che Guevara e Fidel Castro não acreditavam na democracia. Mas quem derrubou o regime democrático em Cuba não foram os revolucionários de Sierra Maestra. Não foram Che ou Fidel. Quem derrubou a democracia em Cuba foi, como em toda a América Latina, a direita, as classes conservadoras, com apoio financeiro e político dos Estados Unidos. A revolução cubana realizou-se para derrotar a cruel e corrupta ditadura de Fulgêncio Batista, aliado do governo americano e patrocinado tanto por dinheiro do contribuinte americano quanto por mafiosos americanos interessados em lavar dinheiro na ilha.
Esse é o argumento que devemos usar quando a direita acusar os jovens que lutaram contra a ditadura de não serem "democratas". Quem não acreditava na democracia, no Brasil, não eram os jovens, e sim as elites que marcharam em São Paulo e Rio de Janeiro contra um governo democraticamente eleito, com vistas (hoje se sabe, pelo Gaspari, que as lideranças dessas marchas sabiam do golpe iminente) a dar apoio político à derrubada do regime democrático. Quem não acreditava na democracia era a mídia, incluindo Jornal O Globo, Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, que ajudaram a enfraquecer o governo e defenderam o golpe militar.
Os jovens que lutaram contra a ditadura não acreditavam na democracia porque a democracia fora desacreditada, estuprada, humilhada, ridicularizada pelos militares, pela direita, pela elite e pela mídia. Não só no Brasil, mas em toda a América Latina.
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Miguel do Rosário
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domingo, janeiro 18, 2009
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15 de janeiro de 2009
Desinformações
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A palavra preferida da imprensa brasileira é: crise. Desde que comecei a ler jornais, aos doze ou treze anos, não me lembro que se tenha passado um mês sem uma grave crise, seja política, econômica, política, moral, social. Pode-se explicar isso comercialmente. Crises geram ansiedade, um dos ingredientes emocionais mais eficazes para se incentivar o consumo... de jornais.
A crise galvaniza as páginas de jornais com tintas de suspense. Trata-se de uma técnica estética usada a serviço do jornalismo comercial. Amedrontadas, as pessoas correm para as bancas. Não creio, todavia, que os donos dos meios de comunicação admitam para si mesmos essa estratégia. A inteligência humana é, em grande parte, intuição. É usando a intuição, portanto, que as pessoas, produtores ou receptores, utilizam e manipulam as informações.
Entendo, por outro lado, que a crise não é inventada pela mídia. É realíssima e, de fato, representa um perigo para empresas e trabalhadores, na medida em que desestrutura o crédito e reduz o consumo. O que a imprensa parece esquecer é que, dentre os remédios para saná-la, figura também a maneira como a interpretamos. A crise financeira atual possui um vetor psicológico, e, portanto, precisa de uma cobertura responsável desse ponto-de-vista.
Há, ainda, uma outra forma de ver as coisas, que é procurar desmistificar ou destensionar o conceito de crise. Crises fariam parte da rotina de nossa civilização industrial e pós-industrial. Seria o reverso da moeda da aceleração cada vez maior do processo histórico, com invenções tecnológicas que revolucionam o mundo de dez em dez anos. O mundo vive uma crise constante porque está em mutação veloz. Seria importante, pois, que governos e mídias incorporassem as crises como uma característica estrutural, inerente a mundo que se desenvolve vertiginosamente. Cientes dessa realidade, os governos poderiam ampliar os sistemas de proteção social, para evitar colapsos humanitários, e a mídia, por sua vez, contribuiria para evitar o processo de entropia, ou desordem interna, gerado pelo nervosismo que o termo crise deflagra na sociedade - faria isso através do destensionamento e atualização do conceito: crises deixariam de ser passos na direção de um apocalipse (que nunca chega, afinal, pois o mundo sempre supera as crises e se torna mais forte) para serem fatores normais, necessários, um processo doloroso que estimulam a criatividade.
Seria importante, sobretudo, que a imprensa se mostrasse realmente interessada na superação da crise. Enquanto a imprensa internacional, mesmo os órgãos mais conservadores, aponta as razões pelas quais o Brasil é o país com melhores condições de atravessar incólume a crise internacional, nossos editores de opinião, em vez de aprofundarem esses argumentos, mostrando porque analistas estrangeiros acreditam tanto no Brasil, entregam-se ao jogo baixo partidário, transformando um problema que pode afetar o estômago e o destino de milhões de brasileiros numa gincana infantil para derrubar a popularidade do governo.
Por exemplo, o Brasil tem condições econômicas que o diferenciam de outros países em crise? Os EUA vivem uma dicotomia quase trágica: possuem o maior consumo per capita de petróleo do mundo, e não tem mais reservas suficientes para atender essa demanda, dependendo desesperadamente de jazidas situadas em países com os quais mantém relações extremamente instáveis. Nesse campo, o Brasil vive situação oposta. Chegamos à autonomia energética em petróleo e estamos na beira de nos tornarmos grandes exportadores.
Os EUA iniciaram a produção de etanol a partir do milho, o que se revelou uma das maiores imbecilidades em mil anos, em função da baixa produtividade energética do milho e do custo alto do empreendimento. Investiram centenas de milhões de dólares nessa atividade e agora não sabem como voltar atrás. Para cúmulo da estupidez, a iniciativa inflacionou o mercado de grãos, gerando um efeito em cascata que afetou a inflação do mundo inteiro.
Já o Brasil produz etanol a partir da cana-de-açúcar a custos infinitamente mais baixos, sem subsídio estatal, obtendo uma produtividade energética oito vezes superior ao milho, e sem influenciar o preço dos alimentos.
É claro que os EUA não são o país mais poderoso do mundo à tôa. Eles sempre investiram pesadamente em pesquisa, e estou certo que darão a volta por cima em mais essa crise. É importante notar, porém, que a causa da crise foi a implantação e o aprofundamento, pelo governo americano, de políticas direitistas, tacanhas como toda política direitista, que são, em resumo: tudo para os ricos e nada para os pobres. Subsídios bilionários para meia dúzia de plantadores de algodão, que contam com apoio de senadores, e ferro em milhões de trabalhadores rurais norte-americanos. Redução de imposto para milionários e arrocho fiscal na classe média baixa. Guerra. Repressão aos imigrantes. Desregulamentação do mercado financeiro, soltando a raposa dentro do galinheiro. Eliminação de programas sociais. Privatização da saúde e da educação.
A internet foi inventada nos EUA com recursos estatais. Toda descoberta relevante para a economia americana teve o dedo do Estado. Não é racional, portanto, a ideologia conservadora que se apoderou do governo americano, e que estendeu seus tentáculos pelo mundo inteiro, o desprestígio constante da função do Estado para a economia. Se o Estado é moroso, lento, incompetente, cabe à sociedade modernizá-lo sim, mas sem diminuí-lo, sem substitui-lo pela iniciativa privada. O setor privado, naturalmente, tem papel crucial no desenvolvimento das nações. O setor privado é, em última instância, o indivíduo e seu talento, o indivíduo e sua liberdade radical, o indivíduo e sua criatividade singular.
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Quero desviar um pouco de assunto para denunciar três exemplos clássicos de desinformação que observei nas últimas 48 horas.
1) Roberto daMatta pega uma frase do presidente Lula, numa entrevista para a revista Piauí, e a descontextualiza histericamente, produzindo um artigo patético e preconceituoso. Lula afirmara que não começa seu dia lendo os jornais. Que tem uma equipe que seleciona as matérias mais importantes, enfatizando porém que qualquer artigo ou matéria importante sempre chegam em suas mãos. DaMatta ficou somente na frase "não lê", e saiu discorrendo, chorosamente, sobre o sofrimento devastador que o afligiu ao saber que o presidente da República, o homem mais importante do país (ele aumenta a importância pessoal do presidente, quase transformando-o num imperador-deus da Antiguidade), não lê. Como intelectual medíocre que é, DaMatta fetichiza a leitura, conferindo-lhe um status existencial exagerado. Ora, eu sou um leitor obsessivo, mas aprendi a ver que não sou melhor que ninguém por causa disso. A literatura, em si, não deixa ninguém mais inteligente. Shopenhauer afirmava que pretender que guardemos todos os livros que lemos em nosso espírito é como pensar que podemos guardar toda a comida que ingerimos, ao longo da vida, em nosso estômago. A gente lê, mas esquece. Pronto. O que vale, mais que a leitura, é a inteligência. A leitura ajuda a inteligência, mas não a determina. Sócrates praticamente não lia livros, e nunca escreveu um, e no entanto é considerado o fundador da filosofia moderna e o homem mais inteligente de todos os tempos. Jesus Cristo também não leu quase nada, nem escreveu, e todos o respeitam profundamente como pensador revolucionário e líder espiritual.
2) Na ânsia de criticar a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder asilo político concedido ao italiano Battisti, e aproveitar a oportunidade para morder a esquerda brasileira, o Globo traz à tôna, pela enésima vez, o caso dos dois pugilistas cubanos. Os atletas abandonaram a competição (o Panamericano, realizado em 2007), seduzidos por um empresário alemão, que lhes pagou bebidas, drogas e prostitutas. O alemão desapareceu e os atletas, sem dinheiro, hospedados num hotel em Búzios, ligaram para a polícia. Quando os agentes chegaram, os cubanos os abraçaram. A Polícia Federal foi acionada. A mídia ficou sabendo e noticiou. Autoridades do governo e do setor privado entrevistaram os atletas, perguntando se queriam permanecer no Brasil. Eles repetiam que apenas queriam voltar a Cuba, para suas famílias. Um representante da Organização dos Advogados do Brasil pediu para falar a sós com os atletas. Na saída, relatou aos jornalistas que, de fato, eles apenas queriam voltar para seu país natal. Diante do fato, o governo brasileiro não teve outra alternativa senão comunicar o governo cubano que, imediatamente enviou um avião para buscar seus concidadãos. Os atletas foram punidos em Cuba? Talvez. Ficaram fora da seleção. A mídia queria o quê? Os caras abandonaram uma competição no meio! Queriam que recebessem medalha? Não foram presos nem torturados nem nada. Apenas ficaram de fora de competições internacionais. É uma questão tão lógica que chega a ser constrangedor ter que explicar. O atletismo cubano é, reconhecidamente, um dos mais competentes do mundo. Isso se consegue com disciplina e amor pela bandeira de seu país.
Lembro que, semanas depois do episódio, Jô Soares repetia-o, indignado. Até que chamou o ministro para uma entrevista, e Tarso Genro explicou tudo direitinho. Genro informou que qualquer atleta ou cidadão cubano que pedir asilo ao Brasil, recebe-o imediatamente, e que, inclusive, no mesmo Pan 2007, um outro atleta pedira e recebera asilo. Mas não foi, decididamente o caso dos pugilistas. Eles queriam voltar à Cuba. Tinham esposas, amigos e filhas lá. É tão difícil entender isso? Se minha mulher estivesse. sei lá, na Coréia do Norte, e eu fosse um opositor do regime, mesmo assim eu voltaria, para ficar com ela. Jô aceitou e admitiu que havia se informado erradamente. E agora, quase dois anos depois, o Globo retoma a história, dando a entender que os dois foram deportados contra a sua vontade. Assim é demais. Porque essa campanha sistemática de desinformação?
3) Por fim, o Alberto Dines, tentando dar uma mordidinha banguela na Carta Capital, apresenta uns números sobre o percentual de anúncios de estatais na revista. Ele comentava a entrevista de Lula para a Piauí, na qual Mario Conti pergunta porque o governo anuncia em revistas como Caros Amigos e Carta Capital? Lula respondera que há critérios técnicos e o governo anuncia em todas as revistas, de acordo com a circulação de cada uma. Se o percentual de anúncios de estatais na Carta Capital é maior é porque a revista tem poucos anunciantes privados, os quais, por razões que não entendo, ou me recuso a entender, preferem anunciar em publicações repugnantemente venais e corruptas e reacionárias, como Veja, ou enfadonhamente elitistas e imaturas, como a própria Piauí, do que expor seu produto e serviços na melhor e mais honesta revista brasileira, a Carta Capital. De qualquer forma, mesmo que houvesse alguma preferência do governo Lula pela Carta Capital, achei a atitude de Dines traiçoeira, mesquinha e alienada, já que a revista é crucial para manter um mínimo de pluralidade política na mídia nacional. Dines poderia, muito bem, ter a dignidade de considerar a importância de Mino Carta para a história da imprensa brasileira e não agir como um invejosinho babaca.
4) Vamos ver o que os paladinos pela liberdade de imprensa falarão sobre a demissão de Nassif da TV Cultura, dominada por Serra. Provavelmente nada. Mas espero que, no silêncio de suas consciências, os jornalistas desse Brasil reflitam bem sobre o caso. É por essas e outras que vejo a profissão de jornalista mais do que com descrédito. Já ultrapassou isso. Hoje vejo com uma quase repugnância. Por que um zelador, um professor, um operário, um funcionário público, tem a sua liberdade de opinião política. O jornalista não. Ele é obrigado, por sua profissão, a vender a sua opinião, a sua consciência, justamente aquilo que ele tem de mais precioso.
A crise galvaniza as páginas de jornais com tintas de suspense. Trata-se de uma técnica estética usada a serviço do jornalismo comercial. Amedrontadas, as pessoas correm para as bancas. Não creio, todavia, que os donos dos meios de comunicação admitam para si mesmos essa estratégia. A inteligência humana é, em grande parte, intuição. É usando a intuição, portanto, que as pessoas, produtores ou receptores, utilizam e manipulam as informações.
Entendo, por outro lado, que a crise não é inventada pela mídia. É realíssima e, de fato, representa um perigo para empresas e trabalhadores, na medida em que desestrutura o crédito e reduz o consumo. O que a imprensa parece esquecer é que, dentre os remédios para saná-la, figura também a maneira como a interpretamos. A crise financeira atual possui um vetor psicológico, e, portanto, precisa de uma cobertura responsável desse ponto-de-vista.
Há, ainda, uma outra forma de ver as coisas, que é procurar desmistificar ou destensionar o conceito de crise. Crises fariam parte da rotina de nossa civilização industrial e pós-industrial. Seria o reverso da moeda da aceleração cada vez maior do processo histórico, com invenções tecnológicas que revolucionam o mundo de dez em dez anos. O mundo vive uma crise constante porque está em mutação veloz. Seria importante, pois, que governos e mídias incorporassem as crises como uma característica estrutural, inerente a mundo que se desenvolve vertiginosamente. Cientes dessa realidade, os governos poderiam ampliar os sistemas de proteção social, para evitar colapsos humanitários, e a mídia, por sua vez, contribuiria para evitar o processo de entropia, ou desordem interna, gerado pelo nervosismo que o termo crise deflagra na sociedade - faria isso através do destensionamento e atualização do conceito: crises deixariam de ser passos na direção de um apocalipse (que nunca chega, afinal, pois o mundo sempre supera as crises e se torna mais forte) para serem fatores normais, necessários, um processo doloroso que estimulam a criatividade.
Seria importante, sobretudo, que a imprensa se mostrasse realmente interessada na superação da crise. Enquanto a imprensa internacional, mesmo os órgãos mais conservadores, aponta as razões pelas quais o Brasil é o país com melhores condições de atravessar incólume a crise internacional, nossos editores de opinião, em vez de aprofundarem esses argumentos, mostrando porque analistas estrangeiros acreditam tanto no Brasil, entregam-se ao jogo baixo partidário, transformando um problema que pode afetar o estômago e o destino de milhões de brasileiros numa gincana infantil para derrubar a popularidade do governo.
Por exemplo, o Brasil tem condições econômicas que o diferenciam de outros países em crise? Os EUA vivem uma dicotomia quase trágica: possuem o maior consumo per capita de petróleo do mundo, e não tem mais reservas suficientes para atender essa demanda, dependendo desesperadamente de jazidas situadas em países com os quais mantém relações extremamente instáveis. Nesse campo, o Brasil vive situação oposta. Chegamos à autonomia energética em petróleo e estamos na beira de nos tornarmos grandes exportadores.
Os EUA iniciaram a produção de etanol a partir do milho, o que se revelou uma das maiores imbecilidades em mil anos, em função da baixa produtividade energética do milho e do custo alto do empreendimento. Investiram centenas de milhões de dólares nessa atividade e agora não sabem como voltar atrás. Para cúmulo da estupidez, a iniciativa inflacionou o mercado de grãos, gerando um efeito em cascata que afetou a inflação do mundo inteiro.
Já o Brasil produz etanol a partir da cana-de-açúcar a custos infinitamente mais baixos, sem subsídio estatal, obtendo uma produtividade energética oito vezes superior ao milho, e sem influenciar o preço dos alimentos.
É claro que os EUA não são o país mais poderoso do mundo à tôa. Eles sempre investiram pesadamente em pesquisa, e estou certo que darão a volta por cima em mais essa crise. É importante notar, porém, que a causa da crise foi a implantação e o aprofundamento, pelo governo americano, de políticas direitistas, tacanhas como toda política direitista, que são, em resumo: tudo para os ricos e nada para os pobres. Subsídios bilionários para meia dúzia de plantadores de algodão, que contam com apoio de senadores, e ferro em milhões de trabalhadores rurais norte-americanos. Redução de imposto para milionários e arrocho fiscal na classe média baixa. Guerra. Repressão aos imigrantes. Desregulamentação do mercado financeiro, soltando a raposa dentro do galinheiro. Eliminação de programas sociais. Privatização da saúde e da educação.
A internet foi inventada nos EUA com recursos estatais. Toda descoberta relevante para a economia americana teve o dedo do Estado. Não é racional, portanto, a ideologia conservadora que se apoderou do governo americano, e que estendeu seus tentáculos pelo mundo inteiro, o desprestígio constante da função do Estado para a economia. Se o Estado é moroso, lento, incompetente, cabe à sociedade modernizá-lo sim, mas sem diminuí-lo, sem substitui-lo pela iniciativa privada. O setor privado, naturalmente, tem papel crucial no desenvolvimento das nações. O setor privado é, em última instância, o indivíduo e seu talento, o indivíduo e sua liberdade radical, o indivíduo e sua criatividade singular.
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Quero desviar um pouco de assunto para denunciar três exemplos clássicos de desinformação que observei nas últimas 48 horas.
1) Roberto daMatta pega uma frase do presidente Lula, numa entrevista para a revista Piauí, e a descontextualiza histericamente, produzindo um artigo patético e preconceituoso. Lula afirmara que não começa seu dia lendo os jornais. Que tem uma equipe que seleciona as matérias mais importantes, enfatizando porém que qualquer artigo ou matéria importante sempre chegam em suas mãos. DaMatta ficou somente na frase "não lê", e saiu discorrendo, chorosamente, sobre o sofrimento devastador que o afligiu ao saber que o presidente da República, o homem mais importante do país (ele aumenta a importância pessoal do presidente, quase transformando-o num imperador-deus da Antiguidade), não lê. Como intelectual medíocre que é, DaMatta fetichiza a leitura, conferindo-lhe um status existencial exagerado. Ora, eu sou um leitor obsessivo, mas aprendi a ver que não sou melhor que ninguém por causa disso. A literatura, em si, não deixa ninguém mais inteligente. Shopenhauer afirmava que pretender que guardemos todos os livros que lemos em nosso espírito é como pensar que podemos guardar toda a comida que ingerimos, ao longo da vida, em nosso estômago. A gente lê, mas esquece. Pronto. O que vale, mais que a leitura, é a inteligência. A leitura ajuda a inteligência, mas não a determina. Sócrates praticamente não lia livros, e nunca escreveu um, e no entanto é considerado o fundador da filosofia moderna e o homem mais inteligente de todos os tempos. Jesus Cristo também não leu quase nada, nem escreveu, e todos o respeitam profundamente como pensador revolucionário e líder espiritual.
2) Na ânsia de criticar a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder asilo político concedido ao italiano Battisti, e aproveitar a oportunidade para morder a esquerda brasileira, o Globo traz à tôna, pela enésima vez, o caso dos dois pugilistas cubanos. Os atletas abandonaram a competição (o Panamericano, realizado em 2007), seduzidos por um empresário alemão, que lhes pagou bebidas, drogas e prostitutas. O alemão desapareceu e os atletas, sem dinheiro, hospedados num hotel em Búzios, ligaram para a polícia. Quando os agentes chegaram, os cubanos os abraçaram. A Polícia Federal foi acionada. A mídia ficou sabendo e noticiou. Autoridades do governo e do setor privado entrevistaram os atletas, perguntando se queriam permanecer no Brasil. Eles repetiam que apenas queriam voltar a Cuba, para suas famílias. Um representante da Organização dos Advogados do Brasil pediu para falar a sós com os atletas. Na saída, relatou aos jornalistas que, de fato, eles apenas queriam voltar para seu país natal. Diante do fato, o governo brasileiro não teve outra alternativa senão comunicar o governo cubano que, imediatamente enviou um avião para buscar seus concidadãos. Os atletas foram punidos em Cuba? Talvez. Ficaram fora da seleção. A mídia queria o quê? Os caras abandonaram uma competição no meio! Queriam que recebessem medalha? Não foram presos nem torturados nem nada. Apenas ficaram de fora de competições internacionais. É uma questão tão lógica que chega a ser constrangedor ter que explicar. O atletismo cubano é, reconhecidamente, um dos mais competentes do mundo. Isso se consegue com disciplina e amor pela bandeira de seu país.
Lembro que, semanas depois do episódio, Jô Soares repetia-o, indignado. Até que chamou o ministro para uma entrevista, e Tarso Genro explicou tudo direitinho. Genro informou que qualquer atleta ou cidadão cubano que pedir asilo ao Brasil, recebe-o imediatamente, e que, inclusive, no mesmo Pan 2007, um outro atleta pedira e recebera asilo. Mas não foi, decididamente o caso dos pugilistas. Eles queriam voltar à Cuba. Tinham esposas, amigos e filhas lá. É tão difícil entender isso? Se minha mulher estivesse. sei lá, na Coréia do Norte, e eu fosse um opositor do regime, mesmo assim eu voltaria, para ficar com ela. Jô aceitou e admitiu que havia se informado erradamente. E agora, quase dois anos depois, o Globo retoma a história, dando a entender que os dois foram deportados contra a sua vontade. Assim é demais. Porque essa campanha sistemática de desinformação?
3) Por fim, o Alberto Dines, tentando dar uma mordidinha banguela na Carta Capital, apresenta uns números sobre o percentual de anúncios de estatais na revista. Ele comentava a entrevista de Lula para a Piauí, na qual Mario Conti pergunta porque o governo anuncia em revistas como Caros Amigos e Carta Capital? Lula respondera que há critérios técnicos e o governo anuncia em todas as revistas, de acordo com a circulação de cada uma. Se o percentual de anúncios de estatais na Carta Capital é maior é porque a revista tem poucos anunciantes privados, os quais, por razões que não entendo, ou me recuso a entender, preferem anunciar em publicações repugnantemente venais e corruptas e reacionárias, como Veja, ou enfadonhamente elitistas e imaturas, como a própria Piauí, do que expor seu produto e serviços na melhor e mais honesta revista brasileira, a Carta Capital. De qualquer forma, mesmo que houvesse alguma preferência do governo Lula pela Carta Capital, achei a atitude de Dines traiçoeira, mesquinha e alienada, já que a revista é crucial para manter um mínimo de pluralidade política na mídia nacional. Dines poderia, muito bem, ter a dignidade de considerar a importância de Mino Carta para a história da imprensa brasileira e não agir como um invejosinho babaca.
4) Vamos ver o que os paladinos pela liberdade de imprensa falarão sobre a demissão de Nassif da TV Cultura, dominada por Serra. Provavelmente nada. Mas espero que, no silêncio de suas consciências, os jornalistas desse Brasil reflitam bem sobre o caso. É por essas e outras que vejo a profissão de jornalista mais do que com descrédito. Já ultrapassou isso. Hoje vejo com uma quase repugnância. Por que um zelador, um professor, um operário, um funcionário público, tem a sua liberdade de opinião política. O jornalista não. Ele é obrigado, por sua profissão, a vender a sua opinião, a sua consciência, justamente aquilo que ele tem de mais precioso.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quinta-feira, janeiro 15, 2009
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