25 de fevereiro de 2006

Sobre o crescimento do PIB

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Da série Cabides, de Nilton Pinho

O Brasil cresceu 2,3% em 2005, informou o IBGE. O Globo estampou o manchetão: Economia cresce metade do que Lula prometeu. O subtítulo é ainda mais engraçado: Juro alto e investimento baixo deixam PIB do Brasil à frente apenas do Haiti.

Ué? PIB do Brasil à frente apenas do Haiti? O PIB do Brasil é duzentas mil vezes maior que o PIB do Haiti. O desemprego no Haiti é de 70%, contra 9% no Brasil. A comparação é grotesca. Botar o Brasil na mesma escala que países pequenos é ridículo. Além do mais, países como Argentina e Venezuela, que tiveram um bom crescimento estão vindo de crises terríveis; e no caso da Venezuela, o crescimento do PIB é resultado óbvio do aumento dos preços do petróleo.

A mentira eficiente não é a anti-verdade e sim uma meia-verdade interpretada erroneamente. O Brasil cresceu pouco? Sim, mas cresceu com segurança, com aumento de renda do trabalhador, inflação baixa. A venda de computador cresceu 60% em 2005. Isso sim era para virar manchete de jornal.

O Brasil cresceu menos que outros países latinos, mas foi o que registrou maior geração de emprego e distribuição de renda.

Além do mais, 2005 foi o ano da crise política, não se esqueçam. A dona Miriam Leitão, arauta de todas as privatizações, claro, não desperdiçou a oportunidade de usar os números do IBGE para atacar o governo. Naturalmente, omitiu o fato de que, do alto de sua poderosa tribuna, ela passou a maior parte do ano de 2005 fazendo as projeções mais assombrosas, apocalípticas, terríveis sobre economia e política. Em total contraste com o vigor da economia, Miriam anuncia catástrofes econômicas iminentes, num surto de fazer inveja aos mais radicais publicistas venezuelanos anti-chavistas.

Mas está desmoralizada. Há dias atrás, antes da pesquisa do Census e do IBGE, ela cita Lula como "um presidente com popularidade em queda". De onde tirou isso? De sua cabeça anti-petista fanática, é claro. O petismo virou uma espécie de doença contagiosa da qual todos querem estar distantes. No atual jornalismo brasileiro, ser isento é ser anti-petista. Curioso é ver que, segundo o Datafolha, o PT é o partido preferido do brasileiro. Segundo pesquisa do Datafolha, 19% dos entrevistados, ao responderem espontaneamente sobre o partido de sua preferência, citaram o PT. Comparação com outros partidos: PSDB, 4,7%; PFL, 1,9%.

O bicho que deve estar mordendo colunistas e editores dos grandes jornais, no momento, é o impressionante crescimento da popularidade de Lula entre os mais ricos e com curso superior. Merval Pereira cansou de escrever que Lula havia perdido, irremediavelmente, a classe média. Sempre que Lula demonstrava força popular, nas pesquisas semanais de opinião que acompanhavam a crise, esta força era pejorativamente creditada ao povão inculto. Aos pobres. O Elio Gaspari e até o Angeli já escarneceram dessa tática.

A oposição contava somente com o apoio da classe média para empurrar o picolé de chuchu em nossas goelas. O que estão vendo é que a mentira do mensalão não colou e todo o eleitorado de Lula que tinha se bandeado para a direita, agora voltou para Lula com força redobrada. Segundo as pesquisas, Lula poderá ser eleito no primeiro turno se o adversario for Alkmin. Com votos de pobres, classe média e até ricos. Esgotados os argumentos éticos contra o Lula, os segmentos sociais que detestam Lula acima de tudo estão voltando aos argumentos mais chulos, racistas e preconceituosos.

O principal argumento contra Lula é que ele é ignorante. Bem, isso é difícil negar. O cara foi comer carne pela primeira vez com seis anos. Mãe analfabeta, cercado de analfabetos. Mas aí foi pra São Paulo, fez curso no Senai, tornou-se torneiro mecânico, depois sindicalista, líder político e agora presidente da República. Ignorante ele é, mas de cultura clássica, que não sei se serviria muito em sua atual função. Bush estudou em Yale, uma das melhores e mais caras universidades dos EUA, e não aprendeu nada. Em minhas andanças pela universidade, o que eu vi nas salas de aula não foi nenhum exemplo de boa educação, e sim um bando de mauricinhos terrivelmente ignorantes e mesmo com certo preconceito contra quem se interessava por cultura.

Lula é um dos caras que mais conhece o Brasil e os brasileiros. Como presidente, agora também é grande conhecedor do mundo. Ignorante? Ignorante sou eu, que estou limitado a meus livros de filosofia do século XIX... Lula tá viajando o mundo inteiro, conversando com presidentes de todas partes. Se você for a um boteco e conversar com um operário que já viajou mais de cinquenta países, foi o maior sindicalista do país e presidente da república, não creio que você irá chamá-lo de ignorante... O que eu vejo é um segmento social, sobretudo em São Paulo e Porto Alegre, extremamente metido a besta, com um orgulho desmedido por estar sempre informado sobre as fofocas culturais nos EUA, e achando que isso é um sinal de grande cultura...

23 de fevereiro de 2006

Sobre a liberdade dos blogs

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O Eduardo Guimarães, novo blogueiro político (link ao lado) escreveu uma carta muito interessante para o Observatório da Imprensa, que publicou aqui, alertando para este artigo de Claudio Weber Abramo, sobre a responsabilidade dos blogueiros. Sabe, primeiramente eu concordei totalmente com o Guimarães, mas depois eu fui fazer uma visita ao site do Abramo, Transparencia Brasil, refleti e pensei que o Abramo também tem um pouco de razão. Mas o alerta de Guimarães foi fundamental. O mundo não é só preto e branco.

Concordo com Guimarães que os blogs não tem que seguir imparcialidade nenhuma. Seria ridículo que os blogs seguissem a mesma linha hipócrita que está levando à imprensa escrita à decadência. Leitores não suportam mais a hipocrisia que virou a editoria política dos grandes jornais, que à pretexto de uma suposta imparcialidade praticam a mais escancarada propaganda política.

Vejam bem, acho que a saída é a honestidade. Quer dizer, até acredito na imparcialidade, mas que seja de verdade! As democracias não tem tempo para ficarem nessa eterna briguinha entre imprensa X governo. As coisas precisam avançar. O país tem urgência de industrialização, estabilidade, distribuição de renda e milhões de outras coisas. A oposição política precisa aprender a dialogar de forma construtiva com a sociedade e não ameaçar o país a cada surtozinho emocional de um FHC ou Virgílio contra o presidente Lula.

17 de fevereiro de 2006

Direitistas, voltem pra dentro do armário

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A Folha publicou esta semana um artigo que obteve uma boa repercussão. Entrevistou o Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Denis Rosenfield, entre outros. Ouviu ainda a opinião de alguns “esquerdistas” sobre a tal neo-direita tupi.

“De repente, passou a ser bacana o sujeito, numa festa ou numa mesa de bar, rodopiar a taça de vinho e desfilar frases do tipo 'essa canalha bolchevique do PT não sabe nem falar português', seguidas de elogios à atuação de George W. Bush no Iraque ou de incursões teóricas das quais a principal lição a ser retirada é que só é pobre quem quer.”

A conclusão seria que uma neodireita estaria saindo do armário... A crise política serviu para dar ainda mais ânimo às feras.

O Olavão, obviamente, desanca Lula e conclama pela criação de um partido verdadeiramente conservador no Brasil. Diz que o PSDB é de esquerda... Alckmin, governador Opus Deis, seria “politicamente correto”, porque teria aprovado uma lei que “multa o rabino que ouse expulsar de sua sinagoga um drag queen”. Bem, não sei que lei é essa, mas o que para mim está claro é que o conservadorismo olaviano não passa de um amontoado confuso de idéias preconceituosas e obscuras sobre aborto, religião, gays. Transformar o termo “politicamente correto” num xingamento, só mesmo o Olavo... Caricatural... e perigoso. Interessante observar que Olavão agora reside perto de Washington, bancado por alguns empresários do Paraná. Não entendi porque criar um partido novo: o PFL não serviria?

Triste é ver como alguém que se diz filósofo apenas repete chavões usados pela mídia, como dizer que o PT se intitulava um partido de santos, com o monopólio da bondade humana. Tenha dó! No intuito de pintar com cores fortes e contrastantes o caixa 2 do PT, os oposicionistas repetem como um refrão que o PT se dizia dono da ética e bondade.... É claro que o PT teve um papel importante na luta pela ética na política. Mas as pessoas votavam no PT porque era um partido de esquerda, com uma agenda política progressista, nacionalista e voltada para o investimento nos setores sociais mais frágeis. Nâo porque fosse o partido da ética. A ética é um valor abstrato, não pode ser propriedade de ninguém. Agora, o Olavo vir falar em “decepção tremenda” aí é hipocrisia pura. Desde quando ele apoiou Lula ou PT, para vir falar agora de decepção?

A entrevista com o Rosenfield chega a ser hilária, não contivesse, por trás, um componente trágico. Ele termina dizendo: “Porque as pessoas ficam identificando a direita com regime militar. Aí não dá, né? E deixa eu acrescentar uma coisa: se ser de direita significa defender as liberdades, então sou de direita”.

O regime militar matou, torturou, prendeu e sequestrou, milhares de lideranças de esquerda, ou antes, simplesmente lideranças populares, identificadas como de esquerda apenas porque brigavam pelos direitos do trabalhador.

Algumas centenas de vítimas, porque pertenciam às classes médias e altas, ficaram mais conhecidas, mas as lideranças populares - rurais e urbanas - foram impiedosamente dizimadas sem que houvesse a mínima repercussão. Foram milhares de Herzog em todo país, mas somente o conceituado diretor da TV Cultura é lembrado hoje. O filósofo Rosenfield parece que não compareceu às aulas de história de seu tempo de graduação. Esqueceu que todas as ditaduras militares da América Latina foram de direita, assumidamente de direita, e apoiadas explicitamente pela direita americana. Quer dizer então que identificar direita com regime militar não dá? Não dá por quê? Eu sei: porque a verdade dói.

Esses caras da direita são tão vidrados nos Estados Unidos que volta e meia esquecem que estamos na América Latina e que temos uma história própria, bem diferente da deles. Além do mais, se a direita lá nos EUA foi democrática, foi só na própria casa, porque apoiaram movimentos anti-democráticos em todo planeta, produzindo, sobretudo a partir dos anos 50, centenas de golpes de estado em todo mundo, que resultaram na morte de milhões de pessoas.

O Maianardi não se assume de direita, diz que é o anti-lula. Deixa ele, crente que tá abafando. Na verdade vem se tornando a maior chacota da imprensa nacional. Não vale a pena nem perder tempo com ele.

Dentre os citados, o mais perigoso é mesmo Reinaldo Azevedo, até porque é o mais atuante no debate político doméstico, escrevendo quase diariamente extensos artigos de conotação fortemente partidária. Aliás, o partidarismo assumido de Azevedo, serrista fanático, é um caso raro na imprensa nacional, em geral tímida e posando sempre de imparcial.

Azevedo escreve bem, seus textos contém sempre citações elegantes, lançadas distraidamente ao longo do texto, como que para reforçar a solidez cultural do autor. O brasileiro comum, sobretudo a classe média, ainda é muito sensível a esse pedantismo vulgar.

O defeito de Azevedo é o mesmo de todo ideólogo radical: o exagero, o fanatismo, a grosseria. Não trata seus adversários com respeito. Durante a crise política, a grosseria cresceu. Cometeu atos falhos, defendeu o impeachment mesmo admitindo posteriormente que não havia base legal, colocando-se ao lado de golpistas históricos, como Lacerda. Repercutiu denúncias falsas. Ajudou a produzir as ilações vazias e tendenciosas que fizeram a crise política ganhar dimensão bem acima do merecido.

Com o vigoroso aumento da popularidade de Lula e o fracasso da oposição em comprovar grande parte de suas denúncias - e diante de dados comparativos sobre geração de emprego, gerenciamento de divida pública, combate à sonegação, altamente favoráveis à gestão atual - o prolixo Azevedo começa a dar sinais de cansaço e histeria. Diante da pele grossa de Lula, que suportou o enxovalhamento público com invejável tranquilidade, sem ferir o comportamento democrático e sereno que se exige de um estadista, Azevedo agora ataca os próprios tucanos, embora aparentemente apenas com o objetivo de extravasar-se emocionalmente, visto que permanece apoiando fanaticamente a candidatura de José Serra à presidência da Repúbica. Sem o entusiasmo de antes, é claro, mas com muita combatividade e capacidade de argumentação.

A neodireita citada na reportagem da Folha pode estar de roupagem nova, mas é velha por dentro. Só aceita discutir ética quando é para atacar o adversário. Ataca a esquerda com os mesmos batidos argumentos da guerra fria. Fala nos 120 milhões de mortos do comunismo internacional, número genérico. Quantos efetivamente morreram pelo processo político? A história do comunismo precisa de mais tempo para ser revisada à luz de interpretações mais isentas.

Azevedo fala do comunismo soviético usando somente os argumentos de um lado. Não explica que foi um movimento da classe trabalhadora em sintonia com as necessidades e circunstâncias históricas do momento.

O comunismo não nasceu de um delírio intelectual, mas foi o resultado de uma situação de exploração sem limites do capital sobre o trabalhador, e da necessidade de superação histórica dessa injustiça. Se muitas de suas idéias não deram certo, outras germinaram dentro do próprio capitalismo, galvanizando a classe trabalhadora com uma força que resultou em inúmeros ganhos jurídicos e sociais, os quais, por sua vez, produziram grande crescimento econômico e cultural nos países do chamado Primeiro Mundo.

A Folha, por sua vez, esqueceu de lembrar que, se a direita brasileira vem crescendo nos últimos anos, a esquerda vem crescendo de forma muito mais efetiva e abrangente em toda a América Latina. A vitória de Préval no Haiti e Morales na Bolívia consolidaram essa tendência, que deverá prosseguir este ano, com as eleições no México e a reeleição de Lula no Brasil.

O que está ocorrendo é que as classes médias latinas, na ânsia por manter seus privilégios, estão tendendo para a direita, enquanto as classes populares, sequiosas por mudanças, tendem a votar em candidatos progressistas. Entretanto, segmentos importantes dos segmentos mais escolarizados continuam apoiando a esquerda, que também evoluiu e modernizou-se, aprendendo a ver no capital não um vilão mas uma força a ser regulada através de aperfeiçoamentos constitucionais e decisões de Estado.

Diante da imensa pobreza que ainda existe no Brasil, o conservadorismo político pregado pelos próceres do PSDB e pelos folclóricos intelectuais da direita tupi não seria conveniente para o desenvolvimento econômico do país, nem da América Latina. A direita já teve sua chance e fracassou rotundamente; pode continuar dentro do armário por mais uns vinte anos. Não vai fazer falta nenhuma.

11 de fevereiro de 2006

Por que as charges incomodaram tanto?

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(Satta Hashem - Arte contemporânea do Islã)


O amigo Fernando Soares de Campos, colunista da Insignia e da Novae, divulgou um abaixo assinado bastante pertinente sobre toda essa confusão envolvendo as charges satíricas sobre o Islã e a revolta crescente dos muçulmanos contra isso.

O texto é muito bem articulado, fala sobre democracia, liberdade de opinião, e de forma geral, conclui que a imprensa não deve pedir desculpas pela publicação das charges. Vale uma citação:

"Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo. Porque tudo isso nos une na herança de um processo histórico que aparece agora criminalizado pela susceptibilidade de um dogma impositivo, incapaz de olhar o outro."

Bem, os autores e signatários do abaixo-assinado certamente não determinarão um fatwa sobre mim se eu discordar radicalmente de seu conteúdo, e mesmo reconhecendo a boa intenção notória que perpassa o texto, considerá-lo inapropriado, nocivo, ingênuo e arrogante.

Em primeiro lugar, os autores se consideram portadores da chama da liberdade que brilhou no ocidente. Esqueceram de citar, porém, entre os consagrados autores e idéias, todos os contribuintes árabes, desde os filósofos e bibliotecários que guardaram os livros gregos enquanto a Europa afundava em violência bárbara e obscurantismo católico. Esqueceram de citar os inventores do alfabeto moderno, da matemática, da astronomia, todos árabes.

Tal esquecimento, se não tem tanta importância do ponto-de-vista do conteúdo propriamente dito do artigo, possui um simbolismo interessante, projeta uma visão um tanto egoísta, uma intolerância disfarçada de bom mocismo. Na verdade, é o jeito europeu de ser imperalista, mais sutil e mais sofisticado que o americano.

O amontoado de citações de clássicos ocidentais me parece um tanto descabido. Mais tarde falaremos sobre isso. Sejamos mais diretos. Charges foram publicadas. Maomé com cabeça de bomba. Os muçulmanos não gostaram. Estão fazendo manifestações. Parece um exagero desproporcional para aqueles que analisam superficialmente, focando somente na relação charge X revolta.

Não é só isso. Há outros fatores envolvidos e a última coisa que nos interessa agora é que intelectuais, que supostamente deveriam agir como diplomatas nesta questão, entrem na polêmica de maneira tendenciosa, ajudando a botar mais lenha na fogueira. Os árabes estão revoltados, isso é fato. Os ocidentais estão muito bem obrigado, tirando seus problemas de sempre. Há que acalmar quem está calmo, essa é uma questão de psicologia social e diplomacia internacional. Há que pedir desculpas sim, se não quisermos resolver as coisas, mais uma vez, através da via militar. Não lembro de ter lido nenhum texto de Voltaire fazendo gracinhas desrespeitosas com o Islã; muito pelo contrário, Voltaire é o típico iluminista europeu profundamente influenciado pela cultura islâmica. Inúmeros contos seus são inspirados em lendas árabes, usando inclusive personagens árabes e histórias da tradição árabe.

Também não me lembro de algum pensador socialista escrevendo textos ou desenhando charges desrespeitosas ou ofensivas ao Islã.

Não me lembro que Darwin também tenha o feito. A Revolução Francesa, pelo que me consta, foi um processo brutal, sangrento, que resultou na morte de muita gente, inclusive de seus próceres, Robespierre, Danton, entre outros, condenados por seus próprios camaradas. Ademais, a revolução foi seguida de uma contra-revolução conservadora, que trouxe a aristocracia de volta, depois por Napoleão, e assim vai.

O fato é que o sujeito, quando já leu alguns livros, volta e meia cai na tentação de justificar suas idéias apenas com algumas citações elegantes, não importa que tais citações não tenham muito a ver com o objetivo em questão.

A revolta dos árabes, a meu ver, tem razões bem mais profundas que a simples publicação de charges. Vocês já ouviram falar, por exemplo, da Guerra no Iraque? Por caso, vocês já pensaram que a guerra tem saído das manchetes no Ocidente, mas continua afetando intensamente a consciência do povo muçulmano? Sobretudo depois que as redes árabes, Al Jazeera, se consolidaram e se expandiram por todos os países árabes e muçulmanos? Já imagiram quanto sofrimento essa guerra não causou. Já ouviram falar num fenômeno vulgarmente conhecido como a "gota d'água".

Não? Explico: imagina que um vizinho seu escuta o som muito alto todas as noites, não deixando você dormir, mas você não pode reagir porque tem medo dele. A situação dura um ano, dois anos. Até que um dia, você recebe sua mãe doente em casa, e o vizinho, desta vez, coloca um som baixinho, mas que, subitamente, causa-lhe uma irritação incontrolável, que o faz sair de casa, atravessar o trecho do corredor que separa seu apartamento do apartamento de seu vizinho, bater na porta dele com violência, esperar ele abrir e falar, quase gritando:

- 0 SENHOR QUER FAZER O FAVOR DE PARAR COM ESSE SOM! MINHA MÃE ESTÁ DOENTE EM CASA!

Isso se você for educado e tímido. Se for um sujeito irascível, passional, sua reação talvez seja bem mais intensa. Bem, os árabes são um povo intenso, passional.

Entretanto, vamos ver o outro lado, antes que sejamos acusados pelos neo-conservadores de estarmos passando a mão na cabeça dos árabes coitadinhos, ou dando razão à comissão mundial dos oprimidos, conforme a neo-direita agora gosta de se referir, sarcasticamente, a todos aqueles que procuram estudar as razões da pobreza e da violência entre os homens.

Os árabes têm problemas sociais domésticos muito graves. E tem problemas políticos mais graves ainda. A estratégia governamental de apontar um inimigo externo para desviar atenções dos problemas internos é antiga, eficiente e usada por ocidentais e orientais. No caso dos árabes, parece estar vindo muito bem a calhar nesse momento. Com os atuais preços do petróleo nas alturas, alguns governos árabes estão ganhando tanto dinheiro que, se não desviarem a atenção da massa ignara, logo logo alguns intelectuais ou cidadãos mais esclarecidos começarão a protestar contra a falta de investimentos sociais, econômicos, etc, e muito provavelmente pipocarão denúncias de corrupção...

Não há forma melhor de desviar a atenção de denúncias de corrupção do que reinventar um conflito externo. As sociedades árabes precisam ser mais democráticas, nisso eu concordo com o Bush. Mas o método que ele decidiu usar para interferir nesse sentido foi o pior possível: diante do terrorismo da guerra, os árabes intensificaram sua religiosidade. Essa foi sua maneira de se defenderem contra os valores egoístas e cruéis do Ocidente, com suas gigantescas periferias na América Central, América do Sul e África. Os árabes ficam atônitos com essa democracia de ricos, e amendrontados com a brutalidade com que o ocidente, ou melhor, os EUA, produziram pretextos falsos para levar adiante uma guerra terrível contra o Iraque. Os EUA foram contra a ONU, e daí? A ONU impôs sanções aos EUA? Algum país europeu decidiu impor embargos a produtos americanos? Não!

Os americanos inicaram uma guerra covarde contra o Iraque e ninguém fez nada. Ninguém faz nada. Os americanos ainda reelegeram Bush. A Dinamarca apoiou Bush na guerra! E ainda apóia.

Esses são os motivos da revolta entre os árabes.

Não tem nada a ver com esse abaixo assinado ingênuo sobre liberdade de opinião. Tem a ver com guerra, com política, com morte, com sofrimento, com pobreza, medo, terrorismo.

Por mim, mesmo sabendo que políticos árabes podem estar explorando o fato para desviar o foco das atenções de problemas internos, sinto que estou do lado dos árabes. Aliás, mesmo essa exploração política também não é generalizada, visto que são árabes de diversos países. O fator mais importante mesmo é a revolta acumulada pela Guerra no Iraque e pela maneira tímida e covarde com que a Europa vem agindo diante do poderio bélico americano.

7 de fevereiro de 2006

Como distorcer uma pesquisa

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Diante da recuperação de Lula nas pesquisas do Datafolha (não se esqueçam a quem pertence esse instituto...), os oposicionistas, e incluo aqui evidentemente os jornalistas, pegaram no único item que seria negativo para Lula. 82% dos entrevistados acham que existe corrupção no governo. Fui lá no site do Datafolha (www.datafolha.com.br) e conferi a pergunta:

- Pelo que você ouviu dizer, existe ou não casos de corrupção no governo Lula?

Ora, me espanta que 100% dos entrevistas não tenham dito SIM. Afinal, afirmar que não existe corrupção em um governo, mesmo que seja o governo de Jesus Cristo na Suiça, beira a ingenuidade estúpida.

Foi uma pergunta tola, realmente houve o dedinho dos Frias aí. Uma pergunta muito mais inteligente e construtiva seria: Pelo que você ouviu falar, as denúncias de corrupção no governo estão sendo investigadas e o governo está tomando medidas para combater a corrupção?

Aí sim poderíamos ter uma resposta mais esclarecedora sobre a posição do eleitorado sobre o governo Lula e a corrupção.

A pergunta seguinte da pesquisa é: você acha que presidente Lula tem muito, pouco ou nenhuma responsabilidade nesses casos de corrupção?

E aí temos uma média nacional de 63% dos entrevistados achando que o presidente tem pouca ou nenhuma responsabilidade nos casos de corrupção.

No Sudeste, onde se alardea que vive a maior onda anti-Lula (claro, é onde a mídia mais atua), 63% dos entrevistados acham que Lula tem pouca ou nenhuma responsabilidade.

Para analisar números é preciso muito cuidado. A mídia consegue transformar números positivos para o governo Lula em negativos, é incrível a criatividade de certos setores da mídia.

Outra: quando falam que a recuperação de Lula é sinal de que os eleitores não vêem a ética como ponto fundamental, estão respeitando duplamente a sociedade brasileira, chamando-a de idiota e safada. Fica claro que prejulgam, e prejulgam errado, e não vêem o que está diante de suas caras de pau, que a sociedade cobra ética também da imprensa e da oposição. Montesquiet nos lembra que nas democracias gregas, o pior pária era aquele que acusava em falso. Sua punição era pior que a dos assassinos: morte por apedrejamento. Isso porque eles conspurcavam a liberdade de expressão, princípio sagrado da democracia, usando-a para fins escusos e para a difamação de cidadãos de bem, provocando danos morais muitas vezes irreversíveis.

6 de fevereiro de 2006

Mais sobre a Lista

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Também vale dar uma olhada na coluna do Alceu Nader, ContraPauta, do Observatório (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs/blogs.asp?id_blog=1)

Nader observa que é muito estranho que a mídia não tenha incluído, nas matérias sobre a Lista, o fato importantíssimo de que o documento foi avalizado pelo famoso perito brasileiro, Ricardo Molina. O perito não seria tão idiota de avalizar uma falsificação grosseira. Ele apenas ressalva que se trata de uma cópia. NO entanto, os dois cartórios que caribam o documento avalizaram o documento original. Por muito menos, caíram figurões da república. O ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (no caso, foi até bom que tenha se ido, a oposição fez gol contra) caiu por causa de um cheque de 10 mil reais. O circo está pegando fogo. O PSDB vai perder muito voto. A próxima pesquisa vai mostrar isso. A mídia tenta esconder mas esquece que a internet está aí para isso. Estou viajando nos comentários dos principais blogueiros políticos do país, Noblat, Josias e Fernando Rodrigues, a enxurrada de mensagens protesto contra a explícita tendência tucana dos três tem sido avassaladora. Eles vão ter que mudar ou então perder muito prestígio.

A reação de toda a mídia foi instintiva: recuou, desmereceu a lista, como se jornalistas fossem peritos. o Estadão chegou ao ridículo (ahahaha, deixe-me rir um pouco) de dizer que o site que hospedava a lista tinha link para blog petista e banner do Fome Zero. Como se a Lista não tivesse em mãos da polícia federal e tivesse sido divulgada pela Reuters. Se o governo tivesse inventado a lista poderia publicar em qualquer site, inclusive criar um site, que é a coisa mais fácil do mundo. Alguns colunistas destacaram pequenos erros na lista, como Empresa de Eletricidade de Portugal e não Empresa Elétrica. Esquecem que esse tipo de erro só legitima a lista, visto que é um documento clandestino, sem nenhuma finalidade legal rigorosa, e como tal sujeito a erros. A afobação por negar legitimidade à lista foi tanta que alguns jornalistas, ao que parece, o fizeram sem nem ao mesmo examinar o documento, como se tivessem obedecendo a ordens padronizadas vindas de cima. Por exemplo, foi dito que Alckmin não era governador e constava lá como governador. Fui ver a lista e está lá ALCKMIN, CANDIDATO A GOVERNADOR.

Ridículo.

Agora, falemos sobre o Roberto Jefferson. Sei que ele é um mentiroso. Entretanto, é inegável que ele sabe das coisas. Muita coisa que ele disse se confirmou. Foi ele que denunciou o Caixa 2 do PT e dedurou o Marcos Valério. A única coisa que realmente não provou foi propriamente o mensalão e as acusações sobre Dirceu. A midia, no entanto, cansou de dar espaço para Jefferson. Inclusive havia aquele processo exaustivo de repetir, repetir, repetir, a mesma coisa. As mesmas denúncias de mensalão e acusação de corrupção contra o governo.

E agora? Não quer ouvi-lo mais?

A entrevista de Jefferson para a Carta Capital ajuda a elucidar muita coisa. Jefferson afirma que as mesmas pessoas que constam na Lista foram as que pediram, ou melhor, pressionaram pela permanencia de Dimas na diretoria de Furnas.

Elio Gaspari também noticia, domingo, que Dimas costumava alardear pelos quatro ventos que fora ele o responsável pela eleição de Alckmin e outros.

Uma coisa é certa. A última pesquisa do Datafolha mostra que Lula recuperou-se vigorosamente junto às classes populares, mas ainda não junto à clase média e alta. A Lista de Dimas vai fazer o serviço. Porque, se a classe baixa não tem acesso à internet, a classe média e alta tem e está muito atenta às artimanhas da mídia para ocultar a Lista de Dimas. Ademais, mesmo se a Lista não for verdadeira, caiu a máscara de isenção da mídia, ao não dar informações importantes, como a assinatura do perito Ricardo Molina confirmando a legitimidade do documento. É um absurdo não ter dado essa informação. Se fosse contra o PT, teríamos a manchete:

PERITO CONFIRMA QUE A LISTA É VERDADEIRA

O conceituado perito Ricardo Molina confirmou esta semana que lista de Dimas Toledo, contendo nomes e valores referentes ao caixa 2 da campanha de 2002 não é uma falsificação. Ressalvando apenas que é uma cópia, Molina afirma que a lista tem toda a aparência de ser verdadeira. Os carimbos de dois cartórios foram feitos no documento original, confirmando a assinatura de Dimas.

A lista de Dimas mostra que o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, recebeu 9,3 milhões de reais de empresas fornecedoras de Furnas, sendo 3,8 milhões no primeiro turno e 5,5 milhões no segundo turno.

José Serra, atual prefeito de São Paulo, e então candidato à presidencia da República, também recebeu uma bolada: 3,5 milhões de reais no primeiro turno e igual quantia no segundo turno.

Rodrigo Maia, ACM Neto, Zulaiê Cobra, quase todo o PSDB está presente na Lista.

O senador Arthur Virgílio, ao saber da lista, declarou que não acreditava em nenhum caixa 2 que não contivesse nomes petistas, ofendendo a inteligência da nação, visto que o PSDB era o principal adversário do Partido dos Trabalhadores e seria irracional que as fontes de recursos para o Caixa 2 do PSDB também se destinassem ao PT.

Bem, você pode conferir a lista por aqui e tirar suas próprias conclusões. Eu, por mim, estou muito bem informado das roubalheiras bilionárias de FHC, como o PROER, as privatizações, o SIVAM, a reeleição e tantos outros.

De qualquer forma, para mim o mais importante a saber é que FHC fez um governo de merda, aumentando a dívida pública interna e externa, vendendo um patrimônio estatal que era fruto de uma luta secular e produzindo desemprego e miséria.

A Vale do Rio Doce, tão açodadamente vendida por FHC por míseros 3 bilhões de reais (pagos em moeda podre e com dinheiro do próprio BNDES), era resultado de uma luta da sociedade brasileira pela autonomia e independencia financeira. O Estado investiu capital, humano e financeiro. Antes, foi uma conquista democrática, porque votamos no Vargas e no Juscelino para que criassem a Vale e a Petrobrás. Tudo isso para um canalha como FHC chegar e vender tudo por trocados. E tudo com empréstimo do BNDES?

Sobre a Lista de Dimas

1 comentário

Várias coisas estão esquisitas no tratamento que a mídia tem dado à lista de Furnas. Em primeiro lugar, conforme muito bem escreveu o jornalista do Observatório da Imprensa, Alceu Nader (um dos poucos por lá a ter culhão), a mídia simplesmente não divulgou uma informação importantíssima: que a autenticidade da lista foi avalizada pelo perito Ricardo Molina, considerado um dos maiores profissionais do ramo.

A mídia também não destacou o fato de que dois cartórios autenticaram o documento original do qual a lista é cópia.

Tem soado muito ridículo o uso de termos depreciativos para tratar a lista como "cópia da cópia", um pleonasmo que serve apenas para denegrir o valor do documento.

Também não foi destacado o fato da Polícia Federal estar trabalhando seriamente com a Lista. Ora, então agora os Delegados Federais são uns palhaços? A matéria da Reuters publicada aqui mostra que PF tem vários indícios de que a lista seja verdadeira. Não foi somente o Jefferson que confirmou. Há outros recebedores que confirmam a lista.

Agora, o cúmulo da desfaçates, que beirou a histeria, foi a matéria, publicada no Estadão e repetida por muitos jornalistas, de que o site que hospedava a Lista era ligado ao PT. Ora, a Lista estava em mãos da PF, foi repassada para Reuters. O tal site publicava a lista por razões políticas óbvias.

3 de fevereiro de 2006

Governo Lula faz inflexão política

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De uma hora pra outra, o terrível blogueiro Ricardo Noblat virou cronista de tragédia marítima. Fenônemo inexplicável, visto que o assunto não rende comentários nem desperta interesses para o público brasileiro. Mais inexplicável ainda se considerarmos que o post dele sobre a lista do Dimas trouxe imediatamente mais de duzentos comentários, sendo este, portanto, o assunto mais premente do momento. Ué? O blog dele não era um blog político?

O jornal Globo de hoje, sexta-feira, não traz sequer uma linha sobre o assunto.

Bem, mas eu não estou aqui para falar da tal lista profana. Ela pode ser falsa e, de qualquer forma, o governo Lula não precisa desta lista para se reerguer. A popularidade de Lula já vinha crescendo vigorosamente antes mesmo dela aparecer. A crise também já vinha minguando. Por isso, acho leviandade grossa as insinuações maliciosas da oposição e da mídia de que a lista seria uma produção do governo para abafar a crise.

Por mim, acho a lista perfeitamente verossímel. Além disso, ela foi atestada pelo indefectível Roberto Jefferson. Quando o mesmo falou sobre o mensalão, todos acreditaram, mesmo ele afirmando que não possuía um documento, uma prova. Pois bem, agora o Jefferson afirma que recebeu os R$ 75 mil de Dimas, sugerindo a veracidade da lista. Agora há provas, e a mídia, e os colunistas e os âncoras da TV não falam nada? Jabor! Ei, Jabor! Cadê você e sua cara vermelha, raiventa, babando veneno pelos cantos da boca?

Como ia dizendo, o governo Lula não precisa da lista. A inflexão política de Lula começa em 2006 com o surgimento de novas lideranças petistas, mais duras e mais afinadas com o Planalto. Começa com a eleição de Aldo Rebelo para a presidência da Câmara, decerto o parlamentar mais brilhante e preparado a presidir a Casa, sem falar no poderoso simbolismo de ser o primeiro comunista a ocupar cargo tão importante no país...

A inflexão política de Lula vem em 2006 com o forte aumento no salário mínimo, a ser pago com um mês de antecedência, representando uma das maiores vitórias da classe trabalhadora e das centrais sindicais dos últimos 50 anos.

O preço da carne, do frango, dos alimentos e da cesta básica vem caindo vertiginosamente nos últimos anos, ao mesmo tempo em que a agricultura se mantém pujante e saudável, apesar da queda na renda provocada pelo dólar.

Os recursos da Caixa Econômica Federal a serem aplicados na habitação este ano, 11 bilhões de reais, são os maiores dos últimos vinte anos, e junto com o setor privado, envolvido no pacote federal, totalizarão mais de 17 bilhões de reais.

A criação da CPI da Privatização, que investigará a corrupção no governo tucano, também foi um ato de grande importância na luta política brasileira. Existem toneladas de documentos e gravações comprovando que houve corrupção, desvios, incompetência, má fé e, por que não dizer, atos de lesa-pátria, no processo de privatização do setor público promovido pelos administradores tucano-pefelistas.

A desembargadora que reabriu o processo contra a privatização da Vale do Rio Doce observou que imensas jazidas de minérios valiosíssimos não foram sequer incluídas no relatório da Merril Lynch que avaliou o preço da mineradora brasileira.

Eu lembro muito bem como foi a privatização da Vale do Rio Doce. Aquilo me marcou muito. A assinatura da privatização foi feita no Bolsa do Rio, na Praça XV. O governo montou uma praça de guerra, para evitar as manifestações de milhares de pessoas contra a privatização. Houve confronto com a polícia. Foi uma das raras vezes que participei de um ato público. Acho que foi a partir daquele momento que resolvi me informar mais sobre política. Senti que, se não fizéssemos alguma coisa, os párias da nação iriam destruir nosso país, como de fato quase o fizeram.

Participei da luta contra o governo FHC da forma mais democrática possível. Escrevia artigos, publicava jornais e desenvolvia argumentações para convencer as pessoas a não votarem nele novamente. Não gostava, porém, das táticas da ultra-esquerda, de "Fora FHC Fora FMI". Achava de uma falta de criatividade brutal e sem apelo. Continuo achando, sendo que a falta de originalidade se tornou agora um caso patológico, visto que em sua última manifestação nacional a ultra-esquerda pregou o Fora Todos. Como se devêssemos retornar a monarquia: não sei bem se regida pelo José Maria do PSTU ou pela Heloísa Helena.

Quando Lula se lançou candidato, não tive nenhum pudor de ser tendencioso e o apoiei desde o início, assim como o faço até hoje. O primeiro ano, 2003, foi difícil para Lula e me esforcei para fazer os intelectuais enxergarem a necessidade de darem pelo menos 2 anos de prazo para o novo governo botar ordem na casa.

Aconteceu, enfim, que Lula se mostrasse um bom presidente, que erra mas sabe voltar atrás. Com pouca instrução mas muito experiente politicamente, muito viajado e muito respeitoso do saber alheio - à diferença dos intelectuais de outrora, como FHC, que não escutava ninguém e quase quebrou o país em 1999, com a desvalorização cambial.

A crise política despertou velhos preconceitos, sobretudo entre a classe média, que é o grande público alvo dos jornalões. Agora, contudo, setores importantes da classe média, que estavam silenciosos e perplexos diante da crise, estão surgindo. O blog do Noblat, que tinha virado um impressionante captador de raivosos anti-petistas, agora está repleto de comentários irados contra a oposição tucana e a favor de Lula. O Observatório da Imprensa tem sido literalmente tragado por uma avalanche de mensagens pró-Lula e contra a postura editorial dos principais grupos midiáticos.

De fato, a História não morreu. Está viva, a velha safada, prestando atenção nas fofocas e dando seus murros na mesa de vez em quando...

2 de fevereiro de 2006

Não quero falar nada sobre isso, ainda

1 comentário


(Egon Schiele)

Confiram estas notícias sobre o Caixa 2 da base de FHC em 2002. Eu já tinha ouvido falar dessa lista. Ela ficou abafada por meses, até que os peritos da PF confirmaram a autenticidade e, agora, o Bob Jeff também confirmou. Agora, porque ele não falou dessa lista antes, héin? Para mim, Jefferson não tem a mínima credibilidade, mas a lista existe, é um documento. Cliquem nos links abaixo. Depois a gente conversa.

No IG
Na Reuters
Na Terra

1 de fevereiro de 2006

Tem início nova batalha pelo poder

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(Otto Dix)

A disputa pelo poder federal no Brasil, que começa a se intensificar agora, será extremamente importante não apenas para o país, mas para o mundo inteiro. Afinal, o Brasil é detentor de recursos naturais, humanos e industriais que muito interessam a toda comunidade internacional. Lembrando: o Brasil possui as maiores reservas de minério de ferro do planeta.

O fato de termos conseguido alcançar a autonomia em petróleo e possuir os maiores manancias de água potável do mundo também contam nas avaliações independentes que se fazem sobre o papel do Brasil na geopolítica global.

Além disso, o Brasil tem um papel extremamente relevante na América Latina. A política exterior brasileira tem ajudado todos os países latino-americanos a elegerem políticos de esquerda. O apoio de Lula a todos os candidatos de esquerda da América do Sul (Chávez, Moráles, Michelet, Tabarez, Kirchneer) são o maior cala-boca que o Brasil já deu no Tio Sam.

O México também poderá eleger um presidente de esquerda nas eleições deste ano, o atual prefeito da Cidade do México.

Por estas razões, a reeleição de Lula será extremamente importante para a continuidade da agenda progressista que se desenha no futuro próximo para a América Latina. Da mesma forma que os mercados temiam Lula na presidência, os movimentos sociais e segmentos importantes da sociedade brasileira agora temem a volta do PSDB ao poder federal.

Dito isto, vamos dar uma espiada nos campos de batalha. Esta semana, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ousou um traiçoeiro e inteligente ataque político contra o governo federal: declarou que a oposição precisa impor o tema do debate eleitoral, e este tema deverá ser a questão moral. Sem incluir nenhum termo que amainasse a desfaçatez, disse que "a conversa do governo é que a questão moral não conta mais. Conta, sim. Ladrão, não mais", disse FHC.

Se a opção tucana realmente concentrar-se sobre a questão moral, ela pode se dar mal. Por dois motivos muito importantes.

Primeiro porque a opção admite a vitória do governo em todos outros temas relevantes: política industrial, política exterior, política agrária, política social e política cultural.

Segundo porque - como disse o amigo Osvaldo Bertolino, em sua última coluna no Vermelho, - FHC deveria lavar a boca três vezes antes de falar de corrupção no governo Lula.

Há dez anos, os jornalões vêm procurando a todo custo, tapar a podridão exalada pelo ex-governo tucano. A crise política, que exercitou de forma surpreendente a habilidade da imprensa, da oposição e mesmo de setores da esfera pública, de enxergar, criticar, e tirar proveito, dos menores deslizes cometidos por gente ligada ao governo, começa a produzir o velho efeito Bumerangue.

De fato, os mesmos jornalões que noticiaram com estardalhaço que no extrato daquelea figurão ligado ao PT constava 15 reais referentes a um site erótico, nunca deram nenhum destaque as putarias diárias que os paxás da direita nacional praticam há décadas.

Mas agora, algumas ações do Ministério Público e da Justiça Federal, contra figurões do PSDB e do PFL, incluindo o próprio ex-presidente FHC, estão obrigando a imprensa a dar algumas notas sobre o assunto.

A CPI das Privatizações, por exemplo. Uma corajosa desembargadora federal, de posse de toneladas de documentos e milhares de ações populares, decidiu reabrir a questão da privatização da Vale do Rio Doce. Lideranças progressistas que acompanharam, estarrecidos, a entrega da nossa empresa mais importante, mais poderosa e mais estratégica, por um preço aviltante, não perderam tempo e pularam no touro bravo. Criaram a CPI, se levada adianta, irá desvelar o mais assombroso assalto aos cofres públicos da História brasileira desde que D.Pedro I e corte voltaram a Portugal levando todo dinheiro do país.

Se FHC quiser realmente levar a questão moral adiante, terá que explicar porque jazidas inteiras de urânio, ouro, nióbio, não foram incluídas entre os bens da Vale, sendo entregues gratuitamente para empresas internacionais...

O fato é que a última pesquisa do Ibope sobre as eleições, que mostraram a surpreendente recuperação de Lula, causou não apenas espanto entre analistas políticos de jornalões, mas também certo temor. Afinal, se estávamos diante do mais escândalo de corrupção de todos os tempos, como explicar tal recuperação? Medidas populistas? Não, pelo contrário. O governo Lula pisou fortemente no freio em 2005. Discursos inflamados? Nada disso, Lula tem se mostrado inclusive bastante discreto, e durante a crise não produziu nada genial em termos de oratório, muito pelo contrário, a crise deixou-o visivelmente abatido.

Que fez Lula para reassumir a liderança nas pesquisas de intenção de voto?

Bem, a oposição nunca vai admitir, mas Lula fez simplesmente o que todo político deveria fazer: um governo competente, prudente, que ouve críticas e sabe alterar projetos quando se faz necessário.

Por exemplo, há pouco tempo, um repórter pegou o ministro do desenvolvimento, Luis Fernando Furlan, de mal humor e conseguiu uma frase dita meio impensadamente: o governo não tem projetos.

O repórter não perdeu tempo. Sem contextualizar a frase, que expressava alguma situação específica que deveria ocupar a mente de Furlan naquele momento, a mídia ecoou-a por toda parte. Virou manchetes. Na TV, os velhos burguesões de sempre repetiram-na à exaustão, exacerbando-lhe o sentido, agregando-lhe outros.

De nada adiantou o ministro ter se esforçado para divulgar por toda a parte uma nota oficial desmentindo a declaração e explicando em que sentido havia falado. O que interessava à mídia era a primeira frase e pronto.

Ocorre que a crítica da "falta de projetos", "ineficiência administrativa" e "falta de autoridade" vem rondando o governo Lula desde os primeiros dias da gestão.

Bem, em primeiro lugar, o Estado brasileira realmente tem problemas. Todos sabemos disso. Mas também existem preconceitos da classe mandona nacional, os descendentes dos grandes proprietários, que possuíam valores morais bem definidos, sendo o autoritarismo, o mandonismo, um dos mais sagrados.

Por que os programas políticos da direita nacional nunca dão certo? Justamente por isso. São autoritários, forçados, mandões. Os mandatários da direita não sabem dialogar com a sociedade. O Congresso Nacional reclama da medidas provisórios de Lula, mas a média de MPs de FHC foi quatro ou cinco vezes superior. E isso com um controle político sobre o Congresso muito maior do que o de Lula, que tem minoria no Congresso.

Sindicalistas, movimentos sociais, estudantes, sabem muito bem como era o diálogo com o governo tucano: porrada.

As coisas estão diferentes agora. O governo erra em muitas partes, mas os movimentos socais tem liberdade para exercer pressão e espaço para influenciarem as decisões governamentais.

Por exemplo: acusa-se a Polícia Federal, sob o governo Lula, de fechar uma quantidade enorme de rádios comunitárias, mais do que no governo anterior. Está certo. Está aí um erro grave de Lula. Mas que está sendo corrigido. Em primeiro lugar, quando Lula chega ao poder, centenas de ações tramitavam nos tribunais para o fechamento de rádios não-autorizadas. Essas rádios muitas vezes estão inseridas em conflitos políticos locais - até porque 80% destas rádios estão em mãos de oligarquias e igrejas evangélicas - e sofrem pressão contínua de seus adversários. O governo Lula, no quesito respeito às instituições democráticas, tem sido exemplar. A Justiça erra, mas tem que ser respeitada. A luta se dá nas esferas democráticas e é de acordo com essa visão que o governo federal enviou Projeto de Lei que regulamentará as rádios comunitárias no país. Nunca em governos tucanos se pensaria em tal coisa.

Outra confusão grande que está ocorrendo é sobre a reforma agrária. Já falei sobre isso em artigo anterior mas irei repetir aqui. Há uma grande divisão no movimento social camponês. De um lado estão os sem-terra, de outro os pequenos agricultores. O MST, por exemplo, é considerado um dos principais movimentos sociais do país. Milhares de famílias ligadas ao MST conseguiram ingressar nos cadastros do Pronaf, que oferece diversos tipos de ajuda para o agricultor familiar. A medida, contudo, contraditoriamente, enfraquece o MST, pois à medida que as demandas vão sendo atendidas, o índice de insatisfação e rebeldia cai e o movimento encontra dificuldade para continuar pressionando pelo aprofundamento das reformas. O MST, contudo, conseguiu compreender o dilema e conseguiu crescer, trazendo mais gente para suas fileiras e incrementando seus objetivos.

Há que entender, porém, que importantes segmentos da esquerda acomodaram-se no protesto fácil, e prosseguem com os mesmos discursos dos anos 70, 80 e 90. Há intelectuais sensíveis demais para suportar a aspereza do poder, mas precisamos justamente de uma esquerda mais dura, mais forte, mais pragmática, para segurar o leme do país; se é duro governar, então sejamos duros. A direita, acostumada a governar há séculos, não encontra nenhum escrúpulo, inconveniência ou dificuldade para lidar com os mecanismos nem sempre limpos do poder. Essa é a grande "eficiência administrativa"alardeada por gente como Geraldo Alckmin: governar sem sujar as mãos e sem deixar nada aparecer nos jornais; e quando algum podre vazar, basta ligar para seus camaradas de chop, donos do Estadão, Globo e Folha, e prometer polpudas verbas do BNDES.

Ah, lembrei! Lembro nitidamente quando li uma notinha no jornal Globo sobre as negociações entre o BNDEs e as empresas de mídia. O BNDEs oferecia recursos às empresas de midia, mas, ao que parece, estava exigindo contra-partidas. Bem, pareceu-me que o banco estava somente tomando as devidas providências para proteger o erário público. Contudo, as empresas de mídia queriam dinheiro grátis do governo e não conseguiram. Com FHC, seria tão diferente!

A Globo conseguiu mais de 1 bilhão de dólares com o governo tucano, razão pela qual você não vai encontrar, em qualquer página da Globo, qualquer crítica mais contundente contra FHC. Os colunistas políticos principais do Globo: Miriam Leitão, Merval Pereira e Arnaldo Jabor, são todos tucanos declarados e assumidos, apesar de Miriam e Merval disfarçarem bem. Outra colunista do Globo, Teresa Kruvinel, parece independente. Soube criticar bem o governo Lula, obedecendo ajuizadamente a política editorial do jornal, mas nunca com o histerismo frequente da Miriam e do Merval.

Chegamos ao fim do artigo e, contrariando minha tradição, sem grandes frases. Conforme a luta se intensifica, aumenta a necessidade de sermos menos eloquentes. O importante é lastrear-se com sólidos argumentos ideológicos e abundante e confiável material estatístico. Sem esquecer, porém, o poder puramente emocional de determinadas idéias.

Numa democracia, os combates mais sangrentos ocorrem no campo da linguagem. Mas requerem as mesmas virtudes exigidas a todo combatente: coragem, resistência, lealdade, perseverança, criatividade, inteligência, rapidez, e uma visão bem clara de quem é o inimigo.

O inimigo é o PSDB e seu partido-laranja, o PFL, conforme genial expressão de Wanderley Guilherme dos Santos.