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21 de janeiro de 2012

Polêmicas fúteis

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(Caravaggio, cujas pinturas incentivavam o sexo e o consumo de álcool,
era patrocinado pela Igreja Católica. Bons tempos...)

Eu evitei até o momento participar do debate sobre o BBB, porque senti uma preguiça monstruosa de entrar em mais uma polêmica desagradável, ainda mais porque eu não gostei de quase nada daquilo que lia, desde o início até o fim. Decidi ser apenas um observador, divertindo-me a ver leões, gladiadores e cristãos desarmados arrancando as vísceras uns dos outros.

Ás vezes me dá a impressão que as pessoas se recusam voluntariamente a pensar, embriagadas com o súbito poder que as redes sociais lhes proporcionam. Toda aquela psicologia das massas, aquele frenesi coletivo ao ver alguém subir no cadafalso para ser enforcado, reapareceu com força na internet, arrastando pessoas que, ironicamente, por sua instrução, estariam imunes a esse tipo de manifestação. Todo mundo vira justiceiro, condenando um sujeito, sem provas, por um dos crimes mais hediondos na escala moral do brasileiro: o estupro. Alguém pediu desculpas ao rapaz? E agora, ele vai processar o Twitter?

No entanto, eu estou bem mais cuidadoso agora. Não vou mais fazer acusações genéricas, até porque eu li coisas que mais parecem fruto de trolls espertinhos do que mensagens autênticas. Não vou culpar, genericamente, os blogs progressistas, nem a esquerda, nem as redes sociais. São grupos da web que agem com a melhor intenção do mundo, de promover justiça, mas na ânsia de fazê-lo com suas próprias mãos, acabam atropelando o Estado de direito e causando outro tipo de injustiça.

Está tudo na conta, porém. Se o que se faz por amor está acima do bem e do mal, o ódio também tem seu valor, e mesmo sendo injustas, as manifestações da web cumprem uma função social. Elas forçam o debate, embora esse meu relativismo poderia se aplicar a qualquer tipo de ódio, até mesmo ao Tea Party. O Tea Party também força o debate.

Lamentável mesmo é a intolerância, de um lado, e a irresponsabilidade, de outro. Um amigo, tão sensato e inteligente, escreveu em seu blog, comentando o incidente, que, analisando o vídeo, concluíra que, de fato, "houve penetração". Pô, ele tem visão Raio-X?

Desde o início, a história foi estranha. Como alguém pode saber o que aconteceu sob um edredon, ainda mais num quarto na penumbra?

Dias depois, a suposta "estuprada" admitiu que tudo que ocorrera contara com seu consentimento. Não se pode alegar que agiu por interesse financeiro: visto que poderia arrancar muito dinheiro da Globo num processo por danos morais. A balbúrdia provocada levou a polícia, o ministério público, e até o Ministério da Comunicação, a entrarem no caso.

Descartada a hipótese de estupro, e hoje o consenso geral é de que não houve, o ataque à Globo adotou um tom moralista: é uma incitação ao consumo de álcool! Outra linha de ataques é de ordem moral. Nosso valoroso humorista Bemvindo Sequeira resumiu bem a coisa (ele mesmo atacando o BBB):

Incentivo a bebedeiras, apologia do álcool, incentivo à sexualidade e à promiscuidade, apologia narcísica do corpo para consumo como objeto...estas são as questões que deveriam estar no foco da discussão.

É claro que juntadas às questões de racismo, abuso sexual etc. etc. Mas discutir a própria essência da nossa sociedade do "entretenimento" que na busca desesperada pelo IBOPE usa de qualquer artifício, usando concessão pública para invadir nossas mentes e lares, transformando a Nação em valhacouto da licenciosidade.

Eis que de repente, portanto, os nossos mais combativos militantes da guerra contra o conservadorismo passam a usar argumentos e vocabulário dignos de um integralista da década de 30!

Eu concordo que o BBB é um lixo, e que talvez não merecesse ser exibido num canal de concessão pública. Mas sabe qual é minha referência do que seja realmente lixo televisivo? Aquele programa de venda de tapetes! Que raios é aquilo?

Na verdade, a tv aberta é ruim. Não se pode criticar exclusivamente a Globo, sem mencionar o lixo que há em outros canais. A Globo até que é o canal melhorzinho, porque ao menos passa uns filmes pela madrugada, na mesma hora em que outros exibem programas religiosos de quinta categoria.

O que me preocupa, sobretudo, é brandir uma eventual Ley dos Medios para proibir conteúdos que "incentivam a sexualidade" ou o "consumo de álcool", mesmo que esses programas sejam exibidos após as 22 horas. Isso não me cheira bem.

A lei da mídia, a meu ver, deve ser voltada para a promoção da liberdade, e não ser um instrumento de censura.

Um comentarista (daí minha desconfiança de que há trolls confundindo o debate) de um blog famoso disse que o Brasil estava muito atrasado no mundo na questão da mídia, visto que países como a China já exerciam um controle rígido sobre os conteúdos. Sem comentários.

Sobre o Big Brother Brasil, ele é um reality show como centenas de outros exibidos em países como EUA, Canadá, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Dinamarca. É tudo a mesma coisa.

Tem gente que adora reality show, evidentemente, senão estes não existiriam. Tem muito intelectual, inclusive, que defende o Big Brother com unhas e dentes. E não é só a Globo que exibe reality shows, ou já esqueceram da Casa dos Artistas, A Fazenda, etc? Todos incentivam o erotismo e em todos há festas regadas a álcool. Aliás, se um lugar como a casa do Big Brother não permitisse festas nem álcool, acho que teríamos, em vez de supostos abusos sexuais, suicídios ao vivo.

Vale lembrar que os EUA viveram uma situação bem macabra recentemente, com uma onda de suicídios de ex-membros de reality shows. Criaram até um blog sobre isso.

Eu prefiro ler um bom livro, assistir a um filme, mas - discordando do meu amigo Luis Nassif - sou contra a proibição do Big Brother. Primeiro porque abriria um precedente, levando a proibição de reality shows em todos os canais. Segundo porque a motivação (de ordem moral), levaria grupos conservadores a se sentirem no direito de repetir a dose contra qualquer programa que considerassem "imoral".

Mussum, por exemplo, que aparecia bebendo cachaça num programa infantil, seria a primeira vítima...

De maneira que eu ainda prefiro a liberdade do controle remoto. Hoje em dia o povo tem internet, tem dvd, e um quinto da população já possui tv a cabo. Então o menor dos problemas do Brasil é o Big Brother.

O pior é que esse ódio destrambelhado, ao não encontrar um argumento sólido onde assentar-se, visto que não houve estupro e, portanto, não houve nenhum crime, acaba resvalando não só para um moralismo extemporâneo, como se transformando mais uma vez numa irritação genérica contra o governo. Quem apanha é o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Não que ele ou o governo não mereçam apanhar, mas eu gostaria de vê-los apanhando pela péssima política de banda larga ou pela gestão conservadora na saúde e educação, e não por se recusarem a censurar o Big Brother.

Ah, lembrei de uma coisa. Aquele comentário que criticava o Brasil porque não tinha uma regulamentação para mídia igual à da China constava num post que fazia longas elocubrações sobre terrível sexismo da imprensa ao publicar uma foto de Dilma Rousseff de maiô, numa praia isolada. Muitos outros disseram que o jornal não podia jamais publicar a foto sem a devida autorização da presidente. Ora, o jornalismo não precisa de autorização, e a foto da presidente era ótima. Não sei se os jornalões publicariam ou não uma foto de Dona Ruth, não me importa, mas eu gostei de ver a foto das belas e saudáveis coxas de nossa presidente, porque foi um sinal de que ela tem um par de vigorosas pernas, preparadas para correr por esse Brasilzão enorme, dando as necessárias caneladas em quem não presta. Ley dos Medios não vai servir para proibir a imprensa de publicar uma foto como essa. Uma nova regulamentação da mídia no Brasil tem que ser feita com vistas a ampliar a liberdade dos conteúdos, e não o contrário.

17 de julho de 2011

BNDES sob ataque

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E lá vai o BNDES pro pelourinho novamente. Repito: acho ótimo. A última coisa que eu faria é sentir pena de uma instituição que movimenta centenas de bilhões de reais. Que apanhe como gente grande, talvez assim aprenda a se defender. Neste domingo, Globo e Folha publicaram artigos bastante críticos à instituição. Nosso amigo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, repercutiu alegremente as duas matérias, o que também considero muito saudável.

Entretanto, não vou partilhar tão facilmente da opinião de um ultra neo-liberal como o Claudio Hadadd, o economista que a Folha entrevistou. E tenho ressalvas importantes à reportagem do Globo. Ambas são positivas por suscitar o debate em torno daquele que, como já disse em outro post, é um dos pilares mais importantes da economia brasileira, com peso relevante em toda América Latina. O BNDES é um dos maiores (talvez até o maior) bancos públicos de investimento do ocidente. A sua própria existência é contrária aos princípios neoliberais, a menos que se restringisse, como sugeriu Haddad, a financiar projetos de infra-estrutura (o que, na verdade, ele já faz, e muito bem).

Ambas as matérias, todavia, pecam pela omissão de dois números fundamentais para contextualizar a participação do BNDES na economia brasileira. O primeiro é o crescimento do número de empresas beneficiadas, sobretudo micro e pequenas, pelos financiamentos do BNDES. Este número trinca o raciocínio segundo o qual ele beneficiaria apenas o andar de cima. Ironia suprema: este aumento se dá sobretudo a partir da gestão de Luciano Coutinho, o mesmo que agora é acusado de privilegiar os tubarões.

Não vou sequer mencionar FHC porque é covardia: naqueles tempos, o pequeno não existia. Nem o Carlos Lessa, hoje verdugo da gestão de Coutinho, se notabilizou neste ponto, tão fundamental. Presidente do banco em 2003 e 2004, Lessa conseguiu elevar o número de pequenos contemplados em 2003 para 27 mil empresas (em 2002, foram 18,9 mil); no ano seguinte, porém, viu esse número cair para 20 mil.

A coisa só começa a mudar mesmo com a entrada de Coutinho, em 2007. A partir daquele ano tem início uma grande transformação, com forte aumento, ano a ano, das concessões de crédito. Em 2010, já eram 417 mil micro e pequenas empresas contempladas.



O segundo número que Globo e Folha omitem é a evolução do lucro do BNDES nos últimos anos. A matéria do Globo, neste sentido, é realmente manipuladora, pois ao invés de trazer dados consolidados, inventa um prejuízo por parte do BNDESPar com base no valor das ações em poder do banco ao final da semana passada. Muito conveniente, porque a desvalorização momentânea das ações da Petrobrás mostraria um resultado negativo. Mas isso pode mudar de um dia para outro. O importante, numa matéria como esta, era informar ao leitor acerca dos valores consolidados. O BNDES vem batendo recordes de lucro, e as operações do BNDESPar tem respondido por cerca de metade desses valores. Ou seja, as ações caem e sobem ao longo do ano, mas o importante é analisar os resultados concretos e não retratos incompletos (possivelmente tendenciosos e equivocados) de momento. Seria honesto, para dizer o mínimo, que o Globo, numa matéria como essa, ao menos informasse seus leitores sobre isso, para que estes não pensassem que a instituição está dando prejuízo ao contribuinte, o que não é verdade.


É bastante irônico que os neoliberais de repente tenham se esquecido do fator "lucro". Está certo que o objetivo central do BNDES não é ter lucro, mas o fato de tê-lo não é ruim, evidentemente. Desde que o banco mostre que tem aumentado os repasses a micro e pequenas empresas e esteja financiando mais projetos de infra-estrutura, então é ótimo que haja lucro, até para que o banco possa se dar ao luxo de financiar projetos de cunho mais social que dão menos lucro. Como o BNDES é público, o lucro vem para o nosso bolso, seja reforçando o caixa do Tesouro, seja financiando projetos de cultura (o que se reflete na educação), o que o banco vem fazendo a uma escala impensável antes da era Coutinho.

Reitero pela enésima vez que é importante que a sociedade fique atenta às ações do BNDES, e mantenha um olhar crítico. Sob Coutinho, o banco tornou-se mais ousado e mais presente na economia nacional. Ganhando mais visibilidade, é natural que seja mais criticado. As ações do BNDESPar refletem, a meu ver, uma política industrial mais intervencionista por parte do governo, e isso necessariamente contraria (e beneficia) muitos interesses poderosos. Por trás da blindagem econômica que protegeu o Brasil da terrível crise financeira que atingiu o mundo em 2008 e 2009, estava o crédito do BNDES, que ajudou empresas nacionais a enfrentarem seus momentos mais difíceis. Não esqueçamos que o BNDES não dá dinheiro de graça para ninguém. Ele empresta a juro mais baixo que a taxa Selic, mas ainda assim com juros, e a empresa tem de pagar em dia. Muitos países não teriam passado pelo que passaram se tivessem um banco como esse. E acho melhor emprestar dinheiro para empresas que geram emprego do que dar trilhões a juro zero para salvar instituições financeiras incompetentes, como fizeram EUA e Europa recentemente, e o governo FHC com seu Proer (que corresponderia hoje, em valores atualizados, e cerca de R$ 50 bilhões).

Naturalmente, se o BNDES dá crédito, tem gente que lucra muito, outros que lucram menos. Consta que as empresas de mídia, que sempre tiveram acesso privilegiado ao caixa da instituição, não tiveram tantas facilidades como gostariam nos últimos anos.

Contemplemos, portanto, o quadro inteiro, levando também em consideração os números que eu lhes trouxe. Quando o BNDES apenas financiava os barões da mídia e demais amigos de Antonio Carlos Magalhães, nunca houve matérias na grande imprensa criticando a atuação do banco. Hoje ele financia 610 mil empresas e pessoas físicas no país e virou um de seus alvos preferidos.

16 de julho de 2011

Quem dará o golpe no Brasil?

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O livro de Wanderley Guilherme dos Santos, publicado em 1962, é uma aula de política que vale até hoje.

quemdaraogolpe

Aproveito também para reproduzir o último post do Eduardo Guimarães, no qual ele desmascara o colunista do Globo, Merval Pereira:

Desmascarando Merval Pereira

Por Eduardo Guimarães, no blog Cidadania.

A forma mais eficiente de desmascarar um mentiroso é dando a ele espaço para mentir, pois mentirosos subestimam a inteligência alheia. Se quem mente for inteligente, é mais difícil desmascará-lo. Alguns mentirosos, porém, são estúpidos e sabem disso, mas confiam em “ferramentas” que lhes permitiriam sustentar as mentiras mais frágeis e, assim, tornam-se mais ousados.

O “imortal” Merval Pereira é um homem de Inteligência escassa, por isso conta mentiras mal-elaboradas. Mas por que os gigantes de pés de barro das comunicações prestigiam alguém tão estúpido em vez de buscarem mentirosos que elaborem melhor as suas mentiras? Simples: poucos jornalistas se dispõem a mentir sobre bases tão frágeis. Merval é cultuado pelos barões da mídia porque é burro o suficiente para achar que poderão sustentar suas invencionices.

A prova da burrice desse indivíduo se exibe, despudorada, em artigo que publica no jornal O Globo deste sábado, no qual deixa ver que seus senhores acusaram o golpe que lhes representou o escândalo que fechou as portas do jornal britânico “The News of the World”, do barão internacional da mídia Rupert Murdoch.

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O Globo

16 de julho de 2011

Obsessão

Merval Pereira

Como se sabe, temos no Brasil dois grandes especialistas em imprensa: o ex-presidente Lula e o ex-ministro José Dirceu. Os dois dedicam-se, desde os primeiros meses do primeiro mandato do petista na Presidência da República, a tentar aprovar legislações que controlem a informação, uma tendência que vem se alastrando por toda a América Latina.

O movimento de contenção da liberdade de imprensa está presente em diversos países, como Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador, onde TVs, rádios e jornais vão sendo fechados sob os mais variados pretextos, e muitos outros são ameaçados com diversas formas de pressão, seja financeira, seja por meio de medidas judiciais.

No início do governo, tivemos que lutar contra a criação de várias agências oficiais. A Agência Nacional de Cinema e Audiovisual daria poderes para o governo interferir na programação da televisão e direcionar o financiamento de filmes e de toda a produção cultural para temas que estivessem em sintonia com as metas sociais do governo.

O Conselho Nacional de Jornalismo teria a finalidade de controlar o exercício da profissão e poderes para punir, até mesmo com a cassação do registro profissional, os jornalistas que infringissem normas de conduta que seriam definidas pelo próprio conselho.

Os mesmos grupos políticos continuam empenhados em aprovar novos tipos de cerceamento à liberdade de imprensa no país, sob o pretexto de exercer um “controle social” sobre os meios de comunicação, sendo que o Partido dos Trabalhadores decidiu que uma das prioridades é o que chamam, paradoxalmente, de “democratização da comunicação”.

A presidente Dilma, ao assumir o governo, relegou a um plano secundário um projeto que objetivava controlar a informação, sob o pretexto de regulamentação dos novos meios eletrônicos.

Nossos dois “especialistas” voltaram às suas obsessões nos últimos dias. Lula motivado pelas críticas ao apoio oficial ao Congresso da UNE, onde foi o grande homenageado. E José Dirceu incentivado pelo escândalo na imprensa inglesa que provocou o fechamento do jornal “News of the World”, além da demissão de vários dirigentes do conglomerado de informações do magnata Rupert Murdoch, uma espécie de “cidadão Kane” pós-moderno.

Insistindo nos seus equívocos, Lula tentou pela enésima vez menosprezar o peso dos jornais tradicionais que chamaram a reunião da UNE de chapa-branca. E declarou-se “invocado” por considerar que a imprensa não larga do seu pé.

A pretexto de consolar o presidente da UNE, Augusto Chagas, o ex-presidente garantiu a ele que os grandes jornais do Rio e de São Paulo não têm alcance nacional e não chegariam, segundo o ex-presidente, à Baixada Fluminense ou ao ABC paulista.

“Eles não perceberam que as coisas estão mudando no Brasil. O povo não quer mais intermediário entre eles e a informação. O povo está se informando de muitas formas. Muitas formas. E não apenas naqueles (meios) que habitualmente achavam que formavam”, argumentou o ex-presidente, revelando sua peculiar postura ética, além de ignorância em relação à circulação das informações nas novas mídias.

Se a notícia não chega a todo o país, e muito menos ao interior, então não é preciso se preocupar, ensina Lula. O fato em si não tem a menor importância, desde que a grande massa de cidadãos permaneça na ignorância deles.

Esquece-se o presidente que, da mesma maneira que a internet e as novas mídias sociais permitem que as informações circulem mais largamente, com versões de várias fontes, elas também levam as reportagens da grande imprensa aos recantos mais longínquos do país.

Estudo recente demonstra que as reportagens da grande imprensa são replicadas no Facebook, no Twitter e em outras mídias sociais, amplificando sua repercussão.

O ex-presidente também se esqueceu que, no Brasil, a circulação dos jornais vem crescendo, especialmente a dos chamados “jornais populares”, o que leva as questões nacionais a esse público que Lula pretende controlar sozinho, sem a interferência de outros agentes.

Além do mais, os blogs mais acessados são justamente os que se ligam aos principais jornais do país, cujas marcas e tradição lhes dão os meios para apuração das notícias e a credibilidade que muitas vezes faltam a blogs personalistas.

Não é à toa que a presidente Dilma Rousseff vem demitindo ministros e assessores do primeiro escalão com base em denúncias da chamada “grande imprensa”. E, se considerasse mesmo desimportantes os grandes jornais, Lula não perderia seu tempo com eles.

Não há dúvida de que, com o surgimento das novas tecnologias, os jornais perderam a hegemonia da informação, mas continuam sendo fatores fundamentais para cidadania.

O jornalista espanhol José Luis Cebrian, diretor do “El País”, talvez o jornal mais influente hoje da Europa, considera que os jornais perderam a centralidade da formação da opinião pública, mas continuam sendo um “contrapoder”, com uma enorme influência, embora menor do que anteriormente à chegada das mídias sociais.

Ele relembrou em recentes entrevistas que os jornais continuam sendo importantes para a institucionalização democrática dos países, embora precisem se adaptar à nova realidade tecnológica.

Já o escândalo das escutas ilegais do jornal britânico “News of the World” fez com que o ex-ministro José Dirceu recuperasse o fôlego, depois de ter sido reafirmado pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel como o “chefe da quadrilha” do mensalão, e voltasse à carga em seu blog na campanha pela “regulação da mídia”, nova maneira de denominar sua permanente tentativa de controlar a informação.

A gravidade do que aconteceu no “News of the World”, com escutas ilegais e chantagens, liga perigosamente a prática de crimes comuns ao jornalismo, o que é inaceitável e põe em risco a própria essência da liberdade de expressão. O jornalismo, instrumento da democracia, não pode se transformar em atividade criminosa.

O interessante é que nem mesmo na Grã-Bretanha, epicentro dessa grave crise do jornalismo, está em discussão uma legislação oficial para controlar meios de comunicação.

São grandes as críticas à atuação da Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular, e há um amplo debate sobre a revisão de seus critérios para reconquistar a confiança do público britânico.

Mas até agora não apareceu nenhum Dirceu para defender o controle governamental da imprensa.

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(Ainda o Eduardo Guimarães)

O ataque que o pistoleiro de O Globo faz ao ex-presidente Lula e ao ex-ministro José Dirceu, ironizando suas posições sobre a libertinagem que é a comunicação no Brasil, por razão que logo ficará clara deixa de fora um ator importante da democratização da comunicação tentada pelo governo anterior, o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República Franklin Martins.

Nos dias 9 e 10 de novembro do ano passado, o Governo Federal promoveu o “Seminário Internacional das Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias”, convocado por iniciativa de Franklin. O evento teve a finalidade de debater os impactos das mudanças tecnológicas. O objetivo foi o de fornecer subsídios para legisladores, reguladores, formuladores de políticas públicas e segmentos empresariais e da sociedade civil que lidam com as diversas questões relacionadas às comunicações.

Naquele Seminário, foi possível discutir os rumos das comunicações eletrônicas por meio da troca de experiências com outros países e conhecer os avanços e limitações de seus processos regulatórios. Participaram, como palestrantes, dirigentes e representantes de órgãos de regulação da mídia dos países que detêm as legislações mais avançadas nessa questão. Foram convidados os dirigentes das seguintes entidades:

- Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom/Portugal)

-Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC/Portugal)

- Conselho Superior do Audiovisual (CSA – Conseil Supérieur de l´Audiovisuel/França)

- Comissão de Mercado das Telecomunicações (CMT – Comisión del Mercado de las Telecomunicaciones/Espanha)

- Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (AFSCA – Autoridad Federal de Servicios de Comunicación Audiovisual/Argentina)

- Office of Communications (Ofcom/Reino Unido)

- Comissão Federal de Comunicações (FCC – Federal Communications Commission/Estados Unidos)

Além dos dirigentes de agências reguladoras da comunicação social dos países mais desenvolvidos nessa área, foram convidados especialistas na área de regulação da Comissão Européia, da Unesco e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O convite a essas pessoas e entidades mostra quão falsas são as alegações de Merval. O que se buscava, então, era dar ao Brasil um desses órgãos que todo país civilizado tem. E quando ele diz, em seu texto mentiroso, que isso ERA buscado, é porque o atual governo parece ter abandonado os projetos do governo anterior nesse sentido. E esse é um dos três únicos elementos de verdade no texto mentiroso do colunista de O Globo – os outros serão revelados mais adiante.

Merval afirma que “nem mesmo na Grã-Bretanha, epicentro dessa grave crise do jornalismo, está em discussão uma legislação oficial para controlar meios de comunicação”. Ora, mas é claro que não está em discussão, simplesmente porque essa legislação já existe, além de uma agência reguladora, a Ofcom, que, matreiramente, o colunista de O Globo omite que existe. Não existe apenas a “Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular”.

De acordo com a exposição de Vicent Edward Affleck, diretor internacional da agência britânica de regulação da mídia, a Ofcom (sigla em inglês para Office of Communications), o órgão é gerido por um colegiado misto, formado pela sociedade civil e funcionários públicos indicados pelo Estado. Além do que, grupos de interesse da sociedade civil atuam ativamente na fiscalização da mídia e acionam a agência em casos que considerem irregulares.

O que pretendia o governo Lula, portanto, era apenas isso, pois não temos nada parecido no Brasil. A mídia faz o que quer, quando quer e como quer. É uma “casa da mãe Joana”. E Merval sabe disso porque participou ativamente do evento promovido pela Secom, que foi, inclusive, mediado por um representante da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Ou seja: Merval mente.

Mas há dois outros elementos de verdade no texto majoritariamente mentiroso desse sujeito. Um desses elementos está presente quando ele reconhece que “São grandes as críticas à atuação da Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular”. E que “Há um amplo debate sobre a revisão de seus critérios para reconquistar a confiança do público britânico”.

O que aconteceu na Inglaterra, aconteceu porque, apesar de o país ter uma legislação de regulação da mídia anos-luz à frente da nossa – que, aliás, nem existe –, esse país ainda é, de fato, o mais liberal nesse aspecto. As agências francesa (CSA) e portuguesa (ERC), porém, consideram que a legislação inglesa de autorregulação é responsável pelo escândalo do The News of the World simplesmente porque não se pode pôr a raposa para tomar conta do galinheiro.

De qualquer forma, tanto no Reino Unido quanto nos demais países a legislação é dura e fiscaliza com mão de ferro sobretudo a imparcialidade dos meios de comunicação, principalmente durante períodos eleitorais.

Por fim, o terceiro elemento de verdade na empulhação de Merval Pereira pode ser visto quando ele reconhece que “Com o surgimento das novas tecnologias, os jornais perderam a hegemonia da informação”. Apesar de apresentar o fato como símbolo do poder dos barões da mídia que Lula e José Dirceu colocaram em questão, o dado correto é o de que ela perdeu a hegemonia que detinha.

Nesse aspecto, vale a pena ler texto bem mais honesto de um colega de Merval nas Organizações Globo. Artigo recente do jornalista Paulo Moreira Leite, em seu blog, mostra o fato pelo aspecto correto. É imprescindível a leitura desse texto porque revela a razão do desespero que leva a família Marinho a usar gente como Merval para tentar tapar o sol com a peneira.

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Do blog de Paulo Moreira Leite

12 de julho de 2011

A herança que chegou a todos nós

Na medida em que surgem novas indecências no arquivo de imoralidades praticadas pelos jornais de Robert Murdoch, torna-se obrigatório fazer uma pergunta maior.

A questão é definir o papel de Robert Murdoch, o maior empresário de comunicações do planeta, no negócio mundial da mídia. É uma questão imensa e complicada, vamos combinar. Mas é possível fazer algumas observações.

Todos nós, jornalistas e leitores, temos consciência de que no mundo inteiro existe um fenomeno que costuma ser descrito como uma crise nos meios de comunicação. Jornais e revistas não param de perder leitores. O mesmo ocorre com canais abertos de TV e com emissoras de rádio.

O conteúdo da mídia, diz-se, tornou-se menos profundo, menos plural, mais superficial e mais vulgar. Sem dúvida, é cada vez mais apelativo.

Não há dúvida de que boa parte dessas dificuldades é o resultado de mudanças no modo de vida das sociedades contemporâneas.

Podemos listar vários fatores. Por exemplo: os cidadãos querem viver num mundo mais horizontal — e a velha mídia funciona no esquema clássico das sociedades verticais. Graças não só a internet, mas também a formidável elevação dos níveis de educação, o leitor comum possui hoje um acesso primário à informação e a cultura que lhe permite dispensar boa parte das reportagens e análises que as revistas e jornais tem para oferecer.

Há outras mudanças, porém, que são produto de transformações ocorridas dentro da mídia. Não foi só o mundo que mudou. O produto também mudou. E, sob vários aspectos, mudou para pior.

Acho difícil negar que Murdoch e suas empresas tenham dado uma contribuição importante nestas mudanças.

Com um império econômico de vários bilhões de dólares, instalado no centro do capitalismo mundial, operando no segundo idioma dos 6 bilhões de moradores do planeta, Murdoch ajudou a trazer uma nova lógica para um velho negócio. Não foi o único, com certeza. Mas, pela economia e pela geografia, foi um dos mais importantes e talvez o mais decisivo.

No passado, quando o jornalismo era uma profissão invejada pela influencia e prestígio havia a preocupação com um certo rigor na informação, com a separação entre o público e o privado, na distinção clássica entre os interesse da Igreja (o jornal) e o Estado (a empresa).

É claro que todos procuravam equilibrar o negócio. As vendas e a conquista de novos leitores sempre foi um ponto essencial da atividade. Mas havia um pouco de pudor. Nem tudo era industria, comercio e finanças. A preocupação com vendas não fazia parte da pauta das redações.

De uns anos para cá, ocorreu uma mudança no eixo da profissão.

Para dizer muito numa frase curta, o jornalismo banalizou-se. Tornou-se uma atividade empresarial como tantas outras. Frequentemente procura ser rentável como um investimento de alto risco, alienada como uma fábrica de sabonetes, descartável como filminho que a TV exibe à tarde.

Murdoch foi um dos homens que ajudou a alterar a lógica dessa atividade. Não por acaso, o crescimento de suas empresas coincide com uma mudança no padrão do jornalismo, nos valores em vigor em muitas redações, na meta de trabalho e formação dos profissionais.

Antes, as empresas jornalísticas eram fruto de investimentos de origem familiar, com compromissos definidos por seus fundadores e patronos, competindo por leitores num mercado onde não faltava espaço para a diversidade e a concorrência.

Com uma reconhecida capacidade para encontrar oportunidades favoráveis a seus interesses e batalhar com afinco por eles, Murdoch ajudou a transformar as empresas de comunicação em grandes corporações, impessoais, sem perfil e sem história, dependentes e até associadas a grandes grupos financeiros. Em suas mãos, o pequeno negócio deixou de fazer sentido. Precisava do grande capital, do monopólio do mercado.

Embora nunca tivesse renunciado a suas idéias políticas, de profunda matriz conservadora, sua prioridade real não envolve a qualidade do conteúdo que oferecia — mas a força de mercado que cada novo jornal, cada nova emissora de TV, poderia lhe acrescentar. Seu interesse fundamental não envolvia a mídia como entretenimento, como formação de cidadãos, como parte da democracia, como notícia, mas como instrumento de poder.

Daí a profusão de aquisições, compras e fusões. Embora jamais tenha aberto mão de escândalos em seus veículos, a estratégia não era competir mas eliminar os adversários, transformando-se na única opção para anunciantes e consumidores.

Denuncias e investigações fizeram a glória do jornalismo desde sempre. Mas, enquanto bons jornais e revistas produzem revelações com alguma relação com o interesse público, a rede de Murdoch procura o sucesso em questões privadas, em reportagens que desmoralizam e humilham seus personagens.

Se fosse um empresário fraco, numa cidade remota da Austrália, Murdoch teria criado uma igreja de jornalismo de alcance local e folclórica, como tantas que se encontra em pontos diversos do mundo.

Mas, pelo seu tamanho e sua influencia, tornou-se um padrão imitado e copiado, com outra lógica e outra finalidade. Pela força econômica e pela crescente influencia política, impôs seus métodos aos países onde passou a atuar, num processo de contágio crescente e irresistível, contaminando concorrentes incapazes de enfrentar a chamada desvantagem competitiva.

Como me disse certa vez um dos grandes empresários de mídia do Brasil:

– Se o seu maior concorrente é um grande sonegador de impostos, você tem tres coisas a fazer: ou começa a sonegar impostos como ele, para competir em igualdade de condições. Ou prepara-se para ter custos maiores e lucros menores. Ou muda de ramo.

Foi isso o que ocorreu com a mídia em torno de Murdoch — e não estamos falando de sonegação de impostos, evidentemente.

Felizmente, não é em todo lugar que os repórteres contratam empresas de investigação para promover escutas telefônicas e bisbilhotar a saúde de crianças.

Nem todos os governos se curvam diante dos senhores da mídia de seus respectivos países.

Seria igualmente errado dizer que todas as empresas de comunicação aplicam os mesmos métodos e exibem a mesma falta de escrúpulos.

Mas é difícil negar que há um pouco de Robert Murdoch no pior do que a imprensa mundial exibe hoje, concorda?

12 de julho de 2011

Raphael Correa, super-heroi solitário?

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(O eixo do mal sul-americano)

Thomas Jefferson, um dos "pais" da democracia norte-americana, não era um grande amante da imprensa de seu país; caso contrário, não teria jamais dito: "não leio sequer um jornal por mês, e sinto-me infinitamente mais feliz com isso".

Nesse livrinho de citações que peguei na estante, tem outras frases deliciosas e dolorosamente verdadeiras sobre jornalismo:

"Primeiro obtenha os fatos, depois pode distorcê-los à vontade", Mark Twain.

"Os jornalistas dizem uma coisa que sabem não ser verdadeira, na esperança de que, se a disserem durante bastante tempo, ela acabará sendo", Arnold Bennett.

"Nos Estados Unidos, o presidente reina quatro anos e a imprensa governa eternamente", Oscar Wilde.

Entretanto, a que me pareceu mais sensata e definitiva vem de Voltaire: "Quando ouvimos uma notícia, sempre devemos aguardar o sacramento da confirmação".

Tudo isso é uma introdução para comentar esta matéria publicada no Globo de hoje. Trata-se de um comentário editorial (embora sem se mostrar como tal; é publicada como se fosse um biografia jornalística isenta) à notícia de que o presidente do Equador, Raphael Correa, decidiu manter o processo contra o jornalista Emilio Palacios e os donos do jornal "El Universo", por crime de calúnia, mesmo após Palacios renunciar ao cargo de editor de opinião.

Publico um trecho da matéria, porque gostaria de comentá-la:

Rafael Correa, presidente do Equador, é um fenômeno político. Com apenas 600 dias de carreira pública, no Ministério da Economia, candidatou-se e se elegeu presidente, em 2006. Com 100 dias no poder, reescreveu a Constituição. Antes de completar dois anos de mandato já controlava o Poder Legislativo. Nesta semana, completa um processo iniciado há 18 meses para obter, também, a submissão do Poder Judiciário: uma comissão designada e subordinada ao Executivo vai indicar novos juízes, entre os quais um grupo que poderá interpretar a Constituição equatoriana a favor de seu interesse em um terceiro mandato, em 2014.

É muito interessante como, em poucas palavras, o editorialista resumiu todo o preconceito da mídia corporativa contra as próprias instituições democráticas que ela, ironicamente, finge defender.

Repare só. Todas as frases respingam preconceito. Raphael Correa não é nenhum fenômeno político, é somente mais um presidente eleito, numa eleição realizada com toda lisura, monitorada por diversos observadores internacionais. O que tem a ver o fato de possuir "apenas 600 dias de carreira pública, no ministério da Economia"? Aliás, desde quando se usa "apenas" para 600 dias? 600 dias, que eu saiba, são quase dois anos! E Ministro da Economia, ainda por cima! O "apenas" somente teria sentido se Correia tivesse sido ascensorista do governo por apenas 20 dias...

Aliás, aqui no Brasil também tivemos um político que se elegeu presidente da república após "apenas 600 dias de carreira pública, no ministério da Economia". O nome dele é Fernando Henrique Cardoso...

A matéria informa, com uma singeleza tocante, que ele "candidatou-se e se elegeu presidente". Ora, realmente isso é apenas um detalhe! Tudo bem, vamos em frente.

"Com 100 dias no poder, reescreveu a Constituição", continua o texto. Uau! Aí começa a carreira do nosso super-herói! Quem lê a matéria imagina um Correa olímpico, vestindo roupas coloridas e contemplando o céu com olhar triunfante. Ele escreveu sozinho a Constituição? Não teve ajuda de congressistas, juristas, intelectuais?

A seguir, a matéria nos informa que "antes de completar dois anos de mandato já controlava o Poder Legislativo". Essa afirmação merece um brinde. Correa, imitando um das aqueles tiranos italianos pré-renascentistas, deve ter mandado degolar algumas centenas de adversários, torturado outros milhares, cancelado a ficha eleitoral de um ou dois milhões de eleitores, enfim, fez de tudo para "controlar" o Poder Legislativo, cujos membros ele provavelmente nomeou através de um decreto, porque as eleições legislativas foram canceladas no Equador.

Ora, é tudo um grande disparate!

O controle de Correa sobre o Legislativo nada mais é do que o resultado legitimamente democrático das urnas! Ser autoritário é um qualificativo que a mídia conservadora aplica a estadistas de esquerda; quando o cara é da direita, é "pulso firme" ou coisa parecida; Margaret Tatcher era "dama de ferro", apelido que sempre soou como um elogio. Fosse de esquerda, Tatcher seria chamada de "caudilha"...

O texto diz que o Executivo irá "obter, também, a submissão do Poder Judiciário", porque uma comissão subordinada ao Executivo vai indicar novos juízes... Ora, o governo brasileiro também não indica os juízes do Supremo Tribunal Federal? Isso signifca submissão? Sim, talvez signifique submissão... mas não ao Executivo, e sim ao poder que emana do povo, através do sufrágio universal.

O Globo denuncia, então, a movimentação de Correa para criar instituições que regulem a mídia de seu país e de outros países sul-americanos, que também experimentam graves problemas políticos em consequência da ausência de leis que civilizem o comportamento dos grupos midiáticos. Todos os países desenvolvidos tem instituições que regulam a mídia. Na Inglaterra, Rupert Murdoch foi obrigado a fechar um jornal centenário por exigências do órgão controlador da mídia, e corre o risco de não concluir um negócio bilionário (a compra de uma rede de transmissão de sinal de tv via satélite, a BSkyB). O Partido Trabalhista inglês deu entrada num processo político para impedir a operação.

É muito positivo que alguns presidentes da região estejam conscientes do papel nocivo que a falta de uma regulamentação adequada na mídia impõe ao jogo político. Eu não sou nenhum obcecado por uma "ley dos medios" no Brasil. Para mim, os governos populares deveriam, em primeiro lugar, ter consciência da importância da guerra de comunicação, e usar (dentro dos limites da democracia) o poder que a sociedade lhes conferiu para participar dessa guerra com mais desenvoltura. Criar blogs de qualidade, contratar gente, financiar estudos, mudar a educação. De nada adiantará Ley dos Medios se a classe política amarelar na guerra contra o Leviatã midiático. É uma luta entre o poder do povo e o poder do dinheiro.

Afinal, não é de hoje que a imprensa representa um poder político importante. Volto ao livrinho de citações.

"Três jornais me fazem mais medo que cem mil baionetas", Napoleão.

Entretanto, diferentemente do tempo de Napoleão, hoje temos regimes políticos democráticos que não podem mais continuar reféns de um poder que não é conferido pelo povo. Se há problemas de corrupção que só a imprensa denuncia, o que temos de fazer não é exatamente fortalecer a imprensa e sim aprimorar as instituições de combate à corrupção, conferindo-lhes mais independência do Executivo e do Legislativo e tornando-as mais democráticas, transparentes e prestigiadas.

Não se trata de amordaçar a imprensa; ao contrário, mas de ampliar a sua liberdade através de práticas e leis que coibam os crimes jornalísticos. Com isso, talvez tenhamos, algum dia, um jornalismo menos voltado para a cultura do escândalo, da calúnia e dos joguinhos partidários, e mais focado em publicar análises e informações de qualidade, em todos os campos do conhecimento, e ser um dos filtros através dos quais a sociedade consome a sua vasta produção cultural.

9 de julho de 2011

Quem tem medo de Orson Welles?

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Neste sábado frio, tomei o café da manhã bombardeado por manchetes globais sobre a nova denúncia do Procurador-Geral da República, Antônio Gurgel, contra o esquema do mensalão. E também por alguns desdobramentos da queda do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, cujas supostas estrepolias ainda não tive chance de abordar por aqui. Trata-se de uma excelente oportunidade para filosofar um pouco sobre aquele que possivelmente seja o mal mais antigo da civilização: a corrupção política.

Ao filosofar sobre o tema, porém, não pretendo com isso apelar para uma generalização conivente ou oportuna, apontando a escuridão do passado para acharmos as trevas de hoje menos sombrias. Ao contrário, gostaria de fazer uma abordagem que nos tornasse mais conscientes e mais indignados.

É um desafio.

Podemos começar por uma asserção corroborada tanto pelo senso comum quanto pela ciência política: o poder corrompe.

Não é uma afirmação moralista, embora seja uma avaliação, sim, bastante pessimista. A raíz do vocábulo "corromper" é forte: vem do latim "corrumpere", que significa "destruir, devastar, arruinar, desperdiçar". Mas também possui o significado de "alterar".

Poderíamos ainda fazer uma gracinha pós-moderna e separar a palavra com tracinho: o poder co-rompe.

O poder "rompe" a igualdade básica entre seres humanos. A democracia é uma ideologia linda, um contrato político sofisticado, mas jamais conseguirá superar este trauma de nascimento: brincávamos todos juntos, éramos irmãos, amigos, iguais; de repente, tem alguém mandando, outro obedecendo.

Mesmo numa democracia perfeita, em que há sufrágio universal realizado com lisura, o trauma permanece, pois evidentemente entram em jogo pesados interesses econômicos. Não foi apenas o povo que votou em Dilma Rousseff; sua campanha custou bilhões de reais. Empresários apostaram em deputados, prefeitos, governadores. Cabos eleitorais investiram mais do que sua força de trabalho; correram riscos pessoais, às vezes até risco de vida. Todos querem, mesmo que finjam o contrário, cobrar a conta por tanto esforço.

Muitos cientistas estudam as transformações ou desvios psicológicos provocados pelo poder. O fenômeno é analisado também por todo artista interessado na psicologia humana, e qualquer pessoa, de maneira empírica e desinteressada, tem sua própria teoria sobre o tema.

De maneira geral, há um consenso negativo sobre as consequências do poder. E isso porque há um fundamento igualitário que nos une a todos. Cidadãos de todas as ideologias, todos os credos, sentem uma invencível irmandade ao se verem no mesmo botequim, longe do poder, reclamando ou defendendo seus líderes. Podem até brigar mortalmente, mas será sempre uma briga entre irmãos, um fratricídio.

Esta irmandade entre os iguais torna-se clara com o tempo. Se antes Céline era condenado por seu antissemitismo e simpatia pelos nazistas, hoje o perdoamos não apenas por ser um grande artista, intérprete das misérias e angústias do espírito humano, mas sobretudo por ser um dos nossos, um homem comum, confuso, pobre, perseguido, frágil. Nunca o perdoaríamos se tivesse sido um político, um chefe militar.

O poder é entendido, todavia, assim como a democracia e a existência do Estado, como um mal necessário.

Mas a origem da corrupção política nasce desta ruptura básica. A partir do momento em que eu tenho poder, sinto-me mais livre do que outros cidadãos, e essa liberdade contamina a minha visão de mundo. Minha liberdade política torna-se desenvoltura moral.

Nesse ponto, unem-se todas as ideologias em sua gritaria contra os perigos do poder.

Por ocasião do escândalo Palocci, houve gente que atacou o ministro com o argumento de que a esquerda não poderia se igualar à direita no quesito  "pragmatismo político", querendo dizer que não poderia se deixar levar por uma suposta falta de ética presente organicamente na direita. Besteira. Falso moralismo. Aliás, o certo é criticarmos o "falso moralismo" e não o moralismo em si. O moralismo, o debate moral, é sempre necessário. Mas a corrupção política da direita só é maior porque ela se expôs por mais tempo ao poder. A partir do momento em que a esquerda se expõe ao mesmo sol, ela terá a pele bronzeada pela mesma radiação ultravioleta.

É preciso também que evitemos a injustiça de depreciar a nobre indignação moral do cidadão comum para com a roubalheira constante no alto escalão do poder, tratando-a como lamentável vulnerabilidade à manipulação midiática. O que acontece é justamente o contrário. A mídia manipula com astúcia (afinal este é seu principal trunfo) a desconfiança atávica do cidadão comum em relação aos donos do poder. Essa desconfiança, porém, é nobre. Pode-se dizer que ela é o fundamento da democracia, que é o regime político que melhor soube enfrentar os dilemas morais criados pela necessidade de nos organizarmos socialmente e com isso conferirmos poder a uns e não a outros. A democracia aceita a existência do poder, mas tudo faz para fragmentá-lo e mantê-lo sob o controle popular.

Não é por outra razão que a sociedade, historicamente, tem sempre desprezo pelos bajuladores.

O grande barato dos comentaristas romanos, o que os tornou clássicos da literatura mundial, como Tácito e Suetônio, reside na liberdade crítica com que eles trataram os grandes nomes da política de sua época. Na obra de Suetônio, por exemplo, ao mesmo tempo em que Júlio César recebe inúmeros elogios por sua dedicação às agruras sociais do povo (César era do partido popular, a esquerda romana), dentre outras qualidades, é impiedosamente criticado por sua vaidade, cobiça, corrupção e outros defeitos terríveis.

Eles mesmo confessam, porém, que só puderam escrever com tal liberdade em função do seu distanciamento histórico e da relativa liberdade política de que ainda gozavam. Quando o totalitarismo passa a reger a vida romana, acabam-se as artes, a literatura, e a crítica política divertida, livre e saudável que havia germinado por séculos, tanto em Roma quanto na Grécia Antiga.

É por isso também que eu entendo e aprovo o esforço da blogosfera progressista em libertar-se da pecha de "chapa branca". Ela quer ser crítica, livre, nobre.

Daí voltamos ao tema da corrupção política, mais especificamente a do governo federal e seus aliados, seja nos ministérios, seja nos estados.

A sociedade não pode ser tolerante ou leniente: o combate à corrupção deve ser implacável. Se provarem que Lula praticou um ilícito, que o esquartejem na rua; se provarem que Dilma prevaricou, que a degolem em praça pública! Obviamente uso hipérboles: as condenações devem passar pelos ritos institucionais, com todo o direito à defesa. Quer dizer, aí reside o ponto principal. A sociedade precisa aprimorar as suas técnicas de combate à corrupção não apenas para melhor capturar os bandidos, mas também para proteger os inocentes. Quer dizer, ninguém é inocente. Um político no poder, só pelo fato de estar no poder, arrasta consigo uma espécie de maldição. Ao longo de sua vida, acumulou adversários, invejas, equívocos. Seria difícil pensar num político, mesmo o mais santo e generoso, que não tenha praticado um ato de prepotência ou injustiça em sua carreira.

O aprimoramento das instituições, porém, deve visar o endurecimento do combate à corrupção, mas também evitar o agravamento desse preconceito atávico, genético, do homem comum contra o político.

E aí entramos na seara dessa ligação polêmica, às vezes positiva, muitas vezes negativa, entre as instituições que combatem a corrupção (ministerio público, justiça, polícias) e imprensa.

É notório que vários escândalos concretos de corrupção nascem de denúncias feitas pela imprensa comercial. Tal fato não deriva de nenhuma qualidade moral intrínseca a uma empresa de mídia em particular, embora devamos admitir que a existência de uma imprensa de oposição incentiva os inimigos do governo a denunciarem seus podres. É neste sentido que a blogosfera não vê problemas no fato da grande mídia brasileira ser uma imprensa de oposição. Ao contrário, blogueiros como Eduardo Guimarães afirmam que se sentem mais seguros em ter governos do PT justamente por saberem que haverá sempre denúncias; em caso de governos do PSDB, não há confiança de que a imprensa será tão diligente - pelo menos esta nunca usou com muita energia seu arsenal quando FHC fez de tudo para aprovar a reeleição para si mesmo (sem ao menos consultar o povo, como fez Chávez), manipulou o câmbio e vendeu nossas estatais a preço de banana.

O problema é quando esta ânsia de prender o ladrão leva o denunciante a querer fazer justiça com as próprias mãos, com isso cometendo outro tipo de injustiça, às vezes até mais grave, politicamente, do que aquelas que denuncia. Montesquieu, em seu clássico O Espírito das Leis, lembra que o falso testemunho e a calúnia, por seu potencial devastador contra a democracia e contra o delicado espírito de confiança mútua do qual ela precisa para sobreviver, eram considerados crimes hediondos em Atenas e na Roma republicana.

Quando todos os cidadãos são livres para se manifestar politicamente, as vozes mais estridentes que se levantam no meio da ágora não são, necessariamente, aquelas dos mais honestos e bem intencionados. Desde que nasceu a democracia, cínicos e mentirosos logo identificaram a oportunidade de usar suas qualidades retóricas para se dar bem sem muito esforço. Esses cupinchas da mídia surgiram, na verdade, há milhares de anos; não defendem a democracia por uma questão de princípios, mas porque são seus parasitas.

O que devemos fazer, portanto, na minha opinião, é apostar no fortalecimento das instituições de controle. Incentivar que sejam mais independentes e mais democráticas. Ao mesmo tempo, porém, temos que produzir uma cultura de respeito à defesa dos indivíduos, incluindo aí as autoridades políticas.

Quanto aos desvios éticos, eu acho que devem ser todos postos no papel. Não podemos nos expor a esse absurdo de condenarmos políticos com base na interpretação leiga e sempre preconceituosa do cidadão comum, para o qual todo político é um ladrão - e num sentido filósofico, todo político é um ladrão de nossa liberdade e do nosso sentido de igualdade.

Como fizeram com Palocci.

Pré-condenar um inocente é um crime tão grave ou pior do que roubar dinheiro público. O peculato devasta as contas do Estado, a pré-condenação solapa o Estado de Direito, ameaça a democracia e as liberdades individuais. Esta condenação paralela ao Estado de Direito, esse pré-julgamento empírico, realizado fora das barras dos tribunais, enquanto um ato preponderantemente midiático, interessa somente à mídia. No tribunal midiático, não há nenhum rigor ou controle sobre os direitos sagrados da defesa. A mídia exibe um arremedo qualquer de defesa, em geral extremamente precário, e que, na maioria das vezes, é usado contra a própria vítima. Isso sem contar os inúmeros artifícios semióticos que a mídia tem a seu dispor para demonizar um desafeto: imagens, vídeos, charges, animações, programas de humor, entrevistas com personalidades da cultura, etc.

Tudo isso tem sido colocado, há tempos, nesta pesada conta que chamamos "liberdade de imprensa". É um assunto complexo e delicado, pois nenhum democrata verdadeiro quererá tolher o direito sacrossanto dos jornais de meterem o pau em quem lhes convir. A própria entrada da Justiça nessa seara tem sido tratada como indesejável, desagradando inclusive a blogosfera.

A tendência dos regimes políticos modernos, em todo mundo, todavia, será a regulamentação democrática da mídia. A partir do momento em que os grandes jornais, revistas e canais de TV, recebem enorme quantidade de verbas públicas, oriundas da publicidade oficial, é necessário que estes órgãos se submetam a um código de ética público e democrático. Se quinhentas pessoas escrevem uma carta reclamando de uma matéria, e duas a elogiam, não é correto que o jornal publique somente as duas últimas, ou mesmo apenas uma de cada. É preciso que haja equilíbrio, bom senso e justiça. À imprensa cabe informar, denunciar, criticar e dar espaço aos produtores de cultura. O dono do jornal e o colunista tem o direito de expor livremente suas ideias e visões de mundo. Mas é preciso dar um pouco mais de proteção também ao indivíduo e à sociedade, que muitas vezes se veem totalmente desamparados diante da ferocidade midiática. Isso se consegue através de: 1) uma regulamentação que assegure tanto a liberdade da imprensa quanto o direito de resposta do cidadão; 2) uma política educacional que estimule o cidadão a manter uma postura tão crítica em relação à mídia quanto ela já o é em relação aos governos.

Por fim, a propria sociedade civil, através de seus canais privados (literatura, blogosfera, cinema, teatro) deve construir valores, símbolos e filosofias, que sirvam como armas para que o cidadão saiba enfrentar não apenas os desmandos de seus governantes, mas também as prepotências dos barões da mídia. O cinema americano, seja feita a justiça, tem feito isso desde a década de 30, com os filmes de Frank Capra, culminando com a obra-prima de Orson Welles, Cidadão Kane. O primeiro grande filme moderno tem como assunto principal a emergência desse poder sem controle, anárquico e totalitário ao mesmo tempo, que é o surgimento dos oligopólios midiáticos. Welles foi perseguido por toda a grande imprensa da época, chamado de comunista para baixo, mas a força de sua arte fê-lo triunfar no final. Esperemos que, um dia, nossos cineastas e escritores tenham a mesma coragem de Welles para denunciar problemas ainda mais graves no Brasil, pois o Cidadão Kane, ao contrário de nossos barões de Limeira, jamais apoiou um golpe de Estado e a derrubada de um governo democrático... A história brasileira precisa ser recontada para que possamos entender melhor o presente. As liberdades individuais, embora hoje tenham virado assunto de salão junto às dondocas do Instituto Millenium, são hoje ameaçadas não pelo Estado, que é regulado pelo sufrágio e pela separação dos poderes, mas por uma mídia oligopolizada e mafiosa, que age ao arrepio das leis para julgar e condenar seus desafetos, interferindo perniciosamente no processo democrático.

22 de maio de 2011

O caso Palocci: ingenuidade, oportunismo e manipulação

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Atacar Palocci seria uma excelente oportunidade para este blogueiro demonstrar sua independência em relação ao governo Dilma. Afinal, de fato, ser blogueiro (blogueiro político, para ser mais exato) tornou-se uma espécie de cargo militar na guerra midiática em curso no Brasil desde a assunção da esquerda ao poder, em 2003. A gente vê os erros em nosso próprio campo, mas a prioridade é defender o nosso lado e atacar o adversário. Não é uma filosofia muito bonita, do ponto-de-vista da ética jornalística, mas é a realidade concreta, como diria Lênin. E os jornais, na verdade, são apenas mais hipócritas, quando negam ter igualmente uma postura orgânica em defesa de uma ideologia e dos partidos políticos que a professam. A gente nunca está totalmente à vontade nessa guerra, todavia, e sonhamos em abandonar a farda e nos tornarmos verdadeiramente imparciais. E aí que se dane Palocci e Dilma. Eles que se virem. Eu sou um blogueiro livre!

A derrota da mídia, neste sentido, nunca é completa, porque seus candidatos podem perder as eleições, mas os periódicos continuam a circular normalmente, e a audiência do Jornal Nacional permanece estável. Além do mais, os vitoriosos, para vencerem, tiveram que assumir alguns valores do adversário, mesmo que disso não tenham consciência.

De qualquer forma, essa é a democracia que temos, e não é correto sermos maniqueístas ou dramáticos. Nem o nosso campo político é composto de santos, nem nossos adversários são demônios ansiosos para destruir o Brasil. Passado o processo eleitoral, temos que buscar a paz; não sou eu que digo; é o que consta no preâmbulo da nossa Constituição:

Nós, representantes do povo brasileiros, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado democrático, (....) uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias (...).

Enfim, eu poderia atacar Palocci, e mostrar como eu sou independente. No entanto, não o farei pelos seguintes motivos:

Não sou juiz nem policial. Não gosto desse papel. Não o faço nem com quadros políticos que eu combato. Quem pode definir se fulano cometeu crime ou não é a Justiça, e quem tem a função de investigá-los é a polícia ou o Ministério Público. Poderia citar aqui o "jornalista investigativo", mas essa é uma atividade que tem sido tão vilipendiada por elementos desonestos e parciais que prefiro deixá-la de fora.

Não concordo com a demonização política de Palocci, pintado como um quadro inútil e incompetente. É injusto atribuir o conservadorismo dos primeiros anos do governo Lula apenas à Palocci. Ele soube, sim, corajosamente, assumir o ônus de tudo, para preservar o presidente e o governo, mas Palocci não fez mais do que seguir as diretrizes traçadas por Lula, e Lula, por sua vez, seguiu as diretrizes traçadas pela necessidade e pelas condições políticas e econômicas do momento. Desde então, parte da esquerda estigmatizou Palocci. Todavia, por mais incômodo que seja para a esquerda aceitar, os desdobramentos da história provaram que sua política econômica estava certa. Ele mesclou conservadorismo econômico e ativismo social. Quem pagou a dívida externa com o FMI não foi Guido Mantega; foi Palocci. Quando chegou a crise política, e o governo foi posto no pelourinho da mídia, seus defensores estavam armados com as estatísticas que a gestão Palocci lhes forneceu. Inflação baixa, forte crescimento econômico, acelerado processo de distribuição de renda em marcha, dívida externa paga.

Palocci assumiu todos os ônus, junto à esquerda, pelas políticas conservadoras, deixando que Lula figurasse como um deus olímpico, livre de qualquer peso simbólico das decisões difíceis. Tanto que hoje, os que defendem a queda de Palocci alegam que Dilma deve se realinhar ao "lulismo" para poder governar. Ora, Palocci não foi "lulismo"? Na verdade, o Palocci de hoje é um articulador político, sem nenhuma influência sobre a política econômica, enquanto na gestão anterior era o titular do Ministério da Fazenda!

Tanto é que os agentes do mercado, da vida real, tem a opinião de que a política econômica de Dilma está bem mais à esquerda que a de Lula. Ou seja, uma volta ao lulismo seria um retrocesso conservador...

Confunde-se ainda o último governo de Lula, quando ele estava livre do constrangimento de se reeleger, e o governo vinha na sequência de uma série de vitórias, no campo da popularidade, sobre a mídia corporativa, confunde-se esse último ano com seus oito anos de mandato. Durante quantos anos, nosso querido Paulo Henrique Amorim não chamou Lula de "o presidente que tem medo"? Durante quantos anos, Lula não foi acusado de "neoliberal" e de apenas dar continuidade à gestão anterior?

Voltando a Palocci, nosso combativo e ansioso blogueiro agora acusa o ex-ministro de ter consultado o filho de Roberto Marinho para escrever a Carta aos Brasileiros. Cita uma página do livro do professor Venício Lima, o qual sabe-se lá como teve acesso à íntegra de uma conversa privada, particular, para acusar Palocci de ter recebido "instruções" do líder-máximo das organizações Globo.

Ora, em primeiro lugar, quem assinou a carta aos brasileiros foi o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Palocci ligou para empresários, da indústria e da comunicação, e ajudou a redigir, mas quem determinou as diretrizes e apôs seu nome ao final do texto foi Lula. E sem hipocrisia e ingenuidade, a função daquela carta foi justamente acalmar a histeria de empresários e mídia por conta da iminente vitória de Lula.

Então que se culpe Lula, não Palocci. A santificação atual da figura de Lula significa uma apolitização absurda da história. Lula foi grande não apenas por suas decisões em favor dos pobres, mas também em função de sua política de conciliação e diálogo, em relação aos ricos. E isso sem contar os aspectos mais sombrios e questionáveis dessa aliança do lulismo com as elites.

O discurso de que Dilma deveria voltar ao lulismo não tem sentido. Voltar é retroceder. Retroceder é ser retrógrado. O governo Dilma tem de avançar, simplesmente. Para isso, porém, é preciso acertar o ritmo dos passos, saber recuar em alguns momentos, acelerar em outros. Pode ainda fazer como Lula, que alternava momentos de recuo político e avanço nas políticas sociais, com outros de avanço político e recuo no social. E todo esse vai-e-vem não se dá somente em função dos humores da "mídia velha", mas em virtude de análises concretas sobre a atual correlação de forças, a nível mundial, além do puro, singelo e inocente cálculo macro-econômico propriamente dito, o qual, apesar de ser demonizado como vício neoliberal, existe de fato.

Eu acho que o governo Dilma tem força suficiente para aguentar o tranco de uma eventual queda de Palocci. Se houver algo de concreto, ele terá de sair. Não boto a mão no fogo por Palocci assim como não fiz com nenhuma figura do governo Lula.

Quanto às denúncias de enriquecimento, mais uma vez apelo à Justiça. Não vou condenar Palocci simplesmente por ganhar dinheiro. Arminio Fraga comprou o MacDonalds América Latina por 1,5 bilhão de dólares logo após sair do governo FHC. André Lara Resende, de pobre ficou miliardário, com haras até na Inglaterra. Palocci comprou um apartamento de 6 milhões de reais.

Não digo isso para repetir o discurso de que "se eles fazem, nós também podemos fazer", mas para mostrar que o mercado costuma receber ex-integrantes de equipe econômica com muita generosidade. Alguns dizem que a lei é falha, ou que a quarentena imposta é pequena. Não sei. Nesse ponto, prefiro o ceticismo. Se a quarentena fosse excessiva, ou se proibíssemos que ex-membros da equipe econômica ganhassem dinheiro em consultorias, abertamente, declarando ao fisco, estaríamos estimulando que o sujeito ganhasse dinheiro por baixo dos panos. É a lei da oferta e da procura.

A mídia explora a nossa realidade pequeno-burquesa. Apartamento de seis milhões, faturamento de vinte milhões em 2010! Que horror! Por outro lado, analisando bem, é melhor que os políticos faturem de maneira transparente, como fez Palocci, registrando tudo na Receita e pagando devidamente seus impostos, do que ganhem seu dinheiro "por fora", como fez aquele governador do Distrito Federal, de triste memória. Em nossa vida de simples mortais, esses valores são fora-do-comum, mas lembremos que no alto do pirâmide social, respira-se outro oxigênio. Apresentadores de TV ganham milhões por mês, jogadores de futebol ganham milhões por mês, donos de agências de publicidade ganham milhões por mês, banqueiros ganham BILHÕES por mês.

Falemos de ética. Muitos questionam a ética nas ações de Palocci. Que segredos de Estado ele vendeu? Bem, esse é um ponto realmente difícil de ponderar. Ele poderia ter vendido secretamente, se quisesse, com grana depositada em contas no exterior (se é que não o fez).

A solução talvez só venha quando tivermos computadores regendo o governo, programados para não divulgarem nenhuma informação. Até porque nem sabemos que tipos de informação existem cujos segredos não podem ser divulgados de maneira nenhuma, nem sabemos que Palocci os divulgou. Não sabemos de nada. Em tese, Palocci pode ter vendido por milhões supostos segredos, mas não os mais importantes. Pode ter ganho dinheiro vendendo informação anódina ou mesmo falsa. Se são segredos, nem os empresários saberão. Ou então, pode sim, ter vendido informação importante, sigilosa. A única maneira de estarmos seguros com nossas equipes econômicas, seria tomar alguma medida drástica, à la Pérsia Antiga, como mandar degolar todos seus integrantes assim que terminasse sua gestão.

A única bóia à qual podemos nos agarrar volta sempre a ser a inevitável confiança que temos em nosso presidente da república. É ele ou ela, ao cabo, que tem a posição privilegiada de ver o quadro completo. Sabe os segredos de Estado. Tem o controle dos serviços de inteligência. Tem muito mais poder do que nós, portanto, de averiguar os eventuais mau-feitos do senhor Antonio Palocci. Não digo que devemos confiar cegamente em nossa presidente. Não estou dizendo isso. Digo que há situações em que não há outra saída. Temos que confiar ou não. Se não confiamos, então vamos afirmar honestamente. Não confio na Dilma. O fato de não confiarmos, porém, não significa que nós estamos certos e ela errada. Às vezes não confiamos e ela está certa. Neste caso, há um problema de comunicação, e o governo sempre terá um problema de comunicação, na medida em que a mídia brasileira é notoriamente uma mídia de oposição, partidária e, frequentemente, desonesta.

O que não podemos fazer, enquanto cidadãos, é deixar de acreditar no sistema democrático brasileiro. Que é falho, como em todo mundo. Deficiente, cheio de brechas por onde escapolem os poderosos. Mas é o que temos, e não existe sistema infalível. A democracia brasileira está em construção, como aliás a democracia no mundo inteiro. Está se fortalecendo ano a ano. Nosso Ministério Público hoje é muito mais forte, competente, jovem e idealista do que há vinte anos. O mesmo vale para o Judiciário. Não farei elogios ao Legislativo, mas lembrarei mais uma vez o pensamento de Wanderley Guilherme dos Santos: a massa votante hoje no Brasil é infinitamente maior do que em qualquer época passada. Temos mais eleitores e um percentual maior de eleitores sobre a população total do que em qualquer época. Se o Legislativo é bom ou ruim, é uma questão do voto popular, e as distorções decorrentes do financiamento de campanha estão sendo igualmente discutidas democraticamente pelos próprios congressistas, para que seja aprimorada.

Enfim, se Palocci cometeu um crime, compete ao Ministério Público, à Polícia Federal, ao Judiciário, ao Legislativo, decidirem. O que nunca aprovarei é o justiçamento midiático. Da mesma forma não aprovo que setores da blogosfera surfem nesse justiçamento para acertar contas com um quadro com o qual não nutrem afinidade política.

Se achamos que o governo Lula foi bom, temos que aceitar a função de Palocci no processo. E se temos alguma coisa a criticar acerca da Carta aos Brasileiros e da política econômica dos primeiros anos do governo Lula, não é justo crucificar Palocci. Não acho lógica interpretação de que o governo Lula foi bom apesar de Palocci.

Saindo do terreno das suposições, do passado e das suspeitas, Antonio Palocci é quadro político importante para o governo, por causa de seu diálogo com o grande empresariado e com as forças de centro-direita. Seria uma indesculpável ingenuidade da esquerda achar que o governo Dilma não deve dialogar com esses setores, ou que deveria tratá-los com truculência. São esses setores que pagam as campanhas políticas. São esses setores que fazem investimentos no país. São esses setores que tem o poder de derrubar presidentes. A grande mídia é aliada desses setores, e bate no governo para enfraquecê-lo e torná-lo (o governo) ainda mais dependente dos grandes empresários. A ideia de que um governo de esquerda deve amparar-se apenas nos movimentos sociais é arriscada. O governo Chávez vive em crise desde sua posse por conta disso, o que tem se refletido severamente na economia venezuelana, que só cresce quando o preço do petróleo sobe, e sofreu um brutal processo de desindustrialização e fuga de investimentos produtivos nos últimos anos.

O sucesso de Lula foi justamente, ao contrário de Chávez, estabelecer um pacto social entre o trabalho e o capital. Em seus momentos mais difíceis, Lula sempre apelou para as massas, mas nunca deixou de dialogar com a elite econômica. Mesmo fazendo uma política econômica mais à esquerda do que Lula, a atual presidenta não tem a experiência do velho sindicalista para discursos inflamados contra as elites e em favor do povo. Ela não tem nem saúde física para isso. Lula era forte como um touro, um fenônemo da natureza que só a brutal seleção genética do Nordeste miserável pode produzir. Dilma tem saúde frágil, ainda mais depois do câncer com o qual teve de lutar há poucos anos. Temos que avaliar também esses aspectos reais, físicos, porque a nossa democracia é feita de gente de carne e osso, e não de heróis ou símbolos. As perseguições da mídia destroem não apenas reputações, mas também a saúde e a psicologia de suas vítimas (mesmo que essas vítimas sejam culpados na justiça). Dificilmente veremos Dilma a vociferar em comícios para centenas de milhares de pessoas. Ela nunca foi uma sindicalista de massa. Experimentou apenas a eleição majoritária de um partido já consolidado, com recursos, que podia lhe dar todo o conforto necessário.

Mas é uma mulher corajosa, astuta, culta, e incorruptível. Saberá enfrentar com serenidade o teste de sua primeira crise política. O que não podemos exigir é que ela lance um ministro importante como o chefe da Casa Civil aos leões ao primeiro toque de corneta dos adversários. Palocci pode cair, mas só depois de muita luta, e defendido galhardamente por Dilma, por seu partido e aliados. Quanto à questão ética, é na verdade uma questão de Justiça. Se não fez nada proibido ou ilegal, não faz sentido condenar Palocci por ganhar dinheiro num país selvagemente capitalista como o Brasil, onde ou você ganha muito dinheiro ou é tragado e triturado pelo sistema. Em se tratando de um político, essa regra ainda é mais válida, porque ele tem de possuir recursos suficientes para, ao menos, pagar seus advogados, visto que é raro que um quadro partidário relevante atravesse sua carreira sem enfrentar duros embates jurídicos. Vide o caso do diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn. Se por acaso ele for inocentado (e imagine, apenas hipoteticamente, que ele seja inocente), terá sido pelos milhões de euros que conseguiu acumular ao longo de sua vida, pois é o que vem gastando e gastará para bancar advogados, fiança, assessores de comunicação e a própria prisão domiciliar (que custa até 200 mil dólares por mês). Claro que esses riscos não justificam que alguém cometa qualquer ilegalidade. Cito-os apenas para mostrar que o dinheiro ajuda bastante um político a se livrar de problemas, e Palocci já enfrentou graves questões na justiça. Sabe o que é estar na linha de tiro, abandonado por aliados, tratado como pária da sociedade, tendo como amigos apenas advogados de taxímetro estourado. Não me espanta que tenha decidido ganhar dinheiro. Se passou dos limites da lei, no entanto, aí é um caso para o Ministério Público investigar... Minha função, como blogueiro, não é julgar a ética pessoal de Palocci, nem me arvorar especialista em questões jurídicas. Eu faço uma análise política da conjuntura e dou minha opinião. Claro que posso estar errado, mas na minha humilde opinião Palocci é a bola da vez. Caindo Palocci, a mídia virá em cima do próximo quadro, e assim sucessivamente, até o fim dos tempos. Esse filme a gente já viu. A grande imprensa morde fundo, sem piedade, aplainando o terreno para a chegada de seu novo herói, ou para vender caro uma trégua mais adiante. Política (no Brasil e no resto do mundo), definitivamente, não é aconselhada para ingênuos.

19 de maio de 2011

Escritores tiram sarro do farisaísmo sintático da velha mídia

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Muito bom esse post publicado no blog do Deputado Rosinha, ainda sobre o caso do "livro maldito". Detalhe: ambos são ganhadores do prêmio Jabuti, o mais importante do país. O Tezza, sobretudo, já arrematou repetidamente todos os prêmios literários existentes no Brasil. Leia abaixo:

*

Livro didático x língua popular: Tese da velha mídia é motivo de riso para escritores, ao vivo na Globo News

Os escritores Marcelino Freire e Cristovão Tezza participaram nesta semana do programa "Entre aspas", apresentado por Mônica Waldvogel na GloboNews. Com bom humor, os dois escritores rechaçaram a tese da Globo (e da velha mídia), que, a partir de trechos retirados do contexto, ataca o livro "Por uma vida melhor", adotado pelo Ministério da Educação para turmas de jovens e adultos.



Quando a apresentadora fala em "regra errada do português", imediatamente Tezza, professor aposentado da UFPR, a interrompe e a corrige: "Variedades não padrão".

Mônica responde: "Estamos tucanando aqui". Ao que Tezza rebate: "É um conceito linguístico esse. Todas as línguas do mundo funcionam assim, são variedades. [...] A diferença entre dialeto e uma língua é que uma tem exército, e a outra não. É a história das línguas."

Marcelino Freire cita o poeta Sérgio Vaz: "Quando a gente diz nós vai, é porque nós vamos".

Tezza explica:

"Quando você constrói uma gramática escrita, você escolhe formas, passa a escrever essa formas, passa a defendê-las. E elas passam a ser o certo. E aí se começa a estigmatizar o que não está daquela forma. Isso é construção histórica das línguas padrões [...].

O conceito de variedade linguistica é fundamental, não há mal nenhum em mostrar aos alunos, mesmo dos primeiros anos, que a língua é um conjunto de variedades, inclusive para trabalhar com a diferença e a importância da norma culta. O que não precisa é humilhar ninguém para fazer isso.. é um processo esmagador, a escola tem muito poder, o aluno chega lá, só fala a variedade dele, o professor vai olha, você é burro, senta ali no milho… não. Vamos trabalhar de outra forma. É uma questão didática."

"Que conselho vocês dão aos que estão tão preocupados?", questiona a apresentadora, ao final do programa.

É a deixa para Freire arrematar:

"Vão de Adoniram Barbosa: "Arnesto nos convidou / prum samba ele mora no Brás / Nóis fumo, num encontremo ninguém…" [mais risos]

O programa na íntegra (24 minutos) pode ser assistido aqui.

15 de março de 2011

Faltam 7 assinaturas

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Publico abaixo uma mensagem que recebi do amigo Theo Rodrigues, blogueiro do Fatos Sociais e militante do movimento pela democratização da comunicação.

Regionalizar a cultura: faltam só 7 assinaturas

Theo Rodrigues

Num país de culturas tão diversas e ricas, nada mais importante do que mostrá-las nas concessões públicas de rádio e tv. Manifestações culturais precisam de público para se desenvolver.

Pensando nisso, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) apresentou, anos atrás, um Projeto de Lei que obriga emissoras de rádio e televisão a exibir em sua programação diária, de 07 às 23:00, um mínimo de 30% de programas culturais, artísticos e jornalísticos totalmente produzidos e emitidos no local de sua sede, sendo um mínimo de 15% de programas culturais e artísticos e um mínimo de 15% de programas jornalísticos.

O Projeto (PL 256/1991) foi aprovado na Câmara dos Deputados em 2003 e enviado ao Senado. Entretanto, desde então o PL se encontra arquivado. Este ano o Senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) solicitou o desarquivamento do projeto. Ele precisa de 27 assinaturas para isso, mas só conseguiu que 20 senadores assinassem pelo desarquivamento até agora.

Em tempos de amplo debate sobre a criação de um Marco Regulatório que possa regulamentar os artigos da Constituição Federal referentes à comunicação social, faz-se necessário garantirmos a aprovação no Senado do PL da regionalização cultural.

Cabe aos movimentos sociais e a sociedade civil de maneira geral pressionarem os senadores pela aprovação do projeto.

Vamos encarar essa luta? Espalhe essa mensagem!

Assistam ao vídeo:

13 de março de 2011

A morte do pequinês e os tiranos (ou Mirisola diante da Igreja)

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(Introduccion a la esperanza, por Luis Felipe Noé)

Voltando do cinema no CCBB, encontro um escritor sentado num toco de concreto, na praça XV, admirando um casamento na Igreja da Nossa Senhora do Carmo e ouvindo o badalar ensurdecedor dos sinos daquela que por séculos foi a Catedral do Rio de Janeiro. O nome dele é Marcelo Mirisola, tem 45 anos, mora no Rio há um ano, e tem sido um amigo fraterno desde os tempos em que eu namorava, com um pouco mais de seriedade, a ideia de inventar romances. Convido-o para um chop na Lapa, e vamos todos (minha consorte inclusa) caminhando pelas ruas semi-desertas do centro. Sabadão e um clima de carnaval ainda paira na cidade. A Lapa está cheia de gente.

- Miguel, estou meio cansado de escrever crônicas, então vou te dar umas ideias que tenho preguiça de desenvolver. Por exemplo: falam tanto dessas ditaduras de 30, 40, 50 anos, dos regimes árabes. Quem vai denunciar, porém, a tirania dos Mesquita? Dos Fria? Os Marinhos estão aí desde 1925!

Meus olhos brilham. Interessante ver como as mesmas ideias visitam as pessoas ao mesmo tempo, sem que elas precisem ter conversado antes, sem que precisem ter lido os mesmos livros. Mirisola desenvolveu suas ideias enquanto meditava na Bastilha onde os donos da mídia estão sempre tentando o manter preso. E cristalizou-as a escrever resenha do livro Segredo de Estado, de Jason Tércio, um romance histórico que narra o desaparecimento do ex-deputado e empresário Rubens Paiva.

(Por que a mão pesada dos tiranos da mídia e de seus lacaios na imprensa sempre esteve no poder; pior, ainda está no poder.)

- Não é um quarto poder, Miguel? Não é tão importante quanto Executivo ou Legislativo? Então deveríamos eleger o publisher!

O fato é que um escritor com dezenas de romances publicados, de qualidade reconhecida por gente como Reinaldo Moraes e Marcia Denser, depende da boa vontade dos cadernos culturais.

Teremos mais cinquenta anos de tirania midiática? Fidel está nas últimas, seu irmão também já está velhinho, mas Frias II permanece, jovem e forte, à frente de seu império, ditando os rumos da política e da cultura nacionais...

Eles não conseguem mais eleger presidentes da república, mas ainda pautam o debate político e exercem influência poderosíssima no debate cultural, onde somente seus afilhados recebem os louros da glória.

Talvez seja ressentimento de nossa parte. As revoluções também nascem do ressentimento, não existe nada mais irritante do que ver a família real distribuindo benesses para quem não as merece. Os árabes cansaram-se disso. E nós, quando faremos alguma coisa?

Contei ao Marcelo sobre a função da blogosfera, vista como um contra-poder à hegemonia da grande mídia. Ainda incipiente, modesta, mas um poder concreto. Muitas vezes nós blogueiros brigamos uns com os outros, entramos em crise e nos rebelamos contra qualquer forma de nos auto-organizarmos. A BLOGOSFERA NÃO PRECISA DE ORGANIZAÇÃO!, me disse um dileto amigo do mundo virtual.

Nada disso. Precisa sim. Tudo que é vivo precisa se organizar. Não confundamos organização, todavia, com sufocar a diversidade. A organização é necessária porque, acima de nossas brigas, temos um inimigo em comum: a tirania dos grandes grupos de comunicação.

Daí a nossa importância política, daí a esperança que milhares de brasileiros depositam em nossos blogs singelos, às vezes amalucados, mas que emitem um brilho guerreiro e quixotesco que desperta um carinho enorme das pessoas.

Volto à resenha de Mirisola, e a Rubens Paiva, empresário que lutava contra a ditadura com as armas que tinha à mão: dando dinheiro, abrigando gente em sua casa, ajudando a comprar passaportes falsos.

O autor de Azul do Filho Morto e Bangalô nos conta, a partir do livro de Tércio, que a imprensa da época chancelou a historinha surreal dos militares, segundo a qual Paiva teria "fugido" depois de um "ataque" dos subversivos ao comboio que o transportava de uma prisão a outra.

Globo, Folha e Estadão são bons jornais no sentido técnico. E porventura exercem bem a sua função de vigiar o poder público. É como Kadaffi na Líbia, porém. Muitos colegas vieram me dizer que não entendiam o porquê da revolta dos líbios, visto que o país tem índice Gini alto, e ótimos serviços de saúde e educação. O famigerado PIG poderia, se quisesse, melhorar de qualidade, sobretudo no campo da diversidade ideológica, mas ainda teríamos um problema democrático. Vivemos uma sociedade totalmente midiatizada e, portanto, o controle da mídia corresponde a um poder politico importante demais para ficar nas mãos de filhinhos de papai sem escrúpulos. Pior que Kadaffi são seus filhos...

É por essa trilha que a famosa Ley dos Medios, em minha humilde opinião, deveria enveredar-se. Se o Estado gasta 5 bilhões de reais por ano em publicidade oficial nos meios de comunicação, então deveria haver qualquer contrapartida democrática por parte dos mesmos. Não para censurar ninguém, mas para defender o leitor e pontos-de-vista diferentes. O Ombudsman de um jornal, por exemplo, não pode ser um empregado do próprio jornal. Como exigir de um funcionário que se volte contra seu próprio patrão? E até quando o jornalista será um escravo ideológico de empresários? É para isso que educamos e formamos nossos jovens? Para mantê-los sob o jugo de um capataz (leia Ali Kamel) dos Marinho?

Conversamos sobre essas coisas e outras, inclusive sobre o desaparecimento do cão pequinês. A moça a meu lado contou-nos que o último pequinês, pertencente a sua amiga, havia morrido. O que nos levou a meditar sobre a fugacidade das raças caninas. Também nunca mais vimos filas brasileiros, por exemplo.

"Aquilo [os filas] devia comer como um boi e cagar como um elefante; não era muito prático; o pitbull é mais compacto e econômico e igualmente assustador", comentamos.

Pois é, desaparecem os pequineses, os filas, os Rubens Paivas, caem os tiranos do norte da África, os EUA se tornam devedores da China, mas os Mesquita, os Frias e os Marinhos permanecem no poder, arco e flecha no braço, disparando contra a estátua de São Sebastião, cuja forma de mármore não o permite se mover do lugar onde está, pregada na torre da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Olhemos bem nos olhos da estátua, fixamente, longamente. Talvez notemos algum movimento sob suas pálpebras. Talvez o corpo de Rubens Paiva ainda possa ser encontrado. Talvez a comunicação social no Brasil se liberte de sua história triste, não só de conivência com a ditadura, mas de principal articuladora e incitadora do golpe de Estado. Talvez a gente possa, um dia, enfrentar eleições sem a horrível insegurança de lidar com uma mídia inimiga dos valores democráticos e soberanos que presidem a nossa Constituição. É por ela, Marcelo, por nossa liberdade, que tocavam aqueles sinos...

25 de agosto de 2010

Médicos deveriam fiscalizar mídia em questões de saúde pública

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Pessoalmente, sou contra o uso do termo "controle social" da mídia. Acho desastrado politicamente o uso da palavra "controle". Se não me engano, aliás, o último Programa Nacional de Direitos Humanos (que é a terceira versão) não usa o termo, ao contrário das versões anteriores, aprovadas durante a gestão FHC.

Entretanto, sou um crítico feroz da mídia. Acho que ela se tornou um estorvo ao desenvolvimento democrático. Acho que a humanidade precisa de uma mídia pública, não gerida por governos, mas pela sociedade, com seu presidente eleito direta ou indiretamente pela população. Seus jornalistas seriam concursados e teriam direito sagrado à liberdade de opinião, não podendo ser demitidos porque falaram mal deste ou daquele governante.

Mas esse é um sonho distante ainda. Por enquanto, o mínimo que podíamos fazer era regular o uso de questões de saúde pública na mídia. Os grandes teóricos de medicina tem os maiores críticos da libertinagem irresponsável da imprensa. Veiculam-se verdadeiros absurdos quando o assunto é saúde.

Eu sempre presto atenção na seção Erramos dos jornais. Hoje deparei-me com esta nota:

SAÚDE (24.AGO, PÁG. C11) Diferentemente do que deu a entender o texto e o título da nota "Estudo liga vitamina D a risco de câncer e esclerose múltipla", é a falta da vitamina D que pode causar as doenças.

Vejam só. Se um médico cometer um erro médico, ele pode perder seu registro profissional, ser processado e preso. Um jornal pode publicar que a vitamina D provoca câncer, na contramão da verdade (é o contrário, a falta de vitamina D é que pode provocar câncer), e tudo fica por isso mesmo.

Este é um exemplo bobo, mas o futuro da humanidade não é róseo no quesito saúde. Pandemias perigosas nos aguardam, e o Estado e a sociedade precisam ter instrumentos adequados para combatê-las. Um deles é a informação correta e rápida. Um errinho bobo, num momento de crise, poderia desencadear uma catástrofe.

Por isso, defendo que a sociedade exija que haja mais responsabilidade, ao menos, na questão da saúde. O Conselho Nacional de Medicina precisa ter um departamento grande e eficiente voltado exclusivamente para atender a mídia nas questões de saúde. Nenhuma matéria relativa à saúde poderia ser publicada antes de um aval de um profissional credenciado pelo Conselho, o qual seria responsabilizado por qualquer inverdade ou confusão no texto.

9 de julho de 2010

Fala, mestre!

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Só há uma forma precisa de exercer-se o controle social dos meios de comunicação: o juízo crítico dos leitores, ouvintes e telespectadores, que constituem a sociedade nacional. Esse juízo será possível mediante educação de qualidade, que permita aos cidadãos formar sua inteligência do mundo com autonomia. Quando isso ocorre, eles podem avaliar as informações recebidas e delas retirar suas próprias conclusões. Sempre que se fala em controle, social, ou não, da imprensa, a democracia corre perigo.

De Mauro Santayana, em sua coluna de hoje no Jornal do Brasil

Eu desenvolveria o pensamento de Santayana com alguns acréscimos: criação, como já se faz na França e na Venezuela, de aulas de leitura midiática, para ensinar crianças e adolescentes a exercerem uma leitura crítica de jornais e revistas. Com isso, estarão menos vulneráveis às influências perniciosas (do ponto-de-vista político) da grande imprensa, que não trabalha para permitir que o leitor pense por si mesmo, mas tenta incutir-lhe, à fórceps, sua própria visão de mundo, em geral conservadora e tendenciosa.

2 de julho de 2010

Futebol é um entretenimento

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A mídia agora vem com sangue na boca para cima do Dunga. O técnico, que pode ser tudo de ruim em matéria de treinador, mas é um sujeito valente, honesto e esforçado, já chamou a si toda a culpa. O Brasil jogou mal no segundo tempo e perdeu. Mas não é saudável crucificar ninguém. Futebol é um esporte, um entretenimento, e a Copa do Mundo é uma confraternização, um momento de celebrar a paz e a harmonia entre as nações.

É muita sacanagem o Globo transformar a derrota num pretexto para baixar a autoestima dos brasileiros ou violentar a honra de Dunga e dos jogadores. Pode-se criticar a vontade, mas com educação e respeito.

*

PS: Sobre a eliminação do Brasil, leia o texto do Hugo Albuquerque, que entende e estuda futebol como ninguém.

1 de julho de 2010

Merval prestes a entregar os pontos

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Um dos últimos paladinos do serrismo, Merval Pereira, está quase entregando os pontos. Até o momento, já contabilizei, entre os derrotistas, os seguintes jornalistas tucanos: Noblat, Josias de Souza, Clovis Rossi, Fernando de Barros e Silva. Faltam só os platinados Merval e Miriam Leitão. O primeiro, em sua coluna de hoje, já botou o pezinho pra fora do barco. Separo alguns trechos.

(...) Uma jogada marqueteira simplória, pois sua história política não tem a menor consistência para alçá-lo ao segundo posto mais importante na hierarquia política do país. [Referindo-se à escolha de Indio para a vaga de vice de Serra.]

(...) O mais grave na escolha deste deputado federal de primeiro mandato é que ele não agrega um voto sequer à candidatura de Serra no Rio de Janeiro.

(...) Ontem, ao saber da escolha, Paes [prefeito do Rio, do PMDB] (...) mostrou-se espantado. Foi visto às gargalhadas no Palácio da Cidade.


Merval, todavia, ainda não jogou a toalha e a prova é que permanece bastante agressivo quando se trata de atacar a esquerda. Seus dentes, contudo, ou não estão afiados, ou caíram mesmo, porque sua mordida não surte mais nenhum efeito. Confiram esse ataque destrambelhado que ele fez a não sei quem:

E nem mesmo as acusações contra ele levantadas pela CPI da Merenda Escolar, na Câmara de Vereadores do Rio, são conclusivas a ponto de alguém poder afirmar que ele não tem a ficha tão limpa assim como querem alardear os tucanos e democratas. Só mesmo militantes energúmenos utilizam tais argumentos. Mesmo que as coincidências entre os preços oferecidos pela fornecedora vencedora nas licitações, quando Indio da Costa era secretário de Administração da prefeitura do Rio, sejam bastante estranhas.

Sem ter, teoricamente, informações sobre os outros preços, a fornecedora sempre apresentou descontos quando tinha concorrentes, mantendo o preço cheio naquelas licitações em que ninguém disputava o fornecimento.

Foi como acertar na Mega-Sena, comenta a vereadora do PSDB do Rio Andrea Gouvêa Vieira, relatora da CPI. Os resultados da CPI estão no Ministério Público.

Não consegui entender nada. Merval chama os militantes que põem em dúvida a limpeza da ficha de Indio de "energúmenos", e logo depois ele mesmo informa que as suspeitas são, de fato, procedentes, e feitas por alguém do próprio PSDB. Ué? Então Merval também é um energúmeno!

Esse outro trecho da mesma coluna também merece alguns comentários:

O apetite do presidente Lula é tamanho que nem mesmo o pequeno (em termos de tempo de propaganda) PSC escapou. Tendo feito um acordo, meses atrás, para apoiar a candidatura do tucano Serra, o presidente do Partido Social Cristão (PSC), pastor Everaldo, foi cooptado pelo governo sabe-se lá com que argumentos, além do puro imediatismo esperto diante dos números das últimas pesquisas que apontam a candidata oficial Dilma Rousseff à frente. Tanto esforço de última hora para ganhar apenas 18 segundos de televisão demonstra bem como o governo pretende reduzir ao máximo a chance de a oposição ter condições de disputar a sucessão de Lula.

Ora, estamos numa disputa política pelo poder naquela que será a quinta economia do mundo até 2020 (segundo o Financial Times) e Merval atribui os esforços da campanha de Dilma para atrair mais apoios como "apetite do presidente Lula"? Os "argumentos" com os quais o governo cooptou o pastor Everaldo, prezado Merval, foram um só: apontar para o outro lado da rua e mostrar o quão patético é a turma do Serra. Para entender a defecção do PSC da campanha tucana e sua adesão à Dilma, sugiro que leia os jornais de hoje. Facilito a sua vida e dou-lhe links para matérias no Globo, na Folha e no Estadão. Leia as três e compreenderá que não há nenhum mistério: PSC é um partido pequeno com ambição de crescer e decidiu que não será saudável entrar na canoa furada de Serra. Não lhe parece uma boa explicação?