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6 de outubro de 2011

Tocqueville e os rancorosos

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Terminei finalmente de ler um dos grandes clássicos da literatura política: O Antigo Regime e a Revolução. O autor faz uma avaliação bastante crítica, em vários pontos negativa, da revolução francesa; acho que é um contraponto legal para o livro que pretendo ler agora, do Jules Michelet, que tem uma visão bem mais compreensiva, diria até mesmo amorosa, do evento.

De vez em quando, porém, tomado como que por um entusiasmo a contragosto, Tocqueville faz digressões belíssimas sobre o espírito de justiça e igualdade que produziu e conduziu a transformação profunda que a França, e toda a Europa, viveriam. No último capítulo, onde resume tudo que disse nos anteriores, a conclusão é emocionante, tanto que eu transcrevo neste meu blog de apoio. Acho que esta citação pode servir para me defender dos influxos de violência que se erguem contra este blogueiro, depois da polêmica perigosa em que me envolvi no post anterior, embora os assuntos não tenham absolutamente nada a ver.

Tem uns posts que, antes de apertar a tecla enter, me obrigam a fazer o sinal da cruz, mesmo sendo ateu, porque eu sei que podem enfurecer o dragão da internet. Há oito anos que milito na blogosfera, e desenvolvi um casco bem duro. Mesmo assim, mentiria se dissesse que não fico abalado com a onda de ofensas, muitas delas a nível pessoal, que alguns gostam de fazer. A violência é maior por parte daqueles com menor capacidade de argumentação. A maioria discorda civilizadamente, mas agora, sobretudo no Twitter, há uma fauna de mau-educados que vou te contar. Tem uns que eu considero de má índole mesmo. Gente mau caráter, rancorosa, incapaz de participar de uma discussão sem apelar para baixaria. Ficam atiçando uns aos outros, como um bando de cães raivosos latindo entre si antes de partirem para cima da presa.

No post anterior, eu tinha consciência que estava remando contra a maré. Mesmo assim eu tinha que externar a minha opinião, até porque era uma sequência dos textos anteriores, sobre a polêmica envolvendo o comercial da Hope. O fato de uma maioria ter discordado, porém, não me abala. Um blogueiro que se preza não pode ter medo de multidão. Acho que esse é o momento perfeito para citar a frase de Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra". Essa frase costuma ser muito mal usada, mas agora encaixa-se maravilhosamente.

Mesmo que eu estivesse errado (e pode ser que eu esteja), é importante que haja sempre um debate, sobre qualquer assunto. No caso, permaneço convicto que tenho uma pitada de razão. Aliás, a reação violenta, brutal, de muita gente, confirmou o que eu pensava: há um clima de linchamento, que é muito diferente de manifestar discordância em relação às atitudes do humorista. Tanto é que o mesmo dragão que soltava fogo na direção do Rafinha, ao notar minha presença em campo aberto, acenando provocativamente, veio também para cima de mim.

Eu vi um montão de comentários pedindo que a Igreja Católica interferisse no assunto, lembrando que a mesma foi bastante ativa nas eleições. Ou seja, em vez das pessoas defenderem uma sociedade mais laica e mais livre, oferecem voluntariamente as mãos para os bispos algemá-las. Falou-se muito em valores da família, o que também me deixou ressabiado.

Na verdade, eu não vi quase ninguém querendo discutir o ponto central dessa história: quais são os limites da liberdade de expressão? Tudo bem, Rafinha falou merda, mas e daí. Quais são os parâmetros constitucionais que nos permitirão botar um humorista na linha? Qual a punição? Quem será o agente repressor?

Logo no início da Eneida, Virgílio escreve: "Tantaene animis caelestibus irae?", que se traduz para "Tanta ira em corações divinos?" Os corações dos internautas não são muito divinos, mas a pergunta vale: para que tanto ódio? Será que essa gente assiste, masoquistamente, ao CQC, só para ficar irritada? Confesso a vocês: eu nunca assisti. Quer dizer, assisti pedacinhos, o suficiente para saber que não é minha praia. Rafinha pode falar a merda que quiser, ser suspenso, demitido, recontratado, o raio que o parta. Não vou entrar em correntes de ódio. Ele pode falar que come a Wanessa Camargo, o bebê e a avó dela. Não estou nem aí. A Wanessa Camargo é uma moça rica que pode muito bem se defender. Se ele falasse assim com uma moça pobre, apareceriam certamente uma pá de rábulas para defendê-la e arrancar umas pratas do imprudente humorista. Ele ofendeu a Wanessa Camargo, não as mulheres em geral. Não vejo razão para transformar o episódio numa torquemada furiosa contra o comediante, nem contra toda uma tradição de humor trash que há muito tempo faz sucesso entre a garotada. Quanto à piada das feias que agradecem aos estupradores, trata-se de uma piada tosca de humor negro, na mesma linha daquelas sobre leprosos. Merece indiferença e talvez desprezo, mas não que seja distorcida numa "defesa do estupro".

A vítima dessa vez foi o Rafinha Bastos, mas muita gente já está com sangue na boca para ir na jugular do Pânico na TV. Daí voltaremos a ter apenas o humor "correto" e convencional da Rede Globo...

O Brasil viveu uma grande revolução social nos últimos anos e uma pequena revolução política na área da comunicação. Será uma pena que imitemos os erros apontados por Tocqueville e, empolgados com o poder popular das redes, implantarmos um novo "terror" contra aqueles que consideramos a aristocracia "podre" do humor televisivo. Ao final, todos serão degolados, inclusive os que hoje pedem a cabeça dos lordes. Os radicais franceses não perdoaram nem Robespierre nem Danton.

Aos que me xingaram e caluniaram na rede, eu só tenho uma resposta: o que vem de baixo não me atinge.

1 de outubro de 2011

A guerra entre Íblis e Lúcifer

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Reproduzo abaixo a matéria que foi publicada na última edição da Fórum, que foi uma edição comemorativa de 10 anos.



Eu liberto a terra e aprisiono os céus. Eu me jogo ao chão para permanecer fiel à luz, para fazer do mundo um lugar ambíguo, fascinante, dinâmico e perigoso. Para anunciar que irei além dele. O sangue dos deuses continua fresco em minhas roupas. O grito de uma gaivota ecoa em minhas páginas. Deixem-me simplesmente empacotar minhas palavras, e partir.

Essas palavras dramáticas, excerto de um poema intitulado No limite do Mundo,  foram escritas por Adonis, um dos maiores poetas árabes vivos. Servem de mote para este breve ensaio sobre as mudanças no mundo árabe ocorridas na última década.

Que mudanças são dignas de nota? Podemos começar observando que não foram exatamente os céus que foram aprisionados, mas sim quatro aviões; nem a terra alguma foi libertada; um portão se abriu, todavia, dando fuga aos piores demônios do inferno cristão e do inferno islâmico.

O céu terrivelmente belo em Nova York, pronto para receber 2.996 almas, a maioria das quais não dirigiu-se ao paraíso - eram infiéis.

O demônio do Islã se chama Íblis, é o correlato do Lúcifer cristão. Nesses últimos dez anos, ambos travaram uma sangrenta disputa para saber quem receberia mais condenados. É com orgulho que nós cristãos podemos afirmar que vencemos. Se Íblis recebeu 3 mil infiéis naquele fatídico ano, Lúcifer arrebanhou quase um milhão de almas de 2001 aos dias de hoje - isso considerando apenas as vítimas diretas e indiretas da última guerra no Golfo Pérsico.

E desde Dante sabemos muito bem o que acontece aos muçulmanos depois da morte. A diferença é que hoje acontece em vida mesmo.

Chi poria mai pur con parole sciolte
dicer del sangue e de le piaghe a pieno
ch'i' ora vidi, per narrar più volte?

Quem, mesmo em prosa, poderia
falar do sangue, e das feridas
horripilantes que eu ali via?

Dante descreve então a tortura inflingida a Maomé, levado para o oitavo círculo do inferno (dos semeadores de intriga e discórdia), cujo corpo é sistematicamente mutilado por um demônio. A cena, presente no capítulo 28 do Inferno, parece descrever o cenário de um café em Bagdá após um atentado terrorista:

Às pernas o intestino lhe escorria;
a mostra estavam nele, o coração
e a bolsa que o alimento recebia.

Depois da mutilação, porém, as feridas se fecham, preparando o corpo do condenado para receber outro golpe. Não parece a história recente do Iraque?

Não se pode falar de árabes, e da visão que temos de sua cultura, sem mencionar Edward Said, sobretudo a sua obra Orientalismo, clássico dos clássicos sobre o imperialismo cultural do ocidente. É realmente muito triste que o grande intelectual palestino, que estudou e lecionou nas maiores universidades americanas (Harvard, Yale e Columbia) tenha morrido antes de assistir a queda de Mubarak!

Said faz um levantamento minucioso e erudito de tudo que o Ocidente escreveu sobre os árabes nos últimos mil anos. E constata que o imperialismo europeu e depois o americano fundamentou-se também no domínio da cultura, sobretudo a partir da chegada de Napoleão ao Egito. O ditador francês entra em Cairo levando um comitê de “sábios”, encarregados de registrar e estudar tudo que encontravam. Desde então, surge na Europa a figura do “orientalista”, com ênfase durante muito tempo no oriente próximo, ou seja, no mundo árabe muçulmano.

No prefácio para a edição de 2003 de Orientalismo, Said lamenta que o debate internacional sobre o mundo árabe tenha se empobrecido assustadoramente nos últimos anos; o mais grave é que ele parece ter sido empobrecido deliberadamente pelos falcões de guerra. “Parece-me inteiramente expressivo do momento em que estamos vivendo o fato de que, ao pronunciar seu discurso linha-dura de 26 de agosto de 2002, sobre a necessidade imperativa de atacar o Iraque, o vice-presidente Cheney tenha citado, como seu único “especialista” em Oriente Médio – favorável à intervenção militar no Iraque -, um acadêmico árabe que, como consultor remunerado pela mídia de massas, repete todas as noites pela televisão seu ódio pelo próprio povo e sua renúncia ao próprio passado”.

Said, todavia, também faz algumas críticas aos árabes: “Nos países árabes e muçulmanos, a situação não chega a ser muito melhor. (…) a região escorregou para um antiamericanismo fácil que mostra pouco entendimento do que os Estados Unidos efetivamente são como sociedade.”

A conclusão de Said é que, “o humanismo é a única possibilidade de resistência”, sendo que “somos favorecidos pelo campo democrático fantasticamente animador do ciberespaço, aberto para todos os usuários de maneiras jamais sonhadas pelas gerações anteriores”.

O intelectual, portanto, meio que prevê a “primavera árabe”, a qual, aliás, parece ter se convertido num  verão infernal, a julgar pelos acontecimentos recentes na Líbia e na Síria.

Lendo o blog Syria Comment, de Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio e professor na Universidade de Oklahoma, não há como deixar de pensar naqueles orientalistas citados por Said em seu livro, com suas sociedades, centros, fundações, voltadas para o estudo das coisas árabes, e que foram todas, sem exceção, instrumentalizadas para servir ao imperialismo europeu.

Entrevistado por uma TV americana, Landis afirma que os árabes, “num certo sentido, abraçaram as ideias de George Bush sobre liberdade e democracia”. O blog de Landis é o mais lido nos EUA sobre o oriente médio; como reagir a esse tipo de sofisma idiota? Folheando o livro de Said, encontro uma citação de Shakeaspare (é uma fala do Bobo, no Rei Lear) que pode nos trazer um pouco de humor: “Eles mandam que eu seja açoitado por falar a verdade, tu mandas que eu seja açoitado por mentir; e às vezes sou açoitado por ficar calado”.

Os árabes, por vezes, vivem o pior dos mundos. Se apoiam a ditadura, sofrem com sua brutalidade; se apoiam a democracia, são acusados de conspirar ao lado dos americanos; e às vezes apanham simplesmente porque não apoiam nenhuma coisa nem outra.

Enfim, falar dos árabes é algo extremamente arriscado, sobretudo após ler Orientalismo, de Said, porque somos expostos a nossos próprios preconceitos e manias. A pior das manias é a arrogância de achar que conhecemos muito bem o Oriente Médio apenas porque lemos os artigos de Pepe Escobar.

Voltemos, portanto, a poesia de Adonis. “Eu convoco anjos e ambulâncias – eu me transformo em água e escorro para a piscina de minhas tristezas, ou me torno num horizonte e escalo os cimos do desejo. Eu sei que nós morremos apenas uma vez – e renascemos a toda hora. E sei que a morte somente é útil, se a gente a atravessar. Eu sei que o imediato é esta rosa, essa mulher, e que uma face humana está do outro lado do céu.”

Esta “face humana do outro lado do céu” é justamente o que procurava Said nos compêndios eruditos que os europeus escreviam sobre o oriente médio ao longo dos últimos duzentos anos. Said sonda centenas de livros tentando encontrar quem visse os árabes não mais como árabes, mas como seres humanos. Quem visse a cultura árabe não como um objeto de estudo que, como tal, deva permanecer estática, como um modelo vivo a quem ordenamos que não se mexa para que possamos retratá-lo à perfeição. Said defende a cultura árabe enquanto uma entidade viva, dinâmica, em movimento constante. Evoluindo às vezes, regredindo, pausando aqui e avançando enlouquecidamente acolá. Said defende a individualidade única de cada árabe, na contramão das generalizações esquemáticas e simplórias que as mentes mais brilhantes e eruditas costumavam fazer.

É interessante observar como Said não questiona a genialidade, o esforço e o talento dos estudiosos europeus que souberam apreender e decifrar linguas mortas, realizar escavações arqueológicas, e pesquisar a história do oriente desde seus primórdios, além da competência inegável na construção de ferrovias, portos, canais, pontes, indústrias e lavouras. A sua acusação é contra o tratamento frio e esquemático a uma cultura tão viva.  Ele percebe então que às potências imperialistas não interessava que essas culturas adquirissem consciência de sua força, dinamismo e vivacidade.

Não havia nada de errado com os árabes. Ao contrário, eles haviam constituído, na Alta Idade Média (séculos VIII e IX), um dos maiores impérios do mundo, estentendo-se da Espanha à China. Houve um momento em que o mundo árabe formou um crescente ameaçador ao redor da Europa, prestes a sorvê-la com a sua força militar e cultural. As primeiras universidades européias, em Córdoba, foram fundadas por árabes, os quais durante séculos protegeram os tesouros da civilização helênica, entre eles a obra de Aristóteles.

Nos últimos dez anos, os árabes viveram as revoluções tecnológicas com o mesmo entusiasmo e interesse demonstrado por qualquer outro povo. Os egípcios criaram blogs, alguns passaram a fazer ativismo político na rede, e todos usaram a internet para ampliar seu conhecimento sobre o mundo. O ocidente, por sua vez, pode conhecer melhor os árabes.

Podemos, por exemplo, conhecer a poesia do palestino Mahmoud Darwish, outro que Said aponta como um dos dois maiores poetas árabes contemporâneos :

Meu céu está cinza. Coce minhas costas. E desfaça meus cachos, você mesmo, estranho. E me diga o que se passa em sua cabeça. Diga-me coisas simples, diga-me o que uma mulher gostaria de ouvir. (…) Diga-me o que Adão disse em segredo para si mesmo. (…) Fale que duas pessoas, como eu e você, podem suportar toda essa semelhança entre a névoa e a miragem, e retornar em segurança. Meu céu está cinza; o que você pensa quando o céu se acinzenta?

(Trecho do poema “Dois pássaros estranhos no mesmo gallho”).

Nos últimos dez anos, portanto, os árabes não passaram todo o tempo voltados para Meca, rezando. Eles também escreveram poemas, amadureceram ideais democráticos, derrubaram torres gêmeas, derrubaram ditadores – e se tornaram os maiores compradores mundiais de frango brasileiro.

De qualquer forma, devemos ficar de olho aberto, pois há trechos no Alcorão que mais parecem memorandos do Pentágono, “se eles lutarem contigo, mate-os de uma vez. Essa é recompensa para aqueles de pouca fé.” (2.191 ).

(Imagem: Gustave Doré, ilustração do Inferno de Dante)

1 de setembro de 2011

Anti-imperialismo tropical

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Termino a última matéria do dia junto com o primeiro chop, num barzinho de Lisboa. O chop custa menos que na terra do sabiá. Passeando pela cidade, paramos diante de uns anúncios de imóveis e constatamos que um apartamento em Lisboa custa menos da metade que um similar no Rio. O hotel e a alimentação aqui são igualmente mais baratos que na minha cidade. Imagino que, não fosse as leis protecionistas da União Européia, o Brasil poderia engolir sua antiga colônia. O antigo sonho imperial lusitano terminou com um brasileiro bebendo e escrevendo no Bairro Alto.

Penso nisso enquanto medito sobre os imperialismos de hoje e ontem. Acabo de ler mais uma matéria do Pepe Escobar na qual ele faz diversas menções positivas ao Kadafi, o que me fez sentir mais remorso por ter me posicionado tão duramente contra o velho ditador líbio.

Evidentemente, eu me deixei levar pela onda de entusiasmo que varreu a intelectualidade ocidental ao ver os árabes derrubando tiranos e pedindo democracia e liberdade. Afinal, esses valores não são bandeiras da direita americana, como às vezes parece. São valores que fundamentam a nossa própria espiritualidade, para usar uma palavra bem forte.

Pepe Escobar e todos os analistas apontam a grande hipocrisia ocidental, que consiste em dar apoio às ultra totalitárias dinastias sauditas. De fato. O Ocidente vem destruindo os melhores países do norte da África, em prol de valores absolutamente filisteus. Primeiro foi o Iraque, um dos poucos regimes verdadeiramente laicos da região. Agora a Líbia, o único país árabe que fazia alguma coisa em prol da miserável África subsaariana. Enquanto os europeus se limitam a dar esmolas que, em última instância, apenas devastam ainda mais os últimos vestígios industriais do continente negro, Kadafi articulava o fortalecimento da União Africana e a criação de uma moeda única.

Bem, isso é o que agora falam os defensores de Kadafi, e me sinto inclinado a acreditar neles, por causa do meu remorso diante da guerra, mas é evidente que a ditadura líbia cometeu um erro fundamental, que é subestimar o valor da liberdade política. Tudo bem, a Arábia Saudita, o Barhein, etc, também cometem os mesmos erros e não são destruídos pela Otan. Mas a ditadura é um erro em toda parte: e uma hora ou outra, esse erro converte-se em alguma forma de tragédia, além de ser uma tragédia em si.

Há algum tempo que venho meditando sobre esse novo imperialismo e suas conexões com os antigas edições do mesmo fenômeno. São muito parecidos, por mais que as tecnologias tenham avançado. Quando vejo Hillary Clinton na tv falar que o governo da Síria tem de mudar, e que os sírios merecem isso e aquilo, tenho a sensação estranha de que aquilo é uma ficção bizarra. A diplomacia americana é incrivelmente tosca e agressiva. Com que direito os EUA se arrogam donos do futuro da Síria? Que visão de democracia imbecil é esta segunda a qual os povos não tem direito de decidir por si mesmos o seu futuro?

Por outro lado, é tão interessante observar como esses imperialismos, sem exceções, declinam e desaparecem. Da mesma forma, tento ver um lado positivo em tudo isso. Já li Voltarei e sei quando o otimismo pode ser idiota, mas é que eu penso nos imperialismos grego e romano. Eles também espalharam morte, devastação e injustiça. Destruíram culturas, sistemas políticos e formas originais de organização social. Moldaram a nossa história mesclando lições de arquitetura, filosofia e membros decepados.

Eram outros tempos, todavia. Ou supõe-se que eram outros tempos. Ao ver as matanças na Líbia, humanidade não parece ter mudado tanto. Enfim, nós brasileiros, assistimos Portugal quase exterminar toda uma raça de índios. E hoje, eu, bisneto de índios do Planalto Central, bebo um chop em Lisboa com um sensação algo vingativa de que sou mais bonito e mais rico de que todos esses portugueses a meu redor. O tempo passou, o imperialismo lusitano caducou e a história das injustiças encerra-se, como sempre, com alguém sentado num bar, divagando pacifica e melancolicamente, sobre as violências do passado e as loucuras do presente.

PS: prezados, terei que reduzir o ritmo dos trabalhos aqui até o dia 17 ou 18 de setembro, porque tenho uma prova para qual preciso ler toneladas de texto num curto espaço de tempo. Depois disso, volto com força total.

16 de julho de 2011

Quem dará o golpe no Brasil?

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O livro de Wanderley Guilherme dos Santos, publicado em 1962, é uma aula de política que vale até hoje.

quemdaraogolpe

Aproveito também para reproduzir o último post do Eduardo Guimarães, no qual ele desmascara o colunista do Globo, Merval Pereira:

Desmascarando Merval Pereira

Por Eduardo Guimarães, no blog Cidadania.

A forma mais eficiente de desmascarar um mentiroso é dando a ele espaço para mentir, pois mentirosos subestimam a inteligência alheia. Se quem mente for inteligente, é mais difícil desmascará-lo. Alguns mentirosos, porém, são estúpidos e sabem disso, mas confiam em “ferramentas” que lhes permitiriam sustentar as mentiras mais frágeis e, assim, tornam-se mais ousados.

O “imortal” Merval Pereira é um homem de Inteligência escassa, por isso conta mentiras mal-elaboradas. Mas por que os gigantes de pés de barro das comunicações prestigiam alguém tão estúpido em vez de buscarem mentirosos que elaborem melhor as suas mentiras? Simples: poucos jornalistas se dispõem a mentir sobre bases tão frágeis. Merval é cultuado pelos barões da mídia porque é burro o suficiente para achar que poderão sustentar suas invencionices.

A prova da burrice desse indivíduo se exibe, despudorada, em artigo que publica no jornal O Globo deste sábado, no qual deixa ver que seus senhores acusaram o golpe que lhes representou o escândalo que fechou as portas do jornal britânico “The News of the World”, do barão internacional da mídia Rupert Murdoch.

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O Globo

16 de julho de 2011

Obsessão

Merval Pereira

Como se sabe, temos no Brasil dois grandes especialistas em imprensa: o ex-presidente Lula e o ex-ministro José Dirceu. Os dois dedicam-se, desde os primeiros meses do primeiro mandato do petista na Presidência da República, a tentar aprovar legislações que controlem a informação, uma tendência que vem se alastrando por toda a América Latina.

O movimento de contenção da liberdade de imprensa está presente em diversos países, como Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador, onde TVs, rádios e jornais vão sendo fechados sob os mais variados pretextos, e muitos outros são ameaçados com diversas formas de pressão, seja financeira, seja por meio de medidas judiciais.

No início do governo, tivemos que lutar contra a criação de várias agências oficiais. A Agência Nacional de Cinema e Audiovisual daria poderes para o governo interferir na programação da televisão e direcionar o financiamento de filmes e de toda a produção cultural para temas que estivessem em sintonia com as metas sociais do governo.

O Conselho Nacional de Jornalismo teria a finalidade de controlar o exercício da profissão e poderes para punir, até mesmo com a cassação do registro profissional, os jornalistas que infringissem normas de conduta que seriam definidas pelo próprio conselho.

Os mesmos grupos políticos continuam empenhados em aprovar novos tipos de cerceamento à liberdade de imprensa no país, sob o pretexto de exercer um “controle social” sobre os meios de comunicação, sendo que o Partido dos Trabalhadores decidiu que uma das prioridades é o que chamam, paradoxalmente, de “democratização da comunicação”.

A presidente Dilma, ao assumir o governo, relegou a um plano secundário um projeto que objetivava controlar a informação, sob o pretexto de regulamentação dos novos meios eletrônicos.

Nossos dois “especialistas” voltaram às suas obsessões nos últimos dias. Lula motivado pelas críticas ao apoio oficial ao Congresso da UNE, onde foi o grande homenageado. E José Dirceu incentivado pelo escândalo na imprensa inglesa que provocou o fechamento do jornal “News of the World”, além da demissão de vários dirigentes do conglomerado de informações do magnata Rupert Murdoch, uma espécie de “cidadão Kane” pós-moderno.

Insistindo nos seus equívocos, Lula tentou pela enésima vez menosprezar o peso dos jornais tradicionais que chamaram a reunião da UNE de chapa-branca. E declarou-se “invocado” por considerar que a imprensa não larga do seu pé.

A pretexto de consolar o presidente da UNE, Augusto Chagas, o ex-presidente garantiu a ele que os grandes jornais do Rio e de São Paulo não têm alcance nacional e não chegariam, segundo o ex-presidente, à Baixada Fluminense ou ao ABC paulista.

“Eles não perceberam que as coisas estão mudando no Brasil. O povo não quer mais intermediário entre eles e a informação. O povo está se informando de muitas formas. Muitas formas. E não apenas naqueles (meios) que habitualmente achavam que formavam”, argumentou o ex-presidente, revelando sua peculiar postura ética, além de ignorância em relação à circulação das informações nas novas mídias.

Se a notícia não chega a todo o país, e muito menos ao interior, então não é preciso se preocupar, ensina Lula. O fato em si não tem a menor importância, desde que a grande massa de cidadãos permaneça na ignorância deles.

Esquece-se o presidente que, da mesma maneira que a internet e as novas mídias sociais permitem que as informações circulem mais largamente, com versões de várias fontes, elas também levam as reportagens da grande imprensa aos recantos mais longínquos do país.

Estudo recente demonstra que as reportagens da grande imprensa são replicadas no Facebook, no Twitter e em outras mídias sociais, amplificando sua repercussão.

O ex-presidente também se esqueceu que, no Brasil, a circulação dos jornais vem crescendo, especialmente a dos chamados “jornais populares”, o que leva as questões nacionais a esse público que Lula pretende controlar sozinho, sem a interferência de outros agentes.

Além do mais, os blogs mais acessados são justamente os que se ligam aos principais jornais do país, cujas marcas e tradição lhes dão os meios para apuração das notícias e a credibilidade que muitas vezes faltam a blogs personalistas.

Não é à toa que a presidente Dilma Rousseff vem demitindo ministros e assessores do primeiro escalão com base em denúncias da chamada “grande imprensa”. E, se considerasse mesmo desimportantes os grandes jornais, Lula não perderia seu tempo com eles.

Não há dúvida de que, com o surgimento das novas tecnologias, os jornais perderam a hegemonia da informação, mas continuam sendo fatores fundamentais para cidadania.

O jornalista espanhol José Luis Cebrian, diretor do “El País”, talvez o jornal mais influente hoje da Europa, considera que os jornais perderam a centralidade da formação da opinião pública, mas continuam sendo um “contrapoder”, com uma enorme influência, embora menor do que anteriormente à chegada das mídias sociais.

Ele relembrou em recentes entrevistas que os jornais continuam sendo importantes para a institucionalização democrática dos países, embora precisem se adaptar à nova realidade tecnológica.

Já o escândalo das escutas ilegais do jornal britânico “News of the World” fez com que o ex-ministro José Dirceu recuperasse o fôlego, depois de ter sido reafirmado pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel como o “chefe da quadrilha” do mensalão, e voltasse à carga em seu blog na campanha pela “regulação da mídia”, nova maneira de denominar sua permanente tentativa de controlar a informação.

A gravidade do que aconteceu no “News of the World”, com escutas ilegais e chantagens, liga perigosamente a prática de crimes comuns ao jornalismo, o que é inaceitável e põe em risco a própria essência da liberdade de expressão. O jornalismo, instrumento da democracia, não pode se transformar em atividade criminosa.

O interessante é que nem mesmo na Grã-Bretanha, epicentro dessa grave crise do jornalismo, está em discussão uma legislação oficial para controlar meios de comunicação.

São grandes as críticas à atuação da Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular, e há um amplo debate sobre a revisão de seus critérios para reconquistar a confiança do público britânico.

Mas até agora não apareceu nenhum Dirceu para defender o controle governamental da imprensa.

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(Ainda o Eduardo Guimarães)

O ataque que o pistoleiro de O Globo faz ao ex-presidente Lula e ao ex-ministro José Dirceu, ironizando suas posições sobre a libertinagem que é a comunicação no Brasil, por razão que logo ficará clara deixa de fora um ator importante da democratização da comunicação tentada pelo governo anterior, o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República Franklin Martins.

Nos dias 9 e 10 de novembro do ano passado, o Governo Federal promoveu o “Seminário Internacional das Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias”, convocado por iniciativa de Franklin. O evento teve a finalidade de debater os impactos das mudanças tecnológicas. O objetivo foi o de fornecer subsídios para legisladores, reguladores, formuladores de políticas públicas e segmentos empresariais e da sociedade civil que lidam com as diversas questões relacionadas às comunicações.

Naquele Seminário, foi possível discutir os rumos das comunicações eletrônicas por meio da troca de experiências com outros países e conhecer os avanços e limitações de seus processos regulatórios. Participaram, como palestrantes, dirigentes e representantes de órgãos de regulação da mídia dos países que detêm as legislações mais avançadas nessa questão. Foram convidados os dirigentes das seguintes entidades:

- Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom/Portugal)

-Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC/Portugal)

- Conselho Superior do Audiovisual (CSA – Conseil Supérieur de l´Audiovisuel/França)

- Comissão de Mercado das Telecomunicações (CMT – Comisión del Mercado de las Telecomunicaciones/Espanha)

- Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (AFSCA – Autoridad Federal de Servicios de Comunicación Audiovisual/Argentina)

- Office of Communications (Ofcom/Reino Unido)

- Comissão Federal de Comunicações (FCC – Federal Communications Commission/Estados Unidos)

Além dos dirigentes de agências reguladoras da comunicação social dos países mais desenvolvidos nessa área, foram convidados especialistas na área de regulação da Comissão Européia, da Unesco e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O convite a essas pessoas e entidades mostra quão falsas são as alegações de Merval. O que se buscava, então, era dar ao Brasil um desses órgãos que todo país civilizado tem. E quando ele diz, em seu texto mentiroso, que isso ERA buscado, é porque o atual governo parece ter abandonado os projetos do governo anterior nesse sentido. E esse é um dos três únicos elementos de verdade no texto mentiroso do colunista de O Globo – os outros serão revelados mais adiante.

Merval afirma que “nem mesmo na Grã-Bretanha, epicentro dessa grave crise do jornalismo, está em discussão uma legislação oficial para controlar meios de comunicação”. Ora, mas é claro que não está em discussão, simplesmente porque essa legislação já existe, além de uma agência reguladora, a Ofcom, que, matreiramente, o colunista de O Globo omite que existe. Não existe apenas a “Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular”.

De acordo com a exposição de Vicent Edward Affleck, diretor internacional da agência britânica de regulação da mídia, a Ofcom (sigla em inglês para Office of Communications), o órgão é gerido por um colegiado misto, formado pela sociedade civil e funcionários públicos indicados pelo Estado. Além do que, grupos de interesse da sociedade civil atuam ativamente na fiscalização da mídia e acionam a agência em casos que considerem irregulares.

O que pretendia o governo Lula, portanto, era apenas isso, pois não temos nada parecido no Brasil. A mídia faz o que quer, quando quer e como quer. É uma “casa da mãe Joana”. E Merval sabe disso porque participou ativamente do evento promovido pela Secom, que foi, inclusive, mediado por um representante da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Ou seja: Merval mente.

Mas há dois outros elementos de verdade no texto majoritariamente mentiroso desse sujeito. Um desses elementos está presente quando ele reconhece que “São grandes as críticas à atuação da Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular”. E que “Há um amplo debate sobre a revisão de seus critérios para reconquistar a confiança do público britânico”.

O que aconteceu na Inglaterra, aconteceu porque, apesar de o país ter uma legislação de regulação da mídia anos-luz à frente da nossa – que, aliás, nem existe –, esse país ainda é, de fato, o mais liberal nesse aspecto. As agências francesa (CSA) e portuguesa (ERC), porém, consideram que a legislação inglesa de autorregulação é responsável pelo escândalo do The News of the World simplesmente porque não se pode pôr a raposa para tomar conta do galinheiro.

De qualquer forma, tanto no Reino Unido quanto nos demais países a legislação é dura e fiscaliza com mão de ferro sobretudo a imparcialidade dos meios de comunicação, principalmente durante períodos eleitorais.

Por fim, o terceiro elemento de verdade na empulhação de Merval Pereira pode ser visto quando ele reconhece que “Com o surgimento das novas tecnologias, os jornais perderam a hegemonia da informação”. Apesar de apresentar o fato como símbolo do poder dos barões da mídia que Lula e José Dirceu colocaram em questão, o dado correto é o de que ela perdeu a hegemonia que detinha.

Nesse aspecto, vale a pena ler texto bem mais honesto de um colega de Merval nas Organizações Globo. Artigo recente do jornalista Paulo Moreira Leite, em seu blog, mostra o fato pelo aspecto correto. É imprescindível a leitura desse texto porque revela a razão do desespero que leva a família Marinho a usar gente como Merval para tentar tapar o sol com a peneira.

—–

Do blog de Paulo Moreira Leite

12 de julho de 2011

A herança que chegou a todos nós

Na medida em que surgem novas indecências no arquivo de imoralidades praticadas pelos jornais de Robert Murdoch, torna-se obrigatório fazer uma pergunta maior.

A questão é definir o papel de Robert Murdoch, o maior empresário de comunicações do planeta, no negócio mundial da mídia. É uma questão imensa e complicada, vamos combinar. Mas é possível fazer algumas observações.

Todos nós, jornalistas e leitores, temos consciência de que no mundo inteiro existe um fenomeno que costuma ser descrito como uma crise nos meios de comunicação. Jornais e revistas não param de perder leitores. O mesmo ocorre com canais abertos de TV e com emissoras de rádio.

O conteúdo da mídia, diz-se, tornou-se menos profundo, menos plural, mais superficial e mais vulgar. Sem dúvida, é cada vez mais apelativo.

Não há dúvida de que boa parte dessas dificuldades é o resultado de mudanças no modo de vida das sociedades contemporâneas.

Podemos listar vários fatores. Por exemplo: os cidadãos querem viver num mundo mais horizontal — e a velha mídia funciona no esquema clássico das sociedades verticais. Graças não só a internet, mas também a formidável elevação dos níveis de educação, o leitor comum possui hoje um acesso primário à informação e a cultura que lhe permite dispensar boa parte das reportagens e análises que as revistas e jornais tem para oferecer.

Há outras mudanças, porém, que são produto de transformações ocorridas dentro da mídia. Não foi só o mundo que mudou. O produto também mudou. E, sob vários aspectos, mudou para pior.

Acho difícil negar que Murdoch e suas empresas tenham dado uma contribuição importante nestas mudanças.

Com um império econômico de vários bilhões de dólares, instalado no centro do capitalismo mundial, operando no segundo idioma dos 6 bilhões de moradores do planeta, Murdoch ajudou a trazer uma nova lógica para um velho negócio. Não foi o único, com certeza. Mas, pela economia e pela geografia, foi um dos mais importantes e talvez o mais decisivo.

No passado, quando o jornalismo era uma profissão invejada pela influencia e prestígio havia a preocupação com um certo rigor na informação, com a separação entre o público e o privado, na distinção clássica entre os interesse da Igreja (o jornal) e o Estado (a empresa).

É claro que todos procuravam equilibrar o negócio. As vendas e a conquista de novos leitores sempre foi um ponto essencial da atividade. Mas havia um pouco de pudor. Nem tudo era industria, comercio e finanças. A preocupação com vendas não fazia parte da pauta das redações.

De uns anos para cá, ocorreu uma mudança no eixo da profissão.

Para dizer muito numa frase curta, o jornalismo banalizou-se. Tornou-se uma atividade empresarial como tantas outras. Frequentemente procura ser rentável como um investimento de alto risco, alienada como uma fábrica de sabonetes, descartável como filminho que a TV exibe à tarde.

Murdoch foi um dos homens que ajudou a alterar a lógica dessa atividade. Não por acaso, o crescimento de suas empresas coincide com uma mudança no padrão do jornalismo, nos valores em vigor em muitas redações, na meta de trabalho e formação dos profissionais.

Antes, as empresas jornalísticas eram fruto de investimentos de origem familiar, com compromissos definidos por seus fundadores e patronos, competindo por leitores num mercado onde não faltava espaço para a diversidade e a concorrência.

Com uma reconhecida capacidade para encontrar oportunidades favoráveis a seus interesses e batalhar com afinco por eles, Murdoch ajudou a transformar as empresas de comunicação em grandes corporações, impessoais, sem perfil e sem história, dependentes e até associadas a grandes grupos financeiros. Em suas mãos, o pequeno negócio deixou de fazer sentido. Precisava do grande capital, do monopólio do mercado.

Embora nunca tivesse renunciado a suas idéias políticas, de profunda matriz conservadora, sua prioridade real não envolve a qualidade do conteúdo que oferecia — mas a força de mercado que cada novo jornal, cada nova emissora de TV, poderia lhe acrescentar. Seu interesse fundamental não envolvia a mídia como entretenimento, como formação de cidadãos, como parte da democracia, como notícia, mas como instrumento de poder.

Daí a profusão de aquisições, compras e fusões. Embora jamais tenha aberto mão de escândalos em seus veículos, a estratégia não era competir mas eliminar os adversários, transformando-se na única opção para anunciantes e consumidores.

Denuncias e investigações fizeram a glória do jornalismo desde sempre. Mas, enquanto bons jornais e revistas produzem revelações com alguma relação com o interesse público, a rede de Murdoch procura o sucesso em questões privadas, em reportagens que desmoralizam e humilham seus personagens.

Se fosse um empresário fraco, numa cidade remota da Austrália, Murdoch teria criado uma igreja de jornalismo de alcance local e folclórica, como tantas que se encontra em pontos diversos do mundo.

Mas, pelo seu tamanho e sua influencia, tornou-se um padrão imitado e copiado, com outra lógica e outra finalidade. Pela força econômica e pela crescente influencia política, impôs seus métodos aos países onde passou a atuar, num processo de contágio crescente e irresistível, contaminando concorrentes incapazes de enfrentar a chamada desvantagem competitiva.

Como me disse certa vez um dos grandes empresários de mídia do Brasil:

– Se o seu maior concorrente é um grande sonegador de impostos, você tem tres coisas a fazer: ou começa a sonegar impostos como ele, para competir em igualdade de condições. Ou prepara-se para ter custos maiores e lucros menores. Ou muda de ramo.

Foi isso o que ocorreu com a mídia em torno de Murdoch — e não estamos falando de sonegação de impostos, evidentemente.

Felizmente, não é em todo lugar que os repórteres contratam empresas de investigação para promover escutas telefônicas e bisbilhotar a saúde de crianças.

Nem todos os governos se curvam diante dos senhores da mídia de seus respectivos países.

Seria igualmente errado dizer que todas as empresas de comunicação aplicam os mesmos métodos e exibem a mesma falta de escrúpulos.

Mas é difícil negar que há um pouco de Robert Murdoch no pior do que a imprensa mundial exibe hoje, concorda?

11 de abril de 2011

Documentário da Globo exaltando o golpe, em 1975

1 comentário

Este vídeo, exibido pela Rede Globo em 1975, pretende contar a verdade sobre os acontecimentos que levaram ao golpe de 1964. Ironicamente, ele ainda tem esse valor hoje, mas na intenção contrária aos objetivos de Roberto Marinho. O poder da Globo, que se mantém intocável mesmo com o fim da ditadura, impede a sociedade brasileira de enxergar a participação decisiva da mídia na manutenção do regime de força por 21 anos. Observe o uso da trilha sonora. Se você assistir distraídamente, mesmo hoje, achará que o governo militar veio em boa hora para salvar o Brasil.

30 de março de 2011

O Brasil continua?

4 comentarios


(Cerrado por brujería by Luis Felipe Noé.
Latin American Collection of the Jack S. Blanton Museum of Art)

Confesso que não tenho ânimo para sequer pensar em Bolsonaro. Esse cara merece simplesmente desprezo. Em vez disso, pesquiso o acervo da Folha, em busca de detalhes sobre a participação dos grandes jornais no golpe de estado de 1964. Aliás, quero parabenizar os barões da limeira por terem disponibilizado todo esse material na internet, servindo de exemplo para que outros lordes de passado escuso façam o mesmo. A boa ação, porém, não exime Frias e apaniguados das suas responsabilidades históricas, e ainda aguardo um pedido de desculpas, humilde, formal, solene, dos sócio-proprietários, por sua empresa ter emprestado um apoio tão importante para a consolidação do regime de força que experimentamos por vinte e um anos, de 1964 a 1984.

No dia 3 de abril, pouco mais de 48 horas após o golpe, a Folha publicou o seguinte editorial:


(Clique para ampliar, ou leia a transcrição ao final do post)

Tive a pachorra de digitar o texto todo, para facilitar sua leitura. É um texto com tantas mentiras que seria necessário um livro inteiro para destrinchá-lo. Todas as manipulações anteriores ao golpe encontram-se resumidas na calúnia de que Goulart pretendia implantar um regime comunista no Brasil. Não havia nada parecido com isso. O país encontrava-se, de fato, sacudido por greves e agitações sindicais, mas nada que qualquer outra nação capitalista não tivesse já experimentado e superado através da negociação política, da conversa, enfim, pela via democrática. Observe que, para afirmar essa mentira, o editorialista usa a expressão "nunca na história desse país"... Quanta ironia a história nos reserva!

Se pesquisarmos as edições dos dias 1 e 2 de abril, veremos que o jornal agiu como um boletim de campanha, animando os golpistas com relatos entusiasmados das adesões dos diferentes quartéis, procurando levantar o moral da tropa.

Entretanto, nesse capítulo vergonhoso da história da imprensa nacional, para mim os mais negros foram escritos nas semanas que antecederam ao golpe propriamente dito, em que os três cavaleiros do apocalipse (globo, estadão e folha) uniram-se numa campanha para inventar um clamor popular contra o regime, através da organização, promoção e cuidadoso marketing, das famigeradas Marchas da Família, por Deus e pela Liberdade. A hipocrisia aí tornou-se diabólica, pois ao mesmo tempo em que ajudaram, de todas as maneiras, inclusive financeiramente, a reunir hordas de tolos manipulados para protestar contra o governo democrático de João Goulart, as matérias falavam em manifestações "espontâneas" das massas...

Mas vamos ao editorial do dia 3 de abril. O golpe havia sido dado no dia 31. Nos dias 1 e 2, houve o sufocamento dos focos de revolta e consolidação da tomada de poder pelos militares, e no dia 3 a situação já estava sob controle.


O Brasil continua

Editorial da Folha de São Paulo, do dia 3 de abril de 1964

Voltou a nação, felizmente, ao regime de plena legalidade que se achava praticamente suprimido nos últimos tempos do governo do ex-presidente João Goulart. E isto se fêz, note-se, com mínimo de traumatismo, graças ao discernirmento de nossas Forças Armadas, que agiram prontamente para conter os desmandos de um político que, cercado de assessores comunistas, procurava manobrar o país de acordo com o pensamento desse reduzido grupo e em ostensivo desrespeito às melhores e mais caras tradições de nossa gente.

Muitos, ainda atônitos com os acontecimentos e em particular com o seu desfecho, talvez não se tenham dado conta de que o país se acha de novo subordinado ao regime constitucional. Empossado o novo presidente, cujo mandato tem a duração de trinta dias apenas passados os quais deverá o Congresso eleger aquele que deverá governar a nação até o fim do atual quinquênio, todas as garantias individuais e todos os artigos da lei, sem exceção, se acham em vigor.

Voltaram automaticamente aos seus limites constitucionais as atribuições dos governadores e de todas as autoridades. Toda exorbitância, no caso, representará grave perigo, pois estará contribuindo para subverter a ordem que as Forças Armadas restabeleceram com tanto zelo.

As observaçoes que acabamos de fazer tornam-se mais oportunas ainda quando se sabe que o foco de resistência que parecia esboçar-se no Rio Grande do Sul, onde o sr.Leonel Brizola bravateava a sua maneira, se acha extinto.

O dever que agora se impõe a todos é o do trabalho, sem dar atenção a possíveis boatos que alguns agitadores ainda queiram lançar aqui e ali, em desespero. E é de se esperar que o façam, pois nunca, na história desse país, eles estiveram tão perto de conseguir os seus ideais de, embora contra a vontade do povo, instalar no Brasil o regime comunista.

Na verdade, não seria necessário insistir nesse dever que agora se impõe a todos, com redobrado fervor. Pois o povo, em todos os recantos da pátria, demonstrou magnífico comportamento, durante os momentos de crise. Não deixou de trabalhar um minuto sequer, e isto se pode afirmar de todos os trabalhadores em geral. Apesar da vociferação dos espúrios órgãos que diziam representar a vontade dos trabalhadores e os conclamavam a greve geral, em não poucos lugares o que se viu foi o comparecimento antecipado dos operários, que movimentaram mais cedo para os seus postos de labuta, a fim de compensarem eventuais faltas ou deficiências de transporte.

É preciso, porém, que todos meditem nesse problema do trabalho porque o país vinha sofrendo contínuas perturbações de ordem interna e seguidas paralisações, que em nada contribuíam para o seu progresso. Há um tempo perdido que o povo tem de recuperar, embora não fosse ele, o povo trabalhador, o responsável pela dissipação de seus esforços e pela queima de tantas horas de trabalho na fogueira acesa pelos comunistas e pelos mais brasileiros que eles manobravam à vontade.

Dentro dos quadros da legalidade, confiantes no processo democrático, e esperançosos de que voltem ao bom caminho, os políticos eventualmente desviados das graves responsabilidades que tem perante o povo e a nação, olhemos o futuro com olhos otimistas e digamos com inteira convicção a frase que serviu de título ao suplemento que, quase se diria, por uma espécie de premonição, publicamos juntamente com nossa edição do dia 31 do mês passado: O BRASIL CONTINUA.

18 de janeiro de 2011

Hobsbawm fala do Brasil

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Eric Hobsbawm: "Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles"

"Com liberdade total para o mercado, quem atende aos pobres?"

Por Martin Granovsky - Página12 (via Nassif e Palavras Diversas)

Em junho ele completa 92 anos. Lúcido e ativo, o historiador que escreveu "Rebeldes Primitivos", "A Era da Revolução" e a "História do Século XX", entre outros livros, aceitou falar de sua própria vida, da crise de 30, do fascismo e do antifascismo e da crise atual. Segundo ele, uma crise da economia do fundamentalismo de mercado é o que a queda do Muro de Berlim foi para a lógica soviética do socialismo.

Hobsbawm aparece na porta da embaixada da Alemanha, em Londres. São pouco mais de três da tarde na bela Belgrave Square e se enxergam as bandeiras das embaixadas por trás das copas das árvores. De óculos, chapéu na cabeça e um casaco muito pesado, cumprimenta. Tem mãos grandes e ossudas, mas não parecem as mãos de um velho. Nenhuma deformação de artrite as atacou. Rapidamente uma pequena prova demonstra que as pernas de Hobsbawm também estão em boa forma. Com agilidade desce três degraus que levam do corrimão a calçada. Parece enxergar bem. Tem uma bengala na mão direita. Não se apóia nela, mas talvez a use como segurança, em caso de tropeçar, ou como um sensor de alerta rápido que detecta degraus, poças e, de imediato, o meio-fio da calçada. Hobsbawm é alto e magro. Uns oitenta e bicos. Não pede ajuda. O motorista do Foreign Office lhe abre a porta esquerda do jaguar preto. Entra no carro com facilidade. O carro é grande, por sorte, e cabe, mas a viagem é curta.

- Acabo de me encontrar com um historiador alemão, por isso estou na embaixada, e devo voltar – avisa. Ele chegou de visita a Londres e quis conversar com alguns de nós. Sei que vamos a Canning House. Está bem. Poucas voltas, não?

O carro dá meia volta na Belgrave Square e pára na frente de outro palacete branco de três andares, com uma varanda rodeada de colunas e a porta de madeira pesada. Por algum motivo mágico o motorista de cabelos brancos com uma mecha sobre o rosto, traje azul e sorridente como um ajudante do inspetor Morse de Oxford, já abre a porta a Hobsbawm. Entre essas construções tão parecidas, a elegância do Jaguar o assemelha a uma carruagem recém polida. O motorista sorri quando Hobsbawm desce. O professor lhe devolve a simpatia enquanto sobe com facilidade num hall obscuro. Já entrou em Canning House e à direita vê uma enorme imagem de José de San Martin. À esquerda do corredor, uma grande sala. O chá está servido. Quer dizer, o chá, os pães e uma torta. Outro quadro do mesmo tamanho que o de San Martin. É Simon Bolívar. E também é Bolívar o cavalheiro do busto sobre o aparador.

Quanto chá tomaram Bolívar e San Martin antes de saírem de Londres para a América do Sul, em princípios do século XIX, para cumprir seus planos de independência?

Hobsbawm pega a primeira taça e quer ser quem faz a primeira pergunta.

- Como está a Argentina? - interroga mas não muito, porque não espera e comenta – No ano passado Cristina esteve para vir a Londres para uma reunião de presidentes progressistas e pediu para me ver. Eu disse sim, mas ela não veio. Não foi sua culpa. Estava no meio do confronto com a Sociedade Rural.

Hobsbawm fala um inglês sem afetação nem os trejeitos de alguns acadêmicos do Reino Unido. Mas acaba de pronunciar “Sociedade Rural” em castellhano.

- O que aconteceu com esse conflito?

Durante a explicação, o professor inclina a cabeça, mais curioso que antes, enquanto com a mão direita seu garfo tenta cortar a torta de maçã. É uma tarefa difícil. Então se desconcentra da torta e fixa o olhar esperando, agora sim, alguma pergunta.

- O mundo está complicado – afirma ainda mantendo a iniciativa. Não quero cair em slogans, mas é indubitável que o Consenso de Washington morreu. A desregulação selvagem já não é somente má: é impossível. Há que se reorganizar o sistema financeiro internacional. Minha esperança é que os líderes do mundo se dêem conta de que não se pode renegociar a situação para voltar atrás, senão que há que se redesenhar tudo em direção ao futuro.

A Argentina experimentou várias crises, a última forte em 2001. Em 2005 o presidente Néstor Kirchner, de acordo com o governo brasileiro, que também o fez, pagou ao FMI e desvinculou a Argentina do organismo para que o país não continuasse submetido a suas condicionalidades.

- É que a esta altura se necessita de um FMI absolutamente distinto, com outros princípios que não dependam apenas dos países mais desenvolvidos e em que uma ou duas pessoas tomam as decisões. É muito importante o que o Brasil e a Argentina estão propondo, para mudar o sistema atual. Como estão as relações de vocês?

- Muito bem

- Isso é muito importante. Mantenham-nas assim. As boas relações entre governos como os de vocês são muito importantes em meio a uma crise que também implica riscos políticos. Para os padrões estadunidenses, o país está girando à esquerda e não à extrema direita. Isso também é bom. A Grande Depressão levou politicamente o mundo para a extrema direita em quase todo o planeta, com exceção dos países escandinavos e dos Estados Unidos de Roosevelt. Inclusive o Reino Unido chegou a ter membros do Parlamento que eram de extrema direita [e começa a entrevista propriamente].

- E que alternativa aparece?

- Não sei. Sabe qual é o drama? O giro à direita teve onde se apoiar: nos conservadores. O giro à esquerda também teve em quem descansar: nos trabalhistas.

- Os trabalhistas governam o Reino Unido.

- Sim, mas eu gostaria de considerar um quadro mais geral. Já não existe esquerda tal como era.

- Isso lhe é estranho?

- Faço apenas o registro.

- A quê se refere quando diz “a esquerda tal como era”?

- Às distintas variantes da esquerda clássica. Aos comunistas, naturalmente. E aos socialdemocratas. Mas, sabe o que acontece? Todas as variantes da esquerda precisam do Estado. E durante décadas de giro à direita conservadora, o controle do Estado se tornou impossível.

- Por que?

- Muito simples. Como você controla o estado em condições de globalização? Convém recordar que, em princípios dos anos 80 não só triunfaram Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Na França, François Miterrand não obteve uma vitória.

- Havia vencido para a presidência dem 1974 e repetiu a vitória em 1981.

- Sim. Mas quando tentou uma unidade das esquerdas para nacionalizar um setor maior da economia, não teve poder suficiente para fazê-lo. Fracassou completamente. A esquerda e os partidos socialdemocratas se retiraram de cena, derrotados, convencidos de que nada se podia fazer. E, então, não só na França como em todo mundo ficou claro que o único modelo que se podia impor com poder real era o capitalismo absolutamente livre.

- Livre, sim. Por que diz “absolutamente”?

- Porque com liberdade absoluta para o mercado, quem atende aos pobres? Essa política, ou a política da não-política, é a que se desenvolveu com Margareth Thatcher e Ronald Reagan. E funcionou – dentro de sua lógica, claro, que não compartilho – até a crise que começou em 2008. Frente à situação anterior a esquerda não tinha alternativa. E frente a esta? Prestemos atenção, por exemplo, à esquerda mais clássica da Europa. É muito débil na Europa. Ou está fragmentada. Ou desapareceu. A Refundação Comunista na Itália é débil e os outros ramos do ex Partido Comunista Italiano estão muito mal. A Esquerda Unida na Espanha também está descendo ladeira abaixo. Algo permaneceu na Alemanha. Algo na França, como Partido Comunista. Nem essas forças, nem menos ainda a extrema esquerda, como os trotskistas, e nem sequer uma socialdemocracia como a que descrevi antes alcançam uma resposta a esta crise a seus perigos, contudo. A mesma debilidade da esquerda aumenta os riscos.

- Que riscos?

- Em períodos de grande descontentamento como o que começamos a viver, o grande perigo é a xenofobia, que alimentará e será por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscará? Buscará atrair os “estúpidos” cidadãos que se preocupam com seu trabalho e têm medo de perdê-lo. E digo estúpidos ironicamente, quero deixar claro. Porque aí reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mudá-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade não foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intolerável. Também teriam sido politicamente intoleráveis a liberdade absoluta e a desregulação absoluta em matéria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depressão.

- Você ainda tem dúvidas de que entraremos em depressão?

- Se você quiser posso falar tecnicamente, como os economistas, e quantificar trimestres. Mas isso não é necessário. Que outra palavra pode se usar para denominar um tempo em que muito velozmente milhões de pessoas perdem seu emprego? De qualquer maneira, até o momento no vejo um cenário de uma extrema direita ganhando maioria em eleições, como ocorreu em 1933, quando a Alemanha elegeu Adolf Hitler. É paradoxal, mas com um mundo muito globalizado um fator impedirá a imigração, que por sua vez aparece como a desculpa para a xenofobia e para o giro à extrema direita. E esse fator é que as pessoas emigrarão menos – falo em termos de emigração em massa – ao verem que nos países desenvolvidos a crise é tão grave. Voltando à xenofobia, o problema é que, ainda que a extrema direita não ganhe, poderia ser muito importante na fixação da agenda pública de temas e terminaria por imprimir uma face muito feia na política.

- Deixemos de lado a economia, por um momento. Pensando em política, o que diminuiria o risco da xenofobia?

- Me parece bem, vamos à prática. O perigo diminuiria com governos que gozem de confiança política suficiente por parte do povo em virtude de sua capacidade de restaurar o bem-estar econômico. As pessoas devem ver os políticos como gente capaz de garantir a democracia, os direitos individuais e ao mesmo tempo coordenar planos eficazes para se sair da crise. Agora que falamos deste tema, sabe que vejo os países da América Latina surpreendentemente imunes à xenofobia?

- Por que?

- Eu lhe pergunto se é assim. É assim?

- É possível. Não diria que são imunes, se pensamos, por exemplo, no tratamento racista de um setor da Bolívia frente a Evo Morales, mas ao menos nos últimos 25 anos de democracia, para tomar a idade da democracia argentina, a xenofobia e o racismo nunca foram massivos nem nutriram partidos de extrema direita, que são muito pequenos. Nem sequer com a crise de 2001, que culminou o processo de destruição de milhões de empregos, apesar de que a imigração boliviana já era muito importante em número. Agora, não falamos dos cantos das torcidas de futebol, não é?

- Não, eu penso em termos massivos.

- Então as coisas parecem ser como você pensa, professor. E, como em outros lugares do mundo, o pensamento da extrema direita aparece, por exemplo, com a crispação sobre a segurança e a insegurança das ruas.

- Sim, a América Latina é interessante. Tenho essa intuição. Pense num país maior, o Brasil. Lula manteve algumas idéias de estabilidade econômica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os serviços sociais e a distribuição. Alguns dizem que não é suficiente...

- E você, o que diz?

- Que não é suficiente. Mas que Lula fez, fez. E é muito significativo. Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas prévios às últimas eleições. Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos.

- E você pensa que serão de anos de depressão mundial

- Sim. Lamento dizê-lo, mas apostaria que haverá depressão e que durará alguns anos. Estamos entrando em depressão. Sabem como se pode dar conta disso? Falando com gente de negócios. Bom, eles estão mais deprimidos que os economistas e os políticos. E, por sua vez, esta depressão é uma grande mudança para a economia capitalista global.

- Por que está tão seguro desse diagnóstico?

- Porque não há volta atrás para o mercado absoluto que regeu os últimos 40 anos, desde a década de 70. Já não é mais uma questão de ciclos. O sistema deve ser reestruturado.

- Posso lhe perguntar de novo por que está tão seguro?

- Porque esse modelo não é apenas injusto: agora é impossível. As noções básicas segundo as quais as políticas públicas deviam ser abandonadas, agora estão sendo deixadas de lado. Pense no que fazem e às vezes dizem, dirigentes importantes de países desenvolvidos. Estão querendo reestruturar as economias para sair da crise. Não estou elogiando. Estou descrevendo um fenômeno. E esse fenômeno tem um elemento central: ninguém mais se anima a pensar que o Estado pode não ser necessário ao desenvolvimento econômico. Ninguém mais diz que bastará deixar que o mercado flua, com sua liberdade total. Não vê que o sistema financeiro internacional já nem funciona mais? Num sentido, essa crise é pior do que a de 1929-1933, porque é absolutamente global. Nem os bancos funcionam.

- Onde você vivia nesse momento, no começo dos anos 30?

- Nada menos que em Viena e Berlim. Era um menino. Que momento horroroso. Falemos de coisas melhores, como Franklin Delano Roosevelt.

- Numa entrevista para a BBC no começo da crise você o resgatou.

- Sim, e resgato os motivos políticos de Roosevelt. Na política ele aplicou o princípio do “Nunca mais”. Com tantos pobres, com tantos famintos nos Estados Unidos, nunca mais o mercado como fator exclusivo de obtenção de recursos. Por isso decidiu realizar sua política do pleno emprego. E desse modo não somente atenuou os efeitos sociais da crise como seus eventuais efeitos políticos de fascistização com base no medo massivo. O sistema de pleno emprego não modificou a raiz da sociedade, mas funcionou durante décadas. Funcionou razoavelmente bem nos Estados Unidos, funcionou na França, produziu a inclusão social de muita gente, baseou-se no bem-estar combinado com uma economia mista que teve resultados muito razoáveis no mundo do pós-Segunda Guerra. Alguns estados foram mais sistemáticos, como a França, que implantou o capitalismo dirigido, mas em geral as economias eram mistas e o Estado estava presente de um modo ou de outro. Poderemos fazê-lo de novo? Não sei. O que sei é que a solução não estará só na tecnologia e no desenvolvimento econômico. Roosevelt levou em conta o custo humano da situação de crise.

- Quer dizer que para você as sociedades não se suicidam.

(Pensa) – Não deliberadamente. Sim, podem ir cometendo erros que as levam a catástrofes terríveis. Ou ao desastre. Com que razoabilidade, durante esses anos, se podia acreditar que o crescimento com tamanho nível de uma bolha seria ilimitado? Cedo ou tarde isso terminaria e algo deveria ser feito.

- De maneira que não haverá catástrofe.

- Não me interessam as previsões. Observe, se acontece, acontece. Mas se há algo que se possa fazer, façamos-no. Não se pode perdoar alguém por não ter feito nada. Pelo menos uma tentativa. O desastre sobrevirá se permanecermos quietos. A sociedade não pode basear-se numa concepção automática dos processos políticos. Minha geração não ficou quieta nos anos 30 nem nos 40. Na Inglaterra eu cresci, participei ativamente da política, fui acadêmico estudando em Cambridge. E todos éramos muito politizados. A Guerra Civil espanhola nos tocou muito. Por isso fomos firmemente antifascistas.

- Tocou a esquerda de todo o mundo. Também na América Latina

- Claro, foi um tema muito forte para todos. E nós, em Cambridge, víamos que os governos não faziam nada para defender a República. Por isso reagimos contra as velhas gerações e os governos que as representavam. Anos depois entendi a lógica de por quê o governo do Reino Unido, onde nós estávamos, não fez nada contra Francisco Franco. Já tinha a lucidez de se saber um império em decadência e tinha consciência de sua debilidade. A Espanha funcionou como uma distração. E os governos não deviam tê-la tomado assim. Equivocaram-se. O levante contra a República foi um dos feitos mais importantes do século XX. Logo depois, na Segunda Guerra...

- Pouco depois, não? Porque o fim da Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã da Tchecoslováquia ocorreu no mesmo ano.

- É verdade. Dizia-lhe que logo depois o liberalismo e o comunismo tiveram uma causa comum. Se deram conta de que, assim não fosse, eram débeis frente ao nazismo. E no caso da América Latina o modelo de Franco influenciou mais que o de Benito Mussolini, com suas idéias conspiratórias da sinarquia, por exemplo. Não tome isso como uma desculpa para Mussolini, por favor. O fascismo europeu em geral é uma ideologia inaceitável, oposta a valores universais.

- Você fala da América Latina...

- Mas não me pergunte da Argentina. Não sei o suficiente de seu país. Todos me perguntam do peronismo. Para mim está claro que não pode ser tomado como um movimento de extrema direita. Foi um movimento popular que organizou os trabalhadores e isso talvez explique sua permanência no tempo. Nem os socialistas nem os comunistas puderam estabelecer uma base forte no movimento sindical. Sei das crises que a Argentina sofreu e sei algo de sua história, do peso da classe média, de sua sociedade avançada culturalmente dentro da América Latina, fenômeno que creio ainda se mantém. Sei da idade de ouro dos anos 20 e sei dos exemplos obscenos de desigualdade comuns a toda a América Latina.

- Você sempre se definiu com um homem de esquerda. Também segue tendo confiança nela?

- Sigo na esquerda, sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo soviético fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo, está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado.

- Por que não?

- Se se mira a história e o presente, não há dúvida alguma de que os problemas principais, sobretudo no meio de uma crise profunda, devem e podem ser solucionados pela ação política. O mercado não tem condições de fazê-lo.

(*) Martin Granovsky é analista internacional e presidente da agência de notícias Télam.

Publicado no jornal Página 12, em 29 de março de 2009

Tradução: Katarina Peixoto
Charge no início do texto extraída daqui.

2 de janeiro de 2011

Nassif analisa era Lula - 2

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Por Luis Nassif, em seu blog.

No primeiro post de avaliação do governo Lula (clique aqui), houve um bom comentário da Cláudia Stefani (clique aqui) sobre o conceito de "oportunidade perdida". Dizia ela que esse conceito não é bem aceito pela historiografia devido ao fato de que as oportunidades acabam dependendo das circunstâncias do momento histórico. Se existem as circunstâncias adequadas, as oportunidades se realizam. Se não existem, não adianta reescrever a história no condicional.

Ela respondia a um artigo onde eu lembrava "oportunidades perdidas" que menciono no livro "Os Cabeças de Planilha": uma, no início da República, outra na segunda metade dos anos 60; a terceira, e maior, na partida do Real. Nos três momentos, perdeu-se a oportunidade de criar um mercado de massas, capaz de lançar o país em uma nova dinâmica de desenvolvimento.

Para Cláudia, na virada da República a não inclusão social dos libertos – um dos fatores que levaram à perda da oportunidade, segundo entendo –, se deveu ao fato de que a jovem República tinha outras prioridades. As circunstâncias culturais da época não permitiam às elites aceitarem ex-escravos nem colocar a inclusão como prioridade. A vizinha Argentina recorreu ao "branqueamento" da raça através de medidas radicais. O Brasil contemporizou, deixando de lado, não incluindo. Assim, mesmo a não inclusão dos libertos teria sido um avanço, do lado brasileiro, em relação ao argentino.

É uma discussão antiga, mas sempre uma boa discussão, especialmente quando amparada em argumentos sólidos e bem colocados como os da Cláudia.

Mesmo assim, discordo. Se as circunstâncias sempre se impusessem sobre os personagens, a rigor não haveria diferenciação entre os governantes: todos seriam guiados pelas circunstâncias. Não haveria a figura do Estadista, o homem que consegue enxergar o caminho e colocar o país na nova rota, aproveitando melhor as circunstâncias do que o não-estadista. Ou seja, as circunstâncias existem para todos, mas apenas alguns conseguem realizar o futuro.

Na época da Proclamação da República, as circunstâncias permitiram o aparecimento de um pensamento diferenciado de Joaquim Nabuco e André Rebouças, das teorias anti-raciais de Manoel Bonfim, mas não foi o suficiente. O país não estaria preparado ou foi vítima de um acúmulo de opções erradas, culminando com as malandragens do Ministro da Fazenda Rui Barbosa, que levaram ao "encilhamento"?

Ora, havia uma febre de industrialização, uma reorganização da poupança, as experiências (ainda que incipientes) de criação de um mercado de capitais. A bandeira industrialista se impunham trazida pelos ares de renovação da República. Não fosse a tragédia do encilhamento – fruto de escolhas erradas de Rui Barbosa, movidas por interesses menores - , consolidar-se-ia o novo modelo econômico, que – a exemplo dos Estados Unidos de 50 anos antes – teria necessidade de ampliar o mercado de consumo de massa criando uma nova dinâmica. Os erros levaram a quatro décadas de estagnação.

Mesmo no caso vizinho da Argentina, o que diferenciaria a elite visionária de fins do século 19, das sucessivas gerações que, ao longo do século 20, dissiparam todo o potencial acumulado do país?

Segundo Cláudia, o "branqueamento" proposta pela elite argentina visava emular os países europeus. Mas a mesma elite que queria o "branqueamento" – estimulou a vinda dos "olhos azuis", acabaram chegando turquinhos e quetais – também tornou obrigatório o ensino básico e abriu as escolas públicas aos imigrantes que chegavam, embora lhes negasse a posse da terra. Unificou a Argentina, permitindo que o potencial de recursos financeiros e humanos de Buenos Aires se estendesse para outras regiões.

Enxergou a tomada dos pampas e aproveitou as oportunidades abertas pelas novas tecnologias – tanto na produção quanto no resfriamento da carne para exportação para a Europa – para tornar a Argentina a quarta ou quinta economia do mundo e a primeira, no Novo Mundo, a abolir a miséria absoluta.

Implementar seu plano, superar o pesado regionalismo argentino, obrigar Buenos Aires a abrir mão da exclusividade sobre os recursos da alfândega foi um trabalho ciclópico que dependeu de um conjunto de opções e decisões bem sucedidas. Como imaginar que um trabalho de tal complexidade teria o mesmo resultado, independentemente de que estivesse na sua implementação? Após esses 15 anos, Buenos Aires continuou querendo ser Europa, mas as novas elites perderam totalmente o fio da meda que conduziria o futuro.

Deixemos a Argentina de lado. Temos a história passando na nossa frente aqui no Brasil, em tempo real, para conferir o papel dos governantes e suas circunstâncias.

Física e ciências sociais

E aí seria interessante se os cientistas sociais, analistas políticos e economistas fossem buscar na física maneiras diferentes de entender a dinâmica social.

Em geral tendem a ver essa dinâmica como um "processo", algo cumulativo que pode se acelerar mais ou menos de acordo com as circunstâncias, mas sempre seguindo uma linearidade, uma continuidade.

Nessas análises, não conseguem ser encaixados os momentos de ruptura, que podem lançar um país em um novo patamar de desenvolvimento ou levar uma nação ao suicídio. Para eles, tudo é linear, como a máquina de prever o futuro de Monteiro Lobato no livro "O presidente negro". Futuro = passado + presente; se tenho o passado e o presente, posso projetar o futuro.

Não é bem assim. Todas as circunstâncias que projetam o desenvolvimento podem estar presentes em um país. Mas o desenvolvimento só se realiza em sua plenitude quando aparece o Estadista (uma pessoa ou um grupo de visão diferenciada) que junta os ingredientes, enxerga o todo, faz as escolhas corretas e, principalmente, monta a estratégia política que permitirá o nascimento do novo (que, por ser novo, não tem influência) sobre o antigo (que, embora decadente, mantém o poder).

Cabe a ele juntar as partes e mostrar o novo todo. Quando as partes conseguem se enxergar como parte de um conjunto maior, cria-se uma sinergia nova, uma nova dinâmica fundamentalmente diferente do momento anterior, quando as partes existiam mas de forma independente e descosturada.

O caso chinês é exemplar. Antes, houve o investimento em educação, a inclusão social inicial que tirou bilhões da miséria absoluta, a superação da "revolução cultural", a experiência capitalista de Hong Kong.

Nenhum historiador ousaria afirmar que a dinâmica da sociedade chinesa nas duas últimas décadas obedeceu a uma linearidade em relação aos períodos anteriores. O país aproveitou cada circunstância desenvolvida nos períodos anteriores, mas quando os dirigentes chineses juntaram todas as circunstâncias em torno de um plano estratégico e de um objetivo claro de desenvolvimento, mudou o patamar.

É totalmente diferente, é um crescimento exponencial, com todas as forças do país unificadas pelo projeto maior de desenvolvimento nacional. E esse modelo foi montado em cima de decisões, de escolhas. O nacionalismo chinês poderia ter levado o governo a uma posição xenófoba em relação às empresas estrangeiras; ou a uma posição subserviente. A escolha foi atrair as empresas de fora, oferecer a possibilidade de participar dos ganhos do novo mercado que se formava, da mão de obra, do câmbio. Mas, em contrapartida, transferir tecnologia, montar parcerias com empresas chinesas.

Em 1994 – como mostro em meu livro – China e Brasil eram as bolas da vez dos investimentos internacionais, em um momento em que as multinacionais redefiniam radicalmente sua lógica de investimento.

A China negociou corretamente seu mercado interno. O Brasil implementou uma abertura financeira equivocada que provocou 12 anos de estagnação. Um foi vitoriosa, outra derrotada. As circunstâncias na época não permitiriam a FHC adotar decisões corretas? Claro que sim. Dispunha da popularidade de ter vencido a inflação, os melhores quadros técnicos do país, a visão do potencial do mercado de massas que se formaria dali pela frente. Jogou tudo pela janela para garantir, com o câmbio controlado, o fortalecimento de grandes grupos financeiros que garantiriam o futuro político do partido e uma vida de riqueza para os implementadores do modelo.

Supor que as circunstâncias definem per si o modelo é ignorar a existência de linhas alternativas, que permitem a escolha; que escolhas certas levam ao desenvolvimento; que escolhas erradas levam ao desastre.

Por si, as circunstâncias não moldam uma trajetória previsível. Nos momentos de ruptura, o futuro ainda não foi desenhado, há uma balbúrdia, a mistura do bolo ainda não é clara. O futuro do país dependerá, então, da capacidade de acerto ou de erro dos governantes nas suas decisões.

Se não fosse assim, a Irlanda dos anos 90 não teria perdido o bonde no final dos anos 2000. Nem Portugal, que conseguiu um enorme salto nos anos 90 graças à União Europeia mas também aos acertos das medidas implementadas na época, em torno de uma visão de futuro clara –que esmaeceu nos últimos anos.

Lula e suas circunstâncias

As circunstâncias que levaram o Brasil ao salto dos últimos anos já estavam presentes desde fins dos anos 90, algumas plantadas nos anos 80 ainda no governo Figueiredo, outras ganhando expressão nos dois fatos políticos mais relevantes do período: a Constituição de 1988 e o primeiro ano do governo Collor.

No meu "Os Cabeças de Planilha" faço uma síntese dessas ideias-força, desses "fatores portadores de futuro", – na denominação dos estrategistas políticos.

Relaciono os diversos grupos de conhecimento acumulados nas últimas décadas – de saúde, gestão, inovação, políticas sociais -, os avanços institucionais – mercado de capitais, multinacionais brasileiras, as cadeias produtivas, o sistema de apoio às pequenas e micro empresas -, a nova diplomacia que se desenhava, a recuperação da autoestima, dos valores culturais nacionais. Previa que todas essas circunstâncias levariam a um novo modelo assim que houvesse a ruptura trazida pela crise final do neoliberalismo (o livro foi lançado em 2005, em cima de artigos publicados nos anos anteriores e a crise prevista aconteceu em 2008). E dizia que esse potencial somente se realizaria quando, junto com a crise, aparecesse o Estadista capaz de mostrar o todo, colocar os grupos lado a lado e passar a ideia de Nação, do todo.

Jamais supus que, poucos anos depois, do Lula confuso do primeiro mandato emergisse o Estadista do segundo mandato.

A crise de 2008, de fato, permitiu romper o círculo de ferro que amarrava o futuro ao passado. Mais à frente me permito analisar alguns "se" em relação à crise. A crise abriu espaço para o novo modelo. Mas o resultado final dependeu das escolhas feitas no período.

Com FHC, as escolhas teriam sido outras e os resultados completamente diversos.

Esse capítulo foi uma espécie de adendo ao primeiro, tentando responder às boas colocações da Cláudia e explicitar melhor a maneira como entendo o papel de Lula na construção dessa nova etapa.

Sobre isso, falarei mais adiante.

Leia mais:

Balanço de Lula 1: a criação de um mercado de massas

Comentário de Cláudia Stefani

Nassif analisa era Lula - 1

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(Foto: Ricardo Stuckert)

Balanço de Lula 1: a criação do mercado de massa

Por Luis Nassif, em seu blog.

A grande discussão acadêmica do momento é se o governo Lula inaugurou uma nova era – ao consolidar uma economia de massa – ou se foi uma continuidade do governo FHC.

O divisor de águas é a formação da sociedade de massas, com a inclusão econômica e política, definindo uma nova etapa no desenvolvimento brasileiro, um novo paradigma para as políticas públicas.

Na primeira metade dos anos 2000 escrevi um conjunto de artigos explorando esse tema – e que acabaram se constituindo na espinha dorsal do meu livro "Os Cabeças de Planilha".

Não é um livro de historiador. É um livro de jornalista com alguns "insights" que, creio eu, só agora estão tendo desdobramentos junto ao mundo acadêmico. Um deles, o da reavaliação do "encilhamento", ainda não foi suficientemente cinzelado pela Academia, especialmente a estratégia política em torno da remonetização (introdução de um novo padrão monetário) da economia – que seria seguida no Plano Real. Há bons livros analisando os erros, mas nenhum casando os erros com a estratégia de tomada de poder por parte de Rui Barbosa - que serviu de base para o modelo desenhado por Gustavo Franco para o Real.

O ponto que, agora, domina o debate acadêmico – graças aos estudos do André Singer – é o do impacto político e econômico da formação de uma economia de massa. Já tinha delineado no meu livro.

No "Cabeças de Planilha" trabalho o conceito de "janelas de oportunidade" na vida dos países, aqueles momentos únicos que, sendo aproveitados, lançam o país em um novo patamar; não sendo aproveitados, entram na cota do desperdício histórico.

Identifico três janelas na história do país, todas elas relacionadas com a possibilidade de ampliação dos mercados econômico e político, através da inclusão de novas massas - o mesmo conceito aprofundado por Singer para analisar o governo Lula.

A primeira, o período da Proclamação, onde se junta a Abolição e a política de atração de imigrantes. Ali se poderia ter dado o primeiro grande salto na criação de uma sociedade moderna. Morreu devido aos erros do Encilhamento, à falta de políticas públicas que ajudassem na inclusão dos libertos, e as enormes dificuldades colocados no caminho dos imigrantes. Em vez de um salto, criaram-se as bases para a vergonhoso concentração de renda que dominaria o século 20. Enfim, havia falta de elite.

A segunda grande janela se deu na segunda metade dos anos 60. O processo de industrialização ganhara fôlego, tivera início o grande movimento de urbanização, acelerado pela seca no nordeste. A falta de uma política agrária, de fixação do homem no campo, a carência de investimentos nos sistemas de educação e saúde, em vez de um salto no mercado trouxeram o inchaço das grandes metrópoles. Quando esgotou-se o modelo exportador e o salto do "milagre", não havia mercado interno para sustentar o crescimento.

A terceira janela de oportunidade desperdiçada – dizia eu no livro – foi justamente o Plano Real.

Em geral abre-se a oportunidade de grandes movimentos de mobilidade social ou em eventos políticos traumáticos (como na Proclamação) ou em grandes desastres geográficos.

Com o Real, FHC recebeu o prato pronto, de presente. O fim da inflação trouxe para o mercado de consumo milhões de brasileiros, sem traumas políticos, sem tragédias ambientais. E isso em um momento de grande reorganização da estrutura das multinacionais, com o Brasil despontando como um dos países sede das unidades produtivas.

Esse movimento foi abortado porque inclusão social, criação de bases sólidas econômicas, nunca fizeram parte das prioridades de FHC. E essa história de que primeiro precisaria consolidar a estabilidade monetária não resiste aos fatos.

Têm estudos de Edmar Bacha, no primeiro semestre de 1995, admitindo que a luta contra a inflação já tinha sido completada e que, agora, seria o desenvolvimento. Impôs-se a estratégia de criação de grandes grupos financeiros à custa da apreciação do real. O contraponto tímido - de pessoas como Luiz Carlos Bresser Pereira e José Serra - se dava no campo do desenvolvimentismo tradicional, jamais na ampliação de políticas sociais como base para um novo mercado de massas.

Os poucos avanços que ocorrerem em educação e saúde foram decorrência exclusiva da Constituinte, que criou transferências obrigatórias para o setor. Durante toda sua gestão, o Ministro Pedro Malan tentou acabar com a vinculação.

Digo isso para salientar que é falsa a ideia de continuidade entre FHC e Lula na criação desse mercado de massa. E de que consumou-se com Lula porque as condições sociais e políticas impuseram-se por si próprias.

FHC jamais implementaria esse modelo, em nenhuma circunstância, porque não fazia parte de suas prioridades. Aliás, quem leu a entrevista com ele, com que fecho meu livro, perceberá uma absoluta ignorância de FHC em relação a pontos essenciais desse novo modelo, que o livro percebia latente, mas que só se materializou nos últimos anos. Sua única visão de país consistia na geração de grandes grupos financeiros, internacionalizados, que avançariam levando o país consigo.

Assim, considero correta a avaliação de que a grande marca de Lula, que mudou o Brasil no plano econômico, político, regional, foi o da criação do enorme mercado de massa, político e econômico. Esse é o divisor de águas, a mudança de paradigma.

Volto a falar do tema nos próximos capítulos.

18 de dezembro de 2010

O princípio da carne e outras angústias

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Poucos artistas latino-americanos sintetizaram de maneira tão perfeita a atmosfera de pesadelo político do continente durante o século XX. Em suas telas, rostos de pavor e perplexidade. Não só humanos, mas também de cavalos, como na tela acima, para mostrar que o horror contamina toda a natureza. Quando lembro da leviandade com que frequentemente se retrata os nossos anos de chumbo, sinto necessidade de contemplar obras repletas de sangue, fúria e tristeza, como as do argentino Luis Felipe Noé. Sua força não reside na descrição fria e imparcial dos eventos históricos. Como diria o crítico italiano Argan, escrevendo sobre Wiliam Blake, elas são "síntese e não análise, inspiração e não pesquisa, subjetividade e não objetividade", mas ao mesmo tempo possibilitam uma representação muito mais precisa, muito mais carnal, muito mais contundente, muito mais próxima da nossa experiência do que um texto rigorosamente (ou supostamente) científico sobre o assunto. Elas resgatam para mim um sentido histórico, de um tempo que não vivi e que por isso mesmo eu preciso construir espiritualmente com auxílio da imaginação.

"Há para mim uma evidência no domínio da carne pura, e que não tem nada a ver com a razão", dizia Artaud, o poeta louco (e por isso mesmo tantas vezes o mais lúcido de todos). A nossa cultura, a nossa arte, fervilha no sangue, não no cérebro; o sangue como metáfora das camadas mais profundas da alma (ou o "inconsciente"); camadas essas, porém, que podem ser vistas na superfície da pele, na melanina, no cabelo, na voz, no formato do nariz e dos pés.

Ao mesmo tempo, a arte moderna também possui um aspecto profundamente racional. Em sua Crítica do Juízo, Kant argumenta que a representação artística, nascida de uma intuição pura, espelha-se no entendimento para ganhar forma. Sou um apaixonado pela teoria estética de Kant, que alguns segmentos da crítica pósmoderna, tentam desqualificar. Ela se encaixa perfeitamente em minha análise da obra de Noé. Ele produz uma visão intuitiva do horror, mas o seu traço busca - de maneira atormentada, tortuosa, aparentemente insegura, mas firme em seu objetivo - o registro histórico, concreto, fazendo uma obra explicitamente política.

A arquitetura de seus quadros tem uma coerência urbana, cosmopolita. Estamos no meio da multidão, quer dizer, sabemos que estamos no meio da multidão, ouvimos seus gritos, sentimos o cheiro, pressentimos sua presença e sua agonia, mas não vemos ninguém. Diante de nós, apenas o rosto amargurado diante do espelho.

Há um clássico da literatura argentina intitulado "Os sete loucos", um livrinho muito cultuado no país; e que desembaraçou-se das críticas extremamente negativas que enfrentou por muito tempo e se tornou amado e respeitado por leitores e, por fim, também pela academia. Roberto Arlt é um escritor irregular, estranho, não tem a magistralidade perfeccionista e brilhante de um Borges ou Cortázar, mas sua obra, assim como a pintura de Noé mais tarde, também reproduz com uma fidelidade angustiante a atmosfera de idealismo e desespero de uma juventude perdida e sem esperanças.

Semana passada estive no Museu de Arte Moderna para ver as telas de Noé, por isso falo dele por aqui. É interessante contrastar aquele momento atormentado da história latino-americana com nosso presente, marcado pela estabilidade, pelo crescimento e pela democracia.

Ah, claro, existem ainda fantasmas. Como que saídos das telas do pintor argentino, ou das páginas de Arlt, eles tentam ser trágicos, mas são apenas farsantes, com seus gritinhos de medo, com seus esgares hipócritas. Inventam "ameaças à democracia" a cada vez que o povo dá um passo à frente no processo democrático.

Ontem mesmo, os jornais exibiram, orgulhosos, um relatório britânico que apontava nossa democracia como "imperfeita", tendo caído de 41º para 47º nos últimos anos. Nenhum editorial fez um contraponto crítico a esse ridículo insulto imperialista à heterogeneidade das democracias no mundo. Segundo a The Economist, EUA e Inglaterra, eles sim, são democracias "perfeitas". A repórter do G1 dá a notícia num tom sério, submisso, onde mais que nunca caberia uma reação bem-humorada, ferina e inteligente. Quase toda a América Latina, com exceção do Uruguai, tem democracias "imperfeitas". A pesquisa da Economist é tão caricata que inclui a França no rol dos "imperfeitos", como se a pujante república francesa tivesse uma democracia inferior a de um país onde o presidente tem que beijar a mão da Rainha antes de tomar posse. Ah, como os franceses devem estar se divertindo com essa matéria!

Voltando, porém, ao nosso querido Noé, vale comparar também sua obra atormentada dos anos 60 com seus trabalhos tardios, muito mais suaves. Curiosamente, eu me não me interesso, porém, por essa fase tranquila. Em minha visita ao MAM, minha atenção se voltava exclusivamente para as obras pungentes da década de 60.

Mais uma vez, então, lembrei como nós, latino-americanos, disperdiçamos um dos períodos mais brilhantes da história moderna do ocidente com todos esses malditos golpes de Estado. Ontem eu assisti, no vídeo, "When you're strange", um documentário recente sobre o The Doors, narrado por Jonnhy Deep, o que me fez refletir: eles também viveram momentos terríveis nos anos 60: assassinato de Kennedy e de Martin Luther King, para citar apenas dois exemplos. Mas a maior parte de sua juventude teve a oportunidade de se divertir de uma maneira como nunca se viu antes na humanidade e, principalmente, assistiram a uma explosão cultural de dimensões épicas.

Por isso mesmo um cara como Noé, ou para falar de alguém mais popular, como Chico Buarque, são tão importantes. Eles nos redimem um pouco do tenebroso deserto político que atravessamos nas décadas de 60 e 70. A gente sofreu, abaixou a cabeça. Choramos em silêncio. Mas tivemos nossos momentos de brilhantismo! Só existe um Chico no mundo! Só existe um Noé! A dor que experimentamos foi única - e ao mesmo tempo, naturalmente, uma dor universal. Para encerrar este breve ensaio com classe, recordo a bela teoria hegeliana: o Espírito pode ser infinito, universal e eterno, mas ele apenas se torna concreto, apenas se torna realmente vivo, quando encarna num ser humano. Seja homem ou mulher, num ser humano, carajo, num ser humano!