30 de abril de 2009

Uma crônica epilética e vagabunda

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(Juliano Guilherme)


Uma das minhas idiossincracias que eu gostaria de entender melhor é esta mania de começar os textos com a palavra "não". Há anos que luto contra este vício. Sempre a mesma coisa. Deixa pra lá. Não estou em minha melhor fase. O tempo passa diante dos meus olhos a uma velocidade assustadora e não consigo acompanhá-lo. Acordo, faço algumas coisas e já é noite. Que está acontecendo? E essa palavrinha maldita me perseguindo: não, não, não. Sempre ela. Não faço nada e não tenho tempo para nada. É incrível. Penso na Miriam Leitão, minha personagem preferida, aparecendo na TV, escrevendo sua coluna, atualizando seu blog, entrevistando pessoas, dando palestras, mediando debates, meu Deus! E eu, mesmo sem fazer nada, não tenho tempo de atualizar um blog! Ah, tu és um vagabundo, dirão vocês, e com toda a razão. Aconteceu alguma coisa estranha comigo, como se uma peça no mecanismo interno que nos faz bons e industriosos trabalhadores houvesse se rompido. Preparo o café e estudo, no pouco tempo que me sobra, coisas estranhas e antigas, como os poemas de Anacreonte, um poeta grego do século VI antes de Cristo. São divertidos, leves, imorais.

Traz-me uma taça, ó moço escravo
Que certamente há mais conforto
E é bem melhor se estar deitado
Por estar ébrio do que morto!

Estudo o alfabeto grego, textos latinos, enfio-me em bibliotecas, e sou feliz. Miserável, triste, vagabundo, e feliz. Minha mãe, coitada, já perdeu as esperanças e minha mulher, que tem colocado algum dinheiro em casa, já começa a me olhar desconfiada. Mas estou tranquilo. Pelo menos tenho um apartamento próprio.

No entanto, de certa forma eu trabalho arduamente. Meu ócio é meu trabalho. Eu leio e espero. Tomo porres às vezes e tenho que me cuidar, porque venho perdendo a compostura - já tenho desafetos pelas redondezas. Embebedo-me em vernissages, onde a bebida é grátis, ou nos efêmeros períodos de fartura, e insulto as pessoas. Faço por brincadeira, mas elas não sabem, e me odeiam. Elas têm razão, claro. Por isso eu sofro tanto no dia seguinte e tenho prometido melhorar.

Não assisto mais o noticiário na TV Globo, que me enoja soberbamente. Quando ouço a voz de William Waak desligo de imediato. Assisto alguns outros canais, e filmes. Muitos filmes. Não uso drogas, graças a Deus, já tenho problemas demais com a bebida. E aí lembro do Lima, do velho e bom Lima Barreto. Aquele sim bebia! Começou com bebidas caras, uísque e cerveja, mas logo passou para a cachaça. Bebia até cair no chão e dormia na rua, maltrapilho, como um mendigo. O segundo maior escritor do Rio de Janeiro - depois de Machado de Assis. Tem gente (O Cony, por exemplo) que acha o Lima maior que o Machado, porque este último tinha medo de mostrar o povo e as coisas sórdidas da vida, enquanto Lima foi mais direto. Nesse ponto, estão certos. Mas Lima não teve tempo para chegar onde chegou Machadão. O bruxo do Catete escreveu seus melhores livros depois dos 40 e Lima, que sempre morou no subúrbio, morreu aos 41.

Gostei de saber que Lima estudou num colégio aqui do lado, na rua do Rezende, e daí salto deste assunto para um outro, que vem me absorvendo nos últimos meses, que é sobre a evolução arquitetônica do Rio de Janeiro. Em 1906, como vocês sabem, Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro, inaugurou a nova Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco. Esta obra, entre outras que ele realizou na época, consumiu quase metade do orçamento da União. Um absurdo. Enquanto milhões de pessoas morriam de sede no Nordeste, o governo tentava fazer do Rio uma nova Paris. Lima Barreto se esgoelava em jornais alternativos contra isso, mas ninguém o escutava. Enfim, fizeram a obra e o resultado, apesar de toda injustiça, foi estupendo. O Rio tinha agora uma belíssima avenida de primeiro mundo, ladeada por magníficos edifícios, com fachadas selecionadas em concurso. O que me intriga, escutem bem, é o seguinte: porque pouco mais de vinte anos depois, enquanto os prédios ainda estavam novos, o governo e os empresários decidiram derrubá-los, a estas verdadeiras obras-primas de arquitetura, para construir edifícios "modernos" e horrorosos. Tento policiar-me, tento não ser saudosista. Concedo-lhes argumentos: ora, o Rio não podia continuar sendo a cidade art-decó dos anos 20 e 30. O capitalismo chegara com toda força e era preciso construir grandes prédios. Mas aí me deparo com o seguinte fato: com a abertura da Avenida Presidente Vargas, criou-se uma enorme área para a construção desses novos prédios. Porque os empresários, com apoio ou beneplácito do governo, preferiram derrubar os lindos edifícios da Rio Branco, em vez de construírem na Avenida Presidente Vargas, vazia? O resultado é que a presidente Vargas continuou vazia, até hoje. E a Avenida Central (hoje Rio Branco), um cartão postal de fazer inveja às mais belas capitais do mundo, tornou-se apenas uma rua larga, feia, comum e abarrotada.

Me perdoem o tom vago e confessional desse post, é que estou ainda zonzo de um susto que tomei, com o aparecimento de uma dívida no banco de dez anos atrás, que eu acreditava extinta há tempos. Já resolvi tudo agora, mas tive uma noite péssima, cheia de pesadelos. O mais estranho deles foi esse: O Adriano, o jogador de futebol, pega seu carrão e vai até a casa de Ronaldinho Gaúcho, que morava numa espécie de chácara. Adriano estaciona e vê Ronaldinho junto a uma árvore. Ele pula a cerca e se aproxima de Ronaldinho, que está fumando, concentradamente, um enorme baseado. E de repente, eles ficam sabendo que há uma câmera da Globo, ou de qualquer outra emissora, filmando tudo. E que, logo mais, todas as tvs e youtubes do mundo exibirão a cena de Ronaldinho fumando um baseado. Ronaldinho tenta mostrar despreocupação. Adriano estava chorando, deprimido, desde antes de saberem sobre a câmera. Há uma garota, namorada de Ronaldinho, que se desespera. Que sonho!

*

Quanto à política, sinto-me bastante seguro com o trabalho de Luis Nassif, que assumiu, definitivamente, uma postura de blogueiro antimidiático combatente. Posso, portanto, voltar ao meu ócio triste e vagabundo, às minhas leituras óbvias (Moby Dick, por exemplo) ou exóticas (poemas de Anacreonte e Safo), ou simplesmente clássicas, como as Catilinárias de Cícero, estudar alemão, fazer fisioterapia, e torcer para que minha mulher fique rica.

27 de abril de 2009

Sonhos devastados pela ditabranda

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Meses atrás assisti um filme muito bonito, chamado Apenas um Sonho (Revolutionary Road, o título original, como sempre é magistralmente distinto da tradução para o portuguès), com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. A história me lembrou a ditabranda (quem não souber do que estou falando, entre aqui). Explico. A personagem principal percebe que sua existência é vazia. O marido, DiCaprio, é um executivo de uma empresa sem grandes ambições a não ser trabalhar o menos possível e curtir a vida. Mas é um homem criativo, inteligente, divertido e, claro, atraente (estamos falando do horroroso DiCaprio). Sua esposa, Kate, continua perdidamente apaixonada pelo marido.

O personagem de DiCaprio engabela o tédio, a empresa, a vida e, por fim, a própria mulher. Seduz secretárias, falta ao trabalho, atrasa relatórios. É feliz e irresponsável. Sua mulher, no entanto, presa à rotina doméstica, não tem tanta sorte. A vida no subúrbio de uma cidade americana lhe oprime cada vez mais.

Sabendo que o marido odiava seu emprego, e que ela própria começava a odiar sua vida, faz uma proposta ousada ao companheiro: vender tudo que possuíam e ir morar em Paris. Ela trabalharia como secretária da ONU e ele, bem, ele poderia não fazer nada por uns tempos, ler livros por exemplo, e decidir o que ele realmente queria da vida. Ela acredita no marido, acha que não lhe faltam inteligência e originalidade para alcançar uma existência mais plena.

Inicialmente refratário à idéia, ele acaba aceitando. E os dois vivem o prelúdio de um delicioso sonho. A vida de Kate agora tem um sentido. Ele também se sente mais forte e independente. Mas eles precisavam ainda resolver algumas coisas. Mudanças assim não se realizam do dia para noite. Ele volta ao trabalho. Conta aos colegas sobre seus planos. Passa a esnobar ainda mais solenemente seus chefes, até o ponto de ditar um relatório muito doido.

Ironia das ironias. O tal relatório muito doido chama a atenção de um dos chefões, positivamente! Ele se encanta com o estilo livre e agressivo do texto. Convoca aquele estranho empregado para conversar e se fascina com a irreverência, humor e agilidade mental do rapaz, e lhe propõe uma belíssima promoção, com direito à participação nos lucros e tudo. O novo negócio da empresa era uma atividade ainda incipiente, computadores. DiCaprio pede tempo para pensar. A recusa, inconcebível para qualquer outro funcionário, desperta no chefe um desejo ainda maior de convencer aquele funcionário "original" a aceitar a oferta. O chefe pensa que DiCaprio recebeu proposta de outra empresa; é a única explicação para que ele receba a oferta de forma tão altiva. Nunca imaginaria que o plano de DiCaprio é vagabundear em Paris, e ser sustentado, pelo menos inicialmente, pela esposa.

Um dia, na praia com um casal de amigos, DiCaprio revela seu dilema. A esposa, que não sabia da oferta, escuta-a perplexa. Seu sonho, tão cálido, tão desesperado, de fugir à tediosa vida burguesa americana, parece escorrer pelo ralo, levando junto sua vida.

A leitura deste filme é complexa. De certa forma, a esposa vive uma utopia extravagante. A proposta de ir à Paris constrange todos, os amigos do casal, os colegas de trabalho, e inclusive a nós, espectadores. É uma afronta. Como renunciar a um bom emprego para viver um sonho incerto? É o tipo de coisa que não se faz! Simplesmente não se faz! Apenas os ricaços podem fazê-lo! Pobres e classe média, não! No começo do filme, quando eles se conhecem, DiCaprio, um jovem inteligente e engraçado, com boa instrução, trabalhava na estiva. O emprego na seguradora, onde seu pai trabalhara por toda a vida, era um grande avanço. Ganhava bem e vivia numa confortável casa numa bela e pacata rua de subúrbio, a Revolutionary Road.

A personagem de Kate Winslet era uma atriz fracassada; mas continuava sendo uma linda mulher, cujo charme, cultura e inteligência sobressaíam no universo medíocre em que eles viviam. E ainda tinha sonhos.

No fundo, todos sentem inveja do sonho de Kate Winslet; a cena em que eles falam de sua intenção a seus amigos mais próximos mostra bem isso. Sua idéia, de vender tudo e ir morar em Paris, era uma idéia por demais excêntrica! Era arriscado, louco, e mesmo assim, uma idéia magnífica! Ela vai à uma agência e assegura o emprego de secretária da ONU. Ganharia um bom salário, suficiente para sustentar o casal. Eles eram jovens, aventurosos, bonitos, inteligentes, e saberiam enfrentar as dificuldades que topariam no caminho. DiCaprio, um jovem extremamente ágil e esperto, logo encontraria o que fazer.

DiCaprio, no entanto, dá para trás. A proposta da empresa era irrecusável. Ganharia muito dinheiro. E, afinal, ele não era um artista. Sua mulher o idealizava, como se ele fosse um novo Henry Miller, que só precisasse de tempo, paz e a sombra da Torre Eiffel, para escrever romances que abalariam os alicerces da literatura moderna. Ele não escrevia, não compunha músicas. Era um homem interessante, só. Divertido, simpático, inteligente, muito bonito, e só. Talvez ganhasse dinheiro e ficasse rico. A maioria absoluta das mulheres se contentaria com isso; mas não a personagem de Kate Winslet.

Sua esposa fica mais do que arrasada. Havia depositado todas as suas esperanças naquele sonho tão grandioso, tão lindo. Ah, ia esquecendo. Um derradeiro fator surge para enterrar de vez a utopia. Ela fica grávida intempestivamente. Todas aquelas semanas de excitação com a perspectiva de mudar de vida decerto intensificaram o desejo, e estamos nos anos 50, ainda não há formas seguras e práticas de se prevenir. Desesperada, ainda propõe ao marido que lhe permita fazer um aborto. Ele rechaça a idéia veementemente.

O sonho naufraga nos escolhos da realidade. O final, que não revelarei, é bem triste.

Por que, então, lembrei da ditabranda da Folha de São Paulo?

Porque esse tipo de coisa nunca é computado na balança da história. Os editores da Folha, quando avaliam a gravidade da ditadura militar, não olham nunca para os sonhos destruídos de milhões de brasileiros. Para o sonho destruído de toda uma nação! As décadas de 60 e 70, em todo o mundo desenvolvido, foram anos de entusiasmo, glória, aventuras, arte, revolução, e sobretudo muita liberdade e muita democracia. O Brasil não pôde viver esse momento. Enquanto os EUA e Europa viveram anos de juventude, amor, revolução sexual, engajamento político e tomada de consciência, o Brasil viveu um período de retrocesso democrático e miséria intelectual.

Esses ditadorzinhos midiáticos nunca perceberão isso. Nos anos 60, os sonhos eram grandes. Havia esperanças de se levar educação pública de qualidade para toda a população brasileira, de se reduzir a miséria e a desigualdade social. Possivelmente muitos desses sonhos encontrariam tremendas dificuldades. Mas era preciso tentar! Quantos milhões de brasileiros não poderiam ter nascido em melhores condições se não houvesse existido a ditadura? Quantos milhões de crianças não teriam deixado de morrer precocemente não fosse o desprezo pelo social manifestado pelo regime militar?

Há pouco tempo, assisti no youtube a um dos programas sobre a ditabranda feitos pela Record. Emocionei-me muito com a entrevista com mulheres que foram torturadas pela ditadura, e que afirmaram terem sido torturadas mais uma vez agora, com essa história de ditabranda. Senti uma indignação muito grande. Mas também um poderoso sentimento de solidariedade para com elas. E também experimentei um forte sentimento de fraternidade para com todos que participaram do ato contra a Folha, realizado há poucas semanas na Barão de Limeira.

O homem é um animal político, dizia Aristóteles, e eu acrescentaria que também é um animal que sonha, e que esses sonhos são tão importantes quando tudo o mais, tão importantes quanto o desenvolvimento econômico, a estabilidade no emprego. Uma pessoa que parou de sonhar é uma pessoa semi-morta, um zumbi.

A ditadura militar brasileira, e seus congêneres em toda a América Latina, portanto, representou um golpe terrível, uma descida aos infernos mais sombrios da existência de um povo, e é muito revoltante que aqueles que se presumem fazer parte da "elite intelectual" desdenhem de um fato tão absolutamente insofismável; e mais, que finjam não saber que sua atitude significa um ataque abjeto e covarde a brasileiros a quem a ditadura inflingiu sofrimentos desumanos; sejam os que, por sua condição social e cultura, têm consciência disso, sejam os milhões que, justamente por culpa da ditadura, não adquiriram consciência política de sua condição de vítimas históricas.

Flaubert dizia que era necessário muita melancolia para entender a destruição de Cartago, uma das mais belas cidades da Antiguidade. Homero sabia disso, quando descreveu tão soberbamente a tomada de Tróia, onde os adversários dos gregos são tratados com veneração similar à dispensada aos grandes heróis do exército de Agamemnon. Walter Benjamin explica que o entendimento da história requer imaginação, que é muito distinta de fantasia. Para apreender, portanto, o sentido dramático da ditadura brasileira, não se deve ater apenas a estatísticas; urge um olhar humanista, universal, atento às desgraças particulares e aos danos nacionais; que leve em consideração, sobretudo, as consequências; que avalie a extensão das cicatrizes. Só assim teremos uma apreciação aproximadamente justa do significado do golpe militar; e estou convicto de que uma análise honesta e criteriosa resultará numa conclusão bem diferente daquela manifestada nos editoriais da Folha de São Paulo.

24 de abril de 2009

Dylan e Jonnhy Cash

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Girl From The North Country

(Bob Dylan)

Well, if you're travelin' in the north country fair,
Where the winds hit heavy on the borderline,
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.

Well, if you go when the snowflakes storm,
When the rivers freeze and summer ends,
Please see if she's wearing a coat so warm,
To keep her from the howlin' winds.

Please see for me if her hair hangs long,
If it rolls and flows all down her breast.
Please see for me if her hair hangs long,
That's the way I remember her best.

I'm a-wonderin' if she remembers me at all.
Many times I've often prayed
In the darkness of my night,
In the brightness of my day.

So if you're travelin' in the north country fair,
Where the winds hit heavy on the borderline,
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.

O valor das ruas

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(Henry Cartier-Bresson)


Blogueiros reacionários, assustados diante da avassaladora onda popular em favor de Joaquim Barbosa, passaram a esnobar o que pensa a massa. É engraçado a relatividade com que esses boçais valorizam a opinião pública. Deixa quieto. Se eles não dão importância ao que as pessoam pensam, a democracia, através do sufrágio universal, dá. Cada um, um voto. Cada internauta que apoiou Barbosa, se o Supremo abrisse alguma de suas votações ao público externo, estaria com ele, e contra o senhor já popularmente conhecido como Gilmar "Dantas". De resto, vale sempre lembrar: Gilmar foi indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; Barbosa, por Lula. Aliás, por pura vaidade, informo aos leitores que também faço parte do clã dos Barbosa: Miguel Barbosa do Rosário.

O desprezo pelo povo é um vício plutocrata, conservador, anti-democrático por excelência. Outro dia estava folheando a história dos Estados Unidos de Henry Adams e me deparei com uma passagem em que ele descreve o ódio crescente das elites americanas do século XIX pelo sistema democrático. Alexander Hamilton, famoso político conservador (até hoje venerado pela direita), teria resumido o pensamento de seu grupo durante um jantar, onde, dirigindo-se a um adversário seu ali presente, diz o seguinte: "A sua gente, meu caro, é uma grande besta". Your people, sir, is a great beast. A maior parte da grande imprensa americana do século XIX alinhava-se a estas idéias conservadoras. Felizmente, existiram renomados intelectuais, escritores, acadêmicos, empresários, que entenderam a importância da democracia para o desenvolvimento econômico, político e, sobretudo, moral, dos Estados Unidos da América.

Todo brasileiro deveria ter em casa um livrinho intitulado "Constituição Federal". Ali, no Título I, que trata Dos Princípios Fundamentais, temos um Parágrafo Ùnico que afirma, peremptoriamente, o seguinte: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição". São palavras que constrangem a direita, mas que, para mim, são muito claras. Todo o poder, inclusive o poder do Supremo, está submetido ao povo brasileiro. Portanto, respeitem a opinião popular!

The House of Rising Sun

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There is a house in New Orleans,
They call the Rising Sun
And It's been the ruin of many a poor boy
And God, I know, I'm one

My mother was a tailor
She sewed my new blue jeans
My father was a gambling man
Down in New Orleans

And the only things a gambler needs
Is a suitcase and a trunk
And the only time he's satisfied
Is when he's all a-drunk

I've got one foot on the platform
The other foot on the train
I'm going back to New Orleans
To wear the ball and chain

So mothers, tell your children
Not to do what I have done
Spend your life in sin and misery
In the house of the Rising Sun

*

Uma obra fundamental

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Já andei falando, en passant, sobre esse livro. Na faculdade, não me mostraram, apesar de ser um clássico escrito por um brasileiro contemporâneo. Absurdo. É uma obra erudita, profunda, perspicaz, universal. Professores, atenção! É um livro que pode ser dado já no Segundo Grau.

Ficha Técnica:
Título: Controle da Opinião Pública - Um ensaio sobre a verdade conveniente
Autor: Nilson Lage
Editora Vozes, 1998
405 páginas
vendas@vozes.com.br

*

Aproveitando a oportunidade. Deixo aqui um link para uma belíssima palestra realizada pelo Dr.Nilson Lage.

E ó, um artigo de Lage na contra-mão de seus "coleguinhas", comentando sobre o caso Larry Rother, que xingou Lula de bêbado e disse que o pai do presidente estuprava os filhos.

*

Em tempo, Nilson Lage é considerado, de longe, um dos maiores estudiosos brasileiros da atividade jornalística. Dá aula da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

23 de abril de 2009

Mídia Versus Congresso

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(Joaquim Barbosa, o "cara" da vez)


O deputado federal Michel Temer (PMDB), presidente do Congresso Nacional, afirmou que a instituição precisa se "reconciliar com a opinião pública". Até aí tudo bem. Surpreendeu-me, no entanto, a frase seguinte: "e com a opinião publicada". O conceito de opinião publicada ganhou notoriedade a partir de 2006, quando se começou a perceber a diferença cada vez mais profunda entre o que pensa a sociedade, incluindo aí suas elites intelectuais, e a opinião de meia dúzia de colunistas e apresentadores de televisão. Há tempos que venho percebendo, por parte dos parlamentares de todos os matizes ideológicos, uma tomada de consciência sobre a hostilidade visceral da imprensa contra o parlamento brasileiro. Trata-se de um fenômeno anterior ao governo Lula e que reforça minha crença de que a imprensa vem se tornando, cada vez mais, um elemento nocivo ao espírito democrático.

O deputado federal Ciro Gomes, do PSB, esclarece que há mais de 40 anos os parlamentares têm direito a passagens aéreas, para si e para terceiros. Não há restrição a parentes, amigos ou amantes. É um privilégio? Sim, é um privilégio, que dura 4 anos. É um gasto alto? Sim, é um gasto alto. Mas uma democracia custa caro. Na moderna e industrializada Inglaterra, os contribuintes pagam passagens aéreas para membros da família real viajarem para onde quiserem - não por 4 anos, mas pela vida inteira. Em todas as monarquias do mundo, sempre ocorreu a mesma coisa. Isso sim eu acho um absurdo, porque sou contra a monarquia. Sou partidário do regime democrático e republicano, onde elegemos 513 deputados federais, pagamos-lhes salários de 17 mil reais, damos-lhe passagens aéreas, ajuda de custo para residência, verba de gabinete, dentre outros privilégios. É muita coisa? Não sei. Talvez sim, talvez não. A sociedade lhes concede esses privilégios de boa vontade, democraticamente, para que eles tenham mobilidade e força para enfrentar os grandes inimigos da pátria. Se não o fazem, é outra história. Mas um deputado não é, pelo menos teoricamente, um adversário do povo - é antes seu aliado, seu representante!

O que eu sei é que um deputado precisa de passagens aéreas para seu exercício parlamentar. Tanto é que todos os parlamentos do mundo oferecem passagens aéreas a seus membros. Nos Estados Unidos, segundo Ciro Gomes, os deputados têm um cartão de crédito de valor quase ilimitado exclusivamente para viagens aéreas. Fiquei sabendo ainda que os deputados de Alagoas custam muito mais, per capita, do que seus colegas federais. E aí? O interesse da mídia, todavia, é criar problema no âmbito federal; os estados que se danem.

Existem abusos? Sim, mas é preciso não esquecer que a orientação da casa era de que as passagens aéreas estavam disponíveis para uso pessoal dos parlamentares. Como se fizesse parte do salário. Se eles usavam sem sabedoria, de forma deslumbrada, é um problema sério, mas não creio que justifique ataques midiáticos que causam uma virtual paralisia do Congresso Nacional, em plena crise econômica.

O Nassif tem alertado continuamente: há escândalos muito mais graves no ar, envolvendo Daniel Dantas et caterva, e que remontam a um processo de privatização que, cada vez mais, exala um mau cheiro de algumas dezenas de bilhões de reais.

O dinheiro dos parlamentares é, pelo menos, um privilégio legal, constitucional; o problema da corrupção está nos recursos desviados nas sombras da noite, na influência de grandes empresários sobre a consciência dos parlamentares, no conluio entre meios de comunicação e o crime organizado.

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O escândalo anterior, sobre a quantidade enorme de diretores, foi mais ridículo ainda, porque se tratava, aparentemente, da estratégia de “patrão”, como se diz. Trabalhei numa gráfica que era assim. Todo mundo era diretor. Diretor de máquinas, diretor de informática. Diretor de diagramação. Era uma gráfica pequena, com poucos funcionários, mas tinha uns 10 diretores. A razão disso é dar auto-estima e senso de responsabilidade aos empregados. Se o número de empregados era excessivo é outra história. No entanto, criaram um factóide bombástico, como se os tais diretores fossem nababos ociosos, liderando hordas de funcionários incompetentes.

*

Enfim, a pergunta é: por que agora? Se os deputados usam passagens aéreas há décadas, e os jornalistas sempre tiveram acesso a essas informações, porque só agora transformaram isso num escândalo? A grande imprensa procura, mais uma vez, produzir instabilidade política. Alguém determinou que o papel da imprensa é atacar as instituições políticas, que passam a ser, sistematicamente, ridicularizadas. As informações relevantes sobre a economia brasileira - aumento ou redução da safra agrícola, projeções de receita de exportações, entrevistas sobre o pré-sal e sobre a construção das grandes refinarias, debates sobre as leis em trâmite no Congresso - tudo isso é omitido da população brasileira, para a qual é servida, diariamente, uma sopinha rala, de química altamente cancerígena, com toxinas ideológicas e mentiras deslavadas.


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A imprensa, definitivamente, não respeita as instituições políticas ou o funcionalismo público. Venera quem ganha 1 milhão de reais no Big Brother, apresentadores de tv que faturam milhões por ano, mas um deputado federal, responsável pela execução de leis que mudarão a vida e o destino de várias gerações de brasileiros, não pode ganhar 17 mil reais por mês, não pode ganhar passagens aéreas e é um absurdo que receba auxílio moradia. A nossa imprensa, que na verdade é um partido político, gostaria que voltássemos à democracia censitária e aristocrática britânica do século XVII, quando parlamentares não recebiam salários e, portanto, tinham que ser muito ricos para financiar a sua atividade política. Como nossa elite aufere lucros astronômicos, fica óbvio que a gritaria contra os ganhos dos deputados visa hostilizá-los diante do populacho.

As pessoas devem entender que o Brasil precisa de um parlamento confiante, bem remunerado, forte, que se sinta seguro para lutar a batalha ideológica contra os magnatas da comunicação e da indústria – e digo contra não no sentido de ser inimigo desses segmentos, e sim no de estabelecer um confronto democrático.

*

Torna-se, para mim, cada vez mais claro, que uma sociedade pós-industrial, com enorme concentração populacional e, portanto, convivendo com riscos colossais, como epidemias, crises econômias e instabilidades sociais, precisa criar regulamentação rígida para sua imprensa. Não no intuito de amordaçá-la, e sim no de instituir um verdadeiro regime de liberdade, que só ocorre quando há lei. O que vemos hoje é uma ditadura terrível de diretores de redação sobre a consciência e a ideologia de jornalistas.

Por exemplo, o jornal O Globo publicou editoriais fortemente agressivos - embora disfarçados com o manto da ironia - contra instituição da hora extra em sua redação! Aliás, o fato do sindicato dos jornalistas do Globo, com apoio do sindicato municipal, ter obtido essa vitória, me deu uma grande alegria. Mostrou que ainda há vida, contradição e inquietude nas redações.

21 de abril de 2009

De agência antimaconha à FBI brasileiro

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(uma foto bonita da Sophia Loren, apenas para enfeitar o blog)


Sinto que as pessoas estão fazendo uma grande confusão entre política e polícia. A política é uma atividade que, embora com forte trabalho de bastidores, necessita de transparência e divulgação de seus atos. A polícia vive uma situação contrária. Precisa de segredo. O político trabalha ao sol (teoricamente, ao menos). O policial trabalha nas sombras. Por que? Porque o policial existe para prender bandidos, cujas atividades ilícitas levam-no às partes escuras do mundo.

Um trabalho como o da Polícia Federal, que mexe com as altas esferas do poder, precisa ser conduzido com mais discreção ainda. Mais que isso: é obrigado a usar táticas de diversionismo, para distrair o adversário. É uma guerra, afinal. Num mundo sem grandes conflitos bélicos, o maior desafio dos estrategistas é vencer o crime organizado, cujos cérebros frequentemente ocupam poderosos cargos republicanos.

As operações da PF, definitivamente, não necessitam ser acompanhadas pela imprensa ou pelos cidadãos. Ao contrário, precisam transcorrer em sigilo. Autorizados pela Justiça, policiais espionam suspeitos, grampeiam telefones, disfarçam sua identidade, enfim, fazem de tudo para pegar os vilões. Sobretudo, procedem de acordo com métodos específicos, criativos, sigilosos, surpreendentes.

Portanto, os cidadãos, mesmo bem-intencionados, que continuam dando palpites sobre o que deveria ou não fazer a PF, sobre quem deveria ser ou não o seu diretor, estão fazendo-no sem ter a mínima idéia da seara em que se metem. Se os criminosos continuam sendo pegos, qual a diferença entre Paulo Lacerda ou Luiz Fernando Corrêa? A nossa democracia é representativa e hoje, pensando bem, acho ótimo que assim o seja. O brasileiro tem que votar no deputado, no senador e no presidente. Quem escolhe o diretor da PF é o ministro da Justiça, que por sua vez é designado pelo presidente da República. Com sua vaidade inflada por ter lido dois ou três jornais e lido quatro ou cinco blogues, o brasileiro se acha suficientemente informado não apenas para saber quem será o melhor técnico da seleção, como também o diretor mais preparado e honesto para a PF. Não é assim. Ele não tem informação suficiente para saber se Paulo Lacerda é realmente tão melhor que Corrêa.

É como um leigo dar palpite numa conversa entre dois neuro-cirurgiões sobre a melhor forma de operar o cérebro de uma criança. O que importa, aos cidadãos, é ver as quadrilhas desbaratadas e os criminosos condenados. Isso está acontecendo e aconteceu com a Satiagraha. A PF praticamente acabou com a farra do Opportunity, iniciada pela privatização do sistema público de telefonia e permitiu que Dantas sofresse a sua primeira condenação pela Justiça Brasileira. No próximo pedido de prisão, ele não mais se beneficiará de um habeas corpus, porque não é mais réu primário - a menos que o excelentíssimo Gilmar Mendes, para proteger seu chefe, resolva mudar também esta lei.

Protógenes é apenas um pião neste tabuleiro. Seu afastamento da PF talvez lhe proporcione a estabilidade emocional de que necessita, em vista de sua paranóia constante. E o que é pior: paranóia com razão de ser. Há poucos meses, o carro de Protógenes sofreu um problema em seu radiador, e o delegado assustou-se profundamente. Ao chegar em casa, escreveu em seu blog que havia sofrido um atentado. Talvez tenha sido apenas paranóia sua. Talvez não. Talvez alguém realmente haja mexido em seu carro.

O que é imperdoável, no entanto, é o envolvimento de Protógenes com o PSOL. Ele está usando a notoriedade que conseguiu à frente da Satiagraha para dar prestígio a um partido de oposição. Ora, está usando o capital político da Polícia Federal contra a própria instituição. Agindo como se a Satiagraha tivesse sido a única operação importante da PF. Como se fosse a última. Como se fosse dele. Não acho legal ou ético esse envolvimento do Protógenes com a política partidária. É contra o regulamento da PF e tem um aspecto fortemente egocêntrico, como se ele, Protógenes, sozinho, representasse o combate à corrupção no Brasil. Tudo que ele fez na PF foi com verbas (mesmo que ele reclamasse de falta de recursos, esses existiam) públicas cedidas pelo governo federal; portanto, é incoerente e traiçoeiro ele usar esse capital acumulado para desprestigiar a própria PF.

Tenho quase certeza que ele age de boa fé, com ingenuidade, abalado pela exposição midiática imensa, de um dia para outro e pelos discursos adolescentes dos parlamentares do PSOL. Mas isso não o redime.

Protógenes pode até vir a se tornar um político. Mas eu não me entusiasmo facilmente com policiais que se tornam políticos. Eles tendem a ser inflexíveis. Confundem inflexibilidade com honestidade, e se tornam políticos sem jogo de cintura, isolados, sectários e, por fim, moralistas.

Sua carta para Obama, cheia de acusações levianas, é uma vergonha para o Brasil, um país com instituições tão sólidas quanto os EUA. Demonstra confusão mental, paranóia absurda ou imperdoável ingenuidade. O governo americano por acaso é mais honesto e confiável do que o brasileiro? Ora, tenha dó. Vá falar de integridade ianque aos iraquianos mutilados!

O próprio Protógenes declarou, diversas vezes, que o atual coordenador da Satiagraha, Ricardo Saad, é um policial íntegro e adequado à missão. Tanto que seu relatório levou o juiz federal Fausto De Sanctis a decretar a culpabilidade de Daniel Dantas e a condená-lo a dez anos de prisão. Poucas semanas atrás, no mesmo dia em que Protógenes se apresentava na CPI, a PF realizou outra devassa nos escritórios de Daniel Dantas. Quer dizer, a substituição de Protógenes e a investigação sobre a sua conduta não levaram ao esvaziamento da Satiagraha.

Especialistas em segurança pública explicam que operações que mexem com figuras poderosas da política não podem ser fulanizadas, porque isso expõe os agentes a um risco excessivo: risco de corrupção, risco de vida, risco de ter sua imagem manipulada pelos meios de comunicação favoráveis àquelas figuras. Imagine o tratamento que as redes de tv de Berlusconi não dariam aos agentes policiais que pretendessem investigá-lo?

As pessoas devem entender que não basta querer prender Daniel Dantas. É preciso ser capaz de fazê-lo. No caso do banqueiro, há necessidade ainda de articulação política. É preciso cercar o banqueiro por todos os lados, juridicamente, financeiramente, e politicamente.

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De qualquer forma, Protógenes simboliza uma nova e promissora geração de homens públicos. Você já deve ter reparado que, por trás de todas essas grandes operações da PF contra delitos nas altas esferas da sociedade, encontramos promotores, delegados e juízes muito jovens? Pois é. Esses garotos estão transformando o país. Realizando uma limpeza mais substancial que a própria Mãos Limpas da Itália, porque não é temporária e não se volta apenas para um tipo de crime.

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A operação Satiagraha é um marco do qual devemos nos orgulhar. É um feito da Polícia Federal do governo Lula, das novas gerações de policiais, promotores e juízes. Seus desdobramentos continuarão por muito tempo. A caixa de Pandora foi aberta e, apesar de toda a podridão que veio à tona, no fundo dela restou a esperança.

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No debate entre Leandro Fortes, repórter da Carta Capital, com um repórter do Globo, e um mediador, na TV Senado, o repórter do Globo, embora gaguejando, visivelmente arrependido de ter aceito participar daquela conversa incômoda, admitiu uma coisa que dificilmente ele mesmo publicará no jornal para o qual escreve: que a PF, antes de 2003, apenas aparecia na TV para queimar maconha. Eram cerimônias midiáticas, com presença até do Ministro da Justiça, filmadas por helicópteros das redes de tv, onde víamos as colunas de fumaça saindo dos montões de marihuana apreendidos pela PF. A PF tinha se tornado uma agência anti-maconha, e só.

20 de abril de 2009

A imprensa X encontros internacionais

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Não me lembro de nenhum encontro de chefes de Estado que não tenha sido apodado de "inútil" pela grande mídia brasileira, pelo fato de não trazer "propostas concretas", ou "resoluções". Depois de tantos eventos similares, pensei que os jornalistas já tivessem desconfiado que a importância deles não é trazer "resoluções concretas" e sim promover encontros políticos. A imprensa, pelo jeito, não compreendeu o significado geopolítico dessas reuniões. Pena. Poderia aproveitar mais.

17 de abril de 2009

Desenferrujando as mãos

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É com imensa felicidade que volto a escrever no blog. Estou parado desde um pouco antes da manifestação da ditabranda. Desde então, os assuntos se acumularam. Nessas últimas semanas, senti-me como um não-blogueiro, um cidadão normal, esmagado pelas notícias e opiniões alheias, estranhas. Também conversei com muita gente. Impedido de escrever, fui obrigado a falar mais. Tornei-me um tagarela. Mas ouvi muita coisa que não gostei. A lavagem cerebral promovida pelo Globo é profunda, duradoura, perniciosa. As pessoas podem não dar bola para os gritinhos da extrema-direita global (Jabor, Nelson Motta, Merval), mas acabam assimilando todas as teses centrais.

Também li muito nesses últimos meses, sobretudo clássicos de filosofia e livros de história antiga. Impressionante como as lutas se repetem ao longo da história. A briga entre ricos e pobres vem de longe, desde os primórdios da democracia grega. Gostei de saber que o próprio antiquíssimo Egito, que sempre levou a fama (para mim, ao menos) de ser uma autocracia desumana, na verdade foi a civilização mais duradoura da humanidade(cerca de 5 mil anos), e conheceu muitos momentos democráticos e com relativa justiça social. Havia cidades onde todos os jovens tinham acesso a escolas públicas, através das quais podiam ascender socialmente e tornarem-se escribas do reino.

Por outro lado, como não podia deixar de ser, também me espantei com as terríveis matanças e guerras que pontuam a história da humanidade. Os romanos, por exemplo, povo pelo qual sempre nutri simpatia, por sua cultura e humanismo, surpreenderam-me negativamente. A marcha triunfal de Roma correspondeu à escravização, morte e exploração de milhões de seres humanos. Mas tinha que ser assim, para o mal ou para o bem. E não creio que o anjo da história, conforme relata Benjamin, se deixasse impressionar. Deve ser um anjo bem cruel e cínico, embora com seus momentos de justiça.

De resto, acho importante destacar a existência de um livro intitulado Controle da Opinião Pública, do Nilson Lage, além dos trabalhos do Perseu Abramo. São obras que mostram que ainda existe (ou existiu) crítica midiática inteligente na Academia brasileira. O que talvez falte, certamente, é continuidade e interação entre os órgãos universitários e ausência destas críticas na mídia, ou ausência de uma mídia própria para divulgá-las.

Outras coisas importantes aconteceram nas últimas semanas que merecem comentário. Houve o elogio de Obama a Lula, por exemplo. "Esse é o cara", disse Obama, para depois afirmar que o nosso presidente era o mais popular do planeta. A mídia brasileira reproduziu a notícia, que foi destaque no mundo inteiro, com o esperado constrangimento, logo seguido de um meticuloso trabalho de desconstrução de sentido. Afinal, a declaração de Obama chocou profundamente setores da classe média brasileira que adoram Obama mas odeiam Lula. Porque eles adoram Obama? Porque é chique apoiar a esquerda americana. Ninguém é humilhado por Diogo Mainardi ou Reinaldo Azevedo por apoiar Obama. A desconstrução de Lula entre os meios letrados da classe média nacional tem sido bastante eficaz. Sim, porque os índices de popularidade não revelam tudo. Lembro de uma coluna social na Folha afirmando que, segundo fontes do Planalto, Lula apoiaria Jonh Mcain. Repetiram isso em várias partes. Não se queria associar Lula à Obama. Naturalmente, achar que Lula - um sindicalista nordestino, ligado, desde seus primórdios na política, com a esquerda mais autêntica, com Fidel, com célebres esquerdistas internacionais - apoiaria o candidato republicano era um estupidez e uma maquiavelismo ingênuo (se é que isso é possível), com vistas a separar, no inconsciente das elites brasileiras, a imagem de Obama e Lula. Obama de um lado, uma esquerda de primeiro mundo. Lula de outro, esquerda de terceiro mundo.

De fato, nota-se ainda, entre os brasileiros, sobretudo da elite letrada, uma melancólica falta de auto-estima que a faz considerar qualquer política doméstica como inferior à outras praticadas por nações desenvolvidas. O que mais me impressiona é a forma provinciana como as políticas assistencialistas são encaradas. Governos de direita ou esquerda do primeiro mundo praticam, desde o fim da II Guerra, um assistencialismo intenso e universal. Nos EUA, o governo dá centenas de tipos de ajuda estatal a seus cidadãos. Pensões, cupom alimentação, subsídios, as ajudas federais do governo americano a seus cidadãos é vasta. Na Europa, então, as ajudas são muito maiores. No Brasil, no entanto, qualquer ajuda federal é esnobada por nossas elites como se fosse imoral.

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Estou conformado com meu papel de ombudsman do Globo. Mas, um dia ou outro, de uma forma ou de outra, o Globo terá que me pagar, regiamente, por esse trabalho excepcional que venho fazendo. Lendo meus artigos, os editores do Globo poderão, talvez, salvar o jornal da falência moral e financeira para onde caminham, caso continuem chafurdando e se afundando na lama nazista. Vejam essa notinha:

Revolução

Entre as causas da grande evasão escolar detectada por estudo da Fundação Getúlio Vargas, na faixa de jovens entre 15 e 17 anos, há professores mal preparados, incapazes de conquistar alunos para o aprendizado.

É outro forte argumento a favor das mudanças no gerenciamento dos professores da rede pública, para que sejam bem treinados, passem a trabalhar por metas e recebam parte da remuneração mediante avaliação.


Nossa senhora! Os professores do Estado do Rio não precisam de nenhum treinamento! Muito menos de "remuneração mediante avaliação"! Quem irá avaliar? O Globo? O Serra? Ora, o que os professores do estado precisam é ganhar salários decentes! Porque o Globo não faz campanha para o Cabral elevar o salário dos professores? Porque não diz quanto eles ganham? Eu digo: 420 reais por mês. É um terço do salário dos professores da rede municipal! Tenho um amigo que tem registro de professor do município e do estado. Ele me disse: Miguel, estou abandonando o estado, porque o salário é muito baixo. É simples assim, caros editores do Globo. Não é impondo competição empresarial entre os professores que o ensino irá melhorar. Vão aplicar sua competitividade no departamento de vendas da Amil, não no ensino público brasileiro!

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Globo defende remoção de favelas e muros cercando favelas. Muro com função ambiental é uma idéia equivocada, porque impede a circulação dos animais silvestres.

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Também não escrevi muita coisa sobre a ditabranda. Fá-lo-ei em breve. Adianto que a manifestação em frente à Folha me comoveu profundamente, e representou, para mim ao menos, um importante marco na história política nacional. Ainda falaremos muito sobre a ditabranda.

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Paro por aqui. Não posso exagerar. Obrigado pelas mensagens. Estava com muita saudade de todos vocês.

15 de abril de 2009

Ano pré-eleitoral?

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Manchete do Globo desta terça-feira.

Em ano pré-eleitoral, governo libera 1 bilhão para prefeituras.


Genial este novo conceito do Globo. Como temos eleições de dois em dois anos, qualquer ano agora pode ser considerado ou eleitoral ou pré-eleitoral. E assim qualquer ação assertiva de um governo (desde que de esquerda, claro) pode ser esnobada como sendo eleitoreira. 2009 é ano pré-eleitoral. 2010 é ano eleitoral. 2011 será pré-eleitoral, e assim por diante.

O que me surpreende, todavia, é a falta de visão de nossos editorialistas. Obama libera 1 trilhão para bancos falidos, e eles acham ótimo. Lula libera dinheiro para prefeituras, que empregam milhões de pessoas, que respondem pela educação básica de toda a população infantil brasileira, e eles acham um ato irresponsável.

Os grandes economistas do mundo, os mandatários mais respeitados, sugerem que o Estado amplie seus gastos, incluindo aí funcionalismo. Mas o Globo entende o funcionalismo público como "supérfluo". Para o Globo, um reajuste, um aumento, nos salários dos servidores, é sempre um fato negativo. Claro que eles não dão o devido destaque às pesquisas apontando o serviço público brasileiro com uma quantidade pequena de funcionários por grupo de 100 habitantes - menor do que nossos vizinhos, e muito menor do que em qualquer país desenvolvido.

Outro dia, o Globo veio comparar o Brasil com a União Soviética. Sem brincadeira. Depois acusam a mim de usar linguagem de 50 anos atrás.

E ainda vem atacar o Brizola com acusações sem prova! Com argumentos do SNI! Tenham dó! Vão pra ditabranda que os pariu!

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Volto aos poucos. Estou melhorando. Pelo menos consegui me formar. Agora sou, tardiamente, bacharel em Comunicação Social.

13 de abril de 2009

Lambanças policiais

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Por João Villaverde

O corregedor Amaro Vieira Ferreira, da Polícia Federal, foi indicado tempos atrás como relator do inquérito interno da PF para averiguar a conduta do delegado Protógenes Queiroz durante a Operação Satiagraha. O inquérito de Amaro vem gerando uma farra desnecessária: ele ainda não terminou suas investigações, mas trechos mil já foram vazados. Detalhe: o inquérito nasceu para investigar o vazamento e suposto favorecimento da Satiagraha à TV Globo, que foi a única empresa de comunicação a conseguir imagens dos presos pela Satiagraha, no dia 08 de julho do ano passado.

Quer dizer, uma situação ridícula se desenhou: o inquérito do vazamento foi vazado.

Mais que isso, o corregedor Amaro pratica uma série de ilações em seu relatório (que, de tão vazado, pode ser lido clicando aqui). Ao invés de investigar e apurar o suposto vazamento de Protógenes - que nada influi no resultado da Satiagraha, bom lembrar - o corregedor Amaro prefere atacar e desqualificar Protógenes - aí sim, numa tentativa de anular os efeitos da Satiagraha.

Num dos trechos, Amaro afirma que a participação de agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ao lado de funcionários da Polícia Federal durante a Operação Satiagraha foi ilegal. Segundo o corregedor, os servidores da Abin foram "introduzidos e mantidos clandestinamente" nos trabalhos da operação "por iniciativa de Protógenes", sem autorização judicial ou formalização.

Detalhe importante: a Abin e a Polícia Federal pertencem a algo mais amplo: o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). E segundo prevê a legislação que rege os princípios do Sisbin, os agentes da inteligência brasileira - Polícia Federal e Abin - podem participar de operações de ambas instituições e essa ajuda não necessita de autorização judicial ou mesmo de formalização. Enquanto a Abin e a Polícia Federal tem prerrogativas e trabalhos distintos, seus objetivos são os mesmos e algumas práticas operacionais são semelhantes. Ou seja, a participação de agentes de uma instituição em operações e tarefas da outra não é, de maneira alguma, ilegal.

Ao invés de inquerir ou averiguar, o delegado Amaro está desvirtuando seu papel de corregedor, preferindo atacar um delegado de sua instituição, a PF, e o próprio Sisbin.

O mais grave disso tudo é que ninguém discute nada. Só o que vemos é a repercussão do inquérito (vazado) de Amaro, como se aquele conjunto de ilações fossem todos verdadeiros. Fica uma situação engraçada: quando tiveram acesso aos relatórios de Protógenes, foram logo procurando erros e atacando o delegado, acusando a Abin e perseguindo o juiz federal. Já o inquérito (vazado) da corregedoria da mesma PF é tido como indiscutível, como verdade verdadeira. Nessa jogatina de interesses, a mesma instituição - a Polícia Federal - passa de incompetente a super inteligente em questão de meses.

O que incomoda é que não é preciso muito trabalho ou pesquisa para discutir o inquérito (vazado) do corregedor Amaro. Não precisa conhecer o regimento interno da PF, da Abin, a constituição do Sisbin ou mesmo a legislação brasileira. Precisa apenas pegar o telefone, ligar para alguém que conheça e fazer uma pergunta:
"Abin e PF, é ilegal?"
- Não, não é.

Pronto, acabou.

9 de abril de 2009

A Folha no pau de arara

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3 de abril de 2009

Essa é demais!

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Eu já sabia disso, por outra pesquisa, feita pelo Ministério do Trabalho. Agora o IPEA confirmou: o Brasil tem pouco funcionário público na comparação com outros paísees, tanto do primeiro mundo quanto da América Latina.

O artigo está no Azenha. A informação desmente a tese do "inchaço da máquina pública".

2 de abril de 2009

3 comentarios

Esse texto do Perseu Abramo é muito atual. Obrigatório para quem estuda a mídia.

1 de abril de 2009

4 comentarios

Volto aos poucos a escrever pelo meu Twitter. Acredito que em uma ou duas semanas, estarei apto para voltar a escrever neste blog com força total!!! Meu Twitter: http://twitter.com/migueldorosario