Eu também me considero pretensioso - por querer escrever sobre tantos temas diversos. Ao mesmo tempo, e apesar do nome do blog, sou cristão e católico, e por isso estou sempre me culpando por tudo. Já tentei me livrar do cristianismo e do catolicismo, mas não consegui, e agora tento lidar com isso da melhor forma possível. Tornei-me, por assim dizer, um católico pós-moderno, que não gosta do papa e gostaria de revolucionar totalmente a Igreja Católica. Por exemplo, padres deveriam casar. É ridículo a Igreja manter essa verdadeira perversão sexual. Entenderia (sem concordar) se a Igreja incentivasse o celibato voluntário; a interdição autoritária do sexo, todavia, violentando brutalmente a liberdade individual (na contramão do sentido maior do cristianismo, que é a libertação do indivíduo, considerado a partir daí como um legítimo filho de Deus), apenas ajuda a criar mais vícios, mais taras, mais maldade. Outra imbecilidade católica da qual eu me envergonho terrivelmente é a falta de esclarecimento quanto ao uso de preservativos. Para mim, quando o Papa vai à África e prega contra a camisinha, ele deveria ser condenado e preso pela comunidade internacional. Eh eh, bom católico sou eu, que deseja ver o Papa algemado... Mas é isso mesmo. Meu maior sonho, como cristão e católico, era ver o Papa atrás das grades, por ajudar a propagar a Aids.
Também sou a favor do aborto, da eutanásia, da liberação das drogas, do casamento gay. Enfim, sou tudo aquilo que um católico conservador tem ojeriza. E ainda tenho um blog intitulado Óleo do Diabo! Ahahah. No entanto, é com um prazer quase diabólico, e ao mesmo tempo orgulhosamente santo e franciscano, que eu me considero muito mais cristão, muito mais católico, que todos esses carolinhas conservadores e agressivos que infestam o mundo.
Mas eu queria mesmo era falar do black-out. Que coisa, héin! Eu estava em casa, ainda bem, quando aconteceu. Da janela do meu apartamento, no oitavo andar, vi a escuridão tomar conta das montanhas de Santa Teresa e dos edifícios da Lapa e bairro de Fátima. Tudo escuro. Depois de um tempo, sentia-se um nervosismo no ar. No vale entre as montanhas e meu prédio, podia-se ouvir o eco dos gritos de jovens e adolescentes fazendo suas piadas eternas. Um deles gritou:
- É na América Latina inteira!
Um outro pegou ainda mais pesado:
- É o fim do mundo!
Confesso que senti um frio na espinha. Felizmente, uma voz de moça (sempre as mulheres, a nova força da razão no mundo) ecoou no vácuo.
- Não. É no Espírito Santo, Rio, São Paulo...
Não era exatamente uma boa notícia, mas muito melhor que pensar num black out sinistro em toda América Latina, e, claro, infinitamente melhor que o fim do mundo... Enfim, a coisa estava explicada.
Todo mundo entende a falta de luz. Acontece. Mas esse black out trouxe um desconforto particular porque mostrou que, de fato, a nossa sociedade tornou-se excessivamente dependente de eletricidade, e que falta, em toda parte, um planejamento melhor para eventualidades como essa.
Por exemplo. Todo mundo deveria ter ao menos uma extensão telefônica não elétrica dentro de casa. Um radinho a pilha. Lanternas. Fósforos. Velas. Por mais que o governo invista no sistema elétrico, acidentes sempre ocorrerão, e as pessoas precisam estar mais preparadas. Hospitais devem cuidar para terem geradores de boa potência.
Também seria interessante que os prédios possuíssem geradores, que permitissem, ao menos, destravar elevadores parados com pessoas dentro, e iluminar os corredores. O custo de um gerador é perfeitamente acessível para qualquer prédio.
A iluminação pública das cidades também deveria possuir algum tipo de energia alternativa, como postes à gás, para fazer frente à emergências como esta. Não digo todos os postes, mas alguns postes em ruas principais.
É uma pena que a nossa imprensa queira usar o caso somente para desgastar o governo federal, em vez de ajudar a sociedade a encontrar maneiras de se sentir mais segura.
No blog da Miriam Leitão, há um post de um de seus leitãozinhos - coitado desses rapazes! já é ruim ser uma golpista, imagina como é ser um lacaiozinho de golpista - que diz que o apagão de 1999 foi pior que o de 2009.
Tremenda mentira. O apagão do governo FHC foi resultado de uma vergonhosa e incompetente falta de investimento em geração de energia e ausência de linhas de transmissão. O país teve um prejuízo superior a 45 bilhões de dólares, segundo demonstrou um estudo recente, com a falta de energia na era fernandista. O Brasil teve seu crescimento estrangulado. E porquê? Porque, para os tucanos, o dinheiro do Tesouro era para pagar juros, que eles mesmo aumentavam irracionalmente, para pagar ainda mais. O BNDES, em vez de financiar grandes obras de infra-estrutura, emprestava dinheiro, a juros subsidiados, a grupos estrangeiros para que adquirissem patrimônio nacional.
De certa forma, o apagão de ontem também é conseguência da tragédia tucana no setor de energia, porque, se FHC entregasse uma infra-estrutura mínima para o sucessor, o Brasil poderia estar hoje num estágio ainda mais avançado em termos energéticos.
Há um lado bom para tudo. O nosso sistema elétrico ainda é novo. A tecnologia de interligação no país é recente, de maneira que o blackout serviu para a instauração de novos procedimentos de segurança.
A declaração que mais emocionou, porém, em toda essa cobertura sensacionalista do episódio, veio do Martinho da Vila:
- O lado bom foi que eu jantei com minha mulher à luz de velas.
Viva Martinho da Vila!
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12 de novembro de 2009
Catolicismo subversivo e outras apagonices
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Miguel do Rosário
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quinta-feira, novembro 12, 2009
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30 de abril de 2008
Reflexões bíblicas
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(Ilustração - dentre muitas outras - de Gustave Doré para a obra de John Milton, Paradise Lost, o Paraíso Perdido. Doré é também autor da ilustração do post anterior)Continuando o assunto do post anterior, o diabo tem sido uma importante fonte de inspiração. Em Grande Sertão Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa, a grande dúvida que inquieta o protagonista, Riobaldo, é a existência ou não do diabo. Riobaldo sugere a seu interlocutor que todos os homens sábios do mundo deveriam organizar um congresso para decidir, de uma vez por todas, se o diabo existe ou não. A dúvida perpassa toda a obra. A angústia de Riobaldo deriva-se de sua consciência atormentada por um suposto pacto que ele teria feito com Satanás. Ele não tem certeza. Lembra-se apenas que, numa noite sem lua, no tempo em que era jagunço e vivia momentos difíceis, decidiu ir a uma encruzilhada e chamar o diabo para ajudá-lo a enfrentar seus problemas. Sentiu um vento frio, alguns ruídos, mas nada conclusivo. Voltou ao acampamento. No dia seguinte, porém, Riobaldo acorda sentindo-se diferente. Sente uma força e uma coragem estranhas. Sempre fora uma sujeito calado, taciturno, submisso, lento. Agora, punha-se a falar, a contestar as ordens do chefe, a pensar rápido. Acaba desbancando o chefe antigo e assumindo a liderança do bando, dirigindo a batalha final contra os Hermógenes, os inimigos, e vencendo. O Riobaldo velho, que conta a história, é agora um homem bem sucedido. Antes um homem sem posses, filho bastardo e jagunço anônimo, termina sua vida como próspero fazendeiro e um nome famoso na história das mitológicas guerras sertanejas.
Lendo notícias sobre esse monstro da Áustria, que manteve sua filha presa no porão por 24 anos, não pude deixar de pensar em forças malignas. Principalmente por causa de uma coincidência curiosa. Estou lendo um romance de Norman Mailer, Castelo na Floresta. É o primeiro romance que leio do Mailer, que morreu há poucos meses. É seu último trabalho. Apesar de estar gostando, a leitura estava esfriando um pouco. Este caso do psicopata austríaco fez-me voltar à ele com mais interesse. Trata-se de uma ficção sobre a infância de Hitler e de seu pai. A história gira em torno do incesto. O narrador inicia o livro como funcionário das SS nazista, pesquisando, a pedido de Himmler, chefe da organização, a suposta origem incestuosa de Hitler.
Mais adiante, o narrador revela a sua identidade. É um diabo. Não Lúcifer, mas um de seus vassalos, encarregado a monitorar a família de Hitler desde meados do século XIX, com ênfase crescente a partir do nascimento de Adolph. O pai de Hitler teria sido um incestuoso contumaz, tendo por fim se casado com a própria filha, que geraria o futuro todo-poderoso do III Reich.
O personagem principal até a primeira metade do livro, o pai de Hitler, austríaco também, lembra muito esse monstro atual. O interessante é que o patamar de malignidade da vida real é muito superior à da ficção.
Não sou nenhum obcecado pelo diabo ou simpático a nenhuma seita satânica, que fique bem claro. Ao contrário, depois de ser um anarquista ateu dos mais radicais, me tornei até meio carola. Após os trinta anos, batizei-me (não o era, porque meu pai era ateu), casei-me no religioso e, sempre que visito uma igreja, faço o sinal da cruz ou alguma oração. Sou, no entanto, cada vez mais anti-papal. Acho o Papa um criminoso por proibir o uso do preservativo, mesmo sabendo que a Aids vem devastando países inteiros, como ocorre na África. Também acho que os padres deviam poder se casar, etc. Mas não me perguntem sobre Teoria da Libertação, que não entendo nada disso. Posso afirmar que sou um cristão, um admirador da lenda e das palavras de Jesus, e um leitor atento e apaixonado do Velho e do Novo Testamento, que vejo como obras de grande valor artístico e histórico.
Dito isto, volto ao diabo, com a consciência mais tranquila. Por coincidência, também estou lendo Fausto, a história do cientista que, cansado de sua pobreza material, sua solidão, sua rotina insossa de intelectual, aceita a proposta do diabo, que lhe surge sob o nome de Mefistófeles, de vender sua alma em troca de uma vida de prazeres e amores. Trata-se de outra lenda muito interessante, que novamente nos coloca em face do arquétipo junguiano do diabo como guia para a vida prática. Fausto estava totalmente desgostoso com o resultado obtido após décadas de estudo e pesquisa. Trata-se de um sentimento universal, clássico e contemporâneo. O conhecimento teórico, acadêmico, espiritual, nunca será satisfatório. O homem precisa conhecer a vida, tocar a vida, viver a vida, transar com a vida. Mas a religião tradicional, muitas vezes, surge como um obstáculo a esse desejo. E aí se materializa a figura de Mefistófeles, suprindo essa carência humana. Que homem, por mais santo que seja, não tem o seu demônio interior?
O entendimento mais aguçado dessa questão ajuda a evitar, inclusive, que façamos julgamentos morais precipitados sobre os outros. Aliás, nesses tempos de pré-julgamentos constantes, vale lembrar as palavras de São Paulo, no segundo capítulo de sua carta aos Romanos: "Assim, és inexcusável, ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz. Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles."
*
E olha que nem falei sobre o Inferno, de Dante Alighieri, cuja primeira parte, O Inferno, tive o privilégio de ler no original. Mais adiante, conversamos sobre a obra-prima da literatura pré-renascentista.
*
A parte do pré-julgamento dedico para o Artur Xexeo, que deu uma de moralista em cima do Ronaldinho, em sua coluna de hoje, dia 30 de abril, no Segundo Caderno do Jornal O Globo.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quarta-feira, abril 30, 2008
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9 de maio de 2007
Globo Opus Deis
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Impressionante e triste como a Globo ficou Opus Dei. Com a visita do Papa, o Globo entra em polvorosa. E o Jabor não fala mal da Igreja Católica nem do Papa, claro, só dos evangélicos. Sabe de uma coisa? Deu vontade agora de defender os evangélicos. Agora tem essa polêmica do aborto, que o Globo e outros procuram usar para atacar o governo. Particularmente, eu sou a favor do aborto, em todas as formas e circunstâncias. Acho que muitas garotas teriam suas vidas melhoradas se pudessem optar por não ter filho antes do tempo previsto. Acho que vida começa depois que o bebê nasce, ou então, va lá, depois que o cérebro se forma, após os 2 ou 3 meses de gravidez.
Sinto saudade de um Eça de Queiroz, esse sim que se colocava bem contra a Igreja.
Eu sou católico, mas tenho vergonha desse Papa e desse segmento reacionário da Igreja. Não me representam, nem representam a palavra de Cristo. Por exemplo, o Papa proibir o uso de preservativo, nem na África, para mim é um comportamento criminoso, do tipo que a Igreja ainda vai pedir desculpas no futuro, como aconteceu com a Inquisição. E esse segmento da Igreja no Brasil, que é contra as campanhas pelo uso de camisinha no Brasil estão indo na mesma linha, com ajuda dos jornais, que entraram numa paranóia tão absolutamente anti-lula que estão perdendo até o pouco de bom-senso liberal que possuíam.
Outra da Globo é vir querer se meter na política francesa. RIDÍCULO. Na seção internacional, a Globo me vem com um editorializinho incitando o governo francês a reprimir as manifestações contra Sarkozy. Sou contra manifestação violenta, ainda mais nesse caso, mas a Globo querer dar lição política à França é a coisa mais ridícula do mundo. Eu compreendo o desespero dos descendentes de imigrantes franceses. Sarkozy é o cão chupando um kebab. Sua política anti-imigrante é completamente imbecil, retrógrada e brutal. Dizem que ele é filho de imigrante. Tá bem. Ele é filho de um aristocrata polonês ou coisa parecida que imigrou por causa do comunismo. Está explicado porque é um histérico de direita. Mas é bem diferente de compará-lo com os milhões de imigrantes e descendentes que vivem na França, sem sangue azul, sofrendo precoceitos de um país que tanto contribuiu para Africa e Oriente Médio viverem o desastre econômico político, social e econômico que viveram. A Segolene havia prometido ajudar a Africa. Sarkozy não. Esse é o grande mal dele ter ganhado. Geopoliticamente, um desastre para o mundo.
E por falar em geopolítica, leiam a última coluna da Marcia Denser, em que ele fala do filme Syriana e do texto do meu amigo André Lux.
PS: Em tempo, interessante entrevista com o Lula ao Bob Fernandes, da Terra Magazine.
Sinto saudade de um Eça de Queiroz, esse sim que se colocava bem contra a Igreja.
Eu sou católico, mas tenho vergonha desse Papa e desse segmento reacionário da Igreja. Não me representam, nem representam a palavra de Cristo. Por exemplo, o Papa proibir o uso de preservativo, nem na África, para mim é um comportamento criminoso, do tipo que a Igreja ainda vai pedir desculpas no futuro, como aconteceu com a Inquisição. E esse segmento da Igreja no Brasil, que é contra as campanhas pelo uso de camisinha no Brasil estão indo na mesma linha, com ajuda dos jornais, que entraram numa paranóia tão absolutamente anti-lula que estão perdendo até o pouco de bom-senso liberal que possuíam.
Outra da Globo é vir querer se meter na política francesa. RIDÍCULO. Na seção internacional, a Globo me vem com um editorializinho incitando o governo francês a reprimir as manifestações contra Sarkozy. Sou contra manifestação violenta, ainda mais nesse caso, mas a Globo querer dar lição política à França é a coisa mais ridícula do mundo. Eu compreendo o desespero dos descendentes de imigrantes franceses. Sarkozy é o cão chupando um kebab. Sua política anti-imigrante é completamente imbecil, retrógrada e brutal. Dizem que ele é filho de imigrante. Tá bem. Ele é filho de um aristocrata polonês ou coisa parecida que imigrou por causa do comunismo. Está explicado porque é um histérico de direita. Mas é bem diferente de compará-lo com os milhões de imigrantes e descendentes que vivem na França, sem sangue azul, sofrendo precoceitos de um país que tanto contribuiu para Africa e Oriente Médio viverem o desastre econômico político, social e econômico que viveram. A Segolene havia prometido ajudar a Africa. Sarkozy não. Esse é o grande mal dele ter ganhado. Geopoliticamente, um desastre para o mundo.
E por falar em geopolítica, leiam a última coluna da Marcia Denser, em que ele fala do filme Syriana e do texto do meu amigo André Lux.
PS: Em tempo, interessante entrevista com o Lula ao Bob Fernandes, da Terra Magazine.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quarta-feira, maio 09, 2007
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