O golpe
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Três meses antes...
Dor forte no braço direito, cabeça latejando, coração vazio, Lima desperta de um desmaio alcóolico e se vê deitado no chão, ao sopé de uma comprida escada. Senta-se, apoiando as costas num muro. Um pouco adiante, carros passam, indiferentes. Reconhece a rua, Frei Caneca. Então estava ao pé do... São Carlos. Tenta erguer-se mas, ao apoiar-se no braço direito, uma dor lancinante transpassa-lhe todo corpo. Olha para o braço e vê a mancha de sangue na manga. Com cuidado, usando o outro braço, tira o paletó amarfanhado e vê uma coisa medonha... Fratura externa. A ponta do osso emergia na metade do antebraço. Ergue-se com o braço esquerdo e começa a caminhar, lentamente, na direção do túnel.
Já em casa, depois de tratar (tiveram que fazer uma pequena cirurgia) e engessar o braço no Souza Aguiar, Lima tenta se lembrar da noite anterior. Recordava-se de um grupo na esquina da Gomes Freire. Ele passava por ali, e uma amiga lhe chamou:
- Lima!
- Oi... Anita? E aí, garota, tudo bem?
- Senta aí com a gente.
Estava de bobeira mesmo, indo beber num botequim perto de casa, então se sentou. Há tempos não via Anita, colega de redação no jornal onde trabalhara tantos anos. Ela estava intensamente entretida com uma amiga, e acenou-lhe que esperasse. As duas conversavam como se estivessem ao telefone. Lima puxou assunto com um rapaz meio calvo e musculoso, que ocupava a cadeira a seu lado. Ficou sabendo que todos - cinco ou seis pessoas - na mesa eram jornalistas.
- Prazer, me chamo Lima, ex-jornalista.
Duas horas depois todos na mesa estavam muito bêbados. O bar possuía uma variedade imensa de tipos de cachaça e eles resolveram pedir várias doses. Alguns se levantaram para ir à esquina fumar um baseado. Lima e Anita ficaram sozinhos.
- Lima, nem te conto.
Anita tinha os olhos vidrados. Bebera muito, mas o assunto que lhe mobilizava o cérebro era por demais excitante, e ajudava-lhe a conservar a lucidez. Fez um pouco de mistério, jogando os olhos para lá e para cá. Bebeu um pouco mais de cerveja, e deu uma olhadinha sapeca de lado para Lima.
- Que foi, garota? Conta logo!
Desde que saíra do Globo, Lima não trabalhara em nenhum outro jornal. Ainda queimava o restinho de seu fundo de garantia e escrevia para um blog obscuro. Na verdade, não estava interessado na fofoca de Anita, e sim numa de suas amigas, que tinha ido fumar na esquina. Inconscientemente, seguindo esse instinto básico que também toma conta do raciocínio, procurava estreitar laços com Anita para melhor se aproximar da moça. Tinha impressão que ela também se interessara por ele.
- Pegaram o filho do homem na maior lambança, disse Anita, sem olhar para o amigo, tentando assumir uma expressão séria. Mas isso é segredo, héin! Pelo menos até amanhã. O editor disse que demite todo mundo se alguém nos furar.
Anita continuava olhando para seu próprio copo. Lima não compreendia porque, se era um segredo tão importante, ela resolvera lhe contar. Aí entendeu:
- Eu não concordo com isso. É muita baixaria.
Lima começava a se interessar pelo assunto. Não como jornalista, mas como cidadão.
- "Homem"? Você quer dizer o presidente?
Ela meneou a cabeça, confirmando, e acrescentou:
- É barra pesada, Lima. Muita barra pesada. Dessa vez, eles conseguiram. Os filhos da puta conseguiram.
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4 de dezembro de 2009
Continuando a história
2 comentarios
Ainda leio os jornais, que me parecem capítulos de uma novela de tv. A gente nem precisa assistir para acompanhar. Basta ver um anúncio aqui e ali, ouvir um papo e pronto, já sabe o que está acontecendo. A impressão que tenho é que eles continuam perdidinhos, o que me dá tempo para continuar meu folhetim. Ah, troquei o título. Em vez de "Os 20 mil loucos", o título agora é "O Golpe".
# Escrito por
Miguel do Rosário
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sexta-feira, dezembro 04, 2009
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O golpe
2 comentarios
3 de dezembro de 2009
Iniciando o folhetim
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Então, meus caros. Vamos publicar uma pequena novela, em capítulos, à maneira dos folhetins de antigamente. Minha estratégia para fugir ao aborrecimento inerente à leitura de literatura na web é publicar em capítulos bem curtos. Essas são minhas férias, a maneira que encontrei de descansar um pouco da política e exercitar a imaginação. Espero que isso não dure mais que alguns dias. Lembro ainda que continuo fazendo, diariamente, a Carta Diária Óleo do Diabo, e que, este mês, está vindo com uma série de artigos e estatísticas muito interessantes sobre comércio exterior, os quais possibilitam comentários pertinentes sobre a geopolítica e a diplomacia comercial do Brasil. Sem mais rodeios, eis a primeira parte do "folhetim". O título da novela é "O golpe".
O golpe
1
Abriu os olhos e viu as nuvens, deslocando-se lentas e decididas, qual fila de imigrantes a fugir, desordenadamente, de um país em guerra. O chão da estrada era o céu, de um azul claro que sempre lhe pareceu tão calmo, tão alegre. Já era final da manhã, ele podia ver pela qualidade da luz. Hora de partir, Lima. Hora de partir.
Ligou o carro e a voz do locutor, grave e nervosa, lhe deu um susto.
"... o governo interino pede à população que procure permanecer em casa nas próximas 48 horas. O presidente do Congresso assumiu a chefia da república em meio a violentos protestos de alguns parlamentares... Entretanto, segundo a polícia, as ruas de Brasília estão calmas... "
Desligou o rádio, nervoso. Falou consigo mesmo, rilhando os dentes: "Calmas... também, depois do que fizeram ontem... estão aterrorizados... isso sim".
Deu partida e ganhou a estrada. O vento no rosto, as paisagens em fuga, o céu azul salpicado de nuvenzinhas brancas deslocando-se suavemente, libertavam-no de pensamentos que não queria ter. Não no momento. Ainda tinha muita estrada pela frente. Olhou para a maleta pousada sobre o banco ao lado, tranquila como uma criança morta. Ali estavam guardadas sombrias imagens do passado. Ali descansavam promissoras perspectivas de futuro.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quinta-feira, dezembro 03, 2009
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