31 de janeiro de 2009

Muita calma nesta hora

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O exercício da política é uma atividade diária que requer paciência, determinação, bom humor, sabedoria e jogo de cintura. Os meios de comunicação, desde o fim da ditadura, vem lançando, entre a população, campanhas contra as instituições políticas do país. Contra os politicos e contra a política. O brasileiro comum, e notadamente a classe média, passou a acreditar que a classe política brasileira é mais corrupta do que a de outros países. Não é verdade. Existe corrupção em toda parte. Esta semana mesmo, um governador dos EUA foi impedido por ter tentado vender um cargo para senador. Para a vaga deixada por Barack Obama. Fosse aqui no Brasil, tentariam impedir o Obama também, com certeza... E mesmo que a classe política brasileira fosse a mais corrupta do mundo, as pessoas devem entender que essa é mais uma das consequências da ditadura militar, que acabou com os tribunais de conta e intimidava qualquer tipo de denúncia. Quem ousaria denunciar diretores e presidentes das estatais, quase sempre militares de alto escalão ou apaniguados deles? Com o fim da ditadura, uma economia destroçada, instituições políticas desorganizadas, uma sociedade traumatizada, serviram como prato feito para grupos políticos e empresariais tomarem o poder e assaltarem os cofres públicos. Os poucos funcionários ainda honestos que restaram nas instituições de auditoria do Estado ainda não se sentiam seguros (e falo de segurança pessoal e de suas famílias) para começarem a combater efetivamente a chaga da corrupção. Não se fala muito destas sequelas, mas entendê-las serve para não acharmos que a corrupção é inerente ao caráter do brasileiro. Besteira pensar isso. O ser humano é vulnerável à tentação em qualquer parte do mundo. O importante é termos instituições sólidas que possam dar segurança e realizar auditorias constantes da máquina pública. Assim se vence a corrupção, com democracia e Estado forte. É o que estamos fazendo.

A mídia corporativa, há décadas, difunde os valores americanos, mas de forma bastante seletiva. O ideal de nacionalismo, por exemplo, extremamente forte lá, aqui é zero. A participação da classe artística na política, nos EUA, é normal. Recentemente, roteiristas de todo o país realizaram uma greve geral. Pararam a produção audiovisual e teatral dos Estados Unidos! Claro que não vimos nenhuma reflexão por aqui sobre o novo sindicalismo americano. Clint Eastwood foi prefeito de sua cidadezinha natal. Depois se arrependeu, mas só o fato de ter se interessado, já mostra o quanto o americano pensa a política sem o constrangimento que há por aqui. Temos o Michael Moore... e nada me tira da cabeça que a eleição de Obama teve a ver com o prestígio conquistado por Morgan Freeman, Denzel Washington, Wesley Snipes, entre tantos astros negros. Os diretores criaram papéis especiais para eles: investigadores cultos, geniais, criativos; presidentes; gânsgters carismáticos. Enfim, é claro que a cultura tem a ver com a política e o último negro do qual me lembro na tv brasileira, afora a baianagem eterna de Lázaro Ramos, é um deputado corrupto interpretado por Milton Gonçalves. A culpa não é dos atores, nem necessariamente dos diretores. É uma culpa coletiva. Ninguém daria bola, lá, para livros que negassem o racismo. O Estado e as universidades privadas norte-americanos patrocinaram, por décadas, vastos programas de cotas, que inclusive estão agora em fase declinante, pois o percentual de negros no serviço público, por exemplo, chegou a um nível satisfatório.

A mesma coisa vale para o caso Cesare Battisti, o italiano para quem o governo brasileiro decidiu dar asilo político. Não há um colunista da mídia, na imprensa escrita ou na televisão, que defenda a soberania do Brasil. Um leitor do blog lembrou bem: há décadas que a Europa e os Estados Unidos concedem asilo a ditadores sanguinários de todo mundo, que mataram não quatro ou duas pessoas, mas centenas de milhares. Ninguém fala nada. A mídia de seus países não transformou estes casos em crises políticas contra seus próprios governos. Pior, a disputa entre Brasil e Itália só tomou as proporções que tomou porque a imprensa italiana defende a Itália e a imprensa brasileira defende... a Itália. O governo brasileiro não tem onde se apoiar a não ser na internet, na blogosfera, onde as opiniões são sempre fragmentadas, e que, infelizmente, ainda não adquiriu o status que merece junto às instituições formais. De qualquer forma, a blogosfera, universo fortemente anárquico, não transmite a segurança de um editorial de uma grande e tradicional publicação. Aposto que se um colunista da grande mídia, um só, um Veríssimo, um Zuenir Ventura, um Cony, tivesse o culhão de peitar os barões da mídia, esta crise diplomática esfriava rapidamente. Mas isso é difícil acontecer. Essas pessoas vivem cercadas, sob a pressão silenciosa dos sorrisos falsos e tensos que trocam nos coquetéis que frequentam, no custo de vida cada vez mais alto de sustentar filhos, netos e até bisnetos.

Outro problema que identifico é que, em vista dessa situação, algumas pessoas tendem a revelar um desespero que, de forma nenhuma, é conveniente à nossa luta. Demonstra fraqueza, temor, desorganização e falta de confiança. Começam a pedir a intervenção do presidente. Que ele vá para a televisão e debele a rebelião dos poderosos. É uma visão simplista. Esse enfrentamento direto é justamente o que a direita deseja, para poder lançar uma série de adjetivos pré-fabricados que guarda numa sacolinha só para essa ocasião. E vocês acham que a elite ficaria do lado de quem? Não dá para saber. O pior de tudo é que, infelizmente, o Brasil depende da elite. Poucos empresários respondem pela geração de milhões de empregos, e, paradoxalmente, os mesmos empresários não dependem desses milhões de empregos. Se quiserem, podem fechar as fábricas, demitir 600 mil pessoas, e irem desfrutar a terceira idade numa ilha do Caribe. Esse é o lado trágico da história, essa dependência, agravada na fase avançada do capitalismo em que vivemos.

Não importa, contudo. Não podemos nos desesperar. Confiem no povo brasileiro. Já vivemos crises muito piores, com a mesma mídia sempre sabotando tudo. A luta inclui a dor, o sofrimento, a renúncia. Querem desempregar? Querem sabotar o Brasil? Que o façam. O que não faltará são empresários para substituí-los. Nem todo mundo está nadando em dinheiro. Muitos empresários querem uma chance de chegarem ao topo. Se os nababos de São Paulo estão esnobando o país, que vão embora e dêem lugar a outros. É isso que irá acontecer.

Agora, é ingênuo e contraproducente fazer ultimatos ao presidente da república. Qual o sentido? Querem que ele vá à televisão denunciar a mídia em cadeia nacional? Seria cair em provocação. O que ele tinha que fazer já fez, que foi criar a TV Brasil, que não por outra razão sofreu violenta oposição da mídia corporativa e da direita. A TV Brasil ainda está se consolidando. Dêem um pouco de tempo para ela! E mais, não falamos apenas da TV Brasil. A TV pública é um projeto bem mais amplo que a TV Brasil. Cada aparelho de TV terá acesso a quatro canais abertos de TVs públicas, com espaço para programas da sociedade civil local, das câmaras municipais, das assembléias estaduais, além da TV federal.

E temos a internet, que é um fenômeno muito novo, mas que já está fazendo a diferença. O universo virtual e informático brasileiro não está conhecendo nenhuma crise. O comércio eletrônico registrou aumento espetacular em 2008 e continua aumentando. As vendas de computadores idem. O acesso à internet prossegue crescendo a ritmo exponencial. Dêem tempo para esses novos internautas amadurecerem!

Enfim, é preciso ter paciência e confiança. O povo brasileiro tem todas as armas em suas mãos. Vejam só: o aumento do consumo está concentrado nas camadas mais baixas. A expectativa de crescimento econômico também concentra-se nestes segmentos, os quais, por razões culturais, sobretudo de poder aquisitivo, demoram mais tempo para se integrarem de forma mais pro-ativa nas discussões políticas. Mas estão entrando, e enganar-se-á redondamente quem duvidar do potencial revolucionário, filosófico, político, dessa nova classe média emergente. Parte dela poderá até ser conservadora, mas será um conservadorismo diferente. Será um conservadorismo totalmente oposto do que a direita deseja, porque defenderá melhores salários e mais intervenção do Estado na economia. O conservador rico é que deseja Estado mínimo e reclama do salário mínimo. O conservador pobrinho, que ganha de 1 a 3 salários mínimos quer mais um Estado forte e, naturalmente, um padrão de vida mais alto para os trabalhadores. Também é nacionalista. Em qualquer lugar do mundo, os conservadores são fortemente nacionalistas. O Brasil é o único lugar do mundo onde a direita não é nacionalista. Eu sei porque. Porque é uma direita concentrada exclusivamente no topo da pirâmidade social. Mas isso vai acabar. Essa direita está se auto-marginalizando em toda a América Latina, e se não mudar radicalmente, será democraticamente banida de todas as instâncias de poder.

Democracia é isso. Não tem voto, dançou. Não existe "cota" reservada para a direita ou esquerda. Se algum partido ou espectro político quiser sobreviver aos próximos sufrágios, terá que rebolar e não apenas oferecer novas plataformas políticas, mas, quando no poder, pô-las em prática. Mostrar serviço. Reduzir o desemprego, melhorar os serviços públicos, criar um ambiente mais livre para a sociedade. Não creio que o PSDB possa oferecer isso. Fosse um governo do PT que demitisse sumariamente o dirigente da Orquestra Sinfônica de São Paulo, o mundo viria abaixo. Ainda mais sabendo que o presidente da tal orquestra é nada mais nada menos que o famigerado Fernando Henrique Cardoso. E o Globo hoje deu uma notinha que parecia inteiramente escrita pela assessoria de imprensa de FHC. Ninguém faz um editorial protestando contra esta demissão arbitrária, assim também como nenhum colunista cogitou comentar a demissão de Luis Nassif da TV Cultura. Ai, se a TV Brasil demitisse um figurão desses!

30 de janeiro de 2009

Cadê o Gabeira?

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(Cao Youtao, artista chinês)

Os últimos dias têm sido pródigos em exemplos da baixa auto-estima dos brasileiros, incentivada por uma imprensa que, historicamente, se coloca num pedestal com - hoje todos vêem - fragilíssimos pés de argila.

Temos dois exemplos. A posse e as primeiras medidas do recém-eleito Barack Obama vem gerando fotos e vídeos fortemente favoráveis. No auge de uma crise, o governo americano amplia verbas para programas sociais, distribui bolsas para estudantes, cria barreiras alfandegárias, projetos que, se anunciados por um governante de qualquer país ao sul do Rio Grande, seriam recebidos com desprezo e forte crítica, como "populistas". Aqui no Brasil, por exemplo, a mídia só ficou satisfeita quando o governo federal anunciou o bloqueio provisório de 37 bilhões de reais, o que foi, na minha opinião, da parte do governo, um grave erro político. Quando, no dia seguinte, o governo anunciou o aumento de recursos para o bolsa família e merenda escolar, um acerto político para o qual tiro o chapéu, aí a mídia caiu em cima. Ou seja, é aquela velha história. O governo de SP liberou 2 bilhões para os magnatas da indústria automobilística, sem que houvesse nenhuma garantia de manutenção do emprego, e a mídia bateu palmas. Às vezes penso que uma das características marcantes da direita é o sadismo. Tento entender o que se passa por suas cabeças. Será que eles pensam que, diante da miséria, aumentará a produtividade? Que o terror ajudará as pessoas a lutarem pela sobrevivência? É algo assim? Ou será um sentimento irracional de cada um por si? Ora, os filhos das famílias de classe média recebem mesadas até a idade adulta, estudam em bons colégios, e nem por isso se tornam, necessariamente, pessoas preguiçosas. A mídia contribui para o agravamento da crise e depois protesta quando o governo amplia a ajuda social para os mais pobres. Sadismo! Reclama até das verbas para merenda escolar! Milhões de jovens do ensino médio terão merenda escolar e isso não mereceu nenhuma palavra de elogio de nossos editorialistas!

Temos ainda o caso Cesare Battisti. Algumas informações mais consistentes estão vindo à tôna. A imprensa corporativa alinhou-se em peso em favor dos ministros neo-fascistas de Silvio Berlusconi, em mais uma demonstração de xenofobia invertida: tudo que vem do Brasil é ruim e tudo que vem de fora é bom. Passeando pelas caixas de comentários de blogs, sempre me impressiono com a desenvoltura com que a classe média brasileira, e seus representantes na mídia, esculacha seu próprio país em prol de qualquer país de primeiro mundo, mesmo sendo este país a controversa Itália, governada há décadas por mafiosos.

Eu morei na Itália por quatro meses em 2007 e posso assegurar que, em muitos aspectos, o Brasil é um país muito melhor. Claro, a Itália é um país lindíssimo, uma civilização muito antiga. Antes dos romanos, existiam por lá os etruscos, um povo com tradições, ciência e linguagem bastante avançadas; no extremo sul, na Sicília e algumas partes da península, havia cidades gregas igualmente avançadas.

Mas a Itália de hoje, embora com muita coisa boa, é um país sem personalidade, que vota em Berlusconi, submete-se subservientemente ao Vaticano, e onde cresce o movimento xenófobo. Acompanhei um caso, por exemplo, de um marido que matou a mulher e tentou lançar suspeitas sobre os estrangeiros da cidade. Os italianos acreditaram rapidamente, e mesmo a imprensa publicou artigos xenófobos; por sorte, uma juíza percebeu a manobra do assassino e mandou prendê-lo.

É um país sem vida cultural autônoma. As noites terminam cedo e não se nota nem um centésimo da vibração boêmia, alucinada e genial que se espraia pelas madrugadas de São Paulo, Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Não queria falar mal da Itália. É um país, como já disse, muito bonito e espero que supere seus problemas, grande parte dos quais, de fato, fogem a seu controle, como a entrada indiscriminada de imigrantes. Economicamente, no entanto, a Itália é um país engessado, que há décadas cresce a taxas baixíssimas, próximas a 1%, e com o menor índice de renovação populacional da Europa, resultando num percentual recorde de aposentados. A Itália está virando um país de idosos, o que gera um problema gravíssimo de previdência social. Isso explica o voto maciço em Berlusconi: uma população envelhecida e temerosa com a entrada de imigrantes (um problema que a esquerda tem constrangimento em resolver). A região de Gênova, por exemplo, tem mais de 80% de seus habitantes ocupando a faixa da terceira idade - os jovens da região migram para Milão e adjacências, onde fica o cinturão industrial da Itália.

O problema da máfia, no entanto, ainda é muito grave na Itália, e pode-se ter alguma idéia assistindo ao filme Gomorra, baseado no romance homônimo do italiano Roberto Saviano. Por conta desse livro, Saviano foi jurado de morte e anda com mais seguranças do que Bush passeando por Bagdá. Lembro que há poucos meses, um chefete mafioso foi preso por lá; poucos dias depois encontraram-no morto na cela, enforcado.

É mentira que a justiça seja perfeita na Itália. Não o é em nenhum lugar do mundo. O Brasil podia, no entanto, lavar as mãos e entregar Battisti para a Itália. Mas seria uma tremenda covardia fazê-lo neste momento, em que o país está sob comando de um governo de extrema-direita, com vários neo-fascistas no poder.

*

Eu gostaria de saber uma coisa. Onde está Gabeira? Battisti disse, em sua entrevista a revista Istoé, que o deputado federal Fernando Gabeira foi a pessoa que mais o ajudou em seus primeiros tempos no Brasil. Não li em lugar algum, contudo, nenhuma declaração do nobre parlamentar em defesa da decisão de Tarso Genro. Entendo que Gabeira agora se tornou ícone das madames enraivecidas do Leblon, além dos jovens que usam camisa de Chê e votam na direita. Mas será que a lógica eleitoral fala tão forte que ele prefere manter silêncio mesmo diante do risco de ver seu amigo deportado para o fascismo de Berlusconi?

Aliás, porque a imprensa não foi atrás de Gabeira? Por que poupou o deputado desse constrangimento? Ah, eu sei porque. Por que Gabeira precisa continuar sendo uma instalação pós-moderna, como bem caracterizou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, um enigma inexplicável que pode ser interpretado à direita e à esquerda e que, por isso, pode manter seu eleitorado cativo sem precisar entrar em nenhuma polêmica constrangedora.

29 de janeiro de 2009

A contradecepção de Vik Muniz

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Confesso que fui com um pé atrás. Sou um cara cheio de preconceitos contra alguns aspectos da arte contemporânea e antes de ir à exposição de Vik Muniz esperava encontrar uns trabalhos bonitinhos, interessantes, mas sem grande consistência artística.

Experimentei, todavia, uma agradável decepção ao contrário. Embora Muniz seja o protótipo, quase um estereótipo, do artista contemporâneo pop, ele consegue sê-lo com assombrosa originalidade e inegável competência estética. Feitos com técnicas esdrúxulas, como dispor objetos sobre desenhos gigantes, de forma a obter reproduções não-convencionais de clássicos das artes plásticas, seus trabalhos são, antes de você entendê-los, extremamente bonitos, com forte densidade visual.

Com obra eclética e numerosa, é claro que nem todos os trabalhos mantêm a mesma força, mas boa parte das obras em exposição no Museu de Arte Moderna me causou uma excelente impressão. O cara é bom. Não porque usa lixões para fazer seus trabalhos, mas porque, fazendo-o, obtém bons resultados, alcançando contrastes, profundidades, linhas e contornos que me proporcionaram momentos de legítimo prazer estético, aquele velho e milenar prazer que somente Kant conseguiu explicar, fazendo-me recordar dos belos versos de Leopardi:

"Cosí tra questa
immensità s'annega il pienser mio:
e il naufragar m'é dolce in questo mare"

*

Por falar em arte, o link Gallery Flickr, no alto, está recebendo contribuições novas de arte contemporânea. Quem quiser dar uma espiada, está ficando bem legal.

28 de janeiro de 2009

Claudio, zelador e artista plástico

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Claudio, zelador do meu prédio, é um excelente artista plástico. Auto-didata, ele também estuda box tailandês (acabou de se formar instrutor) e, em épocas de eleições, reúne-se com amigos para discutir política e tomar a melhor decisão. É um cara inteligente, que não pauta sua vida e suas opiniões pelo que lê em jornais. Veio da Paraíba há muitos anos, como milhões de outros brasileiros, e hoje é um competente zelador que procura estudar o máximo nas horas vagas, tentando crescer espiritualmente. É um bom exemplo de brasileiro. Um bom exemplo de como o povo está mordendo os calcanhares da classe média, que por isso mesmo tem se revelado tão exasperada e irritadiça. Em breve, teremos grandes surpresas com o povão. Artistas plásticos, escritores e cineastas sairão da massa antes ignara. Enfim, nem tudo se resume a crise econômica ou guerras contra-midiáticas. As pessoas continuam vivendo e se instruindo, com ou sem dinheiro. Para o espírito humano, e portanto para o espírito coletivo, crises econômicas não têm nenhum significado.

27 de janeiro de 2009

Não existem gênios nem santos - nem o Mino Carta

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É por isso que não acredito em santos ou gênios. Em texto bobo, confessadamente motivado por depressão, Mino Carta reúne todas suas críticas, justas e injustas, no mesmo saco. De fato, a Carta Capital sofre boicote da publicitários e empresas. Traz apenas alguns poucos anúncios públicos. O poder econômico de São Paulo quer impor o pensamento único à força. Entendam-me. Meu respeito e admiração por Mino Carta continua o mesmo. Periodicamente, contudo, ele paga o dízimo para o ceticismo sombrio de sua ideologia sem compromisso com a realidade. O seu país de origem, a Itália, é governado por Silvio Berlusconi justamente pela falta de competência de suas esquerdas. Talvez fosse melhor que Mino direcionasse sua metralhadora depressiva para lá. Elegendo Berlusconi, a Itália envergonha a Europa. Enquanto o eleitorado conservador americano surpreende positivamente o mundo e elege Obama, a Itália retrocede. A opinião pública italiana, a meu ver, é que está "ausente".

O desenfreado Febeapá originado pelo Caso Battisti tem o poder de me desanimar. É a prova da ausência de uma opinião pública contemporânea do mundo, à altura de um país digno de ocupar o lugar que, de fato, lhe compete.


Que isso, seu Mino! Você pode dizer que não aprova a opinião pública brasileira, que ela é uma merda, que é fascista, de um lado, esquerdóide, de outro. Mas falar de ausência! A blogosfera pega fogo, com milhares de pessoas debatendo encarniçadamente, com sangue na boca, e você aí, ditando o texto para sua secretária, quer eliminar a nossa existência?

O texto é cheio de frases dispersas, soltas, sem sentido. Claro que, só por ter criticado Lula, automaticamente irá ganhar destaque em toda parte. Noblat já pescou a nota e publicou em seu site.

Mino Carta tem acessos de sabichanismo. Como se ele tivesse a fórmula para todas as questões. E tem o péssimo costume de flertar com um certo esquerdismo blasé da avenida paulista. Num dia comenta os melhores vinhos vendidos em São Paulo, noutro os melhores restaurantes dos Jardins, noutro tece loas ao MST.

Em seu texto, Mino Carta repete, ponto por ponto, a opinião da burguesia paulista. Partindo do caso Battisti, Mino envereda por lamúrios empresariais, mordidinhas ideológicas, elogios à revista Veja (!), denúncias de preconceito político. Encerra dando uma pirueta: fazendo um elogio à política externa, antes de lançar um lamúrio final, dizendo que não precisávamos do caso Battisti.

Na realidade, o caso Battisti constrange justamente aqueles que não queriam ver o governo Lula como "de esquerda", como a Carta Capital. A revista, de longe a melhor do Brasil, prefere ser, ela, uma referência de esquerda para um governo de centro ou centro-esquerda. Uma esquerda progressista, capitalista, moderna, claro. De repente, todavia, a revista se vê perante um fantasma da guerra fria para o qual não estava preparada. O ódio fascista das madames da Fiesp se intensificará, deixando a atmosfera ao redor da Carta Capital ainda mais enevoada de preconceitos ideológicos.

Acabou-se o tempo dos "mestres", que, inteligentes e bem informados, eram nossos "representantes" políticos na mídia. Hoje é cada um por si. Cada um tem que formar a sua própria opinião. Melhor assim.

A estética da mentira

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O que me deixa triste é a falta de escrúpulos com que a imprensa brasileira estupra a verdade, em prol de suas campanhas golpistas. Veja o caso do Cesare Battisti, o escritor italiano beneficiado pelo governo com um asilo político. As opiniões se dividem neste caso, e creio que não há nada de mais em criticar a decisão do ministro da Justiça. O que vem acontecendo, todavia, é a criação de um front de embate político, partidário e ideológico. A mídia corporativa talvez não quisesse esse embate. Talvez quisesse apenas usar o fato para constranger o governo e criar fatos políticos que preparem a vitória de José Serra em 2010.

Bem claro está, afinal, que a mídia não busca oferecer espaço para um debate. Ela quer ser juiz. Quer julgar e condenar Battisti e o governo. Enquanto o Estado tem o poder de encarcerar fisicamente as pessoas, a mídia tem o poder de violentá-las psicologica e moralmente.

Ia dizendo, contudo, que o grave não é criticar a decisão de Tarso. Grave é mentir. Os colunistas midiáticos que comentam o caso, sempre criticando o governo, SEMPRE citam o caso dos boxeadores cubanos. Merval Pereira, em sua coluna de hoje, não somente afronta a verdade, como vomita sobre a lógica, ao afirmar que a recente fuga de um dos pugilistas de Cuba desmente a versão do governo de que eles, após largarem a competição e fugirem com um alemão, queriam voltar. Ora, não é apenas versão do governo. Representantes do Ministério Público e da Organização dos Advogados do Brasil também entrevistaram os rapazes e afirmaram que eles queriam retornar à seu país de origem. Eles mesmos, em entrevistas concedidas em Cuba, disseram ainda mais: que agentes da Polícia Federal brasileira tentaram persuadi-los de que seria mais vantajoso, para eles, permanecer no Brasil.

Aí o Merval diz que eles foram eliminados das competições internacionais. Ora, valha-me Deus! Os caras infringiram o principal dos códigos de ética do atleta! Eles abandonaram a competição no meio! Tudo bem fugir da ilha, mas não no meio de uma competição internacional, ou então, como fizeram outros atletas cubanos, na mesma competição, no mesmo ano: que fugissem após o término da mesma. Uma das características mais importantes para um atleta é a disciplina.

Rolam boatos de que eles estariam sendo perseguidos em Cuba. É claro que esses boatos são ampliados por interesse ideológico. Mas o fato é que, a partir do momento que está provado que os cubanos voltaram por sua livre e espontânea vontade, que outros atletas cubanos que pediram para ficar no Brasil, puderam ficar, então nós não podemos culpar o governo brasileiro pelos problemas que eles possam vir a sofrer em Cuba, assim como não podemos culpar Tarso Genro pela fome no Haiti ou pela tortura na prisão de Guantánamo.

Deixem os atletas cubanos fora dessa história! Todas as notícias relacionadas aos mesmos deixam bem claro que eles quiseram voltar. Se, em algum momento, eles tivessem manifestado a intenção de permanecer no Brasil, o governo teria concedido asilo, como fez com outros atletas cubanos, na mesma competição e em tantas outras ocasiões.

Não acho Cuba o melhor dos mundos. Não acho Cuba maravilhosa. Tenho, contudo, uma visão com perspectiva histórica sobre Cuba, sobre a América Central, sobre a América Latina. Não foram os cubanos que transformaram a democracia e os direitos humanos numa piada de mau gosto. Quem fez isso foi a direita, foram as elites do continente, com o apoio direto dos Estados Unidos. No Chile, caças americanos bombardearam o palácio presidencial, matando Salvador Allende, um presidente eleito num sistema democrático livre e moderno. Quando mataram Allende, mataram o sonho de milhões de latino-americanos, não apenas chilenos. Quando derrubaram Jango, mataram o sonho de milhões de latino-americanos, não apenas de brasileiros. Quando Fulgêncio Batista assumiu o poder em Cuba com um golpe de estado e acabou com as instituições democráticas, ele não exterminou as esperanças apenas da juventude cubana de mudar as coisas democraticamente, mas de toda juventude ao sul do Rio Grande. Não foi por outra razão que tantos jovens pegaram em armas. Poucos anos antes, Che Guevara fizera trabalhos na Guatemala para o governo de Jacobo Arbenz Guzmán, eleito pelo voto direto - e também deposto por um golpe de estado, em 1954, articulado pelos americanos. Como, em tais circunstâncias, o jovem Chê, ou qualquer outro jovem latino-americano, se empolgaria com as vantagens de uma democracia?

E agora, cinquenta anos depois, a direita, através de seus house-organs, querem nos empurrar a tese de que a esquerda latino-americana é que é autoritária? Que aqueles jovens guerrilheiros que pegaram em armas para combater as ditaduras sangrentas de então, eles é que não acreditavam na democracia? Ora, se você defendesse democracia nos anos de chumbo, era classificado imediatamente como subversivo, preso, e lançado no oceano atlântico, do alto de um helicóptero.

Evento legal nesta quarta-feira, em Botafogo

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Recebi o seguinte email do Paulo Scott, organizador do evento:

Caros,

sinceramente, esperamos que não vire tradição isso de avisá-los tão em cima da hora, mas infelizmente o e-flyer só ficou pronto minutos atrás. Bem, amanhã, quarta-feira, dia 28/01, acontece a segunda edição do DE MODO GERAL (Cinematheque, Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil), um tour de force para mostrar, elogiar ou criticar as coisas notáveis que estão acontecendo no que se pode chamar de arte contemporânea brasileira. Desta vez, teremos de começar um pouco mais cedo: por volta das 20h30 mesmo.

Apareçam, divulguem.

>>>> DE MODO GERAL : REVISTA AO VIVO DE COMPORTAMENTO BRASILEIRO <<<<
Crônicas sem rodeio sobre LITERATURA, MÚSICA, HQ E CINEMA, entrevistas, toutube, discotecagem lado A e lado B, opiniões, twitter, vídeos inusitados. Tudo isso num clima de sala de redação, com os colunistas Rodrigo Penna, Flu, João Paulo Cuenca, Allan Sieber, Paulo Scott e Arthur Dapieve, percorrendo, quinzenalmente, as atualidades e idiossincrasias do cenário cultural (e antropológico) brasileiro com humor e ironia.

Os convidados desta segunda noite, dia 28 de janeiro, serão:

TOTONHO E OS CABRA
EVA UVIEDO
FERNANDA D'UMBRA
LUCAS SANTANNA
XICO SÁ

SERVIÇO:
Quando : 28/01
Onde : Cinemathèque
Horário : a partir das 20h30
Ingressos : 20 reais
Lista amiga (demodogeral@gmail.com): 15 reais
pscott@terra.com.br
flufli@gmail.com

Exportações e importações brasileiras

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Editei outras estatísticas sobre o comércio exterior brasileiro. Fiz duas tabelas, uma com as exportações brasileiras, por país destino.

Outra com as importações, por país fornecedor. Os dados são do Sistema Alice, um sistema público federal, online, gerenciado pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic).

As tabelas contêm números completos do comércio exterior brasileiro. Fiz ainda versões simplificadas, que publico abaixo, em formato imagem (clique nelas para ampliar).

Exportação



Importação



Depois a gente conversa sobre o conteúdo delas.

Produção agrícola brasileira em 10 anos

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Elaborei uma tabela que pode interessar a alguém. É a produção agrícola brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, até 2007. Os números mostram o avanço rápido do plantio de soja nos últimos anos, cuja área plantada passou de 11,5 milhões de hectares em 1997 para 20,57 milhões de hectares em 2007. Com isso, a participação da soja na área agrícola total brasileira saltou de 24% para 33%.

Em função do uso de tecnologias melhores, com maior adensamento das lavouras (mais plantas em menos hectares), o aumento da quantidade produzida foi bem mais significativo do que a ampliação da área plantada. A produção de milho, por exemplo, cresceu 58% em 10 anos, contra um crescimento de apenas 9% da área plantada.

Confira a tabela aqui.

Dados compilados da economia brasileira

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Neste link, confira um relatório mensal sobre a economia brasileira, preparado pela presidência da república. É interessante.

26 de janeiro de 2009

O presidente Jefferson sabia das coisas

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Recorto abaixo o trecho final do artigo de Venício Lima, que achei interessante. A íntegra do texto está aqui.

"Quanto à leitura de jornais, há uma frase de Thomas Jefferson (1743-1826) que, ao contrário de outras, nunca se tornou célebre e não é encontrada em citações na grande mídia. Em 1807, quando ocupava a presidência dos Estados Unidos e em resposta a consulta que lhe fez o então jovem John Norvell (1789-1850) – que se tornaria jornalista e senador pelo estado de Michigan – ele afirmou:

"O homem que não lê jornais está mais bem informado que aquele que os lê, porquanto o que nada sabe está mais próximo da verdade que aquele cujo espírito está repleto de falsidade e erros."

Sobre os bancos privados

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O Azenha publicou matéria em que aborda a discussão, nos EUA, sobre a necessidade de nacionalizar os bancos. Ou seja, estatizar o sistema nacional de crédito. Eu já expliquei, em várias oportunidades, o que acho dessa idéia. Repito-a. Acho-a necessária para a sobrevivência da nossa civilização. E certamente ajudaria a humanidade a estabilizar, de uma vez por todas, a economia global, sacudida de dez em dez anos por falência de bancos. O que é um banco privado? É um magnata que recolhe dinheiro de empresas e cidadãos e aplica este dinheiro a seu bel prazer. Hora ou outra os filhos desse magnata, ou seus executivos, acabam se empolgando e cometendo um erro, por cobiça ou incompetência. Não é só questão de haver ou não regras claras. Não há segurança. A única segurança, como vimos, é o Estado vir depois e cobrir o rombo feito pelos playboys. Mas aí não é justo. Não acho ético que o contribuinte banque a incompetência ou falta de ética de magnatas.

Assistam aos vídeos em que discuto essa questão. Fico satisfeito que o New York Times e o presidente dos EUA concordam comigo.

24 de janeiro de 2009

Blogosfera news

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Há tempos que não escrevo nada sobre outros blogs. Vamos lá. Gostaria de sugerir aos leitores deste blog que entrem também no blog do Alexandre Porto, onde encontrarão material farto e organizado sobre a economia brasileira.

O blog de Eduardo Guimarães todo mundo já conhece, mas vale a pena sempre reiterar sua movimentação crescente, com participação entusiasmada e talentosa de centenas de comentaristas. Já entrei em inúmeras polêmicas com o Eduardo, mas a gente é parceiro.

Outro que estou gostando bastante é o Cloaca News, que traz matérias ferinas e inteligentes sobre a mídia.

De resto, todos os blogs e sites que linko são bons. Há outros bons que ainda não linkei, mas linkarei em breve. Ainda estou tentando arrumar um jeito de melhorar o blog sem deixá-lo mais pesado do que já está. Aliás andei cortando anúncios e gadgets, para agilizar o carregamento.

Tô ligado que o sistema de revista, com o "Continue lendo" trouxe vantagens mas deixou o blog mais lento. Por outro lado, não pretendo mais mexer no blog. Só se for para deixá-lo mais leve e mais simples. Cansei de visuais novos e acho que o leitor também cansou.

*

Quero convidar todos a trocar links e RSS. A tecnologia RSS é fantástica e devemos usá-la com muita inteligência para melhorarmos a divulgação de nossas idéias. Uma das formas é cada um instalar no seu blog uma lista de blogs com RSS, e também nos tornamos seguidores uns dos outros. Lá no finalzinho do meu blog tem o link dos seguidores.

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A tecnologia RSS tornou obsoleta a idéia de montar uma central de blogs. Quer dizer, a forma como a idéia era concebida ficou obsoleta, mas a essência da idéia, de articular os blogs de esquerda, ainda é uma idéia interessante. Que tal este nome: CEBLESQ? Central de Blogs de Esquerda. Já separei o site ceblesq.blogspot.com. Pensei num blog apenas com links para os blogs e a gente pode definir algumas ações em conjunto. Na questão da publicidade, por exemplo, acho que uma boa e nobre luta da blogosfera seria obter um naco da publicidade pública e privada, que vai para a mídia corporativa. Com uma Central de Blogs, podíamos obter publicidade para todos os blogs membros, como um todo. Mas o objetivo principal é potencializar a força de cada blog, multiplicando-a pela força dos outros, e assim conseguir eficiência na divulgação das idéias e neutralizar o golpismo cada vez mais assustador da mídia corporativa.

Essa é uma idéia antiga que tenho, e acho que está na hora de colocarmos em prática. Agora que sou blogueiro profissional, que não faço outra coisa na vida, teria tempo para levar adiante esse tipo de projeto. A gente teria um fórum próprio, um esquema de conselho, de votações internas, tudo simples, tecnológico, democrático e dinâmico. Vamos discutindo.

23 de janeiro de 2009

Globo não dá notícia sobre queda no desemprego na primeira página

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Não vi a capa de outros jornais. Sem mais comentários.

Sobre as tentativas de dividir a esquerda

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Desde Julio César, que se conhece bem a estratégia de criar discórdia entre os adversários com o fim de debilitá-los. O PPS, com a sua verniz, cada vez mais fina, de partido “de esquerda”, percebe isso como uma de suas principais estratégias para, no colo do PSDB, chegar ao poder em 2010. Raul Jungmann, deputado federal pelo partido citado, publicou artigo na Folha de São Paulo que demonstra perfeitamente o maquiavelismo dessa estratégia. A redução dos conflitos de terra, em vez de representarem sinal de avanço da questão agrária, é usada por Jungmann para lançar sementes de intriga entre o governo Lula e o MST. Uma intriga que, aliás, tem tudo para prosperar, visto que o MST é um movimento que, em virtude de certas características, cresce na desgraça e perde força durante os bons momentos. Para explicar isso, publico aqui uma discussão pública ocorrida num grupo do qual participo, os Sem Mídia. Sérgio Telles responde a uma mensagem de Ester, que ficara interessada na opinião de algum integrante do MSM (Movimento dos Sem Mídia) sobre o artigo de Jungmann (cuja íntegra publico aqui).

Seguem os textos publicados no fórum de discussão:

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Ester,

Simplesmente o MST se esfacelou porque o Governo Lula ao invés de criar favelas rurais como o governo FHC, criou programas que resolvem melhor o problema da fixação no homem do campo (ou mesmo na cidade, mta gente do MST era desempregado urbano):

1 - Bolsa Família que cria uma renda mínima importante pra atividades sazonais como o setor primário, evitando a migração por desespero e possibilitando a fixação em lugares com período curto de chuva (associado a programas como das cisternas);

2 - Microcrédito, importante pra incentivar pequenos investimentos.

3 - Luz pra Todos, levando eletricidade em lugares que não existia, possibilitando novas atividades, valorizando terras em lugares longínquos e abandonados.

4 - Incentivo a formalização de empregos, associado ao crescimento contínuo econômico, o que gerou 10 milhões de empregos desde 2003 (mais do que todos os países desenvolvidos geraram juntos). Emprego na cidade é menos gente da cidade querendo voltar pro campo.

5 - Agricultura familiar, cooperativismo e economia solidária com apoio do governo, inclusive no programa do biodiesel. Crédito e técnicas de cultivo foram oferecidas aos assentados, e não abandonados e esquecidos em favelas rurais.

Em suma, não são números ou programas diretos que resolvem os problemas, mas sim ações em conjunto que de maneira estruturada criam soluções para a maioria dos participantes do movimento que realmente estavam ali para defender seu sustento.

Aos que eram do meio rural, crédito e tecnologia para aumentar sua produtividade e o bolsa família pra segurar ele nesse lugar nos períodos de entressafra.

Aos do meio urbano, oportunidades de trabalho que vinham faltando até então e que foram criadas.

Por isso o efeito do MST no governo FHC era de parecer cada vez maior, e no governo Lula o movimento se esvaiu. E é claro que as lideranças políticas do MST estão enraivecidas com o governo atual, até porque ele resolveu o problema principalmente por vias indiretas, até porque são meios menos custosos (e mais definitivos, favela rural de FHC na sua maioria era abandonada e o pessoal voltava pro MST pra pedir outra terra, poucos dos assentamentos dos tempos pré-Lula vingaram). Pra quem faz apenas política com o MST, o "quanto pior, melhor" é válido, porque o movimento foi forte enquanto havia gente ali querendo realmente terra, agora, ainda que se tenha bastante gente em problemas localizados em locais de conflito, ainda assim a situação anda mto mais suave que anteriormente. Gente pra dar tamanho ao movimento aumenta seu peso político, ainda é um movimento importante mas a própria realidade do país o faz de certa forma um caminho sem futuro. O movimento não acabará porque conflito de terra sempre acontece, mas será cada vez menos intenso. Bom, isso se a tacanalha não voltar um dia, é claro.

Sergio Telles


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Excelente, Sérgio. Até eu, que sou socióloga, não tinha me dado conta de aspectos que você ressaltou. Parabéns. Vera

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Sei não, que tal incluir (uma reflexão sobre os dados no IPEA, na matéria que cito abaixo), como um dos motivos de o PT abandonar uma bandeira histórica do partido e uma das lutas mais antigas de nosso território, luta secular mesmo que é a distribuição de terra neste país?

O PT de Lula abriu as pernas total para o agronegócio escuso, isso sim, que se pudessem já teriam exterminado todos os indígenas e camponeses desta terra.

22/01/2009

Agronegócio é favorecido por rolagem bilionária de dívidas

Renegociação feita ano passado não foi o bastante para bloco ruralista. Dívida dos grandes produtores atinge R$ 74 bilhões. Inclusão dos pequenos no bolo de devedores legitima ajuda aos grandes, analisa economista do Ipea

Por Maurício Hashizume

leiam a matéria toda aqui: http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=1495

Conceição Oliveira

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Governar se guia por ideais, mas se confronta com a questão prática. O poder instituído de pressão dos ruralistas é muito forte. Por outro lado, o agronegócio é um dos pilares do nosso sistema exportador que ajudou a bancar nossas confortáveis reservas internacionais atuais, não adianta que produção de agricultura familiar não gera exportação em escala suficiente pra saldos vistosos.

E o Brasil é grande pra que se evite os conflitos, há espaço para a agricultura familiar e para o agronegócio. Não se pode governar focando um lado em detrimento completo do outro, ainda mais esse outro sendo fundamental pra questão do equilíbrio de balança de pagamentos, que era crítico quando o governo Lula entrou.

É visão simplista achar que o "nosso problema" é mais importante e que deve ser imediatamente solucionado, postergando os demais. Quem governa assim nunca vai a lugar nenhum. E visão de partido quando se chega ao poder deve ser confrontada com os interesses do estado brasileiro, sobretudo. Nem tudo que o partido pensa pode ser adotado imediatamente, às custas da falência ou insolvência, ou mesmo por limites institucionais, ausência de normas e leis... tudo precisa ser adaptado, e certas coisas até deixadas de lado também pela questão da tal "governabilidade".

Certamente houveram falhas, esforços foram perdidos, poderia ter sido feito mais. Isso é pra qualquer situação, nenhum governo é plenamente perfeito. Mas o fato é que a questão do campo atualmente é muito menos grave do que na década passada, até porque o imprensalão adoraria repercutir quebra-quebra de sem-terra com fazendeiro, e isso a gente não vê mais, conflitos estão existindo mas não na escala absurda que se atingiu, como o caos social geral gerado pelo êxtase do neoliberalismo tucano no segundo governo de FHC.

Abraços
Sergio Telles

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vc anda lendo pouco a imprensa crítica não faz nem 6 meses o mst foi criminalizado, o governo lula em relação à terra e agricultura familiar não avançou um único milímetro, em 2008 tivemos sim morte e agressões terríveis no campo, basta olhar para o sul do país para o nordeste e para o norte e o agronegócio tem seu que de escravidão, perguntemos para os cortadores de cana o que eles pensam a respeito deste super desenvovimento ou para o absurdo que é para os povos indígenas de vários cantos do país o que é ter sua terra contaminada sua água imprestável por esses senhores do latifúndio, pagaremos caríssimo por fazer vistas grossas a isto social e ambiental
abraços

Conceição Oliveira

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Mas o governo faz a fiscalização de combate ao trabalho escravo com bastante intensidade, tem feito a desapropriação associada com a escravidão...

Conflito no campo ainda existe, mas não com a intensidade da década passada. Isso com toda certeza. Falei e repito.

"Pagaremos caro" é complicado dizer, são escolhas que se precisam em certas situações, o Brasil precisava dessas divisas, há a necessidade de se optar por algum tipo de exploração de recursos, viver que nem índio é ser dominado e submisso pelos países desenvolvidos.

Sergio Telles

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Eu tinha certeza que vc gostaria [do artigo do Telles], Miguel, lembrei de uma discussão que travamos tempos atrás no seu e no meu blog.

Mas acho que tem um grande problema aí, vcs tratam agronegócio e agricultura familiar como a mesma coisa e acham o MST um movimento sem sentido e eu acho um dos únicos movimentos sociais do país.

Especialmente o Miguel faz pouquíssimas distinções a respeito do que ele denomina genericamente de agricultura familiar. Sérgio é bem mais condescendente com o governo e sai na defesa como se, ao fazermos crítica a estagnação do governo Lula em relação a questão agrária, fôssemos coadunar com os críticos levianos.

O MST hoje é o único movimento deste país que faz oposição séria à barbárie ambiental das transnacionais que desmatam e matam nossa terra e vcs ignoram completamente isto, se o embate não é maior é porque há lideranças dentro do MST que tem algum compromisso com o partido.

Conceição Oliveira

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Olá Conceição,

Respeito imensamente a sua opinião e a do MST e entendo seus fundamentos, mas acho que ela é conspurcada por preconceito pseudo-ideológico urbanóide contra o agronegócio, que é uma atividade econômica essencial para o desenvolvimento nacional. Você dificilmente verá um agricultor de verdade pensar assim. Para ele, e eu concordo, a distinção entre agronegócio e agricultura familiar está no tamanho da propriedade, e o pequeno quer ser grande, o que é uma ambição natural e saudável do ser humano. O pequeno agricultor também quer conhecer Paris, e para isso terá que se tornar grande.

Cordialmente,
Miguel

Itália não tem crise?

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O escarcéu de algumas autoridades da direita italiana, incluindo seu presidente, contra o asilo político que o governo brasileiro concedeu a Cesare Battisti me fez pensar numa coisa: será que eles não têm mais nada com que se preocupar? Será que não tem crise econômica ou política interna para se preocuparem?

Claro que têm. O caso Battisti serve apenas para desviar a atenção de parte de seu eleitorado de problemas econômicos e sociais graves, como imigração, pobreza, falência de empresas, máfia.

O que tem me irritado neste caso do Battisti é que o argumento mais consistente usado pelo jornal O Globo - e que acabou se tornando argumento na boca de todos os que lêem o Globo - é o tal dois pesos e duas medidas, segundo o qual o Tarso Genro teria expulsado "sumariamente" (sempre usam o termo "sumariamente, para ficar mais forte) os dois pugilistas cubanos do Brasil, de volta a Cuba. Ora, este argumento é uma mentira, já repetida diversas vezes neste blog. Os dois cubanos pediram para voltar. Há relatos de representantes da OAB, do Ministério Público, e do governo, informando que eles declararam, em diversas ocasiões, que gostariam de voltar o mais rápido possível a seu país de origem.

Outra noite, eu discuti com um amigo meu. Ele era da opinião de que o governo brasileiro deveria tê-los retido por mais tempo. Eu argumentei: e como eles viveriam? De que viveriam? De mesada do governo? Ora, o governo tem outras preocupações do que ficar dando mesada para cubano que-quer-voltar-pra-Cuba. Mantê-los contra a vontade dos mesmos é que seria, a meu ver, uma violência indesculpável.

Agora, falam que eles estão sendo perseguidos em Cuba. Ora, desculpem-me, mas aí o problema é deles! O Nassif também é perseguido pelo Serra. As crianças palestinas são perseguidas por Israel. Os afegãos são perseguidos pelos americanos. Não conheço esses cubanos, sou a favor da democracia e contra qualquer tipo de perseguição, mas há crianças suficientes nas ruas da minha cidade para me preocupar com dois atletas que largaram a competição no meio para se drogar, beber e transar com prostitutas, seduzidos por um pilantra alemão.

A preocupação dos leitores do Globo

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Nesta sexta-feira, Lula enviou carta ao presidente da Itália, Giorgio Napolitano, em que reafirma a disposição do governo brasileiro de dar asilo político a Cesare Battisti. Um leitor do Globo expôs a sua opinião, que para mim resume o pensamento daqueles que ainda se acham elite, mas que representam, hoje, um segmento moralmente decadente, que sobrevive de seus preconceitos e rancores. Não sabem quão profunda é sua ignorância.

O leitor diz o seguinte:

reispaulo
23/01/2009 - 19h 15m

Afinal: ele escreveu ou ditou ?????


Pode parecer uma puerilidade minha ater-me a comentário tão bobinho, mas é que ele remete ao que venho estudando há tempos, e que é a essência do preconceito de elite contra o povo brasileiro, um preconceito contra a cultura popular, contra seus modos de falar e agir. Trata-se de um preconceito contra a cultura oral, contra possibilidades de conhecimento e vivência que a classe média não conhece e, por isso, não respeita. Ora, Melville não aprendeu a escrever numa faculdade, e sim trabalhando como marujo num baleeiro. A maior parte dos escritores americanos mais prestigiados vieram das classes baixas ou viveram experiências marcantes de pobreza. Henry Miller, pouco antes de ser salvo com uma passagem de navio para Paris, vivia num abrigo de mendigos, Jack London começou a trabalhar com nove anos de idade em fábricas. Bukóswki, Faulkner, Fante experimentaram os empregos braçais mais simplórios e pesados antes de se tornarem grandes nomes da literatura. Essas experiências, seguramente, ajudaram-lhes a solidificar uma filosofia democrática que só ajudou a sofisticar sua arte.

A democracia nos EUA, enraizada como valor profundo na consciência dos cidadãos, significa respeitar, reverencialmente, cada ser humano, desde o mais pobre ao mais rico, como igualmente capaz de infinitas complexidades psíquicas e metafísicas e capaz de construir uma visão de mundo original e profunda e adquirir uma inteligência aguda e competente, sem necessariamente passar pelos mesmos estudos formais que a classe média tão artificiosamente se obriga. Estudos que ela usa como plataforma para arrumar emprego ao invés de escada para nobreza de espírito. A inteligência nasce, sobretudo, da intuição, que é não aprendida em faculdade, e da criatividade, que, ao contrário, é adversária de qualquer academicismo...

A lógica do jornalismo invertido

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Nossa, quanto mais a gente reza, mas fantasma aparece. Ontem o Globo veio com manchetes enormes afirmando que o ministro Mangabeira criticava o Bolsa Família. No próprio editorial, usa-se frases colhidas da reportagem para embasar a opinião crítica do jornal sobre um programa o qual, nunca é demais lembrar, é elogiado no mundo inteiro.

E agora, navegando pelo blog do Nassif, descubro que o Mangabeira disse exatamente... o contrário do que a reportagem alega. O Ministério de Assuntos Estratégicos, que é onde Mangabeira fica, liberou a íntegra da entrevista. Se você leu a matéria do Globo, tem que, obrigatoriamente, clicar neste link e descobrir que, mais uma vez, o jornal O Globo forçou a barra dos fatos para disseminar suas intrigas mesquinhas...

É o jornalismo invertido. Você tem que pegar o que está ali e inverter para saber a verdade.

Mulher urubu

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Essa vida de acompanhar a mídia é dura. Se eu ficar respondendo à Miriam Leitão, terei que me dedicar somente a essa função. Às vezes penso que ela deveria me pagar um salário para ser seu ombudsman privê. Hoje, ela nos brinda com essa pérola:

Se escaparmos da crise global, teremos uma crise feita pelo governo Lula.


Não vou responder a uma imbecilidade desta, contestada facilmente por dez entre dez publicações internacionais. Vou responder esta outra afirmação, na mesma coluna do jornal impresso, edição de 23 de janeiro de 2008 (o mesmo texto está no blog da urubu, o urublog, aqui):

"O país corta orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia quando o país mais precisa de investimentos em inovação e em ciência, por inúmeros motivos."


Daí ela infere que o governo está dando dinheiro para a Petrobrás em vez de dar dinheiro para a pesquisa. Essa frase me irritou porque é mentira. O grosso das verbas federais para a pesquisa não estão no orçamento do Ministério da Ciência e sim na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), em outros órgãos, agências e universidades. Pergunte a qualquer cientista, e ele lhe responderá que os recursos para pesquisa, nos sombrios tempos tucanos, eram virtualmente zero. Cresceram exponencialmente nos últimos anos e devem continuar crescendo. Eu ouvi essa informação diretamente pela boca de diversos cientistas, que fizeram questão de ressalvar que não tinham compromisso nenhum com o governo Lula, não tinham partido nem estavam ali defendendo nenhuma plataforma política; simplesmente estavam dizendo a verdade.

A verba em pesquisa nuclear, por exemplo, bateu recorde nos últimos anos. A própria Petrobrás é grande investidora em diversos tipos de pesquisa científica. O Instituto Oswaldo Cruz, que pesquisa remédios contra a Aids, dentre inúmeros outras coisas, vem recebendo, nos últimos anos, um grande volume de recursos, e os profissionais da área conseguiram reajustes de salários que há décadas o Estado lhes devia. Miriam Leitão, provavelmente, é o tipo de pessoa que não considera aumento de salário para um pesquisador como verba para pesquisa...

Enfim, Miriam Leitão prossegue em sua missão de desinformar a sociedade brasileira. Ora, Míriam, vá plantar maconha na granja do Bush!

Mais sobre o Caged

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Publiquei no Google Docs outra tabela interessante, com a variação do nível de emprego por sub-setor da economia.

Recorto um trecho da tabela e publico abaixo. Clique nela se quiser ampliar.

Repare que os setores que registraram mais problemas em dezembro foram também os que registraram os aumentos mais expressivos em números de empregados admitidos no acumulado do ano.

A indústria de transformação, por exemplo, a grande vilão deste dezembro negro, demitiu 390 mil pessoas em dezembro último, mas no acumulado Jan/Dez 2008, o mesmo setor registrou a admissão de 3,52 milhões de trabalhadores, aumento de 13% sobre 2007.

Considerando que a principal empresa deste setor é a Vale, não resta dúvidas de que a decisão de Rogner Agnelli de realizar demissões em massa no auge da crise, mesmo depois de anos seguidos de lucros recordes, contribuiu significativamente para criar um efeito em cascata em todo o segmento da indústria de transformação.

Outro importante responsável pelos números negativos de dezembro foi o setor de serviços, que demitiu, em todo país, 480 mil pessoas em dezembro. Este segmento caracteriza-se pela pequena empresa. No entanto, o mesmo setor registrou a entrada de 5,8 milhões de postos de trabalho em 2008! Um aumento de 18% sobre 2007, que, todos sabem, já tinha sido um ano de crescimento recorde para a economia brasileira. 

Por fim, o setor de construção civil foi o terceiro principal responsável pela queda no saldo de empregos em dezembro. O setor demitiu 163 mil pessoas nesse mês, mas, no ano calendário de 2008, assinou 1,86 milhão de carteiras, registrando um aumento excepcional de 31% sobre o período anterior!

Os três setores, somados, criaram 11,24 milhões de postos formais de trabalho em 2008, mas tiraram 10,2 milhões, obtendo um saldo superior a 1 milhão de empregos.

Se lembrarmos que os EUA, a economia mais poderosa do planeta, vive uma recessão técnica há mais de um ano, a situação brasileira é mais do que confortável. É quase inacreditável que o Brasil tenha gerado uma quantidade tão monstruosa de empregos em 2008, um ano que, desde o início, apresentou-se difícil em todo mundo e, a partir de setembro, viveu os piores meses desde o final da II Guerra. 

Com crise e tudo, as empresas brasileiras geraram no ano passado um total de 16,6 milhões de postos formais. Para efeito de comparação, em 2002, ano em que não havia nenhuma crise internacional, a geração de empregos foi de 9,8 milhões de empregos. Lembrando: em dezembro de 2002, o salário mínimo, em valores corrigidos para hoje, correspondia a R$ 257. De lá para cá, este salário registrou ganhos reais de 48% e está hoje em R$ 415. 

Estudando os números do Caged

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Meu objetivo não é subestimar a gravidade dos 654 mil empregos perdidos em dezembro de 2008. E sim estudá-los em profundidade e contextualizá-los. Não oculto, todavia, minha intenção de mostrá-los sob uma ótica mais racional e positiva.

Então, recapitulando. Há poucas semanas, o Ministério do Trabalho divulgou a sua atualização de dezembro do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o famoso Caged. Os números são disponibilizados gratuitamente na internet.

Eu peguei as tabelas dos últimos 3 anos, incluí o ano de 2002, para termos uma noção de histórico, e reuni num só arquivo, que disponibilizei neste endereço.

Mas também estou repetindo a tabela abaixo, em forma de imagem (clique nela para ampliar).



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A minha teoria, que procurarei demonstrar, é que o segundo semestre de 2008 registrou uma geração recorde de empregos, de forma que, os empresários, pequenos e grandes, diante do alarmismo gerado pela mídia, preferiram cancelar parte destes postos gerados. Para um empresário, é fácil demitir um empregado recém-contratado, porque isso implica em poucos custos trabalhistas. Se o empregado tiver menos de 3 meses de contrato, os custos são quase nulos. Por isso, diante da falta de informação sobre o tamanho da crise, e do já citado alarmismo midiático (que não levou em conta as condições excepcionais da economia brasileira), os empresários optaram por demitir.

Observem a tabela abaixo. Clique nela para ampliar.



Reparem que, no segundo semestre de 2008, foram admitidos 8.155.563 postos de trabalho, um volume 15% maior do que o registrado em 2007, que foi um ano excelente neste sentido. Na comparação com outros anos, o desempenho do segundo semestre de 2008 é ainda mais substancial: aumento de 30% sobre 2006 e de 71% sobre 2002. Conforme a coluna de admissão envolve volumes maiores, os números da coluna de demissão também crescem. Numa economia aquecida, a oscilação de empregos e desempregos dispara.

Em setembro deste ano, foram admitidos 1,55 milhão de postos formais de trabalho, um aumento de 27% sobre 2007, de 42% sobre 2006, e de 78% sobre 2002. Ora, isso é muito bom, mas ao mesmo tempo um pouco bom demais... são aumentos um tanto bruscos, o que provavelmente refletiu um otimismo (quiçá exagerado) dos empresários. Aumentos tão bruscos costumam ser, na maior parte, fruto de empregos temporários, provavelmente estimulados pela expectativa de um Natal de vendas fenomenais. E também porque muitas indústrias dão férias de dezembro a fevereiro, período que coincide com as férias escolares e com um verão extremamente chuvoso e quente na maior parte do país, e portanto o momento ideal para limpar as fábricas e fazer a manutenção do maquinário. Por isso, historicamente, há um número grande de demissões em dezembro. As empresas formam estoques de julho a novembro, e, em dezembro dispensam os empregados temporários.

Sim, tivemos um dezembro atípico este ano. Não podemos esquecer que o mundo vive a sua pior crise financeira desde a II Guerra. Governos dos EUA, Europa e Japão já torraram trilhões de dólares para minimizar os efeitos da crise sobre suas economias. É natural que o Brasil, enquanto partícipe de uma economia globalizada, ressinta-se dessa conjuntura adversa. Mas os números que temos à nossa frente não deixam dúvidas que, com crise internacional e tudo, o país continua vivendo um momento de grande vigor econômico. Diante do aumento brusco de empregos registrado nos últimos meses, o aumento do saldo negativo em dezembro não foi absurdo. Mesmo nos melhores anos, dezembro costuma registrar saldos negativos de 200 a 300 mil empregos. Em dezembro deste ano, o saldo negativo ficou em 654 mil empregados. Mas não esqueçamos que, diante de variações positivas tão bruscas nos últimos meses, seria normal que também tivéssemos, mesmo sem crise internacional, oscilações maiores em dezembro deste ano.

Unemployment

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Andei lendo algumas coisas que gostaria de compartilhar com vocês. O saldo negativo do emprego formal de 654 mil em dezembro último causou muito alvoroço. O que não se comentou foi que dezembro, em função dos empregos temporários contratados em outubro e novembro (e dezembro) pelas indústrias e comércio para trabalharem nas prévias de Natal, costuma registrar elevado saldo negativo. Um saldo negativo de 450 mil em dezembro, por exemplo, seria considerado normal. Em dezembro de 2007, um ano excelente para o emprego, o Caged registrou um saldo negativo de 319,4 mil postos de trabalho.

Reparem na contratação no último trimestre.

Geração de empregos formais
1451.205 - outubro 2008
1275.674 - novembro 2008
887.299 - dezembro 2008
Total - 3.614.178

Viu? O Brasil gerou 3,6 milhões de empregos com carteira assinada no último trimestre. O saldo negativo de 654 mil em dezembro deve ser mensurado de acordo com esses números.

Para efeito de comparação, copiei os dados referentes ao último trimestre de 2001. O Brasil gerou 2,25 milhões de empregos com carteira assinada.

Geração de empregos formais
852.227 - out 2001
811.245 - nov 2001
593.996 - dez 2001
Total - 2.257.468

Detalhe: em dezembro de 2001, o Brasil perdeu 253.923 postos formais de trabalho.

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Mais comparações: 1) em dezembro de 2002, o Caged registrou um saldo negativo de 249.514 postos de trabalhos. 2) Em dezembro de 2003, tivemos um saldo negativo de 300 mil postos. Ou seja, dezembro nunca foi um ano bom para o mercado de trabalho brasileiro.


*

As lições que tiramos desta situação são as seguintes. Como grande parte dos empregos gerados em dezembro são temporários, quando a contratação é volumosa, a dispensa também o é. Os números do IBGE divulgados hoje, longe de entrarem em contradição com os números do Caged, explicam-nos. Houve grande geração de emprego no último trimestre, mas foram, em sua maioria, empregos temporários. O nome diz tudo: tem-po-rá-ri-os. Os trabalhadores foram contratados e dispensados. Em outras palavras, a situação pode ser crítica, mas não podemos perder o senso de proporção. O Brasil é um país com 190 milhões de pessoas, 654 mil postos de trabalho é um número pomposo, mas corresponde a somente 0,3% da população brasileira.

*

Repito um fato que igualmente passou batido. As demissões concentraram-se em São Paulo e Minas Gerais, estados governados pelo PSDB. Somente São Paulo registrou um saldo negativo de quase 250 mil empregos em dezembro. Minas Gerais veio em segundo lugar, com fechamento de 88.062 vagas. São Paulo e Minas, portanto, responderam por mais da metade do número negativo que assustou um país, que tem outras 24 unidades da federação.

Os governadores, pelo jeito, não se esforçaram, junto às lideranças empresariais de seus estados, para evitar essas demissões. Serra liberou uns bilhões para a indústria automobilística, mas sem condicionar à manutenção dos empregos.

22 de janeiro de 2009

Encruzilhada histórica

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Por João Villaverde

Existe um processo pouco percebido sendo desenvolvido aos poucos no Brasil e nos países emergentes semelhantes. Não é nada formal ou mesmo um pacto entre elites dominantes, mas um jogo que estabelece vencedores (os mesmos de sempre e alguns novos jogadores) e esconde dos perdedores a grande derrota. Podemos estar diante de um modelo intermediário entre uma nova dominação ou a restituição da hegemonia clássica.

Explico.

As exportações brasileiras estão diminuindo em volume há anos, pelo efeito do real valorizado (quando Lula assumiu o dólar valia R$ 3,80; antes da crise chegou a R$ 1,55). Mas o saldo comercial não parava de crescer graças a um motor paralelo: o aumento dos preços dos produtos vendidos ao exterior. Quer dizer, vendia-se menos quantidade, mas as mercadorias valiam mais.

Estavam mais caras graças a nossa produção de bens industrializados de maior valor agregado? Não, embora tenhamos nos desenvolvido fortemente em vários setores. Mas nada que alterasse nossa composição exportadora. As mercadorias mais vendidas continuaram sendo os produtos primários de sempre: grãos e minérios. Commodities, em geral. Por que elas aumentavam de preços? Graças a enorme e crescente demanda chinesa.

O desenvolvimento chinês dos últimos trinta anos produziu uma economia fortemente urbana, com moeda desvalorizada (o que incentiva as exportações, uma vez que com a mesma quantidade de dólares recebidos pela venda se consegue maior quantidade de moeda nacional) e mão-de-obra barata, sem direitos trabalhistas e impostos baixos. O modelo era simples: importa-se produtos básicos, industrializa internamente e reverte para exportação. Os dólares entram e enchem as reservas. Essas são aplicadas nos Estados Unidos, ajudando as famílias americanas a se endividarem e adquirirem mais e mais produtos chineses.

A crise financeira americana alterou profundamente os termos desse modelo. Com a falência de bancos, o crédito secou. Sem crédito, as famílias pararam de rolar suas dívidas - asfixiando os bancos ainda mais - e pararam de consumir. No ano passado, 25 bancos quebraram. Outros estão na iminência de quebrar e os grandes bancos estão recebendo aportes bilionários do governo para resistirem. A fanfarra baseada na crença do crescimento eterno do mercado imobiliário foi enorme. Os bancos não param de falir e estão entrando em colapso com mais rapidez. Na última sexta-feira, dois bancos faliram (o National Bank of Commerce, de Illinois, e o Bank of Clark County, de Washington) antes de qualquer tipo de ação do governo - a regulação foi tão afrouxada nas últimas décadas que o governo não tinha nem informações.

A previsão oficial é de outros 20 bancos vão falir, apenas nos primeiros três meses de 2009.

Com isso, o fluxo de dólares para a China diminuiu e tende a diminuir ainda mais. Os países da União Européia não são válvula de escape: a recessão é forte por lá também.

A grande diversificação comercial do governo Lula foi crucial para agüentar o tranco inicial da crise mundial. A maior parte das exportações de produtos de alto valor agregado são direcionadas para nossos vizinhos latinos - o comércio entre países da América Latina aumentou enormemente desde 2003.

Ainda assim, a maior parte do saldo comercial é razão da venda de commodities para os países industrializados. Dentre eles, nosso maior comprador é a China. Isso não mudou. Intensificou-se apenas. Com o Chile aconteceu a mesma coisa. Desde 2003, a produção industrial se diversificou, aumentando exportações e importações com os vizinhos. Mas praticamente 80% da entrada de dólares é oriunda do cobre, uma commodity.

Com a crise financeira internacional destruindo bancos dos países desenvolvidos, o crédito externo travou. Com isso, muitas linhas de financiamento de exportações brasileiras foram fechadas. Ao mesmo tempo, os bancos nacionais também pararam de conceder empréstimos (ou concedem a taxas absurdas, o que equivale a não emprestar). O financiamento, nos últimos dias, tem-se limitado às linhas especiais criadas pelo governo em dezembro. Mesmo o real mais desvalorizado não compensa, uma vez que a própria demanda interna está mais enfraquecida – de novo, efeito da escassez de crédito.

Esse é o panorama de como estamos, de como estão as coisas em janeiro de 2009, ainda que em compasso de espera para as primeiras medidas de Obama à frente dos Estados Unidos. O governo Obama é crucial, mas não agora. Antes é preciso preciso perceber o que há pela frente para depois discutir Obama, China e o resto do mundo (Brasil incluso) no meio disso.

O que importa é perceber a encruzilhada que o momento coloca à frente do Brasil e dos países emergentes de condições semelhantes.

Para manter as exportações fortes – o que é de interesse brasileiro para manter a entrada dos dólares necessários para honrar os compromissos externos, uma vez que nossa moeda não é conversível – o Brasil precisa que a China não pare. A maior parte de nossas exportações, como já se viu, refere-se a produtos básicos. A produção das commodities é relegada ao grande capital do agronegócio. Mas boa parte dos mercados importadores dos bens industriais chineses – os países ricos – estão em recessão. A China deve realocar essa produção para seu próprio mercado interno e para países como o Brasil: abertos, com renda mínima e com grande mercado interno.

Com as famílias americanas cortando seu consumo e a Europa deixando de ser uma alternativa, tudo o que os chineses querem é um Brasil importador. Com a demanda americana e européia em baixa também para as commodities brasileiras, tudo o que o Brasil quer é uma China importadora.

Ou seja, incentiva-se (de maneira indireta, é claro) a China para que ela continue comprando nossos bens primários, que depois serão remetidos de volta para cá sob a forma de produtos industriais.

Dessa maneira, mantendo aumentos do salário mínimo e de programas de transferência de renda (simplificando: para as classes baixas, Bolsa Família; para classes altas, superávit primário), os bancos ficam sem pressa para retomar o crédito, podendo manter o rigor seletivo e o lucro com títulos do Tesouro, e o Banco Central fica livre de se desgastar muito com o combate à inflação. Tanto os bancos quanto o BC, ajudados pelos produtos chineses que chegam com preços baixos e em grande quantidade. A renda mínima promove o consumo dos bens chineses sem necessitar do crédito bancário. A renda elevada mantém a produção dos bens primários que são levados à China.

O modelo desenhado é intermediário de uma troca de modelos, proporcionada pela conjuntura. Podemos entrar de cabeça no modelo sino-cêntrico ou podemos continuar no modelo anterior, vigente a pouco, de dominação americana.

Obama tem a chance única de fazer prevalecer o jogo como todos os participantes (vencedores e perdedores) conhecem: ele pode restituir a hegemonia americana por meio das finanças e do comércio. A hegemonia cultural, como sempre, é conseqüência da dominação econômica.

Com isso, mantém-se o processo de dependência externa, histórico e crônico ao mesmo tempo. O país continua colonizado, trocando ou não de colonizador.

Boas notícias

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Depois do susto causado pela divulgação de que mais de 600 mil empregos desapareceram em dezembro, duas excelentes notícias trazem alívio para a população brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no Brasil caiu em dezembro para o menor nível já registrado em toda a série e, provavelmente, o menor em toda a história brasileira: 6,8%.

Considerando que este resultado se deu mesmo sem o Banco Central ter reduzido os juros, e agora que, enfim, o BC reduziu-os em 1%, a esperança de todos nós é que a economia brasileira continue resistindo bravamente às turbulências internacionais.

Confira aqui a notícia do IBGE.

*

O desaparecimento de vagas e os dados do IBGE parecem conflitantes. Talvez o quadro negativo apurado pelo Ministério do Trabalho apareça para os pesquisadores do IBGE somente em janeiro. Não sei. De qualquer maneira, trata-se de uma notícia excelente, que apenas comprova o vigor de nossa economia. A grande pergunta é: qual será a reação dos urubus?

*

A Miriam Leitão já lançou seu mau hálito sobre a notícia. Confira o que ela disse:

Infelizmente, não dá para comemorar a taxa de desemprego

A taxa de desemprego medida pelo IBGE despencou em dezembro e atingiu o nível mais baixo da série histórica: caiu de 7,6% para 6,8%, abaixo da média das previsões dos economistas. Infelizmente, não dá para comemorar muito o resultado e há explicações lógicas para isso.

A primeira é que parte da queda é resultado das contratações temporárias do comércio. Muita gente é empregada nesse período, mas com a virada do ano, elas voltarão ao desemprego. Ou seja, a solução do problema também é temporária.


A observação dela é maluca, em vários sentidos. Primeiro porque a taxa de desemprego caiu abaixo do nível registrado em dezembro do ano passado (7,4%), quando também houve contratações temporárias. Segundo porque, temporário ou não, um emprego é sempre um bom sinal para a economia. Terceiro porque é loucura, diante de um cenário internacional tão devastador, não comemorar um número desse! Vá entender como funciona a mente de um abutre? Vade retro!!!

Pitacos sobre economia

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Eu gosto de economia. Acho uma pena que uma ciência tão nobre como a economia tenha sido tão apequenada por algumas escolas, que esqueceram o seu aspecto eminentemente humano, subjetivo, filosófico, e, porque não, artístico. Talvez o primeiro economista moderno tenha sido o pensador escolástico William de Ockam (1288 a 1348), um franciscano genial, famoso pela expressão "a navalha de Ockam", que tanto influenciou cientistas contemporâneos. A expressão indica o princípio segundo o qual a solução mais simples para um problema é, em geral, a mais correta. O próprio Ockam alertava para a simplificação grosseira de seu pensamento, visto que, obviamente, há exceções; este conceito, todavia, balizou uma atitude filosófica mais limpa, mais simples, mais honesta, fundamental para a derrocada do pensamento escolástico, que era, em muitos aspectos, inutilmente místico, vaidosamente hermético e convenientemente complicado. A filosofia que florescerá no renascimento, ao contrário, será tocantemente simples, acessível a quase todos, como é o caso do pensamento de Descartes, esse outro grande pensador, que é, aliás, hoje tremendamente injustiçado.

Ockam influenciou profundamente a ciência moderna. Albert Einsten, por exemplo, segundo alguns, teria pensado em Ockam quando escreveu que "as teorias devem ser tão simples quanto possível, mas nem sempre devemos escolher as mais simples", referindo-se a sua revolucionária Teoria da Relatividade. Mesmo aqueles que se professariam anti-ockanianos, como Immanuel Kant, não deixaram, por isso mesmo, de receber os fluxos emanados pelo corajoso franciscano. Sim, porque Ockam foi um homem extremamente corajoso. Sua época não era fácil, e os franciscanos não eram vistos com bons olhos pelo faustoso e opulento Vaticano. Encerrou a vida excomungado pelo Papa, em virtude de sua defesa de um Estado moderno, secular, e sua luta constante pela liberdade do indivíduo.

Ockam também pregava, e nisso antecipou-se a Kant, que o conhecimento nasce da intuição. Com isso, atacava os vaidosos eruditos das universidades católicas, que se arvoraram monopolizadores do conhecimento. É que, se o conhecimento nasce da intuição, ele é, então, essencialmente democrático. Qualquer filho de Deus, independente de sua formação acadêmica, pode alcançar o conhecimento. Na realidade, em alguns casos, a formação acadêmica até atrapalha, ao oprimir a imaginação e a intuição.

Encontro ecos destes belos pensamentos em Moby Dick, de Melville, ao saudar o Deus "democrático", que concede talento e genialidade a seus filhos mais simples. Quando analisamos a história da arte, onde o sangue nobre tão raramente coincide com talento, não podemos discordar de verdade tão simples e duradoura. Melville lembra ainda, com imenso orgulho, da eleição de Andrew Jackson para a presidência dos Estados Unidos em 1829. Jackson era um pobre filho de imigrantes, soldado e pequeno advogado sem diploma, que tornou-se o primeiro presidente americano não aristocrata, com enorme popularidade nas classes pobres, ficando conhecido como "candidato do povo". Mais tarde, os EUA teriam outro presidente identificado com o homem comum, Abraham Lincoln, filho de lenhador cuja educação formal se limitou a 18 meses num colégio público. Lincoln elegeu-se em 1861 e, mesmo com sua pouca educação formal, tornou-se um oradores mais brilhantes da história política americana.

Onde quero chegar? Bem, quero chegar no seguinte ponto. Essa crise mais uma vez nos mostrou que o conhecimento não se compra em universidades caras. O conhecimento é fruto da intuição, um dom da natureza distribuído democraticamente a todos os cidadãos do mundo. Executivos com pós-graduação em Harvard ou Yale responderam pelas burradas financeiras mais retumbantes em séculos. Aliás, nunca é demais lembrar que George W.Bush formou-se em Yale...

Em literatura, a regra de Ockam também é válida; com exceções, naturalmente. A forma linguística mais simples é, na maioria das vezes, a mais elegante, mais eficaz, mais bela. Não quero pregar contra o valor do estudo formal. Estou falando de economia. Estou falando da crise. Gostaria de contribuir, dentro das minhas limitações, para reduzir o pessimismo que se alastra pela sociedade brasileira. Em economia também as soluções mais simples são as mais eficientes e a criatividade vale mais do que a erudição; porque a criatividade é um conhecimento vivo, voltado para o presente e para o futuro, enquanto a erudição seca, formalóide, debruça-se sobre um passado morto, o qual, mesmo assim, não consegue compreender inteiramente.

Essa criatividade de que falo vale, claro, para as análises políticas. Também temos que pensar criativamente para entender melhor um mundo em rápida transformação. Tenho para mim que a atual crise é uma gigantesca reacomodação de forças, gerada pelas mudanças profundas causadas pelas novas tecnologias, que por sua vez permitiram que funções absolutamente complexas e o acesso à informação, antes monopolizados por grupos de grande poder econômico, fossem universalmente democratizados.

Essas mudanças também se refletem dentro do país. A atual crise deverá reduzir substancialmente o peso de São Paulo na economia nacional. A informação, que era monopólio de grupos sociais situados em São Paulo, não mais tem dono. A internet permite que dois ou três amigos em Juazeiro do Norte criem uma assessoria de imprensa tão ou mais eficiente que qualquer empresa similiar sediada nos Jardins. E por aí vai.

Mas não quero aqui fazer uma análise anti-São Paulo, e sim demonstrar como a economia brasileira registrou um salto sem precedentes desde meados dos anos 90. Tentemos esquecer, por um momento, as disputas partidárias. Em 1994, o PIB brasileiro fechou em R$ 349 bilhões. Em 2007, encerramos o ano com um PIB de R$ 2,6 trilhões. As exportações brasileiras, que somaram US$ 43,54 bilhões em 1994, alcançaram US$ 198 bilhões em 2008.

O endividamento do setor público brasileiro também merece destaque. E aí não posso me furtar a uma observação "partidária". A midia, que acusa tanto o governo Lula de ser perdulário, não informa que é este governo que está reduzindo, de forma substancial, o endividamento público nacional. E que foi o governo do PSDB que fez os gastos com dívida explodirem. Ou seja, o Estado "gastador", "perdulário", aconteceu nos anos de 1994 a 2002, quando o endividamento público cresceu de 32,3% do PIB, em janeiro de 1994, para 50,5% do PIB, em dezembro de 2002. Hoje (Dez/2008) o mesmo endividamento caiu para 34,9% do PIB. Ou seja, o Estado brasileiro está gastando muito menos com juros de dívida do que antes. Gastanto algumas dezenas de bilhões a menos. Para nossa mídia insensata, gastos com juros são válidos, o que o governo não pode é gastar com médicos, professores, auditores, técnicos do Ibama, enfim, com pessoal.

*

Por fim, uma tabela atualizada com dados do IBGE sobre o comércio varejista até novembro. Reparem que a queda em novembro deste ano, sobre o mesmo mês de 2007, foi de apenas 0,4%. Deve-se considerar, neste número, que 2007 foi um ano que registrou um crescimento muito vigoroso. O mais importante, todavia, é observar que, no acumulado de 12 meses, o comércio varejista no Brasil registra crescimento de 15,6%! Ou seja, mesmo que dezembro e janeiro apresentem números ruins - e as informações que temos é de uma recuperação nestes meses -, os números acumulados devem permanecer muito positivos.



(Clique na imagem para ampliar)

*

Na questão do desemprego, que registrou um saldo negativo muito acentuado em dezembro, nota-se uma concentração grande em São Paulo e Minas Gerais, dois estados governados pelo PSDB, onde seus mandatários, ao que parece, não realizaram nenhum esforço junto às lideranças empresariais de suas regiões para salvaguardarem o nível de emprego. Também não atuaram, junto aos meios de comunicação de seus estados, que evitassem disseminar um alarmismo nocivo.

Ao contrário, muitas matérias foram escritas, no início do terremoto financeiro, sobre a possibilidade de queda de popularidade do presidente Lula diante do agravamento da crise. E os jornais parecem particularmente entusiasmados em apresentarem notícias negativas, omitindo análises generalizadas sobre a resistência ímpar do Brasil às turbulências internacionais. Mais uma vez se verifica que a mesquinhez política e a desonestidade intelectual, somadas à ambição desmedida e quase desesperada pelo poder, predominaram sobre o interesse nacional e a preocupação com a estabilidade de uma economia onde ainda existem milhões de pessoas vivendo em situação extremamente delicada, extremamente vulneráveis a qualquer oscilação negativa da economia.

As pessoas que pensam e observam a política brasileira estão atentas a essa absurda demonstração de egoísmo e loucura partidários. Espero que os empresários que perderem dinheiro participando desse jogo sujo de chantagem econômica também parem para refletir sobre a utilidade, para si mesmos, para suas empresas, e para o país, de se continuar apostando nessa forma mesquinha e tacanha de se fazer política.

*

Opa! Notícia super atualizada! Segundo IBGE, taxa de desemprego cai o menor nível histórico.

Olaria News

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ela me lançou um chinelo
e disse coisas horríveis
não estava nem um pouco interessada
na posse do novo presidente americano
e sim no que eu tinha feito
na madrugada de segunda-feira

vinha cheia de amor e ódio e suspeitas
cuspindo e beijando,
arranhando, batendo, mordendo,
xingando, com loucura, paixão,
e egoísmo

minha linda sabina de subúrbio
lançou-me um olhar
cheio de ira, medo, ternura
um olhar louco
risonho e homicida
como uma águia

21 de janeiro de 2009

Obama inaugura novo século com discurso emocionante

5 comentarios

Ontem liguei a tv para assistir o Jornal da Globo, com William Waack. Queria informações sobre a posse de Barack Obama. Fiquei sabendo, então, por Waack, que o discurso de posse do novo presidente dos Estados Unidos não provocara muito entusiasmo na multidão que o assistia, e que havia sido um discurso bastante seco, advertindo o povo americano dos necessários sacrifícios que teria de fazer. O correspondente do Globo em Washington não discordou, embora tenha acentuado, com voz embargada, que havia sido um dia de muitas emoções.

Fui dormir um pouco decepcionado. Esperava um discurso emocionante de Obama. Sem contar o fato estranho, que li na web, de que o pastor escolhido por Obama para fazer o sermão do juramento presidencial, era um sujeito da ultra-direita católica, um histórico racista. O fato gerou comentários maliciosos na internet sobre as "concessões" do novo governo.

Acordei hoje e peguei o jornal na portaria. Olhei as manchetes e, antes de ler, antes portanto de purgar minha "azia" matinal, resolvi escrever um poema. Depois liguei o computador e decidi, ainda antes de ler o jornal, assistir o discurso da posse no youtube, sem tradução simultânea. Acompanhei o áudio do vídeo lendo a transcrição num outro site. E constatei, pela milionésima vez, que se você quiser ficar bem informado, tem que procurar as fontes originais. A opinião de Waack sobre o discurso, definitivamente, não correspondia à realidade.

Obama fez um discurso belo, prudente e corajoso. Se o 11 de setembro fechou o século XX, o século XXI só começou agora, com a posse de Obama. O chamamento ao "sacrifício" resumiu-se a um lugar-comum para tempos de crise, mas também não economizou sua oferta de esperança e não se furtou a citar nenhuma das bandeiras da esquerda americana. A luta contra o racismo foi abordada quando falou que há sessenta anos um negro como ele não poderia sequer entrar num restaurante. A questão da saúde pública entrou no discurso quando prometeu baixar os custos de tratamento. Atacou a má distribuição de renda afirmando que o governo não pode privilegiar os ricos. Acenou para as organizações multilaterais quando observou que os adversários nunca serão vencidos sem o apoio dos países aliados. Lembrou que a força de um país não se mede apenas por sua pujança militar mas sobretudo pela justeza de seus ideais e pela maneira como pretende difundi-los. Disse que o Estado não pode ser mínimo nem máximo, mas em linha com as necessidades de seu povo. Que o mercado deve ser vigiado pelas autoridades para que não fuja ao controle. Obama lembrou ainda a necessidade dos EUA realizarem mudanças profundas em sua matriz energética, reduzindo o uso de petróleo e elevando o de combustíveis alternativos.

Disse, enfim, que a esperança deve triunfar sobre o medo. E que os ideais e valores que fundaram a grande nação americana são sua verdadeira riqueza, aquela que nunca será negociada na bolsa de valores (palavras minhas).

Ao ver o tal pastor de direita lendo o juramento de Obama, pensei que mesmo a escolha do sujeito foi inteligente, pois foi como um ex-escravo chamar seu ex-carrasco para lhe servir o cafezinho. Um sinal de mão estendida e, ao mesmo tempo, um sinal de poder, mostrando aos racistas americanos que podem, se quiserem, continuar exercendo o sagrado direito americano de falar asneiras, mas quem manda na casa agora é ele, um negro filho de pai queniano, um democrata de esquerda, um homem chamado Barack Hussein Obama.

Também falou na recuperação dos investimentos do Estado em pesquisas científicas; e no fato dos EUA serem, além de católicos e protestantes, uma nação muçulmana e budista e atéia.

As pessoas se emocionaram muito. Gritaram, choraram. Talvez não tenham feito o escândalo que William Waack desejava. Talvez não tenham desmaiado em massa. Mas ouviram atentamente. Dois milhões de americanos, de todas as cores e credos, reuniram-se sob um frio abaixo de zero e escutaram, silenciosa e respeitosamente, o seu presidente discursar e incutir-lhes esperança.

*

A mídia brasileira divulgou uma foto mostrando Obama segurando um jornal e soaram vozes por todos os lados: estão vendo, Obama, ao contrário de Lula, lê jornais!

Bem, agora que assumirá a cadeira de presidente da República, creio que Obama, assim como qualquer presidente do mundo, terá que reduzir o tempo dedicado à leitura de jornais, delegando a função de selecionar matérias para seus assessores. Entretanto, mesmo que resolva perder as primeiras preciosas horas de sua manhã lendo o New York Times, Obama seguramente não sentirá a azia que sentiria se fizesse a mesma coisa no Brasil, lendo jornais brasileiros. Primeiro porque os grandes jornais americanos, honesta e transparentemente, divulgam que candidato apóiam, e neste último pleito apoiaram Obama. Os colunistas americanos identificam-se bastante claramente entre conservadores e liberais que, até o surgimento de Obama, cujo carisma e inteligência e conveniência histórica embaralhou as posições, dividiam-se também de forma bastante previsível entre republicanos e democratas. A midia americana, mesmo quando acusava presidentes de serem "comunistas", como fez a Roosevelt, nunca defendeu golpes militares anti-democráticos.

*

A mudança no comando dos EUA deverá se espraiar por todas as instituições americanas. Centenas de milhares de funções serão ocupadas por sangue novo, não conservadores. A paranóia anti-comunista, usada oportunisticamente por conservadores, desde os tempos do senador McCarthy, para defenestrar gente honesta e cérebros independentes, ver-se-á reduzida. Nosso direitaço maior, excelentíssimo senhor Olavo de Carvalho, que até hoje procura comunistas sob sua cama, e que defende a tese de a nossa midia (!!!!) é esquerdista, terá que aumentar sua dose de tranquilizantes.

*

Agora, Obama não é um deus posto no alto do olimpo estadunidense. Ou seja, os decepcionados que voltem para suas igrejinhas e procurem consolo em Deus.

Posse de Obama

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Bem, antes de escrever sobre a posse de Obama, admito que fiquei muito emocionado. Listei alguns links importantes sobre o evento.



Aretha Franklin cantando aquele que já foi o hino americano. É uma belíssima canção, que se torna ainda mais comovente na voz forte e romântica e doce desta negra que encarna todo o esplendor e grandeza artística da música negra americana.



O discurso de Barack Obama, que você pode escutar lendo o texto, aqui. A transcrição traduzida para o português está aqui.

Ou pode ver aqui, com tradução simultânea.

obama dreams

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Escrevi um poema em homenagem à posse de Barack Osama. Como de praxe, bati na minha olivetti, mas estou sem escanner, então tive que digitar novamente. Reproduzo abaixo:

obama dreams




um casal de cãezinhos brinca
no tapete da sala, uma senhora
de brincos espalhafatosos observa
amorosamente, aí ouve um barulho
na cozinha, ela vai até lá
com uma sombra 
de cem mil anos no olhar

um garotinho negro ri
diante de um copo quebrado
ela briga com o menino
ele chora, a empregada aparece
e pega o menino no colo
- desculpa senhora
diz a empregada de cor

a senhora responde
- tudo bem, me dá ele aqui
beija a criança e diz
meu filho, tem que tomar cuidado
essas coisas não nos pertencem

logo desiste de continuar explicando
ao filho que os objetos 
daquela casa pertencem
ao povo americano, em vez disso
beija o moleque seguidamente
e diz - meu fofinho, cuidado
você pode se machucar.


miguel do rosário, 21 de janeiro de 2009

Imagem: Robert Rauschenberg