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5 de agosto de 2013

Um conto de protesto

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A balada do menino sem bandeira


 


Por Miguel do Rosário

Para o dileto amigo N.R.

Norberto caminhava rápido pelo viaduto, na direção da esplanada. Decidira ir a pé por causa do trânsito. Os carros eram um bando de formigas bloqueadas por uma linha de veneno. Sentiu alívio.

Curioso. Todos aqueles motoristas aflitos, querendo chegar logo em seu destino e eu tomado por um inefável bem estar por não estar entre eles. No mesmo momento, qual vingança divina contra seu pecado, sentiu uma dor aguda no joelho direito. Foi obrigado a reduzir o passo, e por fim parou junto à murada do viaduto.

Então reparou que o congestionamento era maior do que o normal. E havia também mais gente. Jovens, legiões deles. É uma passeata, concluiu, enquanto examinava o celular. Recebera uma mensagem. A reunião fora adiada em meia hora. O outro, presidente de uma fundação, também enfrentava problemas para chegar. Puxou um maço do bolso e acendeu um cigarro.

A dor no joelho sempre o arremessava violentamente ao passado, ao tempo da colheita de café. Um garoto de onze anos trabalhando catorze horas por dia. Foi lá que ferrara o joelho. Voltava pra casa uma noite tão exausto que desmaiou na descida de um barranco e se feriu.

Mais jovens chegavam, portando pequenos cartazes. Alguns vinham cantando. Norberto sentiu as lágrimas enchendo-lhe os olhos, mas logo sorriu, irônico. Não chorava de emoção pela vitalidade democrática que assistia, os jovens marchando sem medo em prol de um país melhor. Chorava por si mesmo, imaginando tolamente que a passeata era um protesto contra o que ele mesmo havia sofrido.

Respirou fundo o ar puro e seco do Planalto Central e experimentou voltar a andar. A dor diminuíra. Caminhando devagar chegaria a tempo, sem sofrer desnecessariamente. Chega de sofrimento, quase gritou em silêncio, e riu sozinho. Entrou por um atalho, desceu por uma escada e chegou à esplanada.

Agora estava ao lado dos manifestantes. Andava lentamente, tentando não mancar, olhando os cartazes. Mais quinze ou vinte minutos e chegava a seu destino. Mais quinze e vinte... anos e chegaria... Onde, exatamente? Não seria o mesmo objetivo de todos aqueles meninos e meninas? Chegar em algum lugar seguro e confortável?

Lembrou, irritado, da discussão na véspera, num restaurante. Aquele cara bêbado cagando teorias e "verdades". Talvez tivesse alguma razão, mas a perdeu totalmente porque se expressava de um jeito histérico.

Vá se foder!

Um grupo de garotos que seguia à sua frente se voltou assustado. Ele balançou as mãos, sorrindo humildemente. Tinha falado sozinho.

A multidão engrossou. As cantorias aumentaram. Norberto tentou prestar atenção na letra de uma delas. Ih, fodeu, o povo apareceu! 

O ar também parecia ter engrossado. Um oxigênio mais denso e mais perigoso. Antes do sol nascer, subia na boléia do caminhão para colher café na fazenda, mas voltava a tempo de escutar o bêbado vomitando teorias num restaurante do Rio de Janeiro. O povo gritava mais alto, ele não entendia o que o bêbado dizia. Movia a perna direita, a constante fisgada de dor fazia explodir lembranças da fazenda onde trabalhava, o sol forte castigando-lhe a cabeça. Movia a perna esquerda, o jantar da véspera, o bêbado arrogante cospindo teses.

Distraiu-se olhando um grupo de garotas realmente bonitas que marchavam um pouco mais à frente. Um helicóptero cruzou o grupo, provocando uma longa onda de vaias e gritos.

Vá se foder!

Desta vez, havia só pensado. Só que não sabia para quem se dirigia. Não pensava mais no bêbado. Nem no helicóptero, nem na fazenda. Apenas tinha vontade de mandar alguém se foder.

Então começou a chorar. Tão forte que um grupo logo o abordou, preocupado. Uma moça segurou seu braço, maternalmente.

- Estou bem, estou bem.

Seguiu andando ao lado do grupo, que instintivamente o adotara. A moça lhe dera o braço. Ele sentiu-se perdido, como se não tivesse idade nem para colher café. Ou talvez já tivesse, mas agora se recusava a sair de casa. Estava frio, muito frio, e ele tinha fome.

Os jovens gritavam à sua porta, pedindo que saísse, que era hora de trabalhar. Ele queria continuar dormindo, apesar do estômago vazio. Mas os gritos não paravam. Quando ele sai de casa, percebe que os jovens na verdade gritam a seu favor. Eles querem que ele volte pra casa. Uma garota se aproxima e lhe oferece um sanduíche. Outro, uma xícara de café com leite.

O helicóptero retorna, mas desta vez a massa reage com indiferença. Norberto pede licença à garota que o leva pelo braço e se despede. Havia chegado ao local de encontro. Ainda cogita entregar um cartão de visita à ela, mas acha melhor não. Ela devia ter menos de dezesseis.

Enquanto se encaminha ao Ministério, ouve a cantoria se agigantar na avenida principal da esplanada. No caminho, pouco antes de chegar à portaria, vê um menino tomando conta de uma banquinha de salgados e doces. Um menino da sua idade quando colhia café no norte de Minas. Aproxima-se, pega um amendoim e entrega-lha uma nota de vinte reais.

- Pode ficar com o troco.


O garoto lhe responde com um sorriso cúmplice. Eles se reconhecem. São a mesma pessoa.

26 de junho de 2011

Pro dia nascer feliz

Do Blog De Costas pro Mar, de Nilo Oliveira

Quarta-feira, 22 de junho de 2011

Foi o Joãozinho quem me deu a letra, por telefone, lá de Foz do Iguaçu: "Vai sair este domingo um conto do Mirisola na Folha. Parece que meio inspirado naquele passeio que demos por Copacabana..."

O Joãozinho é um cara espiritualizado. No dia seguinte ao referido passeio - segundo ele, cercado de pombas-giras mercenárias, banhadas por luzes caleidoscópicas vermelhas e azuis, e exus que rodavam em torno deles num pé só, como piorras gargalhantes - confidenciou pro Mirisola que tinha sonhado com umas coisas estranhas... Mais precisamente com galeões que atracavam numa Copacabana ainda selvagem, e com piratas que caminhavam pela praia na sua direção.

- Pirata?! - gritou o Mirisola.

- É... - respondeu o João, enquanto uma sombra lhe atravessava o semblante.

- Mas pirata mesmo, com tapa-olho e tudo?

O João balançou afirmativamente a cabeça, olhando pros lados, como se forças invisíveis estivessem se aproximando pra escutar a história.

- Caralho, Baixinho!... Tem certeza que não era o fantasma de algum folião?

Não pude comprar a Folha. E também não consegui ler o conto na versão on-line. Então pedi ao Mirisola que me enviasse o arquivo, no que fui gentilmente atendido. Citando um famoso profeta carioca, "gentileza gera gentileza" - e por isto, com a devida permissão, compartilho aqui o conto com outras pessoas que também não tiveram o prazer de ler o relato desta fantasmagórica despedida do Mirisola das ruas do Rio de Janeiro.

*

Marcelo Mirisola:
Pro Dia Nascer Feliz


Aqui no centro do Rio não fico sozinho, a cidade me faz companhia. Como se eu fosse uma criança e a solidão me desse as mãos para atravessar ruas, entrar em butecos e encetar pequenas cosmogonias. Sou um bêbado discreto e só um pouco ruminante. Um vulto triste e complacente que jamais estragaria a festa das almas trôpegas que ainda pensam que estão vivas. Parece uma ninharia, mas é muito se eu for comparar a São Paulo: cidade que nunca me ofereceu nada diferente de expurgo, amigos cinzas, exílio e uma solidão que não precisa de ninguém para existir. São Paulo me cospe.

No Rio, o movimento é exatamente o contrário. A paisagem, de braços dados com a solidão, além de me tragar, também me acompanha – embora meu amigo Miguel do Rosário tenha argumentos geográficos e políticos (agora não me lembro quais...) que provam que o centro do Rio não existe.

Apesar de todas as evidências forjadas pela Secretaria de Turismo, o “Rio Antigo” não está preso numa fotografia amarelada. Isso é mentira pra decorar buteco de paulista. O Rio não é um lugar que têm promissórias a acertar com o tempo. Nem com o passado, nem com as olimpíadas de 2016. Antiga é a mania de demolir e reformar, de cumprir as obrigações do dia-a-dia, de abrir franquias e fazer “releituras”: antigo é o hábito de registrar o tempo em fotografias.

O mais grave é não ouvir o lamento das pedras. Um erro. O fato de os séculos terem passado não impede que as pedras do Beco do Barbeiro continuem gritando. São as mais sofridas e indiscretas da cidade. Antigo é não transcender.

Os burocratas da Riotur não deviam ignorar os aflitos que buscam indultos na Igreja do Carmo, vizinha do Beco. A bocarra aberta da Igreja continua – apesar de o purgatório não mais existir – cumprindo sua função de engolir almas. Nem sei se é bom negócio. Mas sei que o tempo pisado, no Rio, é bem público e privado, assim como o desamparo e os pecados do mundo, bens que não prescrevem e não tem nome.

Butecos são butecos, conventos não são jaqueiras e igrejas não são espaços culturais da Oi. Têm certas coisas que demandam apenas rumores para que existam e sejam compreendidas: os passos de um homem na Rua do Ouvidor que apressam o ritmo do sujeito que vem à frente, a aflição dos dois a caminho do trabalho um pouco antes de olharem para a mesma mulher do outro lado da calçada. Aparentemente uma cena banal. Mas esse rumor tem o mesmo efeito do silêncio que congela as ruas e os séculos imediatamente depois que os homens apressados dobram à esquerda na direção da Sete de Setembro. Claro que fantasmas existem. Eu os vejo, eles me vêem – vivos e mortos a caminho do eterno pasto. As almas do Telles juram que estou vivo. O gato preto que desaparece na próxima esquina e o arrepio que sobe pela espinha são lições de indiferença que cumprem séculos e séculos. Eu sei! Na manhã de setembro de 1711 uma espessa neblina baixou sobre a baía de Guanabara – lembram? – e facilitou a invasão de René Duguay-Trouin, o francês filho da puta que sequestrou a cidade e impôs o terror à população. Na mesma manhã de setembro, Vanusa perderia Antonio Marcos para Débora Duarte. A dor permanece nas manhãs de setembro. Em alguns casos, a redundância também. Quem é que precisa de provas?

Os fantasmas da Rua do Senado espalharam boatos que o tempo não passa. Aconteceu anteontem. Depois de comer um sanduíche de bife a milanesa no Massapê, esquina da Gomes Freire com a Rua da Relação, resolvi seguir até a Lavradio e, de lá, meu plano era simples: pegaria o bagulho na Pça.Tiradentes e me pirulitaria o mais rápido possível em direção à Cinelândia. Nem bem havia dobrado a esquina, um sujeitinho de paletó de linho branco, cabelo engomado, chapéu panamá e sapato bicolor, me pediu fogo.

O malandro foi direto ao ponto:

- Veio de lá, parceiro?

Encruzilhada braba. Eu não estava a fim de pagar de otário justo no coração da Lapa, e respondi:

- Sim, nascido e criado em São Paulo. Mas estou aqui para resgatar meu coração que ficou espanado no Morro do Livramento. E você, malandro? Saiu de um ensaio da Marie Claire ?

Se eu dissesse que o malandro evaporou estaria cometendo um ectopleonasmo (não resisti ao trocadilho, perdão). Segui na direção da Pça.Tiradentes, onde pegaria o bagulho perto da Estudantina e, no máximo em oito minutos a passos largos, chegaria ao meu destino: uma asinha de anjo no Galeto Liceu. Segundo meus cálculos, antes das 20 horas daria cabo do anjinho na brasa, e ainda me sobraria um tempo para conferir a qualidade do bagulho – ou parte dele.

As distancias no Rio são curtas, mas pesam. Ir da Lapa até a Praça XV significa cumprir uma maratona espiritual. Agora, tem uma coisa que independe da circunscrição do susto, e que me chama muito a atenção: todos os fantasmas que encontro pelo caminho, todos eles tem sede.

Ontem à noite enchi a cara na Cinelândia. Joel bate ponto lá. O Barão, que também não sai do Amarelinho, contava que seu cardiologista o havia proibido de beber às refeições. Para não contrariá-lo, teve uma idéia brilhante: decidiu abolir as refeições. Voilà! O Barão é foda, o rosto de menino atrás da barba branca e os olhinhos que brilham como se fossem um radar em busca de cascas de banana, não me enganam. Eu escolhi não facilitar com a monarquia. O ideal, a tática mais indicada, é pedir outra dose e meter o pau no Getúlio. O mesmo vale pro Joel. Recém-chegado do Sergipe, descolou um emprego na redação do “Dom Casmurro”. Os dois e mais o Brício – que tem mania de bordejar sobre as mesas – armaram o QG no Amarelinho.

À primeira vista não fui com a cara do Joel. Ele e Brício não se desgrudam. Tive a impressão que eram bookmakers, daqueles que trocam segredos de cavalariça. Me enganei. A Víbora, leia-se Joel Silveira, nos contou que está morando numa pensão na Rua das Marrecas, ali pertinho. Gamou na faxineira, logo “espichou a braguilha” na direção dela e teve sua recompensa. Sei não. Se é verdade ou mentira não me interessa: o melhor é que ele batizou a garota de “Miss-Marrecas”. Cafajeste e boa gente, glutão. Dois glutões, ele e o Barão. Só de ouvir o Barão pedir o famoso “talharim al pomidoro” dá vontade de comer a própria gravata. O Brício não, esse é mais de ficar ciscando. Antes de morrer já cultivava essa mania de bordejar sobre as mesas, um passarinho.

Por que ninguém “comete” bondades? Sim, Barão, foi isso mesmo o que eu disse. Por que apenas arquitetam-se maldades, bolam-se golpes e crimes são urdidos na calada da noite?

O Barão não se fez de rogado e soltou alguma piada, da qual – sou obrigado a confessar – não me recordo, agora não.

Enchemos literalmente os esqueletos naquela noite, e brindamos à Miss Marrecas e ao Bussunda que acabava de chegar à mesa, meio sem jeito.

No dia seguinte, acordei no largo de São Francisco da Prainha. Ouvi um batuque vindo na direção da Pedra do Sal misturado com o barulho do mar que arrebentava logo ali nas muradas do cais – o problema é que ambos, o mar e o cais, haviam sido removidos de lá há pelo menos cem anos. A gente não deve contrariar as ressacas, venham de onde vier. Não sei como, mas consegui ir do largo da Prainha até a Pedra do Sal, cheguei são e salvo na pensão da Tia Ciata que me recebeu de braços abertos. Vejam só; da Prainha até a pensão é perto, mas é longe. Sobretudo pruma alma vendida, trôpega e premida como esta que vos escreve e que era mais carne do que qualquer outra coisa depois do porre da noite anterior – e foi assim, com a alma sobre as costas, que subi os degraus escorregadios da Pedra do Sal e cheguei na pensão supracitada.

Os batuques que ouvi no largo da Prainha vinham de uma roda de Jongo, da qual Tia Ciata era madrinha. Podia estar louco, mas não surdo. “Os negros – ela me disse: – estão faceiros, mas nem eles e nem Deus não sabem, ainda não, que são brasileiros”.

Ela estava certa. Naquele 1889, o Cristo ainda não havia fixado residência no alto do Corcovado. Pelo sim, pelo não, resolvi pedir mais uma dose pra garantir guarida. A noite ia ser longa, e prometia.

Todavia o mar era o mesmo, eu lembro, o mar que há cem anos, aterrado e removido de si, rebentava das muradas do largo da Prainha, era o mesmo que ia e vinha e investia suas tempestades contra os meus miolos encharcados de álcool e assombrações. Também me recordo – vagamente – das coordenadas de Tia Ciata, ela me disse que uma louca estaria à minha espera no Morro do Livramento, e que eu deveria entregar o bagulho na quinta-feira sem falta.

As promessas da noite foram cumpridas. Acordei em Ipanema, mais ou menos entre fevereiro de 1985 e maio de 2011. O dia havia nascido feliz e eu tinha pouco tempo para aproveitá-lo – mas antes eu teria que me livrar daquele maldito bagulho de uma vez por todas.

4 de dezembro de 2008

Arquivo: A história secreta do Comando Vermelho*

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(Esse conto foi publicado no Bestiário. Foi escrito em 2003 ou 2004. Reproduzo aqui porque daqui a pouco esse site também some do mapa. Tenho esse conto em arquivo, mas é sempre mais seguro guardar na internet. Muita gente acreditou que o conto fosse real. O personagem principal é um sujeito de extrema-direita, e um site fascista publicou o conto e deixou no ar por muito tempo, crente que estava abafando... Fui obrigado a inserir um asterisco e um comentário ao final, para evitar mais confusão)



Reza a lenda que a origem da organização criminosa Comando Vermelho deu-se no presídio da Ilha Grande, ao final da década de 30, quando bandidos comuns e presos políticos uniram-se na desgraça para lutar pelos direitos dos presidiários.

Após a decretação do Estado Novo, em 1937, Getúlio Vargas amealhou poderes ditatoriais e deflagrou uma violenta campanha anti-comunista, atendendo o desejo das classes dominantes e respondendo ao impressionante crescimento do partido comunista brasileiro, o qual por sua vez vinha recebendo uma enorme quantidade de recursos de sua matriz em Moscou.

O resultado dessa campanha foi a prisão em massa de políticos, jornalistas, intelectuais, artistas, considerados comunistas ou simpatizantes. Foram mais de cinco mil detenções, hoje consideradas por experientes analistas jurídicos e historiadores como totalmente inconstitucional e anti-democráticas. Entretanto, como se diz, a cada época, sua lei. E atualmente, aprendemos a ver as qualidades e os feitos de Vargas acima de suas escorregadelas totalitárias: afinal, não foi ele o artífice e líder da revolução industrial brasileira, que libertou o país de seu triste destino colonial de simples exportador de matéria-prima e o colocou nos trilhos do desenvolvimento e da modernidade?

Enfim, durante o Estado Novo, as prisões federais ficaram sobrecarregadas de presos políticos, os quais, inevitavelmente, puseram-se em contato com os demais inquilinos compulsórios daqueles recintos. E assim dessa associação teria nascido o Comando Vermelho, sendo que a cor do nome em questão teve sua razão de ser na cor histórica dos movimentos anti-capitalistas.

Até onde minhas pesquisas me levaram, essa história está só em parte correta.

Como toda a comunidade acadêmica já está ciente, fui contratado pelo governo russo, em 2002, muito depois da queda do regime comunista, a realizar uma série de pesquisas sobre os “investimentos” políticos que Stálin, e depois Kruchev, fizeram nos países latino-americanos. Algumas descobertas que fiz foram realmente surpreendentes.

Não pensava em divulgá-las no Brasil, pois o governo russo me contratou com um objetivo puramente científico e acadêmico para seu próprio país. Aliás, cumpre dizer que fui tratado com um respeito e uma dignidade que nunca encontrei aqui. Entretanto, em conversa com meu amigo Olavo de Carvalho, esse colosso da filosofia, marginalizado pelos comunistas enrustidos da academia tupiniquim, fui convencido de que deveria sim publicar no Brasil um livro sobre o assunto, visto que as descobertas que fiz revelam o quão perigosa foi, de fato, a infiltração comunista por essas plagas.

A opinião pública brasileira, contudo, ainda presa à dogmas socialistas, não tem idéia sobre como o comunismo continua a ser um terrível perigo para as instituições democráticas nacionais. Sorte dela que existem pessoas como eu e o Olavo de Carvalho, que cumprimos galhardamente o nosso papel de guardiões da democracia e do capitalismo, sempre denunciando e atacando esses medíocres seguidores de Marx, Lênin, Mao, Fidel e Stálin - todas essas figuras que fazem parte do panteão monstruoso e sangrento do comunismo internacional.

Sendo assim, divulgo nesse momento uma das minhas descobertas que fiz junto aos arquivos da extinta KGB (agência de inteligência russa) e do departamento de influência política do partido comunista russo, arquivos esses que me foram cedidos pelo próprio governo russo, o qual hoje, após se libertar do jugo comunista, procura se desvencilhar ao máximo de seu passado sombrio.

O que descobri foi que Stálin autorizou um plano secreto da KGB chamado Tukik Ried, que significa, num esquecido dialeto siberiano nada mais nada menos do que (sentem-se, caros senhores, e respirem fundo) Comando Vermelho.

De acordo com esse plano, todos os presídios do país seriam infiltrados com agentes comunistas, os quais deveriam fazer um trabalho de conversão ideológica dos delinqüentes, de forma a que sua rebeldia criminosa fosse convertida em rebeldia revolucionária (aliás, a diferença entre as duas é tão sutil! Vide o exemplo das Farcs, entre milhares de outras organizações espalhadas pelo mundo).

O plano teria sido iniciado por volta de 1938, após o fracasso de Moscou em realizar um levante comunista no Brasil através das vias “normais”, inclusive dando trinta milhões de dólares para Carlos Prestes e Olga Benário organizarem uma revolução.

Entretanto, por razões de segurança, foi feito um balão de ensaio primeiramente no Rio de Janeiro. Se fosse bem sucedido na cidade - como quase o foi -, os recursos seriam investidos em todas as prisões do país.

O mesmo plano foi aplicado, anos depois, na Colômbia, culminando com a criação das Farcs, e em diversos outros países latinos. Os resultados desastrosos deste plano comunista - como aliás de todos os planos comunistas - estão aí para todos verem.

No caso do Brasil, ou mais especificamente do Rio de Janeiro, o plano só não foi bem sucedido porque os agentes não contavam com o caráter irremediavelmente individualista e capitalistas dos criminosos nacionais. Os poucos que aceitaram incorporar-se às fileiras comunistas e ter aulas de marxismo e revolução, o fizeram apenas para receber os recursos vindos de Moscou e depois fugiram com o dinheiro, as armas e tornaram-se, isso sim é verdade, bandidos bem mais alfabetizados e politizados, mas nem um pouco interessados em sacrificar o mínimo que fosse em prol dos oprimidos.

No próximo artigo, fornecerei mais detalhes desse infame plano dos russos, que tanto ajudou no aumento da criminalidade do Rio de Janeiro. Por enquanto, esse breve introdução serve como advertência à ingênua opinião pública brasileira, que ainda vê com simpatia ou tolerância partidos e figuras políticas de esquerda, por ignorarem o histórico de atrocidades, crimes e corrupção do movimento comunista internacional.



* A história em questão é totalmente ficcional. Não tem conexão nenhuma com a realidade, apenas brinca, sem compromisso, com alguns fatos e personagens reais. Ao ironizar os supostos perigos do comunismo, procura alertar que, historicamente, tem sido o capitalismo o grande vilão que mata milhões de pessoas, de fome, doenças e guerras.

Arquivo: A última cachaça de Arlindo Cavalcanti

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(esse é um conto publicado no Paralelos, nesse link. Publico aqui igualmente para guardar no arquivo.)


Claro que conheci Arlindo Cavalcanti. Tinha uns trinta anos, mais ou menos, magro, cabelos negros, crespos, sempre desalinhados. Olhos vivos, arregalados, e pele morena, quase negra. Costumava vir aqui todos os dias, para tomar um aperitivo antes do almoço, e voltava à noite, para ver o jornal nacional. Dependendo da disposição e da situação financeira, ficava até de madrugada. Seu Luiz não tem hora para fechar o bar, “até o último cliente” é seu lema. Os clientes na verdade não são muitos, a maior parte homens do acampamento que se reúnem para discutir política e contar histórias. Eu moro perto e venho sempre, atrás de uma conversa e de uma cachaça. Estou desempregado, mas minha esposa trabalha na prefeitura e consegue sustentar a casa. Às vezes faço um biscate por aí, principalmente de eletricista ou mecânico. A região é muito pobre e quase não tem gente com segundo grau completo. Coisa boba, consertar um fusível, dar um jeito no motor de um carro velho. Tenho instrução, estudei em São Paulo, tive alguma condição, mas faltou sorte. Fiz de tudo na cidade, fui auxiliar de escritório, office boy, camelô e ator de um grupo mambembe lá da boca do lixo. Tentei ser poeta. Até me endividei e acabei me enrolando com um credor pilantra do brás. Depois que meu pai faleceu, vendi um pequeno imóvel que recebi de herança e comprei um terreno aqui no norte de minas, onde minha mulher tem família e conseguiu logo um emprego. O Arlindo era meu amigo e também quero ver os filhos-da-puta que o mataram na cadeia. Mas acho que o mais importante é pegarem o mandante do crime. E eu já posso lhe adiantar quem foi: Onofre Cavalcanti. Não, não é parente do Arlindo. Onofre é de uma família rica da região. Dizem que é proprietário de mais de vinte fazendas, que somam mais de trinta mil hectares aqui no norte de minas. Você vai fazer uma reportagem? Para onde? Que isso? Saite na internet? Claro que sei o que é internet, mas é que isso ainda não chegou aqui e a gente vai ficando desinformado. Bem, espero que a reportagem ajude a pressionar as autoridades a investigarem o crime. O pessoal do acampamento está desesperado. Arlindo era um grande líder, amado por todos, e diziam que ele se tornaria em pouco tempo o maior líder rural do norte de minas. Uma vez veio um pessoal da televisão entrevistá-lo, mas a gente não viu a reportagem. Acho que era de um canal estrangeiro.

Lembro da última cachaça que ele tomou aqui. Eu estava sozinho, conversando com seu Luiz e bebendo um golinho. Isso foi há uns dois meses, em agosto. O sol rachava a vista e eu vi aquele vulto se aproximando. Só reconheci quando ele entrou no barracão, fugindo do calor. Pediu um copo d’água e logo uma branquinha. Estava com uma expressão séria, preocupada. Demorou para falar, até que me cumprimentou com uma voz estranha “como vai seu Antônio?”. Depois continuou calado, o que nos perturbou. O sertanejo da região é caladão, mas quando entra neste recinto, solta o verbo, principalmente Arlindo, discursador, contador de caso, homem capaz de falar com mais de mil pessoas por mais de hora, sem ajuda de microfone. Como disse, tinha a expressão carregada, angustiada. A cara dele estava até roxa. Tomou outra dose. Olhou para a gente com um olhar meio louco. Aí eu e o seu Luiz ficamos preocupados. Perguntei “aconteceu alguma coisa meu cumpadre?”. Ele não respondeu, apenas me olhou com uns olhos grandes, febris, onde a gente podia ver muita tristeza e revolta. Eu logo desconfiei do que era. O acampamento tinha crescido muito nas últimas duas semanas. De uma hora para outra começou a chegar gente todo dia, principalmente montesclarenses, gente miserável, sem moradia, carregando somente umas tralhas e a roupa do corpo. Em pouco tempo, o acampamento quase duplicou de tamanho. Os fazendeiros, que já estavam ansiosos, ficaram em pânico. A área ocupada do acampamento pertencia a um senhor que morava em Belo Horizonte, mas conforme aumentava o número de gente, as propriedades vizinhas também começaram a ser invadidas pelos barracos de lona e bambu e pelos cultivos de arroz, milho, feijão e mandioca. A gente via os jagunços chegando à cavalo, indo em direção à sede da fazenda de Onofre Cavalcanti, que era uma espécie de líder dos fazendeiros. A tensão estava crescendo demais, isso qualquer um podia ver. Arlindo tomou um gole, me encarou e disse: “Antônio, acho que vou morrer”. Que é isso, bate na madeira, deus te livre, um homem jovem como você!

É sim, Antônio, os homens me ameaçaram de morte se a gente não abandonar o acampamento e você sabe que é impossível voltar atrás. Ainda mais agora que o processo de desapropriação está quase saindo. Mais um pouco e a terra será nossa. Mas eu acho que não vou estar aqui para festejar. Este Onofre é um louco, vive me mandando recados desaforados, me ameaçou várias vezes. Mas agora é sério. Os empregados da fazenda dele ouviram coisas e nos contaram. Eles contrataram matadores em Montes Claros, uns jagunços afamados, que cobram caro mas não deixam o serviço pela metade. Minha mulher está desesperada, quer fugir, mas eu não posso. Essa gente precisa de mim. Se eu tiver que morrer, que seja.

“Porra, Arlindo, você quer se tornar um mártir! Isso está fora de moda!”, gritei. Estava nervoso e, confesso, até com medo. E se os jagunços entrassem no barraco de seu Luiz e nos matassem a todos? Indignei-me. Aqueles pobres não tinham para onde ir. A cidade não oferecia emprego, moradia, nada. Ali eles tinham esperança de ganhar um pedaço de terra para criar galinhas e plantar. Estavam se organizando, montando uma cooperativa para ter acesso aos financiamentos do governo. Tinham improvisado uma escola, onde estudavam crianças e adultos. A merda daquelas terras não eram usadas para porra nenhuma. Os fazendeiros ficavam só especulando, arrendando uns terrenos aqui e ali. No povoado mesmo onde eu moro com minha mulher a maioria dos habitantes não era dono de nada, a não ser uns pedaços de chão seco, imprestáveis. A terra estava toda nas mãos dos Cavalcantis, dos Nogueira e dos Cardoso. A família da minha esposa era uma exceção, tinha um pequeno sítio com um corregozinho, mas queria vender para algum fazendeiro, porque o preço da terra estava muito alto, por causa da especulação que eles estão fazendo. Estão divulgando por aí que a terra aqui é excelente para o cultivo de algodão, convenceram muitos fazendeiros de outros estados a comprarem terra aqui, o que inflacionou o preço da terra. Mas é tudo propaganda, especulação imobiliária. O preço da terra sobe e ninguém consegue mais comprar um chão para plantar e viver. E os poucos que possuem alguma coisa, como a família de minha esposa, se deslumbram com a oportunidade e se desfazem do que tem. Está tudo errado.

“Antônio, queria te pedir uma coisa. Se eu morrer envia esta carta para um amigo meu lá do Rio, está aqui o endereço. Ele é jornalista e vai denunciar o crime no país inteiro. Vão começar a aparecer repórteres para investigar o que está acontecendo por aqui. Só aí é que o processo de desapropriação vai sair do papel”. Ele tomou mais uma cachaça e foi embora. Eram quatro horas da tarde e o sol faíscava com força nas pedrinhas do chão. Não apareceu mais. Ficamos sabendo de sua morte pelos jornais. Foi assim. Pode escrever aí. Foi Onofre Cavalcanti, o fazendeiro, quem mandou matar Arlindo. Engraçado isso, os dois terem o mesmo sobrenome. A mulher dele, do Arlindo, assumiu a liderança do acampamento. Isso aqui agora vai virar um campo de batalha. Anota o endereço do seu saite num pedaço de papel. Qualquer dia eu vou a Montes Claros, lá tem internet e então eu tento encontrar a reportagem. Luiz, bota mais uma aqui pra gente!
//


MIGUEL DO ROSÁRIO


MIGUEL do Rosário nasceu em 1975, no Rio de Janeiro. Está escrevendo o seu primeiro romance, o qual deverá publicar no fim do ano. Foi jornalista especializado em café durante dez anos. Atualmente é editor da revista eletrônica e jornal Arte & Política, além de colunista do site Novae.

29 de novembro de 2008

O balé subaquático dos fischs

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Por Fernando Soares Campos

O jovem Albert Einstein estava sentado numa pedra à beira de um belo lago da Alemanha dos anos 1920. Na mão esquerda, uma vara de pesca; a direita, punho cerrado, sustentava o queixo que insistia em cair diante do cenário hollywoodiano que enchia seus olhos de poesia e a brilhante cabeça de pensamentos relativos à sua existência no Planeta: Quem fui? Quem sou? Donde vim? Súbito! Pronde foi o peixe que fisgue?!

De verdade, ele não havia fisgado coisa alguma, pois o esperto fisch apenas comia pelas beiras, fazendo a linha tremelicar. Pacientemente baixou a vara (de pesca, claro), tocou a ponta no espelho d’água, provocando um daqueles círculos marolados que as crianças provocam nos poços do rio Ipanema, arremessando seixos, apostando quem faz o maior número de toques e torcendo para fazer as marolas atingirem a margem oposta.

Einstein ainda pensou em encerrar a pescaria num dia em que o lago não estava pra pescador, porém decidiu fazer mais uma tentativa. Recolheu a linha, espetou mais uma minhoca no anzol e, com habilidade de pescador escolado nas lidas dos judeus pobres que preferiam pescar a ganhar o peixe através da bolsa-família do governo alemão, arremessou a cobra-cega à própria sorte. Desta vez ficou atento à possível fisgada de um freund-gold, espécie bastante cobiçada pelas loiríssimas mädchens da época.

Desligado que nem eu, Einstein novamente se distraiu com seu esporte predileto: meditar tranqüilo, tranqüilo; daquela vez, tentando se decidir sobre duas propostas de emprego: uma oferecida pelo avô de Herr Bornhausen; outra, pelo pai de seu infanto-amigo Oscar Wind, filho de Gelei Müller, judeu que nem ele, mas ainda de calças curtas.

A empresa dos Bornhausen era uma das maiores da Europa no ramo de emprestar com uma mão e receber com a cabeça, tronco e membros eretos. Enquanto a microempresa do pai de seu amiguinho Oscar Wind, fabricante de cola de sapateiro, começava a dar prejuízo, em vista da concorrência desleal; pois, quando há lealdade na concorrência, ninguém pode duvidar, todos saem ganhando; basta dar uma espiadinha no Mercado de Carne de Santana do Ipanema e região. Outro dia eu conto mais sobre lealdade de concorrentes; por enquanto, vamos ao que nos interessa.

Enquanto Einstein ponderava as vantagens e desvantagens de cada empresa, lá no fundo do lago um lambari-dourado, que fazia intercâmbio cultural em águas germânicas, encontrou-se com um deutsch colega e decidiram jogar conversa fora no Kerr Riba Bar, ambiente aconchegante a bordo de uma nau flagrada pelos alemães em missão de espionagem, durante a Primeira Grande Guerra.

Depois de brindarem as tulipas de chop e beliscarem os pasteis de camarão, o lambari-dourado puxou uma prosa versátil.

Perguntou ao deutsch companheiro de malocas subaquáticas:

— O que seria melhor: ser cabeça de sardinha ou rabo de tubarão?

— Depende — falou, mas não pensou.

Se tivesse pensado, o deutsch não teria vacilado diante de um reles latino metido a esperto.

— Depende do quê?

— Sei lá! Talvez das águas por onde navegue, das ilhas por onde aporte, das jacentes por onde ande...

O freund-gold degustou o chop salgado, cofiou o bigode e se recostou na antepara. Ficou a espiar por uma escotilha de boreste. Avistou um cardume de fisch que redemoinhava num fantástico balé submarino. Entre eles, eis que surge um tubarão martelo a martelar as águas claras do mar.

Corta para Einstein na posição de pescar. Ponta da vara apontando para o horizonte, linha em oblíqua descensão, lá na ponta um peixão se debatendo, estrebuchando. O bicho não queria subir, resistia ao tranco do pescador.

Agora veja: enquanto o robalo se debatia no tranco, a sua parceira robala provocava inveja a um cardume de sardinha, aguardando sua vez de ser fisgada; pois se sentia o máximo diante da possibilidade de vir a ser comida pelo notável cientista, àquela altura do campeonato já com o Nobel na ponta da linha.

Lembram daquela brincadeira de telefone: uma lata numa ponta e outra lá tinha na extremidade oposta. Pois bem, foi aí que o robalo que subia passou pela escotilha e viu os amigos no maior papo no Kerr Riba Bar. Quase teve um troço, só de imaginar que, poucos minutos antes o lambari-dourado o havia convidado para aquela confraternização, e ele, num tremendo domingo de pesca, resolve passear pelos bosques arrecifados, de bobeira, tendo a tiracolo sua robala carnavalesca.

Agora imagine o sufoco: o robalo fisgado subindo, deixando lá embaixo a rolala sonhadora...

Mas, como já foi dito, não há mal que não traga um bem, mesmo que seja em forma de outro mal. O robalo roubado de sua sorte era mudo como todos os robalos, mas não era surdo como quase todas as cobras. Havia feito um curso de verão através do intercâmbio da Universia Brasil e, para sua sorte, o curso era de sinais labiais. Veja o destino como é cruel: o sujeito estudou a vida toda, porém o que aprendeu só iria lhe servir no corredor da morte.

Einstein, ainda meditativo, portanto indeciso sobre a escolha da empresa para a qual trabalharia, sentiu finalmente a linha puxando e a vara tremelicando... Tremelicando, mas tremelicando de forma especialíssima, em Morse. E o que dizia a vara, ou melhor, o que recebia através da linha. Nada mais, nada menos que a leitura labial que o robalo condenado fazia sobre o papo dos amigos no Kerr Riba Bar. Qual seja:

— Se eu fosse você, aceitaria ser cabeça de sardinha; entretanto, considerando que eu sou eu, e Nicuri é o diabo solto na capoeira, prefiro ser rabo de tubarão.

A vara de Einstein tremelicou, tremelicou, até que, tremelicadamente ereta, decidiu-se:

Mar vermelho sob céu azul tanto collori de violeta quanto de azul-turquesa depende da intensidade dos ingredientes aplicados.

É relativo, né?

Einstein não colocou a viola no saco sem antes dedilhar os acordes finais do réquiem 639.

Tempos depois.... Cardume feliz! Navegando por mares nunca dantes navegados.

5 de maio de 2008

Comunhão

1 comentário

Virei-me para o lado e observei-a melhor. Mudei de idéia quanto a fechar a conta e ir para casa. Ela devia ter uns trinta e poucos anos e seus olhos expeliam energia suficiente para abastecer uma fábrica. A sonolência que me invadia após quatro doses desaparecera e agora eu procurava um pretexto para puxar assunto. Depois de matutar profundamente, decidi oferecer-lhe um drink. Pareceu-me a melhor coisa a fazer. Chamei o garçom. Antes que fizesse o pedido, contudo, ocorreu uma cena.

A bela balzaquiana ergueu-se, abruptamente, do banco alto em que estava sentada, saltou para o chão e encaminhou-se para a saída. Antes que a porta se fechasse, vi que ela empunhava o celular e tinha um expressão nervosa.

Provavelmente, pensei, não quer que a pessoa do outro lado da linha descubra que se encontra num bar. Bom sinal. Achei que fosse um bom sinal. Ela voltou transtornada. Sentou-se no banquinho equilibrando-se com dificuldade. Bebericou a vodka com gelo e começou a chorar.

No balcão do hotel onde estávamos, na Ilha da Comandatuba, onde eu participava de um evento de telefonia celular, só havia três pessoas. Eu, a mulher e um velho bêbado no último banco.

Levantei-me rapidamente e, como bom cavalheiro, aproximei-me dela e perguntei com toda a suavidade possível:

Com licença... (engasguei-me alguns segundos pensando se deveria chamá-la de senhora, que era muito pesado e formal; senhorita, que soava ridículo; ou moça, que pareceu-me vulgar). Decidi chamá-la de lady, que tinha algo de brincalhão, sem deixar de ser elegante:

- Lady, com licença.

Ela voltou para mim aqueles lindos olhos castanhos, molhados de lágrimas e senti uma ponta de hostilidade. Tive impulso de retornar a meu posto, mas algo me segurou. Insisti:

- Com licença, lady. Está com algum problema?

Dessa vez, ela não se moveu. Permaneceu virada para o balcão, dando-me as costas. Volta para seu lugar, eu disse a mim mesmo, ela não quer conversa. Respeita sua privacidade e dor. No fundo, você quer se aproveitar de sua fragilidade emocional para seduzi-la, admiti em silêncio, abaixando a cabeça e iniciando meu retorno.

- Não é nada não.

Parei, subitamente esperançoso, e olhei para a moça, como um vira-lata carente que escutasse um assovio amigável. Isso que eu sou, pensei na hora. Um vira-lata carente. Um funcionário meia-boca de uma telefônica participando de um evento chato num balneário paradisíaco da Bahia.

Desculpa, não quis ser intrometido. É que eu a vi chorando e pensei... bem, pensei que pudesse ajudar em alguma coisa.

- Obrigada por se preocupar. Não é nada.

Ela exibia agora um sorriso fraco, trêmulo, mas um sorriso, e imaginei que isso já era uma pequena vitória. Sorri também e perguntei se aceitava um drink. Ela hesitou alguns segundos, observando-me levemente desconfiada. Empertiguei-me, fazendo a cara mais séria e confiável que pude.

- Tudo bem. Aceito. Só um. Já estou meio tonta.

Ela ficou triste novamente, o que me desconcertou. Sentei-me a seu lado e não falei nada. Ninguém falou nada por bons minutos. O garçom trouxe o drink, ela deu algumas bicadas, em silêncio, e... prorrompeu num choro terrível, convulsivo. Assustei-me. Era um choro estranho, trágico. Continuei em silêncio, perplexo.

- Meu filho! Meu filho!

Ela murmurou baixinho, mas perfeitamente audível. Entendi que alguma coisa grave tinha acontecido a seu filho e estremeci, contaminado por seu desespero. Bebi uns goles de uísque e arrisquei uma outra abordagem.

- Desculpa insistir, mas posso ajudar em alguma coisa?

Ela chorava e murmurava: meu filho, meu filho. Subitamente, inclinou em minha direção e abraçou-me. Permaneceu chorando em meu ombro durante um bom tempo. Eu havia me esquecido do uísque e também chorava.

26 de novembro de 2007

Resenha apocalíptica

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Ainda é cedo, mas o céu já escureceu, devido ao desequilíbrio na atmosfera causado pelas bombas. Precipitando-se à previsão de quase todos os analistas, os ataques militares de ambos os lados tornaram letra morta os esforços diplomáticos que vinham sendo feitos. Em Londres, Madrid, São Paulo, Nova York, milhões se manifestaram contra o início dos conflitos, depois contra sua continuação, sem resultado. Apesar de poucos colunistas e governantes apoiarem a “solução final”, a opinião deles, como sempre, vale mais que a de todos.

Quando me pediram a resenha, há duas semanas, nunca imaginaria ser minha derradeira contribuição para a revista. Eu deveria resenhar, neste espaço, o novo romance de Daniel Urbes, peruano radicado em Miami. O livro é uma porcaria, um coquetel oportunista que mescla pseudo-preocupações sociais com charlatanismo reacionário, em linguagem pretensiosamente difícil, como de praxe, para intimidar leigos e confundir críticos.

À luz do holocausto que se avizinha, medito sobre o unilateralismo ideológico que monopolizou nossas mídias, causando inexorável empobrecimento das artes e da crítica. Claro, alguns intelectuais nunca se sentiram tão confiantes, em face do vigor descomunal dos grupos que os apóiam. Sabem de que lado estão e usufruem da sensação de invencibilidade que o poder lhes confere. Essa confiança excessiva, porém, ofusca-lhes a intuição de que necessitam para avaliar criticamente uma obra de arte. O irônico é que, na ânsia de criticar o ideologismo, acabam por se tornar boçalmente ideológicos.

Um romance como o de Urbes, por exemplo, incensado por resenhistas de meio-vintém (literalmente, visto que ganham duzentos reais por texto publicado), explica muita coisa sobre nossa situação. Urbes esteve no Rio de Janeiro há dois meses, por ocasião da Bienal do Livro. Participou de debates e deu entrevistas. Pareceu-me um rapaz articulado e inteligente. Seu livro, todavia, é um amontoado de clichês entediantes e malabarismos modernosos. Estou certo de que a decadência da qual falei decorre da maneira como a cultura é patrocinada e distribuída, favorecendo toda espécie de pilantra com talento para relações públicas.

Merda! Logo agora que tomei coragem para dizer o que eu penso, Deus resolve exterminar o mundo como quem espreme uma espinha. Não foi fácil pra mim livrar-me das toneladas de preconceitos e temores que impõem rígida autocensura aos críticos. Vivenciei terríveis escaramuças literárias, que me deixaram cicatrizes e inimigos. Alguns me consideram reacionário, em virtude de minha ojeriza aos vanguardismos de salão. Acredito, todavia, que uma visão conservadora da arte, hoje, é um posicionamento progressista, muito embora o que eu entenda como conservador esteja a anos-luz do conservadorismo político e moral que domina nossas mídias. A meu ver, a linguagem hermética de Urbes não passa de pedantismo vulgar e incoerência conceitual. Não tem poesia, vigor, autenticidade. Pertence à categoria pop-cabeça, lixo obrigatório (por razões que ainda não compreendi) em toda grande editora, apesar do pouco retorno financeiro que lhe proporciona.

Na verdade, existe um feirão que compra estéticas de vanguarda, como a de Urbes e outros, para revendê-las após um eficaz trabalho de marketing. O problema não está na compra em si, já que o capitalismo compra também coisas boas. O problema está na fraude, no valor imposto arbitrariamente, em virtude da crítica ter se tornado vulnerável, intelectual e materialmente, ao capricho de editoras e jornais (o que não seria negativo, se estes não fossem tão caretas), cumprindo a função subalterna de chancelar escolhas feitas previamente.

Enquanto escrevo, a tv exibe imagens de grandes explosões em Los Angeles. Os repórteres não sabem informar se os mísseis vieram da China, Rússia ou Irã, o núcleo duro do novo “eixo do mal”. Uma autoridade informa que hackers chineses provocaram pane nos sistemas elétricos europeus. Parece absurdo falar de literatura num momento assim, mas serve para evitar o pânico. Talvez exista um quê de heroísmo em pensar literatura às vésperas do fim dos dias.

A eclosão da guerra não foi uma surpresa total. A tensão vinha aumentando há tempos. Depois que a economia chinesa superou a do eixo Europa-EUA, toda xenofobia e racismo enrustidos no primeiro mundo vieram à tôna com violência inaudita. Imigrantes orientais foram brutalmente discriminados nas grandes cidades ocidentais e logo o mesmo começou a ocorrer no Oriente. O fator ideológico influenciou o crescimento das hostilidades. A China, depois de completar a transferência, para si, de todas as tecnologias ocidentais, interrompeu o processo de abertura e deu início um firme e acelerado recuo ao socialismo fechado de Mao-Tsé-Tung, recriando a pesada atmosfera da guerra fria.

Diferentemente do que pensam a maioria dos estudiosos e artistas, incluindo os que mais respeito e admiro, acho que a arte teve sim culpa em deixar as coisas chegarem a esse ponto. O fato de ter culpa, no entanto, não a diminui estetica ou moralmente. A função da arte não é salvar a humanidade. Talvez sua missão seja, ao contrário, destruí-la. Não tem culpa, tem responsabilidade.

Entretanto, ao contrário do que minha postura pode sugerir a alguns, nunca acreditei em arte engajada. Ela oculta uma vontade de poder que, embora não seja negativa em si, revela profundos preconceitos de classe (de ricos contra pobres ou pobres contra ricos), enraizados no íntimo das pessoas mais bem intencionadas, além da tendência a uma simplificação grosseira e convencional da complexidade humana. Creio, no entanto, que a arte poderia ter ajudado a evitar a catástrofe, sim, dando conta dos problemas existenciais que sempre constituíram a razão de todo conflito e, em última instância, de toda guerra. Algumas obras-primas poderiam ter contribuído para mudar a história.

Os pós-modernos, esses eu classifico, decididamente, como principais responsáveis pela degradação cultural que nos levou à guerra. Não os artistas (existiram figuras extraordinárias entre eles). São responsáveis, sobretudo, os curadores, que, ao selecionarem quase sempre os piores dentre os piores, disperdiçaram oportunidades históricas de produzir questionamentos efetivos aos rumos da humanidade. E, naturalmente, os mercadores de arte, que inflacionaram ou deflacionaram as obras contemporâneas de acordo com o marketing acadêmico & caduco da hora. Imiscuindo-se em todos os segmentos da arte - produção, crítica e negócios, o lado escuro do pós-modernismo deixou um cenário de terra arrasada, aniquilando, por onde passou, qualquer traço de humanismo e sinceridade.

Eu, por exemplo, varei noites discutindo com pós-modernos sarcásticos, assumidamente neo-liberais, embora sem noção alguma de política, no sentido humanista do termo - apenas conscientes que o sistema sempre favorece quem segue suas regras, inclusive quando a regra é ser subversivo, ou fingir-se tal. Assim surgiu um exército de pilantras engajados à esquerda e cínicos vanguardistas à direita, com alguns espertinhos agradáveis ao centro.

O resultado foi esse: Deus espremendo a espinha do mundo para eliminar o pus, a humanidade. Faça-o Deus! Destrua-nos! Não deixe vestígios! Arte, ciência, filosofia, moral, religiões, que sejam sugadas, como cocaína, pelas narinas divinas, convertendo-se em trinta minutos de excitação olímpica e melecas gigantes. O que me consola ao pensar no infinito vazio galáctico que nos espera, é imaginar livros como os de Daniel Urbes incinerados na fornalha implacável deste odioso e precoce apocalipse – não legando, aos seres que herdarão o planeta, mais esse testemunho de nossa mediocridade.

15 de julho de 2007

Compilando os contos

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Estou iniciando uma compilaçao dos contos publicados na net. Vou tentar juntar tudo e linkar por aqui, neste blog renovado. Eis alguns.

Orgia no baile funk
A historia secreta do Comando Vermelho
Marginal Blues 1980
O diabo nao bebe cerveja
O suicidio do governador Antonio Menino
Ecos da Palestina
O menino
O relatorio
Uma apariçao inusitada
O segredo do Homem
Ainda não tenho saudades de Katia
Crise de inspiração
O sucesso bate à porta
Filosofia do café solúvel
Estupro na Joaquim Silva
Sperata
O esfomeado louco de Paris
Os fins dessa tristeza exilada
O leitor comum
Regina Duarte quis casar comigo



Tem muito muito mais. Mas estou um pouco cansado agora. Vou alimentando esse post aos poucos.