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10 de outubro de 2011

A paranóia sexista e anti-libertária da esquerda caduca

51 comentarios

(Deve ter algum sexismo na figura aí)

O meu post sobre o Rafinha Bastos suscitou reações carinhosas por parte dos amigos. Um blogueiro afirmou que eu deveria ter escrito sob efeito do álcool, depois que eu tinha surtado, que se tratava de uma opinião exótica (disso eu gostei) e que eu apenas me prejudicava (essa não entendi). Uma blogueira esclareceu que "ainda" não desejava que eu quebrasse os dentes, visto que esperava uma retratação. É lindo o espírito democrático! É lindo o espírito de paz e fraternidade entre os colegas!

Todo mundo reclama da falta de diversidade de opiniões na mídia, e de repente pretendem impor a mesma teocracia monolítica na blogosfera. Vários se manifestaram como se fosse absurdo o simples fato de eu ter emitido aquela opinião. Uma tuiteira passou dias me xingando de sexista e proferindo palavrões. Uma outra já me deu tanto block que deve ter construído uma muralha de concreto, embora minhas palavras - contra a minha vontade, já que eu não quero ser mais xingado - sempre arranjem um jeito de furar o bloqueio.

Já tentaram me explicar várias vezes o que é sexismo, mas ainda tenho dificuldades para entender completamente esse tema. Talvez alguma feminista possa "desenhar" para mim (elas sempre querem desenhar para que possamos compreender). Uma delas disse que se eu elogiar o jantar preparado por minha mulher, por exemplo, estaria sendo um "sexista benevolente".... Isso me confundiu um pouco. Na minha casa, onde sou eu o cozinheiro oficial, a recíproca seria válida?

Enviaram-me um artigo publicado na Carta Capital, da Rosane Pavam, onde somos brindados com uma longa xaropada - culta, é verdade, mas ainda sim uma xaropada - sobre o que é ou não humor. O texto é cheio de contradições insolúveis. Limito-me a reproduzir este trecho:

Chico Anysio, assim como Jô Soares, sempre proferiu piadas sexistas, machistas e misóginas, mas, como lembra o historiador Saliba, quase sempre encarnando outros personagens, como oligarcas e nhonhôs: “Os preconceitos estavam lá, todos, alguns em toda a sua crueza, mas eram reversíveis, mudavam de lado a todo o momento, os papéis eram trocados, retomando o universo do burlesco”.

Ou seja, se Rafinha inventasse "personagens", se "mudasse de lado a todo momento", podia continuar fazendo o que faz. Um humorista agora tem ser igual ao Chico Anísio para ser aprovado? Tudo isso segundo o historiador Saliba, não se esqueça. Viva o historiador Saliba! Os humoristas devem ler Bergson antes de abrir a boca! E o padrão de humor deve continuar sendo os programas da Globo!

Minha surpresa, no entanto, foi maior com o artigo de Marcos Coimbra, publicado no Azenha. O politólogo também demonstrou profundo conhecimento sobre humor, como se pode constatar na conclusão de seu texto:

Só se for para quem acha graça nas velhas piadas que ridicularizam mulheres, negros, indígenas, portugueses, nordestinos, homossexuais, loucos e deficientes.

Confesso que essa é uma opinião interessante. Coimbra, porém, esqueceu de acrescentar leprosos, anões, vesgos, fanhos (se bem que estes podem ser classificados no grupo "deficientes"; mas é legal detalhar), argentinos e paraguaios. Mais um pouquinho, e Coimbra incluía todo o espectro humano que, segundo ele, não pode virar objeto de piadas. Bem, pelo menos sobrarão os bichos, embora eu desconfie que algumas ongs lutarão para que estes não sofram com o nosso corrosivo e degenerado humor.

Escuso-me de comentar as suas comparações com as leis da Suécia. Neste campo da restrição à propaganda, assim como em tantos outros, sempre há alguma lei escandinava que a gente pode copiar. Deve ser por isso que a Suécia tornou-se uma potência no campo do audiovisual e da liberdade de expressão. Coimbra - ironizando a mídia - lembra que o "lulo-petismo" não chegou à Suécia. Pois é, de fato, lá chegou foi o neonazismo, no parlamento e no Executivo.

O mais curioso mesmo é que as pessoas - na falta de outro argumento - vem me atacar chamando-me de "reacionário", como esse, que me deliciou especialmente:
Com a vantagem que uma semana me dá, seus comentários me impelem a pensar que você está se transformando - se já não era - um reacionário de direita dos piores.

O engraçado é que eu pensava justamente que o meu erro tinha sido ideologizar o debate. Ou seja, eu acreditava que isso (o ímpeto de censurar e o espírito de linchamento) não fosse necessariamente uma coisa da esquerda, mas se tratava puramente de um tolo e ingênuo moralismo da classe média "politizada", travestido de indignação. Também tinha a esperança que as pessoas objetivavam restringir apenas a publicidade, que teria regras próprias, menos livres que outras formas de comunicação. Não, o desejo é restringir o humor também. Atenção, humoristas que gostam de dar  aquela "meia hora de bunda"! O bicho pode pegar para vocês também!

Como se pode constatar pela reação das pessoas à "sugestão" da ministra Iriny Lopes de que a Globo inserisse uma informação pública na novela das oito, há uma intenção real de interferir igualmente na ficção. Para a ministra, o certo não seria o governo fazer um anúncio no intervalo da novela - tem que enfiar a informação no meio da trama. Maravilha. Na novela do SBT sobre a ditadura, deveriam informar o telefone da comissão de direitos humanos da ONU no meio das sessões de tortura... Por que ninguém nunca pensou nisso antes!

Meus amigos, acho que meu amigo blogueiro está certo. Estou ficando louco. Toda cerveja que bebi na vida resolveu finalmente cobrar a conta da minha lucidez. Tenho opiniões exóticas. Meus dentes já começam a doer com a possibilidade de serem quebrados. E, por fim, tornei-me um empedernido e odioso reacionário!

Sim, só pode ser isso, porque é isso ou então eles que é que enlouqueceram todos! Eles é que estão bebendo muito! Eles é que se tornaram reacionários! E tomem cuidado, porque neste caso a realidade pode lhes quebrar os dentes!

Quando eu penso estar isolado numa ilha, rodeado de estranhos por todos os lados, eis que leio um artigo do Mino Carta, intitulado: "Já não se fazem gênios como antigamente?", que me deixa ainda mais desamparado. Não estava disposto a comentar esse texto, porque gosto muito do Mino, respeito-o profundamente, etc. Mas visto que ele aparece justamente nesse contexto de opiniões esdrúxulas, sou forçado a lembrar ao grande Mino que o tempo do Renascimento, descrito brilhantemente por Jacob Burckhardt, foi um tempo de tiranos crudelíssimos, massacres, exploração mais vil do povo. O trecho abaixo, portanto, que resume a tese do meu editor preferido, contém uma premissa equivocada.

Há uma conexão transparente entre todas as atividades humanas praticadas no mesmo momento, e a Renascença é extraordinário momento de mudança e renovação. A turva, aturdida hora que vivemos agora é de decadência.

Não vivemos nenhuma decadência. O sufrágio universal (incluindo aí o voto das mulheres) só começou a ser implantado nas democracias modernas a partir da década de 60, no século passado. O analfabetismo no mundo só agora tem caído substancialmente. Ainda há desgraça, fome e doenças no planeta, mas nada que se compare ao medievo, onde a longevidade média dos homens não ultrapassava os trinta anos. O mundo de hoje oferece oportunidades de ascensão social a um percentual muito mais alto da população do que na época de Michelângelo. Naquela época, os artistas dependiam de tiranos assassinos e papas corruptos para sobreviver, hoje podem vender seu trabalho diretamente ao público. Eu tenho infinita admiração pelo Renascimento italiano, Mino, e já tive o privilégio de estar em Florença por duas vezes (uma delas por quatro meses) e ler a Divina Comédia e Petrarca no original e namorar de perto o portão do Batistério e a torre planejada por Giotto na praça do Duomo, mas eu sei que as condições políticas daquele tempo eram bem piores do que vemos hoje no Brasil, por exemplo. E se não temos nenhum Dante Alighieri, tivemos um Dante Milano.

Observação importante: eu critico o Mino mas ele continua sendo meu editor preferido; não sou como alguns de vocês que, só porque não aprovam uma opinião, condenam a pessoa à fogueira eterna. A mesma coisa vale para Marcos Coimbra, um politólogo que respeito profundamente, apenas me concedo o atrevido direito de discordar nesse tema.

Observação importante 2: posso nunca ter tido nenhuma projeção midiática; sou apenas um reles blogueiro semi-anônimo; mas o respeito ao indivíduo e à dignidade que vocês cobram diariamente da grande mídia, espero que tenham comigo.

Temos um país repleto de problemas trágicos para serem solucionados. As grandes cidades brasileiras que eu conheço estão semidestruídas. Lixo na rua, saneamento precário, saúde pública deficiente. Tipo de problema que já não apoquenta muito os suecos. A Dilma teria se acovardado ao recuar no caso do novo imposto da Saúde? O Brasil precisa melhorar a gestão do setor, mas precisa também de mais recursos. E o governo - através da ministra Iriny Lopes - se desgastando perseguindo Rafinha Bastos, publicitários de empresas de lingerie e novelistas de tv!

Quanto aos programas de humor e telenovelas, continuo defendendo mais e mais liberdade, e zero interferência do governo. Em casos extremos, que a questão seja decidida pela Justiça, mas que esta julgue, por sua vez, sempre com bonomia e tolerância máxima. Há situações excepcionais que devem ser coibidas, como aquela tv que mostrou uma menina sendo estuprada em pleno dia. De resto, porém, deixemos de ser hipócritas, reacionários e censores. O sexismo na TV e no humor só poderá ser vencido pela luz, pela transparência, pela liberdade, não pela mão pesada, quase sempre desastrada nesses assuntos, do Estado.

21 de dezembro de 2010

Professor, posso falar?

Buscar a conciliação me parece o mais sensato a fazer agora. Essa brigalhada na web gerou muita energia negativa e desagregou a blogosfera progressista. É ingenuidade, porém, querer encerrar a polêmica através de um silêncio forçado, uma paz artificial. Os assuntos precisam ser debatidos até o fim. Em seu último post sobre o tema, o Idelber adotou posições das quais continuo discordando, e faço-o aqui com a maior educação e respeito, para expandir o debate e tentar, como se diz, fazer desse limão uma limonada.

O texto de Idelber, com toda sua pompa, faz uma série de generalizações rasas. Ele usa a reação de alguns comentaristas de seu blog como exemplo, além das observações de botequim de uma amiga, para fazer um julgamento absolutamente empírico sobre todos os homens do planeta Terra, acusando-os por sua vez de emitir opiniões empíricas e rasas sobre o feminismo. Ou seja, ele pode fazer um julgamento empírico, os "homens" não.

Confiram trecho:
(...) quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheres narrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.

A que homens se refere? A que opiniões? Por que opiniões vem entre aspas? Quando eu emito uma opinião sobre um assunto político eu tenho que obrigatoriamente me embasar na bibliografia citada pelo interlocutor? Idelber parece confundir debate político (e feminismo é uma questão política, e das mais populares, não há sentido compará-la ao estudo da "hermenêutica" ou "fenomenologia") com a formulação de uma tese acadêmica.

Essa postura (equivocada, a meu ver) será aprofundada nos parágrafos seguintes:
Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa, multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.

Quem os homens pensam que são para ousar ter opinião (que vem novamente entre aspas; eu queria saber por que vem entre aspas, que têm uma função neste caso notoriamente pejorativa)? Sobre checar as estatísticas de violência doméstica, etc, ou ouvir uma feminista, Idelber novamente generaliza: ele cria um personagem caricatural, que não tem noção de nada, que nunca leu uma notícia sobre violência doméstica nem sobre diferença salarial, que nunca conversou ou ouviu uma feminista, e pespega essa imagem em todo homem que tem opinião (com aspas). Daí ele nos brinda com uma condescendência paternal, abordando novamente a não leitura do cânone feminista. Ora, me desculpe, mas para mim isso é pedantismo puro e descarado, na pior acepção do termo, pois um intelectual que se preza deveria nos trazer ao menos uma síntese, ou resumo, de alguns conceitos contidos naqueles livros. É assim que se produz cultura. É assim que se instiga as pessoas a procurarem os livros mencionados.

Não acho democrático que, diante de um tema político (e popular, repito, não posso conceber que se compare o tema "feminismo" com o estudo da fenomenologia alemã do século XIX), se exija do interlocutor a leitura de uma determinada obra como pré-condição para participar do debate. Se a pessoa acha essa obra tão fundamental, que exponha, então, os seus principais conceitos.

A atitude de Idelber nada mais é do que uma "carteirada" acadêmica. Ele cria um interlocutor imaginário, uma figura caricata, que ele se empenha em detonar. Ao não pessoalizar o ataque, contudo, ele parece estar dando socos intelectuais num boneco de ar, que não pode responder, e ao mesmo tempo posa de campeão de boxe.

Que eu saiba, existem zilhões de livros no mundo e acho impossível alguém lê-los todos. Pior, lembrar deles. Schopenhauer tinha uma frase engraçada sobre isso: dizia que pretender guardar tudo o que se lê na memória corresponderia a segurar no estômago tudo que se comeu ao longo da vida. Ou seja, o sujeito pode ter lido Simone de Beauvoir há vinte anos e hoje não se lembrar de nada, de maneira que para participar do debate sobre feminismo, teria que não apenas ler os livros mencionados, como relê-los, anotá-los, estudá-los detidamente para depois fazer a prova no blog do Idelber.

Essas exigências todas, a meu ver, transformariam o debate feminista numa conversa incrivelmente restrita, uma panelinha acadêmica, mesmo entre as mulheres. Trata-se de uma visão antidemocrática, elitista, e também profundamente antifilosófica, pois inibe o diálogo e a participação de quem não seria "iniciado" nas teorias do "feminismo".

Mesmo sem leitura nenhuma no assunto, creio que qualquer pessoa tem potencial para dar uma contribuição criativa, a partir de sua experiência pessoal. Você não percebe, Idelber, que seus critérios produziriam uma hierarquia absurda, inclusive e sobretudo entre as próprias mulheres? Haveria uma categoria de sábios ou sábias que se arvorariam donos da verdade na questão do "feminismo", por terem lido esses livros. Mas quem garante que esses livros não contém uma série de conceitos equivocados? Quer dizer, entendo que existe um feminismo enquanto tese acadêmica ou ciência, mas existe sobretudo, a experiência viva de todo ser humano diante da condição da mulher no mundo. E o homem deve ser estimulado a falar, a dar uma opinião franca e espontânea sobre o tema, e não ser censurado e intimidado como se pretende em seu blog.

Ele continua assim:
Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros "corretivos" de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.

Idelber faz insinuações, por mais melífluas que sejam, ao post anterior, onde eu figurei como um dos debatedores. Ele continua batendo no boneco de ar, mas na sua imaginação (e na dos leitores), os rostos ali projetados são de pessoas conhecidas, que não são dignas, porém, de serem nomeadas. Não é da gente que ele está falando. O que ele chama de chororô é a reclamação que fizemos de que nossas intervenções não foram respondidas com argumentos, e sim com respostas evasivas, esnobes, além de criativas variações em torno da palavra "ignorante". Além de não podemos falar de feminismo sem antes ler os livros da estante do Idelber, temos que aguentar calados que nos esculachem. Noto ainda uma visão "machista" do homem, pois ele dá a entender que não podemos ter sensibilidade, não podemos nos sentir ofendidos, não podemos chorar.
Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filha, como posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulher, como posso ser machista se de vez em quando 'divido' o serviço doméstico com ela, como podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insulto, por que as feministas ficam nos dividindo, por que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.

No meu egocentrismo paranóico, senti aquele "rosário" como mais alfinetada em minha pessoa. Agora não apenas sou machista, como também sexista. Maravilha. E usa a tática recorrente de outros comentaristas do seu post anterior, sobre a qual protestamos reiteradamente. Só faltou botar aspas, como fez a outra, para nosso pensamento. Ninguém falou isso que Idelber disse. Ele novamente está batendo num joão-bobo. Eu, por exemplo, dei o exemplo de minha mulher não para vir ao debate com o argumento infantil: "tá vendo? minha mulher concorda comigo", mas porque minha opinião vinha sendo sistematicamente discriminada pelo fato d'eu ser homem, a ponto de sequer ter o direito de ser chamado de "homem". A interlocutora (para ser mais preciso, a senhora Lola), passou a nos chamar simplesmente de "machos", o que, já disse, considerei ofensivo naquele contexto. Nunca me passaria pela cabeça chamá-la de "fêmea". O que eu quis dizer, e creio que expliquei direitinho, mas se recusaram a entender, é que minha mulher é, na minha opinião, uma feminista. Ela faz uma revista voltada (ao menos nos seus primeiros números) para o público feminino, uma revista que luta abertamente em prol da autoestima e da valorização da mulher. Mas ela também luta contra esse feminismo pedante, acadêmico e agressivo, que, na opinião dela, apenas atrapalha a vida pessoal da mulher e gera estereótipos negativos e contraproducentes para o feminismo.

Quando eu falo em agressividade, não é porque peço um feminismo "dócil". Não peço nada. Apenas contesto uma maneira de debate fundamentada em acusações de que o outro é ignorante, sem que o interlocutor se disponha a formular sequer UM conceito criativo. Aliás, ainda tem isso, essa falta de criatividade, esse pendurar-se em pensamentos alheios, em conceitos criados nos Estados Unidos há trinta anos, sem atualizá-los à luz dos novos tempos e da realidade brasileira.

Continuando, Idelber aprofunda a generalização e transforma um debate que nem é mais tanto sobre o feminismo, mas que se torna quase um debate sobre a liberdade de expressão, numa crítica abstrata e superficial aos "blogueiros progressistas".
Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.

Idelber resolveu implicar com o termo "progressista", uma preocupação que semelha a busca frenética de pêlos em ovo. Ora, e "esquerda", não é um termo etimologicamente muito mais estranho? Esquerda também é um termo "resolvido"? Até entendo que ele queira criticar o termo "progressista", mas a maneira como ele o faz, no contexto da luta política que vivemos, e da posição que ele, Idelber, tem assumido, é desagregadora e desleal. Ora, o termo "progressista" é um tema em aberto. O importante não é tanto o nome do personagem, mas a sua ação, o que ele faz, o que ele pensa. Sobre esse "visivelmente masculinista", é uma acusação ou qualificação puramente pernóstica. Mais que isso, é enfadonho, como se alguém quisesse desqualificar a revolução francesa por ter sido liderada por homens. É um feminismo barato. Esse sim, a meu ver, é o pior tipo de sexismo. Idelber insinua, por acaso, que os blogueiros progressistas "vetam" deliberadamente a participação de mulheres no movimento? O Encontro Nacional trouxe um enorme número de mulheres. Claro, os blogueiros "grandes" são homens, e certamente pode-se encontrar em toda parte alguma espécie de machismo. Mas é um processo. As mulheres estão ganhando participação e esse tipo de divisionismo sexual, essa tentativa de criar uma guerra entre os sexos, me parece profundamente antipático.

Aí o post sai do estágio do pedantismo e envereda para o da arrogância pura:
Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.

Ã? Masculinismo progressista? O que é isso? O que o caracteriza é não entender a lição de "Ana"? Para sermos alguém na vida e nos libertamos de nossos terríveis preconceitos machistas, bastar-nos-á então ler os textos gentilmente indicados por Idelber? No caso, nem é um texto sobre feminismo, é sobre racismo. Daqui a pouco, Idelber vai dizer que os "blogueiros progressistas" são racistas... Aliás, inúmeros comentaristas nessa polêmica insinuaram isso, ao mencionar blogueiros homens-brancos, sem sequer se preocupar em saber que boa parte de nós, blogueiros progressistas, somos pardos e negros. Idelber menciona também o "umbiguismo", dando vazão ao que eu considero uma discriminação contra uma maneira de escrever, que eu gosto muito, que é de fundamentar conceitos a partir do que conhecemos de nós mesmos. Eu particularmente acho mais honesto e científico basear-se na minha experiência pessoal, no meu umbigo, do que, num debate sobre liberdade de expessão, discorrer sobre as mulheres negras de Uganda. Sobre a análise freudiana, parece-me um ótimo conselho, mas para o próprio autor.

O texto prossegue com xaropadas sobre sexismo, acusando os homens - reles homens! - de cometer a petulância de organizar um movimento na blogosfera! A linguagem de Idelber assusta. Ele conclui com uma espécie de carteirada final, ao dizer que: "Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoria entitulada "sistemas duais", que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes)."

Bem, eu imagino que essa polêmica aí das feministas materialistas britânicas deve ser algo tremendamente emocionante, mas neste caso, eu prefiro continuar sendo um ignorante.

Por fim, a pérola derradeira do grande Idelber:
Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata de aprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.

Bem, essa aí é fácil responder: basta mandar a bola de volta para quem chutou. Escutar pessoas, homens ou não, que não são expertise em feminismo materialista britânico dual, mas que tem outras experiências de vida interessantes, também seria saudável para Idelber e companhia.

PS: Não quis ofender ninguém ao usar os termos "pedante" ou "arrogante", mas um debate fica insuportavelmente chato se a gente não puder ter a liberdade de cutucar o interlocutor.

PS2: Esse post estava publicado no outro blog que tentei criar, mas que não vingou. Tinha mais de cem comentários. Na volta para o Óleo, perdi todos. Então resolvi fechar de uma vez os comentários deste post.

17 de dezembro de 2010

Elas mataram Orfeu

Seja o primeiro a comentar!



Como diria o Maradona, enfiei o nariz onde não devia. Mas não era cocaína, e sim a caixa de comentários do IdelberAvelar.com. Fiz um comentário lá tentando defender o Nassif, o Rovai e os blogueiros progressistas, e acabei botando ainda mais lenha na fogueira. Como se tratava de uma polêmica envolvendo o feminismo, arrisquei-me a dar minha opinião leiga sobre o tema. Já suspeitava, contudo, que ia dar rolo, tanto que escrevi um texto cheio de não-me-toques, tecendo loas e mais loas à mulher. Fui sincero: acredito num mundo melhor onde as mulheres tenham mais poder político.

Cometi, no entanto, duas imprevidências. Uma ligada a outra.

Fiz uma pergunta de ordem semântica. Uma pergunta imbecil, mas ao mesmo tempo instigante. O post iniciava com citação de Derrida e isso talvez tenha me incentivado a tomar essa liberdade.

A pergunta foi:
Eu não entendo uma coisa: porque feminista é elogio se machista é xingamento?

Ah, pra quê fui fazer isso?

Caíram de pau em cima de mim. O lugar virou uma verdadeiro palco de guerra.

Eu não queria dizer que machismo é igual feminismo. Ninguém na caixa de comentários falou isso. O problema daquela discussão, no entanto, era justamente esse. Um dos grupos, em vez de se ater ao que a gente dizia, criticava o que não tínhamos dito, e fazia longas elocubrações sobre isso. Pior, colocavam entre aspas o que, segundo eles (ou elas), seria nosso pensamento, sem se preocupar em esclarecer se queríamos realmente dizer aquilo.

Entendo que, numa sociedade ainda marcada pela hegemonia masculina, não apenas no presente, mas sobretudo no passado, os termos machismo e feminismo tornaram-se opostos. No entanto, uma análise estruturalista (e o post, repito, iniciava com citação de Derrida, o papa do estruturalismo) dessas duas palavras, não pode deixar de assinalar a sua semelhança. Minha pergunta, aparentemente idiota, procede.

Não significa isso que eu diminua a importância da luta pela libertação das mulheres e da igualdade dos gêneros. Aliás, por isso mesmo que a pergunta procede. A luta passa pelo campo da linguística.

Uns carinhas maliciosos, anônimos, ajudaram a insuflar a fúria das mulheres, afirmando que eu (e outros incautos que ali estavam) havia "insultado" todas as mulheres e feministas. Eles pinçavam uma frase e intrigavam. Um deles chegou a chamar as mulheres de "minoria", para compará-las a outros grupos marginalizados, minoria que teria sido profundamente ofendida por minha intervenção. Mulher é "minoria"? Que eu saiba, não só é maioria da população como vivem mais e hoje ocupam quase ou mais de 70% das universidades brasileiras.

Confiram o que o sujeito escreveu sobre o meu comentário, tentando me jogar contra as feministas:
Se a afirmação "Permitam-me não simpatizar com o feminismo. Eu simpatizo com as mulheres. Gosto delas como elas são, não quero vê-las transformadas em homens truculentos" não for considerada ofensiva ao feminismo (e a todas as mulheres, por extensão) por - não digo um especialista - mas qualquer um que puder consultar o verbete "feminismo" no dicionário, não sei de mais nada.

Elas caíram na pilha.

Repare que ele botou em negrito duas frases que, isoladas do contexto, tornam-se completamente apócrifas, tolas, esquisitas. A frase "eu simpatizo com as mulheres", isolada, não quer dizer nada e soa mesmo ofensiva, como se disssesse: eu simpatizo com negros. O cara é malandro. Ele tentou manipular o que eu quis dizer, que era algo bem mais singelo. Não preciso ir no dicionário para saber o que é feminismo. Eu conheço a luta pela libertação das mulheres, mas para mim elas estão embutidas na luta pelos direitos humanos e pela democracia. Enfim, é uma opinião tão comum, partilhada por milhões de outras pessoas igualmente interessadas no tratamento igualitário às raças, gêneros e credos.

Minha mulher mesmo, uma garota valente, livre, culta, trabalhadora, orgulhosíssima de ser mulher, que defende os valores femininos, que edita uma revista cujo slogan por um tempo foi "inteligente é ser feminina" (e que ela mudou mais tarde  justamente por constatar que tinha algo de "feminismo" bobo), que está sempre ajudando outras mulheres a elevarem sua auto-estima enquanto mulheres, quando eu lhe perguntei, meio deprimido com essa polêmica, se ela gostava das feministas, declarou, bem a seu jeito direto: "Miguel, eu odeio as feministas!"

Aquilo me aliviou um pouco. Porque seria absurdo dizer que minha mulher, sendo o que ela é, desejaria "insultar todas as mulheres", como disse aquele maliciosinho no blog do Idelber. Lembrei-me então que a atitude dela, descomplexada, consciente de seu poder e valor femininos, foi um dos motivos pelo qual me apaixonei por ela.

Tudo bem que eu cometi uma imprudência grave. Dizer, naquele contexto, que não tinha simpatia pelo feminismo, deve ter irritado e ofendido - com razão - as feministas que ali debatiam. Depois até me arrependi. Peço desculpas aqui. Não foi minha intenção.

Em seguida, porém, as próprias debatedoras me lembraram o porque da minha antipatia.

Uma delas se referiu aos debatedores homens como "machos", o que no contexto era deveras irritante, pejorativo. Várias iniciavam seus comentários com explicações sobre como elas estavam sendo "pacientes". Uma encerrou sua mensagem com essa pérola de pedagogia feminista: "Deu pra entender ou querem que eu desenhe? Já aviso que tenho menos paciência ainda para desenhar. kkkkkkkkkkkkkkkkk".

Esse é o motivo, portanto, da minha dificuldade em simpatizar com as feministas. Por essa mania de achar que todo homem é machista. Por essa atitude eternamente irritada, defensiva, disposta mesmo a ofender um homem só porque ele é homem. A mulher está na cozinha fazendo alguma coisa, o cara pede para ela trazer a cerveja: pimba! é um machista troglodita. Não importa se o cara também traz coisas da cozinha para ela. Não importa se o cara também lava a louça.

Claro que é uma visão estereotipada sobre o feminismo. Mas estamos falando aqui de estereótipos mesmo. Quando minha mulher falou que "odeia" feministas, também se referia a um esterótipo. Ela tem o perfil de líder e em outro tempo poderia ser uma destacada líder feminista - mas nunca odiando ou ofendendo os homens. Ela tem carinho pelos homens, compreende inclusive seus preconceitos, assim como os homens devem amar e ter carinho pelas mulheres e também por seus preconceitos e idiossincrasias.

As feministas do blog do Idelber não me ajudaram a superar essa minha visão. Ao contrário, agrediram-me de um jeito que fez parecer a suposta agressão do Nassif a algumas delas como beijinho do papai.

Uma delas mandou essa: "O dever de algum ativista por direitos iguais não é educar um ignorante. Esse é o dever do ignorante! ". E completa, com ar blasé, como se estivesse lidando com um retardado incorrigível: "Dá pra entender a diferença?"

Imagina se o Nassif tivesse dito isso!

E jamais li uma concepção tão absurda. A missão do ativista não seria justamente educar o ignorante? A luta contra a ignorância não é a tarefa principal do ativista? O que deve fazer um ativista: estapear o ignorante, como elas fizeram verbalmente comigo e outros?

Peço desculpas, portanto, humildemente, às mulheres, feministas ou não, que tenham se sentido ofendidas pelos meus comentários. Reitero meu apoio às bandeiras feministas, no Brasil e no mundo. Permitam-me, todavia, manter minha postura questionadora quanto à melhor maneira de fazê-lo e, sobretudo, permitam-me também me sentir ofendido quando chamado de "macho" (naquele contexto, pejorativo), "machista", "ignorante", entre outros epítetos carinhosos.