31 de julho de 2011

Motel Solano Trindade

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Curiosa vida. Numa hora Solano Trindade recita poemas no Vermelhinho, aquele boteco em frente à ABI, diante de figuraças como o Barão de Itararé, o próprio, banha, cachaça, piadas; eis que, sessenta anos depois, um blogueiro bêbado pratica desatinos idiotas num motel sombrio de Duque de Caxias. Tipo se levantar à noite, sonâmbulo, e mijar num canto do quarto, qual um exu mal ajambrado e babaca.

Eu tenho dívidas, confesso. Malditos livros sobre a idade média, filmes antigos, oitocentos posts sobre política, alguns condomínios atrasados. Ambições mesquinhas. Vaidade. Fernando Pessoa escrevia cartas comerciais para ganhar dinheiro. Eu tenho raiva dos poetas vendendo livrinhos xerocados na porta da Biblioteca Nacional. Gosta de poesia, me perguntam. Não, eu respondo.

Eu não gosto de poesia, seus putos.

Mas fui à Caxias dirigindo meu carro velho, um pouco nervosamente por estar há mais de dez anos sem pegar estrada, e além disso, não sei se o Haiti é aqui, mas a Faixa de Gaza (ali na Leopoldo Bulhões), com certeza, é.

Cheguei depois da exibição do filme, mas a tempo para a festa no vão do Sesc, um trambolhão gigantesco desenhado por Oscar Niemeyer, encravado esquisitamente no caótico centro de Caxias. A tempo, enfim, de curtir música boa, beber cervejas a quatro reais no botequim do outro lado da rua, encontrar meu velho amigo Renato que apareceu do nada, e ter amnsésia depois de torrar uma pequena fortuna.

Assisti ao filme em casa, no dia seguinte, um belo documentário sobre o inesquecível poeta Solano Trindade, amigo dos comunas da década de 40, rival e parceiro de Abdias Nascimento, uma espécie de Luther King pinguço, macumbeiro e mulherengo. Um poeta.

E eu não gosto de poesia.

Porque a poesia não existe, seus putos.

O que existe é o poeta, dizia Dante Milano.

Solano participou de treze filmes, entre eles alguns clássicos do cinema nacional, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Pesquisava manifestações folclóricas e produzia espetáculos que marcaram muitas gerações. Suas festas, em Caxias ou em Embu, São Paulo, duravam três dias. Como diria outro negão, anos depois, Solano era o cara.

A minha diversão durou apenas até duas e pouca da manhã. Dormi num motel perto do centro, minha mulher com medo que algum psicopata arrombasse a porta de madrugada e nos matasse (a porta, aliás, estava mesmo arrombada).

As ruas cheias de craqueiros alucinados. Caxias, a quarta economia do país, e o melhor hotel está cheio de mosquitos. Godi, Fiorenza, poi che se' sì grande, che per mare e per terra batti l'ali, e per lo 'nferno tuo nome si spande!

Goza, Caxias, pois que és tão grande, que por mar e terra bate asas, e até no inferno teu nome se expande!

E todos com receio do senhor Zito, com tantos capangas e nenhuma capa preta. Nada disso. A Lurdinha, dessa vez, está na mão do povo! Quer dizer, do HB, o que é quase a mesma coisa.

Então lá estava o blogueiro na festa de nove anos do cineclube Mate com Angu, coroada com um filme sobre Solano Trindade. Aindo prefiro Dante Alighieri, mas Solano é coisa nossa. Ele, o prefeito-mafioso, um bom café da manhã num motel vagabundo. E as lembranças, algo nebulosas, culpadas, magníficas, de uma grande farra entre camaradas.


(Equipe de produção de O Vento Forte do Levante, um honesto
e competente documentário sobre o poeta Solano Trindade).

25 de julho de 2011

Óleo em nova fase

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Desde algum tempo venho namorando a ideia de mudar a linha editorial do blog, mas percebi que isso seria, ao mesmo tempo, uma alteração na personalidade do próprio blogueiro. A descoberta não me fez desistir, mas adiar o plano. Uma coisa é sentar a bunda na cadeira e escrever o que seu consciente deliberar. Tornar-se uma outra pessoa é muito mais complicado. Refiro-me aqui, naturalmente, não à minha personalidade real, mas à persona literária, ou melhor, persona blogueira.

O desafio consiste em não parecer pernóstico, de um lado, nem burro, de outro. O sujeito quer escrever sobre um tema com o qual não tem familiaridade e algo em seu estilo transparece um pedantismo adocicado. Ou então se revela simplesmente burro, por fazer afirmações equivocadas, confundir conceitos, e tudo isso agravado pela ausência de humildade.

Na verdade, porém, para quem acompanha o Óleo há bastante tempo, não haverá nenhuma surpresa extraordinária. Até nome já troquei. Dessa vez mudarei apenas a linha editorial, com acréscimo de matérias sobre literatura, cinema e filosofia. Parece papinho de blogueiro amador, mas é isso mesmo que eu quero voltar a ser. Um blogueiro amador.

Por uma coincidência feliz, também estou me desligando, temporariamente ao menos, do movimento dos blogueiros progressistas. Indicaram-me para representante regional do Rio de Janeiro, e de repente vi meu nome no meio de uma briguinha trotskista de baixo nível. Odeio baixaria com todas as minhas forças e acho que os blogueiros devem, antes de qualquer coisa, escrever em seus blogs.

A blogosfera independente nunca fará diferença se não mostrar trabalho e talento. Podem fazer quantos eventos quiserem, nomear representantes, entrevistar Lula, Dilma, Obama, usar todo o vocabulário para xingar a mídia... Vai continuar provinciana e desimportante se não provar à sociedade que tem qualidade no campo da análise política, da redação literária e da pesquisa em todos os campos das ciências humanas e exatas.

Também não podemos nos limitar à blogosfera política. Aí entro no assunto deste post. Eu preciso desesperadamente escrever sobre outros temas. E não como passatempo, mas para me aprofundar neles, para tentar dizer alguma coisa nova, original, que valha o tempo perdido pelo leitor ao acessar o blog. Posso fracassar miseravelmente em meus intentos, mas preciso tentar.

Enfim, preparem-se porque o Óleo do Diabo, às vésperas de seu aniversário de sete anos (nasceu num dia 14 de agosto de 2004) empreenderá novas e surpreendentes viagens...

24 de julho de 2011

Exportações brasileiras até junho de 2011

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Publico aqui uma estatística importante, porque muito pouco conhecida. Segundo dados colhidos no sistema Alice, banco de dados online do Ministério do Desenvolvimento, o Brasil exportou um total de 231 bilhões de dólares nos últimos 12 meses, até junho último.

Um dos principais blocos econômicos comprador de produtos brasileiros foi a América Latina e Caribe, que importou 53,2 bilhões de dólares em 2010/11. Este valor foi maior do que o total exportado para União Européia ($49 bilhões), China ($ 39 bilhões) e EUA ($22 bi).

O mais impressionante, no entanto, não é isso, e sim o valor médio que nossos hermanos pagaram por nossos produtos: 1.248 dólares a tonelada. Contra 468 dólares a tonelada pagos pela Europa e 202 dólares pela China.

A razão disso é que a maior parte de nossas exportações de produtos industrializados, que tem valor agregado mais alto, destinam-se à América Latina.

Clique nas tabelas para vê-las sem cortes.


A tabela abaixo mostra que tipos de produtos são exportados para a América Latina. Repare que, entre os 10 mais importantes, todos (com exceção do petróleo) são manufaturados, como autopeças, maquinários, aparelhos elétricos, aço, plásticos e papel. Também exportamos aviões, produtos químicos e instrumentos óticos.


A conclusão é que a América Latina e Caribe tornou-se o bloco estratégico para escoar e ampliar a nossa exportação de produtos industrializados.

22 de julho de 2011

Com que roupa?

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Com Que Roupa a Direita Política Vai?

Por Fabiano Santos, para o Valor.

Não faz muito tempo, o Brasil recebeu a visita do primeiro-ministro da Suécia, Fredrik Reinfeldt, líder do Partido Moderado, direita em seu país, o qual tem no governo se caracterizado, de fato como o nome indica, pela moderação tanto em suas ações, quanto em sua retórica. Em entrevista ao Valor Econômico, Reinfeldt, descreveu os pontos básicos sob os quais se assenta a estratégia política de sua gestão: aceitar a tradição igualitária que moldou a evolução do capitalismo escandinavo, procurando estimular a competitividade de setores selecionados da economia através de políticas de inovação e desoneração fiscal. Os efeitos da adoção de tal estratégia são significativos e tangíveis. Mesmo em tempos de globalização, a carga tributária é relativamente alta, assim como a despesa em itens como educação, saúde, previdência, habitação, além de investimentos na infra-estrutura física necessária para o dinamismo e sustentabilidade das indústrias de bens e serviços.

Bastante diferente é a postura da oposição de direita ao governo de Barack Obama nos Estados Unidos. Antes de Obama, quando no governo, dominando a Casa Branca, assim como as duas Casas legislativas, os republicanos promoveram o mais amplo e radical programa de redução da carga tributária jamais vista na história do capitalismo. O objetivo confesso sempre foi o de desmontar o tímido, para padrões do norte europeu, welfare state norte-americano. Ronald Reagan já anunciava o inconformismo dos conservadores com o que chamavam de excessos de gastos sociais e participação do estado nas decisões econômicas das famílias e indivíduos. Contudo, em sua presidência, os democratas sempre mantiveram a maioria na Casa dos Representantes e durante quase todo o tempo também no Senado, obstaculizando assim o projeto minimalista dos radicais à direita.

O atual impasse entre republicanos e democratas quanto à elevação do teto de endividamento do governo pode ser visto então como resultado de anos de confrontação política e, principalmente, da postura da direita americana de a qualquer custo solapar as bases de sustentação do gasto público na área social. Obama pede hoje mais impostos, sem os quais é impossível manter alguma chance de reequilibrar as finanças do governo. A oposição pede aquilo que vem pedindo desde os anos oitenta – zerar o gasto do estado com os pobres. E agora, Obama? O que fazer? Aumentar impostos? Os republicanos, maioria na Câmara, dificilmente concordarão. Cortar gastos e dramatizar a situação de pobreza e desigualdade cuja tendência tem sido apenas a de se agravar a cada ano? A resposta será politicamente intolerável para os democratas.

O problema da direita política no Brasil é a de saber qual paradigma de oposição pretende-se adotar face ao papel assumido pelo estado no atual estágio de desenvolvimento capitalista em nosso país. Ao contrário do diagnóstico que muitos intelectuais, políticos e jornalistas especializados fizeram no calor da hora dos anos de ouro do neo-liberalismo, mais exatamente nas décadas de 80 e 90 do século passado, a presença do setor público foi ampliada em alguns casos e sua ausência muito sentida nas ocasiões nas quais os riscos da competição tornavam-se maiores. Isto é, a clientela eleitoral do welfare state e em favor de políticas protecionistas nunca deixou de existir. Proteger as pessoas, garantindo amparo aos que sofrem com o dinamismo de economias muito expostas ao mercado externo foi o modelo seguido por vários países na virada do século 20 para o 21. Talvez o voto facultativo combinado ao sistema eleitoral para as eleições legislativas baseadas em maiorias simples em distritos uninominais, instituições altamente excludentes em seus efeitos, seja uma boa explicação, mas o fato é que a fórmula de enfrentamento dos americanos aos desafios da globalização, em especial da direita americana, foi radicalmente diferente: aprofundar ainda mais a flexibilidade das instituições que organizam o mercado de trabalho com o conseqüente aumento na capacidade das firmas de se ajustarem a condições econômicas em constante mutação.

Os últimos governos no Brasil têm se caracterizado, isto é inegável, pelo combate aos seculares problemas da pobreza e da desigualdade. A estratégia, desde sempre, é a mesma e uma só: organizar as instituições do setor público para o atendimento eficiente das populações marginalizadas, tendo em vista inseri-las na vida produtiva com mínimas condições de sucesso. Programas como Bolsa Família, a priorização do ensino técnico, assim como o recente projeto de erradicação da miséria, caminham na mesma direção, a saber, investimento público em capital humano, reduzindo a exposição dos indivíduos às vicissitudes da economia capitalista.

O problema do potencial eleitor da direita no Brasil, por conseguinte, não é saber se os políticos com tal inclinação sairão ou não do armário. O problema é saber qual a estratégia política que um eventual governo controlado pela atual oposição conservadora seguirá: fará como a direita tem feito na Suécia, aprofundando os elementos do novo pacto político no Brasil, que tem na pobreza um inimigo a ser combatido com todas as forças? Ou adotará uma estratégia de confrontação e desmonte das ainda frágeis instituições do welfare state brasileiro?

* Cientista Político, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

20 de julho de 2011

Sobre a desindustrialização

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Um leitor-amigo entrou em contato comigo para acusar o projeto de governo Lula/Dilma como sendo uma regressão à economia primário-exportadora. Eu respondi que iria buscar dados para respondê-lo e fazer uma análise baseada não em informações tendenciosas colhidas fragmentariamente na grande mídia, mas em fatos concretos.

Adiantei-lhe, porém, que a acusação de economia "primário-exportadora" costuma se fazer a países cuja economia ancoram-se na exportação de produtos primários. Embora a exportação deste tipo de produto seja muito importante para o Brasil, a nossa economia tem crescido baseada principalmente no consumo doméstico.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tem dados completos sobre a produção industrial no país. Preparei uma tabela para a gente analisar, com dados de fevereiro de 2002 a fevereiro de 2011. Clique nela para ampliar:


A tabela acima é apenas um resumo com os 20 subsetores industriais que mais cresceram. A tabela com todos os subsetores industriais do país, também devidamente editada, encontra-se neste link.

O IBGE divide a produção industrial brasileira em 73 subsetores. Deste total, apenas 13 apresentaram queda de 2002 até hoje, e mesmo assim, quedas suaves. Destes 13 subsetores, apenas um é realmente relevante à produção industrial brasileira: o setor de calçados, cuja produção caiu 20% de 2002 até hoje, certamente em função da concorrência dos produtos chineses.

De resto, o IBGE mostra um crescimento firme de quase todos os setores industriais importantes, com destaque para a indústria ligada ao setor de transportes: aviões, caminhões, ônibus, carros, motos, tratores e  navios.  Também registrou-se um crescimento relevante na produção de eletrodomésticos.

Tivemos um crescimento apenas medíocre de um subsetor fundamental, o de material eletrônico e aparelhos de comunicação: apenas 17% de 2002 até 2011. Entretanto, sabemos que estes produtos hoje são produzidos quase que exclusivamente na Ásia, que nós jamais os fabricamos em escala significativa.

Note que houve um crescimento de 60% num subsetor extremamente importante, porque serve de base para crescimentos maiores no futuro: o de máquinas e equipamentos para fins industriais e comerciais.

Até o momento, portanto, ainda não vi nenhuma "desindustrialização", ou regressão do Brasil a uma economia primário-exportadora.

Talvez eu esteja cometendo algum erro de interpretação. Peço aos que defendem a tese contrária, portanto, que me tragam informações e dados mais consistentes do que tem feito até o momento, porque senão serei obrigado a acreditar em... mim mesmo.

Por outro lado, não se pode negar que o declínio do dólar atrapalha fortemente o desejo da indústria brasileira de aumentar suas vendas externas. Mas o problema cambial é comum ao mundo inteiro, com exceção da China. Todos os países latino-americanos registraram forte valorização cambial. Nos EUA, o dólar, mesmo tendo caído, ainda é muito mais forte que a moeda chinesa e uma vez e meia o real: também é um problema lá. O Euro, uma das moedas mais fortes do mundo hoje, igualmente provoca estragos na indústria européia.

Ainda não ouvi ninguém trazer uma solução concreta que não seja a loucura de fixar novamente o câmbio.

O comércio exterior

Na verdade, há uma confusão provocada pela forte alta das exportações brasileiras de produtos primários. A exportação de industrializados também cresceu de maneira bastante firme nos últimos 10 anos, embora não no mesmo ritmo explosivo das vendas externas de matérias-primas. Resultado: mesmo tendo crescido, as exportações de industrializados perderam participação percentual na receita total exportada. Olhando sob uma perspectiva mais longa, a participação de produtos básicos na exportação brasileira, que chegava a quase 90% na década de 60, vem caindo substancialmente nos últimos cinquenta anos, e o aumento verificado a partir o início dos anos 2000 não reflete, necessariamente, o fim dessa tendência, mas possivelmente apenas um ajuste à um aumento muito forte da demanda mundial por essas mercadorias, o que se refletiu num mega-incremento da quantidade exportada das principais commodities nacionais, combinado a uma acentuada alta nos preços das mesmas. O importante, reitero, é verificar que tem havido, nos últimos dez anos, um crescimento muito grande, em termos absolutos, concretos, das exportações de manufaturados.



Há várias maneiras de se averigar uma possível deterioração da qualidade das exportações. Uma delas são os "termos de troca", que é a relação entre o valor das importações e exportações de um país durante um ano. Nos últimos 12 meses, o índice de termo de troca registrou alta.


Nos últimos anos, aliás, os termos de troca tem apresentado um resultado bem positivo. Ou seja, o valor das exportações tem aumentado a uma proporção maior do que o aumento no valor dos produtos importados.  Se alguém quer denunciar um processo de "primarização" da economia, portanto, não vai conseguir fazê-lo através de uma análise dos termos de troca, que indicam, ao contrário, uma sofisticação de nossa pauta exportadora.



Mas os termos de troca também refletem os preços maiores das commodities, então não podemos nos restringir a isso para avaliar a qualidade da exportação.

Os números do nosso comércio exterior mostram que houve, entretanto, um baque nas vendas de manufaturados, provocado pela forte crise financeira que se espalhou por todo mundo. Até então, as exportações de manufaturados vinham crescendo de maneira consistente. Em 2008, bateram um recorde histórico de 92,6 bilhões de dólare, caindo porém para 67,34 bilhões em 2009. Em 2010, assistem a uma vigorosa recuperação, alcançando 79,5 bilhões de dólares. Nos últimos 12 meses até maio de 2011, já subiram para 84,3 bilhões de dólares, alta de 16% sobre o período anterior.



Os números nos permitem dizer, portanto, que as exportações brasileiras de manufaturados se recuperam da crise financeira internacional, que ainda se faz presente sobretudo no mundo desenvolvido, mas não é justo afirmar que a economia brasileira está num processo de "primarização".


A produção industrial brasileira (não confundir com exportação) cresce, de qualquer forma, com exceção das fábricas de calçados, a um ritmo mais ou menos independente das oscilações do mercado externo. Seu principal destino não é a exportação, mas consumo pujante das famílias brasileiras.

Repare que a indústria de bens de capital, que produz os máquinarios industriais e, por isso, é considerada um termômetro do setor, cresceu  20,4% em 2010, ou seja, bem acima do crescimento médio da economia brasileira (o PIB cresceu 7% no ano passado). Por esse aspecto, portanto, também não se vê nada que indique um processo de "desindustrialização".

 Concluindo, entendo que a indústria brasileira enfrenta enormes desafios. A concorrência asiática tem sido predadora, terrível, às vezes covarde e praticando um verdadeiro dumping cambial. A situação da indústria nacional, por isso mesmo, não é nenhuma maravilha. A combinação de uma carga tributária alta, falta de mão-de-obra especializada, infra-estrutura precária, câmbio desfavorável, burocracia estatal excessiva, juros absurdamente altos, além da concorrência chinesa, não perfazem um cenário fácil para nenhum empresário. Para culminar, o mundo viveu uma de suas piores crises econômicas a partir de 2008, com reflexos até hoje, o que causou forte recuo no comércio global de produtos industrializados. Mesmo com todos esses problemas, porém, os números indicam que a indústria nacional tem se modernizado e crescido. Não cresce a um ritmo chinês, mas não se pode exigir do setor industrial aumentos de produção a uma velocidade só possível na realidade do agronegócio ou do extrativismo. Uma coisa é comprar um pedaço de terra, plantar e colher a soja no ano seguinte. Ou cavar um buraco e extrair minério em questão de meses. A instalação de uma nova indústria requer às vezes mais de dez anos, como é o caso das gigantes refinarias que o Brasil vem construindo. Havendo uma enorme massa cujo poder aquisitivo vem crescendo rapidamente, abundância de crédito e perspectivas de estabilidade econômica no longo prazo, a consolidação da indústria nacional é só uma questão de tempo.

*

Por fim, encontrei uma outra tabela (abaixo, clique nela para ampliar), mais simplificada, mostrando o crescimento ou queda dos diversos setores da indústria nos últimos três anos. Note-se queda na indústria têxtil e de calçados, por causa provavelmente da concorrência chinesa. Trata-se de uma indústria extremamente importante, em tamanho e geração de emprego, e que deveria merecer alguma atenção do governo. Mas competir com a China é cruel. E desde que não podemos fechar nossas fronteiras para a China, pois isso significaria impor um protecionismo que não é o que defendemos na OMC, a única solução é investir pesado no aumento da produtividade das indústrias nacionais. Seja como for, a indústria têxtil hoje em dia não é mais vanguarda.

Repare que 2009 foi um ano ruim para todos os setores, em função da crise financeira internacional. Mas em 2010 assistimos uma forte recuperação. O segmento de máquinas e equipamentos cresceu 24% em 2010. O segmento de máquinas para escritório e equipamentos para informática, depois de cair em 2008 e 2009, apresentou crescimento de 13% em 2010 e 15% em janeiro de 2011. Não sei o que isso significa em termos de relevância em relação ao PIB, só sei que é bom. Crescer é bom de qualquer jeito. O segmento de "equipamentos médicos/hospitalares, ópticos e outros" cresceu 21% em 2010. Enfim, os setores mais avançados da indústria apresentaram uma recuperação vigorosa no ano passado. Até o momento, portanto, a tese da "desindustrialização" não está colando comigo. Quer dizer, sei que há setores sofrendo, particularmente aqueles ligados à exportação, por causa do câmbio hiper-valorizado. Eu também, no período 2003 a 2008, enquanto o Brasil crescia extraordinariamente, passei por um processo de rápido empobrecimento. Isso acontece. Uns sobem outros descem. Para analisar a economia de um país, no entanto, é preciso considerar o quadro inteiro. No geral, a indústria brasileira continua crescendo. Isso não significa que as coisas estão maravilhosas. Se formos procurar problemas, vamos encontrar, com certeza, e se formos averiguar a fundo veremos que setores sofreram por causa da incúria e negligência governamental e quais perderam por incompetência deles mesmos.


Discutindo o trem-bala

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Como vocês já devem ter percebido, o trem-bala se tornou a nova jabulani na guerra ideológica entre direita e esquerda. A direita, como era de se esperar, não quer o trem-bala. Diz que não há dinheiro, que não é viável, que o projeto orçava antes em 23 bilhões e agora está em mais de 30 bilhões. Que é um delírio faraônico lulodilimista. Pensando bem, não é uma guerra. É mais um cerco, com o governo isolado na fortaleza. A militância de esquerda assiste a tudo em cima do muro, meio perplexa. A ultra-esquerda, naturalmente, aliou-se à direita: ambos vociferam contra o projeto do governo de criar o primeiro trajeto de trem de alta velocidade no país. Outro dia um militonto me disse que era um projeto para fazer trem para os "ricos"...

O Elio Gaspari, por exemplo, encampou uma campanha bastante agressiva contra o trem-bala.

O interessante é que ninguém, nem a grande mídia, nem o Gaspari, nem os militontos, parecem preocupados em pesquisar mais a fundo antes de se posicionarem. Ter uma opinião sobre o trem-bala, assim como em relação a muitos assuntos, semelha a um gosto estético: acham bonito ou feio. O que, a meu ver, só piora a visão que eu tenho dessas pessoas, porque se dependesse apenas de uma questão estética, eu acho que é uma evidência gritante que se trata de um projeto interessante. Que país não gostaria de ver suas duas maiores metrópoles ligadas por trens de alta velocidade?

Resolvi pesquisar o tema. Comecei pelo google, e digitei simplesmente "train", ou trem, em inglês, e acabei na página da wikipédia sobre trens de alta velocidade. Em primeiro lugar, estudei o que já existe no mundo, e confirmei algumas coisas que já sabia e descobri outras:

  • A Europa é inteiramente cortada por trens de alta velocidade.
  • As grandes metrópoles asiáticas, sobretudo na China e Japão, já possuem trens de alta velocidade; estão construindo mais e mais. 
  • Os Estados Unidos, que cometeram o terrível erro de deixarem de lado o transporte ferroviário nas últimas décadas, tem um projeto de investirem em grandes corredores transnacionais de trens de alta velocidade. É um projeto muito caro ao governo Obama.
Dêem uma olhada no projeto de Obama para os corredores de  trens de alta velocidade nos EUA:


Aí fui estudar o projeto do trem-bala brasileiro, tão cruelmente bombardeado pela maioria da imprensa. Aliás, porque será que não estou surpreso com isso? Neste post, reproduzo algumas tabelas que peguei no relatório que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) preparou. Vamos olhar o item preço, para responder aos que acusaram o trem-bala de ser um luxo para ricos.

O trem-bala terá dois preços: classe executiva e classe econômica. O preço de uma viagem de Rio a São Paulo na classe econômica, em horário de pico, custará R$ 200, e fora do pico, R$ 150. Uma passagem aérea, em horário de pico e fora de pico, custa em média R$ 400 e R$ 180. O tempo total de uma viagem de trem-bala do Rio a São Paulo, incluindo o tempo de embarque, é de 1 hora de 42 minutos. De avião, o tempo total é de 1 hora e 50 minutos. O trem-bala, portanto, chega para popularizar e democratizar o transporte público nas duas áreas metropolitanas mais povoadas do país. 


Tenho notado que a preocupação dos críticos, à esquerda ou direita, tem focado nos custos do trem-bala. Bem, para isso, temos de analisar as receitas. Segundo o estudo da ANTT, a receita do trem-bala deverá vir num crescente de 2014 a 2044. Neste último ano, a estimativa é de uma receita anual de R$ 8 bilhões (tabela 8-10).



O custo estimado para a construção do trem-bala está em torno de R$ 30 bilhões. Mas eu prefiro fazer uma estimativa bem conservadora e apostar que o custo final poderá chegar perto de R$ 50 bilhões.

Considerando as receitas estimadas, o trem-bala deverá ser pago em cerca de 30 anos. Isso é muito para um empreendimento que pode durar até séculos ou mesmo milhares de anos? Não tem gente que ganha salário mínimo comprando casa com prazo de 30 até 40 anos? Por que não podemos fazer um trem-bala que poderá transportar dezenas de milhões de pessoas? Em 2044, estima-se que o TAV movimentará 99 milhões de passageiros/ano!

Em outros termos, trata-se de um projeto autossustentável. E olha que esses cálculos não embutem o mais importante: a contribuição que dará ao aumento da produtividade no eixo Rio-São Paulo, a economia de tempo e dinheiro das pessoas, a redução no uso de combustíveis poluentes. Sem falar na colossal geração de empregos acarretada no processo de construção, e depois na manutenção e operacionalidade. Mesmo que o projeto fosse totalmente inviável economicamente, eu acho que valeria a apenas pela transferência de tecnologia num dos segmentos mais estratégicos para um país: o transporte público de massa.

Deve-se considerar, ainda, os ganhos proporcionados à indústria do turismo e o estímulo ao comércio entre Rio e São Paulo. O custo do frete vai cair muito.

Em relação à oposição da ultra-esquerda ao trem-bala, prefiro abster-me de comentários para não ser indelicado. Poderia lembrar que a China comunista está fazendo trem-balas a torto e a direito, com planos de conectar todo o grande estado chinês com ferrovias de alta velocidade; mas não digo porque acho que não gostam da China; pelo que sei, não gostam de nada. Japão e Coréia do Sul também possuem trens-balas ligando suas principais cidades.

Em relação à direita, trata-se mais uma vez do complexo de vira-lata, que faz nossa direita beber uma sopa esquizofrênica de ideias anticapitalistas e a-históricas. Têm um preconceito doentio contra qualquer investimento do Estado na economia, ignorando que os países ricos apenas alcançaram o estágio onde se encontram agora porque seus governos não hesitaram em investir em infra-estrutura, incluindo aí trens. E parecem cegos para as oportunidades de desenvolvimento econômico e, portanto, de lucro para eles mesmos. Tornaram-se uma raça de sadomasoquistas que se rejubilam na miséria e no subdesenvolvimento.

Ao longo de sua história, os Estados Unidos, através do governo, investiram em trens, rodovias, portos e aeroportos. Nas últimas décadas, porém, deixaram as ferrovias de lado, em função do pesado lobby da indústria do petróleo. Um erro terrível pelo qual pagam muito caro hoje. Como já disse, um dos projetos de Obama, já em andamento, é justamente voltar a investir em ferrovias, desta vez em trens de alta velocidade, com o objetivo de libertar o país de energias fósseis importadas e promover o desenvolvimento.

Concluindo: no atual estágio do desenvolvimento do transporte público no mundo, possuir um trem de alta velocidade conectando Rio e São Paulo, as duas maiores cidades do país, é um imperativo histórico!

PS: Um leitor amigo, Sergio Grigoletto, lembrou-me de acrescentar dados sobre o fluxo de passageiros no transporte aéreo. Abaixo, pode-se ver como o TAV (trem de alta velocidade) irá desafogar a ponte aérea e rodoviária, hoje sobrecarregada, entre Rio e São Paulo. Repare que a estimativa da ANTT é que o TAV se transforme, já em 2014, no principal elo de ligação entre as duas metrópoles, absorvendo 53% da demanda de passageiros. Eu acrescentaria que, para além de 2014, a tendência é de aumento do fluxo de pessoas, em virtude do aumento populacional e do crescimento econômico, de maneira que o transporte aéreo entre as duas cidades atingirá em breve - sem o TAV - uma situação de total congestionamento.


Mapa dos trens na Europa:


19 de julho de 2011

Movimentos sociais se organizam em prol de uma internet melhor

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Gostei de ver. Os movimentos sociais se organizaram e cobram do governo um plano de banda larga melhor. Esse é um teste importante para Dilma. O assunto não é mais do Paulo Bernardo. Presidenta, a bola está contigo. O plano de banda larga apresentado pelo governo, de fato, é ruim e insuficiente. A sociedade espera, no mínimo, maior diálogo nessa questão, que hoje é considerada primordial. Ouvimos sempre que o plano de banda larga seria prioridade. Então queremos inteiro, não pela metade. As políticas de educação, cultura e até mesmo saúde passam por uma banda larga BOA.


Movimentos Sociais repudiam banda lenta, cara e sem universalização

19 de julho de 2011

Para o conjunto dos movimentos sociais brasileiros, o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) representa a afirmação de uma democratização do acesso à internet, apontando para a universalização dos serviços – com controle de tarifas, meta de qualidade e continuidade de serviços – dentro de uma concepção de desenvolvimento baseado na geração de renda e na inclusão social.

Infelizmente, o “acordo” fechado pelo Ministério das Comunicações com as teles relega inteiramente esta estratégia, afrontando o interesse nacional em prol da sede de lucro fácil dos monopólios privados.

Na prática, as teles ganharam do governo um cheque em branco para faturar alto com uma banda lenta, cara e sem universalização, enquanto continuam praticando preços extorsivos, fortalecendo sua concentração nas faixas e locais de maior poder aquisitivo, com serviços de péssima qualidade.

Além de inaceitáveis, os termos do dito “acordo” do Ministério com as teles afrontam o interesse social e rasgam as diretrizes do próprio Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), dando as costas ao imenso acúmulo possibilitado pela Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que apontava para um maior protagonismo do Estado e para o fortalecimento da Telebrás, como elementos decisivos para a universalização da internet, vista como um direito.

A forma como foi assinado o “termo de compromisso”, sem qualquer participação ou consulta às entidades diretamente envolvidas, é reveladora do seu conteúdo, já que ninguém se disporia a endossar tal leviandade.

Dito isso, vamos aos fatos porque denunciamos e repudiamos tal “acordo”:

1)Não há metas nem garantia de qualidade.

O Ministério admitiu que é “compreensível”, por causa da “concorrência”, as teles não divulgarem onde e quando vão implantar a suposta banda larga de 1 Mbps a R$ 35,00. Além disso, não há garantias de qualidade, o que significa uma internet de segunda categoria para a população com menos recursos financeiros. O plano prevê, por exemplo, uma velocidade muito baixa de envio (upload) de 128 kbps. Assim, quem quiser postar vídeos vai demorar horas.

2) Velocidade tartaruga.

A velocidade de 1 Mbps é somente “nominal”. Hoje, as teles oferecem 1/16 da velocidade que está no contrato com o usuário, abaixo até do ridículo limite da Anatel (10% da “nominal”). É como se o consumidor fosse ao supermercado comprar dez quilos de feijão e levasse para casa apenas um quilo, pagando pelos dez. Mas nem mesmo este limite indecente da Anatel consta do “termo de compromisso” assinado pelo Ministério. 

Pior, as teles foram autorizadas a reduzir a velocidade se o usuário ultrapassar 300 Mbytes de “download” por mês (o que poderá fazer com que para baixar um vídeo ou uma música se perca horas ou mesmo não possa ser feito) ou 500 Mbytes no caso da Oi, o que condiciona completamente o uso da internet e impede o uso pleno do serviço. Portanto, quem definirá a velocidade – sempre lenta para fomentar a migração do usuário para outros planos mais lucrativos para as teles – será a própria operadora.

3) Venda casada.

Embora o Ministério tenha afirmado que o pacote de R$ 35 não estaria condicionado à venda casada, o “termo de compromisso” permite essa prática na banda larga fixa, com teto de 65 reais para o pacote. O pacote de 35 reais sem venda casada só é obrigatório na banda larga móvel.

4) Multas viram investimento.

As punições às teles por infrações, nem ao menos serão simbólicas: não haverá processo administrativo se o “termo de compromisso” for desrespeitado. As sanções podem ser transformadas em investimentos em áreas economicamente não atrativas. Na prática, as empresas podem trocar o não cumprimento de metas determinadas no termo de compromisso por expansão de sua própria rede. Ou seja, vão embolsar o dinheiro das multas. Mais: se a Anatel disser que houve correção da irregularidade, as multas serão extintas – sem que o dinheiro saia do caixa das teles.

5) Abandono da área rural.

Foram retiradas as metas para banda larga do III Plano Geral de Metas para a Universalização do Serviço Telefônico Fixo (PGMU, v. Capítulo IV, artigos 21 a24, DOU, 30/06/2011). Até na telefonia fixa, o “novo” PGMU dispensou as teles de obrigações na área rural, se não se interessarem em explorar as faixas de 451 Mhz a 458 Mhz ou de 461 Mhz a 468 Mhz (cf. artigo 9º, parágrafo 2º, DOU, 30/06/2011). Note-se que, ao contrário da banda larga, a telefonia fixa está sob regime público. Mas as teles é que decidem.

6) Acordo pra inglês ver.

O “termo de compromisso” deixa de valer caso as teles aleguem que os seus custos aumentaram.

Sinteticamente, aqui estão os motivos pelos quais os movimentos sociais reivindicam do governo federal que o Estado retome o protagonismo no setor, voltando a investir na Telebrás como instrumento de políticas públicas, e retome o diálogo com as entidades populares, para sanar o erro cometido. Para nós, a luta pela democratização da comunicação e pela universalização da banda larga são indissociáveis, como direitos inalienáveis do povo brasileiro que não podem ser pisoteados em função dos grandes conglomerados privados.

Para transformar estas bandeiras em conquista efetiva da sociedade brasileira, a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) convoca desde já o conjunto das entidades populares a se somarem para a construção de uma grande manifestação no dia 15 de agosto. É hora de levantarmos a voz em defesa da democracia e reivindicar do governo que atenda ao clamor da sociedade e não das teles.

Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS):

CUT – MST – CMP – UNE – UBES – ABI – CNBB/ PS – Grito dos Excluídos – Marcha Mundial das Mulheres – UBM – CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras – UNEGRO – MTD – Movimento dos Trabalhadores Desempregados – MTST – CONTEE – CNTE – CONAM – Confederação Nacional das Associações de Moradores – UNMP – Ação Cidadania – Cebrapaz – ABRAÇO – CGTB – INTERVOZES – CNQ – FUP – SINTAPI –ANPG – CTB – CMB – MNLM.

(Via Castorphoto)

17 de julho de 2011

BNDES sob ataque

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E lá vai o BNDES pro pelourinho novamente. Repito: acho ótimo. A última coisa que eu faria é sentir pena de uma instituição que movimenta centenas de bilhões de reais. Que apanhe como gente grande, talvez assim aprenda a se defender. Neste domingo, Globo e Folha publicaram artigos bastante críticos à instituição. Nosso amigo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, repercutiu alegremente as duas matérias, o que também considero muito saudável.

Entretanto, não vou partilhar tão facilmente da opinião de um ultra neo-liberal como o Claudio Hadadd, o economista que a Folha entrevistou. E tenho ressalvas importantes à reportagem do Globo. Ambas são positivas por suscitar o debate em torno daquele que, como já disse em outro post, é um dos pilares mais importantes da economia brasileira, com peso relevante em toda América Latina. O BNDES é um dos maiores (talvez até o maior) bancos públicos de investimento do ocidente. A sua própria existência é contrária aos princípios neoliberais, a menos que se restringisse, como sugeriu Haddad, a financiar projetos de infra-estrutura (o que, na verdade, ele já faz, e muito bem).

Ambas as matérias, todavia, pecam pela omissão de dois números fundamentais para contextualizar a participação do BNDES na economia brasileira. O primeiro é o crescimento do número de empresas beneficiadas, sobretudo micro e pequenas, pelos financiamentos do BNDES. Este número trinca o raciocínio segundo o qual ele beneficiaria apenas o andar de cima. Ironia suprema: este aumento se dá sobretudo a partir da gestão de Luciano Coutinho, o mesmo que agora é acusado de privilegiar os tubarões.

Não vou sequer mencionar FHC porque é covardia: naqueles tempos, o pequeno não existia. Nem o Carlos Lessa, hoje verdugo da gestão de Coutinho, se notabilizou neste ponto, tão fundamental. Presidente do banco em 2003 e 2004, Lessa conseguiu elevar o número de pequenos contemplados em 2003 para 27 mil empresas (em 2002, foram 18,9 mil); no ano seguinte, porém, viu esse número cair para 20 mil.

A coisa só começa a mudar mesmo com a entrada de Coutinho, em 2007. A partir daquele ano tem início uma grande transformação, com forte aumento, ano a ano, das concessões de crédito. Em 2010, já eram 417 mil micro e pequenas empresas contempladas.



O segundo número que Globo e Folha omitem é a evolução do lucro do BNDES nos últimos anos. A matéria do Globo, neste sentido, é realmente manipuladora, pois ao invés de trazer dados consolidados, inventa um prejuízo por parte do BNDESPar com base no valor das ações em poder do banco ao final da semana passada. Muito conveniente, porque a desvalorização momentânea das ações da Petrobrás mostraria um resultado negativo. Mas isso pode mudar de um dia para outro. O importante, numa matéria como esta, era informar ao leitor acerca dos valores consolidados. O BNDES vem batendo recordes de lucro, e as operações do BNDESPar tem respondido por cerca de metade desses valores. Ou seja, as ações caem e sobem ao longo do ano, mas o importante é analisar os resultados concretos e não retratos incompletos (possivelmente tendenciosos e equivocados) de momento. Seria honesto, para dizer o mínimo, que o Globo, numa matéria como essa, ao menos informasse seus leitores sobre isso, para que estes não pensassem que a instituição está dando prejuízo ao contribuinte, o que não é verdade.


É bastante irônico que os neoliberais de repente tenham se esquecido do fator "lucro". Está certo que o objetivo central do BNDES não é ter lucro, mas o fato de tê-lo não é ruim, evidentemente. Desde que o banco mostre que tem aumentado os repasses a micro e pequenas empresas e esteja financiando mais projetos de infra-estrutura, então é ótimo que haja lucro, até para que o banco possa se dar ao luxo de financiar projetos de cunho mais social que dão menos lucro. Como o BNDES é público, o lucro vem para o nosso bolso, seja reforçando o caixa do Tesouro, seja financiando projetos de cultura (o que se reflete na educação), o que o banco vem fazendo a uma escala impensável antes da era Coutinho.

Reitero pela enésima vez que é importante que a sociedade fique atenta às ações do BNDES, e mantenha um olhar crítico. Sob Coutinho, o banco tornou-se mais ousado e mais presente na economia nacional. Ganhando mais visibilidade, é natural que seja mais criticado. As ações do BNDESPar refletem, a meu ver, uma política industrial mais intervencionista por parte do governo, e isso necessariamente contraria (e beneficia) muitos interesses poderosos. Por trás da blindagem econômica que protegeu o Brasil da terrível crise financeira que atingiu o mundo em 2008 e 2009, estava o crédito do BNDES, que ajudou empresas nacionais a enfrentarem seus momentos mais difíceis. Não esqueçamos que o BNDES não dá dinheiro de graça para ninguém. Ele empresta a juro mais baixo que a taxa Selic, mas ainda assim com juros, e a empresa tem de pagar em dia. Muitos países não teriam passado pelo que passaram se tivessem um banco como esse. E acho melhor emprestar dinheiro para empresas que geram emprego do que dar trilhões a juro zero para salvar instituições financeiras incompetentes, como fizeram EUA e Europa recentemente, e o governo FHC com seu Proer (que corresponderia hoje, em valores atualizados, e cerca de R$ 50 bilhões).

Naturalmente, se o BNDES dá crédito, tem gente que lucra muito, outros que lucram menos. Consta que as empresas de mídia, que sempre tiveram acesso privilegiado ao caixa da instituição, não tiveram tantas facilidades como gostariam nos últimos anos.

Contemplemos, portanto, o quadro inteiro, levando também em consideração os números que eu lhes trouxe. Quando o BNDES apenas financiava os barões da mídia e demais amigos de Antonio Carlos Magalhães, nunca houve matérias na grande imprensa criticando a atuação do banco. Hoje ele financia 610 mil empresas e pessoas físicas no país e virou um de seus alvos preferidos.

Dívida pública não é bicho-papão

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Duas matérias sobre os gastos do governo com a dívida pública publicadas na Carta Maior revelam uma abordagem populista, superficial e despolitizante. Assim como eu critico textos da grande mídia, permitam-me também dar meus pitacos sobre o que dizem os meios alternativos. Gosto muito da Carta Maior, mas nessa questão da dívida, eles pisaram na bola.

Vamos às matérias da Carta Maior.

A primeira é esta:


Ler a matéria na íntegra.

O absurdo começa pelo título. O repórter calcula o percentual, aprovado pelo Congresso, que o governo federal deverá destinar ao pagamento da dívida pública em 2012, e que sequer passou pelo crivo da presidente (que irá fazer, aliás, um recorde de vetos), divide pela população brasileira, e daí tasca essa manchete terrorista. O que pensará uma senhora aposentada que ganha salário mínimo? Que haverá uma derrama no ano que vem? Que um agente do governo vai bater em sua porta pedindo quinhentão? Com perdão do termo, isso é sensacionalismo do mais barato! A carga tributária vai aumentar em 2012? Não. Então ninguém vai pagar R$ 510. Quer dizer, o Eike vai pagar R$ 400 milhões em impostos, outros um pouco menos, mas nada diferente do que aconteceu este ano.

Além do mais, tem um erro básico no título. O governo não vem pagando somente juros da dívida, mas a própria dívida. Desde 2003, que a orientação do governo federal tem sido a de reduzir a dívida pública. Tanto é que pagou a dívida externa. A dívida pública líquida total vem declinando substancialmente nos últimos anos, conforme se pode ver neste gráfico:


Não fosse a grave crise financeira internacional que atingiu o mundo em 2008, estaríamos agora com uma dívida líquida abaixo de 37% do PIB. De qualquer forma, após alguns meses em que o governo foi obrigado a aumentar o endividamento, este voltou a cair e hoje (final de maio) está em 39,77% do PIB.  Ao final de 2002, a dívida pública líquida correspondia a 62,85% do PIB!

Todos os governos do mundo possuem pesadas dívidas públicas, que devem pagar em dia para manter a credibilidade junto ao mercado financeiro. A Venezuela de Hugo Chávez ou a França de Sarkozy pagam em dia a seus credores. Quando um país enfrenta uma crise fiscal grave e não pode mais pagar os juros de sua dívida, os resultados são catastróficos para a sua economia, porque ele será obrigado a pagar juros muito mais altos quando tiver (e sempre terá) que captar recursos no exterior.

A determinação de Lula e seu governo sempre foi pagar os juros da dívida pública, inclusive mais que o governo anterior, visto que não apenas pagou os juros, mas reduziu o próprio montante da dívida. Isso não impediu o governo de ampliar os gastos sociais. Uma coisa não exclui a outra, se houver vontade política. Na própria Carta Maior, reportagem do mesmo jornalista lembra que os gastos sociais por habitante dobraram nos últimos 15 anos. Dilma não vai mudar uma fórmula que deu certo.

Quanto aos juros da dívida propriamente ditos, quanto mais alta for a taxa Selic, maiores serão os recursos necessários para pagá-los. Contudo, o percentual da dívida atrelado à taxa Selic também caiu muito. O perfil da dívida pública melhorou. No início de 2004, a maior parte da dívida (73%) era atrelada a fatores instáveis, como câmbio e taxa selic. Hoje a parte principal da dívida são títulos com juros pré-fixados, com taxas abaixo da taxa selic.




A outra matéria da Carta Maior que merece críticas pela superficialidade é esta:


Ler na íntegra.

Dessa vez o título está certo, mas é enganoso mesmo assim, porque ele soma tudo que o Brasil pagou desde 1998! Ora, se eu somar tudo que eu gastei em cerveja desde 1998, acho que vai dar um resultado parecido! De resto, a matéria é repleta de comparações disparatadas, que seriam interessantes, se não conduzissem a uma abordagem reacionária, anti-estatista, e por isso despolitizante e contrária à linha editorial do próprio site. Esse é o ponto principal onde eu queria chegar: achando que faz uma crítica à esquerda, a Carta Maior na verdade estimula o conservadorismo anti-Estado.

Reitero que respeito e admiro profundamente o trabalho da agência Carta Maior. Em relação ao tratamento que o site dá a questão da dívida pública, no entanto, não é de hoje que noto um viés populista, tentando impressionar o leitor leigo com os valores colossais que o governo gasta.

É preciso entender, porém, que à medida em que o Brasil cresce, esses valores serão cada vez maiores, assim como será a arrecadação fiscal em termos absolutos. O importante é reduzir a relação da dívida com o PIB ao menor percentual possível. Ou seja, é saudável ter uma dívida relativa menor, e a política econômica do governo federal tem caminhado neste sentido, com o que a arrecadação fiscal poderá ser mais amplamente usada para destinos mais nobres, como saúde e educação.

Fontes usadas para elaboração desta matéria:
Relatório da Divida Pública Federal - Mai/11
Indicadores Econômicos Consolidados do Banco Central
Ipea Data - Índices Macroeconômicos

Raio-X do cinema brasileiro

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Reproduzo abaixo um artigo que escrevi para uma edição recente da Revista Forum.

Raio-X do cinema brasileiro





2010 foi um ano importante para o cinema brasileiro. Por uma razão simples: um filme nacional assumiu a liderança isolada no ranking de público. Tropa de Elite 2 superou o lendário recorde obtido por Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, lançado em 1976, que teve 10,7 milhões de espectadores. O filme de Padilha, exibido em outubro de 2010, registrou até o momento 11,2 milhões de espectadores e obteve um faturamento de 102,3 milhões de reais.

Considerando todos os filmes, nacionais e estrangeiros, o cinema no Brasil vendeu 134 milhões de bilhetes em 2010, um aumento de 19% sobre o ano anterior e um recorde histórico1. Deste total, 19% correspondem a obras nacionais, maior participação desde 2003, quando o lançamento de outros filmes campeões de bilheteria, como Cidade de Deus e Carandiru, levaram-na a 21%.

Mas o público brasileiro ainda tem muito o que crescer. Fica em terceiro ou quarto lugar na América Latina no quesito “per capita”. No México2, por exemplo, a venda de bilhetes em 2010 bateu em 192 milhões de unidades, embora os filmes mexicanos só tenham vendido 10,7 milhões de ingressos. Ano passado os filmes brasileiros venderam 25 milhões.

Qualquer um que admira a multidão aglomerando-se naquela faixa da pirâmide social rotulada de classeC, pode imaginar o que acontecerá quando esses mais de cem milhões de brasileiros entrarem de vez no mercado de consumo, completando sua conversão ao cosmopolitismo moderno, ou seja, aprendendo, entre outras coisas, a curtir um cinema.

Talvez demore, no entanto, para atingirmos o grau de maturidade do mercado norte-americano, cujos filmes venderam 1,32 bilhão de tickets ano passado3. A receita total da venda de ingressos de cinema nos Estados Unidos em 2010 foi de 10,43 bilhões de dólares. A do Brasil ficou em 750 milhões de dólares de dólares.

Um dos graves sintomas de desequilíbrio no mundo é a hegemonia absoluta do cinema americano nos países ocidentais. Em toda Europa e América Latina, a participação de Holliwood nos mercados locais de cinema oscila de 70% a 90%.

Por outro lado, pode-se tirar algumas conclusões interessantes em matéria de geopolítica, se atentarmos para o fato de que, no Irã, 99% dos filmes exibidos são produções locais4.

Considerando que as majors norte-americanas só ousariam distribuir um diretor persa que fosse categorica e furiosamente de oposição ao regime dos aiatolás, depreende-se que os países ocidentais conhecem muito pouco do autêntico cinema iraniano.

India, China, Egito e Japão, também possuem um forte cinema local, com percentual similar ou acima de 50% do total exibido. Já nos EUA, a produção local atende 95% do público.

O mercado mundial de cinema é fortemente concentrado em mãos de seis grandes empresas norte-americanas: Warner, Paramount, Walt Disney, Fox, Sony e a Universal. Segundo um estudo da Recam5, o órgão do Mercosul responsável pela formulação de suas políticas de audiovisual, há muitas décadas que essas corporações recebem generosa ajuda da Casa Branca, através de várias formas de benefícios fiscais. Nos EUA não há Lei Rouanet; existe porém uma política de pesado subsídios às corporações midiáticas responsáveis pela produção cinematográfica, num jogo de favores de poder: os senadores aprovam leis que as beneficiam, e elas os ajudam poltica e eleitoralmente.

As mesmas gigantes americanas dominam o mercado brasileiro de cinema. Apenas a Columbia respondeu por 23% da bilheteria nacional em 2010. A Paramount/Universal garfaram mais 20%; Fox, 19%, e Warner, 13%. Pela primeira vez, todavia, uma produtora brasileira penetrou no grupo das grandes. A Zazen, de Zé Padilha, ficou em quinto lugar entre as maiores distribuidoras de cinema no país.

O desempenho de Tropa de Elite 2, repetindo as excepcionais trajetórias, tanto no Brasil quanto no exterior, de Tropa de Elite 1 e Cidade de Deus, reforça a tese de que uma das formas de elevar o percentual de filmes brasileiros no ranking nacional é apostando no cinema de narrativa, sobretudo o gênero de aventura, com fortes doses de violência, suspense, intriga e dilemas familiares.

O cinema brasileiro, além disso, à diferença de seus vizinhos (especialmente a Argentina), que conseguem boa entrada na Europa através da Espanha, tem pouca projeção no Velho Continente. De 2000 a 2005, o cinema argentino teve uma média anual de 2 milhões de espectadores na Europa (dos quais 1,63 milhão só na Espanha), contra somente 390 mil para as películas brasileiras5.

Dos 2,54 milhões de europeus que assistem anualmente a filmes de países do Mercosul, a Espanha sozinha respondeu por 1,76 milhão de espectadores, a França por 285 mil, a Inglaterra por 158 mil, a Alemanha por 94 mil, a Itália por 71 mil e a Suíça por 65 mil pessoas. Todos os outros países europeus venderam pouco mais de 100 mil bilhetes ao ano de filmes do Mercosul.

Interessante notar que enquanto o cinema argentino é forte na Espanha e França, o cinema brasileiro lidera (entre as nações do Mercosul) na Inglaterra e Alemanha.

Mas o cinema “mercosurenho” enfrenta dificuldades principalmente em casa. A pesquisa da Recam sobre o cinema nos países que integram o Mercosul conclui que la circulación intra-regional de las películas de los países del Mercosur es casi nula. Na região, a participação de filmes do Mercosul em países que não os de origem do filme (“mercosureños no nacionales”) ficou em irrisórios 0,2%.

Em suma, o mesmo cinema argentino que vendeu 1,6 milhão de bilhetes por ano só na Espanha, entre 2000 e 2005, não conseguiu comercializar mais do que 100 mil ingressos por ano no Brasil no mesmo período.

Um dos gargalos do mercado brasileiro de cinema é a escassez de salas. O auge aconteceu em 1975, quando tínhamos 3.276 salas. Não por acaso, no ano seguinte Dona Flor conseguiria 11 milhões de espectadores. Reparem que o público de Dona Flor correspondeu a mais de 10% da população brasileira da época. Um filme hoje que atingisse 10% da população, teria 20 milhões de espectadores.

Depois de chegar a somente 1.000 salas em 1997, número inacreditavelmente irrisório para um país com mais de 190 milhões de habitantes, os espaços de cinema voltaram a crescer gradualmente ao final dos anos 90 com a multiplicação de salas em shopping-centers. A tendência é totalmente oposta ao cinema popular, de rua, que vicejou dos anos 60 aos 80, presente até mesmo nas cidades pequenas e com custo acessível ao trabalhador. O cinema de shopping que passa a predominar no país destina-se exclusivamente a setores abastados da classe média, visto que uma simples ida ao cinema converte-se numa espécie de passeio de luxo, em virtude dos preços altos de ingresso, pipoca, refrigerante, e demais itens (transporte, lanche, etc) ligados ao programa.

A Agência Nacional de Cinema detectou essa tendência, que mantém vastos setores sociais, notadamente a Classe C, longe das telas, e criou em 2010 um programa chamado O Cinema Perto de Você6, para modernizar e reativar salas tradicionais e construir 600 novos cinemas em todo país, até 2014. O programa conta com 300 milhões de reais oriundos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e mais 200 milhões de reais de uma linha do BNDES para o Desenvolvimento da Economia da Cultura, o PROCULT. O objetivo é justamente levar o cinema para cidades médias, periferias das cidades grandes e algumas áreas rurais de maior densidade populacional.

Entretanto, mais que qualquer programa governamental, é o nível de renda dos brasileiros e o empreendorismo das empresas com planos de oferecer entretenimento acessível às massas que poderá fazer do Brasil uma nova potência mundial em bilheteria audiovisual. O cinema brasileiro será naturalmente o maior beneficiado, visto que as massas emergentes que vem aderindo ao hábito de ir ao cinema não gostam de assistir filmes com legendas ou dos quais não compreendem o contexto.

Mais importante, todavia, que todos os números mencionados é o poder do cinema de construir a imagem de um país perante o mundo e a si mesmo, tornando-se uma poderosa ferramenta de relações públicas da sociedade. Os problemas ideológicos internos do país são discutidos e parcialmente resolvidos no interior das narrativas. Os traumas históricos são tratados pela catarse que é reviver na tela cenas de guerra, revoluções, golpes, tragédias, num processo constante e dialético de reconstrução de símbolos, mitos e crenças.

Dentre as diversas subcategorias do audiovisual, o cinema é a poesia máxima, o santo graal, o sonho ao qual todo profissional do setor se agarra mais apaixonadamente. Porque é o cinema que o imortalizará. E refiro-me especialmente ao cinema de ficção, aquele que, manipulando a realidade, nos dá a sensação de um poder absoluto, nos libertando por alguns minutos da horrível opressão do tempo e da consciência da morte. Segundo a Ancine, 99% do bilhetes vendidos no Brasil em 2010 foram para filmes de ficção.

O Brasil tem uma plêiade de grandes diretores, com destaque para os brilhantes anos 60: Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Rui Guerra, Roberto Farias, Paulo César Saraceni, Sganzerla, para citar apenas alguns. Nos dias de hoje, há também excelentes nomes, mas a maioria dos cineastas – incluindo muitos já consagrados, como Beto Brant, Claudio Assis, Lírio Ferreira, Bressane - tem encontrado dificuldades para atingir uma fórmula que os permitam aliar um trabalho autoral a um mínimo de público. Muitos desses filmes são bastante sofisticados artisticamente, o que lhes valem entrada garantida em mostras nacionais e internacionais, mas não alcançam sequer o nicho intelectual a que eles se dirigem. Naturalmente que as distribuidoras americanas fazem valer sua hegemonia e sabem que é preciso direcionar o “gosto” do público para o tipo de filme que elas mesmos produzem. Aliás, esse é problema, o cinema mundial é dominado por um reduzido cartel, onde as mesmas empresas que produzem, também distribuem os filmes. O sucesso do Tropa de Elite 2, no entanto, que criou sua própria distribuidora, indica que há maneiras de contornar o monopólio das majors. Como diria aquele general vietnamita, o tigre dá medo, mas é de papel.

Por conta do aumento dos recursos disponíveis para produção de filmes, houve quem apregoasse que haveria exagero no número de obras feitas no país. Não é verdade. O Brasil é um dos países que menos produz filmes per capita no mundo. A comparação com a vizinha Argentina, com sua população quase cinco vezes menor que a do Brasil, fala por si mesmo. Em 2009, os cineastas argentinos produziram 77 filmes. Em 2010, a produção brasileira somou 75 filmes.

A produção de filmes per capita no Brasil, segundo o blog Screen Ville7, foi de 0,4 em 2007, similar a da Romênia. Para efeito de comparação, Hong Kong produziu 7,1 filmes por habitante, a Espanha 4,3, França 3,6, Japão 3,2, EUA, 2,0 e Argentina 1,7. Esses índices, por outro lado, não têm ligação direta com a conquista de público doméstico, sobre a qual já falamos acima. Tem a ver sim com um mercado ainda tremendamente fechado para longa-metragens nacionais. Essa muralha erguida pelas distribuidoras americanas leva muitos diretores brasileiros a buscar reconhecimento exclusivamente junto ao público de festivais, aqui e lá fora, decisão que influencia a linguagem de seus filmes e dificulta a interatividade entre grande público e autor.


Notas:
1 Os dados constam do informe de mercado da Agência Nacional de Cinema (Ancine): http://www.ancine.gov.br/media/SAM/Informes/2010/Informe_Anual_2010.pdf.
2 http://www.impactousa.com/entretenimiento/ci_17057138.
3 Os dados do cinema americano constam do site The-Number, especializado em estatísticas de cinema nos EUA e no mundo:
http://www.the-numbers.com/market/2010.php.
4 Movie World Stats : http://screenville.blogspot.com/2008/05/2008-world-stats.html.
5 Recam (órgão consultor do Mercosul para audivisual): http://www.recam.org/_files/documents/aprox_al_mercado_cinemat_del_mercosur.pdf.
6 Cinema Perto de Você – Ancine: http://www.ancine.gov.br/cinemapertodevoce/index.html.
7 Screen Ville, World Stats: http://screenville.blogspot.com/2008/05/2008-world-stats.html


Tabelas (clique para ampliar):