28 de abril de 2011

A falácia da carga tributária no Brasil

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Num post no blog do Nassif sobre a carga tributária no Brasil, encontrei um comentário muito interessante:

Re: A carga tributária e o PIB
sab, 23/04/2011 - 14:19 — meiradarocha
Aqui está a realidade, Liberal:

O Brasil teve, em 2009, a 22ª carga tributária no mundo. Dos países que tinham carga tributária maior que a nossa, 14 eram países desenvolvidos europeus.

O país mais rico do mundo, a Noruega, tinha carga tributária de 43,6% e arrecadou 25 mil dólares per capita. O Brasil tinha carga tributária de 38,4% e arrecadou 4 mil dólares PPC per capita.

Gostaria que os liberais mostrassem como fazer o milagre de se ter serviços de 25 mil dólares arrecadando 4 mil.

Tabelas.

Gostei porque ele trouxe estatísticas que provam uma coisa óbvia. A comparação entre cargas tributárias dos diferentes países, repetidas de maneira leviana pela mídia, apenas fazem sentido se cotejadas com o tamanho do PIB per capita. Enfatizo o "per capita", visto que os gastos mais importantes de um Estado são a previdência social e a saúde pública, cuja magnitude é atrelada naturalmente à população.

Se um país tem um PIB per capita alto, ele pode até se dar ao luxo de ter uma carga tributária menor, porque o total arrecadado é grande. O que nem é o caso, visto que as nações desenvolvidas, em geral tem uma carga tributária bem elevada.

Repete-se, por outro lado, que alguns países ricos tem carga tributária menor que a do Brasil, como os EUA. De fato, a carga tributária nos EUA é de 28%, contra 38,8% no Brasil. Entretanto, como os EUA tem um PIB monstruoso, tanto absoluto como per capita, essa carga corresponde a uma arrecadação per capita de 13 mil dólares. A do Brasil, é de 3,96 mil dólares... Ou seja, a expressão clichê sobre o Brasil ter impostos de norte da europa e serviços públicos de qualidade africana nunca me pareceu tão absurda e idiota.





Eu não sou a favor do aumento dos impostos. Tenho micro-empresa e estou sempre à beira de sucumbir sob o peso mastodôntico, complexo e kafkiano das taxas que desabam quase que diariamente sobre minha cabeça. Mas não podemos ver a questão com leviandade. A mídia patrocina uma campanha irresponsável contra o imposto no Brasil. Este deve ser simplificado, naturalmente, e porventura reduzido para empresas pequenas, mas devemos mostrar à sociedade a situação real. Não podemos nos comparar com nenhum país desenvolvido, porque o nosso PIB per capita ainda é baixo. Ainda temos que comer muito feijão com arroz.

Por outro lado, é igualmente injusto falar em "serviço público" africano, expressão que, além de ser politicamente incorreta, é também totalmente inexata. Temos uma previdência social quase universalizada. A saúde pública é abarrotada e sofre constrangimentos em vários setores, mas nosso sistema de vacinação é de primeiro mundo. O tratamento gratuito, inclusive com distribuição de remédios, que damos aos soropositivos, não encontra paralelo nem nos países mais avançados.

Não douremos a pílula, todavia. Ainda temos muito o que aprimorar em termos de serviço público, nas áreas de saúde, educação e infra-estrutura. Mas, por favor, sem a viralatice de nos compararmos às economias destruídas por longas guerras civis, nível de industrialização baixíssimo e desemprego às vezes superior à metade da população ativa.

O debate sobre a carga tributária tem que ser feito com muita seriedade, botando as cartas na mesa, evitando ao máximo o uso desses clichês desinformativos. Os impostos no Brasil são altos, pesam no bolso de empresários, classe média e no custo de vida dos trabalhadores. Mas em valores absolutos, o imposto é baixo, deixando pouca margem para o Estado gastar com serviços e infra-estrutura. O caminho, portanto, é investir no crescimento econômico e na racionalização cada vez maior do gasto público. Seria loucura, porém, promover uma redução brusca da carga tributária, que implicaria em jogar o valor do imposto per capita no Brasil ao lado das nações mais atrasadas do planeta. Ajamos com prudência e responsabilidade, sem jamais deixar de lado a necessidade de oferecer serviços de qualidade à população, pois sem isso poderemos até nos tornarmos um país rico, mas seremos sempre uma sociedade triste e miserável.

27 de abril de 2011

Lula fala de Olimpíadas, ausência em almoço de Obama e política externa

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Nessa entrevista, Lula explica sua ausência no almoço com Obama no Itamaraty, motivo de tantas especulações. Sua explicação foi exatamente o que vínhamos alegando como o mais plausível: o fato de ter largado a presidência há pouquíssimo tempo e o desejo de que os holofotes se prendessem apenas em Dilma.

Sobre política externa de Dilma e do ministro Patriota, Lula afirmou que será uma política ainda melhor que a sua, e que é natural que haja mudanças pontuais, na esteira dos acontecimentos. "Ela pode ser um pouco mais dura ali, menos dura acolá", disse o presidente, numa alusão ao suposto endurecimento da diplomacia brasileira em relação aos direitos humanos no mundo. Aliás, Patriota esteve hoje no Senado e fez duras críticas à hipocrisia dos países ricos na questão dos direitos humanos.

Miro fala de blogosfera na TVT

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26 de abril de 2011

Assine a Carta Diária

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Prezados, permitam-me um pouco de propaganda. Há dois anos ofereço um serviço de análises via email, através do qual financio, em parte, as atividades deste blog. Às vezes, o blog fica por alguns dias parado (como é o caso da última semana), mas a Carta Diária sai - como o nome diz - religiosamente todo dia, antes das 7:30 AM.

Na Carta, escrevo principalmente sobre economia, mas também bastante sobre política e de vez em quando sobre cultura. Quem se interessar em fazer uma assinatura, favor entrar neste link.

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Agradecemos imensamente o interesse de todos no evento.

Para saber novidades sobre o evento, acompanhe o blog rioblogprog.blogspot.com.

O petróleo no mundo

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Hoje vamos tentar entender um pouco da conjuntura petroleira do mundo. Então vamos examinar algumas tabelas que eu peguei no site da Agência Nacional do Petróleo, que publicou há pouco o Anuário Estatístico 2010, trazendo dados consolidados até 2009.

Vejamos quais são os países que possuem as maiores reservas de petróleo no planeta. Em primeiro lugar, Arábia Saudita, com 264,6 bilhões de barris confirmados. A Venezuela vem em segundo lugar. Em seguida, temos o Irã, o Iraque, o Kuwait, os Emirados Árabes, a Rússia e a Líbia. O Brasil ocupa o décimo sexto lugar, com reservas provadas de 12,9 bilhões de barris. Estes números não contabilizam o pré-sal, cujas reservas ainda precisam ser comprovadas oficialmente, o que só poderá ser feito quando a exploração tiver início. O máximo que a ANP admite, por enquanto, é que os principais campos do pré-sal devem guardar de 5 a 8 bilhões de barris. É uma estimativa conservadora, naturalmente. Há informações de que  o pré-sal pode guardar reservas de 50 a 100 bilhões de barris, o que só poderemos acreditar, como diria São Tomé, vendo.

Olhando esses números com frieza, vemos que não podemos nos empolgar em demasia com o pré-sal. Não é tanto petróleo assim. A grande vantagem é que, mais do que a quantidade, é um petróleo de altíssima qualidade. Quer dizer, é bastante petróleo, mas para nosso consumo próprio, e um pouco para exportação, mas nada que se compare às reservas do oriente médio, Rússia ou Venezuela.

Outra tabela que merece nossa atenção é a que lista os maiores produtores mundiais. Interessante observar que a Rússia, que ocupa o sétimo lugar no ranking das reservas provadas, é o maior produtor mundial, com uma produção de 10 milhões de barris por dia em 2009. Em seguida, vem a Arábia Saudita, produzindo 9,7 milhões de barris por dia. EUA vem em terceiro lugar, com produção estimada em 7,19 milhões de barris diários. Em quarto lugar temos o Irã, produzindo 4,2 milhões de barris.

Por fim, olhemos para a tabela de consumo. É muito impressionante a distância dos EUA para com o resto do mundo. O consumo de petróleo nos EUA atingiu 18,7 milhões de barris/dia em 2009. O segundo lugar é ocupado pela China, que consumiu 8,6 milhões de litros no mesmo ano.









17 de abril de 2011

A fantástica democracia fernandista

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As notas acima foram publicadas neste domingo na coluna da Renata Lo Prete, na Folha.

O príncipe surtou de vez. Depois de ser ridicularizado até entre seus pares por uma visão partidária absurdamente classista, o ex-presidente, em vez de dar uma resposta geral a todos os que criticaram o teor de seu artigo, dá uma resposta ad hominem, inflada de inveja, aquele que é o novo sucesso do circuito internacional de palestras.

Não comento os pitis de inveja, visto que estes são, a meu ver, autodesmoralizantes. Ressalto, porém, algumas pérolas do pensamento fernadista acerca do que seja uma democracia, as quais ilustram bem a esquizofrenia a que chegaram setores da oposição, ao trocarem a ciência política clássica, e o pensamento lógico, por uma visão sectária, tacanha, medíocre, submissa aos preconceitos mais vulgares da imprensa conservadora:

Sou contra o que ele fez com o povo: cooptar movimentos sociais; enganar os mais carentes e menos informados trocando votos por benefícios de governo; transformar direitos do cidadão em moeda clientelista. Quero que o PSDB, sem esquecer nem excluir ninguém, se aproxime das pessoas que não caíram na rede do neoclientelismo petista.

Cooptar movimentos sociais? Claro, ao dar-lhes voz, ao lhes respeitar, ao ouvi-los e recebê-los no Palácio do Planalto, Lula estimulou os movimentos sociais a encaminharem suas propostas por vias democráticas, pacíficas, institucionais. Já FHC preferiu criminalizar os movimentos sociais, levando-os a se radicalizarem.

Enganar os mais carentes trocando votos por benefícios do governo? Aí FHC, como se dizia antigamente, peidou na farofa. Se um eleitor da classe média votar no PSDB por querer pagar menos imposto, não estará da mesma forma trocando seu voto por um benefício do governo? O pobre agora tem que votar pensando em quê? Nas Olimpíadas? No Conselho de Segurança da ONU? Nos direitos humanos do Irã? Nas xaropadas pseudo-libertárias dos estrupícios do Instituto Millenium? Bem, poderiam votar pensando simplesmente num país melhor... mas não seremos um país melhor se os pobres tiverem mais benefícios, de maneira que ganhem fôlego para lutarem contra a pobreza?

FHC, e a direita brasileira, desenvolveram um ideário tão absolutamente antipobre que se tornou uma muralha de estupidez e insensibilidade que os impedem de compreender, ou sequer imaginar, as terríveis difículdades em que vive a maior parte da população brasileira. O pobre, mesmo o remediado, que tem emprego, está sempre a beira de uma tragédia, pois sua vida só dá certo na medida em que não acontece nenhum acidente. Uma doença, uma dívida, um deslize, uma crise de depressão, um filho com problemas com drogas, um acidente climático, qualquer coisa pode botar tudo a perder. Todas suas modestas conquistas podem se esvair ao menor soluço negativo da fortuna. Esta é a classe média que FHC pretende tratar como se lidasse com parentes empobrecidos dos Matarazzo.

Denegrir o pobre que vota em prol de sua classe é mais do que estupidez, é um tipo de fascismo que, na boca de um sociólogo, apenas se explica como doença provocada pela leitura sistemática e acrítica de editoriais de jornal.

16 de abril de 2011

O desejo agora tem horizontes

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Ao final de um dos ensaios ou capítulos que compõem o livro Horizonte do Desejo, o cientista político Wanderley Gulherme dos Santos conclui, melancolicamente, que uma das razões pelas quais os pobres brasileiros pouco se mobilizaram, ao longo da história recente, para mudar sua condição de vida, seria o fato de que seus desejos não tinham horizontes. Não havia esperança. Os miseráveis apegavam-se desesperadamente ao fio de cabelo do qual se viam suspensos diante da fome, doença e morte. Os pobres brasileiros seriam extremamente conservadores, no sentido de terem uma enorme aversão ao risco. Mobilizar-se, associar-se, protestar, comporta riscos. O "custo do fracasso" era muito alto.

Publicado em 2006, o livro de Santos, todavia, não oferece uma visão pessimista. Muito pelo contrário, o autor contem-se com dificuldade para não extravasar seu entusiasmo pelos progressos da democracia brasileira. E não só brasileira, mas pelo conceito de democracia, em todo mundo. Quer dizer, não propriamente pelo conceito, mas por sua trajetória real, às vezes oscilante, mas sempre se aperfeiçoando, pressionada pelas forças que ela mesma vai despertando no processo de abertura política. Santos procura analisar a democracia em sua realidade concreta, protagonizada por homens sujeitos a toda espécie de vícios, pois esses homens, mesmo com todos os seus defeitos, vêem-se sujeitos às pressões sociais e dependentes do implacável voto.

As teses de Santos põem em questão o complexo de viralatas que contamina tanto a análise da evolução política nacional quanto a conjuntura partidária contemporânea. No Horizonte do Desejo, assim como em outras obras suas, Santos se dedica a desconstruir os mitos negativos com que a mídia está sempre bombardeando as instituições políticas, sobretudo as brasileiras.

Em primeiro lugar, Santos reitera neste livro a extraordinária ampliação do eleitorado. Na Primeira República (até 1930), menos de 3% da população brasileira tinha direito ao voto. Esse foi um problema nas democracias em todo o mundo, observa o cientista. Nos EUA, na Europa, em toda a parte onde havia eleição, esta continha entraves censitários, ou de qualquer outra espécie, que restringia o direito ao voto a parcelas ínfimas da sociedade.

Em 1945, na primeira eleição após o fim do Estado Novo, o eleitorado aumenta para 16% da população. Mas é somente a partir da primeira eleição realizada após o fim da ditadura militar, em 1986, que o direito ao voto atinge a maioria da população brasileira, 51,8%. De lá para cá, este percentual tem aumentado substancialmente, chegando a 68% em 2002 e hoje atingindo mais de 80% da população.

A população brasileira cresceu, nos últimos sessenta anos, a uma progressão matemática, enquanto o eleitorado, o fez a uma progressão geométrica. Em 1945, tínhamos 7,4 milhões de eleitores. Em 2010, temos 136 milhões. Trata-se de uma verdadeira revolução eleitoral. Não há como deixar de pensar na tese do velho Engels sobre a transformação de quantidade em qualidade, afinal é óbvio que um aumento no eleitorado desta magnitude necessariamente acarreta mudanças profundas na estrutura política nacional, mudanças que exigem novos estudos e novas análises.

Há muitos anos que leio diariamente grande quantidade de material jornalístico sobre política. É incrível que apenas nos livros de Wanderley Guilherme dos Santos veja referências explícitas para essa espetacular evolução eleitoral vivida pelo Brasil.

O crescimento eleitoral apresenta números ainda mais impressionantes nas regiões menos desenvolvidas. Na região Norte, por exemplo, a população cresceu 456% entre 1950 e 1991, mas o crescimento do eleitorado foi de 1.416%! O Nordeste, cuja população cresceu 136% no mesmo período, viu seu eleitorado aumentar em 655%. A população do Sudeste cresceu 178% e seu eleitorado, 649%. Na região Sul, a população cresceu 182% e o eleitorado, 780%. No Centro-Oeste, o aumento populacional atingiu 442% e o do eleitorado, 1.650%.

É interessante também a análise que Santos faz dos partidos políticos:

Talvez o mais sólido estereótipo a propósito da vida partidária-parlementar brasileira refira-se à dogmática asserção de que não existem, em nosso horizonte, partidos dignos desse nome, razão pela qual o Parlamento não passaria de uma arena em que se trocam favores entre grupos localistas e entre a própria Câmara e o Executivo central. Os fatos, outra vez, revelam que os partidos existem, representam interesses bem específicos e, portanto, diferenciam-se uns dos outros, são coesos, disciplinados, estando longe de desperdiçar o total de seu tempo parlamentar em busca de benesses para seus respectivos eleitorados locais.

Arraigado quase que secularmente, o juízo sobre a putativa [suposta] fragilidade e inutilidade dos partidos políticos é improcedente. Já antes do golpe de 1964, os partidos políticos apresentavam substancial dose de identidade ideológica interna, coerência de comportamento e respeitáveis índices de disciplina partidária. (...) Com efeito, pesquisas tendo por objetivo avaliar o grau de plausibilidade do senso comum, que atribui todos os defeitos possíveis ao sistema partidário brasileiro, tem demonstrado o oposto, a saber, que os partidos parlamentares comportam-se de maneira responsável, longe da aleatoriedade que seria de se esperar fossem eles não mais do que agregados de interesses pessoais e particularistas.

(...) Se o comportamento dos parlamentares seguisse estritamente o errático pontual de seus interesses, seria impossível aos poderes executivos construírem coalizões de apoio consistentes a programas de ação.

Certamente, tal como ocorre a todo sistema partidário, os congressistas possuem colégios eleitorais privilegiados e é natural que assim ocorra, pois, afinal, estão lá para representar esses interesses. Nesse sentido, todo parlamento produz uma proporção de leis com caráter distributivo específico, quase estando assinalado o grupo a que pretendem beneficiar. Não é esse, entretanto, o significado da acusação de clientelismo endereçado ao sistema brasileiro. Designam os analistas, com o conceito, um tipo de atitude e ação dos parlamentares exclusivamente orientado por visão limitada e de curto prazo, independentemente dos custos gerais da ação, e sem investir estudo e atenção em matérias que interessam ao bem público. Por definição, um político clientelista é um político que busca explorar a coisa pública em favor de grupos que, em troca, o elegem e reelegem, permanecendo alheio aos problemas coletivos que a comunidade possa estar enfrentando.

Não obstante a capacidade persuasiva do argumento, investigações contemporâneas tem buscado avaliar as provas em que tais argumentos se sustentam, com o surpreendente resultado, para alguns, de que praticamente a metade do tempo e da iniciativa dos deputados é dedicada a promover regulamentos que atendam ao interesse geral da comunidade. Evidentemente, tal como se comportam os políticos em qualquer democracia, buscam também atender às demandas de seu eleitorado principal, pois, repetindo, é, em princípio, para isso que são eleitos, é esse o significado amplo de democracia representativa.

(...) É provável que, se a opinião pública estivesse mais alerta para o que efetivamente significa o Parlamento brasileiro e o papel que tem desempenhado, aí incluídos os partidos que o povoam, com certeza poderia contribuir de modo mais efetivo para o aprimoramento das instituições, as quais, como se sabe, fruto de experimentos humanos, a estes estarão sempre submetidas. (...) [O] Parlamento brasileiro funciona mais ou menos como funcionam imperfeitamente todos os parlamentos (...), mas o público precisa discernir defeitos que se devem, eventualmente, ao parlamento brasileiro, das pecularidades que pertencem à instituição parlamentar viva.

Na conclusão de seu livro, Santos aborda a questão do Estado mínimo, criticando o movimento conservador, o qual não entende que a força do aparato estatal advém justamente para conservar o status quo, visto que a sua diminuição acarretaria desordens sociais e econômicas mais custosas do que um eventual aumento da presença do Estado na sociedade.

*

Encerro este post citando Thomas Hobbes, pensador inglês que Santos nunca deixa de mencionar em seus livros. No capítulo XXVI, da segunda parte de seu Leviatã, Hobbes faz uma curiosa admoestação aos que se arrogam donos da verdade, que se aplica perfeitamente, a meu ver, a nossa mídia corporativa, que se julga sempre muito superior às instituições políticas nacionais:

E também os que têm uma grande e falsa opinião de sua própria sabedoria se atrevem a repreender as ações e a pôr em questão a autoridade dos que os governam, transtornando as leis com seu discurso público, tentando fazer que só seja crime o que seus próprios desígnios exigem que o seja. Também acontece aos mesmos terem tendência para todos os crimes que dependem da astúcia e da capacidade de enganar o próximo, pois imaginam que seus desígnios são demasiados sutis para ser percebidos. (...)

Felizmente, a estratégia, segundo Hobbes, quase nunca dá certo, porque a mentira tem pernas curtas...

de modo que seus crimes redundam em benefício da posteridade, e da maneira que menos teriam desejado, o que prova que eles não eram tão sábios como pensavam. E aqueles que enganam com a esperança de não serem descobertos geralmente se enganam a si mesmos (as trevas em que pensam estar escondidos não são mais do que sua própria cegueira), e não são mais sábios do que as crianças que pensam esconder-se quando tapam seus próprios olhos.

13 de abril de 2011

I Encontro Estadual dos Blogueiros no Rio de Janeiro

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A gente ainda está confirmando os nomes que participarão das mesas de debates e acertando todos os detalhes do evento, mas você pode se inscrever, desde já, no I Encontro Estadual dos Blogueiros Progressistas no Rio de Janeiro, que acontecerá nos dias 6 a 8 de maio. O local ainda não está confirmado, mas será com certeza nos arredores ou no próprio centro histórico da cidade.

A taxa de inscrição é quase simbólica, apenas R$ 20,00, e dará direito a assistir a todos os debates e desfrutar dos coffeebreaks, bufês e coquetéis que estamos organizando. A gente conseguiu apoio da secretaria de Turismo da prefeitura, de maneira que o evento terá uma estrutura razoável. Mais informações podem ser conseguidas junto à nossa produtora, Priscila Miranda, através do email do evento: encontroblogsrj@gmail.com.

Para se inscrever, clique aqui.

Como pagar a taxa de inscrição (R$ 20,00):
- Pagamento por depósito:

Caixa
agencia: 0995
Conta: 00010392-9
Digito de Conta Poupança: 013

Banco do Brasil
agencia 0087-6
Conta Corrente 25018-x
Substitua o "x" pelo zero (0) em alguns sites de transferência.
- Para pagar com paypal (aceita todos os cartões):
https://www.paypal.com/cgi-bin/webscr?cmd=_s-xclick&hosted_button_id=DFYTF3RY8JNN4
Obs: No caso de pagar via Paypal, o preço é de 24,00, conforme você verá, porque inclui a taxa administrativa do site que faz o serviço. 
Favor enviar comprovante do depósito para o email (encontroblogsrj@gmail.com). No caso de pagar através do Paypal, o comprovante é enviado automaticamente para a organização do encontro.

12 de abril de 2011

FHC, drogado e prostituído

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(Os jovens acima tentaram ler o artigo de FHC mas desistiram)

Sim, viver é perigoso, sobretudo ler um artigo de Fernando Henrique numa bela tarde ensolarada do Rio de Janeiro. Sobrevém-me o desejo imperioso de abandonar essa vida sóbria de blogueiro político, tornar-me um roqueiro barrada pesada, quinze quilos mais magro, o corpo tatuado, viciado em drogas e cheio de piriguetes fáceis a meu redor. Ou então passar os dias na praia, fumando maconha.

Se a política já é considerada chata pela maioria dos jovens, textos assim contribuem efetivamente para afastá-los ainda mais desse mundo. Agora entendo a juventude transviada. Agora entendo porque o jovem paulistano e carioca de classe média alta prefere cheirar cocaína a discutir política. O "papel" colombiano é menos tóxico do que este "Papel da oposição", título do artigo de FHC.

E olha que me refiro apenas ao estilo, a esse acacianismo sem-vergonha, repetindo chavões & clichês, a essa falta de originalidade, a essa debilidade politica confessa, que força o autor a apegar-se, como o lacaio mais covarde do reino, ao rabo do alazão que a mídia usa em seus ataques...

Na época do mensalão (...) ainda havia indignação diante das denúncias que a mídia fazia e os partidos ecoavam no Parlamento.

O pior, no entanto, nem é o estilo, mas o conteúdo. FHC disfarça, mas não prega outra coisa senão defender que o PSDB abrace de vez uma postura reacionária, direitista; que esqueça as duras condições em que ainda vive a maior parte da população, e apele descaradamente para o egoísmo perverso que está sempre emergindo e se renovando na psicologia social das classes médias. Qual um feiticeiro, o tucano pede a seus correligionários que busquem catarro de barata e pentelhos de rato nas casas dos "pequenos produtores e profissionais liberais de tipo antigo e novo", para lançar no caldeirão da política nacional, prometendo que dali surgirá o elixir que os tornarão poderosos e vencedores novamente.

O povo?

O povo que se dane!

O artigo de FHC chegou cercado de sensacionalismo midiático, incluindo manchete na Folha.


Mas é tanta besteira que nem a mídia consegue mais defendê-lo. Ele disse isso aí mesmo. Confiram o trecho:

Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.

Ué, o PSDB não governa metade do país? Não tem acesso às massas através dessas instituições? É tão doloroso assim fazer o bem ao povo?

Entretanto, apesar do meu sarcarsmo meio irritado, não subestimo ninguém; nem Serra, nem FHC, nem Aécio Neves. A mídia é o quarto poder onde se instalou o Leviatã, depois que os liliputianos apearam-no, através do voto, do poder que exercia sobre os três poderes institucionais. E esses políticos tem a mídia por trás, no sentido político e pornográfico da expressão. E a grande mídia, infelizmente, ainda tem muito poder.

A única bandeira concreta defendida por FHC, afora suas platitudes enervantes, é defender a descriminalização da maconha, por incrível que pareça. E pede que o PSDB assuma esta bandeira, o que seria deveras engraçado, em vista do namoro do partido com segmentos ultraconservadores da sociedade. Mesmo neste caso, porém, é uma postura tímida, pelo menos em comparação a do governador Sérgio Cabral (RJ), que vai muito mais longe e defende a liberação e legalização das drogas, no Brasil e no mundo inteiro.

FHC devia defender também a liberação do uso da anfetamina, sobretudo para jovens que pretendam ler seus artigos, pois seria uma excelente maneira de evitar que durmam no meio do texto. Pensando bem, deixemo-los dormir. Não perderão nada.

11 de abril de 2011

"Uma das donzelas virou presidente; estávamos certas"

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Este vídeo, que peguei no blog do Miro, um depoimento de Rose Nogueira ao SBT, é muito emocionante, porque através dele podemos imaginar o sofrimento de Dilma Rousseff, nossa presidente, na chamada Torre das Donzelas, onde algumas mulheres foram presas e torturadas durante a ditadura. A mesma ditadura que a Folha chamou de "branda". Podemos entender porque Dilma tem uma visão de direitos humanos menos, digamos, "política" do que Lula, e, como explicou Marco Aurélio Garcia, mais combativa e rigorosa em relação à tortura, seja em Guantánamo, Arábia Saudita, Irã, ou nas prisões brasileiras.

Documentário da Globo exaltando o golpe, em 1975

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Este vídeo, exibido pela Rede Globo em 1975, pretende contar a verdade sobre os acontecimentos que levaram ao golpe de 1964. Ironicamente, ele ainda tem esse valor hoje, mas na intenção contrária aos objetivos de Roberto Marinho. O poder da Globo, que se mantém intocável mesmo com o fim da ditadura, impede a sociedade brasileira de enxergar a participação decisiva da mídia na manutenção do regime de força por 21 anos. Observe o uso da trilha sonora. Se você assistir distraídamente, mesmo hoje, achará que o governo militar veio em boa hora para salvar o Brasil.

9 de abril de 2011

Arquivo: Entrevista exclusiva com Moacyr Scliar

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Olha que legal. Fuçando arquivos antigos, descobri sem querer uma entrevista que fiz com o escritor Moacyr Scliar, para o jornal/site (era impresso e online) que eu editava, intitulado Arte & Política. Nem lembro de quando é: acho que de 2003 ou 2004. Publico aqui como um tributo ao escritor, que faleceu recentemente.


Arte & Política: Onde você se inspira para escrever seus livros?

Em qualquer coisa: um episódio da história do Brasil ou do mundo, uma pessoa que conheci, uma notícia de jornal, uma fantasia. A inspiração é importante, mas é como o motor de arranque: ele só dá a partida, não faz andar o carro. O que faz andar o carro é a técnica literária, o domínio da palavra, a disposição de contar a história.

Para você, como a TV e o cinema mudaram a sensibilidade das pessoas e em que isso afetou a literatura?

Certamente. Mudaram para melhor. Vou dar um exemplo: nos romances antigos, havia longas descrições de paisagens, de personagens. Não mais: nisto o escritor, por mais sensível e talentoso que seja, não pode competir com a câmera. Mas esta, por sua vez, não pode penetrar na mente dos personagens. Isto tornou a ficção mais intimista. Por último, os livros ficaram menores: por causa da tevê e do cinema, as pessoas têm menos tempo para ler. Mas livros mais curtos também é um avanço: exigem maior poder de síntese.

Nesse ano, em que o Quixote completa 400 anos, que lições você acha que podemos tirar desta obra para a literatura contemporânea?

O Quixote é daquelas raras obras que tem uma mensagem universal e atemporal. Em todas as épocas existiram pessoas que lutaram por seus ideais, mesmo em circunstâncias desfavoráveis, mesmo sofrendo ou cobrindo-se de ridículo. Bom que o fizeram! Graças aos quixotescos, a humanidade avança. Aos trancos e barrancos, mas avança.

Há alguns estudiosos que acham que se valorizou excessivamente a literatura experimentalista, como aquela do Ulisses, de Joyce, e que essa literatura fracassou, pois não atingiu o gosto do público. Quem lê Ulisses hoje em dia? Enquanto que uma literatura de Camus, de Borges, de Sartre, de Thomas Mann, que mesclam profundidade filosófica e poesia sem perder a comunicabilidade com o leitor, continuam se expandindo por todo o planeta. Concorda com essa análise? Acha que a comunicabilidade do texto ficcional é importante?

Não, não concordo. Não acho que Ulisses seja experimentalismo. Acho que se trata da forma a serviço do conteúdo. E comunicabilidade é um conceito relativo. O escritor escreve para as pessoas com as quais têm afinidade, e que podem ser poucas: Flaubert dizia que não precisava mais de cem leitores. O público destes escritores forma-se mais lentamente, ao longo do tempo, mas se forma.

Haveria, a seu ver, um certo distanciamento crescente entre alguns segmentos da ficção nacional e o grande público letrado brasileiro? O artista tem que ir aonde o povo está?

Não, não creio que tenha havido distanciamento; prova são as editoras juvenis que tem um público cada vez maior. O escritor não tem de ir aonde o público está; ele tem de seguir seu instinto, suas próprias tendências. Tem, como dizia Shakespeare, de ser fiel a si próprio.

Você é um escritor com muitos romances publicados por grandes editoras. Seria indiscrição perguntar quantos exemplares em média seus livros venderam? A comissão do escritor continua sendo 10%? Dá pra viver de literatura no Brasil?

Não costumo fazer estes cálculos mas creio, pelos números que tenho, que meus livros vendam, em média, 30 mil exemplares por título. Direitos autorais representam 10% do preço. É difícil viver só de literatura; é mais fácil viver de escrever - artigos, crônicas, roteiros. Mas quem disse que o escritor precisa viver só de escrever? Kafka era funcionário, trabalhava o dia todo e à noite produzia maravilhas.

Que sugestão daria para o Ministério da Cultura para aumentar o índice de leitura no país?

Eu investiria nos professores de literatura: treinamento, motivação - e, claro, bons salários.

Se o Ministro da Educação lhe pedisse uma sugestão, que livros de literatura tiraria do currículo escolar, e que livros acrescentaria?

Não tiraria livro algum, mas acrescentaria autores contemporâneos.

8 de abril de 2011

Luto eterno pela inocência perdida

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Não tenho o que comentar sobre essa tragédia ocorrida no Rio. Nem acho que existam explicações satisfatórias. Para mim, é algo que emerge lá do fundo negro e diabólico da alma humana. A única resposta para isso é o amor, a arte, o carinho, a poesia. Não adianta culpar os filmes americanos, a internet, a mídia, o governo, a educação. Esses monstros surgem do nada, imprevisivelmente, nas melhores famílias. Nas cidades mais pacatas e nos países mais desenvolvidos. Infelizmente, um deles nasceu aqui.

Evidentemente, muitas besteiras serão ditas. Preconceitos vêm à tôna. Intelectuais darão opiniões apressadas, porque raramente admitem que não sabem, que estão tão perplexos como nós.

Não sei, realmente, o que dizer. Vou arriscar um poema:

nas entranhas, sufocado pelo sangue,
o verme se agita
sem amor, sem compaixão,
ele simplesmente se agita
e talvez gritasse,
se soubesse gritar

é quase isso, porém.
o berro de um verme
preso no meio das entranhas
ensanguentadas de uma criança

uma criança, meu deus,
tão linda como uma praia,
uma manhã de sol
de temperatura amena
e ar úmido
em frente ao mar sereno
o mar azul e livre
livre qual uma criança
sem entranhas
sem vermes
sem vida

falam em religiões,
em deus,
em doenças psiquiátricas,
mas esquecem do principal
das entranhas sujas
e dos vermes
estranhos que nelas
se debatem, ariscos,
quase felizes em sua agonia
de monstros em seu habitat

não haverá mais belas manhãs,
o Rio perdeu sua inocência
o Rio perdeu o amor
o Rio perdeu a esperança

A cidade se debruça
à bordo de suas montanhas,
vomita sobre todos nós
e depois chora
copiosamente.

chores também, você,
a sua vida perdida
o luto eterno
a morte que nos espreita
sem ligar se o dia é belo
ou se as meninas são belas

o rio morreu nesta quinta-feira
baleado na cabeça
por um psicopata filhodaputa
que pagará no inferno
dez milhões de anos
mastigado lentamente pelo próprio chefe
dos subterrâneos incendiados

inconsoláveis
acordaremos amanhã
semimortos
como zumbis,
e perambularemos pelas ruas
vazias de sentido
como quem vagueia
perplexo
por uma cidade destruída por uma bomba
e ainda cheia de radioatividade

vamos dormir então
por uns bons anos
tornarmo-nos alcóolatras
bater em nossos filhos
enganar os amigos
pois a moral e o amor já não tem sentido

expulsamos os anjos
do paraíso,
e os substituimos
por homens cínicos
e armados

as entranhas já estão corroídas
pelos vermes
pela tristeza
e pela maldade

adentremos o inferno,
as entranhas em fogo
o coração frio
sem ouvir os gritos

das crianças

sem ouvir nosso próprio grito
de desespero
e desesperança

mas depois fugiremos
de novo para cima
para a luz
e costuraremos o abdômem
rompido, por onde elas
as entranhas, nos escapavam

e talvez dormiremos
ao ar livre,
o coração batendo muito forte
por causa da fuga
e pela emoção também

de estarmos vivos
e sermos novamente pessoas boas
cidadãos notáveis
que culpam a mídia e o governo
e dormem um sono pesado
após a cachaça da terça-feira

mas acordarás de madrugada
para vomitar
assim como a cidade
vomita sobre você do alto dos picos da tijuca

então pegará os jornais pela manhã
pingando sangue, e na cozinha,
ralando cenoura e cortando o tomate,
esquecerás dos anjinhos
que nunca leram dante
as mocinhas bonitas
que podiam se tornar suas amigas
daqui a alguns anos.

concentrar-te-ás somente na faca
laminando o tomate
lentamente
cruelmente
eternamente.


*


E um pouco de música para relaxar. Escolhi algo que, imagino eu, tem um pouco a ver. Uma música tão linda e tão triste de Jimi Hendrix, O vento chora por Maria. The wind cries Mary.

7 de abril de 2011

Carta Capital mata a cobra

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Publico abaixo textos que recebi por email, na lista dos Sem Mídia. O primeiro texto é do Paulo Henrique Amorim, os outros são da Carta Capital.

Carta desmente Época.
Íntegra do relatório da PF incrimina Dantas


Como se sabe, a revista Época do notável repórter Diego Escosteguy fizeram uma leitura caolha do relatório da Polícia Federal e decidiram derrubar o presidente Lula no momento em que ele é “inderrubável” já que se tornou Doutor Honoris Causa.

Este ansioso e atento blogueiro percebeu, porém, que apesar do esforço sobre-humano da Época e do dito “repórter”, a própria Época incrimou Dantas – clique aqui para ler.

Agora, a infatigável equipe da Carta Capítal teve acesso à íntegra do relatório do delegado Zamprogna, onde se conclui o seguinte:

1. Não há ali nada que demonstre que houve um mensalão e portanto não há como derrubar o “inderrubável”, aqui conhecido como o Nunca Dantes.

2. O delegado Zamprogna, na verdade, pegou Dantas com a mão na botija da BrOi.



A verdade sobre o relatório da PF

Editorial: Um desafio aos “imparciais”

Desde a renúncia de Fernando Collor para escapar do impeachment em 1992, quase todo repórter brasileiro se apresenta como um Bob Woodward ou um Carl Bernstein, a célebre dupla de jornalistas do Washington Post que desvendou o escândalo da invasão do comitê nacional do Partido Democrata no prédio Watergate. Em geral falta cultura, talento e coragem aos pares nacionais para tanto, assim como escasseiam inúmeros dos princípios basilares da atividade aos empreendimentos jornalísticos que os empregam. Apego à verdade factual, por exemplo. Neste momento, destacaríamos dois: a completa ausência de honestidade intelectual e de rigor na apuração.

Há quem entenda a emblemática apuração do caso Watergate como um conto de fadas. Num belo dia de verão, Woodward e Bernstein encontraram em um estacionamento uma fada madrinha chamada Garganta Profunda, ganharam um presente mágico, publicaram um texto e derrubaram o presidente republicano Richard Nixon. A vida real foi bem diferente. A dupla de repórteres publicou centenas de reportagens, checadas exaustivamente a partir de indicações nem sempre claras da fonte. Seu grande mérito foi seguir à risca uma recomendação: sigam o dinheiro.

Evocamos o caso Watergate por conta do reaparecimento na mídia do chamado mensalão. No sábado 2, a revista Época publicou o que dizia ser o relatório final da PF sobre o escândalo que abalou o governo Lula. A reportagem da semanal da Editora Globo estimulou uma série de editoriais e inspirou colunistas a afirmarem que o relatório seria a prova da existência do mensalão, o pagamento mensal a parlamentares em troca de apoio ao governo.

Na quarta 6, CartaCapital teve acesso ao trabalho do delegado Luís Flávio Zampronha, base da “denúncia” de Época. Nas próximas páginas, Leandro Fortes conta o que realmente escreveu o delegado. A começar pelo simples de fato de que não se trata de um relatório final, como afirma a semanal da Globo, mas de uma investigação complementar feita a pedido do Ministério Público cujo objetivo era mapear as fontes de financiamento do valerioduto. Nas mais de 300 páginas, não há nenhuma linha que permita à Época ou a qualquer outro meio de comunicação afirmar que o mensalão tenha sido provado. Ao contrário. À página 5, e em diversos outros trechos, Zampronha foi categórico: “Esta sobreposição diz respeito apenas a questões pontuais sobre a metodologia de captação e distribuição dos valores manipulados por Marcos Valério e seus sócios, não podendo a presente investigação, de forma alguma, apresentar inferências quanto ao esquema de compra de apoio político de parlamentares da base de sustentação do governo federal”.

Não se trata de uma mera questão semântica nem, da nossa parte, um esforço para minimizar qualquer crime cometido pelo PT e por integrantes do governo Lula. CartaCapital, aliás, nunca defendeu a tese de que o caixa 2, associado a um intenso lobby e também alimentado com dinheiro público, seja menos grave que a compra de apoio parlamentar. A história do mensalão serve, na verdade, ao outro lado, àquele que nos acusa de parcialidade. Primeiro, por ter o condão de circunscrever o escândalo apenas ao PT e, desta forma, usá-lo como instrumento da disputa de poder. Depois, por esconder a participação do banqueiro Daniel Dantas, cujos tentáculos na mídia CartaCapital denuncia há anos, e a do PSDB, legenda preferida dos patrões e seus prepostos nas redações. Em nome desta aliança, distorce-se e mente-se quando necessário. E às favas o jornalismo.

Em 2005, quando a mídia desviou-se do núcleo do escândalo, desprezando a lição de Watergate, em busca de denúncias capazes de levar ao impeachment de Lula (quem não se lembra da lendária “reportagem” sobre os dólares de Cuba?), CartaCapital manteve-se firme no propósito de seguir o dinheiro. Temos orgulho de nosso trabalho. Fomos os primeiros a esmiuçar a participação de Dantas no financiamento do valerioduto. Demonstramos com detalhes incontestáveis a origem e as ramificações das falcatruas de Marcos Valério, sem poupar ninguém.

Em agosto daquele ano, quando veio à tona a viagem de Marcos Valério a Portugal, a mídia em coro afirmou que o publicitário viajara a Lisboa com o objetivo de vender o estatal Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) ao banco Espírito Santo. Nossa reportagem do mesmo período comprovava outro enredo: Valério tinha a missão de negociar a Telemig Celular, controlada pelo Opportunity e os fundos de pensão, à Portugal Telecom. E explicava como o então ministro José Dirceu. Associado a outros petistas, participara da tramóia a favor do banqueiro orelhudo. A venda da Telemig, da forma imaginada, levaria os fundos a perdas irreversíveis, renderia bilhões a Dantas e alguns milhões aos cofres petistas. Bastaria ao governo retirar Sergio Rosa do comando da Previ, a fundação dos funcionários do Banco do Brasil que resistiam bravamente às manobras dantescas. Em depoimentos que constam do inquérito do mensalão no Supremo Tribunal Federal, as fontes portuguesas que se encontraram com Valério em Lisboa confirmaram a história contada por CartaCapital.

Sempre enxergamos no lamentável escândalo do valerioduto uma oportunidade de o Brasil compreender a fundo o esquema de captura de partidos e governos por meio do financiamento ilegal de campanhas. O mensalão, em grande medida, se conecta a outros tantos casos recentes da história nada republicana do poder. O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo, tem a oportunidade de pôr a limpo estes esquemas e de revelar por completo a influência de Dantas nos governos FHC e Lula, na mídia e no Judiciário. Acima dos interesses partidários, a bem do País.

O relatório de Zampronha é mais uma prova de que estávamos certos. Por isso, decidimos lançar um desafio. A partir da noite da quinta-feira 7 publicaremos em nosso site a íntegra do relatório da PF. Os interessados poderão assim conferir, livres de qualquer mediação, quem é fiel à verdade factual e quem não é. Quem pratica jornalismo e quem defende interesses inconfessáveis. Quem é independente.

Leia a íntegra do relatório: Parte 1Parte 2Parte 3Parte 4Parte 5Parte 6Parte 7 e Parte 8


A verdade sobre o relatório da PF

Por Leandro Fortes

O escândalo do mensalão voltou à cena. Em páginas recheadas de gráficos, infográficos, tabelas e quadros de todos os tipos e tamanhos, a revista Época anunciou, na edição que chegou às bancas no sábado 2, ter encontrado a pedra fundamental da mais grave crise política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2005 e 2006. Com base em um relatório sigiloso da Polícia Federal, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a semanal da Editora Globo concluiu sem mais delongas: a PF havia provado a existência do mensalão e o uso de dinheiro público no esquema administrado pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Outro aspecto da reportagem chamada atenção: o esforço comovente em esconder o papel do banqueiro Daniel Dantas no financiamento do valerioduto. Alguns trechos pareciam escritos para beatificar o dono do Opportunity, apresentado como um empresário achacado pela sanha petista por dinheiro.

As provas do descalabro estariam nas 332 páginas do inquérito 2.474, tocado pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, da Divisão de Combate a Crimes Financeiros da PF e encaminhado ao ministro Joaquim Barbosa, relator no STF do processo do “mensalão”. Inspirados no relato de Época, editorialistas, colunistas e demais istas não tiveram dúvidas: o mensalão estava provado. Estranhamente, a mesma turma praticamente silenciou a respeito dos trechos que tratavam de Dantas.

Infelizmente, os leitores de Época não foram informados corretamente a respeito do conteúdo do relatório escrito, com bastante rigor e minúcias, pelo delegado Zampronha. Em certa medida, sobretudo na informação básica mais propalada, a de que o “mensalão” havia sido confirmado, esses mesmos leitores foram enganados. Não há uma única linha no texto que confirme a existência do tal esquema de pagamentos mensais a parlamentares da base governista em troca de apoio a projetos do governo no Congresso Nacional.

Ao contrário. Em mais de uma passagem, o policial faz questão de frisar que o inquérito, longe de ser o “relatório final do mensalão”, é uma investigação suplementar do chamado “valerioduto”, solicitada pela Procuradoria Geral da República, para dar suporte à denúncia inicial, esta sim baseada na tese dos pagamentos mensais. Trata, portanto, da complexa rede de arrecadação, distribuição e lavagem de dinheiro sujo montada por Marcos Valério. Zampronha teve, inclusive, o trabalho de relatar como esse esquema a envolver financiamento ilegal de campanha e lobbies privados começou em 1999, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, e terminou em 2005, na administração Lula, após ser denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, do PTB. Ao longo do texto, fica clara a percepção do delegado de que nunca houve “mensalão” (o pagamento mensal a parlamentares), mas uma estratégia mafiosa de formação de caixa 2 e que avançaria sobre o dinheiro público de forma voraz caso não tivesse sido interrompida pela eclosão do escândalo.

Na quarta-feira 6, CartaCapital teve acesso ao relatório. Para não tornar seus leitores escravos da interpretação exclusiva da reportagem que se segue, decidiu publicar na internet (www.cartacapital.com.br) a íntegra do documento. Assim, os interessados poderão tirar suas próprias conclusões. Poderão verificar, por exemplo, que o delegado ateve-se a identificar as fontes de financiamento do valerioduto. E mais: notar que Dantas é o principal alvo do inquérito.

Ao contrário do que deu a entender a revista Época, não se trata do “relatório final” sobre o mensalão. Muito menos foi encomendado pelo ministro Barbosa para esclarecer “o maior escândalo de corrupção da República”, como adjetiva a semanal. Logo na abertura do relatório, Zampronha faz questão de explicar – e o fará em diversos trechos: a investigação serviu para consolidar as informações relativas às operações financeiras e de empréstimos fajutos do “núcleo Marcos Valério”. Em seguida, trata, em 36 páginas (mais de 10% de todo o texto), das relações de Marcos Valério com Dantas e com os petistas. À página 222, anota, por exemplo: “Pelos elementos de prova reunidos no presente inquérito, contata-se que Marcos Valério atuava como interlocutor do Grupo Opportunity junto a representantes do Partido dos Trabalhadores, sendo possível concluir que os contratos (de publicidade) realmente foram firmados a título de remuneração pela intermediação de interesse junto a instâncias governamentais”.

O foco sobre Dantas não fez parte de uma estratégia pessoal do delegado. No fim do ano passado, a Procuradoria Geral da República determinou à PF a realização de diligências focadas no relacionamento do valerioduto com as empresas Brasil Telecom, Telemig Celular e Amazônia Celular. As três operadoras de telefonia, controladas à época pelo Opportunity, mantinham vultosos contratos com as agências DNA e SMP&B de Marcos Valério. Zampronha solicitou todos os documentos referentes a esses pagamentos, tais como contratos, recibos, notas fiscais e comprovantes de serviços prestados. A conclusão foi de que a dupla Dantas-Valério foi incapaz de comprovar os serviços contratados.

As análises financeiras dos laudos periciais encomendados ao Instituto Nacional de Criminalística da PF revelaram que, entre 1999 e 2002, no segundo governo FHC, apenas a Telemig Celular e a Amazônia Celular pagaram às empresas de Marcos Valério, via 1.169 depósitos em dinheiro, um total de 77,3 milhões de reais. Entre 2003 e 2005, no governo Lula, esses créditos, consumados por 585 depósitos das empresas de Dantas, chegaram a 87,4 milhões de reais. Ou seja, entre 1999 e 2005, o banqueiro irrigou o esquema de corrupção montado por Marcos Valério com nada menos que 164 milhões de reais. O cálculo pode estar muito abaixo do que realmente pode ter sido transferido, pois se baseia no que os federais conseguiram rastrear.

Segundo o relatório, existem triangulações financeiras típicas de pagamento de propina e lavagem de dinheiro. Em uma delas, realizada em 30 de julho de 2004, a Telemig Celular pagou 870 mil reais à SMP&B, depósito que se somou a outro, de 2,5 milhões de reais, feito pela Brasil Telecom. O total de 3,4 milhões de reais serviu de suporte para transferências feitas em favor da empresa Athenas Trading, no valor de 1,9 milhão de reais, e para a By Brasil Trading, de 976,8 mil reais, ambas utilizadas pelo esquema de Marcos Valério para mandar dinheiro ao exterior por meio de operações de câmbio irregulares, de modo a inviabilizar a identificação dos verdadeiros beneficiários dos recursos. Em consequência, Zampronha repassou ao Ministério Público Federal a função de investigar se houve efetiva prestação de serviços por parte das agências de Marcos Valério às empresas controladas pelo Opportunity.

A principal pista da participação de Dantas na irrigação do valerioduto surgiu, porém, a partir de uma auditoria interna da Brasil Telecom, realizada em 2006. Ali demonstrou-se que, às vésperas da instalação da CPMI dos Correios, em 2005, na esteira do escândalo do “mensalão” e no momento em que a permanência do Opportunity no comando da telefônica estava sob ameaça, a DNA e a SMP&B celebraram com a BrT contratos de 50 milhões de reais. Dessa forma, as duas empresas de Marcos Valério puderam, sozinhas, abocanhar 40% da verba publicitária da Brasil Telecom. Isso sem que a área de marketing da operadora tivesse sido consultada.

Ao delegado, Dantas afirmou que, a partir de 2000, ainda no governo FHC, passou a “sofrer pressões” da italiana Telecom Italia, sócia da BrT. Em 2003, já no governo Lula, o banqueiro afirma ter sido procurado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, o ex-deputado José Dirceu, com quem teria se reunido em Brasília.

Na conversa com Dirceu, afirma Dantas, o ministro teria se mostrado interessado em resolver os problemas societários da BrT e encerrar o litígio do Opportunity com os fundos de pensão de empresas estatais. O Palácio do Planalto teria escalado o então presidente do Banco do Brasil, Cassio Casseb, para cuidar do assunto. Casseb viria a ser um dos alvos da arapongagem da Kroll a pedido do Opportunity. O caso, que envolveu a espionagem de integrantes do governo FHC e da administração Lula, baseou a Operação Chacal da PF em 2004.

Dantas afirmou ter se recusado a “negociar” com o PT. Após a recusam acrescenta, as pressões aumentaram e ele teria começado a ser perseguido pelo governo. Mas o banqueiro não foi capaz de provar nenhuma das acusações, embora seja claro que petistas se aproveitaram da guerra comercial na telefonia para extrair dinheiro do orelhudo. Só não sabiam com quem se metiam. Ou sabiam?

O fundador do Opportunity também repetiu a versão de que um de seus sócios, Carlos Rodemburg, havia sido procurado pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, acompanhado de Marcos Valério, para ser informado de um déficit de 50 milhões de reais nas contas do partido. Teria sido uma forma velada de pedido de propina, segundo Dantas, nunca consolidado. O próprio banqueiro, contudo, admitiu que Delúbio não insinuou dar nada em troca da eventual contribuição solicitada. Negou, também, que tenha mantido qualquer relação pessoal ou comercial com Marcos Valério, o que, à luz das provas recolhidas por Zampronha, soam como deboche. “O depoimento de Daniel Dantas está repleto de respostas evasivas e esquecimentos de datas e detalhes dos fatos”, informou no despacho ao ministro Barbosa.

Chamou a atenção do delegado o fato de os contratos da BrT com as agências de Marcos Valério terem somado os exatos 50 milhões de reais que teriam sido citados por Delúbio no encontro com Rodemburg. Para Zampronha, a soma dos contratos, assim como outras diligências realizadas pelo novo inquérito, “indicam claramente” que, por algum motivo, o Grupo Opportunity decidiu efetuar os repasses supostamente solicitados por Delúbio, com a intermediação das agências de Marcos Valério, como forma de dissimular os pagamentos.

Os contratos da DNA e da SMP&B com a Brasil Telecom, segundo Zampronha, obedecem a uma sofisticada técnica de lavagem de dinheiro, usada em todo o esquema de Marcos Valério, conhecida como commingling (mescla, em inglês). Consiste em misturar operações ilícitas com atividades comerciais legais, de modo a permitir que outras empresas privadas possam se valer dos mesmos mecanismos de simulação e superfaturamento de contratos de publicidade para encobrir dinheiro sujo. No caso da BrT, cada um dos contratos, no valor de 25 milhões de reais, exigia contratação de terceiros para serem executados. Além disso, havia a previsão de pagamento fixo de 187,5 mil reais mensais às duas agências do Valerioduto, referente à prestação de serviços de “mídia e produção”.

Surpreendentemente, e contra todas as evidências, Dantas disse nunca ter participado da administração da BrT. Por essa razão, não teria condições de prestar qualquer informação sobre os contratos firmados pela então presidente da empresa, Carla Cicco, indicada por ele, com as agências de Marcos Valério. De volta a Itália desde 2005, Carla Cicco informou à PF não ter tido qualquer participação ou influência na contratação das agências, apesar de admitir ter assinado os contratos. Disse ter se encontrado com Marcos Valério uma única vez, numa reunião de trabalho com representantes da DNA.

O protagonismo de Dantas no valerioduto e o desmembramento da rede de negócios montada por Marcos Valério, desde 1999, nos governos do PSDB e do PT são elementos que, no relatório da PF, desmontam, por si só, a tese do pagamento de propinas mensais a parlamentares. Ou seja, a tese do “mensalão”, na qual se baseou a denúncia da PGR encaminhada ao Supremo, não encontra respaldo na investigação de Zampronha, a ponto de sequer ser considerada como ponto de análise.


O foco do delegado é outro crime, gravíssimo e comum ao sistema político brasileiro, de financiamento partidário baseado em arrecadação ilícita, montagem de caixa 2 e, passadas as eleições, divisão ilegal de restos de campanha a aliados e correligionários. Por essa razão, ele encomendou os novos laudos detalhados ao INC.

Uma das primeiras conclusões dos laudos de exame contábil foi que Marcos Valério usava a DNA Propaganda para desviar recursos do Fundo de Incentivo Visanet, empresa com participação acionária do Banco do Brasil, e distribui-los aos participantes do esquema do PT e de partidos aliados. O fundo foi criado em 2001 com o objetivo de financiar ações de marketing para incentivar o uso de cartões da bandeira Visa. O Visanet foi, inicialmente, constituído com recursos da Companhia Brasileira de Meios e Pagamentos (CBMP), nome oficial da empresa privada Visanet, e distribuído em cotas proporcionais de um total de 492 milhões de reais a 26 acionistas. Além do BB participam o Bradesco, Itaú, HSBC, Santander, Rural, e até mesmo o Panamericano, vendido recentemente por Silvio Santos ao banqueiro André Esteves. “Para operar tais desvios, Marcos Valério aproveita-se da confusão existente entre a verba oriunda do Fundo de Incentivo Visanet e aquela relacionada ao orçamento de publicidade próprio do Banco do Brasil”, anotou o policial.

O BB repassava mais de 30% do volume distribuído pelo fundo, cerca de 147,6 milhões de reais, valor correspondente à participação da instituição no capital da Visanet. Desse total, apenas a DNA Propaganda recebeu 60,5% do dinheiro, cerca de 90 milhões de reais, entre 2001 e 2005, divididos por dois anos no governo FHC, e por dois anos e meio, no governo Lula. Daí a constatação de que, de fato, por meio da Visanet, o valerioduto foi irrigado com dinheiro público. O que nunca se falou, contudo, é que essa sangria não se deu somente durante o governo petista, embora tenha sido nele o período de maior fartura da atividade criminosa. Quando eram os tucanos a coordenar o fundo, Marcos Valério meteu a mão em ao menos 17,2 milhões de reais.

De acordo com o relatório da PF, Marcos Valério tinha consciência de que agências de publicidade e propaganda representavam um mecanismo eficaz para desviar dinheiro público, por conta do caráter subjetivo dos serviços demandados. Mas havia um detalhe mais importante, como percebeu Zampronha. Com as agências, Valério passou a lidar com a compra de espaços publicitários em diversos veículos de comunicação. “Esta relação econômica estreitava o vínculo do empresário com tais veículos e poderia facilitar o direcionamento de coberturas jornalísticas”.

As Organizações Globo, proprietária da revista Época, sonegou a seus leitores, por exemplo, ter sido a maior beneficiária de uma das principais empresas do valerioduto. À página 68 do relatório, e em outras tantas, a TV Globo é citada explicitamente. Escreve o delegado: “A nota emitida pela empresa de comunicação destaca-se por sua natureza fiscal de adiantamento, “publicidade futura”, isto é, a nota por si só não traz qualquer prestação de serviço, como também não há elementos que vincule os valores adiantados ao fundo de incentivo Visanet”. Zampronha se referia a contratos firmados em 2003 no valor de 720 mil reais e 2,88 milhões de reais. Entre 2004 e 2005, a TV Globo receberia outros pagamentos da DNA, no valor total de 1,2 milhão de reais, lançados na planilha de controle do Fundo Visanet.

Mesmo tratado com simpatia na reportagem da Época, o Opportunity não perdoou. No item 17 de uma longa nota oficial em resposta, o banco atira: “Na Telemig, segundo informações prestadas à CPI do Mensalão, a maioria dos recursos eram repassados às Organizações Globo. Por isso, a apuração desses fatos fica fácil de ser feita pela Época.”

Segundo Zampronha, o objetivo do valerioduto era criar empresas de fachada para auxiliar na movimentação de dinheiro sujo e manter os interessados longe dos órgãos oficiais de fiscalização e controle. O leque de agremiações políticas para as quais Marcos Valério “prestava serviços” era tão grande que não restou dúvida ao delegado: “Estamos diante de um profissional sem qualquer viés partidário”. Isso não minimiza o fato de o PT, além de qualquer outra legenda, ter se lambuzado no esquema. Não fosse a denúncia de Jefferson, o valerioduto teria se inscrutado de forma absoluta no Estado brasileiro e se transformado em uma torneira permanemente aberta por onde jorraria dinheiro público para os cofres petistas.

CartaCapital não espera, como de costume, que esta reportagem tenha repercussões na mídia nativa. À exceção da desbotada tese do mensalão, que serve à disputa político-partidária na qual os meios de comunicação atuam como protagonistas, não há nenhum interesse em elucidar os fatos. O que, se assim for, provará que a sociedade afluente navega tranquilamente sobre o velho mar de lama.

Aécio, novo líder da oposição

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Sugiro a todos que prestem atenção nesse cara. É ele quem virá com muita força em 2014, apoiado pela grande mídia. Não vamos subestimar a direita.


1ª parte



2ª parte



3ª parte (final)




Também sugiro que leiam o artigo abaixo de Nassif sobre Aécio e a nova oposição:

O discurso de Aécio e a nova era na política

Enviado por luisnassif, qui, 07/04/2011 - 12:22

Já escrevi outras vezes e reitero: a ascensão de Aécio Neves, Eduardo Campos e outros menos votados marca uma nova era na política e a consolidação definitiva do amadurecimento político brasileiro.

Essa consolidação passou por dois momentos.

O primeiro, a derrota do estilo Serra-Bolsonaro nas eleições presidenciais. Se o estilo abjeto, a exploração do preconceito, da difamação, tivessem sido vitoriosos, hoje o país estaria em pé de guerra. Todo o trabalho civilizatório plantado por sucessivos governos, passando por FHC e Lula, teria ido água abaixo, no esgoto que marcou para sempre o estilo Serra.

O segundo momento é a derrota desse mesmo estilo na definição da nova oposição. A grande batalha civilizatória, após as eleições, se deu no campo das oposições: da liderança civilizada versus a barbárie, representada por Serra.

Também aí, houve a vitória da civilização. E o discurso de Aécio, apesar de pouco consistente - não se poderia esperar um plano completo, em plena transição política - é um marco no amadurecimento político do país.

O papel da oposição

Em qualquer democracia, é fundamental o papel da oposição. É ela quem contem desmandos de qualquer governo, define a competição que impede o acomodamento, apresenta alternativas, criando a dinâmica que mantém a vitalidade da democracia.

Faltam inúmeros pontos programáticos na oposição. Aécio não representa ainda um pensamento sistematizado, ainda é uma lousa em branco. Como, aliás, era o PT depois do plano Real, enfrentando inúmeras dificuldades para consolidar um novo discurso.

Mas é a melhor alternativa para a consolidação democrática do país, porque representa – do lado da oposição – a negociação, a crítica civilizada, construtiva, sem golpismo, sem pressa.

Ele tem duas bandeiras claras. Uma, a da gestão, infelizmente (para ele) encontrou pela frente a melhor gestora pública nacional sendo também presidente da República. A outra, o da negociação política civilizada. Esse é o seu trunfo, embora o fantasma da irmã Andrea Neves o acompanhe.

Com o tempo, a oposição terá que construir um novo discurso, mas pensando no longo prazo. Terá que recuperar a racionalidade de um José Roberto Affonso, trazer um novo pensamento político e econômico, descobrir novos Bresser-Pereira (porque o notável Bresser desistiu do PSDB depois de ver a cara pintada por Serra), novos Mendonças de Barros, novos Gianotti e Fausto com arejamento, com capacidade de enxergar o futuro daqui a dez anos, novos gestores imaginativos para, pouco a pouco, ir compondo uma nova plataforma política, tendo como peça central a tolerância política.

Os novos paradigmas

O período FHC legou um conjunto de conceitos que já não entusiasmam, por terem se convertido em valores nacionais – a defesa da estabilidade econômica, a responsabilidade fiscal (que, a rigor, o próprio governo FHC não praticou) - e por serem restritos, apenas peças, ainda que relevantes, de um desenho de país muito mais amplo, que o "tosco" Lula intuiu e o "sofisticado" FHC nunca entendeu.

Por outro lado, a entrada em cena dos paradigmas da era Lula – governo participativo, foco no social, foco em políticas voltadas para a geração de emprego, nova visão de país no mundo – pegou o PSDB de FHC de calças curtas, tornou anacrônicas as decisões de gabinete, a visão falsa do administrador na redoma. Sem contar o estilo Bolsonaro, trazido por Serra na campanha, que esfrangalhou a imagem do partido que, outrora, abrigou Covas, Montoro, Grama.

O PSDB possui duas vitrines para se contrapor ao governo Dilma: Minas e São Paulo. Minas está nas mãos de um dos melhores gestores públicos do país: Antonio Anastasia. Tem Eduardo Campos, em Pernambuco, mas estado sem a dimensão política de Minas.

São Paulo ainda não definiu um modelo de gestão à altura do seu potencial. Alckmin não foi um governador brilhante e Serra foi o mais ausente dos governadores do estado, com um grau de desinformação sobre políticas públicas que só encontrei, antes, em Luiz Antônio Fleury.

Se tivesse cabeça mais aberta, Alckmin teria à sua disposição os melhores quadros técnicos, as melhores universidades, institutos de pesquisa, as empresas mais modernas, recuperaria a capacidade de análise da Fundap, tiraria a Fundação Seade da lama em que foi jogada por Arnaldo Madeira, montaria think-tanks no Planejamento.

Mas falta pensar grande. Muito dificilmente haverá um "estalo de Vieira" na sua cabeça.

A vitalidade da democracia e a blogosfera

Mesmo assim, haverá uma disputa que melhorará a todos, tanto o governo federal quanto os estaduais. Todos terão que perseguir resultados, buscar o novo, desenvolver novas formas de participação popular, negociar com sindicatos, associações empresariais, sociedade civil.

Dia desses conversava com um dos melhores ministros de Dilma. Ele sentia falta do fogo no rabo da campanha eleitoral. Havia reuniões diárias para corrigir erros, aprimorar, responder às críticas fundamentadas ou aos factóides.

É essa dinâmica que faz da política o grande agente restaurador.

E a blogosfera também terá que se adaptar aos novos tempos.

Não dá mais para o jogo de torcidas e de ofensas, seja de que lado for. As discussões terão que se dar em torno de ideias, conceitos, discussões civilizadas, de tratar o outro lado como adversário, não como inimigo, de estimular o contraditório e de focar nos grandes problemas nacionais.

Apesar dos avanços dos últimos anos, o Brasil ainda é um país que desestimula o empreendedorismo, que está sob o peso de normas burocráticas massacrantes, que não criou condições de competitividade para enfrentar economias mais eficientes, que ainda falta avançar muito na infraestrutura, que terá que dar novos saltos nas políticas de inclusão social.

Nesse novo quadro, não dá mais para manter a guerra de trolls de ambos os lados. É hora do salto de amadurecimento, de recuperar a crítica necessária, e de apostar na tolerância.

5 de abril de 2011

Nasser se rejubila em seu túmulo

1 comentário

(Foto de Scott Nelson, ver outras no site do autor).

Abaixo a minha matéria, publicada na Fórum de março deste ano.

Depois vão lá no site da revista ler outros artigos da última edição impressa, disponibilizados hoje. Há artigos do editor, Renato Rovai, sobre o Egito, escritos in loco. Rovai esteve no Cairo e pôde ver com os próprios olhos o fumegar revolucionário da praça Tahir e arredores...


A revolução na encruzilhada do mundo

Por Miguel do Rosário, de Paris

“Quis o destino que estivéssemos na encruzilhada do mundo”, escreveu Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito de 1954 a 1970, num opúsculo publicado em 1955, intitulado Filosofia da Revolução. De fato, o Egito é um ponto de ligação entre o mundo árabe, a África, a Ásia, a Europa; e, embora distante geograficamente, pode-se considerá-lo também – por seu cosmopolitismo e sistema político republicano e secular – um elo importante entre os EUA e os regimes islâmicos, que controlam as maiores jazidas de petróleo do planeta.

Eis que o Egito, responsável pela invenção da escrita ocidental, volta aos livros de História. Marquem essa data: no dia 11 de fevereiro de 2011, após dezoito dias de protestos populares, Hosni Mubarak, à frente de mal disfarçada ditadura, renunciou, ou antes, foi apeado do poder por uma junta militar, por sua vez apoiada por milhões de egípcios que se insurgiram contra o governo e não aceitaram outra saída que não incluísse a demissão do presidente, a dissolução dos dois parlamentos e a revisão de capítulos constitucionais que, segundo os manifestantes, bloqueavam a democracia.

O entusiasmo visto na praça Tahrir, epicentro da revolução, é algo que estávamos acostumados a ver apenas em finais de Copas do Mundo. Desta vez, claro, é um entusiasmo muito mais nobre e duradouro. Vários analistas interpretaram os acontecimentos como um desses fatos que mudam a história do mundo. Todos os que têm acompanhado de perto as reviravoltas do Oriente Médio e norte da África nos últimos cinquenta anos sentiram, nos gritos de liberdade dos jovens (e velhos) egípcios, que havia ali algo bem maior do que um protesto corriqueiro contra um regime autoritário.

Naturalmente, como é o exército que conduzirá o processo de transição, tendo havido uma espécie de golpe de Estado, parte da opinião pública internacional (e particularmente a brasileira) encarou os acontecimentos com desconfiança. Alguns brandiram teorias sobre participação dos serviços de inteligência dos EUA no processo que derrubou o ditador e entregou o controle da situação ao Supremo Tribunal Militar. Teses assim germinam facilmente, quase sempre com um fundo de verdade, naquela região do mundo. Entretanto, dada a importância estratégica do Egito no tabuleiro geopolítico, os EUA ligar-se-iam de qualquer maneira tanto às peças brancas como às pretas. É tradição da CIA apostar nos dois lados. Apoiaram Mubarak até onde podiam; depois passaram a pedir sua cabeça; chancelaram a transferência de poder para seu vice, o “doutor tortura” Mubarak Omar Suleiman; por fim, é possível que tenham igualmente apoiado a junta militar que assumiu as rédeas da nação.

Para os ianques, perplexos ao ver as peças de seu tabuleiro se mexendo sozinhas, qualquer coisa é melhor do que o caos, que significaria o risco de assunção ao poder da Fraternidade Muçulmana, a força política mais bem organizada da oposição anti-Mubarak. Não devemos, porém, atribuir aos EUA um poder maior do que eles efetivamente possuem. Nem ser ingênuos: revoluções nunca o são. Simon Bolívar teve apoio do império inglês para libertar a América Hispânica, mas isso não o transformou num pupilo da Inglaterra. Da mesma forma, se a junta militar que assumiu o poder recebeu a chancela ou não da Casa Branca, isso não a converte, necessariamente, num pião do Pentágono. Muito pelo contrário. O Egito, agora mais que nunca, esconde cartas sob a manga.

Até porque não se trata de um evento exclusivamente político. Tantos tabus foram rompidos que a intelectualidade europeia encarou a situação com perplexidade e mesmo uma ponta de inveja. Há muito tempo não se via, em nenhuma parte do mundo, cenas tão chocantes de... fraternité, igualité e liberté.

A ditadura, desesperada, esvaziou seu cartucho de sujeiras. Tirou a polícia das ruas, prevendo que dali adviriam caos, terror e refluxo dos protestos. Ocorreu o contrário: os próprios cidadãos organizaram rondas e garantiram a segurança na capital. Os vândalos tentaram invadir o museu do Cairo: os cidadãos fizeram um cordão de isolamento ao redor do museu e, para grande emoção de historiadores e arqueólogos do mundo inteiro, protegeram-no. Os policiais machucaram as pessoas, e os feridos que chegavam aos hospitais eram presos: os cidadãos armaram clínicas de pronto-socorro na praça, e os médicos e estudantes de medicina cuidaram das pessoas.

A força das ruas. E da internet

Conhecida mundialmente pela sujeira interminável espalhada por suas ruas, a cidade do Cairo assistiu a uma novidade surpreendente: os cidadãos organizaram um impecável sistema de limpeza na praça. O repórter do Le Monde, ao ver um cidadão varrendo a calçada, perguntou-lhe por que fazia aquilo: ele respondeu que não sabia, apenas achava que era o certo a fazer. A terrível polícia política de Mubarak infiltrou espiões e arruaceiros na praça: os cidadãos os prendiam, faziam interrogatórios e os expulsavam do local.

O Cairo é famoso pelo desrespeito às mulheres. Turistas ocidentais que desavisadamente usam saias ou andam de ombros descobertos são perseguidas pelas ruas por multidões de homens agressivos e lúbricos. Na praça Tahrir, chegavam mulheres sem seus maridos, de cabelos ao vento, e não eram incomodadas.

A capital do Egito se notabiliza pelo abismo social, com pouquíssimos quarteirões ricos ilhados em meio a uma gigantesca miséria. Na praça Tahrir, a comida, a água e a diversão eram gratuitas. Os egípcios mostraram o poder infinito da solidariedade e deram uma lição a si mesmos, a todos os árabes e ao mundo inteiro.

De onde tiraram tanta força, sabedoria, coragem? Em política, nada cai do céu. No livro de Nasser mencionado no início do artigo, ele observa que os cientistas poderão sempre encontrar explicações e antecedentes para qualquer acontecimento político, por mais incrível que seja. Não é de hoje que os egípcios protestam contra as arbitrariedades do governo, embora o que houve tenha sido algo inédito.

Nasser assumiu o poder em 1954, dois anos após o golpe que um grupo de militares nacionalistas aplicou no rei Farouk, aliado dos britânicos e franceses. Nacionalizou o canal de Suez, investiu na criação de um importante polo industrial no país, criou universidades públicas que davam bolsas a estudantes pobres do mundo árabe e da África negra. Fez uma profunda reforma agrária, limitando a propriedade de terra a 200 acres. Foi um dos primeiros governos a aceitar a legitimidade do governo de Mao Tsé Tung. Fez acordos com a União Soviética em pleno auge da Guerra Fria. Empreendeu uma série de programas nacionalistas, estatizantes e de cunho social-progressista. Foi uma espécie de Vargas das arábias, inclusive com os mesmos defeitos: perseguiu opositores, especialmente comunistas e muçulmanos, praticou um governo paternalista, populista, excessivamente estatista, e deixou muito a desejar nos quesitos democracia e direitos humanos.

Quando morreu, em 1970, foi sucedido por Anwar Sadat, que apesar de cultuar a memória de Nasser, adotou uma linha conservadora, sendo assassinado por um muçulmano radical em 1981. Mubarak assumiu o poder e o governo eliminou os últimos resquícios de nasserismo no país.

A gestão de Mubarak caracterizou-se pela adoção entusiástica de princípios neoliberais. Importantes empresas públicas foram privatizadas. Reduziu-se o tamanho do Estado. Desregulamentou-se o mercado de trabalho. Enfim, todas as fórmulas que os latino-americanos bem conhecem, e que os levaram a ingressar numa espiral sem fim de retrocesso econômico e social, foram aplicadas no Egito. Com um agravante: tudo conduzido por uma ditadura cruel e opressora, que não permitia aos cidadãos se expressarem. O Egito se tornou um circo dos horrores em termos de criatividade na ciência da tortura. Pepe Escobar, colunista do Asia Times, diz que a polícia egípcia fazia coisas como enfaixar a pessoa inteiramente com fita tape, como uma múmia, e deixá-la apodrecer; ou trancá-la por dias num pequeno caixão, dentre outras barbaridades.

Enquanto isso, a mídia ocidental – cuja opinião pública era atiçada apenas contra o que acontecia no Irã ou Iraque – venerava o “moderado” Mubarak. O Egito era um país estável, um aliado estratégico. Os EUA, ao mesmo tempo em que patrocinavam o esmagamento da economia iraquiana com um embargo econômico que incluía antibióticos e analgésicos, premiavam o bom comportamento do governo egípcio com 2 bilhões de dólares anuais, que naturalmente não eram usados para ajudar nenhum pobre na periferia do Cairo, mas para comprar armamento americano.

Tudo parecia correr às mil maravilhas (para o Ocidente rico), até que uns árabes malucos – entre eles alguns egípcios mal agradecidos – resolveram explodir dois edifícios em Nova York. “Há momentos”, escreve o poeta egípcio Yahia Lababidi, em que “tudo estala, as cadeiras esticam seus braços, as mesas, suas pernas, e os armários alongam suas costas, imprudentemente”. Ou seja, tudo que parece estático e imóvel “subitamente agita-se em suas pernas de madeira, tão rápido como um cavalo fugindo do estábulo”.

Quando viram, aterrorizados, que os EUA deflagrariam uma guerra devastadora no vizinho Iraque, e, pior, que seu governo seria um aliado na destruição de um país irmão, centenas de milhares de egípcios saíram às ruas para protestar. Inutilmente. O governo do Egito reprimiu os protestos, prendeu e torturou uma porção de gente. E os EUA invadiram o Iraque, mataram quase um milhão de iraquianos, feriram, mutilaram e humilharam a população inteira.

Neste momento, emerge a blogosfera iraquiana, pequena, quase a se contar nos dedos das mãos, mas combativa, talentosa e muito lida pela intelligentsia egípcia.

Não é difícil (e também não é fácil) imaginar o impacto profundo que a guerra no Iraque, com todo seu arsenal de imagens sangrentas exibidas pela Al Jazeera, textos pungentes lidos na internet, relatos diretos dos milhares de iraquianos que migraram para o Egito, produziu no imaginário deste país. O Egito, o mais populoso e moderno em termos de tecnologia do norte da África, respondeu da única forma que a ditadura lhe permitia: o florescimento de uma blogosfera política militante e engajada, um fator fundamental para explicar a força e a aparente “falta de liderança” dos protestos recentes.

Outro poema de Lababidi resume onde estamos: “Diga-me, encontraste um mar... profundo o suficiente para mergulharmos, profundo o suficiente para nos afogar, águas que nos arrastem, que nos distraiam, que nos impeçam de cruzar até a outra margem?”.

Sim, encontraste, esse mar é a internet.

A luta pela democracia ainda será árdua no Egito. Como diz Khalil Gibran, o escritor mais famoso do mundo árabe, “o ontem é a memória de hoje, e o amanhã o sonho que temos agora”. O Egito hoje vive a esperança de reviver princípios nacionalistas e socialistas do nasserismo, mas atualizados à luz da consciência dos defeitos que levaram à sua derrocada: o déficit democrático, o personalismo e a debilidade das instituições.

O tempo e o espaço egípcio

Na terceira e última parte de seu livro, Nasser discorre sobre o fator “tempo e espaço” na história do Egito, e afirma, quatro décadas antes do termo “globalização” se tornar moda, que “a era do isolamento acabou”.

“Qual o nosso papel nesse mundo conturbado e em qual palco estamos atuando?”, pergunta-se Nasser, concluindo que o povo egípcio está dentro de um conjunto de círculos que vem a ser o teatro de suas atividades, e dentro dos quais eles tentam se mover como podem.

“O destino não é uma brincadeira. Os eventos não se produzem ao acaso. A existência não pode vir do nada. Não podemos olhar para o mapa do mundo sem identificar o lugar que ocupamos e o papel que desempenhamos”, continua.

O então presidente do Egito argumentava que, assim como não se podia ignorar a época histórica em que viviam – o fator tempo – , cujo estágio tecnológico e cultural influencia determinantemente tudo que acontece no mundo, da mesma forma deveriam atentar para o fator espaço: eram uma nação árabe, de religião predominantemente muçulmana, rodeada de nações árabes e muçulmanas cujos destinos mesclavam-se ao do Egito. Também não podiam ignorar que faziam parte do continente africano. Na época, a África negra enfrentava violentas lutas pela independência política, da mesma forma que hoje enfrenta experiências ainda mais dolorosas para se afirmar economicamente. Todos esses fatos, dizia Nasser, interferem em nosso destino: “seja o que for que fizermos, não podemos esquecê-los, nem fugir deles”.

Nasser cita o clássico de Luigi Pirandello Seis personagens à procura de um autor para lembrar que os anais da História estão cheios daqueles que moldaram para si mesmos papéis heroicos e os desempenharam com galhardia. Mas também sempre houve grandes papéis que não encontraram atores que os assumissem. “Eu não sei por que sempre imagino que, em nossa região, há um papel vagando sem rumo, sempre buscando um ator para desempenhá-lo. Eu não sei por que este papel, cansado de rodar por esta vasta região ao nosso redor, deveria por fim assentar-se, cansado, dentro de nossas fronteiras, obrigando-nos a nos mobilizar para assumi-lo, já que ninguém mais pode fazê-lo”.

Nasser admite que não se trata de um papel principal, e mesmo assim tinha potencial para fazer explodir a terrível energia latente ao redor deles, e na criação, naquela parte do mundo, de um tremendo poder capaz de mobilizar a região e desempenhar, com isso, um papel positivo na construção do futuro da humanidade.

Quando observamos os acontecimentos no Egito de hoje, a rebeldia, pacifismo e ânsia democrática dos milhões que protestaram corajosamente na praça Tahrir, não podemos deixar de pensar nas utopias de Nasser, que eram as utopias de seu tempo, e que encontraríamos nos jovens idealistas de todos os países. Não podemos deixar de pensar também na terrível e sombria reação que adveio de toda parte. Às esperanças de Nasser e dos jovens da época, sucederam ditaduras, conservadorismo, retrocesso social, em todo o chamado Terceiro Mundo. A partir dos EUA, assistiríamos à constituição de um aparato político, midiático e cultural de dimensões hobbesianas, que manipularia implacavelmente a opinião pública mundial, direcionando sua energia para onde lhe fosse mais conveniente.

Daí que só agora, após a onda de protestos no Egito e outros países, fomos devidamente informados que o norte da África e o Oriente Médio são dominados por ditaduras de direita, aliadas aos EUA. A exceção é o Irã, que não por outra razão é satanizado por essas mesmas mídias, de maneira que a presidenta do Brasil não pode sequer manter relações amistosas com o governo persa sem ser fustigada e condenada moralmente. Se no Irã há tortura e déficit democrático, nas plutocracias árabes vizinhas a situação é muito pior, porque além da tortura e ausência de liberdades democráticas, os governos adotaram políticas neoliberais que levaram suas sociedades a encarar como normal a desigualdade econômica e social; e a submissão colonial, que havia sido parcialmente superada através da independência política, retornou sub-repticiamente ao mundo árabe, junto com as privatizações e o desmantelamento do Estado.

Os potentados árabes, em vez de usar o enorme potencial financeiro com que Alá lhes presenteou para promover a industrialização de seus países, gerando empregos e mercado de consumo, preferem construir oásis turísticos de luxo nababesco, de sustentabilidade precária, instável, muitos dos quais, após os bilhões investidos, entraram em decadência com a última crise financeira, ou simplesmente “saíram da moda”.

Não vejo outra frase melhor para fechar este artigo do que uma atribuída a Cleópatra, rainha do Egito na época de Júlio César: “Fique registrado que nós, os grandes, cometemos um terrível erro”.