31 de janeiro de 2007

O mal por trás do beijo

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Não existe pureza no homem. Deus foi apenas cínico ao trancafiar Adão e Eva no Jardim do Éden e proibir o acesso à árvore do conhecimento. Ironia suprema da religião judaico-cristã, associar o conhecimento ao pecado original... Os dois deveriam continuar felizes como duas bestas? Tenho pra mim, todavia, que a mulher provaria o fruto proibido com a mesma desenvoltura se árvore em questão fosse relacionada a um tema menos nobre, se fosse a árvore do medo, por exemplo, ou da crise da meia-idade.

Deus usou o casal primevo como cobaias do primeiro experimento moral de que se tem notícia, e o resultado, creio eu, não chegou a constituir uma surpresa. O homem não é puro, ó. A mulher é a culpada, hul!

Assim arrastamos nossa carcaça culpada, pecadora, amaldiçoada, por este vale de lágrimas, onde pessoas são queimadas vivas em ônibus, morrem em desmoronamentos de obras mal fiscalizadas e votam em candidatos condenados pela Justiça.

Mas veja! Há uma luz! Não no céu, onde mora o Deus que nos sacanea desde a origem do mundo. A luz está nos olhos de quem ama o próximo. Não o amor abstrato e frio pela humanidade. Não o amor débil, piegas, condescendente, pelos fracos, pelos pobres, ou por quem sentimos pena.

A luz repousa, tranquila, sobretudo neste amor viril, franco, estável a que denominamos amizade. Sim, porque o amor romântico vem carregado de tanta angústia, ciúmes, medos, cobranças, que projeta mais sombras que luz em nosso destino. A amizade é o único verdadeiro elo que nos une a nossos semelhantes. O único e o último.

E, no entanto, o que acontece quando a própria amizade apresenta erupções suspeitas em sua superficie que críamos limpa, saudável?

O que acontece quando a amizade se revela nossa derradeira falsa ilusão?

Acontece, então, que ficamos sozinhos. Como um homem mijando sozinho numa praia deserta. Como Rogério, na cena final do curta-metragem de Fellipe Barbosa, Beijo de Sal.

O filme de 18 minutos, exibido no Festival Internacional de Curta-Metragens de Clermond-Ferrand, versa sobre a amizade e, principalmente, sobre a corrosão e o fim da amizade.

Rogério é um bom vivant mineiro que vive numa bela chácara em Itacuruçá, Angra dos Reis, em companhia de amigos despreocupados e festivos. O filme inicia com Rogério e os amigos na piscina, fumando um baseado e rindo. O eixo dominante da cena, como aliás de toda película (35 mm), é a expressão algo sarcástica, de fauno entediado, de Rogério.

Chega Paulo, antigo membro do grupo, em companhia de uma nova namorada, para passar o Ano-Novo. O estranhamento do casal com o clima meio hippie da casa é imediato, e constituirá, a partir daí, o conflito central da narrativa. Um conflito construído com muita sensibilidade pelo diretor. A movimentação de câmera é clássica, mas original, e a trilha sonora de Mônica Besser encaixa-se bem no delicado jogo de agressões sorridentes que marca a relação entre Rogério e o amigo, um jogo que sugere, sem revelar, um histórico de duelos entre egos fortes e competitivos. Uma certa rigidez e seriedade de Paulo constrata com a intimidade forçada de Rogério.

A tensão entre Paulo e Rogério vai sendo costurada ao longo da narrativa, atingindo, perto do final, um clímax de violência. O filme termina, conforme dito, com Rogério fazendo xixi no mar, expressão desafiadora, diabólica.

Eis que a solidão arrasadora, cruel, de Rogério, encerra o filme. Não há tristeza. Um cinismo amargo, talvez. E a sensação de que, se foi para termos o cinema - e o poder de fantasia e liberdade que ele nos possibilita - bem que valeu termos mordidos aquela maldita maçã.

30 de janeiro de 2007

Curto-circuito de filmes

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Todas as sessões têm filas na entrada.



O Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermond-Ferrand continua "bombando", com salas cheias em todas as sessões. Ontem assisti uma sequência muito boa de cinco curtas, do Irã, Suécia, Dinamarca, Argentina e Alemanha.

Meu destaque vai para o argentino El Loro.

O curta argentino de 25 minutos, dirigido por Pablo Solarz, começa com um jantar entre amigos, durante o qual o amigo do protagonista lhe propōe emprestar o capital necessário para abrir uma loja de animais domésticos. O personagem agradece a oferta mas, sob o olhar perplexo de sua esposa, gentilmente recusa, alegando que especializou-se em animais de grande porte, deixando entrever que, para ele, seria uma espécie de humilhação cuidar de cãezinhos e gatos.

A esposa levanta-se da mesa e, lá de dentro, o chama para conversar. E dá-lhe um educado mas definitivo ultimato para aceitar a oferta ou nunca mais ver nem ela nem as duas filhas. O casal atravessa, obviamente, uma grave crise financeira. O texto é divertido: a mulher segura energicamente a cabeça do marido, forçando-o a encarar seu reflexo no espelho. Olha bem sua cara de babaca, diz ela, depois volte para a sala e diga que aceita o dinheiro. O bom senso feminino prevalece.

Na cena seguinte, ele já está à frente da veterinária. Um homem entra na loja, trazendo um papagaio, cujo problema, diz o cliente, seria depressão. O protagonista não aparenta, de forma nenhuma, estar à vontade em sua nova função, irritando-se facilmente com o sentimento que os clientes dedicam a seus animais de estimação.

O papagaio é idoso, tem 36 anos, e o veterinário pede que o homem o deixe lá para observação.

Entra um outro cliente na loja, um homem com desordem mental grave, que lhe provoca uma gesticulação desengonçada, aleatória, absurda, e dificuldade na fala - mas que, por fim, consegue se comunicar perfeitamente e, como se verá mais adiante, possui inteligência normal e um talento raro para lidar com animais.

Este cliente traz, dentro de uma caixa, um gato para ser castrado.

Na cena seguinte, o veterinário recebe uma chamada telefônica para atender um freguês em sua casa e pede para o homem com desordem mental que ele saia da loja, deixando o gato no interior, descansando da cirurgia realizada. O homem se recusa, dizendo que o gato, ao acordar, não vai entender nada.

Depois de breve discussão, o veterinário aceita que o homem fique na loja.

Quando ele volta, tem uma agradável surpresa. Em sua ausência, o homem vendeu um cachorrinho e anotou o endereço de um cliente que pediu um atendimento em casa.

Ele sai outra vez e quando retorna, outra surpresa: o homem vendeu um segundo cachorrinho e cuidou do papagaio deprimido, que voltou a falar.

Eles conversam, o homem conta que era contador, mas, devido a sua desordem mental, foi obrigado a tomar remédios que deixam seu pensamento mais lento, impedindo-o de trabalhar. É sustentado pela ex-esposa.

O homem se despede e, quando esta prestes a ir embora... o veterinário pergunta se ele não gostaria de trabalhar com ele. É uma cena bonita, onde o veterinário parece descobrir algo novo em seu trabalho. O homem aceita, feliz da vida, e, logo depois, está telefonando para a ex-mulher, contando a novidade e dizendo que não necessita mais de auxílio financeiro.

O formato do filme é bem tradicional, sem jogos de câmera originais e, no entanto, é um filme cativante, sensível, interessante, humano, ancorado num excelente roteiro e no desempenho maduro dos atores.

**

Alguns dados sobre o Festival de Curtas de Clermond-Ferrand. Foi criado em 1978, por um grupo de estudantes da Universidade de Clermond-Ferrand, como um evento de exibição de curtas franceses. Em 1981, é criada uma Associação, cuja finalidade principal é a organização do Festival. Em 1988, o Festival se torna internacional, recebendo trabalhos de todo mundo. Em 2006, o Festival exibiu mais de 200 filmes - cerca de 2% do total de filmes recebidos, e teve a participação de mais de 2800 profissionais de cinema. A cidade, com 150 mil habitantes, comparece em peso ao Festival.

29 de janeiro de 2007

Imprensa discriminatória

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Navegando pela internet em busca de notícias sobre café, minha especialidade como jornalista profissional, descubro uma notícia no jornal O Tempo, de Minas Gerais, intitulada: Bolsa Família tira trabalhador do campo. A matéria em si não diz nada disso.

O título em verdade reflete apenas a opinião de alguns fazendeiros entrevistados. É negada, na própria matéria, pelo sindicato de trabalhadores rurais, que alegam ser absurdo que um trabalhador prefira um benefício de no máximo 95 reais a uma carteira assinada, que prevê salário mínimo de 350 reais. O que está claro, e que a reportagem não diz, porque a linha editorial predominante na imprensa nacional é uma linha patronal medíocre e pusilânime, é que os trabalhadores hoje se recusam a aceitarem condições de trabalho precárias. E para isso, talvez o Bolsa Família tenha ajudado, e muito.

Lamentavelmente, a imprensa discrimina o lado dos trabalhadores; no caso desta matéria, o fato prejudica a sua imparcialidade e, portanto, o seu valor jornalístico.

O problema do pensamento conservador no Brasil é que ele é pré-revolução industrial. Não compreende que uma situação melhor para os trabalhadores ampliará o mercado consumidor interno, permitindo a expansão das vendas e, portanto, do emprego, do lucro, produzindo um círculo econômico virtuoso.

Link para a matéria citada:
http://www.otempo.com.br/economia/lerMateria/?idMateria=76624

Queria ter tempo ainda de fazer uma leitura crítica do jornal O Globo, cuja edição de hoje está particularmente tendenciosa. Mas a sala já vai fechar.

Tenho assistido uma porção de curtas interessantes. Quanto tiver a oportunidade, escrevo algo sobre o assunto.

28 de janeiro de 2007

Chávez ameaça a democracia?

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Eis que Chávez criou mais uma polêmica, principalmente na imprensa, ao decidir não renovar a concessão televisiva da RCTV, um dos principais grupos de mídia da Venezuela. A notícia rapidamente correu o mundo, e serviu para reforçar acusações de que o "líder bolivariano" estaria atentando contra a democracia.

Aqui no Brasil, naturalmente, a notícia caiu como uma bomba. Praticamente todos os jornais e canais de TV despejaram editoriais pesados contra a decisão do presidente venezuelano. Alberto Dines - o que não foi surpresa para ninguém - também entrou na onda. A grande diferença de Dines é que ele tem um blog, e os leitores podem comentar e meter o pau - desde que educamente, é claro.

Esse assunto é um pouco passado, eu sei, mas eu não tive muito tempo para escrever sobre o tema, e como Chávez continua em evidência, sobretudo por causa da barulhenta passagem dele pela recente reunião do Mercosul, no Rio de Janeiro. Fiquei com essa espinha presa na garganta.

A espinha é a seguinte: todo mundo esqueceu que esse mesmo canal de TV foi o maior defensor do golpe de Estado contra Chávez, o famigerado 12 de abril de 2002? Um golpe hediondo, nojento, cujas primeiras medidas foram o fechamento do Congresso Nacional e a implantação do estado de sítio? E que foi apoiado precipitadamente pelo governo americano?

Que espécie de paladinos da democracia são esses que não se indignam, que não se revoltam, quando ela é violentada de maneira tão abjeta?

Alberto Dines, você esqueceu disso? Esqueceu do golpe de 12 de abril de 2002, quando as luzes da democracia foram apagadas na Venezuela?

Dines, você apoiou aquele golpe?

Tudo bem, Chávez também participou de um movimento na década de 90, mas ele não chegou ao poder por esse meio, e não sabemos se ele fecharia o Congresso ou coisa parecida. Ao contrário, ele chegou ao poder através do sufrágio universal, e até agora, tem lutado para conquistar mais poder através de meios legais e democráticos, ou seja, como representante da vontade popular.

Se Chávez tem ousado, se tem adotado medidas fortes, foi porque o povo o colocou lá para isso mesmo. E não venham dizer que Hitler também foi eleito, porque isso é mais uma distorção histórica barata, equivocada e tendenciosa. Não se pode comparar a Venezuela à uma Alemanha devastada da República de Weimar, com desemprego monstruoso, inflação galopante, um povo humilhado pela derrota miitar de 1918. Sobretudo, não se pode comparar um processo eleitoral limpo, monitorado por observadores internacionais e com uma população bem informada, com a época de trevas que vivia a Alemanha e com os - provados historicamente - métodos de mentira e manipulação adotados pelo partido nazista. E com o apoio dos grandes grupos privados, diga-se de passagem.

É perfeitamente natural que a imprensa conservadora critique Chávez. Agora, que façam a crítica correta, honesta. Não venham com essa bandeira fajuta de guerreiros da liberdade e da democracia, porque soa absolutamente hipócrita. Se Chávez tem maioria no Congresso Nacional, isso foi porque os venezuelanos votaram nos deputados chavistas. Se a oposição foi fraca, desunida, e não tem conseguido impor freios à Chávez, é porque ela não tem representatividade para tal, não tem legitimidade democrática para tal. Uma nova correlação de forças está se impondo na Venezuela. Esses momentos de mudança não são fáceis, assim como não é fácil controlar um sentimento de revanchismo por séculos de opressão, racismo, ressentimento. O fato é que a América Latina, definitivamente, não estava bem, e vinha bem a calhar esse vento forte e quente trazido pelo chavismo.

No Brasil, o chavismo reflete-se positivamente, fazendo nossos empresários e nossa trêmula classe alta louvar o Lula por ser tão moderado.

Pessoalmente, acho que Chávez deu um grande exemplo à democracia ao negar a renovação da RCTV. Um grande exemplo de que canais de TV, mais do que qualquer outro segmento da indústria, não podem apoiar golpes de estado contra presidentes da república. E um recadinho nada sutil para a rede Globo se comportar direito e não ceder a esses impulsos anacrônicos do tempo em que a América Latina era conhecida como um grupo de repúblicas de banana. ...

Pedantismo em preto e branco

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O fato do Brasil não ter, ainda, um mercado de cinema significativo e depender exclusivamente de patrocínio estatal estaria estimulando, por parte dos produtores , uma tendência elitista? Quando falo em elite, dispo-me de qualquer utopia e procuro admitir, de forma até um pouco cínica, que a plena fruição de um bom filme, especialmente de um curta-metragem de um diretor contemporâneo, constitui um prazer para poucos, ou seja, para quem teve condições, ou o dom, de desenvolver sua sensibilidade e conhece o básico da cinematografia mundial. Quando me refiro, pejorativamente, a esta tendência elitista, portanto, não é por defender uma pasteurização populista do cinema de vanguarda: é antes uma advertência para o perigo do cinema brasileiro tender para uma introversão um tanto pedante que afetaria a própria qualidade das obras. Uma pedância que envenenaria o próprio futuro do cinema brasileiro contemporâneo, criando barreiras, em vez de rompê-las.

Afinal, é preciso dizer que o público de cinema especializado, dentre os quais os críticos constituem a camada "superior", é também um tanto viciado, um tanto isolado do público "normal". Acontece o mesmo com a literatura. Longe de mim, todavia, pretender que o público especializado - e mais ainda o crítico - submeta-se ao gosto do grande público. Pelo contrário, irritam-me, sobremaneira, os intelectuais pró-massa que proliferaram como praga na onda pseudo-pró-capitalista que varreu as universidades na década de 90. Acredito no público especializado. Acredito no crítico. Mas é preciso advertir para o perigo do crítico empedernir sua intuição - desvalorizando o que possui de mais valioso, ou seja, o próprio "gosto", atravessando a linha, às vezes tênue, mas uma linha crucial, que separa o conhecedor do pedante.

Essa introdução era importante para que eu pudesse inicar a crítica de "Uma vida e Outra", de Daniel Aragão, curta-metragem de 17 minutos, selecionado para o Festival Internacional de Curta-Metragens de Clermond-Ferrand. O filme surfa na onda do prestígio do cinema contemporâneo brasileiro, particularmente dos trabalhos de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim (Céu de Suely), mas é um trabalho um tanto pedante. Não digo que é hermético, porque em verdade é um filme fácil de assimilar. O experimentalismo e os recursos, tanto técnicos quanto narrativos, são excessivamente tímidos, de maneira que a opção pelo preto-branco me pareceu apenas pretensiosa. Ao mesmo tempo, e ironicamente, também se revela um tanto quanto esperta , no sentido de criar uma atmosfera de filme cult, de filme para "entendidos", seduzindo o ego de certos críticos que, inconscientemente (diria freudianamente), se rejubilam em descobrir beleza em detalhes imperceptíveis ao olho comum.

E assim um filme como o de Daniel Aragão que, em circunstâncias mais saudáveis, seria considerado como solenemente chato, vira um filme cult admirado pelos prolixos críticos profissionais.

A sinopse do filme é a seguinte: garota de 18 anos, vendedora de loja, integrante de respeitável classe média de grande cidade nordestina, fica grávida de um jovem executivo que, logo na primeira cena, a esculhamba magnificamente, dizendo que assumirá a paternidade mas que evitará o máximo o convívio com ela. A cena é bastante inverossímil, o personagem do jovem é pintado de uma forma grosseiramente maniqueísta, um vilãozinho um tanto ridículo.

O resto do filme é o breve conflito interior da jovem, indecisa se faz o aborto ou não, até que, enfim, decide fazê-lo. Aí entra a parte francamente reacionária do filme, que assume um discurso anti-aborto, ao mostrar crianças brincando no caminho da personagem até a clínica e, principalmente, na descrição caricatural do aborto em si, o médico usando tesourão, faca, e jogando o "feto" numa latinha de lixo.

Ela leva a lata, com o feto dentro, e a entrega ao ex-namorado - esta é a grande vingança que coroa a história. Junto com os letreiros finais, vemos uma sequência de rostinhos de bebês e crianças.

Num país com os graves problemas de gravidez precoce, e onde o aborto é proibido, não entendo onde o diretor quer chegar. Se fosse um filme francês, onde o aborto é permitido, até entenderia, como uma manifestação de um jovem conservador defendendo o direito à vida do feto. Mas no Brasil?

Enfim, acho que este tema é sensível demais para ser abordado da maneira leviana como feito por Aragão. Pessoalmente, sou a favor do aborto; mas me considero bastante democrático para escutar, e respeitar, idéias contrárias; e estou aberto a mudar de opinião no caso de ser apresentado a argumentos suficientemente sólidos. Entretanto, esse filme, débil esteticamente e reacionário politicamente, não me convenceu.

27 de janeiro de 2007

Começa o Festival de Curtas de Clermont-Ferrand

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A cerimônia de abertura aconteceu ontem à noite, numa sala de cinema gigantesca, a maior que eu já vi. O júri foi apresentado, algumas explicações foram dadas e exibiram-se seis curtas metragens, alguns bem interessantes outros muito chatos.

O Festival de Curta Metragens de Clermond-Ferrand é o maior do gênero no mundo. É enorme, com milhares de filmes do mundo inteiro. Este ano, o Brasil participa com trabalhos de Fellipe Barbosa e Daniel Aragão. Hoje pela manhã dei uma folheada no catálogo e fiquei assustado com a quantidade de filmes, sem saber por onde começar.

Estou registrado como jornalista, com acesso a todas as sessões. Tenho, portanto, obrigação moral de escrever alguma coisa sobre os filmes. É mais difícil do que escrever sobre longas, porque você acaba assistindo uma quantidade grande de curtas e sua mente se confunde na hora de analisar cada um. Mas vou tentar.

Tivemos uma noite difícil. O apartamento que o amigo iraniano da Priscila nos emprestou tinha somente um colchão de solteiro, e dos mais estreitos, o que me obrigou a dormir com a mão no bolso para o braço não cair fora da cama. O apartamento têm um cômodo só e não tem água quente no banheiro, fator que, diante da temperatura glacial, constitui um forte desestimulante ao saudável hábito brasileiro do banho diário. Também não tem placa elétrica para cozinhar - os fogões na França são todos elétricos.

Pelo menos tem aquecedor.

Entretanto, uma circunstância curiosa compensa a precariedade do quarto. Num canto, amontam-se dezenas de caixas fechadas que, descobri hoje de manhã, contêm... livros! Sim, livros! Parecem ser livros de algum conhecido do dono do apartamento que, na mudança para uma outra cidade, decidiu guardar tudo ali. Ou então é o depósito de um sebo que encerrou suas atividades.

Grande parte são porcarias best-sellers, lixo romântico, mas encontrei algumas preciosidades, uns romances de Simenon (o mais famoso autor policial francês); edições de obras completas de Shakespeare e Oscar Wilde, no original; O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger e do Grande Gatsby, de Fitzgerald, também no original; um livro da Agatha Christie. Ou seja, além do cinema, também estou bem servido de literatura, o que vai compensar a provável continuidade do meu jejum alcóolico forçado, visto que a grana está ficando curta, e por aqui nem tem Banco do Brasil (o que não adiantaria também muita coisa, no momento).

Por falar em bebida e falta de grana, ontem eu rompi o jejum, mas não fui muito longe. A festa de abertura do evento aconteceu numa tenda na praça em frente, e bebi umas cervejas belgas a custo zero. Lamentavelmente, estava rolando uma banda do leste europeu horrível, com umas canções bregas e tristes, que me remeteram a noites depressivas em cidadezinhas tediosas do interior do Rio. Suportamos um pouco por lá e saimos, não somente por causa da música ruim mas também pela necessidade de encontrar, à meia-noite, o amigo que iria nos emprestar o apartamento.

Taí o link do Festival, para quem se interessar:
http://www.clermont-filmfest.com

Uma notícia importante. A Priscila Miranda, minha companheira de aventuras, inaugurou um blog ontem, no qual ela vai contar as impressões dela sobre o Festival. Vão lá fazer uma visita. Allons-y!

http://breakfastatpantheon.blogspot.com/

26 de janeiro de 2007

Estou em Clermond-Ferrand

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Esse é um clássico que ainda não assisti, o primeiro longa-metragem de David Lynch



Ê vida louca! Quem diria que aquele cara que passava finais de tarde bebendo cerveja nos arredores da cruz vermelha, ou lendo David Goodis no seu kitnet caótico, estaria agora em Clermond-Ferrand, no centro da França, cercado de neve por todos os lados, experimentando temperaturas de menos dez graus e fazendo a cobertura do Festival Internacional de Curta-Metragem 2007.

Bem, é isso. Viemos para cá estimulados pela oportunidade de um alojamento grátis em casa de amigos (árabes, naturalmente), e agora estou na sala de imprensa do Festival, usando um Macintosh sofiscadíssimo, prestes a participar da cerimônia de abertura, na qual espero que sirvam alguma coisa alcóolica, pois estou há mais de dois meses praticamente sem beber. Afinal, o dinheiro que me proporcionaria maravilhosas tardes e noites de bebedeira em terras tupis, aqui tenho que economizar para não passar fome. Mas vale a pena, pela chance de conhecer um país diferente. De conhecer a neve, finalmente!

Quando saltamos do trem, não resisti. Olhei para aquela neve branquinha, fofinha, saborosa... massageei um bocado na mão e botei na boca... Bem que eu estava com fome, admito, e a neve é salgada, gostosa. Comi um bom bocado, e parei, com receio de estar fazendo alguma coisa errada.

No trem, eu fiz várias anotações sobre o que escrever aqui. Estou cheio de idéias. Voltar a atualizar este blog está me fazendo um bem danado! Agora eu sei porque estava me sentindo tão deprimido. Eram saudades desse blog, onde posso escrever o que eu quero, da maneira que eu quero e onde tenho feito verdadeiros amigos. Engraçado, aliás, observar que tenho construído amizades mais consistentes com pessoas distantes que lêem meu blog do que meus vizinhos de cidade. Isso porque, lendo meu blog, as pessoas conhecem meu verdadeiro eu.

Bem, a sala vai fechar em 10 minutos. Comecei tarde hoje. Volto amanhã!

25 de janeiro de 2007

Paris sem glamour

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Demorou mas a França conseguiu fazer, enfim, um bom filme de gângster. Para quem achava que marginal francês é mais educado que de outros países, vai ter uma surpresa com Truands. Ainda não sei que tradução terá no Brasil, mas, literalmente, significa: Bandidos.

Não é nem o caso de falar de violência gratuita. A brutalidade dos mafiosos tem objetivo muito claro: manter o poder.

O roteiro é bom, mas não é excepcional. Trata-se da rotina de golpes, assaltos e tráfico de drogas de alguns bandidos franceses de alta linhagem. Com direito a cenas de tortura indescritível aos que traem a confiança do chefe. O centro da história acontece mesmo mais para o final, quando o chefão é preso e alguns sequazes iniciam uma intriga para assassiná-lo e assumir o controle dos negócios.

O que falta mesmo é uma boa trilha sonora, e maior criatividade tanto no jogo de câmeras como na manipulação do tempo. É tudo muito linear, com câmera monótona e sem músicas marcantes, ou seja, o contrário dos filmes Tarantino (Pulp Fiction, Cães de Aluguel), papa do cinema fora-da-lei. Mesmo assim, o filme tem um charme singular, uma autenticidade interessante que lhe confere um lugar cativo no gênero.

Neste link tem seis videos disponiveis do filme.

24 de janeiro de 2007

Torcida pela Segolene

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A disputa eleitoral está esquentando na França. Os dois principais candidados são Sarkosy, atual ministro do interior, direitão, e Segolene Royal, uma senhora charmante, do partido socialista.

Interessante observar que os candidatos estão levando à sério o poder de influência da internet nestas eleições. Vem ocorrendo, aliás, inumeros debates sobre esta inovação. Ontem eu assisti um debate na tv sobre o tema. Um filósofo lembrou que a internet está provocando uma revolução no conceito de comunicação de massa, iniciando mudanças estruturais profundas no proprio cerne da sociedade industrial, na medida em que a idéia tradicional de consumidor começa a perder espaço para a de participante.

A campanha de Segolene vem apostando pesadamente na internet, sobretudo porque possui recursos limitados, em relação à Sarkosy, o candidato dos empresários. Desnecessário lembrar que a vitória de Segolene será extremamente importante para a esquerda mundial, incluindo é claro o Brasil, pois a França é um país com grande prestígio e influência política em todo mundo. A blogosfera, particularmente, tem sido uma das ferramentas mais usadas pela candidata. Veja o site oficial dela, onde, na coluna da esquerda, há links em destaque para a blogosfera.

O fato dela ser mulher, por outro lado, também não é um detalhe. Seria a primeira mulher a governar a França. Teríamos os dois principais países continentais europeus, França e Alemanha (governada por Angela Merkel), com presidentes do sexo « frágil ».

Vale lembrar que Hillary Clinton lançou há pouco - através de video divulgado pela net - sua candidatura à presidência dos Estados Unidos e, até o momento, é o nome mais forte do partido democrata para derrotar os republicanos.

A eleição presidencial francesa trouxe à tôna os candentes debates que vem revirando o país há alguns anos, opondo uma visão de mundo estatista a uma mercantilista, uma representada pela esquerda, outra pela direita. Muito parecido ao que se discute na América Latina, por isso vale a pena observar de perto o que acontece na França.

Uma primeira diferença básica é que, na França, é a direita que promete uma « ruptura », a saber, mudanças profundas nos sistemas de saúde, educação e impostos, reduzindo fortemente os gastos do Estado, enquanto a esquerda promete manter o status quo, ou fazer reformas de maneira mais prudente.

A direita alega que a França precisa crescer mais rápido e gerar mais empregos. A esquerda mostra que a educação tem piorado e que os problemas sociais se agravaram nos últimos anos, sob o comando de Chirac, que representa uma espécie de direita light. Sarcosy seria uma direita « dura ».

O interessante, a meu ver, é observar que, tanto na França como em qualquer parte, esse debate traz à luz argumentos lúcidos sobre economia e política e que, se por um lado, aponta soluções para uns países, isso não significa que as mesmas medidas devam ser adotadas por outros.

Cada país deve encontrar uma solução própria. Por exemplo, se a Irlanda – cujo exemplo é muito usado pela direita – encontrou uma fórmula bem sucedida, desonerando as empresas e reduzindo fortemente o peso do Estado na economia, outros países podem se dar muito mal se seguirem o mesmo caminho. Os consultores privados que passeiam pelos canais de tv defendendo a liberalização em toda parte, têm o péssimo costume de simplificar os argumentos, omitindo detalhes fundamentais que fazem a diferença de um país para outro.

Para início de conversa, a Irlanda é um país anglofônico, e isso não é um detalhe desprezível, pois confere uma vantagem comparativa enorme à Irlanda para atrair investimentos norte-americanos e britânicos e de se inserir, mais facilmente, no mercado internacional.

Enfim, creio que os debates políticos e econômicos devem se precaver de qualquer sectarismo. Se uma determinada medida liberalizante pode trazer mais geração de emprego e redução de pobreza, adotemo-la. Se outra, estatizante, é saudável para a economia, não devemos temê-la. Os países ricos nunca temeram estatizar determinados setores econômicos quando lhes foi conveniente.

O que não pode é confundirmos estatização com autoritarismo. Se existem laços que os ligam, também existem diferenças fundamentais que os separam. Se a Venezuela está optando por uma movimento de estatização, isso não tem nada de autoritário, visto que o processo vem sendo conduzido por instâncias democráticas. Chávez foi eleito com enorme maioria de voto, portanto é ridículo chamá-lo de ditador. A imprensa na Venezuela é a mais livre do mundo, vide o que escrevem sobre Chávez. Se ele não renovou a concessão de um dos canais de TV, é porque este canal apoiou um golpe de Estado contra o próprio. Ou seja, atentou contra democracia. Fosse nos EUA ou qualquer país rico, os donos deste canal estariam na cadeia.

23 de janeiro de 2007

Ali Kamel no país das maravilhas

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(esse sou eu, escrevendo meus artigos e crônicas no Café Luxembourg)


O artigo do jornalista Ali Kamel me deu vontade de reler o clássico de Lewis Carrol. Explico.

Para Kamel, houve um debate acirrado em 2006 entre os que consideram o jornalismo um campo de batalha ideológica e os que o vêem como uma forma de conhecimento da realidade.

Naturalmente, ele se posiciona ao lado dos últimos, embasando-se inclusive em filósofos que (diz ele) prefere não citar. Neste ponto, penso na blogueira Catia Fittipaldid mandando: RISOS, RISOS MUITOS! Quem serão os filósofos brasileiros contemporâneos que merecem a admiração anônima de Kamel? Seriam Denis Rosenfeld e Olavo de Carvalho, os guros da direita tupi, por acaso? Ou seriam os representantes do Opus Dei no Brasil, entidade tão frequentemente defendida pelo valente Kamel?

No calor daqueles dias, diz Kamel, "pairou a idéia de que só existe um jornalismo de direita ou esquerda". Com uma só bordoada, o Public Relations máximo do Globo não só restringe uma discussão que remonta aos primórdios do jornalismo a um fenômeno passageiro, especificamente do ano de 2006, como simplifica grosseiramente o debate evocado.

Não, Kamel. Os dias estão mais calorentos do que nunca no Brasil.

A simplificação de Kamel beira o sarcasmo. Há os que pensam que "os jornais seriam feitos de acordo com os valores de seus donos e dos jornalistas que para eles trabalham", que não acreditam na objetividade jornalística e que os fatos seriam escolhidos, não "por critérios de relevância, mais ou menos reconhecidos por qualquer profissional, mas pelos valores de quem escolhe".

Ou seja, há os que pensam que os jornalistas são malvados.

Ou melhor, pensavam. Porque tudo isso foi um pesadelo de 2006, diz Kamel. A discussão está passada. Aqueles tolos que tinham pensamentos tão estranhos hoje se calaram, mudaram de opinião ou morreram e estão ardendo no inferno.

Kamel explica, paternalmente - provavelmente se dirigindo as velhinhas trêmulas de Ipanema que acreditam piamente no que diz esse moço de cabelo curto e carinha de bem comportado: "O jornalismo é uma forma de apreensão da realidade, que se seguida corretamente (e não são muitos os veículos que se esforçam por segui-lo), leva ao relato e à análise dos fatos com fidelidade."

Louvado Seja Nosso Senhor. Ainda bem que existem pilares morais como Kamel e o Globo para compreendermos a realidade. Estudantes de jornalismo, decorem esse texto!

"Diante de uma miríade de acontecimentos, os jornalistas são treinados para discernir os fatos que têm relevância e narrá-los e analisá-los de maneira isenta."

"Isso implica em acolher diversos pontos-de-vista, pois a pluraridade é regra-geral em tudo que se faz em jornalismo."

A meu ver, o artigo pode servir como base para o nascimento de um importante personagem. Veríssimo, aproveite a chance! Se a velhinha de Taubaté, que sempre acreditava no governo, morreu, por razões ainda não totalmente explicadas (talvez de velhice mesmo), está na hora de criar a velhinha de Nova Friburgo, que sempre acredita na imprensa!

Não há muito o que dizer sobre este tema, apenas que Kamel, desta vez, procura satanizar o próprio espírito crítico do leitor contemporâneo. Em sua tentativa tosca de santificar a imprensa brasileira, particularmente o jornal Globo, Kamel cai no ridículo total, ao negar qualquer malícia ou tendência ideológica na imprensa escrita.

Menos, Kamel, menos. Nem o Hommer Simpson é tão otário. Credibilidade não se recupera assim, na base do auto-elogio desvairado. De qualquer forma, o leitor contemporâneo procura a pluralidade na internet, onde um bom mergulho serve de antidoto contra a manipulação maquiavélica dos jornalões.

O mais irônico de tudo é que Kamel dá um jeito de enfiar o Apagão Aéreo no artigo, num momento em que o tema candente é o acidente no metrô de São Paulo, mas enfim, isso é paranóia minha, eu, que sou da turma dos pecadores, que não acredita na inocência da imprensa.

Dá uma lida no artigo do homem e depois comenta aqui. O acesso é grátis, mas tem que se cadastrar.

Vale ler também esse post de Luiz Weis sobre o artigo.

22 de janeiro de 2007

Algumas razões para se acreditar no Rio

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Muita gente anda pessimista com o Rio de Janeiro, por causa da crise da segurança. A culpa, como sempre, é do Globo. Parece até piada, mas é verdade. O lacerdismo carioca é sustentado pelo Globo, cuja abordagem pauta a mentalidade tanto da direita neurastênica quanto da esquerda irritadiça.

Os problemas que o Rio vive são reflexo de trés décadas trágicas. Quando o Rio deixou de ser capital, em 1975, perdeu milhares de empregos e fonte de renda. Depois, perdeu indústrias para São Paulo e Minas. A agricultura fluminense (o Rio foi o principal produtor de café nos primeiros dois terços do século XIX), desde o fim da escravidão, nunca mais decolou, deixando um rastro de desemprego e – o pior de tudo - ódio contra a lide no campo. O Rio abrigava o maior mercado de escravos da América Latina, e a escravidão desmoralizou o trabalho, que era uma coisa indigna. Daí, a cultura da malandragem e a idéia de que um trabalho estável é destino de otário. Os anos de super-inflação e salário mínimo ridículo, numa cidade onde o transporte sempre foi caro e ruim, ajudaram a consolidar essa percepção. Afinal, quem não preferiria uma vida de malandro a ganhar uma miséria para trabalhar oito a dez horas e penar mais duas ou três horas em ônibus e trens desconfortáveis e super-lotados?

A quantidade de crianças nas ruas do Rio cresceu de forma assustadora a partir de meados dos anos 80. Fico pensando: o que as elites imaginavam que esses meninos, cheirando cola, fumando maconha e cheirando pó desde a mais tenra idade, iriam se tornar? Coroinhas de igreja? Não, a sociedade criou seus monstros e agora, quando a violência explode nas ruas do Rio, finge não compreender o que está acontecendo.

Entretanto, o mais revoltante, para mim, é ver que, mais do que não compreender, a classe média carioca agora não enxerga as perspectivas que se abrem no horizonte. Mais de dez anos de inflação controlada fizeram muito bem aos setores pobres do estado. O aumento dos salários, do mínimo e do funcionalismo federal (no estado campeão em quantidade de aposentados federais), trouxe outro enorme alívio social às áreas pobres do Rio.

A valorização do petróleo, combinado com o grande aumento na produção, a descoberta de novas jazidas e a chegada de novas refinarias e indústrias ligadas ao setor petroquímico, foram outros fatores que produziram empregos de qualidade justamente nas regiões mais sensíveis socialmente, e capitalizaram o governo estadual com generosas receitas fiscais.

O ressurgimento da indústria naval fluminense, sucateada nos anos FHC, tem sido mais um motor importante de desenvolvimento.

Com a modernização do porto de Sepetiba - que, somente nos últimos anos, vem se tornando um dos mais importantes canais de escoamento do país -, diversas indústrias estão planejando instalarem-se nas áreas próximas a este porto, visando ganhos logísticos.

Por fim, o miserável município de Itaboraí, no coração da sofrida Baixada Fluminense, foi o escolhido pela Petrobrás para sediar a maior refinaria de petróleo da América Latina, com previsão de geração de centenas de milhares de empregos na execução da obra.

Considerando a consistência desses novos pólos de emprego, baseados em setores fortes, sobretudo o petróleo, é possível prever a proliferação, nos arredores dessas áreas, de milhões de empregos indiretos.

Não se trata de otimismo, palavra que me irrita, mas de constatar o que está acontecendo. É preciso ver isso e, desde já, fazer o possível para maximizar os ganhos sociais resultantes. Ou seja, a elite carioca, em vez de recair no seu habitual pessimismo estéril, decadente, lacerdista, moralista, às vezes mal disfarçados de manifestações "pela paz" ou "contra a corrupção", deveria se organizar para criar escolas profissionais para preparar a população pobre para esses milhões de empregos que estarão disponíveis.

Em relação à política propriamente dita, o declínio político do casal Garotinho é mais que uma boa notícia, é quase um sonho. O novo governador Sergio Cabral, com todos seus defeitos, tem se mostrado um político competente em sua relação com o governo federal, com outros estados, e com os municípios.

O florescimento da Lapa, agora irreversivelmente consolidada (sim, porque o casal evangélico fez de tudo para sufocar um pólo cultural sem igual no mundo, por causa de seu fanatismo anti-boemia), e a explosão do carnaval de rua, revelam que o Rio está mais vivo que nunca. Se o Rio tem as maiores jazidas petróleo do Brasil, suas jazidas de alegria, criatividade, entusiasmo e esperança são ainda maiores, e sua população carioca sabe, como poucas outras comunidades no mundo, transformar essa energia em festa, em amor, em vida!

Olha que nem falei do turismo... que tem aumentado exponencialmente nos últimos anos, apesar das crises de violência; e, na esteira da esperada melhora dos índices sócio-econômicos do estado, possui um potencial de crescimento gigante.

19 de janeiro de 2007

Babel

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Quanto ao Babel, do mexicano Alejandro Gonzalez Inarritu, trata-se de um tremendo dramalhão mexicano super-produzido por Holliwood. O marketing do filme, é claro, foi excepcional, cartazes em toda parte e lá fui eu, como bom cosmopolita curioso, juntar-me à multidão para assistir ao novo trabalho do mesmo diretor de Amores Perros, que me impressionou muito. A força dramática de Alejandro continua lá, com suas surpresas dolorosas, a tragédia mostrada nua e crua, uma trilha sonora magnífica e a bela fotografia do deserto argelino. No entanto, algo ficou perdido no filme. As cenas tristes são excessivamente longas, há uma saturação de tragédia que provoca sono...

Por fim, irrita sobremaneira a caricaturização do México, com aquele casamento folclórico e da Argélia, com os garotos brincando de mirar a espingarda no ônibus de turismo... Pior de tudo: Alejandro se rendeu à cantilena insípida da glamourização da família americana. O viés de crítica não engana, é sempre o tema dos infortúnios de papai, mamãe e filhinhos.

Eleições

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O filme de Johnnie To chegou bem paparicado na França, com artigos elogiosos nos principais jornais. Nas matérias, porém, fala-se mais sobre política que sobre a estética do filme em si e, quando assisti o filme, fiquei convencido que ele causou mais interesse por ser "chinês" que outra coisa. E a China realmente vem chamando muita atenção, por causa de seu tamanho, do seu crescimento econômico, etc. O enredo do filme é interessante. As máfias de Hong Kong se organizam por Tríades, espécie de sindicatos, e suas lideranças são eleitas de dois em dois anos. Com a cessão da Ilha para o governo chinês, as novas autoridades policiais chinesas começam a ficar incomodadas com essa caracteristica democrática dos mafiosos, e incentiva uma ou outra liderança a romper a tradição.

São dois filmes, Election 1 e 2. Eu assisti o primeiro no cinema e devo assistir o outro no vídeo. Achei o filme bem fraco. Admito que gosto de filmes de máfia, recheados de violência gratuita, política suja, corrupção policial, a salada completa, mas esse filme do Johnnie To não chega nem perto de uma obra-prima como a trilogia do Coppola, O Poderoso Chefão I, II e III. Os personagens não são desenvolvidos, os vilões são caricaturais, faltou cuidado na construção da história. Tem uma fotografia legal, com alguns takes bem interessantes do porto de Hong Kong, o que me lembrou como seria bom se os cineastas brasileiros aproveitassem melhor a paisagem portuária de nossas cidades.

18 de janeiro de 2007

Hermanos

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Somente nos últimos dias, assisti, aqui em Paris, a dois programas televisivos, em canais abertos, sobre a América Latina, um sobre a Venezuela, outro sobre o Peru. O da Venezuela abordava a questão política, como era de se esperar, mas o fez de uma forma inacreditavelmente imparcial. Inacreditável porque é quase impossível falar de Chávez com imparcialidade : ele é o tipo de fenômeno que desperta paixão ou ódio, sem meio termo. No entanto, o documentário me pareceu bastante imparcial, mostrando uma Venezuela de verdade, entrevistando pessoas do povo, trabalhadores, estudantes, professores, políticos e empresários.

O documentário sobre o Peru focou sobre a nova mídia audivisual peruana, que finalmente abriu as portas para a cultura indígena, usando gente morena na tela e dando mais atenção à música popular peruana. Razões comerciais, naturalmente, devem ter pesado para esta mudança, num país onde 90% das pessoas têm traços índios.

O que me chamou a atenção, todavia, foi o fato de eu nunca ter assistido nada parecido na televisão brasileira, ainda extremamente fechada a seus vizinhos. Claro, não sou nenhum expert em televisão e, provavelmente, muita coisa sobre a América Latina já deve ter sido mostrada na tela nacional sem que eu tenha visto, mas é certo que existe uma lacuna sobre o tema.

Venho a este assunto porque no Brasil está acontecendo no momento, uma reunião de cúpula dos governos do Mercosul, e a mídia tupi, mais uma vez, parece estar tratando do tema com a vulgaridade que lhe caracteriza. Mas vá lá, sejamos tolerantes, seguindo a velha lição de Voltaire. Hoje existe a internet para isso mesmo, para buscarmos informações que a mídia corporativa omite e para ler com olhos críticos o que ela destaca.

Por exemplo, um ponto que não tem merecido o devido destaque local é que, atualmente, o Mercosul hoje é o principal mercado das exportações nacionais, as quais, não por acaso, vem batendo recordes, mesmo com dólar baixo. E isso sem descuidar dos mercados tradicionais, EUA e Europa, que continuam importantes mercados para os produtos brasileiros.

O que falta mesmo, a meu ver, é o Brasil avançar para uma etapa mais avançada – e o terreno está preparado para isso – e investir mais na exportação de cultura.

Uma das coisas que mais angustia os produtores de cultura no Brasil, sobretudo cinema e literatura, é o público exíguo de que dispõem. O que me deixa relativamente otimista (porque quero ver isso em prática, e como será), é que são justamente essas novas lideranças que vêm pregando que o Mercosul se desenvolva mais na área cultural.

A criação do Banco do Sul, com capital dos Estados latinos, pode servir a esse proposito, patrocinando filmes e projetos culturais de forma geral. Também defendo a ajuda aos paises pobres do Mercosul. Essa ajuda, se feita da maneira apropriada, proporcionara ganhos politicos e sociais no presente, e economicos no futuro.

Como dizem os hermanos, a ver.

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O Globo noticiou hoje que o Instituto que pertence ao Fernando Henrique Cardoso (denominado egoticamente IFHC), criado em 2003, recebeu 500 mil reais de uma empresa controlada pelo governo de São Paulo, estado comandado pelo PSDB desde 1995. Os petistas de plantão já começaram a chiar, esquecendo a importância suprema da ação deste instituto para a cultura nacional e, porque não, mundial ? Tem mais é que dar dinheiro do contribuinte mesmo ! FHC é um gênio! Assinado: Napoleão.

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A guerra da blogosfera tupi contra a mídia corporativa ganhou intensidade nas últimas semanas, devido ao silêncio culposo dos colunistas políticos em relação aos culpados pelo acidente no metrô de São Paulo. O Paulo Henrique Amorim, mais uma vez, é o único que tem feito entrevistas com responsáveis e especialistas, pelas quais ficamos sabendo como foram as negociações do governo de SP com as empreiteiras responsáveis pelas obras. A bem da verdade, também o Globo vem apontando o dedo para as autoridades do estado; mas falta, de fato, ouvirmos a voz dos colunistas sobre o episodio.

16 de janeiro de 2007

Quem tem medo de Alberto Dines?

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(Papa, Francis Bacon)


Essa famosa tela de Bacon representa, para mim, uma violenta caricatura da figura máxima da Igreja Católica. Aproveito para lembrar que eu renunciei definitivamente ao ateísmo, não faz muito tempo, batizei-me aos 25 anos (tenho 31) e hoje sou um católico cristão, com tendências fortemente progressistas (naturalmente), tão progressistas que, porventura, chegassem ao conhecimento do Vaticano, quiçá me valeriam um processo sumário de excomunhão.

Essa tela também simboliza, a meu ver, a nudez das autoridades, ou antes, o lado sombrio e sujo de todo ser humano, por maior seja seu prestígio e glória.

Nos últimos tempos, em que tantos leitores têm expresso desencanto com as novas posições fortemente conservadoras do jornalista Alberto Dines, editor do Observatório da Imprensa, vale resgatar algumas das velhas lições da arte, esta velha senhora bêbada, cruel e culta.

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Prezados leitores, peço desculpas pela longa ausência. Estou em Paris, conhecendo essa cidade que já foi o coração da cultura ocidental e hoje é o receptáculo maior de japoneses enlouquecidos, munidos com máquinas digitais e disposição de comprar na Louis Vitton.

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Volto a escrever diariamente neste blog.

11 de janeiro de 2007

Sobre o Rio e guerras

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É a primeira vez que fico tanto tempo longe do Brasil. Estou achando muito bom. Tenho saudade dos amigos e da cerveja barata, é verdade, mas nem tudo é perfeito. Aqui não estou bebendo, porque é muito caro, e isso é bom, pelo menos para o corpo. Meu espírito, ressecado pela falta da água-da-vida, tem compensado com muita leitura, meu outro vício. Qualquer hora lhes falo das minhas leituras.

A internet me permite acompanhar alguma coisa do Brasil. Fiquei sabendo da encrenca lá no Rio. O negócio foi brabo, mas quem não conhece a fundo realidade fluminense, não tem como formar uma idéia mais clara do que acontece lá e acaba criando mitos, para o que a Rede Globo e a leitura de nossa mídia tendenciosa contribui muito.

A economia do Rio vive um momento muito positivo, por dois motivos: petróleo e turismo. O boom da produção de petróleo no Rio é relativamente recente. A valorização dos preços do óleo do diabo também. Mais recente ainda tem sido o surgimento das refinarias e fábricas ligadas ao setor. A construção da nova refinaria em Itaboraí e a ampliação do porto de Sepetiba irão criar dois pólos gigantes de indústrias e serviços, o que vai gerar milhões de empregos na Baixada Fluminense. Esse tem sido o problema maior das regiões pobres do Rio: desemprego e pobreza. Como qualquer região pobre, a Baixada e as favelas cariocas são extremamente sensíveis aos indicadores econômicos. Um ponto a mais na inflação, uma ligeira queda no salário mínimo, um suave aumento no preço da luz ou do gás, esse tipo de coisa, que arranha a renda da classe média, provoca desastre na vida do pobre. Quando esses índices são positivos, por outro lado, o pobre é o primeiro a comemorar. As rodas de samba proliferam nas periferias, os botequins ficam cheios. Entretanto, ainda existe muita miséria no Rio e disputa pelos pontos de droga. A polícia é truculenta e nunca soube realizar um trabalho de inteligência decente. Torço para que o novo governador, Sérgio Cabral, consiga avançar no quesito da segurança pública. Apoio político da sociedade não lhe falta.

Outro assunto: a guerra na Somália. Foi interessante acompanhar o noticiário sobre o desalojamento do governo islâmico da Somália, que dominava o país há seis meses. As tropas leais ao antigo governo, com apoio do exército da Etiópia, reconquistaram a capital em tempo incrivelmente curto. Aos poucos, ficamos sabendo que havia o dedo dos EUA no processo. Um repórter, no momento em que entrou numa área onde estacionavam soldados e oficiais etíopes, flagrou um americano brancão de robe colorido. Só ficou faltando o letreiro luminoso escrito: agente da Cia.

A participação americana agora veio à tona, com os bombardeios seletivos de jatos americanos no sul da Somália, onde se refugiaram os rebeldes islâmicos.

No Iraque, a coisa continua pegando fogo. O Bush quer enviar mais 20 mil soldados pra lá. A verdade é que não vai fazer diferença nenhuma. Os EUA já tem uns 130 mil soldados no Iraque, esses 20 mil vão servir, no máximo, para permitir que os que estão lá descansem um pouco. Outra: os EUA estão gastando 8 bilhões de dólares por mês no Iraque. Reflita sobre isso.