29 de maio de 2008

A hora e a vez dos asnos

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Asinus in cathedra, diziam os romanos. Asno na cátedra, querendo ensinar os outros. É isso que me vem à mente ao ler um artigo de hoje de Demétrio Magnoli. Se o texto, todavia, se mantivesse apenas no diapasão do previsível, do medíocre e do tendencioso, tudo bem. Todos os textos de Magnoli são assim. Basta ver que ele não teme usar clichês como chamar Chávez de caudilho, enquanto Uribe, que está sendo investigado no Congresso colombiano por compra de votos (para reeleger-se pela terceira vez!), é tratado com respeito. Uma pincelada de "aparelho petista" aqui, outra de contaminação ideológica acolá, bastante Chávez em toda parte, e pronto: tem-se uma mercadoria embaladinha para vender aos jornalões. Não importa a falta de sentido, a incoerência, a associação destrambelhada de idéias. Alinhava-se meia dúzia de clichês estúpidos e tem-se um belo produto para faturar trezentos ou quatrocentos reais e garantir prestígio junto aos "capos".

O problema é que o texto vai além. Trata-se de um libelo contra a Unasul, contra a esquerda de forma geral - tratada com uma condescendência ofensiva que somente um asno como Magnoli poderia fazê-lo - enfim, contra os próprios povos sul-americanos, representados por todos os presidentes da América do Sul, eleitos democraticamente.

É uma obra-prima de incoerência, porque não acusa o governo pelo que fez, mas pelo que não fez. Celso Amorim, por exemplo, diz Magnoli, "rebelou-se" a dar status político às Farc. O que seria motivo de elogios (na ótica de Magnoli) inverte-se na língua venenosa do historiador de aluguel. Isso porque haveria "tensões ideológicas" dentro do governo. Ou seja, um ministro de Estado não pratica mais política de Estado: um ministro "rebela-se". Magnoli, não satisfeito em querer controlar as ações do governo, pretende também garrotear seus pensamentos, criticando a tensão política e ideológica nas entranhas oficiais. Quer um governo sem tensão interna, um governo apático, exangue, morto.

O texto de Magnoli, do começo ao fim, assemelha-se ao latido rouco de um cão desdentado. Nâo apenas aceita passivamente as denúncias de ligação de Chávez com as Farcs, feitas pelo seu arqui-inimigo Uribe, como nelas embasa seu raciocínio. É como alguém que, interessado em traçar um perfil do torcedor rubro-negro, o faça com base em depoimentos de um vascaíno.

Leiam apenas este parágrafo, que pérola:

"Desde Rio Branco a política externa brasileira adquiriu um perfil de política de Estado, elevando-se quase sempre acima do jogo político doméstico. No governo Lula, contudo, a pressão crescente dos ideólogos ameaça a paliçada que protege o interesse nacional. Em razão dos laços estreitos que ligam o PT ao castrismo e da emergência do chavismo, a ofensiva ideológica tem intensidade singular no domínio crucial da política para a América do Sul. O espectro da falência das Farc destruiu um equilíbrio precário no núcleo decisório da política externa brasileira."

Reparem na última frase, em negrito. É uma tirada absolutamente esquizóide. Qual o mais rasteiro interesse que a política externa brasileira teria em dar sobrevida às Farc? Qualquer análise superficial indica facilmente que a existência das Farc só interessa a Uribe, por razões óbvias: elas lhe rendem votos, financiamentos paralelos (via paramilitares) e subsídios de Washington. Ideologicamente, as Farc representam um passado e uma escolha que a esquerda moderna latino-americana, democrática e internacionalista, luta para deletar. A existência das Farc, decididamente, não interessa à esquerda.

Os latinos deviam ter uma frase mais elegante para o que quero dizer, mas como meu latim ainda é incipiente, uso uma expressão brasileira bastante chula, pela qual me desculpo: Magnoli, vai cagar no mato!

24 de maio de 2008

Árbitro dos suicidas (segunda versão)

nas manhãs mal acordadas
por ressaca & futilidades
nas horas de lucidez
e outros luciferinos estados
de consciência
analiso-me
e arranco dores
como quem caça
pombos na rua

nem dou valor às condecorações
e o lento fracasso
dos poetas desfibrados
ou liquefeitos (como eu)
em cachaça

sofro, simplesmente,
sem poesia,
ou adornos insones
nesta manhã tensa
de presságios esmaecidos

será isso, afinal,
uma vingança?

a vida e seus títulos
museu de sucessos
eterno rosário
das compensadoras glórias
que aplacarão a dor
e o remorso inexplicável
de viver, amar, desejar
a felicidade
e temer o câncer
dos sonhos,
da juventude
e dos pretextos
- derrubados
um a um, dominó
de filhos mortos

talvez as guerras
íntimas e secretas
não sejam tão mesquinhas
como aparentam
à primeira vista

talvez estejam em jogo
dólares morais, mercadorias
de pudor
e ódio,
fomes antigas
e duradouras
como baratas

a verdade, porém, pode estar
no rim dos pensadores
ou na luz baça
das estrelas

de maneira que minha solidão
e perplexidade
- duas faces
da mesma
tola independência -
passarão
despercebidas

16 de maio de 2008

Manhã à Janela, poema de T.S.Eliot





Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

(Tradução: Ivan Junqueira)

*

MORNING AT THE WINDOW

They are rattling breakfast plates in basement kitchens,
And along the trampled edges of the street
I am aware of the damp souls of housemaids
Sprouting despondently at area gates.

The brown waves of fog toss up to me
Twisted faces from the bottom of the street,
And tear from a passer-by with muddy skirts
An aimless smile that hovers in the air
And vanishes along the level of the roofs.

T.S. Eliot (1888-1965)

14 de maio de 2008

Candido e o arroz

Sei que parece idiota ser otimista o tempo todo, mas a gente precisa, no mínimo, olhar as situações sob ângulos diversos. Se a imprensa apenas foca no lado negativo, meu impulso é tentar avaliar sob outra perspectiva - no caso, positiva. A questão da alta do preço dos alimentos, por exemplo. Os jornais estão dando muita ênfase no preço do arroz. Entrevistam pessoas nos supermercados que, obviamente, protestam contra o fato. No entanto, matutei alguns argumentos interessantes que mostram um outro lado da coisa e gostaria de compartilhar com vocês.

Em primeiro lugar, o arroz é o alimento mais disperdiçado no Brasil. Qualquer um que come em restaurantes, populares ou não, observa que a travessa de arroz contém, na maioria das vezes, uma quantidade superior ao que um ser humano pode ingerir. Nas casas, o arroz é sempre feito em grandes quantidades, sendo sempre o produto que mais sobra e é jogado fora. Não é por outro motivo que instituiu-se a tradição de jogar arroz sobre noivos e surgiu a expressão "arroz de festa".

O arroz, no Brasil, sempre foi barato demais. Claro, o problema é que sempre houve gente tão pobre que não tinha dinheiro nem para o arroz. Mas o problema da alimentação no Brasil, há tempos, é uma questão de proteína e não de carboidratos. A prova é a obesidade crescente da população brasileira nos últimos anos.

É preciso considerar ainda a crise crônica, terrível, da agricultura familiar, que se concentra, basicamente, em produzir alimentos. Tirando o café, cuja tradição e características permitem a produção familiar, os grandes produtos agrícolas para exportação, como soja, algodão, milho, cana-de-açúcar e laranja, exigem capitais e tecnologia que praticamente vetam a produção familiar, a qual fica restrita aos produtos alimentícios, setor no qual ela contribui com mais de dois terços da oferta brasileira.

A agricultura familiar, portanto, é fundamental para a segurança alimentar no país. Emprega milhões de pessoas e ajuda a distribuir renda. Os preços agrícolas extremamente baixos, todavia, têm levado os agricultores familiares a uma situação de extrema penúria. Nos países ricos, esse setor é fortemente subsidiado. No Brasil, não. A alta dos preços dos alimentos, portanto, tem esse aspecto positivo, de injetar renda no campo, particularmente na agricultura familiar, oxigenando-a e permitindo que ela possa se modernizar. Sobretudo, permitirá ao agricultura familiar ter uma vida um pouco melhor. Quebra-se assim o ciclo crudelíssimo, comum à história brasileira, de financiarmos a melhora econômica dos centros urbanos com a miséria ascendente das áreas rurais.

O brasileiro pode, muito bem, suportar uma relativa e controlada valorização dos alimentos, desde que a sua renda suba ainda mais, o que permitirá um ganho duplo ao país. Considerando que o Brasil é o segundo maior produtor agrícola do mundo, o fortalecimento da agricultura familiar permitirá que ela ganhe escala, organize-se em cooperativas e possa ganhar o mundo. Os preços agrícolas têm sido deprimidos artificialmente há décadas, por conta dos subsídios cada vez maiores dados por governos de países ricos. Uma política que se revelou catastrófica, pois impediu o aumento da produção sobretudo da África, continente com enorme potencial agrícola, em virtude de seu clima, mão-de-obra e terra disponíveis e a ausência de alternativas econômicas.

A alta do preço dos produtos agrícolas, embora possa trazer mau estar econômico passageiro, principalmente às classes mais baixas, representa uma injeção de ânimo nas regiões agrícolas brasileiras, notadamente nas dedicadas à agricultura familiar. Cândido, o otimista personagem de Voltaire, era realmente muito ridículo. Mas se o famoso satírico francês, por um artifício fantástico de viagem no tempo, lesse as colunas de Miriam Leitão, seguramente inventaria um outro personagem ainda mais burlesco...

13 de maio de 2008

Participem do debate sobre a blogosfera brasileira

Prezados leitores, quero agradecer a participação de vocês neste debate que estou promovendo sobre a importância da blogosfera brasileira. Como já disse, estou escrevendo um artigo para uma revista sobre o tema, e conto com a colaboração de todos. Usarei o mesmo tema para minha monografia de finalização do curso de Comunicação Social. Portanto, o debate não se esgotará após a entrega do referido artigo. Criei um Livro de Visitas para que o debate possa prosseguir de forma mais intensa. O link para o livro ficará sempre aí ao lado, na coluna da direita, logo acima da imagem. Basta clicar em Entrar e participar. Para ver os comentários já escritos, incluindo o seu, clique em Ler. Se puderem, respondam também as enquetes aí ao lado.

Apanhado dos meus últimos posts

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Pesquisa sobre a blogosfera brasileira
O paradoxo Brasil e suas soluções
Poema
A maconha estragada de Merval Pereira
Moeda forte beneficia inclusão digital
Investment Grade X Socialismo

12 de maio de 2008

Pesquisa sobre a blogosfera brasileira

3 comentarios

Prezados, estou preparando um longo artigo para uma revista. O tema é.. a importância, o tamanho e a influência da blogosfera no Brasil. O prazo de entrega é até o dia 30 de maio. Já iniciei uma série de pesquisas e peço a colaboração de todos neste trabalho, através de comentários, etc. O link para meu bloco de notas, onde copio artigos e documentos relativos a blogosfera é este. Seria legal também que vocês respondessem aos questionários aí ao lado.

11 de maio de 2008

O paradoxo Brasil e suas soluções

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Uma das lições que se tira ao ler Wanderley Guilherme dos Santos, autor de Paradoxo de Rousseau, é que extrapola-se a dicotomia algo enfadonha entre socialismo versus capitalismo ou direita versus esquerda. Santos resgata autores, teorias e contextos históricos que permitem pensar a política numa dimensão maior, como se subíssemos ao topo de uma montanha e pudéssemos visualizar, lá de cima, os conflitos ideológicos e jurídicos que deram forma às democracias modernas.

Chamou-me a atenção, especialmente, a observação de Santos sobre o caráter biológico da política. Trata-se de um conceito muito sólido e que ajuda a explicar porque determinados aspectos das sociedades são tão firmes. Santos observa que não há razão para desconectar a história das civilizações do progresso natural de todo ser vivo. "A demiurgia evolucionária" ou o caráter evolucionista que converteu a ameba num macaco seriam os mesmos que levaram os homens a organizarem-se em sistemas democráticos de governo.

Em Paradoxo de Rousseau, Santos volta a um tema que lhe é caro. Dismistificar os problemas políticos brasileiros. "Julgam-se, diz ele, às vezes com excessivo rigor estas instituições nacionais na suposição de que não sejam assim no resto do mundo ou, ainda, segundo uma concepção idealizada de como deviam funcionar." Em diversos livros, Santos traz dados de outras nações e outras épocas para mostrar que a problemática brasileira é uma problemática comum à qualquer democracia. No entanto, analisando-se a realidade política brasileira em profundidade, observa-se que há um avanço acelerado das condições democráticas.

Esse avanço, todavia, não deve ser confundido com melhora das condições sociais. Santos mostra que as democracias não foram criadas, em essência, para sanar problemas econômicos ou sociais. A razão de ser da democracia é uma questão essencialmente política que, por sua vez, liga-se ao milenar e dilacerante dilema entre liberdade individual e interesse coletivo.

Aí voltamos à questão ideológica. Santos mostra que é possível fazer o debate ideológico num diapasão bem mais elevado, erudito e científico do que a rasteira (embora igualmente importante) discussão partidária. O debate político não foi inaugurado por Marx, nem pelo advento do socialismo, mas já era objeto de controvérsias desde os tempos de Sólon. Como conciliar interesses privados e coletivos, por exemplo?

O paradoxo de Rousseau surge nesse momento: "o que cada cidadão deseja como soberano (o governo de que é elemento constitutivo) - a saber, impostos com que financiar a produção de bens públicos, redistribuição de renda com o objetivo de minimizar a desigualdade etc. - esse mesmo cidadão repudia como súdito, pois, nesta capacidade, deseja pagar o mínimo de impostos, desaprova egoísticamente ver sua renda diminuída em benefício de quem quer que seja etc. E o que aspira como súdito - subsídios especiais, isenções tributárias etc. - é para ele inaceitável, em sua capacidade de soberano, como programa de governo universalista."

Temos aí uma descrição, em linguagem científica, do gérmen da luta de classes, a qual, no entanto, é descrita sem mocinhos ou bandidos, sem julgamento moral, mas como paradoxo inerente aos pactos sociais democráticos.

A evolução política dos países hoje ricos, analisa Santos, não deve servir de referência para países em desenvolvimento, por causa do contexto totalmente diferente em que aquela se deu. No entanto, é interessante notar que aqueles países evoluiram espetacularmente justamente porque não se prenderam a manuais econômicos, mas adaptaram-se politicamente às contingências econômicas e sociais dos novos tempos. Com isso, fica a lição para os que pretendem possuir fórmulas mágicas para o Brasil ou protestar que governos não tenham "projetos". Por mais que a planificação possa ter utilidade, a dinâmica das economias é tão intensa e mutável que o melhor governo é justamente aquele que consegue tomar decisões de forma criativa, adaptando-se as circunstâncias. E o melhor termômetro sobre a validade das decisões assim tomadas não deve ser se cumpriram à risca as regras indicadas em manuais, mas sim o sucesso em reduzir os obstáculos (pobreza, principalmente) que emperram o desenvolvimento nacional.

A teoria de Santos, aventada em diversos livros, traz à tôna os paradoxos e conflitos naturais e insolúveis do convívio humano, analisando-os com um pessimismo estóico - ou seja, não melancólico, já que o pessimismo melancólico supõe uma visão romântica e idealizada do ser humano e da história. Essa é a qualidade fundamental do pessimismo de Santos. É um pessimismo viril, seco, tolerante, e não a feminóide choradeira contra o capitalismo, contra os poderosos, ou, para citar um chavão ainda mais irritante, "contra tudo o que está aí".

O mundo como é hoje não é resultado somente do capital, cuja importância deve ser respeitada mas não mistificada, como fazem alguns pessimistas profissionais, que confundem pessimismo com derrotismo ou, pior ainda, com socialismo. O mundo é resultado de milhões de anos de evolução natural. Não é possível separar a história do homem da dinâmica evolucionista, sob o risco de aplicarmos o velho creacionismo à história e à dinâmica política. Assim como a vida humana não teve início com Adão e Eva, a política não começa com Capitalismo e Socialismo.

A democracia tem paradoxos. Mesmo em tese, mesmo funcionando idealmente, traz inúmeras deficiências conceituais que agridem tanto a liberdade individual quanto o interesse coletivo. No entanto, representa o que há de mais moderno na evolução civilizacional. Além disso, Santos descarta, definitivamente, qualquer tolo pessimismo ou salvacionismo em relação ao Brasil. As instituições brasileiras são tão ruins ou boas quanto as de qualquer outro país democrático. Em diversos aspectos, são melhores do que as de muitos países dito "desenvolvidos". Não se deve, sobretudo, fazer julgamentos apressados, ou conceber que uma democracia com o porte da brasileira, possa se desenvolver sem percalços, ou como se fosse possível, a qualquer jovem e grande democracia, não sofrer crises constantes, as quais são inerentes ao funcionamento da democracia.

No entanto, isso não significa festejar as crises. Masoquismo nenhum é bem vindo. Santos tem sido um dos mais corajosos críticos (e, neste ponto, não está mais sozinho, como esteve em 1962, quando foi praticamente o único a prever o golpe de Estado de 64) do abuso de poder da mídia e, em alguns casos, dos tribunais superiores. Se crises políticas são inerentes à democracia, isso não significa que sejam saudáveis, ou mesmo necessárias. As sociedades precisam mobilizar-se constantemente para que essas crises não produzam dano político, econômico e social. No caso do Brasil, isso supõe a criação de instâncias que exerçam o contra-peso ao poder desestabilizador da grande mídia. Essas instâncias, a meu ver, estão, em grande parte, proliferando-se na internet.

Segundo pesquisa do FGV, o internauta brasileiro é líder mundial no ranking de tempo médio mensal na net, com 22 horas e 24 minutos. O segundo colocado é os EUA, com 19h52, seguido de França, com 19h40 e Japão, com 18h29. Considerando que, segundo a mesma pesquisa, o número de internautas no país alcançou 40 milhões em 2007, com o acréscimo de 7 milhões de pessoas somente no ano passado, conclui-se que a importância da web, particularmente da blogosfera, na rotina cultural e política da sociedade brasileira não deve ser menosprezada.

Olivetti N.2

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10 de maio de 2008

A maconha estragada de Merval Pereira

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Em sua coluna de hoje no Globo, Merval Pereira volta a seu jogo preferido. Manipulações chinfrins, ilações forçadas, acusações veladas. "Enfim, o dossiê", diz Merval, como se tratasse de assunto de grande novidade. O texto torce e retorce notícias requentadas para colocar Dilma e governo dentro de uma moldura com a legenda: criminosos.

Imprensa e oposição apostaram alto demais no dossiê. Quer dizer, primeiro apostaram no escândalo dos cartões corporativos. O negócio respingou no governo Serra, cujos gastos com cartão revelaram-se superiores ao do governo federal, e na gestão FHC, que também gastou mais, através das contas tipo B, que não prevêem transparência e são mais difíceis de serem investigadas. Por fim, grande parte das denúncias de mau uso dos cartões revelou-se leviana ou vazia. Conforme declarou Jorge Hage, chefe do CGU, Controladoria Geral da União, houve uma espetacularização do nada.

Aliás, é com orgulho que lembro da minha defesa da mesa de sinuca, comprada com cartão corporativo. Foi um caso ao qual me dediquei com especial paixão. Gosto muito de sinuca e revoltou-me assistir a criminalização lacerdista de um objeto tão inocente. O Globo estampou a foto da mesa na capa, e um manchetão na página 3: "Até mesa de sinuca".

Pois bem, eu defendi arduamente a mesa de sinuca. E não é que, após a investigação da CGU, descobriu-se que a mesa era propriedade da União, usada por funcionários e seguranças do Ministério da Comunicação em suas horas de lazer, e o seu conserto fora, portanto, totalmente conforme as leis? Não houve crime algum. No entanto, funcionários, instituições e a própria sinuca foram caluniados por um dos jornais de maior circulação e prestígio no país. Não se pediu desculpas e só fiquei sabendo do resultado da investigação sobre a sinuca pela internet, não pelo mesmo jornal que havia (injuriosmente) denunciado o caso.

Voltando ao Merval, ele constrói uma verdadeira ficção policialesca para falar de Dilma e o dossiê. Leiam esse trecho:



"Mas e se a Dilma estiver mesmo mentindo desde o início e o dossiê foi confeccionado a mando dela, para contra-atacar a oposição, que denunciava o uso abusivo de cartões corporativos pelo governo Lula e havia conseguido a demissão de uma ministra?

Essa possibilidade foi deixada em aberto pela própria ministra, segundo relato de Elio Gaspari, não desmentido: ´Quem ouviu a ministra Dilma Rousseff no jantar do Iedi de 20 de fevereiro, numa sala reservada do restaurante DOM, em São Paulo, não teve a menor dúvida: ela informou que o governo estava coletando dados para incriminar o governo de FFHH na farra dos cartões corporativos. Como já se passou mais de um mês, não é possível assegurar qual foi a palavra exata da comissária. (...) O tom era policial. "



Merval agride a inteligência dos leitores porque omite pontos essenciais: 1) Não era preciso lembrar de reunião em restaurante para saber que Dilma estaria reunindo informações sobre o governo FHC. A ministra repetiu, em diversas ocasiões, para todo mundo ouvir, que a coleta de dados faz parte do trabalho de sua secretaria. A CPI dos Cartões aprovou a investigação dos cartões desde 1998, portanto era necessário que a Casa Civil procedesse a reunião do material. 2) Não é crime coletar material de FHC ou de qualquer governo. Dilma está no poder e pode reunir material de quem quiser. Foi nomeada pelo presidente da República e tem autoridade, autonomia e o direito legítimo e democrático para executar a pesquisa que lhe der na telha. 3) Os dados de FHC, no fim das contas, nem sigilosos são, porque ele não é mais presidente e o sigilo vale mesmo para o cargo, não para a pessoa. 4) Mesmo entendendo que os dados fossem sigilosos, os membros da CPI teriam acesso aos mesmos, o que desmonta a tese de chantagem.

Por fim, Merval defende o senador Alvaro Dias de forma canina, no caso do vazamento das informações para imprensa, no qual ele está envolvido até o pescoço. A Polícia Federal descobriu que José Aparecido, funcionário da Casa Civil, vazou o dossiê para o assessor de Dias. Merval não faz, todavia, a ilação mais lógica: Aparecido teria sido subornado pelo senador? Pereira aventa hipóteses sobre as mil e uma motivações de Aparecido para vazar o dossiê, mas não fala do mais simples: a milenar e tradicional venalidade humana, que pode ter concorrido para convencer Aparecido a executar um vazamento que traria, como trouxe, graves danos à sua chefe, Dilma Rousseff.

Francamente, eu não dou mais bola para o que Merval escreve. Eu rebato apenas para participar, à minha maneira, da luta política no país. Mas é sempre a mesma ladainha, já tá cansando.

*

Estou abismado com Fernando Gabeira. Pensava que, candidatando-se a prefeito, seria obrigado a despir-se do lacerdismo tardio que, embora lhe renda tanto sucesso na mídia, gera antipatia crescente (portanto, perda de votos) na esquerda. Ledo engano. Gabeira tascou uma crítica virulenta à Comissão de Anistia, por causa das pensões e indenizações às vítimas da ditadura. O que não ele contava é que a Comissão decidisse, coincidentemente ou não, divulgar que tinha iniciado o julgamento sobre o seu próprio pedido. Ou seja, Gabeira, em 2003, entrou com requerimento junto a Comissão de Anistia pedindo indenização ao Estado.

Qual a reação do deputado? Fúria, destempero. Diante do flagrante de hipocrisia, voltou a atacar violentamente a Comissão, acusando-a de fazer "política" por ter começado a analisar o seu caso somente agora, depois que ele tinha criticado. Tentou se explicar, dizendo que, em 2003, teria receio quanto a seu futuro, e por isso fez o pedido. Hum? Isso é explicação? Então, isso justificaria o pedido dos outros, não?

Que é isso companheiro? Que falta de educação é esta? Quer dizer que, depois de 20 anos de ditadura militar, cujos ecos ainda estão por aí, você elege a Comissão de Anistia como sua inimiga número 1? Depois de sequestrar embaixador e o escambal, você agora virou um lacerdista meia-boca, esverdeado, detentor de ideais anfíbios, refém de um eleitorado esquizóide, que se divide em maconheiros ingênuos e idosos ranhetas do Leblon?

*

Por falar em maconha, minha opinião sobre o assunto é a seguinte. Tem que liberar totalmente: consumo, produção e distribuição. Os americanos que se danem, porque são uns hipócritas. É o povo que mais fuma maconha no mundo, botam maconha em tudo que é filme, e depois patrocinam campanhas internacionais contra a produção nos países que a podem cultivar. O Brasil poderia agregar alguns bilhões a mais a sua balança comercial, beneficiando principalmente o sofrido Nordeste, se a cannabis fosse legalizada. Não adianta liberar o consumo e proibir a produção. Isso é ridículo. Se pode consumir, tem que poder produzir. É lógico.

Quem viaja bastante, pelo Brasil e pelo mundo, sabe que o uso da maconha está em toda parte e em todas as classes sociais. Houve uma explosão a partir da década de 60. Segundo institutos de pesquisa, quase dois terços dos estudantes universitários americanos já experimentaram maconha. É uma taxa quase igual à do álcool e, em face das bilionárias campanhas anti-drogas patrocinadas pelo governo americano, mostra que é preciso repensar imediatamente sobre sua eficácia. Esses bilhões de dólares não seriam melhor aplicados de outra forma?

Isso não significa que eu defenda o uso da maconha. Não aconselho ninguém a beber cachaça e faço o mesmo com a maconha. Por que vicia sim, psicologica e culturalmente. A destruição provocada pela maconha é bem mais sutil e lenta que a provocada pela cocaína, mas pode ser tão ou mais nociva, a depender, naturalmente, da quantidade, intensidade e da relação que a pessoa mantém com a droga.

O Obama já fumou, FHC já fumou, Bill Clinton fumou. O Mick Jagger, quando veio ao Rio, nos 70's, fumou num restaurante cinco estrelas, apavorando os clientes. Glauber Rocha acendeu um baseado numa reunião entre chefes de Estado no Chile. Gilberto Gil, nem se fala. Raulzito, Vinicius de Morais, Bezerra da Silva, Chico Buarque, a galeria dos maconheiros ilustres é interminável. Outro dia foram cair na besteira de perguntar aos ministros britânicos se já tinham fumado e, batata, todos confessaram. Enfim, deixo aqui registrado um protesto contra a ridícula proibição da marcha da maconha no Rio de Janeiro e declaro, solenemente, que o Óleo do Diabo defende a sua incondicional e total legalização.

9 de maio de 2008

Moeda forte beneficia inclusão digital

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Esse é um fator que vem sendo omitido nas análises sobre a apreciação cambial de nossa moeda. Como praticamente todos os produtos de tecnologia são importados, inclusive grande parte dos softwares, a valorização do Real tem colaborado expressivamente para a expansão do mercado brasileiro de informática. Segundo a 19a Pesquisa Anual de Informática, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil já dispõe de 50 milhões de micro-computadores operantes, o que corresponde a 26% da população brasileira. A estimativa do FGV é de que, até 2012, mantendo-se o real valorizado perante o dólar, esse percentual chegue a 50% em 4 anos. Em 2007, os brasileiros compraram 10,5 milhões de computadores, número superior à venda de aparelhos de tv, e que representou um crescimento de 42% sobre o ano anterior.

Dada a importância da informática para a cidadania, em todos os sentidos - econômico, político e cultural -, um analista econômico que não enxergar esse aspecto positivo da valorização do Real estará sendo míope ou tendencioso.

E não venham falar em indústria nacional de informática, porque esta simplesmente não existe ou é insignificante. De qualquer forma, a indústria se beneficia da moeda valorizada porque pode importar as peças mais complexas e os softwares necessários para dar início a produção doméstica.

8 de maio de 2008

Investment Grade X Socialismo

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Um amigo cobrou-me um post sobre o Investment Grade. Tenho deixado passar muitos assuntos importantes. Tentarei recuperar o tempo perdido. Vamos lá. Sobre o Investment Grade, os fatos falam por si mesmos. Trata-se de uma classificação importante no mercado internacional, que serve como referência para os fundos mais conservadores. Esses fundos, alguns soberanos (isto é, pertencentes a governos), movimentam trilhões de dólares, e têm um perfil sóbrio, procurando fazer investimentos seguros, éticos e com retorno de longo prazo.

Entretanto, não foi surpresa para quem acompanha de perto as lides nacionais que o investment grade fosse quase menosprezado por determinados espectros políticos. A imprensa tratou logo de vender a teoria de que o prêmio devia-se ao governo anterior, de FHC, e não ao governo Lula, que teria somente se beneficiado por ter dado continuidade às políticas tucanas.

Ora, muitos blogueiros e jornalistas já desmascararam essa história da continuidade. Mas como a mídia abusa da estratégia goeberiana de repetir inverdades até torná-las dogmas, nunca é demais repassar, nem que seja rapidamente, algumas mudanças efetivadas pelo governo atual. Aumento do salário mínimo; uso da verba do BNDES para empresas nacionais; expansão do crédito; desoneração tributária de setores estratégicos, como o de informática; redução dos juros; política fiscal mais rígida, reduzindo a relação dívida X PIB; pagamento da dívida externa; maior apoio à agricultura média e familiar, mas também ao grande, beneficiado pelo biodiesel e pela liberação de recursos federais; programas sociais redistributivos, que ativaram economias antes estagnadas; abertura de escolas técnicas; política industrial mais ousada; abertura de novos mercados ao Brasil, como África, Oriente Médio e a própria América Latina. Enfim, são dezenas de mudanças de rumo. O que era positivo, foi mantido. O que era para ser mudado, foi mudado ou tentou-se mudar.

No entanto, seria injusto atribuir tudo a Lula. Trata-se de uma conjuntura política e econômica, de que Lula é uma apenas peça. Não podemos esquecer que Lula está lá porque o povo votou nele. Se coisas boas acontecem ao Brasil, o mérito é do regime democrático brasileiro.

O mais notável, contudo, é que o investment grade representa a pá de cal sobre a histeria anti-comunista que, por incrível que pareça, ainda assola alguns setores midiáticos. Lembram da caçada de Ali Kamel contra os livros escolares? As acusações de que o governo se moveria por interesses "ideológicos", além de implicarem um preconceito ridículo, como se fosse possível haver política sem ideologia e como se possuir ideologia fosse um defeito de caráter, mostraram-se inconsistentes em face da realidade. Acusou-se o governo de, por motivos ideológicos, dar as costas para os EUA e priorizar relações políticas e comerciais com países pobres. Ora, o governo aprofundou as relações comerciais com os americanos, mas fomentou uma saudável diversificação dos mercados para os produtos brasileiros. Hoje, países como Angola, Arábia Saudita, Costa do Marfim, Líbano e Israel são importantes parceiros comerciais do Brasil e não resta dúvida de que essa diversificação, incentivada pelas viagens presidenciais, foi fundamental para atravessarmos incólumes a grave crise imobiliária dos Estados Unidos.

A histeria anti-esquerdista, portanto, revelou-se vazia. Lula ajudou a fortalecer e a consolidar o capitalismo brasileiro, através de uma política socializante que priorizou as massas trabalhadoras. Isso significa que Lula vendeu-se ao capitalismo? Que desistiu do socialismo? Bem, Lula sempre foi franco ao negar ser ou defender o socialismo. Em algumas entrevistas, afirmava que, no máximo, era um homem com tendências socialistas. Por que, então, a extrema-direita continua vociferando contra um suposto esquerdismo que estaria dominando o Brasil? Por que continua procurando comunistas no armário?

Porque é burra. Assim como há um setor da esquerda que não soube tirar lições da queda do socialismo real europeu e soviético, há uma direita que ainda não acordou para os novos tempos. O socialismo morreu? Não, o socialismo não morreu. Por que idéias não morrem. Transformam-se. Idéias não permanecem puras. O capitalismo puro, por exemplo, nunca existiu. O socialismo morreu enquanto forma autocrática de governo. Mas está mais vivo do que nunca enquanto ideal de luta contra a opressão econômica, ainda muito cruel nos países subdesenvolvidos.

O socialismo moderno tem uma grande vantagem sobre seu antecessor soviético. Ele não está sendo escrito por gênios encafuados em quartinhos clandestinos. Está sendo criado na prática, na luta diária de governos eleitos democraticamente contra seus opositores políticos, sempre apoiados pelas mídias corporativas. Muitas vezes, noto que há grande confusão sobre o que seria o socialismo. Um blogueiro (O Judas) resolveu, por exemplo, iniciar uma cruzada contra a esquerda e o socialismo. Tudo bem. O problema é que ele elegeu um socialismo que só existe na sua cabeça. É como se eu acreditasse que o único capitalismo do mundo é o que existe nas Ilhas Caymann, e iniciasse uma cruzada contra o capitalismo a partir do que vi por lá. Confunde-se circunstâncias históricas e idiossincracias nacionais com ideologias políticas. O socialismo moderno aceita a propriedade privada, mas a regula através de instituições públicas, de forma a evitar distorções que possam prejudicar o próprio sistema. Tudo dentro de regras constitucionais e feito com as ferramentas democráticas existentes. A culpabilização do dinheiro, por exemplo, é uma estupidez. Lembra o marido que, ao flagrar a esposa fazendo amor com outro no sofá da sala, põe a culpa no sofá. Por acaso no socialismo soviético não havia dinheiro?

Hoje li um artigo sobre 1968, no qual o autor explica que os estudantes da época, notadamente os franceses, estavam aborrecidos com os operários, porque esses teriam se "aburguesado", satisfazendo-se com melhores salários, em vez de continuarem buscando a revolução. Diante do velho dilema de Rosa Luxemburgo, reformismo ou revolução, optaram pela primeira alternativa. Ora, analisando retrospectivamente, percebemos que os operários mantiveram-se bastante coerentes consigo mesmos. Afinal, as inquietações nas fábricas não nasceram de ideologias concebidas em quartinhos escuros, mas de condições degradantes de trabalho. Se os operários conseguiram melhorar de vida, é pedante e até preconceituoso criticá-los por terem ficado satisfeitos. Sua revolta não era um capricho estudantil. Queriam uma vida digna, lutaram, e venceram. Hoje um operário europeu ganha mais que um engenheiro ou professor brasileiro.

As elites sempre preferiram a ideologia enquanto moda, enquanto elegánce, cantada por jovens esbeltos, de boas famílias, escritas por intelectuais chic, do que um discurso pragmático, duro, plebeiamente simples. O operário, no entanto, com seu bom senso simplório, revelou-se mais inteligente, democrático e visionário do que o estudante, o qual, apesar de suas boas intenções, confundia seus interesses sexuais e estéticos com as demandas reais da classe trabalhadora.

Não quero, todavia, condenar o estudante do maio de 1968. Sua loucura, seus erros, tinham sua razão de ser. Exigir perfeição ao ser humano é a pior forma de fascismo. Ademais, é ridículo, do alto do conforto do século XXI, podendo pesquisar qualquer informação no Google, condenar peremptoriamente as lutas dos anos 60. A política, como a arte, digere vitórias e fracassos com a mesma fome. Nessas horas, nunca me esqueço da frase do personagem de Lavoura Arcaica, obra-prima de Raduan Nassar: eu sinto, pai, que a minha loucura tem mais razão do que a sua sabedoria.

Aula de política

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5 de maio de 2008

Comunhão

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Virei-me para o lado e observei-a melhor. Mudei de idéia quanto a fechar a conta e ir para casa. Ela devia ter uns trinta e poucos anos e seus olhos expeliam energia suficiente para abastecer uma fábrica. A sonolência que me invadia após quatro doses desaparecera e agora eu procurava um pretexto para puxar assunto. Depois de matutar profundamente, decidi oferecer-lhe um drink. Pareceu-me a melhor coisa a fazer. Chamei o garçom. Antes que fizesse o pedido, contudo, ocorreu uma cena.

A bela balzaquiana ergueu-se, abruptamente, do banco alto em que estava sentada, saltou para o chão e encaminhou-se para a saída. Antes que a porta se fechasse, vi que ela empunhava o celular e tinha um expressão nervosa.

Provavelmente, pensei, não quer que a pessoa do outro lado da linha descubra que se encontra num bar. Bom sinal. Achei que fosse um bom sinal. Ela voltou transtornada. Sentou-se no banquinho equilibrando-se com dificuldade. Bebericou a vodka com gelo e começou a chorar.

No balcão do hotel onde estávamos, na Ilha da Comandatuba, onde eu participava de um evento de telefonia celular, só havia três pessoas. Eu, a mulher e um velho bêbado no último banco.

Levantei-me rapidamente e, como bom cavalheiro, aproximei-me dela e perguntei com toda a suavidade possível:

Com licença... (engasguei-me alguns segundos pensando se deveria chamá-la de senhora, que era muito pesado e formal; senhorita, que soava ridículo; ou moça, que pareceu-me vulgar). Decidi chamá-la de lady, que tinha algo de brincalhão, sem deixar de ser elegante:

- Lady, com licença.

Ela voltou para mim aqueles lindos olhos castanhos, molhados de lágrimas e senti uma ponta de hostilidade. Tive impulso de retornar a meu posto, mas algo me segurou. Insisti:

- Com licença, lady. Está com algum problema?

Dessa vez, ela não se moveu. Permaneceu virada para o balcão, dando-me as costas. Volta para seu lugar, eu disse a mim mesmo, ela não quer conversa. Respeita sua privacidade e dor. No fundo, você quer se aproveitar de sua fragilidade emocional para seduzi-la, admiti em silêncio, abaixando a cabeça e iniciando meu retorno.

- Não é nada não.

Parei, subitamente esperançoso, e olhei para a moça, como um vira-lata carente que escutasse um assovio amigável. Isso que eu sou, pensei na hora. Um vira-lata carente. Um funcionário meia-boca de uma telefônica participando de um evento chato num balneário paradisíaco da Bahia.

Desculpa, não quis ser intrometido. É que eu a vi chorando e pensei... bem, pensei que pudesse ajudar em alguma coisa.

- Obrigada por se preocupar. Não é nada.

Ela exibia agora um sorriso fraco, trêmulo, mas um sorriso, e imaginei que isso já era uma pequena vitória. Sorri também e perguntei se aceitava um drink. Ela hesitou alguns segundos, observando-me levemente desconfiada. Empertiguei-me, fazendo a cara mais séria e confiável que pude.

- Tudo bem. Aceito. Só um. Já estou meio tonta.

Ela ficou triste novamente, o que me desconcertou. Sentei-me a seu lado e não falei nada. Ninguém falou nada por bons minutos. O garçom trouxe o drink, ela deu algumas bicadas, em silêncio, e... prorrompeu num choro terrível, convulsivo. Assustei-me. Era um choro estranho, trágico. Continuei em silêncio, perplexo.

- Meu filho! Meu filho!

Ela murmurou baixinho, mas perfeitamente audível. Entendi que alguma coisa grave tinha acontecido a seu filho e estremeci, contaminado por seu desespero. Bebi uns goles de uísque e arrisquei uma outra abordagem.

- Desculpa insistir, mas posso ajudar em alguma coisa?

Ela chorava e murmurava: meu filho, meu filho. Subitamente, inclinou em minha direção e abraçou-me. Permaneceu chorando em meu ombro durante um bom tempo. Eu havia me esquecido do uísque e também chorava.

Cão Sem Plumas

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Abaixo a íntegra do soberbo poema de João Cabral de Melo Neto, O Cão Sem Plumas.



I. Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II. Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado

à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

3 de maio de 2008

Filmão fantástico no dia 06 e 10 de maio

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Depois de tanto papo sobre diabo, eis que, por coincidência, um grande amigo meu, que também por coincidência é meu primo, convida-me para o lançamento do filme que produziu, O Fim da Picada, cuja temática é: saci, exu e satanismo! A estréia mundial acontece no dia 06 de maio, no Botafogo 1, 19:00, com reprise no dia 9 de maio, no cinema da Caixa, às 19:30. Estendo o convite a todos os leitores. Não percam!

Abaixo o release do filme:

“O FIM DA PICADA”

SACI, EXÚ E SATANISTAS EM FILME COM ESTRÉIA MUNDIAL no RIOFAN – 1º Festival Internacional de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro

O longa, que foi filmado e finalizado em 35 mm, contou com participação especial de cineastas renomados, como Ivan Cardoso, José Mojica Marins (o popular Zé do Caixão), Carlos Reichenbach, Hermano Penna e Aloysio Raulino.

No elenco estão Ricardo De Vuono (dos curtas “Sinhá Demência e Outras Histórias” e Demônios”, ambos dirigidos por Saghaard), Cláudia Juliana (de “Bicho de Sete Cabeças”), Analú Silveira (dos longas “Remissão”, de Sílvio Coutinho, e “A Concepção”, de José Eduardo Belmonte) e Sandro Acrisio (que interpreta o Saci).

“O FIM DA PICADA” marca a estréia na direção de longas do cineasta Christhian Saghaard, 36 anos, que também escreveu o roteiro e foi o câmera do filme. Saghaard também atua na área audiovisual como fotógrafo, programador e produtor, sendo responsável por curtas-metragens polêmicos, como “Demônios” (2004), que também será exibido na programação do RIOFAN. O filme O FIM DA PICADA foi produzido pela produtora independente Cinegrama Filmes (currículos do diretor e da produtora abaixo).

Sinopse: Macário, personagem principal do filme, participa de uma orgia satanista numa praia brasileira no ano de 1850. Na manhã seguinte, inicia sua difícil viagem subindo a serra em direção à cidade de São Paulo, montado em seu burro. No trajeto encontra Exú-Lebara, versão feminina da entidade fantástica de origem afro-brasileira. Decidem seguir juntos a viagem para São Paulo. No entanto, Exú engana Macário durante a viagem, fazendo-o acordar em São Paulo, mas no ano de 2008, na mega-metrópole com quase 20 milhões de habitantes. Macário fica atordoado e torna-se um mendigo, vítima da cruel e desumana realidade em que passa a viver.

Um garoto que vive nas ruas do centro antigo de São Paulo sofre uma fantástica transformação para se tornar um Saci, mito mais importante do folclore brasileiro, um ser maligno e brincalhão. Macário e Saci se encontram no caos da cidade.

Sobre o diretor: Christian Saghaard, 36 anos, é diretor também dos curtas-metragens “O Palco” (1992), “Meressias” (1994), “Sinhá Demência e Outras Histórias” (1995, menção Honrosa-Festival de Hamburgo e Medalha de Prata-Goldene Camera Film Festival, Alemanha) e “Isabel e o Cachorro Flautista” (2005). O curta “Demônios” (2004) foi selecionado para o Festival de Curtas de Clermont-Ferrand, na França (o mais importante festival de curtas-metragens do mundo), e para Interfilm Berlim, na Alemanha, entre outros. Recebeu a Menção Honrosa no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e os prêmios de melhor som e de melhor filme na categoria Hardcore no Festival Zoom CineEsquemaNovo (Porto Alegre/RS).

Christian Saghaard realizou a direção de fotografia e câmera em mais de 16 curtas-metragens e 12 vídeos entre os anos de 1992 e 2004. É coordenador do projeto Curta Circuito & Intervenções Urbanas desde 1996, através dos quais já realizou 180 programações de filmes em praças públicas, bares, muros e paredes da cidade de São Paulo. Foi programador e colaborador de mostras especiais do MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre 1999 e 2003, onde coordenou também o projeto CineMAM na Rua, que realizou diversas exibições mensais abertas ao público na periferia de São Paulo. Participa do Comitê de Seleção do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo desde 1998, festival dirigido por Zita Carvalhosa.

Sobre a produtora: O produtor executivo do filme O FIM DA PICADA, Jorge Guedes, é sócio-gerente da produtora Cinegrama Filmes, que produziu 7 curtas metragens, entre eles o curta “Isabel e o Cachorro Flautista”, também dirigido por Saghaard. O FIM DA PICADA é o primeiro filme de longa-metragem produzido pela produtora, que ganhou incentivos internacionais para realizar o projeto do seu segundo longa-metragem, que tem filmagens previstas para o final de 2008.

Contatos:
Jorge Guedes:
cinegramafilmes@cinegramafilmes.com.br

Christian Saghaard:
christiansaghaard@hotmail.com