13 de dezembro de 2011

Tudo normalizado

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Prezados, ainda tô muito pegado no Cafezinho, e por isso sem tempo de vir aqui. Pra piorar, peguei um trabalho de tradução violento. Em janeiro, as coisas sossegam.

24 de novembro de 2011

Novidades no Cafezinho!

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Prezados, o blog O Cafezinho já entrou em sua fase profissional.

21 de novembro de 2011

Adoniram canta Noel Rosa

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20 de novembro de 2011

Às armas!

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Nesta segunda-feira, o Cafezinho entra em sua fase profissional, com os posts principais acessíveis apenas para os assinantes. O trabalho por lá, como eu já falei, é barra. Acordar 4 horas da manhã, de domingo a domingo, ler todos os jornais, no momento em que saem do forno, e fazer uma análise completa e profunda da mídia nacional antes das seis da manhã. Acredito que existe uma grande demanda por um serviço desse tipo. Espero que a demanda se converta em decisões de assinatura.

Com o Cafezinho se dedicando à análise de mídia, economia e política, este Óleo ganha outra razão de ser. Mas nesses primeiros dias ainda estou muito pegado, trabalhando umas quinze, dezesseis horas por dia. Quando a poeira baixar, ou seja, quando o trabalho por lá entrar numa rotina, então eu posso voltar aqui com mais frequência.

Por falar em filosofia, escrevi um texto lá no Cafezinho, intitulado Mídia, Poder e Luta Cultural, que eu gostaria de linkar aqui, porque na verdade tem mais a ver com o Óleo do que com o Cafezinho.

18 de novembro de 2011

A luta continua

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Capa dos 3 jornalões desta sexta-feira 18:



Nota na capa do Globo:



Nota na capa da Folha:



Nota na capa do Estadão:



Carlos Lupi permanece no ringue. Pelo menos por mais alguns dias, ou semanas, quem sabe. Seu depoimento no Senado teve um efeito bastante positivo, e a presidente Dilma parece mais decidida do que em ocasiões anteriores a bancar o inevitável atrito com a mídia que a permanência de Lupi provoca.

É cedo, naturalmente, para Lupi cantar vitória. A revista Veja desta semana, ou qualquer outro jornal, poderá iniciar um novo round de denúncias. Mas terão que ser denúncias novas, e mais impactantes do que as que pipocaram até agora, e envolvendo diretamente o ministro.

Aliás, a razão para que a imprensa tenha ignorado as denúncias publicadas pela revista Istoé na semana passada talvez seja o fato de não envolverem diretamente o ministro, mas lobistas que gravitam em torno de sua pasta.

O Estadão aliviou a barra do ministro na manchete e matérias principais, ao enfatizar que a presidente resolveu bancar a sua permanência, até como um gesto visando dissolver as discórdias intestinas do PDT, seu antigo partido. A Dora Kramer, colunista política do Estadão, aplica umas dentadas em Lupi, mas sem muito efeito.

A Folha embarcou na acusação da Katia Abreu, de que o ministro teria usado diárias numa viagem de cunho partidário. É uma acusação de gravidade menor, porque as diárias ministeriais são emitidas automaticamente quando os ministros viajam, e eles podem sempre devolver o valor, em caso de constatação de que a viagem não teve função pública. De qualquer forma, o próprio Lupi havia dito que  a viagem havia cumprido uma agenda metade administrativa (o que justificaria o uso das diárias) e metade partidária.

O Globo continua pegando pesado em sua campanha contra Carlos Lupi, mas publicaram entrevistas com Cristovam Buarque e Pedro Taques, senadores pedetistas que tem exercido um papel de oposicionistas disfarçados, nas quais estes admitem que o ministro se saiu bem em seu depoimento no Senado, fortalecendo-se.

No Jornal Nacional, o depoimento recebeu um bom destaque; no bloco, o momento mais negativo para Lupi foi a declaração de Pedro Taques dizendo que o PDT deveria desistir do ministério. A posição de Taques e Buarque, contra a própria participação do PDT no governo, no entanto, soam mais como opiniões de cunho pessoal, lastreadas em algum tipo de ressentimento, do que uma postura política responsável.

10 de novembro de 2011

Conversa Fiada

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Ainda estou me acostumando ao ritmo de trabalho lá do Cafezinho. É difícil. Tenho que acordar no máximo às cinco da manhã. Acho que em duas semanas já estou adaptado. Estou fazendo cinco posts diários, de terça a domingo. Trabalhando oito horas por dia, dá para produzir um material de primeira qualidade.

Só que no Cafezinho não posso viajar muito. Tenho que ser conciso, objetivo, direto. Deixo as viagens para Óleo. Os poemas, os vídeos do Hendrix, enfim, a parte mais hippie da alma fica por aqui, a mais yuppie fica por lá.

Nisso também ainda estou me acostumando. Errei a mão da maioria dos posts lá no Cafezinho. Ainda estou muito blogueiro, muito passional, muito ideológico. Tenho que deixar essas paixões para esse espaço aqui, e agir apenas profissionalmente por lá. É meio esquizóide, mas estou acostumado. Houve um tempo em que eu me dividia em três personas bem distintas: o Miguel do HellBar, interessado apenas em literatura; o Miguel do Óleo, interessado só em política; e o Miguel do Coffee Business, interessado só em café. Era uma loucura, rs, embora olhando retroativamente eu admita que me diverti um bocado. Eu sei que todo mundo tem essas divisões, mas eu era uma pessoa inteira em cada caso. Envolvia-me pessoalmente e assumia uma postura para cada persona. Criava um universo e uma atmosfera distinta para cada situação.

Mudando de assunto, terei que me acostumar em manter uma disciplina editorial estrita no Cafezinho, e deixar para soltar os cachorros no Óleo.

Assisti outro dia um filme muito bom, Agentes do Destino, com o Matt Dammon. É baseado num livro do mestre Philip Dick, o grande escritor de ficção cientítica. Aliás, um dos meus sonhos de burguês é passar as tardes à tôa, lendo Philip Dick... Ele constrói histórias futuristas alucinantes, mas com muito fundamento, uma pegada política sempre no momento certo, afora a criação de personagens incríveis.

Eu queria trabalhar com roteiro de cinema, escrever romances, um tratado de filosofia. Dirigir um filme. Ter um barco. A gente sonha tanto que sente pontadas na cabeça quando caminha na rua, olhando para o chão sujo e levemente deprimido com a sensação de que o tempo escorre muito rápido a seu redor e que você não realizará quase nenhuma de suas fantasias.

Mas agora estou me sentindo até aliviado por ter tomado a decisão certa. Política é algo sério demais para eu ficar levando apenas na brincadeira. Eu estava quase enveredando para esse lado, para a gozação, mas como sou péssimo em humor, descambo para um tipo sombrio de sarcasmo.

Eu estava levando uma vida maravilhosamente vagabunda, embora entremeada de momentos de trabalho intenso (os tais free-lances). Começara finalmente a ler o Ulisses, do Joyce, o original de um lado, a tradução de outro, um dicionário de inglês, e muita pesquisa na internet. O livro tem citação pra cacete, e eu não quero perder nada. Então é uma leitura lentíssima, acho que vou demorar mais de um ano para terminar. Mas estou bem mais simpático ao livro agora (no passado, eu o considerava uma das grandes farsas da literatura mundial). A tradução pura é que não dá para engolir. As traduções do Ulisses tornam o livro ridículo.

Acabou a pilantragem. Como diz a canção do Simonal, agora é o momento de levar uma vida de otário. É preciso trabalhar e ganhar dinheiro.

Enfim, as coisas vão se equilibrando. Quando eu fiz o Gonzum.com, não fui nem um pouco profissional. Escolhi um provedor gratuito, depois um provedor pago mas horrível que ficou fora do ar por dias. Agora não. Escolhi o melhor provedor, comprei o melhor pacote. Escolhi um nome mais inteligente. Estudei html, php, e até um pouquinho de javascript. Nessas horas é bom não ter dinheiro nem poder. Se o tivesse, contratava um monte de gente para trabalhar para mim. Mas aí também não aprendia nada. Eu sou obrigado a aprender tudo.

Eu gostaria muito de escrever uma resenha falando do novo livro do Mirisola, Charque, e do novo do Paulo Scott. Conheço ambos, pessoalmente, e suas respectivas obras, e outro dia fiquei divagando sobre um mini-ensaio de literatura comparada.

Aquela polêmica em torno do Rafinha Bastos depois se desenvolveu positivamente para mim. Outro dia li uma entrevista do Veríssimo, em que ele afirma que Rafinha "tem seu talento". Fora dos circuitos neurastênicos das redes, as pessoas gostaram do meu posicionamento pela liberdade de expressão. Acontece que a maioria não gosta de se meter em polêmicas. Pena que uma galera tenha reagido de maneira tão estranha. Parece que guardavam rancor contra mim há um tempo, e aí a coisa explodiu. Mas preciso me acostumar a isso também.

Poxa, há tempos que não escrevia com tanta liberdade aqui no blog. Acho que eu forcei um pouco as polêmicas porque estava me sentindo oprimido, sob pressão, tendo sempre que dar opiniões importantes sobre temas importantes. Agora o peso se foi. O Óleo respira alivado, olhando a linha do horizonte, pensando vagamente em como os pilares que sustentam os sonhos se deterioram rápido, ainda mais tão perto do Atlântico. A maresia lhes corrói, e tudo parece balançar, inseguro, trêmulo, qual um barco a singrar por águas turbulentas.

6 de novembro de 2011

Ocafezinho.com, um novo projeto

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Se você teve saco de ler meu último post, já viu que resolvi abordar o problema da mídia sob um ângulo diferente. Alguns não entenderam bem. Um amigo falou que "não há espaço para dúvidas, só para certezas". Bem, agora vocês vão entender onde eu queria chegar. Eu não sou homem de falar, mas de fazer. Cansei de bater a cabeça contra esse rotundo e espinhento muro midiático. Essa choradeira junto aos pés do governo está começando a ficar ridícula. Quem deve agir não é o governo. Somos nós, cidadãos. A mídia corporativa pode ser uma porcaria, golpista, caluniadora, mas é inegavelmente profissional. Os caras trabalham pra cacete, então quem quiser fazer o contraponto tem que fazê-lo igualmente através do profissionalismo.

Pensando nisso, há algumas semanas que comecei a desenvolver um novo projeto. Trata-se de um site de análise de mídia. Nele, eu faço um escrutínio diário da mídia nacional, e mesmo internacional, mas focando em nossos diletos amigos Globo, Folha, Estadão e Veja. Como análise, entendo decifrar as intenções ocultas por trás dos editoriais, as informações omissas nas matérias, contextualizar tudo, prever os desdobramentos.

Não vou me estender muito porque vocês verão por si mesmos do que se trata. E no próprio site há páginas explicativas. Entendam ainda que ele ainda está em fase de testes, portanto não sejam exigentes demais nessa primeira etapa. E agradeço que dêem sua opinião, façam críticas ou sugestões.

Adianto apenas que o site, após alguns dias, terá algumas matérias exclusivas para assinantes. É assim que ele pretende se pagar.

Quem quiser ajudar a divulgar o projeto, pode colar o código embebed do banner em seu blog ou site.

Ah, mas desta vez não cometerei o desatino de exterminar este Óleo. Ele continua e eu continuarei postando por aqui. Talvez ele mude um pouco seu perfil, sei lá. Só sei que o Óleo do Diabo permanece vivinho da silva.

2 de novembro de 2011

A primavera árabe pousou no Rio

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Gostaria de partilhar com vocês algumas reflexões que fiz após longas conversas com Ahmed Bahgat, o blogueiro egípcio que recepcionei por uns dias aqui no Rio.


Taí o cara. É um egípcio bem original. Budista, ultra-conectado às novas tecnologias (é diretor nessa área, numa ong), não liga muito para ideologias convencionais. Convenceu-me de que Kadafi era mesmo um ditador insano, e que os jovens árabes não querem saber de bem estar ou segurança sem liberdade. Quanto à revolução no Egito, da qual ele foi um dos protagonistas (o flat onde mora inclusive fica na praça Tahir), Ahmed está bem desencantado, como era de se esperar. Tem medo das eleições, porque a tendência é que os muçulmanos ganhem a maioria das posições no Congresso e o país se torne ainda mais conservador. Foi o que aconteceu na Tunísia, por exemplo, onde ocorreram as primeiras revoltas da chamada Primavera Árabe. Por conta disso, ele já está até se preparando psicologicamente para sair do país, porque admitiu que não suportaria viver num regime islâmico.

Ahmed, que veio ao Brasil convidado pelo I Encontro Mundial de Blogueiros, fez muitas perguntas sobre a situação política no Brasil e confesso que fiquei um pouco envergonhado da mesquinhez de nossos problemas. Temos uma revista Veja, mas no Egito 60% da população está abaixo da linha de pobreza (hoje são menos de 10% no Brasil, e a presidente prometeu zerar este índice até o fim de seu mandato). Aqui temos uma mídia caluniadora e golpista, mas livre. No Egito, os meios de comunicação privados foram agredidos pelo Exército.

Enfim, Ahmed confirmou uma coisa que venho matutando há um tempo. É claro que todas as conquistas sociais que realizamos vieram da luta política, portanto esta não pode esmorecer nunca. Um país começa a decair justamente quando a sua camada intelectual perde o interesse pela política, deixando livre o terreno para todo tipo de pilantras e usurpadores. Entretanto, mais importante do que realizar a luta política em si é refletir sobre o que lutar, como lutar. Qual o foco?

O imbróglio com Orlando Silva me deixou bem irritado, e aí eu comecei a pensar: será que estou me tornando um sujeito rancoroso? Não é um pouco ridículo acoplar o seu bem estar espiritual à estabilidade política do governo?

Também pensei muito sobre o poder da mídia. Não estaríamos entrando numa guerra perdida? É disso que se trata: vencer a mídia? O que significa isso? Produzir a falência dessas empresas? As coisas realmente serão melhores se isso acontecer ou surgirão outros órgãos ainda mais degradados moralmente?

Por fim, a pergunta mais constrangedora, e que por isso mesmo devemos fazê-la corajosamente a nós mesmos: não seria positivo, para a democracia brasileira, termos uma pujante imprensa de oposição? Não seria ela uma garantia objetiva, contundente, contra possíveis desmandos governamentais? Certo que ela costuma fazer, tradicionalmente, campanhas sórdidas, fundamentadas em mentiras, em depoimentos de criminosos, em escutas ilegais, etc. Ela é vil, muitas vezes. Mas não seria uma espécie de mal como aquele de Mefistófeles, que engendraria o bem? É preciso admitir que esse argumento tem sentido, visto que o Brasil tem experimentado um desenvolvimento muito forte, em quantidade e qualidade, e justamente em paralelo à um movimento midiático cada vez mais oposicionista.

Não é uma coisa em que eu acredite, mas eu preciso questionar. A leitura de "Sobre a Liberdade", do Stuart Mill, mexeu comigo. Ele diz que a disputa aberta e transparente entre opiniões divergentes é a única maneira eficaz de consolidarmos a nossa própria opinião.

E agora estou relendo pela enésima vez A República de Platão. Há um personagem, chamado Adimanto, que faz uma brilhante defesa da injustiça, do egoísmo e da maldade, enfatizando que não era isso em que ele acreditava, mas que, justamente por não acreditar, ele gostaria de ver aquele discurso ser esmagado por Sócrates. Como não havia ninguém para defender aquele discurso entre eles, Adimanto mesmo o faz, porque conhecia os argumentos de seus adversários.

Em nossas discussões sobre a função da mídia no Brasil, temos o cuidado de ouvir o outro lado? Mais que isso, estamos prontos a ouvir o outro lado com respeito, boa vontade e, sobretudo, com disposição de entender? Sim, porque uma coisa é, de armas na mão, ouvir seu adversário, disposto a trucidar-lhe na primeira escorregadela. Outra é você procurar entender inclusive aquilo que seu adversário não conseguiu explicar direito. Isso é um autêntico e nobre debate democrático! Se não houver boa vontade, de ambas as partes, para ceder e mudar de opinião, se há somente sectarismo e rancor, então não é um debate democrático, mas uma guerra de posições. Não há armas físicas, mas há belicismo, e, com isso, danos psicológicos, humilhação e arrogância.

Tem um outro personagem na República, Trasímaco, de quem eu estou sempre encontrando cópias na internet. Ele aparece no início do livro I. Sócrates discutia tranquilamente com amigos sobre o significado do conceito de "justiça". Daí que Trasímaco se insurge. Transcrevo abaixo, porque o texto de Platão é uma delícia. No curso de Filosofia Política que estou fazendo, em Yale, o professor diz que muitos consideram a República o melhor livro já escrito no mundo.

Repetidas vezes, enquanto falávamos, Trasímaco procurara tomar parte na conversa, mas fora impedido pelos amigos, que queriam ouvir-nos até o fim. Durante a nossa pausa, após minhas últimas palavras, não pôde mais se conter; erguendo-se do chão, como uma fera, lançou-se contra nós, como para nos dilacerar.

Polemarco e eu ficamos apavorados; porém Trasímaco, elevando a voz no meio do auditório, gritou: — Que tagarelice é essa, Sócrates, e por que agis como tolos, inclinando-vos alternadamente um diante do outro? Se queres mesmo saber o que é justo, não te limites a indagar e não teimes em refutar aquele que responde, mas, tendo reconhecido que é mais fácil indagar do que responder, responde tu mesmo e diz como defines a justiça. E abstém-te de pretender ensinar o que se deve fazer, o que é o útil, proveitoso, lucrativo ou vantajoso; exprime-te com clareza e precisão, pois eu não admitirei tais banalidades.

Ao ouvir tais palavras, fui tomado de assombro e, olhando para ele, senti-me dominado pelo medo; creio até que, se não o tivesse olhado antes que ele me olhasse, eu teria ficado mudo)

Mas, quando a discussão começou a irritá-lo, olhei-o em primeiro lugar, de modo que consegui dizer-lhe, um tanto trémulo:

Sócrates — Não fiques zangado, Trasímaco, porque, se eu e este jovem cometemos um erro em nossa análise, sabes que foi involuntariamente. Pois, se estivéssemos à procura de ouro, não nos inclinaríamos um para o outro, prejudicando assim as nossas oportunidades de descoberta; portanto, não penses que, procurando a justiça, coisa mais preciosa que grandes quantidades de ouro, façamos tolamente concessões mútuas, em vez de nos esforçarmos o mais possível por descobri-la. Não penses isso de forma alguma, meu amigo. Mas eis que a tarefa ultrapassa as nossas forças. Por isso, é muito mais natural para vós, os hábeis, ter compaixão de nós do que testemunhar-nos irritação.

Ao ouvir estas palavras, Trasímaco soltou uma risada sardônica e exclamou: — Ô Hércules! Aqui está a habitual ironia de Sócrates! Eu sabia e disse a estes jovens que não quererias responder, que fingirias ignorância, que farias por não responder às perguntas ,que te fizessem!

Trasímaco afirma ter uma noção muito mais correta sobre justiça. Depois de alguns rodeios, ele a revela:

Trasímaco — Ouve, então. Eu digo que a justiça é simplesmente o interesse do mais forte. Então, que esperas para me aplaudir? Vais-te recusar!

Trasímaco explica que o que entende como a força mais importante de uma cidade é o governo. Portanto, a justiça é aquilo que o governo decidir, seja numa tirania, numa oligarquia ou numa democracia.

Em seguida, Sócrates desconstruirá a afirmação de Trasímaco fazendo-o cair em contradição, como era seu hábito. No entanto, é bastante decepcionante ver Sócrates tentando derrubar seu adversário com pegadinhas dialéticas, em vez de se ater simplesmente ao argumento. O próprio Sócrates, no capítulo seguinte, admite que não estava satisfeito consigo mesmo, e que havia vencido Trasímaco sem apresentar uma argumentação verdadeiramente filosófica. Havia traído, portanto, a si mesmo. Após essa dolorosa mea culpa, confessa sentir-se desamparado diante das dificuldades que a questão se lhe apresenta. Mas, sob instâncias de seus pupilos, concorda em iniciar uma investigação dialética sobre a justiça, e aí tem início o livro, sendo o trecho anterior uma espécie de introdução.

Eu trouxe esse trecho para cá, porque tenho a impressão de que o debate em torno do problema da comunicação social no Brasil (e em todo mundo) está travado. A brutalidade do governo argentino contra a mídia privada daquele país é mostrada como se fosse um maravilhoso exemplo a ser seguido. Não é. Acho importante que os governos tentem resolver os dilemas da comunicação através de novas leis. Mas uma lei não produz justiça se não for uma lei boa, e não será boa se corresponder apenas à uma canetada chauvinista de uma autoridade. Se entendermos que os problemas da mídia devem ser resolvidos pela força bruta do governo, então estaremos repetindo os argumentos de Trasímaco, de que justiça é simplesmente a lei do mais forte.

O mau caratismo de meia dúzia de proprietários de jornais não é razão para legarmos a nossas futuras gerações uma legislação que corresponda a qualquer retrocesso em nossa liberdade de imprensa. Da mesma maneira, o mau gosto de meia dúzia de humoristas não pode ser usado para impormos mais regras do que já possuímos no campo da liberdade de expressão.

É importante conhecermos as legislações de outros países, mas com muito cuidado para não recairmos no velho preconceito de achar que tudo que vem de fora (sobretudo Europa e EUA) é bom.

O problema da mídia não seria antes um problema de caráter de alguns jornalistas ou donos de jornal, ao invés de um problema jurídico?

Com isso não estou dizendo que seja um problema menor. O problema moral muitas vezes é o mais grave num país.

No entanto, apenas um diagnóstico preciso poderá curar o que supõe-se ser uma doença.

Sim, admito que há uma doença. A mídia brasileira tem um poder desmesurado, muitas vezes nocivo ao bem comum. Há alguns pontos em que eu sou positivamente a favor de um controle por parte do governo, com apoio de entidades representativas da sociedade civil. Na questão médica, por exemplo. Com o crescimento populacional e o inchaço das grandes cidades, a comunicação se tornou vital para as políticas de saúde. Nisso, podia haver, se é que já não há, políticas severas de controle sobre o que se pode ou não publicar, embora mesmo nesse caso seja importante cuidar que seja um controle monitorado pelos diferentes poderes constitucionais (legislativo e judiciário) e entidades civis.

Por último, e mesclado a isso tudo, temos que pensar a internet não apenas como uma ágora política, mas também como uma grande vale de lágrimas, gritos loucos e manifestações bizarras. Com a doença de Lula, vejo que a situação se repete. A coleção de bizarrices anti-Lula igualmente não pode ser usada para se defender a criminalização da opinião, por mais esquizofrênica e homicida que ela seja. A internet criou um espaço de liberdade extremamente perturbador, com o qual teremos de aprender a conviver. Vejo muita gente acusando os outros de fazer apologia disso, apologia daquilo, e clamando por algum tipo de castigo. Ora, vamos ser sensatos e olhar para o estado de nossas repartições judiciárias e policiais! Os governos não conseguem resolver homicídios de verdade, imagine se os recursos forem dispersos para se combater abrobrinhas publicadas na internet!

Quando o sujeito publica uma insanidade na internet, isso não quer dizer que ele seja um crápula. Ele pode estar tendo problemas mentais (estou falando sério). Isso é muito comum e deve ser levado em conta sim. E se a pessoa tem problemas mentais, deve ser tratada com respeito, e não agredida ou linchada publicamente. Em suma, não devemos dar bola a todo tipo de comentário. Por um lado, é importante catalogar essas manifestações, para estudo e análise do comportamento social. Todos nós devemos estar mais ou menos atentos ao burburinho da internet. Por outro, entenda-se que muitas pessoas procuram justamente se exibir, e a repercussão de uma esquisitice apenas cumpre o objetivo doentio de seu autor.

O combate à bizarrice deve ser feito através da luta ideológica e da educação e não através da humilhação pessoal. A pessoa fala uma merda na internet, aí é perseguida por um bando de justiceiros travestidos de militantes políticos, perde o emprego, e quem sofre será o seu filho de dois anos que não tinha nada a ver com a história. Não sei se fica meio ridículo citar São Paulo, mas eu gosto muito da parte em que ele diz:

Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.
Romanos 2:1

Pois é exatamente isso o que acontece. Uma galera ficou julgando o Rafinha Bastos, mas aí eu vi que esses mesmos que se arvoraram em juízes do Rafinha diziam todo tipo de impropério na internet. Um sujeito ficou tão horrorizado quando eu retuitei uma piada onde constavam vocábulos pornográficos usados por Rafinha que teve um chilique e passou a me xingar pesadamente no Twitter. Ou seja, acusam Rafinha mas fazem o mesmo, ou aliás, fazem pior, porque o Rafinha fala suas merdas porque vive disso. Esses fazem de graça, por  simples falta de educação.

Então, Miguel, o que você sugere fazer? Nada? Então você é mesmo um reacionário!

Sim, eu sugiro fazer alguma coisa. Minha sugestão é incluir no currículo escolar obrigatório aulas de crítica midiática. Crianças e adolescentes devem aprender desde cedo a olhar a mídia de maneira crítica, tentando sempre separar o joio do trigo. Para mim, esta é a única solução. É uma bandeira positiva, construtiva. A bandeira contra a mídia é uma bandeira negativa, mais ligada uma ideia de destruição de que de criação. No fundo, os que levantam essa bandeira gostariam de repetir os gestos daqueles velhos sindicalistas da década de 30, que entraram nas redações de alguns jornais e destruiram-lhes as máquinas. A mídia privada é uma grande Matrix, que só venceremos através da conscientização política de cada indivíduo, um por um.

Uma coisa é você ler os jornais sem consciência crítica. Você se tornará certamente um imbecil. Outra é você ler devidamente municiado por outras fontes de informação: neste caso, poderá desfrutar talvez de uma leitura agradável durante seu café da manhã. Quando não estão engajados em campanhas histéricas de falso moralismo, os jornais trazem sempre alguma informação interessante. Você pode achar que a Folha só merece ser usada para forrar o chão da casinha de cachorro, mas não pode negar que é o jornal mais lido no país e a fonte de informação mais influente junto a políticos, juízes, advogados, artistas, etc. Traz entrevistas com as principais lideranças da política, com sumidades da ciência e da arte que respeitamos.

Não acho producente sermos maniqueístas. Não vamos chegar a lugar nenhum pressionando a esquerda a entrar numa cruzada moral contra a mídia. Isso só vai gerar prejuízos para todo mundo, porque todo mundo, de esquerda ou não, precisa da mídia para divulgar seus serviços, seus produtos, suas ideias.

Aliás, a esquerda deve participar do debate sobre comunicação social com muita humildade, porque a história já mostrou que a grande mancha do socialismo real foi - e ainda é - a repressão à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa. A China continua perseguindo artistas e livre pensadores, então ainda precisamos pôr muita água nesse moinho antes de pretendermos que uma nova lei da mídia irá resolver todos os nossos problemas políticos. A lei da mídia será feita de qualquer jeito porque as plataformas de comunicação estão no meio de uma grande revolução tecnológica. Mas será uma lei mais técnica do que política, e assim deve ser.

Como blogueiro progressista, eu acho que é muito mais construtivo, repito, defendermos uma mudança nos currículos escolares, introduzindo uma matéria de crítica midiática, e fazermos periodicamente grandes debates nacionais, com presença de nossos principais pensadores, sobre o que seria ensinado às nossas crianças, jovens e adultos. Deveria ser criada uma cadeira acadêmica voltada exclusivamente para o desenvolvimento de uma consciência midiática crítica em cada cidadão. Confesso que nunca gostei muito daquele lema do maio de 68, mas agora senti uma vontade imperiosa de citá-lo, até porque foi pela educação pública que os ideais da revolução francesa realmente se concretizaram em toda Europa:

Sejamos realistas, queiramos o impossível!

1 de novembro de 2011

Entendendo a Líbia

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(via Castorphoto)


Eu assisti ao vivo - quer dizer, pela internet, mas na hora em que acontecia - o depoimento de Pepe Escobar durante o I Encontro Mundial de Blogueiros de Foz do Iguaçu, que aconteceu semana passada. Trata-se de uma extraordinária aula sobre o que aconteceu e está acontecendo na Líbia.

26 de outubro de 2011

A calúnia venceu o Brasil

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A resposta para a pergunta que intitulava o meu post anterior (Brasil vencerá a calúnia?) foi dada hoje: infelizmente é não. Tivemos uma vitória rápida ao final da semana passada, mas o governo se acovardou de maneira lamentável. O poder da mídia de produzir crise continua intacto. É o que lhe resta. Fazer campanhas sem escrúpulos para derrubar ministros, como num videogame. Eu vou ter que mergulhar por alguns dias, porque engajei-me num projeto solitário que me obriga a voltar a estudar wordpress e php.

Marcia Denser: A literatura como sentença de morte

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(Mirisola, Denser e Sérgio Sá)


Algumas considerações sobre Charque, novo romance de Marcelo Mirisola

Por Márcia Denser, publicado originalmente no Congresso em Foco

Sempre que preciso escrever um grande texto (e este será um deles, vocês podem apostar), começo examinando minhas razões. Mas é bom avisar previamente do que se trata: será uma espécie de crítica ficcional (ou vice- versa) do novo livro, o 12º. de Marcelo Mirisola, Charque (S.Paulo, Barcarolla, 2011) a ser lançado na Mercearia São Pedro dia 31 de outubro próximo.

Voltando às razões: 1) Escrevo porque gosto de Mirisola, ele é meu amigo e porque há trinta anos eu esperava aparecer no Brasil um cara que tivesse a minha envergadura literária, como é o caso – raríssimo – de MM, e a gente sempre gosta do semelhante, right? (repito, a modéstia definitivamente não é uma das minhas qualidades).

Bom, essa não serve, ninguém escreve porque gosta do sujeito e eu sou famosa precisamente por ser INSUBORNÁVEL – e tomo toda a comunidade literária como testemunha; mas no caso de MM isso não seria problema; 2) Escrevo por vaidade, pra me mostrar – provar que sou melhor que o autor! – e esta eu coloco totalmente fora de cogitação, porque: 3) Escrevo pela Literatura, que anda uma merda, equivocada, esquecida da sua condição de Grande Arte, sua função primordial – a única que ganha Prêmio Nobel.

Naturalmente, ficamos com a terceira hipótese.

Nessa altura do campeonato literário de MM, o leitor terá algumas surpresas: em primeiro lugar esta É A Biografia Pra Valer do autor mais autobiográfico do país (aliás, considerado por quase todos – crítica, público & despachantes afins – como totalmente autobiográfico ao longo dos onze livros anteriores!). Só que antes era MESMO ficção. Quer dizer, poesia, esculacho e um talento inusitado.

Mas agora é pra valer.

Charque é um romance de aventuras, fatos e ficções – o que, atualmente, significa oscilar entre a poesia e o desacontecimento – mentiras & verdades (mais mentiras que verdades embora só estas doam, posto que verdades. Ainda).

Sem contar o estilo e suas avaliações hilariantes dessa sub-realidade de merchandising (a que nós chamamos vida), dessa sub-vida, deste sub-horizonte pop de postes e parabólicas onde atrapalhamos o trânsito do passado recente (dos 80 aos 2000); algo que ele realiza com a precisão do acaso ao percorrer aleatoriamente a geografia nacional – de Manaus a Maceió, de Serra Pelada às praias de Florianópolis, com quebradas, descidas e subidas (por sinal, mais descidas que subidas, aliás todas equivocadas); um trancetê de ponte aérea Rio-Sampa onde autor/ narrador no fundo, na verdade, o tempo todo e A DESPEITO DE SI MESMO (à sua revelia) persegue um objetivo central: sua função de escritor.

Sem que o leitor tenha a menor idéia do que está REALMENTE se passando. Nem ele.

Boto a mão no fogo como MM não sabia o que estava fazendo ao imaginar que simplesmente estivesse “reincidindo” na escritura do Azul do Filho Morto. Sim, claro. Ali ele puxou o fio da infância: lambidas nos azulejos, masturbações pro cão pastor capa-preta, as empregadinhas, a cueca pelo lado do avesso, o nono, o Palestra Itália, o cazzo e por aí vai.

Certo, o menino de Pinheiros, bochechudo, rico e bem careta – protótipo do paulichão de chinelo, o da poltrona, inclusive pelo sotaque, aquele que só escrevia pra parar de escrever no dia em que se casasse na igreja da Acharopita com uma Andressa ou Juliana ou Tatiana ou Adriana que o chamasse de “benhê”, tivesse cinco filhos, assistisse ao Domingão do Faustão, etc., até que a morte e o esquecimento o apagassem, a ele & respectiva famiglia, como de praxe ocorre a 99% duma população marasmática para a quem a “apatia” virou categoria olímpica.

Mas O Azul MM publicou faz dez anos, contudo – que fique bem claro – autores de primeiro time evoluem, se transformam, senão não seriam de primeiro time.

Degradando in-extremis a coisa (porque agora me emputeci), a função, o objetivo do escritor, não é fazer gracinhas ao longo de onze livros (embora, se já ficasse por aí, MM permaneceria tranquilamente uns trinta anos luz à frente do segundo colocado). A função do escritor é dizer ao que veio, realizar pra posteridade sua absoluta originalidade; explicar porque sua obra é como uma pedra angular do edifício literário que, se deslocada, todo o edifício cai. Se for de primeiro time.

E Marcelo é o único escritor brasileiro publicado pós-90 de primeiro time. É bom esclarecer essa história de “escritores” e escritores, cuja maioria absoluta, atualmente, não passam de “despachantes” – o termo é do Miri (“micro-empresário” era a definição dos anos 90 do Contardo Calegaris – ou assemelhado, sei lá, gênero colaboradores do Caderno Mais. Esses caras que escrevem “ensaios” em quantidades industriais e durante anos e não fazem a mínima diferença).

Já notaram como TUDO fica vertiginosamente velho ANTES de brotar e amadurecer?

E vocês não acham que aí tem algo muito ERRADO? Quer dizer, aqueles que ainda acham alguma coisa.

Mas malandro é gato que nasce de bigode, certo?

Vou começar novamente: Charque, décimo segundo livro de Mirisola, é um romance a respeito da absoluta falta de imaginação nacional; Charque é um épico da poesia cruel, ressentida e extremamente eficiente, que resulta do fato do sujeito só pensar em si próprio – inconscientemente. É a Lei de Gerson posta em prática, segundo MM.

Pra escrevê-lo, como autor da série rigorosamente literária, foi preciso muita paixão, muito encanto e muitíssimo culhão. Certo. MM não é mesmo um suicida de primeira viagem, até porque lê horóscopo antes de ir para a câmara de gás.

Charque é como se o autor fizesse, paralelamente, a liquidação da sua alma e a do Brasil, donde se tratar dum guia infalível para a própria morte social. Além de histórico-geográfica: dessa vez te confiscam a cidadania!(cruzes, com a espinafração do Machado, só para “Acadimia” vais virar um mix de louco com leproso. Isso se eles forem minimamente criativos, o que eu duvido).

É a autobiografia recorrente do inconfessável, simultaneamente do autor e do Brasil. Sem desmentir o falso priaprismo metanarcísico de MM antecipadamente rendido.

É a fuga submersa pra dentro e para baixo – ao centro involuntário da covardia e da dor. Não esquecendo o roteiro de viagens tipo “conheça o Brasil!”: seu guia de compras na faixa de Gaza, sua carona garantida para a desmemória. Perdeu, perdeu, meu amigo brasileiro – desde sempre, atualmente e doravante ­– você sempre perde. De caso pensado. É teu segredo de polichinelo, ou seja, inconfessável só para você mesmo. E não é para menos, não é mesmo? Você é o PIB da cacofonia com a macaqueação, Machado de Assis incluído, “o máximo do mínimo”, segundo Marcelo.

Do livro, uma única e monumental cagada: o título – que merda é essa?

Outra: Você enche o saco com a Marisete!Quem dá cartaz pra trouxa é lavadeira!Dá serviço e um banho de loja nessa tua ânima desocupada! E protéica: mulher, animal, putíssima, gato, cachorra (e todas feias, sujas, burras e rampeiras!) – dá vontade de te mandar cultivar açafrões no jardim gay do Caio. Sei lá, sobe o nível, meu chapa (mas, oooooooops, perdão, não é de VOCÊ que se trata exatamente, mas do Brecão, o nosso brasileirinho médio e des-agregado).

A dúvida relativa e a grande frase: “Ainda que a delicadeza me escape, num arroubo de afeto e outro de repulsa merecida, será que apesar de tudo:
- Depois da queda (ainda que morto o menino),
Servirão as mesmas asas para voltar?”

Pra onde, Mirisola?

Quanto às asas, o caminho se descobre caminhando: se não te aleijarem até lá, normal.

Asas?A propósito, aqui cabe uma advertência ao autor que meus mais de cinquenta me sancionam: só não continuo escrevendo assim por preguiça, covardia, moral baixa, comodismo, falta de tesão e vergonha na cara. Elementos que nada têm a ver com asas. Se liga, Marini!

Naturalmente, não vou contar o fim do livro, mas Mirisola descobre e realiza sua função de escritor. No último capítulo. Mas dou uma dica, algo que também descobri aos 38 anos escrevendo a primeira versão do meu romance Caim. Tá lá, na primeira página:

Nem remetente, nem destinatário,
Nem sacrificante nem sacrificado, nem algoz nem vítima,
Mas se tornar ela própria o sacrifício,
A palavra redentora que já não perguntava nem respondia,
Que se consumava,
Mas isto não é meu corpo,
Isto não é meu sangue,
Posto que sombra, não tenho posteridade,
O que se multiplica é minha iniqüidade.
O meu nome, a minha assinatura,
É uma sentença de morte.
A minha sepultura
A minha lápide,
A minha cruz.

Pois é, a tua também, Mirisola.

Foda-se!

22 de outubro de 2011

Brasil venceu a calúnia?

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(O abraço que Marco Aurélio Garcia deu em Orlando Silva
é um abraço que milhões de brasileiros queriam dar)


Foi uma sexta-feira turbulentíssima. A mídia apertou o cerco em torno de Orlando Silva. Seus exércitos iniciaram um bombardeio concentrado durante o dia inteiro, tentando produzir um fato consumado. Na verdade, desde o dia anterior, a mídia vinha divulgando que o Planalto "emitira sinais" de que Orlando deveria pedir demissão. A manchete do Jornal O Globo da quinta-feira era enorme, bombástica e definitiva: Planalto decide afastar Orlando Silva. E nesta sexta quase todos os principais jornalistas políticos anunciavam a queda do ministro como inevitável.

Até que, finalmente, chega a patroa. Dilma Rousseff voltou da África, deu declarações irritadas acerca das notícias sobre sua suposta decisão de afastar Orlando Silva, reuniu-se a portas fechadas com o ministro e, por fim, decidiu que ele permanece no cargo. Foi uma tremenda vitória contra a calúnia, contra a manipulação da notícia, e contra os desmandos enlouquecidos de uma mídia sem escrúpulos.

A tensão gerada pela onda crescente e delirante de denúncias vazias acabou, como era de se esperar, transformando-se em rancor também contra o governo, acusado de agir com pusilanimidade em face ao golpismo midiático. "O governo é covarde", tem sido uma acusação frequente.

De fato, é inegável que os políticos brasileiros têm medo da mídia. É preciso entender, porém, que a mídia não precisa passar pelo incômodo eleitoral. Ela tem dinheiro e estabilidade. Já o poder dos representantes políticos sofre de uma grande "fragilidade" (que também é sua força) democrática: é temporário e descartável.

Lembremos que o conflito entre mídia e governo tem sido um problema grave em todo mundo, e acontece de uma forma muito acentuada na América Latina. As instituições políticas por aqui não são respeitadas. Mas é injustiça dizer que o governo brasileiro e as lideranças políticas não estão reagindo.

Hoje o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, fez declarações contundentes contra o que ele chamou de fascismo pós-moderno.


A própria presidente tem feito, frequentemente, declarações bastante enfáticas contra o prejulgamento e o linchamento político. Hoje mesmo o Planalto divulgou uma nota dura, seca e direta, como uma bala:

Nota à imprensa

Após a reunião com o ministro do Esporte, Orlando Silva, a presidenta Dilma Rousseff disse que o governo “não condena ninguém sem provas e parte do princípio civilizatório da presunção da inocência”.

“Não lutamos inutilmente para acabar com o arbítrio e não vamos aceitar que alguém seja condenado sumariamente”, disse a presidenta.

Na reunião, o ministro informou à presidenta que tomou todas as medidas para corrigir e punir malfeitos, ressarcir os cofres públicos e aperfeiçoar os mecanismos de controle do Ministério do Esporte.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Agora, é evidente que o governo precisa agir com prudência. O governo é um animal pesado, que se movimenta e se comunica com extrema lentidão e dificuldade, pois cada ato e cada palavra devem ser sopesados para que se coadunem sem traumas à sua mentalidade algo esquizofrênica, com múltiplas personalidades.

No entanto, a cada passo dado, a cada palavra emitida, dá-se uma grande transformação. Um pequeno gesto governamental pode ter um enorme significado histórico. O sofrimento do ministro Orlando Silva e dos militantes do aguerrido PCdoB, certamente se converterá numa consciência política mais aguçada, mais astuta, mais forte.

A estratégia de criminalizar a política tem sido o padrão da mídia. O simples fato de uma pessoa ser "filiada" a um partido político torna-a suspeita, como se esta filiação não fosse, na verdade, um ato de transparência ideológica. E o ministério dos Esportes pagou até por seus acertos. Condenou-se sumariamente o ministério pelo fato dele estar fazendo cobranças judiciais contra ongs dirigidas por filiados do próprio PCdoB, como era o caso das entidades dirigidas pelo PM João Dias.O ministério provou que não perdoa ninguém.

Faltou, como sempre, bom senso. O Ministério dos Esportes foi entregue ao PCdoB para que este implantasse políticas em linha com os ideais do partido. É natural, se ele deve contratar entidades privadas, que sejam selecionadas algumas que partilhem dessas mesmas estratégias. Há irregularidades? Sim, sempre há. Mas novamente usemos o bom senso. Há dois tipos de irregularidades. Algumas são provocadas por confusão burocrática. Muitas correspondem a desvios de verbas. Não há nenhuma relação destas últimas, porém, com o PCdoB. Ao contrário, no ranking da corrupção, o PCdoB sempre figurou num dos últimos lugares.

O Ministério mostrou que tem estado atento às irregularidades, às quais correspondem a um percentual pequeno do montante total das ações. Não se pode culpar o ministério, ou o ministro, por erros de terceiros. O ministério é obrigado a dar um voto de confiança às entidades com as quais tem parceria. O governo não pode antever que empresas lhe passarão a perna. O que ele faz é examinar as contas, no âmbito dos próprios ministérios, junto ao Tribunal de Contas e através da Controladoria Geral da União, e, no caso de encontrar problemas, tomar as devidas providências.

O que causa espanto nesse processo todo é a estratégia articulada da mídia para derrubar o ministro. Divulgam-se denúncias uma após a outra, sem preocupação nenhuma com sua consistência. O importante é fazer volume e criar uma atmosfera de crise e linchamento, com vistas a pressionar o governo a tomar uma decisão rápida e intempestiva.

A compra de um terreno de 370 mil num lugar isolado do interior de São Paulo é considerado um crime. O fato da mulher do ministro dos Esportes dar assistência na produção de um documentário feito por uma ONG, sob encomenda do ministério da Justiça, é sensacionalizado. "Mulher de ministro recebe dinheiro do governo", diz a manchete. Ora, a mulher do Serra tem ONG que recebe há anos patrocínio do governo de São Paulo. Dona Ruth, que Deus a tenha, sempre teve ONG patrocinada com dinheiro público. E os últimos casos envolvem milhões de reais, e uma relação direta entre as esposas e o governo, enquanto a mulher do ministro ganhou apenas 40 mil para trabalhar num documentário sobre a ditadura, que obteve, através de uma outra ong, patrocínio de um ministério sem nenhuma relação com seu marido.

Não é o caso de justificar um erro com outro, mas apenas apontar uma injustiça. A mulher do ministro não estava cometendo nenhuma ilegalidade. A lei do nepotismo proíbe o ministro de empregar a sua mulher no ministério, mas não fecha à ela, arbitrariamente, as portas de toda instituição pública.

Em Vigiar e Punir, Foucault nos fala que a história da punição evoluiu de tal maneira que os castigos corporais foram substituídos, gradualmente, por castigos voltados ao espírito:

... e desde então os juízes, pouco a pouco, mas por um processo que remonta bem longe no tempo, começaram a julgar coisa diferente além dos crimes: a alma dos criminosos.

É assim que tem feito a imprensa, ao assumir o papel de um verdadeiro e terrível tribunal de exceção.

Num mundo cada vez mais dominado pela comunicação rápida, onde uma acusação rapidamente multiplica-se em milhões de links, comentários, piadas e juízos, uma calúnia corresponde a um sofrimento bem pior do que uma dor física, porque ataca diretamente a honra, ou seja, a alma do acusado. E dificilmente a ferida cicatriza, porque é extremamente complicado fazer a calúnia fazer o caminho de volta, apagando seus rastros. Na era da internet, as acusações precipitadas, os comentários maldosos, as piadas cruéis, permanecem na rede para sempre, constituindo uma espécie de castigo perpétuo.

Não é de se espantar que os políticos tenham receio da mídia! A mídia pode destruir não apenas a sua carreira política, mas algo muito mais importante: a sua honra, a sua dignidade, a sua alma.

Diante de um poder tão terrível concentrado em mãos inescrupulosas, é natural, ou antes, é necessário que uma parte da sociedade exija que haja um controle democrático da mídia. Não podemos mais ficar reféns dessa nova espécie de tirania, que de certa forma, parece a mais terrível de todas, porque tem o poder de vida e morte sobre a honra dos cidadãos.

Como diria Lênin: o que fazer? Eu vejo as pessoas pedirem uma Ley dos Medios, ou democratização dos meios de comunicação, sem no entanto saber muito bem do que estão falando. E o debate, é forçoso dizer, está sendo vencido pela mídia corporativa. Quanto a isso, tenho mantido uma postura bastante cética. Eu acho fundamental que seja discutido um novo marco regulatório das comunicações. Mas tanta coisa vai mudar quando houver a convergência digital e a entrada definitiva das telefônicas no mercado de televisão digital e a cabo; tanta coisa vai mudar quando a maioria da população tiver acesso a uma banda larga decente; enfim, estamos no limiar de mudanças tecnológicas - e consequentemente, culturais - tão profundas, que acho um pouco ingênuo a gente pretender que será uma lei federal que mudará substancialmente, no curto prazo, a correlação de forças dentro da mídia.

O problema principal, a meu ver, é de ordem prática e orgânica para os partidos e forças políticas do campo popular. Eles têm sido o alvo principal dos ataques midiáticos. Não devemos, no entanto, alimentar um complexo de derrota fora da realidade. A esquerda, com mídia golpista e tudo, tem crescido a um ritmo bastante acelerado no Brasil, e possivelmente crescerá ainda mais em 2012.

Enfim, este problema de ordem prática pode ser resolvido com a instalação, dentro dos partidos e governos, de assessorias de comunicação mais competentes e mais ousadas. A sociedade civil engajada, ou seja, a militância, tem se mostrado bastante presente, e é justamente a ausência do governo nesta seara que a obrigou a portar-se com admirável autonomia e desenvoltura. Há uma responsabilidade, na guerra da comunicação, que pertence à esfera privada, e neste campo também a mídia tem encontrado alguns obstáculos sérios. Há uma pedra no caminho da mídia: ou melhor, muitas pedras: os blogs progressistas.

Nestes momentos de tensão, as pessoas costumam se deixar levar por raciocínios e julgamentos apressados. Não se deve fazer uma análise política com paixão ou rancor. O governo tem se manifestado, nos últimos anos, com uma assertividade cada vez maior em relação aos ataques midiáticos. As declarações de Tarso Genro, acusando a existência de um fascismo pós-moderno (referindo-se, é claro, à mídia) seriam impensáveis há alguns anos. A maneira como Orlando Silva se portou durante esta crise, com altivez e serenidade, respondendo com muita objetividade a todas as calúnias, também mostra que os representantes políticos estão amadurecendo sim.



É preciso elogiar, sobretudo, o espírito combativo, solidário e enérgico do PCdoB e seus militantes, que diferentemente do PT, que costuma ceder a divisões internas, agiu como um bloco uníssono em defesa da honra de um grande quadro. Uma postura que certamente inspirou militantes e dirigentes de outros partidos.

Enfim, as instituições políticas brasileiras sofreram o enésimo ataque, e mais uma vez resistiram. Quero acreditar que, a cada ataque do conservadorismo midiático e golpista, as forças populares emergem fortalecidas. Afinal, não existe melhor exercício político do que a luta.

Devemos, portanto, combater essa tendência, tão constante em nosso povo que se tornou quase um vício, de nos autodepreciarmos. O Brasil venceu mais essa guerra. Orlando Silva resistiu. Devemos comemorar e usar esta experiência para as muitas batalhas que ainda virão. Provavelmente enfrentaremos derrotas, mas também aprenderemos com estas para vencermos mais à frente.

A necessária acomodação entre forças sociais antagônicas tem sido um terrível desafio para qualquer nação. Os EUA perderam quase 1 milhão de vidas com uma guerra civil onde o que estava em jogo era exatamente o mesmo que experimentamos no Brasil: a luta entre conservadorismo e progressismo. Mais tarde, viveu uma época de caça-às-bruxas que até hoje envergonha o povo americano. A Europa, por sua vez, antes de atingir seu atual estágio de desenvolvimento econômico, político e social, testemunhou o nascimento de ideologias fascistas que resultaram em massacres e guerras.

Não esperemos que seja fácil para o Brasil superar suas contradições. A mídia é a cabeça de uma poderosa hidra, e não tem poder por si só, mas por representar setores sociais situados no alto da pirâmide. Não a subestimemos. A mídia brasileira é talentosa, criativa, sabe se reinventar a cada derrota, e sabe que o Brasil, mal ou bem, precisa dela, já que ela é o meio pelo qual a maioria do povo tem acesso a informações necessárias à cidadania. Essa é uma guerra que lutaremos sem cairmos na tolice do maniqueísmo. Santo Agostinho ensinava que tudo que existe tem bondade, pois em caso contrário não existiria, nem poderia ser corrompido - pois o que é mal, por ser mal, não pode sequer ser corrompido. Tudo que existe vem de Deus, dizia ele; na minha versão atéia, isto significa que tudo que existe e tem força possui uma importância histórica e uma utilidade social (com exceção da escravidão, que é a negação da liberdade e, logo, da vida). Não adianta, portanto, pintarmos os atuais conflitos políticos como uma guerra do bem contra o mal. É ingênuo querer o fim da mídia corporativa ou achar que os políticos não deveriam dar mais entrevistas, nem comparecer a nenhum evento, etc. A única solução é um acordo. Um pacto de fortes. Não exatamente entre governo e mídia, mas entre governo, Justiça, sociedade civil e mídia. Precisamos de uma mídia independente dos governos. Mas não uma mídia caluniadora. As forças da História, de qualquer forma, estão em movimento, e em luta; diante da História, nobres são os que tombam de arma nas mãos. E numa democracia, a arma mais legítima - ou a única legítima - é a inteligência. Como dizia Morrison: the old get older, the young get stronger; they got the guns, but we got the number. Gonna win, baby, and take it over!

21 de outubro de 2011

Censura ao blog Falha de SP chega ao Congresso Nacional

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Prezados, eu quase nunca divulgo texto de terceiros por aqui. Não é nenhuma política específica do blog, mas é porque o espaço é humilde e preciso manter uma certa organização estética. Dessa vez, porém, abro uma exceção. Fiquei bastante tocado com o email (coletivo, mas mesmo assim sensível) que recebi do Lino, dono do blog censurado Falha de São Paulo. Ele e seu irmão vem sofrendo uma perseguição judicial muito cruel e revoltante, por causa de uma paródia absolutamente inocente. Este é um caso que agride violentamente a liberdade de expressão no país. Então eu peço a atenção de todos. Abaixo, o texto do Lino e Mário:


Car@ amig@,


Primeiro, mil perdões pelo e-mail coletivo. É indelicado, mas às vezes necessário. Caso você esteja recebendo esta mensagem por engano ou não seja de seu interesse, minhas sinceras desculpas.

Seguinte: como você deve saber, estamos sendo processados pela Folha por conta do blog de paródia Falha de S.Paulo (detalhes aqui:http://goo.gl/MNTC8). Nesta quarta-feira, 26 de outubro, acontece uma audiência pública no Congresso Nacional em Brasília para debater o caso, que vem sendo considerado censura por todos os que tomam conhecimento do processo –a única exceção são os advogados e a direção do jornal.

Acontece que essa história da audiência irritou a Folha. Na verdade, irritou o dono do jornal. Ontem o Otavinho, como é conhecido o proprietário da empresa, Otávio Frias Filho, soltou uma nota agressiva, fazendo inclusive ataques pessoais. Por um lado foi bom, assim o jogo fica mais aberto, caem as máscaras. Por outro, é difícil confrontar o maior jornal do país, amparado por um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, quando é apenas você, seu irmão e seus apoiadores voluntários.

Mas entendemos que a causa é coletiva, já que em caso de vitória do jornal o dano também é coletivo. Isso porque o processo é inédito, então ficaria aberta uma jurisprudência contra a liberdade de expressão em todo país.

Por esse motivo e pela entrada truculenta do dono da empresa na jogada, venho pedir sua ajuda. Conheça o caso, divulgue a censura e a audiência, não aceite essa postura da Folha. Se eles ganharem, perdemos todos. A vantagem é que, se eles perderem, ganhamos todos.

Novamente desculpe pelo mau jeito do e-mail coletivo, eu estava planejando escrever emails individuais e atenciosos para muitos de vocês, mas foi impossível.

Muito obrigado, abs, beijo,

Lino e Mário

TODAS AS INFORMAÇÕES SOBRE O CASO E A AUDIÊNCIA ESTÃO NO DESCULPEANOSSAFALHA.COM.BR

20 de outubro de 2011

Orlando & outras polêmicas

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Decidi voltar a fazer video-posts. Peço tolerância pela péssima dicção, produção precária, etc. Não sou locutor, apenas tento expressar minhas ideias.

Parte 1/2



Parte 2/2

Anonymous ataca revista Veja

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11 de outubro de 2011

Rubiáceas floridas para John Stuart Mill

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Hoje de madrugada, pouco antes do amanhecer, desabou uma chuvasca assustadora. Como o buraco do ar condicionado ainda está aberto, um vento muito forte, barulhento, escapava por ali, agitando as cortinas e esfriando o quarto-sala onde eu durmo. Levantei para tirar as roupas do varal externo e contemplar os relâmpagos. Quem bom estar em casa, pensei, antes de voltar para debaixo do edredon.

Lembrei então da entrevista que fiz à tarde com um diretor de cooperativa. Ele havia me dito que as perspectivas metereológicas para Minas Gerais eram boas para esta semana. O café precisa de muita chuva, para compensar os quase 120 dias sem água que passou na região. E precisava que chovesse agora, a tempo de provocar a abertura dos botões florais e garantir a renda dos quase cinco milhões de empregos gerados em suas lavouras.

Entretanto perdi o sono, e voltei para o computador, no escritório-salinha de jantar que montei perto da entrada. Não tirava da cabeça o desejo de baixar um livro de John Stuart Mill, sobre a liberdade de expressão, do qual sempre ouvira falar.

Baixei o livro e agora estou no meio da leitura. É muito emocionante. Ele imprime um tom dramático à sua defesa da liberdade, mas com uma argumentação tão racional quanto uma fórmula algébrica. O ritmo e a sintaxe do texto, por sua vez, têm aquela leveza e densidade poéticas dos grandes clássicos. Essa é uma das ideias que tenho de literatura, aliás, que não se trata apenas de ficção. Também os clássicos da filosofia, política e história constituem o patrimônio literário da humanidade. Um dia escrevo sobre isso.

O original em inglês está aqui, e eu dei upload numa tradução aqui. Intitula-se "On Liberty", ou "Sobre a Liberdade". Você também pode ler o capítulo sobre liberdade de expressão neste site.

Só volto a postar depois que digerir cada palavra, porque é um livro absolutamente imprescindível e urgente para mim neste momento. O café precisa de chuva para produzir suas lindas flores brancas com aroma de jasmin. Eu preciso ler este livro. A blogosfera e o Brasil precisam de liberdade. Como disse um maluco que tomou LSD e foi parar, por acaso, no sítio do John Lennon: tudo faz sentido agora, irmão.


Imagem: Wesley Duke Lee. 

10 de outubro de 2011

A paranóia sexista e anti-libertária da esquerda caduca

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(Deve ter algum sexismo na figura aí)

O meu post sobre o Rafinha Bastos suscitou reações carinhosas por parte dos amigos. Um blogueiro afirmou que eu deveria ter escrito sob efeito do álcool, depois que eu tinha surtado, que se tratava de uma opinião exótica (disso eu gostei) e que eu apenas me prejudicava (essa não entendi). Uma blogueira esclareceu que "ainda" não desejava que eu quebrasse os dentes, visto que esperava uma retratação. É lindo o espírito democrático! É lindo o espírito de paz e fraternidade entre os colegas!

Todo mundo reclama da falta de diversidade de opiniões na mídia, e de repente pretendem impor a mesma teocracia monolítica na blogosfera. Vários se manifestaram como se fosse absurdo o simples fato de eu ter emitido aquela opinião. Uma tuiteira passou dias me xingando de sexista e proferindo palavrões. Uma outra já me deu tanto block que deve ter construído uma muralha de concreto, embora minhas palavras - contra a minha vontade, já que eu não quero ser mais xingado - sempre arranjem um jeito de furar o bloqueio.

Já tentaram me explicar várias vezes o que é sexismo, mas ainda tenho dificuldades para entender completamente esse tema. Talvez alguma feminista possa "desenhar" para mim (elas sempre querem desenhar para que possamos compreender). Uma delas disse que se eu elogiar o jantar preparado por minha mulher, por exemplo, estaria sendo um "sexista benevolente".... Isso me confundiu um pouco. Na minha casa, onde sou eu o cozinheiro oficial, a recíproca seria válida?

Enviaram-me um artigo publicado na Carta Capital, da Rosane Pavam, onde somos brindados com uma longa xaropada - culta, é verdade, mas ainda sim uma xaropada - sobre o que é ou não humor. O texto é cheio de contradições insolúveis. Limito-me a reproduzir este trecho:

Chico Anysio, assim como Jô Soares, sempre proferiu piadas sexistas, machistas e misóginas, mas, como lembra o historiador Saliba, quase sempre encarnando outros personagens, como oligarcas e nhonhôs: “Os preconceitos estavam lá, todos, alguns em toda a sua crueza, mas eram reversíveis, mudavam de lado a todo o momento, os papéis eram trocados, retomando o universo do burlesco”.

Ou seja, se Rafinha inventasse "personagens", se "mudasse de lado a todo momento", podia continuar fazendo o que faz. Um humorista agora tem ser igual ao Chico Anísio para ser aprovado? Tudo isso segundo o historiador Saliba, não se esqueça. Viva o historiador Saliba! Os humoristas devem ler Bergson antes de abrir a boca! E o padrão de humor deve continuar sendo os programas da Globo!

Minha surpresa, no entanto, foi maior com o artigo de Marcos Coimbra, publicado no Azenha. O politólogo também demonstrou profundo conhecimento sobre humor, como se pode constatar na conclusão de seu texto:

Só se for para quem acha graça nas velhas piadas que ridicularizam mulheres, negros, indígenas, portugueses, nordestinos, homossexuais, loucos e deficientes.

Confesso que essa é uma opinião interessante. Coimbra, porém, esqueceu de acrescentar leprosos, anões, vesgos, fanhos (se bem que estes podem ser classificados no grupo "deficientes"; mas é legal detalhar), argentinos e paraguaios. Mais um pouquinho, e Coimbra incluía todo o espectro humano que, segundo ele, não pode virar objeto de piadas. Bem, pelo menos sobrarão os bichos, embora eu desconfie que algumas ongs lutarão para que estes não sofram com o nosso corrosivo e degenerado humor.

Escuso-me de comentar as suas comparações com as leis da Suécia. Neste campo da restrição à propaganda, assim como em tantos outros, sempre há alguma lei escandinava que a gente pode copiar. Deve ser por isso que a Suécia tornou-se uma potência no campo do audiovisual e da liberdade de expressão. Coimbra - ironizando a mídia - lembra que o "lulo-petismo" não chegou à Suécia. Pois é, de fato, lá chegou foi o neonazismo, no parlamento e no Executivo.

O mais curioso mesmo é que as pessoas - na falta de outro argumento - vem me atacar chamando-me de "reacionário", como esse, que me deliciou especialmente:
Com a vantagem que uma semana me dá, seus comentários me impelem a pensar que você está se transformando - se já não era - um reacionário de direita dos piores.

O engraçado é que eu pensava justamente que o meu erro tinha sido ideologizar o debate. Ou seja, eu acreditava que isso (o ímpeto de censurar e o espírito de linchamento) não fosse necessariamente uma coisa da esquerda, mas se tratava puramente de um tolo e ingênuo moralismo da classe média "politizada", travestido de indignação. Também tinha a esperança que as pessoas objetivavam restringir apenas a publicidade, que teria regras próprias, menos livres que outras formas de comunicação. Não, o desejo é restringir o humor também. Atenção, humoristas que gostam de dar  aquela "meia hora de bunda"! O bicho pode pegar para vocês também!

Como se pode constatar pela reação das pessoas à "sugestão" da ministra Iriny Lopes de que a Globo inserisse uma informação pública na novela das oito, há uma intenção real de interferir igualmente na ficção. Para a ministra, o certo não seria o governo fazer um anúncio no intervalo da novela - tem que enfiar a informação no meio da trama. Maravilha. Na novela do SBT sobre a ditadura, deveriam informar o telefone da comissão de direitos humanos da ONU no meio das sessões de tortura... Por que ninguém nunca pensou nisso antes!

Meus amigos, acho que meu amigo blogueiro está certo. Estou ficando louco. Toda cerveja que bebi na vida resolveu finalmente cobrar a conta da minha lucidez. Tenho opiniões exóticas. Meus dentes já começam a doer com a possibilidade de serem quebrados. E, por fim, tornei-me um empedernido e odioso reacionário!

Sim, só pode ser isso, porque é isso ou então eles que é que enlouqueceram todos! Eles é que estão bebendo muito! Eles é que se tornaram reacionários! E tomem cuidado, porque neste caso a realidade pode lhes quebrar os dentes!

Quando eu penso estar isolado numa ilha, rodeado de estranhos por todos os lados, eis que leio um artigo do Mino Carta, intitulado: "Já não se fazem gênios como antigamente?", que me deixa ainda mais desamparado. Não estava disposto a comentar esse texto, porque gosto muito do Mino, respeito-o profundamente, etc. Mas visto que ele aparece justamente nesse contexto de opiniões esdrúxulas, sou forçado a lembrar ao grande Mino que o tempo do Renascimento, descrito brilhantemente por Jacob Burckhardt, foi um tempo de tiranos crudelíssimos, massacres, exploração mais vil do povo. O trecho abaixo, portanto, que resume a tese do meu editor preferido, contém uma premissa equivocada.

Há uma conexão transparente entre todas as atividades humanas praticadas no mesmo momento, e a Renascença é extraordinário momento de mudança e renovação. A turva, aturdida hora que vivemos agora é de decadência.

Não vivemos nenhuma decadência. O sufrágio universal (incluindo aí o voto das mulheres) só começou a ser implantado nas democracias modernas a partir da década de 60, no século passado. O analfabetismo no mundo só agora tem caído substancialmente. Ainda há desgraça, fome e doenças no planeta, mas nada que se compare ao medievo, onde a longevidade média dos homens não ultrapassava os trinta anos. O mundo de hoje oferece oportunidades de ascensão social a um percentual muito mais alto da população do que na época de Michelângelo. Naquela época, os artistas dependiam de tiranos assassinos e papas corruptos para sobreviver, hoje podem vender seu trabalho diretamente ao público. Eu tenho infinita admiração pelo Renascimento italiano, Mino, e já tive o privilégio de estar em Florença por duas vezes (uma delas por quatro meses) e ler a Divina Comédia e Petrarca no original e namorar de perto o portão do Batistério e a torre planejada por Giotto na praça do Duomo, mas eu sei que as condições políticas daquele tempo eram bem piores do que vemos hoje no Brasil, por exemplo. E se não temos nenhum Dante Alighieri, tivemos um Dante Milano.

Observação importante: eu critico o Mino mas ele continua sendo meu editor preferido; não sou como alguns de vocês que, só porque não aprovam uma opinião, condenam a pessoa à fogueira eterna. A mesma coisa vale para Marcos Coimbra, um politólogo que respeito profundamente, apenas me concedo o atrevido direito de discordar nesse tema.

Observação importante 2: posso nunca ter tido nenhuma projeção midiática; sou apenas um reles blogueiro semi-anônimo; mas o respeito ao indivíduo e à dignidade que vocês cobram diariamente da grande mídia, espero que tenham comigo.

Temos um país repleto de problemas trágicos para serem solucionados. As grandes cidades brasileiras que eu conheço estão semidestruídas. Lixo na rua, saneamento precário, saúde pública deficiente. Tipo de problema que já não apoquenta muito os suecos. A Dilma teria se acovardado ao recuar no caso do novo imposto da Saúde? O Brasil precisa melhorar a gestão do setor, mas precisa também de mais recursos. E o governo - através da ministra Iriny Lopes - se desgastando perseguindo Rafinha Bastos, publicitários de empresas de lingerie e novelistas de tv!

Quanto aos programas de humor e telenovelas, continuo defendendo mais e mais liberdade, e zero interferência do governo. Em casos extremos, que a questão seja decidida pela Justiça, mas que esta julgue, por sua vez, sempre com bonomia e tolerância máxima. Há situações excepcionais que devem ser coibidas, como aquela tv que mostrou uma menina sendo estuprada em pleno dia. De resto, porém, deixemos de ser hipócritas, reacionários e censores. O sexismo na TV e no humor só poderá ser vencido pela luz, pela transparência, pela liberdade, não pela mão pesada, quase sempre desastrada nesses assuntos, do Estado.

7 de outubro de 2011

Desindustrialização, onde?

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Continuo monitorando os índices da indústria brasileira. A acusação de que o Brasil estaria se desindustrializando me preocupou muito, porque, se fosse verdade, então seria um problema sério, que me obrigaria inclusive a rever minha simpatia pelo governo do PT.

Outro dia mesmo li no jornal uma notícia de que a produção industrial havia caído em agosto ou setembro. Essas matérias informam muito pouco, e sempre distorcidamente, porque nunca nos proporcionam uma visão mais abrangente. Até os fatores sazonais são omitidos do leitor. Há meses em que a produção industrial declina, todos os anos, outros em que sobe, por isso é importante sempre você ter em mente um prazo mais longo, para enxergar mais claramente.

Então eu voltei ao IBGE, onde já temos dados históricos consolidados, com atualização até agosto de 2011, para a produção industrial brasileira. Preparei uma tabela cujos dados completos podem ser vistos aqui.

Eis que me deparo com um quadro curioso, mas não surpreendente. Ele é muito bem vindo neste momento, em que os tucanos parecem decididos a fazer um trabalho melhor de "comunicação", tentando provar aos brasileiros como o governo FHC foi bom. Pois bem, ofereço-lhes - aos tucanos - uma estatística que vai ajudá-los a esclarecer melhor o povo.

Em janeiro de 1995, o índice mensal da produção industrial brasileira de bens de capital ficou em 111,56. A base deste índice, que é igual a 100, é a média de todo ano 2000. Pois bem, repetindo, em janeiro de 1995, este índice estava em 111,56. Passam-se oito anos de governo, e em dezembro de 2002, o índice despencou para 84,47!

Vocês se lembram da imprensa fazendo estardalhaço com esses números à época? Pois deveria ter feito, porque o setor de bens de capital é sempre o mais importante de um país. É a base da indústria. É o setor que produz as máquinas. Tipo: uma fábrica que produz máquinas que serão usadas na indústria de alimentos, ou tecidos, ou automóveis. Quando um governo quer investir na industrialização, ele começa sempre investindo no setor de bens de capital.

Deve-se olhar portanto sempre a evolução do setor de bens de capital para se ter uma ideia clara da situação da indústria brasileira. Problemas pontuais, como os enfrentados pelos setores têxtil e calçadista, sempre vão acontecer, sobretudo enquanto houver anomalias cambiais no mundo, como é o caso da China. É muito difícil para uma indústria brasileira produzir uma roupa a um custo mais baixo que uma chinesa. No longo prazo, porém, com uma economia internacional regulada com inteligência, e corrigidas as anomalias cambiais, esses desequilíbrios vão se resolvendo. Por enquanto, a solução é fazer o que o governo já começou a fazer, embora talvez com excessivo atraso, que é identificar os setores mais prejudicados pela concorrência desleal estrangeira e adotar políticas específicas de fomento.

Fala-se muito do câmbio forte como um fator que estimula a desindustrialização. No entanto, as economias mais industrializadas do mundo há décadas possuem os câmbios mais fortes: Japão, EUA, Inglaterra, Alemanha.

O papo de desindustrialização, aventado inclusive por alguns sindicalistas do ABC paulista, é muitas vezes uma demanda apenas corporativa. Um lobby, melhor dizendo. E o governo muitas vezes se sensibiliza. Há momentos, todavia, em que é preciso deixar que a livre concorrência faça a sua parte. Não se pode culpar o câmbio ou a política industrial do governo em casos em que há simplesmente a incompetência do proprietário de uma fábrica. Não se trata de defender o capitalismo cruel, mas de respeitar um mínimo e necessário darwinismo econômico. Até porque o governo tem recursos limitados, e seria injusto aplicar verba numa empresa falida por incompetência em vez de construir um hospital.

O que o governo pode e deve fazer é gerir uma boa política social, proporcionando aos trabalhadores prejudicados pelo fechamento de uma fábrica um seguro-desemprego com valor digno e cursos de recapacitação, em todo o período que estiver sem trabalho. O absurdo fundamental de um Estado moderno é permitir que uma família não tenha renda. Isso prejudica o próprio capitalismo, porque essas pessoas também não vão consumir nada. Por isso as principais economias capitalistas do planeta são as que possuem os maiores programas sociais. Os EUA, a fortaleza global do capitalismo, tem um programa de Fome Zero desde o final da segunda guerra, com distribuição de tickets de alimentação para dezenas de milhões de americanos.

Voltando aos índices industriais, repare que estes cresceram de 88,41 em dezembro de 2001, para 209,45 em agosto de 2011. Ou seja, enquanto na gestão tucana o setor de bens de capital sofreu um acentuado declínio, nos quase dez anos de governo petista, o mesmo setor mais que duplicou no Brasil (cresceu 140% para ser preciso)! E pode-se constatar facilmente que avançaria ainda mais não fosse o recuo em 2009, provocado pela profunda crise financeira que abalou o mundo.

Nos outros setores da indústria, temos números parecidos: estagnação durante o governo FHC, e forte expansão na era Lula. E o que é melhor: a indústria continua crescendo este ano, com destaque para o setor de bens de capital, que é, como eu já disse, a menina dos olhos quando se trata de industrialização.






PS: Esse post foi publicado no blog do Nassif, e alguns comentaristas contestaram-no dizendo que esse aumento na produção de bens de capital teria se dado apenas por crescimento de encomendas de empresas como Vale. Bem, a Vale é a maior empresa privada do país, e se ela está encomendando máquinas, isso é ótimo. É óbvio que a industrialização brasileira é liderada por suas principais empresas. A Vale decidiu, após muita pressão do governo, e talvez mais ainda em função do interesse de suas concorrentes em montar siderurgias por aqui, investir na transformação do ferro em aço. Enfim, a pior coisa que pode acontecer é a gente transformar um assunto desse em papo de botequim, como sempre acontece quando as pessoas se limitam a fazer observações tais como: lá em Pindamonganba, fecharam 3 fábricas no ano passado! A atividade industrial hoje é muito dinâmica e concorrida, em vista do alto nível de especialização em que se encontra o capitalismo mundial. É normal, infelizmente, o fechamento de fábricas. O que deve nos preocupar, porém, é o nível geral da indústria no Brasil, e sobretudo, reitero, com o setor de bens de capital, que é a base da indústria.

Então eu retornei outra vez ao IBGE e achei a tabela abaixo (dados completos aqui), com a evolução dos diferentes segmentos do setor de bens de capital nos últimos anos.


Por ela, pode-se ver que um setor de bens de capital que vem sofrendo queda nos últimos anos é o do aparelhos de comunicação (celulares, etc). É lamentável, mas visto que o Brasil sempre produziu quantidades insignificantes destes equipamentos, não é nada que provoque nenhuma mudança drástica em nossa economia ou nas taxas de emprego. O mais grave mesmo é a queda no setor de materiais elétricos, que vinha apresentando um crescimento substancial até o fim de 2008; no longo prazo, porém, este setor também vem crescendo, já que o índice passou de 96 em dezembro de 2002 para 150 em agosto deste ano.

Eu não quero tapar o sol com a peneira. Tenho consciência que deve ter fábrica fechando em algumas partes do Brasil. A concorrência global é feroz. Estou questionando (questionando, não negando) a tese da desindustrialização, que ainda não vi refletida em nenhuma estatística. A pior coisa que pode acontecer com um país é sofrer um processo de desindustrialização, mas isso é diferente de haver mudanças, até mesmo estruturais, na realidade industrial de um país, com declínio de um setor e aumento em outros. Isso faz parte do capitalismo e reflete esse darwinismo econômico que é inevitável e cujos efeitos sociais devem ser tratados atentamente pelo Estado em questão, através de uma política trabalhista voltada a amortecer seus danos.

6 de outubro de 2011

Tocqueville e os rancorosos

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Terminei finalmente de ler um dos grandes clássicos da literatura política: O Antigo Regime e a Revolução. O autor faz uma avaliação bastante crítica, em vários pontos negativa, da revolução francesa; acho que é um contraponto legal para o livro que pretendo ler agora, do Jules Michelet, que tem uma visão bem mais compreensiva, diria até mesmo amorosa, do evento.

De vez em quando, porém, tomado como que por um entusiasmo a contragosto, Tocqueville faz digressões belíssimas sobre o espírito de justiça e igualdade que produziu e conduziu a transformação profunda que a França, e toda a Europa, viveriam. No último capítulo, onde resume tudo que disse nos anteriores, a conclusão é emocionante, tanto que eu transcrevo neste meu blog de apoio. Acho que esta citação pode servir para me defender dos influxos de violência que se erguem contra este blogueiro, depois da polêmica perigosa em que me envolvi no post anterior, embora os assuntos não tenham absolutamente nada a ver.

Tem uns posts que, antes de apertar a tecla enter, me obrigam a fazer o sinal da cruz, mesmo sendo ateu, porque eu sei que podem enfurecer o dragão da internet. Há oito anos que milito na blogosfera, e desenvolvi um casco bem duro. Mesmo assim, mentiria se dissesse que não fico abalado com a onda de ofensas, muitas delas a nível pessoal, que alguns gostam de fazer. A violência é maior por parte daqueles com menor capacidade de argumentação. A maioria discorda civilizadamente, mas agora, sobretudo no Twitter, há uma fauna de mau-educados que vou te contar. Tem uns que eu considero de má índole mesmo. Gente mau caráter, rancorosa, incapaz de participar de uma discussão sem apelar para baixaria. Ficam atiçando uns aos outros, como um bando de cães raivosos latindo entre si antes de partirem para cima da presa.

No post anterior, eu tinha consciência que estava remando contra a maré. Mesmo assim eu tinha que externar a minha opinião, até porque era uma sequência dos textos anteriores, sobre a polêmica envolvendo o comercial da Hope. O fato de uma maioria ter discordado, porém, não me abala. Um blogueiro que se preza não pode ter medo de multidão. Acho que esse é o momento perfeito para citar a frase de Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra". Essa frase costuma ser muito mal usada, mas agora encaixa-se maravilhosamente.

Mesmo que eu estivesse errado (e pode ser que eu esteja), é importante que haja sempre um debate, sobre qualquer assunto. No caso, permaneço convicto que tenho uma pitada de razão. Aliás, a reação violenta, brutal, de muita gente, confirmou o que eu pensava: há um clima de linchamento, que é muito diferente de manifestar discordância em relação às atitudes do humorista. Tanto é que o mesmo dragão que soltava fogo na direção do Rafinha, ao notar minha presença em campo aberto, acenando provocativamente, veio também para cima de mim.

Eu vi um montão de comentários pedindo que a Igreja Católica interferisse no assunto, lembrando que a mesma foi bastante ativa nas eleições. Ou seja, em vez das pessoas defenderem uma sociedade mais laica e mais livre, oferecem voluntariamente as mãos para os bispos algemá-las. Falou-se muito em valores da família, o que também me deixou ressabiado.

Na verdade, eu não vi quase ninguém querendo discutir o ponto central dessa história: quais são os limites da liberdade de expressão? Tudo bem, Rafinha falou merda, mas e daí. Quais são os parâmetros constitucionais que nos permitirão botar um humorista na linha? Qual a punição? Quem será o agente repressor?

Logo no início da Eneida, Virgílio escreve: "Tantaene animis caelestibus irae?", que se traduz para "Tanta ira em corações divinos?" Os corações dos internautas não são muito divinos, mas a pergunta vale: para que tanto ódio? Será que essa gente assiste, masoquistamente, ao CQC, só para ficar irritada? Confesso a vocês: eu nunca assisti. Quer dizer, assisti pedacinhos, o suficiente para saber que não é minha praia. Rafinha pode falar a merda que quiser, ser suspenso, demitido, recontratado, o raio que o parta. Não vou entrar em correntes de ódio. Ele pode falar que come a Wanessa Camargo, o bebê e a avó dela. Não estou nem aí. A Wanessa Camargo é uma moça rica que pode muito bem se defender. Se ele falasse assim com uma moça pobre, apareceriam certamente uma pá de rábulas para defendê-la e arrancar umas pratas do imprudente humorista. Ele ofendeu a Wanessa Camargo, não as mulheres em geral. Não vejo razão para transformar o episódio numa torquemada furiosa contra o comediante, nem contra toda uma tradição de humor trash que há muito tempo faz sucesso entre a garotada. Quanto à piada das feias que agradecem aos estupradores, trata-se de uma piada tosca de humor negro, na mesma linha daquelas sobre leprosos. Merece indiferença e talvez desprezo, mas não que seja distorcida numa "defesa do estupro".

A vítima dessa vez foi o Rafinha Bastos, mas muita gente já está com sangue na boca para ir na jugular do Pânico na TV. Daí voltaremos a ter apenas o humor "correto" e convencional da Rede Globo...

O Brasil viveu uma grande revolução social nos últimos anos e uma pequena revolução política na área da comunicação. Será uma pena que imitemos os erros apontados por Tocqueville e, empolgados com o poder popular das redes, implantarmos um novo "terror" contra aqueles que consideramos a aristocracia "podre" do humor televisivo. Ao final, todos serão degolados, inclusive os que hoje pedem a cabeça dos lordes. Os radicais franceses não perdoaram nem Robespierre nem Danton.

Aos que me xingaram e caluniaram na rede, eu só tenho uma resposta: o que vem de baixo não me atinge.

5 de outubro de 2011

Em defesa de Rafinha Bastos

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(Rafinha será tranformado em mártir pela esquerda moralista?)

Uma coisa leva a outra, e agora preciso levar essa polêmica até as últimas consequências. Permitam-me, contudo, exibir uma apólice de seguro de minha opinião: isto é só um debate, não tenho pretensão nenhuma de vir aqui brandir a verdade derradeira e definitiva na cara de ninguém. Pode ser que eu esteja completamente errado. Permitam-me também de vez em quando carregar um pouco nas tintas. Eu me referi, no Twitter, a esse fascismo de classe média, a esse moralismo enfurecido, apoplético, inquisitorial, que se manifesta também com muita força à esquerda. Peço desculpas aos que se sentiram ofendidos. Não chamo ninguém, em particular, de fascista. Acuso apenas esse fascismo etéreo, pairando no ar, essa nuvem de ódio e sectarismo, que tradicionalmente se disfarça de boas intenções.

Como esse moralismo, nas pessoas identificadas com ideologias de esquerda, sente-se constrangido em atacar o governo (deixo a ultra-esquerda de fora porque é insignificante numericamente) que, teoricamente, representa o seu campo, ele extravasa o seu rancor contra outras instâncias de poder. Há inimigos de alto calibre, como a grande imprensa, o vulgo PIG (Partido da Imprensa Golpista). Aí sim temos um gigante perigoso, um verdadeiro quarto poder na República, um poder selvagem, hobbesiano, que precisaria sofrer algum tipo de regulação democrática, para amainar a instabilidade política e as injustiças culturais que ele gera. A própria internet, e especialmente a blogosfera, no entanto, já correspondem um pouco esse monitoramento. Aliás, por isso eu acho que a blogosfera deveria, antes de tudo, investir em si mesma, em sua profissionalização e independência, para não ficar dependendo apenas que uma nova legislação, proposta pelo governo federal, vá resolver o problema. A própria ação dos blogs, se aprimorada, pode muito bem fazer parte do papel que caberia a "Ley dos Medios". Até porque uma Ley dos Medios nunca vai resolver todos os problemas decorrentes da concentração dos meios de comunicação. A big press manterá seu poderio. Talvez tenha que ser mais dissimulada. Será a mesma, contudo. A lei terá que ser feita, até porque a realidade do universo midiático vai sofrer uma revolução. A convergência digital está vindo, e daí só Deus sabe o que irá acontecer. Mas uma coisa a internet mudou de vez. A comunicação social é uma realidade hoje muito mais próxima do cidadão.

Entretanto, esse ódio "santo", e o digo sem ironia, porque ele é o ingrediente necessário a qualquer revolução ou mesmo qualquer mudança, às vezes escolhe um alvo fraco, ou seja, um indivíduo, um cidadão brasileiro. Aí eu acho errado.

Eu acho errado e perigoso essas correntes de ódio, como esse linchamento coletivo de Rafinha Bastos. Querem odiar a grande mídia? Tudo bem, é um adversário à altura. Mas focar esse ódio num jovem humorista?

Você pode não gostar do Rafinha Bastos. Pode achar que ele é um péssimo profissional. Eu também não simpatizo com ele, menos ainda com o CQC. Eu não gosto do Marcelo Tas, porque desde muito tempo entendi que ele é uma figura midiática ligado ao conservadorismo político. Ele dá palestras para a Juventude do DEM, participa de todos os movimentos midiáticos da direita.

Mas ele tem direito de ser assim. Tanto Marcelo Tas como Rafinha Bastos são cidadãos brasileiros que gozam de seus direitos civis e de sua liberdade de expressão, os quais eu defenderia até com a minha vida, se me permitem essa bravata.

No caso específico de Rafinha Bastos, você pode achá-lo um humorista desastroso, nocivo, mas não pode negar que isso é uma opinião sua, e que milhões de brasileiros pensam diferente. O cara foi considerado pelo New York Times como a figura mais influente do mundo no Twitter. Claro que o NY Times tem seus interesses, a sua parcialidade, etc, mas ainda assim é o NY Times. De qualquer forma, mesmo que o NY Times não tivesse dito nada, ainda sim Rafinha Bastos continuaria sendo uma das figuras mais influentes do Twitter, senão no mundo, ao menos no Brasil. Algum talento o cara tem.

Entretanto, Rafinha Bastos não é um gigante da mídia; é apenas um indivíduo. Você pode até achar que ele simboliza isso e aquilo que existe de mal, de preconceituoso, de reacionário, na sociedade, mas ele não é um símbolo. Ele é uma pessoa. A gente já assistiu como essa confusão, entre o que é símbolo ou mito e o que é apenas humano se mostra letal, em geral para o lado humano, visto que o símbolo não morre tão fácil.

Eu fico estupefato ao contemplar a desenvoltura com que as pessoas se arvoram em juízes da opinião pública e acorrem à praça para vociferar e lançar pedras na prostituta da vez. Rafinha Bastos é a Madalena de setores "politizados" da internet. Agora é chique participar de linchamentos?

Daí eu lembro daquelas multidões enfurecidas que se aglomeram em frente aos tribunais, quando temos julgamentos de protagonistas de crimes com grande cobertura midiática, como o casal Nardone. Na internet, temos fenômenos parecidos, mas com uma multidão mais refinada.

Afinal, quais foram os crimes cometidos por Rafinha Bastos?

Vamos elencar e analisar seus dois mais recentes e comentados "crimes":

1) Disse que mulheres feias deveriam agradecer a seus estupradores, porque eles estariam fazendo uma caridade.

Desnecessário dizer que se trata de uma grosseria inominável. Evidentemente, Rafinha jamais teve uma parente que sofreu esse tipo de agressão. Agora, a frase saiu da boca de um humorista, num contexto específico, em que ela se pretendia bem-humorada, ou sarcástica. Acusar Rafinha de pregar o estupro de mulheres, é um absurdo. A escola de piadas grosseiras, aliás, não teve início com Rafinha. Quem não se lembra da infinidade de piadas com leprosos? Na minha vida, já tive a oportunidade de ouvir e repetir dezenas de piadas com leprosos, com judeus, com louras burras. A dos leprosos eram bem engraçadas.

A piada do Rafinha, portanto, inscreve-se na série de piadas de humor negro, e assim deve ser entendida. Pode-se não gostar da piada, pode-se sentir irritado, pode-se até mesmo enviar emails pedindo a sua demissão; mas deve-se tomar muito cuidado para não fazer disso um linchamento. Daqui a pouco um maluco, depois de absorver tanto ódio na internet, agride o humorista fisicamente, e daí estaremos configurando, precisamente, a criação de um movimento fascista.

2) Disse que "comeria" Wanessa Camargo e seu bebê.

Outra grosseria. Mas, a meu ver, de bem menor gravidade. De seu jeito torto, quase bandido, Rafinha fez um elogio à Wanessa Camargo. Disse que ela, mesmo grávida, estava atraente. A circunstância era a mesma do caso interior. Rafinha estava participando de um quadro de humor, sob forte pressão psicológica para falar algo muito engraçado, que justificasse o seu salário de marajá na Band. A intenção dele, obviamente, não era defender o estupro de grávidas e bebês. Fizeram uma tempestade de um copo d'água, sobretudo porque a frase desagradou figuras poderosas. Rafinha é um empregado, pisou na bola e pode ser demitido, não sei, mas não vejo razão para elegê-lo como inimigo público número 1 da sociedade brasileira.

Conclusão: Rafinha cometeu um erro de avaliação, o que mostra que a sua profissão comporta riscos. A Band o contratou para que ele ajudasse a emissora a aumentar a sua audiência. A concorrência dos canais abertos tem sido cada vez mais acirrada. Como fazer frente à Globo? Se fôssemos depender da TV Brasil, me desculpem, a Globo teria 99% do mercado. Eu elogiei muito a ida de Teresa Cruvinel para a TV Brasil, mas, hoje, vendo retrospectivamente o seu trabalho, acho que foi medíocre. Jornalisticamente, a TV Brasil não inovou em nada, fazendo uma cobertura meia-boca, e às vezes beirando a covardia, ao não produzir pautas desafiadoras. Artisticamente, a TV Brasil também se mostrou fraca. A ideia que eu tenho da TV Brasil é que, ao ligar lá num sábado à noite, vou ver um documentário de indios nus da década de 60. Ora, já vi vários documentários de indios nus, não tenho nada contra, mas estou falando de trazer coisas mais vivas, mais estimulantes, mais polêmicas. A proposta de só mostrar filme brasileiro me parece um nacionalismo tosco. Exibe um montão de filme ruim, que pouca gente vê. Tanto filme interessante no mundo! E o cúmulo da incompetência: é o canal com mais problemas de transmissão de imagem. Eu moro na Lapa, ao lado da sede da TV Brasil e não consigo assistir de tão ruim que é qualidade!

Então, a concorrência fica a cargo dos caras do Pânico e do CQC. Que estão conseguindo, com apenas uma fração da verba que a Globo tem, fazer frente a um domínio de quase 40 anos.

Eu não estou aqui para atirar pedra em ninguém. A blogosfera acusa a grande mídia de acusar, julgar, condenar e executar a pena, mas está fazendo a mesma coisa.

Tem muita gente ruim no Brasil. Tem diretor de hospital desviando verba. Tem médico que deixa de atender paciente por pura maldade ou preguiça. Tem corrupção na política, nas empresas, nos jornais. Até mass killer agora já temos, e de crianças! Outro dia fiquei sabendo do golpe que deram no ator Sérgio Brito, um cara que todos admiramos e amamos. Uma coisa horrível. O Brasil contemporâneo é um grande fornecedor de almas para o inferno.

Rafinha Bastos é o menor problema que temos no Brasil. Não gosta dele? Mude o canal. Ignore-o. É besteira querer eliminá-lo. Todo esse clima de linchamento apenas irá transformá-lo em vítima, até mesmo um mártir. E o perigo, como disse em outro post, é colar na esquerda a etiqueta de pseudo-moralista e inimiga da liberdade de expressão. Em nome da democracia, somos obrigados a engolir um rol de figuras estranhas integrando ou apoiando o governo. Não custa nada usar a mesma tolerância com humoristas, sobretudo com aqueles que estão desafiando o monopólio da Globo.