31 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo

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Prezados leitores, desejo a todos uma excelente virada de ano. Já comprei meu São Jorge e meu Ogum 7 Espadas para enfrentar as batalhas de 2010. Agora é torcer para tudo dar certo. Felicidades e paz.

29 de dezembro de 2009

Rápida observação eleitoral

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O Eduardo Guimarães acaba de lançar um post mencionando minhas observações por aqui, sobre a liderança eleitoral da Dilma junto às classes mais escolarizadas, de acordo com números do Datafolha. Quero, todavia, fazer algumas ressalvas importantes para evitar uma confusão.

A vantagem da Dilma junto aos eleitores com ensino superior, na pesquisa espontânea, de 14%, contra 11% de Serra, é, provavelmente, um fato temporário. Indica, antes de tudo, a força de Dilma junto àqueles que a conhecem, e a turma bacharelada é a primeira a saber das coisas.

Mas é principalmente consequência do enorme desconhecimento, por parte do eleitorado pobre, de que ela é a candidata de Lula. Outras pesquisas mostram que Dilma ainda é quase ou totalmente desconhecida para quase metade do eleitorado brasileiro. Conforme esse quadro for mudando, a tendência, para mim óbvia, é que o povo siga a orientação de seu líder político, de Lula, em quem votou em 2002 e 2006, e com o qual estão muito satisfeitos. Para isso, precisam apenas de uma coisa: informação. Como a grande imprensa escrita e os canais de TV não parecem dispostos a informar a população de um fato tão básico, de que Dilma é Dilma, com medo das consequências, o tempo de maturação da candidata não será tão acelerado conforme os que a apóiam gostariam. Mas é lógico que, esquentando a campanha, o povo irá saber. Mesmo os ataques da oposição e da imprensa à Dilma apenas servirão para fornecer esse dado à população, de que Dilma é a principal pré-candidata do governo à sucessão de Lula.

Repito a tabela do Datafolha por aqui, para que estudemo-la mais atentamente. Clique nela para ampliar. Repare que a intenção de voto em Dilma cresce com escolaridade e renda. É um ponto original em relação à Lula, mas também sinaliza o enorme potencial que a candidata possui junto às classes de baixa renda.


Exercício de contra-informação número 1.000

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(Foto da praça Cruz Vermelha, arredores da Lapa. Autoria: minha mesmo).


Hoje temos um assunto interessante para o debate. O jornal O Globo publicou editorial, nesta terça-feira 29 de dezembro de 2009, ecoando o histerismo sionista anti-Irã que domina os oligopólios midiáticos mundiais, na esteira dos interesses dos lobbies armamentistas e do radicalismo conservador que vive pendurado no assunto.

Acho curioso que a preocupação de nossa mídia com as violações de direitos humanos no Irã não se repita quando se trata de nossa própria população. Que eu saiba, o Brasil viola muito mais os direitos humanos que o Irã. Ah, ativistas iranianos são estuprados na cadeia? Ora, aqui tivemos uma menina de 15 anos estuprada na cela por dezenas de homens, com conhecimento da juíza, da delegada e da promotora pública. Centenas, quiçá milhares de presos são estuprados nas cadeias brasileiras, todos os dias. Crianças vagam pelas ruas das grandes cidades, esfomeadas, destruídas pelo uso de crack e nenhum prefeito ou governador pensa em construir centros de infância e adolescência em proporções aceitáveis. O governador de São Paulo, que revelou ser um dos mais ferozes sionistas anti-Irã do Brasil, parece não ligar para as milhares de famílias que passaram pela humilhação de viver na lama e no esgoto por semanas. Outras milhares de pessoas são mortas mensalmente no Brasil pelas forças de segurança em mãos de governadores, mas a preocupação de Serra, claro, é com os iranianos.

Bem, confiram o editorial. Volto em seguida.


DEU EM O GLOBO
Ventos de Teerã (Editorial)

Na entrevista concedida ao GLOBO e publicada na sexta-feira 25, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, aproveitou para reafirmar a defesa brasileira de seu novo aliado preferencial, o Irã de Mahmoud Ahmadinejad.

Por uma dessas trapaças do destino — mas que não pode ser creditada ao azar —, logo no domingo o regime dos aiatolás protetores do radical presidente iraniano, reeleito numa eleição fraudada, começou a desfechar nova onda de repressão à oposição interna, a mais violenta desde as manifestações ocorridas depois de anunciada a vitória contestada de Mahmoud Ahmadinejad.

Como o Irã foi tomado por uma atmosfera política inflamável, qualquer fagulha ameaça deflagrar explosões incontroláveis. A nova leva de protestos começou dias antes, com a morte de um dos clérigos dissidentes, o aiatolá Hossein Ali Montazeri.

E, ao manter a repressão nas ruas em um importante feriado religioso, o regime jogou mais combustível neste incêndio. Ler a entrevista do chanceler brasileiro enquanto se acompanha o noticiário de Teerã é esclarecedor, para se ter medida dos riscos que a diplomacia brasileira corre ao abrir um guarda-chuva sobre uma ditadura teocrática metida numa aventura nuclear — tudo em nome de um antiamericanismo de ocasião, provavelmente para Brasília, em período eleitoral, afagar frações aliadas mais à esquerda.

A perigosa aventura de Ahmadinejad, sob a proteção do aiatolá Ali Khamenei, é defendida por Amorim com o malandramente falso e cândido argumento de que quem tem arsenais deste teor não pode criticar o Irã (EUA, Rússia etc.).

O argumento cabe no figurino ideológico bolivariano do caudilho Hugo Chávez.

Uma coisa são nações que saíram da Guerra Fria com estes arsenais, mas que participam dos fóruns que tratam do assunto, e negociam acordos de redução no número de ogivas; outra, um país subjugado por uma ditadura de fanáticos religiosos, à margem de qualquer respeito à diplomacia multilateral.

Caso a situação política interna no Irã rume para a ruptura institucional, desaguando num massacre interno, o Brasil irá à ONU defender aiatolás corruptos, sanguinários, fanáticos e sua guarda pretoriana?

A julgar pelo silêncio de Amorim, na entrevista ao GLOBO, quando perguntado sobre a leniência brasileira com relação a Cuba, é provável que isto ocorra, infelizmente.

Aliás, é o que o Itamaraty tem feito quando se abstém de condenar nas Nações Unidas governos marginais como o do Sudão, em busca de votos para conseguir um assento no Conselho de Segurança.

Essa clivagem ideológica acentuada da diplomacia apenas sabota o projeto do próprio governo de elevar o status do país como parceiro global confiável. Os terceiro-mundistas, bolivarianos e defensores de Ahmadinejad estacionaram um poderoso carro-bomba dentro deste projeto.

Repetirei pela milésima vez. Não gosto do Irã. Nem de seu presidente, nem de sua cultura. Tenho horror a seus preconceitos contra mulheres e gays e desprezo profundamente a mistura que fazem de política com religião. No entanto, possuo noções da história iraniana e indigna-me que a mídia ocidental passe a hostilizar o país sem levá-la em consideração. O Irã foi o país que viveu uma das piores guerras "simétricas" (ou seja, entre países com poder bélico similares) das últimas décadas. Sadam Husseim, com dinheiro e armas de americanos e ingleses atacou o Irã e matou mais de um milhão de iranianos na década de 80. A Inglaterra emprestou armas químicas ao Iraque. Os EUA emprestaram armas biológicas. Os iranianos foram as primeiras grandes cobaias humanas dessas novas e monstruosas armas de destruição em massa.

Isso foi nos anos 80, ou seja, ainda está quente na cabeça dos iranianos. Outra coisa que pegou pesado no Irã foi a ditadura sanguinária de Reza Pahlavi, apoiada por americanos e britânicos, que durou de 1953 a 1979. Nunca interessou ao Ocidente um oriente médio democrático, porque somente a partir de regimes fortemente oligárquicos, as petrolíferas ocidentais poderiam realizar contratos notoriamente viciados, que não beneficiam as populações árabes: somente as famílias reais, de um lado, e grandes empresas anglo-saxônicas, de outro, desfrutariam das benesses do petróleo.

Qual o objetivo deste esforço platinado em transformar a questão do Irã num ato de antiamericanismo da política externa brasileira? Todo o racionalismo diplomático da decisão brasileira de manter um diálogo aberto e não hostil ao Irã é convertido num diatribe ideológica de trotskistas enlouquecidos. O fato de Celso Amorim estar recebendo fartos elogios por sua ousadia e independência, e não apenas da esquerda mundial, mas também de importantes setores pragmáticos e moderados do conservadorismo, apenas comprova que a solução iraniana não passa por esse linchamento midiático agressivo e desproporcional. Violações muito mais terríveis são vistas em dezenas de outros países, para começar na Arábia Saudita. A invasão do Iraque foi outra medida que desestabilizou severamente todo o oriente médio, dando força aos islamistas radicais. Não faz sentido agora os americanos e as mídias hipócritas ajudarem a desestabilizar ainda mais e botarem a culpa de tudo no Ahmadinejad. O Irã não é paraíso, todos sabem, mas os macacos devem olhar seus próprios rabos.

Quanto às instalações nucleares do Irã, é ridícula e desrespeitosa a fórmula apresentada pelos países ocidentais, de obrigá-lo a enriquecer urânio na Europa e na Rússia. Também é ridículo negar o direito do Irã em investir em energia nuclear, visto que a dependência excessiva do petróleo fragiliza perigosamente a sociedade iraniana, pois suas jazidas podem se esgotar ou diminuir sensivelmente em menos de 50 anos, delineando um vazio econômico terrível para a economia do país. É lógico que o Irã tem que investir em energias alternativas, e à falta de hidrelétricas, é natural que ele procure desenvolver uma tecnologia farta e livremente usada na Europa e nos Estados Unidos.

Os defensores da democracia deveriam voltar suas baterias para a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Kwait, dentre outras monarquias totalitárias que, além de violar sistematicamente os direitos humanos e políticos de seus cidadãos, não possuem sistemas democráticos para eleger seus governantes. O Irã tem. O Irã vota em seus presidentes e em seus parlamentares. Mal ou bem, o Irã é uma referência democrática para o oriente médio. Ao desestabilizar a democracia iraniana, o Ocidente envia um sinal para as monarquias árabes: "não democratizem, porque senão iremos fazer o mesmo que fazemos no Irã; iremos usar os conflitos domésticos, normais e necessários numa democracia vibrante, onde a maioria dos jovens estuda em universidades, para desestabilizá-los e eleger governantes em linha com nossos interesses".

28 de dezembro de 2009

Na espontânea, Dilma vence entre os mais escolarizados

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(Prezados, depois de alguns dias de descanso, volto à ativa, com textos diários no blog. Acima, foto de uma rua aqui das redondezas, Lapa, Rio de Janeiro).

Algumas pesquisas atrás, eu havia observado que a (pré)candidata Dilma Rousseff apresentava algumas diferenças em relação ao desempenho de Lula. A principal era uma participação mais relevante entre o eleitorado de maior poder aquisitivo e com mais escolaridade. Não me surpreendeu notar essa característica, pois sempre notei em Dilma um acento culto que Lula nunca possuiu, e com isso seria muito mais palatável à classe média e alta do que o ex-metalúrgico de língua presa e sintaxe popular.

A característica volta a se manifestar na última pesquisa disponível, do Datafolha, na tabela com as respostas espontâneas, onde os entrevistados dizem o primeiro nome que lhes vem à cabeça quando perguntados sobre em quem irão votar para presidente da república em 2010.

Ainda acho que essas pesquisas são muito interessantes e instrutivas, apesar da enorme suspeição que paira em torno delas, porque possibilitam um mínimo de análise científica sobre o perfil eleitoral do país. Curiosamente, elas são pouco exploradas pela imprensa, inclusive pelo jornal responsável por sua publicação, como é o caso do Datafolha e Folha. Publicam-se apenas os resultados óbvios, omitindo-se os detalhes, que permitem uma visão mais abrangente e esclarecedora.

O que falta à imprensa corporativa, no entanto, abunda na blogosfera, que não deixou escapar o fato de que, na espontânea, Serra e Dilma empataram em 8%. No entanto, poucos viram um outro número ainda mais surpreendente. Entre os entrevistados com nível superior, Dilma assume uma liderança isolada, com 14% das intenções de voto, contra 11% de Serra e 9% de Lula. Creio que não é absurdo pensar que a maioria das pessoas que espontaneamente (e desinformadamente) afirmam votar Lula em 2010 tendem a votar em Dilma. Com isso, Dilma surge, neste quadro, com enorme vantagem entre a população bacharelada.

Claro que esse é um trunfo da candidata, em vários sentidos. Uma das cartas mais valiosas que Serra tem sob a manga é o apoio de que dispõe na grande imprensa. Os donos da comunicação de massa no Brasil querem a volta do PSDB e um dos argumentos mais usados para justificar sua preferência é que a popularidade do governo petista lastreia-se sobretudo em suas políticas voltadas para os mais pobres, os quais, por não disporem de informação de "qualidade" não teriam condições intelectuais de avaliar a competência dos administradores públicos. A pesquisa do Datafolha mostra que isso é uma falácia. Tanto a espontânea, que mostra Dilma isolada na liderança entre os entrevistados com diploma universitário, quanto os números que mostram Lula com 67% de ótimo/bom (mais 26% de regular e apenas 7% de ruim/péssimo) entre o mesmo grupo, revelam a dimensão desta mentira.

Confiram o gráfico abaixo:




27 de dezembro de 2009

Purgando a bílis

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Hoje acordei triste porque discuti política ontem à noite. Não devia me sentir assim, mas não posso evitar. Minha interlocutora era uma amiga. Uma pessoa inteligente. Leitora do Globo, todavia. Não apenas leitora. Crédula. Fã de Merval Pereira. Ela começou a repetir as ladainhas mervalianas tintin por tintin. Todas aquelas coisas que eu me esforço por explicar que se tratam de mentiras deslavadas, ela encara como verdades absolutas. Foi cansativo. Eu fico nervoso. Exalto-me. Ao vivo não sou tão calmo, didático e poético. Sou apaixonado, agressivo, angustiado e não tenho a melhor das dicções. É muito chato discutir política quando a pessoa se informa exclusivamente pelo Globo. Eu mencionei a blogosfera. Tentei encerrar a discussão com um acordo de cavalheiros.

- Tudo bem, não vamos discutir mais. Leia o meu blog, por favor. Depois a gente conversa.

Ela retrucou:

- Não gosto de blogs. Não leio e não gosto.

Depois ela disse que não queria mais conversar e que eu ficava muito alterado. Eu me senti mal, com remorsos. Pedi desculpas. Mil desculpas. Disse que ela tinha razão, que eu tinha que aprender a conversar sobre política de uma maneira mais amena. É verdade. Ela tem toda razão.

Por outro lado, foi bom. Muito bom. Eu estava mesmo precisando encontrar alguém assim, tão próximo e tão incomensuravelmente distante. Eu precisava achar um ouvinte ainda virgem para a iconoclastia midiática da blogosfera. Alguém que realmente acredita naquilo que lê nos jornais. Há tanto tempo que faço combate na internet que, sem perceber, desenvolvi uma espécie de triunfalismo. Eu disfarço esse triunfalismo com sarcasmo, mas ele continua ali, inteiro. E a julgar por minha tristeza, esse triunfalismo esconde outra coisa. Medo. Um medo muito grande de alguma coisa que não sei explicar. Como se não apenas o destino dos povos estivesse em jogo. Como se o meu próprio destino estivesse urgentemente em jogo.

Foi bom sobretudo para eu me dar conta das dificuldades. Esse blog tem suas missões. Suas bandeiras. Sonhos, paranóias, esperanças, mal estar. Como se eu caminhasse à beira do abismo, e o abismo é minha vaidade, esse astro de brilho sinistro e sedutor, no qual consumimos tanta humilhação e desespero.

Humilhação, isso. Esse é nosso maior medo. A gente procura a verdade. Luta pela verdade. Morre pela verdade. Mas fazemos tudo isso para que a verdade não nos pegue de surpresa e não nos humilhe. Não nos destrua. Queremos morrer com dignidade.

A discussão de ontem remexeu-me as feridas. Acordei mais triste e mais forte. Sem rancor. Mais gentil e mais realista. A batalha será dura, longa, extenuante. Há um coro lá fora. Milhões de pessoas entoando o mesmo refrão. Lendo Merval Pereira. Vencendo. Ganhando dinheiro. Talvez seja esse o motivo do medo. Séculos e séculos de humilhação e derrota deixam marcas. Não há saída. Encurralaram-nos. Depois reclamam que nós, com olhos assustados, reagimos com agressividade. Mas afinal quem somos nós? Quem nos encurralou? Não existe nós. Uso o pronome coletivo para me sentir menos solitário. Invento inimigos para melhor compreender o vazio.

21 de dezembro de 2009

Somos todos bipolares & pornografias cômicas

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Ontem encontrei um companheiro na praça São Salvador que montou uma banquinha para vender livros usados. É um chapa das antigas, que estudou comigo no primário, e agora tenta ganhar a vida enquanto não passa num concurso para professor. É questão de tempo até ele entrar no magistério e se ajeitar. A São Salvador agora é um lugar cult no Rio, um ponto-de-encontro de intelectuais e da fauna que os acompanham. Mas eu não sou frequentador dessa nova fase da praça. Uns anos atrás eu vinha de vez em quando. Havia fechado a empresa e morei uns meses com minha mãe, pensando em alternativas para me reerguer. Vagabundeava pelo aterro, andava por todo o lado, e dava na praça, que de fato ainda é o lugar mais sossegado para tomar uma cerveja no Flamengo. Na época, eu nunca tinha mais de dez reais, que usava para tomar duas garrafas de cerveja e uma cachaça com limão. Levava um livro e um caderno. Lia, escrevia poemas e anotações esparsas sobre o universo e as abobrinhas que o habitam. Era o suficiente para voltar chapado e feliz. Não é o tipo de coisa de que alguém deve se orgulhar; mas cada um tem sua própria estratégia para manter neurônios rebeldes sob controle.

Conheci um sujeito engraçado ontem, mas muito mala. Sua história de vida, que ele repetia ad infinitum para todos que lhe quisessem ou não quisessem ouvir, é que fora casado sete anos com uma mulher milionária, e aí ele dava detalhes da vida suntuosa que levava. Ela não queria que ele trabalhasse, dizendo que, se lhe dessem um salário de seis mil reais, ela bancava a quantia e ele não precisava fazer nada. Esse sim, um vagabundo de verdade, de profissão. Até o tipo físico dele era de um verdadeiro malandro: bastante magro, aparentando uns quarenta e poucos anos, mas com uma agilidade física de adolescente.

Depois um homem apareceu e, vendo um livro de João Gilberto Noll no stand do meu amigo, contou-nos que conhecera Noll quando o escritor gaúcho tinha 39 anos e acabara de lançar o romance Fúria do Corpo, o que nos levou a iniciar uma sessão de anedotas pornográficas muito hilárias.

Uma delas, contada por essa figura de cabelos compridos presos com rabo de cavalo, óculos vermelhos e uma pinta de cineasta dos anos 80, ou personagem de Thomas Pynchon, era sobre um cara que transava com uma bela garota. O cara resolve fazer sexo oral na menina e, no meio do ato, sua dentadura sai e prende no grelo. Desesperado, porque não queria que ela percebesse que ele usava dentadura, ele enfia a cara na vagina da moça para encaixá-la de volta na boca. Ao fazê-lo, demora um pouco mais do que pretendia, fazendo a moça gemer muito alto, mas não de prazer, de dor mesmo.

Lembrei então de uma história ainda mais engraçada, que um amigo me contou em priscas eras. Sobre um casal de jovens que decidira fazer sexo anal. A coisa rolou muito bem, apesar dos percalços de praxe, mas depois que terminou, ocorreu um problema. O pênis não saía. Ficou preso no ânus da moça. Isso acontece com cachorro às vezes. Os dois foram levados pelo pai da moça, enrolados num lençol, para o pronto-socorro. Deve ter sido uma situação muito constrangedora, mas a gente, com o espírito amaciado pela cerveja, demos gargalhadas quase epiléticas imaginando a cena. Veio-me então uma idéia assombrosa: um rapaz, ao acariciar com amorosa língua a doçura vaginal da namorada, prende o aparelho de dente no piercing que a moça aplicou recentemente logo acima do clitóris. Eles são obrigados a ir ao hospital, então, naquela postura... intrigante, quase rodiniana.

*

Os bipolares estão por toda a parte. Aí eu pensei hoje, levemente aterrorizado: será que eu sou também? Meu amigo falou-me de uma mulher cujo namorado era tão chato, tão mala, que ela disse que ele nem bipolar era. Era monopolar. O bipolar pelo menos tem um período legal, de euforia e animação. O cara era o tempo inteiro mala e deprê. Bipolar, para ele, seria um avanço. Mas eu pensava que talvez eu fosse bipolar porque notei que tenho períodos de produção intensa, seguidos de longas semanas de mastodôntica preguiça.

De qualquer forma, tenho plena consciência de que disciplina é fundamental. E tudo é uma questão de exercício. Os romanos se tornaram uma potência militar porque, mesmo em tempos de paz, seus exércitos estavam constamente fazendo exercícios de guerra. Até a raíz da palavra é mesma: exército X exercício. O exemplo é meio belicista demais, eu sei, mas ilustra bem a necessidade de não confundirmos saber com patrimônio físico. Como essas pessoas que se formam na Uniban (ou na USP, para mim é tudo a mesma coisa) e pensam que já sabem de tudo.

Afinal a questão central da vida talvez não seja a dicotomia entre ser e ter. As pessoas, quando querem se mostrar muito "espiritualizadas", falam sempre na necessidade de valorizarmos o ser e não o ter. Talvez isso seja uma bobagem. Não temos que "ser" nada. O ser é uma expressão vazia, metafisicamente supervalorizada. O mais importante não é ser, e sim fazer. O fazer é que é o verdadeiro ser, porque é no fazer que o ser se realiza.

Esse é um pensamento muito político, porque nele encontramos a raíz dos problemas de inúmeros socialistas de botique, que agem sempre como deuses do olimpo dando pitacos sobre os pobres mortais. Para ser um socialista não basta autoproclamar-se socialista, ou deitar-se sobre uma cama feita de livros marxistas, ou enfeitar-se caprichosamente com boinazinhas estreladas. Mas não quero me estender sobre socialismo, porque igualmente acho que o socialismo não existe. O que é o socialismo? Que tipo de governo? Que tipo de instituições? Se alguém pudesse me responder sem subterfúrgios ou firulas acadêmicas, eu me sentiria muito honrado. Para mim, o que existe é o regime democrático republicano, com separação de poderes e sufrágio universal, onde temos um presidente com amplos poderes, conferidos pelo povo, e um Legislativo com poder soberano e livre de produzir leis que permitam o país se desenvolver com segurança e prosperidade. Por exemplo, o Congresso Nacional poderia decretar uma lei estatizando o sistema bancário nacional. Eu defendo essa medida há tempos. Acho indecente entregarmos a circulação monetária do país a filhinhos de papai sem nenhum compromisso com a estabilidade econômica, social e política. Assim como a moeda é monopólio do Estado, a sua circulação também deveria ser. Daí seria possível extinguir o spread bancário e os juros. O Brasil poderia ser um dos primeiros países capitalistas dessa pós-modernidade neocon a adotar um sistema monetário infinitamente mais seguro e dinâmico, muito menos oneroso ao custo nacional. Os bancos drenam os recursos nacionais para um buraco sem fundo. E depois ainda quebram e o Estado, ou seja, o contribuinte é quem paga a conta. O Chávez falou uma coisa muito engraçada: se o meio ambiente fosse um banco, os países ricos chegariam a um acordo rapidamente para salvá-lo. Para salvar esses bancos de merda, os governos gastaram dez trilhões de dólares. Mas ninguém quer dar um bilhãozinho de dólares para criar um fundo internacional com fins ecológicos.

O Chávez é realmente um cara engraçado e espirituoso, mas ele se encaixa naquele perfil do socialista mais existencialista que consequente. A grande sacação do Lula, que ele vem tentando enfiar na cabeça dura de Chávez, é que dá muito mais resultado falar menos e fazer muito do que a tática oposta. É muito mais estratégico e prudente que um governante expanda sua personalidade em piadas e anedotas, como faz Lula, mesmo que picantes, do que vociferar contra Moby Dick. A baleia branca deve ser caçada em silêncio.

*

Aécio pulou fora da canoa tucana, e ao fazê-lo quase virou a mesma, em função da má qualidade do material que o PSDB tem usado para fazê-la boiar, pois o rio onde navega continua agitado pelos navios lulistas que cruzam as margens, da direita para esquerda, da esquerda para direita, incessantemente. Perdidinho, ao PSDB restou o melancólico papel de fazer uma oposição de direita, manjada, antipopular. Se quisesse realmente o bem do povo brasileiro, o PSDB deveria cobrar a redução do spread bancário, por exemplo. Mas, peraí... eles é que são os amiguinhos dos banqueiros... Então, se não tem nada de melhor para propor ao Brasil; ao contrário, se tem apenas respostas inapropriadas, medíocres, confusas, às demandas ainda colossais da nação, os tucanos deveriam enfiar seu bico no saco e escafederem-se da face da terra!

*

Agora é Serra e os papagaios vaidosos pendurados em seu cangote: Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Miriam Leitão, Ali Kamel, Sardenberg. Todo mundo neocon. Todo mundo abanando o rabinho pro Dick Cheney. Eles e suas fichas falsas, mentirosos contumazes, sociopatas, cínicos.

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Eu fiquei realmente passado com isso. Um blogueiro da Veja, Augusto Nunes, editou comentário de um leitor, dando-lhe sentido oposto ao que possuía originalmente. O mais estarrecedor é que ele ainda deu entrevista dizendo que achava certo o que havia feito. Esses caras perderam qualquer noção de ética jornalística. Agora se vangloriam de mentir!

*

Por fim, há que se comemorar a notícia que encerrou gloriosamente o ano político. O Datafolha, instituto insuspeito de beneficiar Dilma (muito ao contrário), divulgou ontem que a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata à presidência da república, registrou um aumento de seis pontos percentuais em suas intenções de voto, encostando em seu principal adversário, José Serra. Dilma subiu para 23 a 26%, enquanto Serra ficou estacionado.

É claro que a imprensa procurou abafar o máximo possível. Todas as manchetes da mídia, em vez de destacarem o fato novo (conforme manda o jornalismo sério), exerceram um coro uníssono: Serra mantém liderança isolada. As matérias pareciam quase todas escritas pela mesma pessoa. Chega a ser cômico. Em vez de falarem que as intenções de voto em Serra permaneceram estáveis, dentro da margem de erro, dizem que SUBIU UM PONTO.

O Datafolha já liberou as tabelas completas da pesquisa, e eu sugiro que todos olhem os números com seus próprios olhos, até por uma questão de exercício. Se queremos uma sociedade menos dependente da mídia corporativa, os cidadãos tem que aprender a fazer as suas próprias tarefas jornalísticas diárias. Não toma muito mais tempo do que ler um jornal cheio de firulas inúteis e publicidade duvidosa, com a vantagem de ser de graça. Eu separei e editei uma seção da pesquisa que achei particularmente interessante:

Clique na tabela para ampliar.

Essa é a tabela da votação espontânea. Repare que, além de Lula aparecer em posição soberba (vinte por cento), Dilma Rousseff obteve a mesma pontuação de seu adversário Serra: oito pontos percentuais.

18 de dezembro de 2009

Liberdade para Cesare Battisti!

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Agora virou ponto de honra. O que o governo italiano vem fazendo já virou interferência agressiva. A mídia, como sempre, tem os olhos injetados de ódio e não pára de babar sangue. A liberdade de Cesare Battisti se tornou, além de símbolo da soberania nacional, um sinal de autoridade do presidente da república. O povo votou em Lula e não nos membros do STF. O Supremo Tribunal tem que parar de fazer política e restringir-se à função de zelar pela ordem democrática nacional - e não o contrário, como tem feito, estimulado pelo golpismo crescente das mídias latino-americanas.

O golpe em Honduras foi dado pelo Supremo Tribunal de Justiça de lá. Eles querem transformar o nosso tribunal em algo parecido, numa instância golpista, que usurpa o poder delegado pelo povo a seus líderes eleitos. O brilho de Getúlio Vargas ficou empanado para sempre com a entrega de Olga Prestes à Alemanha nazista. Liberando Battisti, Lula tem chance de impor uma derrota a seu adversário mais perigoso, a grande mídia, e ao mesmo tempo afirmar o poder, conferido pelo sufrágio universal, da instituição que representa.

Liberdade para Cesare Battisti!

*

Férias

Foi um ano bom pra mim. Trabalhei muito, me diverti outro tanto, entrei em falência, me reergui, senti preguiça e arregacei as mangas. Para 2010, ao que parece, as perspectivas são excelentes, mas a ralação promete ser pesada. O melhor que eu faço, portanto, é aproveitar esse finalzinho de ano para tirar férias do blog e descansar enquanto é tempo. Desejo a todos um bom Natal e um Ano Novo divertido.

Assinem o blog para serem informados sobre as atualizações. É gratuito, basta digitar o email na caixa aí em cima e enviar, sem esquecer de confirmar no seu email depois.

Não esqueçam da Carta Diária Óleo do Diabo, que está tendo um retorno, como diria Caetano, superbacana. A assinatura desta é paga, mas é barato e o serviço é muito bom.

Volto na primeira semana de janeiro.

14 de dezembro de 2009

Cromwell da Silva

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Poucas pessoas sabem disso, mas a Inglaterra, por um breve periodo, 1649 a 1653, foi uma república. Os próprios ingleses, durante muito tempo, esforçaram-se por apagar esse fato histórico e anular o valor moral e político de sua principal personalidade. Refiro-me a Oliver Cromwell. Até hoje, o nome suscita ásperas discussões. Populista, ditador, republicano, hipócrita, puritano? Teria sido um grande homem, ou um homem desprezível?

Em 22 de maio de 1840, Thomas Carlyle, o mais brilhante ensaísta de sua época, participou de uma conferência na qual expressou uma opinião surpreendente sobre o nome mais perturbador da história inglesa: Cromwell foi um herói, afirmou. Um herói político.

A conferência era a sexta e última de uma série que o escritor vinha fazendo sobre o papel do herói na cultura ocidental. Carlyle não teve papas na língua. Faz um elogio, bastante ousado para uma época em que as paixões políticas eram incendiárias - e perigosas para quem as incitava -, de uma figura extremamente polêmica. Cromwell, o "rude", o "confuso" Cromwell, "que não sabia falar", que se exprimia com "selvagem profundeza", a "profundeza e a ternura de seus afetos rudes".

É um texto muito bonito, o de Carlyle. Romântico. Bastante confuso também, como se ele, para falar de Cromwell, conhecido por seus intrincados discursos, mesclando uma ardente paixão evangélica e anti-papal a um patriotismo místico, quisesse igualmente usar imagens e metáforas dúbias, complicadas, barrocas, mas sempre comoventes.

Imagino que quando um brasileiro contemporâneo, qualquer brasileiro, lê esse texto, a comparação é inevitável. Lula é nosso Cromwell. Nesse Brasil quase sem heróis, nesse Brasil vira-lata, com sua elite ferozmente autodepreciativa, para a qual o fracasso do país, não apenas em termos econômicos, mas sobretudo em termos políticos, em termos morais, é um imperativo, é uma necessidade, também temos um líder rude, odiado pelas elites e amado pelo povo, que não segue "a liturgia" do cargo que ocupa, e, no entanto, em sua alma, possui a verdadeira nobreza de um estadista. Assim era Cromwell, e Carlyle denuncia a mediocridade, o pensamento de lacaios, dos que almejam apenas enxergar, na pessoa de um rei, as suas vestes, as suas maneiras, ao invés de buscar a nobreza em suas ações, na consequência de seus atos! "O que nós dissemos do criado aplica-se ao cético. Ele não conhece um herói quando o vê. O criado espera encontrar mantos de púrpura, cetros dourados, guardas de corpo e floreados de trombetas; o cético do século XVIII busca as fórmulas regulares e respeitáveis".

Carlyle parece falar aos missivistas do jornal O Globo. Acusa-os de esperteza excessiva, paranóica. Procuram charlatães em toda parte, mas não conseguem reconhecer um homem digno de confiança. "Os ludibriados, na verdade, são muitos: mas de todos os ludibriados, não há nenhum tão fatalmente situado como aquele que vive sob o injustificado terror de ser ludibriado."

"Reconheçamos primeiro o que é verdadeiro, para depois discernirmos o que é falso", afirma o escritor, acrescentando que "só os sinceros podem reconhecer a sinceridade".

Cromwell, o mais admirado e o mais achincalhado dos reis ingleses. Aliás, nem chegou a ser um rei legalmente falando, mas um Lorde Protector, líder máximo do Parlamento, mais poderoso que muitos reis de verdade. Ele, que na guerra civil entre as forças do Parlamento e as forças do Rei, afirmou que, se viesse a lutar frente a frente com o próprio monarca, não hesitaria em matá-lo! E que, poucos anos depois, votou em favor da execução do Rei. E o Rei inglês foi executado!

Sempre tive admiração por esses ingleses que aliam um pragmatismo absoluto a uma paixão ardente. E que tomam decisões inusitadas e corajosas, como o rei que, excomungado pelo Papa, rasgou a Carta de Excomunhão na frente do povo e fundou uma nova religião na Inglaterra! Como os trabalhadores ingleses, com sua história de lutas terríveis, cujas modestas conquistas práticas se contrapunham à vitória esmagadora de sua dignidade! A classe trabalhadora inglesa, uma das mais vilipendiadas em seus primórdios, tornou-se, à mercê de imensas e dolorosas lutas, que em verdade não se iniciaram na revolução industrial, mas atravessaram séculos e séculos, tornou-se uma classe vitoriosa. A maior conquista do trabalhador britânico, afinal, não foi o salário decente, mas sobretudo a altivez política, o orgulho de olhar para sua própria história com o espírito satisfeito: sofremos, lutamos, vencemos!

Alguns anos depois de morto, quando a monarquia é restaurada na Inglaterra, o corpo de Cromwell é exumado, profanado, enforcado e decapitado, em praça pública, com o objetivo de humilhar seus milhões de seguidores, sobretudo as pessoas simples que aprenderam a amar um rei sem realeza, um rei que havia sido lavrador, um rei que, um dia, ao responder à acusação de um adversário no parlamento, de que promovia pessoas rudes a altos cargos militares, falara que "preferia mil vezes lutar ao lado de um soldado em trajes simples mas dotado de coragem e valor verdadeiros do que ao lado de um cavalheiro refinado que era apenas isso: um cavalheiro refinado".

Carlyle argumenta que o herói político, como homem, está sujeito a toda espécie de erros e confusões. As próprias mentiras que se atribuem a Cromwell, diz o escritor, deviam-se ao fato de que todos os partidos se enganaram com ele, porque cada um entendia Cromwell à sua maneira. Isso também me lembrou Lula: todos que procuraram dar-lhe um significado, não em relação ao que ele realmente era e o que veio a ser, mas com base no que eles pensavam que ele deveria ser, enganaram-se redondamente; e em vez de reconhecerem o erro próprio, lançam acusações sobre o personagem que lhes inspirou as fantasias.

Apenas o povo não se enganou com Lula, porque o povo revelou-se muito mais sensato e mais prático do que todos os politizados e intelectuais: o povo não queria o Lula dos sonhos, das utopias, e sim o Lula do cotidiano, das realizações, o Lula pragmático, o fanático pelo bom senso e pelo caminho mais seguro. Essa é a razão do sucesso de Lula, no Brasil e no exterior.

Cromwell teve, contudo, um final melancólico, e um pós-morte vergonhoso, porque cada vitória sua significou também mais ódio acumulado entre seus detratores. A profanação de seu corpo por parte dos monarquistas envergonha, sobretudo, os próprios autores daquele ato, assim como o calunioso artigo de César Benjamin serve apenas para envergonhar o próprio César Benjamin.

A frase de Brecht, de que "infeliz o povo que precisa de heróis", é mais uma dessas citações inócuas, desprovidas de sentido histórico, e o fato de hoje um dramaturgo revolucionário e comunista ser citado por intelectuais da direita apenas corrobora essa confusão. Todos os povos precisaram e precisam de heróis. Os pais são os heróis de seus próprios filhos. Nós somos os heróis de nós mesmos. E os heróis do povo, não nos esqueçamos, são respeitados por suas qualidades, mas amados, verdadeiramente amados, por seus defeitos.

It's show time!

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A desistência de Aécio, se confirmada, facilita imensamente a vida dos analistas políticos. Quando li a nota de Ilimar Franco, no Globo deste domingo, suspirei de alívio. O Brasil inteiro, acho eu. Uma campanha presidencial é coisa séria, que chacoalha profundamente as expectativas da sociedade. De maneira que todos se irritavam com a fleuma tucana, ou antes, serrista, incapaz de um sinal que permitisse às forças políticas, a começar por seus próprios aliados, iniciarem as complexas articulações que se fazem necessárias ao grande embate que se espera em 2010.

Apesar de pertencerem à mesma agremiação, os dois nomes mais fortes do PSDB pareciam caminhar em sentidos opostos. Tanto que se cogitou seriamente, por muito tempo, na possibilidade de Aécio mudar de partido. O PMDB cortejou o governador à luz do dia, na frente da noiva. A imprensa assistiu a paquera meio atônita, sem saber se tal reviravolta seria coisa muito boa, uma estratégia excelente para derrotar o lulismo, ou muito ruim, pois debilitaria severamente o principal partido da oposição.

Afinal tudo se resolveu da forma mais convencional possível, mas também um tanto melancolicamente para o tucanato, pois deu-se a impressão de que Aécio, uma inegável força eleitoral, saiu magoado. Ele deu declarações duras contra o PSDB. Afirmou que esperava prévias no partido; ao que parece, Serra não se esforçou para fazê-las. Como de praxe, o governador de São Paulo manobrou nos bastidores. Mas Aécio deu o troco. Encontrou-se afavelmente com Ciro Gomes, inimigo figadal de Serra e talvez um competidor perigoso nas eleições estaduais do maior colégio eleitoral do país.

A candidatura de Dilma Rousseff, por seu lado, vem crescendo, mais devagar do que se esperava, mas de forma consistente. Mais importante: Lula permanece um fenômeno quase místico. Não dá nem para acreditar. 92% de popularidade no Nordeste é algo verdadeiramente assombroso. O Nordeste tornou-se uma inexpugnável fortaleza do lulismo. A imprensa internacional se derrama em elogios sucessivos ao presidente brasileiro. A esquerda latino-americana, para constrangimento de setores oposicionistas da ultra-esquerda brasileira, continua reverenciando "o cara". E para enlouquecer de vez aqueles que assumiram como missão de vida destruir Lula, o maior produtor brasileiro, o lendário Luis Carlos Barreto, lança no início de 2010 uma super-produção sobre a vida do ex-metalúrgico, o sindicalista sem dedo, analfabeto, grosseirão, que devorava meninos na cadeia!

*

O fác-simile no início do post é da coluna de Ilimar Franco de domingo, jornal O Globo, que informa, bastante assertivamente, sobre a desistência de Aécio. Se não for verdade, culpem o Ilimar.

11 de dezembro de 2009

Comentando as estatísticas de exportação

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No post anterior, publiquei três tabelas essenciais para se entender o comércio exterior brasileiro. A primeira traz a lista dos principais produtos exportados pelo Brasil nos últimos 12 meses (Dez/Nov), segundo números atualizados ontem mesmo pelo Sistema Alice, banco de dados online e gratuito do Ministério do Desenvolvimento. A segunda tabela mostra os produtos IMPORTADOS pelo Brasil no mesmo período. Por fim, temos a relação dos blocos econômicos mais importantes que compram nossos produtos. Uma quarta tabela, listando os blocos que exportam para o Brasil, publico aqui mesmo nesse post. Aliás, publico várias outras tabelas por aqui.

Antes, contudo, algumas informações genéricas sobre as exportações brasileiras. Nos últimos 12 meses, o Brasil exportou 152,35 bilhões de dólares, o que representou uma queda de 23% sobre igual período do ano anterior. Mesmo com essa queda, porém, o aumento nos últimos 10 anos continua impressionante, da ordem de 222%.

A importação brasileira também caiu bastante este ano, em relação ao ano passado. O Brasil importou 126,85 bilhões de dólares nos 12 meses até novembro último, queda de 26% sobre igual período de 2007/08. Na comparação com 1998/99, todavia, registrou-se alta de 116%.


Importações brasileiras nos últimos 2 anos e 1998/99 (Dez/Nov)
Período
US$ FOB
Peso Líquido(Kg)
12/2008 até 11/2009
126.853.122.584
103.572.640.188
12/2007 até 11/2008
172.076.606.892
124.544.143.688
12/1997 até 11/1998
58.607.822.302
93.502.481.823

Os números mostram que a exportação caiu, mas a importação caiu também, evitando a criação de déficit cambial. Nos primeiros 11 meses deste ano, o Brasil obteve um saldo comercial (exportação menos importação) de 23 bilhões de dólares. Considerando que nossas reservas internacionais atingiram mais de 200 bilhões de dólares, nossas contas externas ainda apresentam uma situação muito favorável.


Balança Comercial Brasileira em 2009 - Valores em US$ FOB
Mês
Exportação
Importação
Saldo
Corrente de Comércio
JAN
9.781.920.008
10.311.387.490
-.529.467.482
20.093.307.498
FEV
9.586.405.593
7.823.414.734
1.762.990.859
17.409.820.327
MAR
11.809.225.427
10.052.502.148
1.756.723.279
21.861.727.575
ABR
12.321.617.241
8.626.903.366
3.694.713.875
20.948.520.607
MAI
11.984.585.301
9.348.082.866
2.636.502.435
21.332.668.167
JUN
14.467.784.664
9.861.924.387
4.605.860.277
24.329.709.051
JUL
14.141.930.086
11.229.088.652
2.912.841.434
25.371.018.738
AGO
13.840.850.343
10.770.599.653
3.070.250.690
24.611.449.996
SET
13.863.221.927
12.535.939.246
1.327.282.681
26.399.161.173
OUT
14.081.686.044
12.753.586.660
1.328.099.384
26.835.272.704
NOV
12.652.892.311
12.038.263.683
614.628.628
24.691.155.994
DEZ
-
-
-
-
Acumulado
138.532.118.945
115.351.692.885
23.180.426.060
253.883.811.830


Vamos comentar agora a primeira tabela do post anterior, que trata dos produtos exportados pelo Brasil.

Vocês mesmo podem ver que o item Minérios, Escórias e Cinzas é o principal produto brasileiro de exportação. Nos últimos 12 meses, o Brasil exportou 14,25 bilhões de dólares em minérios, escórias e cinzas. Lá embaixo, eu publico uma tabela com o detalhamento de quais produtos estão incluídos nessa classificação. Adianto que o minério de ferro representa mais de 90% deste grupo, pois o Brasil possui as maiores jazidas do planeta; uma situada no chamado "quadrilátero ferrífero", em Minas Gerais, não muito distante de Belo Horizonte; outra na Ilha de Marajó, de exploração recente, mais que é ainda maior. A Vale explora esse ferro. Há dez anos, o Brasil exportava minério de ferro a 16 dólares a tonelada, o que significa que o ferro valia bem menos do que o próprio frete. Se considerarmos que 1 contêiner vazio de 20 pés, com capacidade para transportar 20 toneladas, custa de 10 a 15 mil dólares, chega a ser engraçado imaginar o quanto dinheiro perdemos vendendo ferro em estado bruto.

Ironicamente, logo após a privatização da Vale, a cotação internacional do ferro explodiu. Hoje o Brasil vende ferro a 46 dólares a tonelada. A quantidade exportada também registrou um crescimento nada modesto de 381% em 10 anos. Ou seja, o homem que comprou a Vale, o senhor Benjamin Steinbruch, numa ação entre amigos que contou com a prestigiosa ajuda do presidente da república Fernando Henrique Cardoso, onde o empresário não desembolsou um tostão do próprio bolso, recebendo emprestado os 3,3 bilhões de dólares de que necessitava, e ainda a juros subsidiados, o senhor Steinbruch deve ter ficado muito satisfeito com o negócio. Um dos maiores patrimônios do povo brasileiro foi transferido para o controle de uma só pessoa, com dinheiro emprestado pelos próprios brasileiros, mas a indignação da Cora Ronai é com o fato do ministro dos Esportes, Orlando Silva, ter comprado uma tapioca com cartão corporativo. A Vale hoje é estimada em mais de 300 bilhões de dólares, embora o seu valor, em verdade, seja incalculável, em virtude dos conhecimentos geológicos que ela detêm sobre o subsolo nacional. FHC, se tivesse uma gota de compromisso com o desenvolvimento nacional, poderia ter aberto o capital da Vale, para capitalizá-la e modernizá-la, mas mantendo o controle sob a União. O mais irônico de tudo é que, vendendo ferro barato principalmente para a China, que o transforma em aço e assim financia o seu próprio desenvolvimento, o neoliberalismo privatizante de FHC, com a pretensão de ser o supra-sumo do capitalismo pós-moderno, apenas ajudou a fortalecer o Estado comunista chinês!

*

A segunda tabela do post anterior, que trata dos principais produtos importados pelo Brasil, mostra que estamos comprando artigos importantes para o nosso desenvolvimento. Em primeiro lugar, reatores nuclares, o que deve refletir a construção de Angra 3. O petróleo vem sem segundo lugar, mas esse não conta muito, porque reflete o compra e vende: o Brasil vende petróleo pesado e compra petróleo leve. De qualquer forma estamos autosuficientes, compramos quase a mesma coisa que vendemos e a perspectiva é nos tornamos exportadores em pouco tempo.

*

A terceira tabela do post anterior, com a exportação brasileira por bloco econômico, confirma o que já vemos dizendo há tempos por aqui. Nos últimos 12 meses, os países em desenvolvimento responderam por 55% das exportações nacionais, contra 43% das nações desenvolvidas. Há 10 anos, a situação era invertida: os desenvolvidos respondiam por 61% das nossas exportações, contra 37% dos não-desenvolvidos. Esses dados explicam em parte a defasagem ideológica de alguns de nossos diplomatas e comentaristas de política externa, que não entenderam a forte mudança verificada na economia mundial, e seus reflexos sobre o comércio exterior brasileiro. Ainda querem puxar o saco de Europa e Estados Unidos, sem levar em conta que estes países não são mais tão essenciais para a economia brasileira como eram no passado.

O dado que eu gosto é esse: o bloco geográfico mais relevante para as exportações brasileiras, nos últimos 12 meses, é América Latina e Caribe, que importou 35 bilhões de dólares em produtos brasileiros, com aumento de 210% em 10 anos.

Outro que eu gosto é a coluna do preço médio. Nossos queridos hermanitos são os que pagam, de longe, os melhores preços pelos produtos brasileiros. Enquanto a União Européia pagou 458 dólares por tonelada, o Mercosul pagou 1.428 dólares e a Comunidade Andina das Nações (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) foi ainda mais generosa: 1.478 dólares. EUA pagou 808 dólares por tonelada e China, 127 dólares.

Fiz ainda uma tabela mostrando os principais produtos brasileiros exportados para América Latina e Caribe. Confiram como esse bloco importa, na maioria, produtos de alto valor agregado, como autopeças, reatores nucleares e aparelhos elétricos. Isso reforça a minha tese de que esse bloco adquiriu uma importância geopolítica estratégica, para o Brasil. Na contramão do que nos informa a mídia, presa a preconceitos terceiro-mundistas ultrapassados, é na América Latina que iremos encontrar o passaporte para nosso desenvolvimento industrial.

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Abaixo, três tabelas mencionadas no post. Clique nelas para ampliar.





10 de dezembro de 2009

Exportações e importações brasileiras, até novembro de 2009

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Meus caros, os números do comércio exterior brasileiro até novembro acabaram de ser divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, através do Sistema Alice, um banco de dados online atualizado mensalmente. Estou de saída agora, mas tive tempo de preparar algumas tabelas mais importantes para vocês. Depois eu volto aqui para fazer algum comentário sobre elas.

Para ampliar, basta clicar sobre elas.









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Tabela no Google Docs, com lista completa dos blocos econômicos que compram do Brasil.

Lista completa dos produtos exportados pelo Brasil, no acumulado Dez/Nov 2009.

Lista completa dos produtos importados pelo Brasil, no acumulado 12 meses Dez/Nov 2009.

O samba da agenda própria

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Outro dia li um post do Rodrigo Vianna abordando um tema já surrado na blogosfera. Trata-se da reclamação, por parte de leitores, de que os blogueiros seriam subservientes à agenda da grande mídia. Não produziriam nada de novo, restringindo-se a um protesto eterno, e inútil, contra as linhas editoriais seguidas pelos jornalões. Esta não é a primeira vez que escrevo sobre isso, mas vale a pena voltar a este debate porque ele é de fato importante.

Acho que essa reclamação é, por um lado, injusta. Os jornalões existem, como instituição, há mais de duzentos anos, e sua influência, por isso mesmo, penetrou profundamente no âmago da República. Tiveram sua importância, mas igualmente já fizeram muito mal à democracia brasileira. Todos conhecem a máxima de que, para que nasça o novo, é preciso destruir o velho. A blogosfera, portanto, quando ataca a grande mídia, segue inconscientemente as leis naturais da sobrevivência. Ela quer nascer, quer crescer, e para isso sente que é preciso enfraquecer os dinossauros.

Nas artes marciais, usa-se a força do adversário contra o próprio. Um lutador de judô, por exemplo, aprende a usar a arremetida do inimigo para erguê-lo e enviá-lo para longe. Esses são conhecimentos antigos, enraizados em nosso subconsciente, e a blogosfera apenas obedece a seus instintos.

E os instintos são a força mais poderosa do homem. Eles são a única virtude genuinamente democrática, visto que não é preciso ser bonito, culto, maduro ou forte para tê-los em si. Os instintos remetem à inteligência biológica, àquela que o homem desenvolveu em milhões de anos, e que é a mesma inteligência que nos fez possuir olhos que vêem, ouvidos que escutam e lábios que beijam. Quando agimos movidos por nossas paixões, podemos até bater a cabeça contra algum muro, mas estamos de posse de uma quantidade de hormônios, enzimas e energia vital incomparável; e como tudo na natureza tem uma razão de ser, essas forças servem à meta maior do ser, que não apenas é sobreviver, mas também se tornar mais forte. A blogosfera, se me permitem o pernosticismo filosófico, é também um ser espinozista, cuja essência é perseverar em si mesma. A blogosfera quer se afirmar como instituição, mas para isso precisa derrubar o muro que a grande mídia construiu entre a verdade e a consciência das pessoas.

Isso fica muito claro quando conversamos com uma pessoa que se informa exclusivamente pela imprensa convencional. Parece alguém preso à Matrix, cujas idéias sobre a realidade se fundamentam sobre informações falsas e distorcidas. Não adianta nem a pessoa ser culta, porque o importante, neste caso, é possuir dados confiáveis sobre a situação em seu próprio país. Ninguém aprenderá sobre política brasileira lendo Faulkner. Ironicamente às vezes ocorre o contrário: pessoas cultas endurecem seu ego e têm dificuldade para rever suas opiniões. Tornam-se arrogantes, vaidosas e tradicionalistas. Apaixonam-se pela Matrix. A própria grande imprensa joga maquiavelicamente com a alta cultura prezada pelas elites: quando nos cadernos culturais festejam Habermas, fazendo cosquinhas no orgulho de alguns leitores, torna-os dóceis para as manipulações toscas da seção política.

Vocês devem se lembrar como, no início da blogosfera no Brasil, assistimos a uma truculência inaudita por parte de alguns internautas por causa de singelos erros de concordância ou sintaxe. Até hoje, blogueiros de direita (que chancelam e defendem a grande mídia) mantém todos seus canhões armados contra qualquer deslize gramatical. Por quê? Puro amor à lingua? Não creio. É o instinto de preservação de espaços de poder. O poder que a mídia, com seu sistema rígido e fechado de seleção, mantinha sob controle estrito de um reduzido grupo social. Só eles podiam falar. Só eles podiam opinar. A opinião pública era monopólio deles. Eles tinham o monopólio de fazer o blend entre colunistas mais à esquerda com outros mais conservadores, de forma a atingir o equilíbrio que eles consideravam ideal.

Mas, como dizia Dylan, the times they´re achanging. A invenção da internet representou um golpe fatal no Leviatã midiático. Algum neo-hippie da Califórnia, como um novo Ulisses, conseguiu penetrar silenciosamente na caverna do Ciclope e furar-lhe o único olho com a lança da tecnologia.

*

A questão não é nem achar que o mundo será muito melhor com o advento da internet e a derrocada dos jornalões. Não falamos aqui de felicidade. Sabe-se que o período mais feliz de Roma aconteceu durante o totalitarismo absoluto de Augusto. No entanto, não havia mais a liberdade nem a democracia das quais a república romana desfrutou por mais de três séculos, e que, apesar das crises constantes, consistiram na verdadeira força desse povo. Da mesma forma, quando falamos no fim da imprensa convencional enquanto órgão monopolizador da opinião pública, não pensamos num imenso mar de rosas. Falamos aqui de liberdade. Da possibilidade de milhões de brasileiros participarem, efetivamente, dos grandes debates nacionais, e não apenas se limitarem a ouvir ou ler a opinião de meia dúzia de empregados do Sr.Marinho ou do Sr.Frias como se ela representasse os anseios de toda uma população.

*

Por outro lado, é necessário sim que a blogosfera, simultaneamente à sua luta contra o ciclope midiático, inicie uma agenda própria, aprendendo a fazer um jornalismo (se é que daremos o nome de "jornalismo" a nosso trabalho) autônomo. Nunca foi tão fácil como hoje. As instituições todas agora publicam seus dados diretamente na web. Podemos escrever sobre inflação, renda, exportações, desemprego, consultando as fontes primárias. As autoridades caminham para ter seus próprios blogs, onde poderão se comunicar diretamente com seus eleitores e governados. As empresas também vão nesse caminho, divulgando seus balanços e comunicados na rede. Modestamente, eu dou minha contribuição, analisando periodicamente dados sobre o comércio exterior e preparando extensas e completas estatísticas.

*

Nunca me sinto bem falando em "luta contra a mídia". Sou um cara tranquilo e conciliador, que preferiria mil vezes tocar o meu blog pacificamente, sem me meter em nenhuma guerrinha política. Mas, como dizia Celso Furtado, a nossa liberdade de ação só existe em meio às circunstâncias em que nos inserimos, e, no momento, a mídia exerce um papel fortemente negativo e desinformador, que traz prejuízos incalculáveis à sociedade brasileira.

Por exemplo, ontem, no Globo, a manchetona de capa estampava:

Material de construção sobe no Rio, apesar de IPI menor

E a sub-manchete:

Alta de preços chegou a quase 30% desde que benefício foi aprovado

Ainda na capa do jornal, a matéria dizia:

Desde que o governo Lula prorrogou pela primeira vez o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) reduzido para materiais de construção, em junho último, já houve alta de quase 30% nesse setor no mercado do Rio.

E remetia à matéria principal do caderno de Economia, que inicia assim:

Apesar da prorrogação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) reduzido para materiais de construção, os preços dos produtos subiram até 30% nos últimos meses.

Isso depois da seguinte manchete e submanchete (no caderno de Economia): Sem alívio nos preços / Mesmo com prorrogação de IPI menor, materiais de construção sobem até 30%.

Me desculpem. Poderia ser uma bela matéria, com objetivos nobres, de denunciar alguns aumentos exagerados, mas pontuais, dentre os produtos contemplados pela redução ou isenção do IPI. Não é o caso. A impressão que se passa ao leitor leigo em economia, ou seja, a 99% dos leitores do Globo, é que há aumento do material de construção. Quando lemos com mais atenção a matéria, ou seja, quando passamos nosso olho clínico, constatamos que o tal aumento de 30% (que consta também na sub-manchete) foi encontrado apenas em UM produto, de uma lista de 19 produtos pesquisados pelo Globo. Trata-se da Ducha higiênica Forusi. E isso apenas em UMA loja, no Rio de Janeiro. A Casa & Construção. Ou seja, o repórter do Globo encontrou aumento de 29,8% em UM produto, de uma marca específica, em uma loja específica, e daí tascou uma manchete sensacionalista dizendo que MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO SOBEM ATÉ 30%.

É muita mentira, que não leva em conta o mais rudimentar bom senso, o de que o mesmo produto é vendido com preços diferentes em lojas diferentes, em regiões diferentes, e de que existe uma enorme gama de produtos similares, mas de outras marcas, que registraram inclusive redução de preços.

No dia seguinte, o Ministério da Fazenda respondeu exatamente isso que falei, que a pesquisa não referia a médias nacionais, não considerava a diferença entre as regiões, e focava num pequeno grupo de produtos que não necessariamente representavam o vasto conjunto de materiais de construção. Mas a resposta da Fazenda saiu em notinha escondida na página 30, sem nenhuma chamada na capa. Título da nota: "Fazenda: material de construção não subiu".

Como é possível que o Globo tenha a cara de pau de converter esse aumento de 30%, detectado apenas em um 1 produto, ou seja, apenas na Ducha higiênica Forusi, e em somente 1 loja, na Casa & Construção, uma loja conhecidamente careira da cidade, numa manchete que sugere um forte aumento generalizado nos preços dos materiais de construção? Como o Globo pode tratar de forma tão irresponsável um tema que envolve centenas de bilhões de dólares e mexe profundamente com a vida econômica do país? O Globo vendeu um pessimismo que não existe, contou uma mentira, e, mais uma vez, pode ter influenciado algum empresário a não fazer um investimento, a não gerar um emprego.

No auge da crise econômica, ou melhor, da "marolinha" que atingiu o Brasil, eu citei trecho de um livro de Keynes, no qual ele denuncia, expressamente, a influência negativa que setores da mídia podem causar ao país, por conta de uma postura política de oposição ao governos tidos como "populares". Ele se referia à mídia americana e ao presidente Roosevelt.

É por essas e outras que a blogosfera precisa continuar fazendo um duro combate contra a mídia. Porque a mídia mente, descaradamente, e parece se afastar cada vez mais de qualquer compromisso não apenas com a verdade dos fatos, mas com a própria verossimilhança. Agindo assim, ela atua contra o desenvolvimento nacional, que precisa de otimismo, precisa de autoconfiança. Agindo assim, ela cava um buraco cada vez mais fundo para si mesma. Virá o dia que alguém a chutará nas costas, fazendo-a cair exatamente na cratera que produziu. Oxalá esse dia não demore.

*

Eu queria ainda comentar um artigo de Demétrio Magnoli, intitulado "Uma estátua equestre para Lula", a coisa mais ridícula que li em muito tempo. Diz que o filme foi feito para "domesticar o PT". Leiam o trecho inicial:

Tirando a espuma, o filme "Lula, o filho do Brasil" não passa de mais uma versão da fábula do indivíduo virtuoso que, arrostando a adversidade extrema, luta, persevera e triunfa montado apenas nos seus próprios esforços. Como cada um encontra aquilo que procura, o fiel extrai dessa fábula uma lição singela sobre a intervenção misteriosa da providência, enquanto o doutrinário liberal nela encontra o argumento clássico em defesa do princípio do mérito individual. Nenhuma das interpretações amolda-se ao pensamento de esquerda, que se articula ao redor das noções de circunstância histórica e sujeito social. "Lula, o filho do Brasil" é uma narrativa avessa ao programa do PT.

Pelo amor de Deus, o cara é uma mula! Resumir o pensamento de esquerda a "noções de circunstância histórica e sujeito social" é algo tão grotesco e infantil que só posso sentir pena de um sujeito desse. Oxalá esses reacionários permaneçam ad eternum chafurdando em sua própria debilidade mental. Como eu desejo, de todo o coração, que eles encerrem sua carreira no inferno mesmo, não me esforçarei muito para adverti-los do abismo moral e eleitoral que os espera logo à frente.

Aí ele envereda por uma comparação esdrúxula, entre Lula e Luíz XIV, mas aí é demais para mim. Meu estômago não aguenta lidar com algo tão estúpido. O artigo é inteiramente assim, um amontoado de absurdos que chegam a ser inocentes de tão mal ajambrados. Nem iria comentá-lo se não encontrasse nele um ponto que realmente me chamou a atenção: ele cita o repugnante artigo de César Benjamin, da seguinte forma:

Indignado com a mistificação cinematográfica dos Barreto, Cesar Benjamin relatou, em artigo publicado pela Folha de São Paulo, que Lula gabou-se durante a campanha presidencial de 1994 de ter tentado currar um "menino do MEP", preso político com quem dividiu uma cela no Deops.

Só isso. Não cita os desmentidos cabais dos presos que compartilharam a cela de Lula. Não cita o próprio "menino do MEP", que também negou veementemente a história. Detalhe: o "menino do MEP" tinha 30 anos quando ficou preso junto a Lula, que tinha uns 35 na época. Não cita a denúncia do próprio ombudsman da Folha. Não, Magnoli chancela a calúnia de Benjamin. Defende-a. Agora vemos para que serviu o artigo de Benjamin, para que outros possam reproduzir a calúnia acriticamente, sem nem ao menos se comprometer com as palavras, já que essas pertencem à Benjamin e à Folha. E assim se dissemina uma calúnia que atenta gravemente contra a honra do presidente da república. E daí. Dane-se a honra do presidente. É o Lula, não? Um paraíba que não merece honra nenhuma...

Vemos também a integridade de Magnoli, que aceita o uso de uma inominável calúnia simplesmente por que Benjamin estava "indignado com a mistificação cinematográfica dos Barreto".

Termina citando Golbery, que disse que Lula destruiria a esquerda. Bem, pelo menos ele revelou quem admira: o homem que ajudou a articular e a sustentar a ditadura. Como Magnoli certamente é daqueles que acha que a esquerda no Brasil é representada por Roberto Freire e José Serra, torço para que a profecia de Golbery se realize o mais rápido possível. De preferência em 2010.

9 de dezembro de 2009

Bolivarianismos

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(José Mujica, presidente recém eleito do Uruguai,
e Lula, em encontro recente. Fonte: blog do Planalto)


Acabo de ler o seguinte texto, num editorial da Folha de São Paulo:

A Constituição [a nova carta aprovada na Bolívia] prevê que as altas cortes da Justiça sejam eleitas por voto popular, o que pode viabilizar o controle, por parte do grupo de Morales, dos três poderes.

Cada vez me surpreendo mais com a concepção original do que seja democracia por parte de vastos segmentos da elite brasileira e latino-americana. O "grupo de Morales" controla os poderes através do voto popular, assim como as ditaduras que assolaram o continente por décadas controlaram-nos pela força bruta. Por que a imprensa brasileira defendeu o controle dos três poderes por militares despreparados, reacionários e truculentos e ataca um ponto sagrado da democracia, que é o povo exercer o poder através do voto?

Naturalmente, os juízes terão que ser aprovados por concurso e ser preparados para a função que deverão ocupar, mas a introdução do voto popular na escolha dos ministros da suprema corte permite à população participar mais ativamente da vida democrática nacional. Além disso, torna a sociedade mais autônoma em relação às decisões do presidente da república, pois, no Brasil, os juízes são apontados pelo mandatário máximo.

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Observo sempre que há segmentos que esnobam solenemente qualquer tentativa de avanço nas constituições latino-americanas, ao mesmo tempo que permanecem bajulando colonialmente as instituições do primeiro mundo. Não vejo porque países onde vige a monarquia, e que vivenciaram, no século XX, os maiores genocídios da história do mundo, tenham que ser nossas referências. Aliás, há sim alguns pontos onde os países europeus podem ser modelos para a América Latina: a valorização do trabalhador, que ganha salários decentes; a existência de vastos programas de assistência social, todos extremamente respeitados pelas elites e pela classe média; um sistema de educação pública de primeira categoria.

Enfim, é muito triste notar que as elites reacionárias deste lado do Atlântico criaram uma ideologia esquizóide, doentia, irreal. Acreditaram numa utopia mercadológica que nenhum país rico jamais implementou. Nem os Estados Unidos, onde a presença do Estado, ao contrário do que se propaga, sempre foi determinante. Segundo Chomsky, a maioria esmagadora das descobertas científicas realizadas nos EUA nasceram em estatais ou da cabeça de funcionários formados no serviço público. Além disso, o Pentágono, a Nasa, além de dezenas de outras agências federais, possuem uma forte autonomia orçamentária, e constituem o orgulho dos americanos. Nunca se pensou em privatizá-los, apesar de que o neoliberalismo de Reagan, Bush pai e Bush Filho, e sua turma, de fato conseguiu transferir para segmentos privados enormes nacos da indústria bélica, permitindo o surgimento de um lobby de guerra que hoje parece fora do controle, comprando parlamentares, membros do governo e jornalistas, sistematicamente, para seguir desestabilizando a paz mundial e obrigando o presidente americano a assinar cheques cada vez mais polpudos.

Obviamente é preciso considerar que o Estado, em si, não cria nada. Para que tenhamos agências públicas que produzam indivíduos criativos, é preciso driblar a burocracia, respeitar a liberdade dos funcionários, incentivar a formação.

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Ah, lembrei de uma coisa que queria escrever há tempos. As campanhas auto-desmoralizadoras dos jornalões, sobretudo do trio ditabranda (Folha, Estadão e Globo), tem algo de muito estranho e suicida. Tudo bem que a imprensa escrita vive uma crise nos Estados Unidos, mas eles experimentam por lá uma realidade social oposta a nossa. Enquanto lá existe uma situação de empobrecimento e concentração de renda, aqui temos vastos setores da população se integrando à classe média e adquirindo maior poder aquisitivo. Não seria comercialmente lógico, portanto, que os jornalões procurassem lucrar com esse movimento? Muitos empresários enxergaram a oportunidade e ganharam muito dinheiro. Por que a Folha não seguiu esse caminho, tão natural, tão saudável e capitalista?

O que parece, francamente, é que a esses jornais não interessa conquistar um vigor financeiro autônomo: diante das negociatas sem licitação que vemos ocorrer entre governadores e grupos midiáticos, a impressão que temos é de que há um neoliberalismo sem liberalismo algum, pois continua visando exclusivamente manter empréstimos e financiamentos a juros subsidiados (ou mesmo a fundo perdido), através da eleição de políticos aliados, que fazem assinaturas em massa para o Estado e realizam grandes aquisições editoriais.

Certa feita, fiz um trabalho sobre o mercado de livros no Brasil. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o fato de o governo, principalmente através do Ministério da Educação, é de longe o maior comprador de livros do país.

Esse poder estatal, conferido a seus representantes pelo voto popular, confere ao Estado um papel muito importante na construção de um ideário político e cultural entre a população. O papinho de intervencionismo estatal, importado dos ianques, não cola por aqui, porque, lá nos EUA, eles tiveram uma democracia estável de mais de duzentos anos, o que permitiu a criação de um Estado poderosíssimo que, em função da instabilidade política do planeta, tornou-se exageradamente militarizado, policialesco, com forte presença igualmente no setor cultural. Eles pecaram talvez por excesso, assim como alguns países da Europa. Mas o resultado, afinal de contas, foi positivo: tornaram-se países ricos e desenvolvidos. Por que o Brasil quer ser tão diferente? Por que o Estado aqui tem que ser sempre negativo?

Nossos medíocres Goebbels pós-modernos

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Essa comparação é velha, mas o que eles fazem também é velho. Eles continuam repetindo a informação ad nauseam até que ela se incruste em nosso inconsciente, até que nós mesmos esqueçamos o contexto que a gerou, e de como se trata de uma mentira filha da puta.

Pensei nisso algumas semanas atrás, lendo artigos sobre Cesare Battisti. Você pode ser uma pessoa má convencional, que sente prazer em mandar para os jornais cartinhas babantes de ódio e sadismo contra um homem cuja história você não conhece. Até aí tudo bem. O que me espantou é que, mais uma vez, comparou-se o caso Battisti aos cubanos mandados de volta à gulag caribenha. Falo gulag apenas para imitar o trejeito da maioria dos missivistas de jornalões, que imagino vestirem gravatinha borboleta e incensarem a nossa imprensa como grande paladina da liberdade democrática. O fato da mesma imprensa ter apoiado e articulado o golpe de 1964 é só um detalhe insignificante.

Bem, a diferencinha básica, de que os cubanos pediram para voltar à Cuba, não é citada, de maneira que, a cada vez que a comparação Battisti X cubanos é realizada, a imprensa procura grudar, usando cola vagabunda, um raciocínio falho no intelecto já meio demente de seus leitores.

O fato traz consequências graves à psique moderna, e provamos isso quando, por algum desgraçado acaso da vida, somos obrigados a trocar idéias com essas pessoas. Quando essas pessoas sentam à nossa mesa - ou, o que é pior, nos sentamos à mesa delas, e elas passam a repetir, solertes e orgulhosas de si mesmas, exatamente a mesma idiotice que leram no jornal; e quiçá tenham lido já não num editorial, e sim numa carta de leitor!

Sim, porque é preciso entender o significado atual dessa aberração: Carta do Leitor. Aos poucos, aquilo se tornou uma das zarabatanas mais maliciosas do jornal. Por que ali não se tem mais obrigação de falar a verdade. Com a desculpa de divulgar a opinião do leitor, enfiam-se as cartinhas mais estapafúrdias. É o caso também de outro CB. César Benjamin. O ombudsman entregou o jogo. Disse que recebeu mais de duzentas cartas espinafrando a Folha, e somente nove elogiando. Mas o editor da seção de cartas punha, todo dia, uma carta a favor, outra contra. E assim temos um delicioso equilíbrio! O equilíbrio entre a verdade e a mentira!

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A vitória de Evo Morales serve de lição e alerta para toda uma classe política, a todo um segmento social. Alegrinhos e idiotas, muitos "homens de bem" bolivianos continuaram comendo na mãozinha da mídia, acreditando em pesquisas, em editoriais, em cartinhas de leitores, e agora assistem, atônitos, o índio rindo desbragadamente com sua acachapante e merecida vitória. Mas também não adianta dar uma de César Maia e comprar o último livrinho sobre marketing político publicado nos Estados Unidos. É preciso olhar em volta, respirar fundo e, pela primeira vez na vida, ter coragem de botar seus derradeiros neurônios para funcionar com independência. O povo pobre é ignorante, mas tem um estômago do mesmo tamanho e peso que o do fulaninho formado na Uniban. E qualquer alquimista contemporâneo sabe que uma decisão tomada com base no vazio estomacal pode ser tão ou  mais inteligente do que outra feita sob efeito do excesso de lagosta e champagne.

Acontece que Evo Morales, por incrível que isso pareça para quem se informa pela rede filiada à Sociedade Interamericana de Imprensa, a famosa SIP, dirigida atualmente por algum êmulo moderno do Al Capone, por incrível que pareça, Morales está fazendo um bom governo. A Bolívia superou a crise econômica de maneira tão ou mais competente que o Brasil, e Morales tem realizado uma gestão corajosa e criativa, que tem priorizado os mais pobres. Com a vitória, Morales quer ampliar a assistência social às crianças, velhos e mulheres grávidas, medidas que são, a meu ver, infinitamente mais importantes do que emprestar dinheiro a juros subsidiados aos proprietários de jornais - que é, afinal de contas, o motivo pelo qual a mídia latino-americana tem feito uma oposição tão desesperada em todo continente.

A imprensa latino-americana é nossa cicatriz pós-ditadura. Os generais se aposentaram, mas os filhinhos do papais que eram donos de jornal resolveram, infelizmente, continuar gerindo as empresas da família.

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Há alguns anos, topei com uma notícia que me surpreendeu muito. Uma dessas pesquisas ultrasérias feito por cientistas sociais britânicos descobriu que os homens dão muito mais valor a boatos do que a notícias verdadeiras. Ninguém inferiu o óbvio dessa pesquisa: ela comprova o estrago irreversível causado por notícias deturpadas, de maneira que é necessário sim haver controle social e democrático sobre elas.

Por outro lado, eu já conheço a malícia do Leviatã. Ele tentará se esquivar do controle através de seus mentirosos mais treinados, que irão, como já fazem agora, escamotear o jornalismo pelo uso de técnicas narrativas chupadas de outras modalidades de literatura. Ou seja, fingindo fazer literatura, praticarão o mesmo jornalismo histericamente golpista e reacionário que hoje predomina na imprensa nacional. Não tem importância. Será divertido e instrutivo. E terá combate. Para cada marionete goebbeliana, surgirão dez blogueiros com a pertinácia de um judeu e a paixão de um palestino.