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10 de novembro de 2011
Conversa Fiada
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Ainda estou me acostumando ao ritmo de trabalho lá do Cafezinho. É difícil. Tenho que acordar no máximo às cinco da manhã. Acho que em duas semanas já estou adaptado. Estou fazendo cinco posts diários, de terça a domingo. Trabalhando oito horas por dia, dá para produzir um material de primeira qualidade.
Só que no Cafezinho não posso viajar muito. Tenho que ser conciso, objetivo, direto. Deixo as viagens para Óleo. Os poemas, os vídeos do Hendrix, enfim, a parte mais hippie da alma fica por aqui, a mais yuppie fica por lá.
Nisso também ainda estou me acostumando. Errei a mão da maioria dos posts lá no Cafezinho. Ainda estou muito blogueiro, muito passional, muito ideológico. Tenho que deixar essas paixões para esse espaço aqui, e agir apenas profissionalmente por lá. É meio esquizóide, mas estou acostumado. Houve um tempo em que eu me dividia em três personas bem distintas: o Miguel do HellBar, interessado apenas em literatura; o Miguel do Óleo, interessado só em política; e o Miguel do Coffee Business, interessado só em café. Era uma loucura, rs, embora olhando retroativamente eu admita que me diverti um bocado. Eu sei que todo mundo tem essas divisões, mas eu era uma pessoa inteira em cada caso. Envolvia-me pessoalmente e assumia uma postura para cada persona. Criava um universo e uma atmosfera distinta para cada situação.
Mudando de assunto, terei que me acostumar em manter uma disciplina editorial estrita no Cafezinho, e deixar para soltar os cachorros no Óleo.
Assisti outro dia um filme muito bom, Agentes do Destino, com o Matt Dammon. É baseado num livro do mestre Philip Dick, o grande escritor de ficção cientítica. Aliás, um dos meus sonhos de burguês é passar as tardes à tôa, lendo Philip Dick... Ele constrói histórias futuristas alucinantes, mas com muito fundamento, uma pegada política sempre no momento certo, afora a criação de personagens incríveis.
Eu queria trabalhar com roteiro de cinema, escrever romances, um tratado de filosofia. Dirigir um filme. Ter um barco. A gente sonha tanto que sente pontadas na cabeça quando caminha na rua, olhando para o chão sujo e levemente deprimido com a sensação de que o tempo escorre muito rápido a seu redor e que você não realizará quase nenhuma de suas fantasias.
Mas agora estou me sentindo até aliviado por ter tomado a decisão certa. Política é algo sério demais para eu ficar levando apenas na brincadeira. Eu estava quase enveredando para esse lado, para a gozação, mas como sou péssimo em humor, descambo para um tipo sombrio de sarcasmo.
Eu estava levando uma vida maravilhosamente vagabunda, embora entremeada de momentos de trabalho intenso (os tais free-lances). Começara finalmente a ler o Ulisses, do Joyce, o original de um lado, a tradução de outro, um dicionário de inglês, e muita pesquisa na internet. O livro tem citação pra cacete, e eu não quero perder nada. Então é uma leitura lentíssima, acho que vou demorar mais de um ano para terminar. Mas estou bem mais simpático ao livro agora (no passado, eu o considerava uma das grandes farsas da literatura mundial). A tradução pura é que não dá para engolir. As traduções do Ulisses tornam o livro ridículo.
Acabou a pilantragem. Como diz a canção do Simonal, agora é o momento de levar uma vida de otário. É preciso trabalhar e ganhar dinheiro.
Enfim, as coisas vão se equilibrando. Quando eu fiz o Gonzum.com, não fui nem um pouco profissional. Escolhi um provedor gratuito, depois um provedor pago mas horrível que ficou fora do ar por dias. Agora não. Escolhi o melhor provedor, comprei o melhor pacote. Escolhi um nome mais inteligente. Estudei html, php, e até um pouquinho de javascript. Nessas horas é bom não ter dinheiro nem poder. Se o tivesse, contratava um monte de gente para trabalhar para mim. Mas aí também não aprendia nada. Eu sou obrigado a aprender tudo.
Eu gostaria muito de escrever uma resenha falando do novo livro do Mirisola, Charque, e do novo do Paulo Scott. Conheço ambos, pessoalmente, e suas respectivas obras, e outro dia fiquei divagando sobre um mini-ensaio de literatura comparada.
Aquela polêmica em torno do Rafinha Bastos depois se desenvolveu positivamente para mim. Outro dia li uma entrevista do Veríssimo, em que ele afirma que Rafinha "tem seu talento". Fora dos circuitos neurastênicos das redes, as pessoas gostaram do meu posicionamento pela liberdade de expressão. Acontece que a maioria não gosta de se meter em polêmicas. Pena que uma galera tenha reagido de maneira tão estranha. Parece que guardavam rancor contra mim há um tempo, e aí a coisa explodiu. Mas preciso me acostumar a isso também.
Poxa, há tempos que não escrevia com tanta liberdade aqui no blog. Acho que eu forcei um pouco as polêmicas porque estava me sentindo oprimido, sob pressão, tendo sempre que dar opiniões importantes sobre temas importantes. Agora o peso se foi. O Óleo respira alivado, olhando a linha do horizonte, pensando vagamente em como os pilares que sustentam os sonhos se deterioram rápido, ainda mais tão perto do Atlântico. A maresia lhes corrói, e tudo parece balançar, inseguro, trêmulo, qual um barco a singrar por águas turbulentas.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quinta-feira, novembro 10, 2011
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Crônica
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11 de outubro de 2011
Rubiáceas floridas para John Stuart Mill
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Hoje de madrugada, pouco antes do amanhecer, desabou uma chuvasca assustadora. Como o buraco do ar condicionado ainda está aberto, um vento muito forte, barulhento, escapava por ali, agitando as cortinas e esfriando o quarto-sala onde eu durmo. Levantei para tirar as roupas do varal externo e contemplar os relâmpagos. Quem bom estar em casa, pensei, antes de voltar para debaixo do edredon.
Lembrei então da entrevista que fiz à tarde com um diretor de cooperativa. Ele havia me dito que as perspectivas metereológicas para Minas Gerais eram boas para esta semana. O café precisa de muita chuva, para compensar os quase 120 dias sem água que passou na região. E precisava que chovesse agora, a tempo de provocar a abertura dos botões florais e garantir a renda dos quase cinco milhões de empregos gerados em suas lavouras.
Entretanto perdi o sono, e voltei para o computador, no escritório-salinha de jantar que montei perto da entrada. Não tirava da cabeça o desejo de baixar um livro de John Stuart Mill, sobre a liberdade de expressão, do qual sempre ouvira falar.
Baixei o livro e agora estou no meio da leitura. É muito emocionante. Ele imprime um tom dramático à sua defesa da liberdade, mas com uma argumentação tão racional quanto uma fórmula algébrica. O ritmo e a sintaxe do texto, por sua vez, têm aquela leveza e densidade poéticas dos grandes clássicos. Essa é uma das ideias que tenho de literatura, aliás, que não se trata apenas de ficção. Também os clássicos da filosofia, política e história constituem o patrimônio literário da humanidade. Um dia escrevo sobre isso.
O original em inglês está aqui, e eu dei upload numa tradução aqui. Intitula-se "On Liberty", ou "Sobre a Liberdade". Você também pode ler o capítulo sobre liberdade de expressão neste site.
Só volto a postar depois que digerir cada palavra, porque é um livro absolutamente imprescindível e urgente para mim neste momento. O café precisa de chuva para produzir suas lindas flores brancas com aroma de jasmin. Eu preciso ler este livro. A blogosfera e o Brasil precisam de liberdade. Como disse um maluco que tomou LSD e foi parar, por acaso, no sítio do John Lennon: tudo faz sentido agora, irmão.
Imagem: Wesley Duke Lee.
30 de setembro de 2011
Os cansados não ouvem jazz
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Tem um filme simpático do Otto Preminger, de 1962, intitulado Tempestade em Washington, que aborda o tema da chantagem na alta política americana, e que eu assisti pela primeira vez há poucos dias. A história se passa inteiramente no Congresso e os personagens são todos senadores, além do presidente. Como usualmente acontece nas histórias holliwoodianas, apontam-se os podres do sistema, mas essas zonas escuras servem apenas para os roteiristas exibirem, orgulhosamente, o amor que votam aos ideais democráticos e à liberdade. Se esses ideais não passavam de palavras vazias, e eram defendidos (como hoje) ao mesmo tempo em que se massacravam os mesmos valores nos países em desenvolvimento, isso é outra história. Nem acho que é para tanto.
Eles - os americanos - acreditam, nos ideais, mas ainda não entenderam que um princípio democrático nunca será moderno e nunca será de fato autêntico e coerente consigo mesmo enquanto não açambarcar a humanidade inteira. E isso já não é uma utopia ingênua. A instabilidade econômica global, as ameaças virais que pairam, sinistras, sobre a raça humana, os desequilíbrios ecológicos, só encontrarão respostas quando surgir um comando político centralizado no mundo. Moeda única, regras únicas, uma educação que tenha ao menos algumas plataformas unificadas. Eleição de uma língua franca (possivelmente o inglês), que deveria ser ensinada como segundo idioma a todos os homens, através de cursos públicos patrocinados pela própria ONU nos países mais pobres.
Mas é melhor parar com esse papo senão daqui a pouco estou votando em Marina Silva, e eu não gostaria de cometer um desatino assim.
Pesquisando na web sobre esse filme, topei com um post que seria uma excelente resenha, não pecasse pela inferência idiota e forçada que faz da realidade tupiniquim. Ele diz que assistir ao filme lhe produziu imensa vergonha de nossos políticos, porque, na história de Preminger, os senadores se digladiam por ideais e não por interesses mesquinhos e cobiça, como acontece - diz o blogueiro - no Brasil. Ora, compre um remédio pra sarna! Esse complexo de vira-lata enche o saco. O sistema político americano sempre foi podre, sempre viveu atolado em corrupção. Os interesses mesquinhos no mundinho estadunidense são tão arraigados que o lobby se tornou uma indústria bilionária, além de legalizada, e sem mencionar a desagradável mania que os congressistas ianques tinham (e ainda tem, como se viu em 2002 com a Venezuela) de apoiar golpes de Estado mundo afora.
O filme é bom, mas trata-se de uma ficção que mostra um pouquinho do lado podre da política americana. Só um pouquinho, para não assustar as donas de casa.
Entretanto, acho que foi interessante esbarrar com mais essa vira-latice; é um caso bem representantivo de como pensa um setor importante da sociedade brasileira. Os famigerados estratos médios produzem, em ritmo frenético, imbecis deslumbrados com a própria cultura. Suas manifestações textuais invariavelmente parecem discursos proferidos do alto de um púlpito sagrado, mesmo quando simulam (sobretudo quando fazem isso), com ar blasé, informalidade e non-chalance.
Daí eu lembro do nosso glorioso Merval Pereira e de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Até hoje não comentei o fato. Lembro que, assim que o soube, imaginei que o colunista do Globo mereceu esta honra pela sua habilidade em usar o futuro do pretérito. Jamais houve jornalista ou escritor com mais talento para manejar expressões tais como "fulano teria dito", "sicrano teria ouvido". Afora o monstruoso dom que tem para sondar os pensamentos secretos e íntimos dos poderosos. Quantas vezes Merval não destrinchou o inconsciente de Lula? Se não acertou nenhuma vez, não é por sua culpa, naturalmente, visto que é um gênio imortal. A culpa é de Lula que mudou de ideia...
Claro, a eleição de Pereira foi um típico "aparelhamento". Não vou dizer que ele seja um analfabeto, como fez um colega. Não. A gente tem que perder essa mania pedante de chamar todo mundo de analfabeto. Merval Pereira sabe ler muito bem e se trata, obviamente, de um sujeito tremendamente astuto, com uma invejável capacidade de trabalho. Aliás, eu tiro o chapéu para esses caras. Miriam Leitão, Merval, Jabor, trabalham com uma energia que me enche de admiração. A Miriam Leitão escreve uma coluna diária no Globo. Fala na CBN também todo dia. Aparece na Globonews. Tem um blog. Para culminar, desempenha sempre um papel importante nos filmetes publicitários que a Globo exibe de vez quando. A moça tem garra!
No discurso em que homenageou Merval, o super acadêmico Eduardo Portella não escondeu as razões que fizeram seus pares escolherem o jornalista para ocupar uma vaga na ABL. Foi um movimento político muito bem premeditado. Assim como tem sido essa festinha toda para que surja uma nova legião de cansados enfurecidos.
Confesso que fiquei bem ressabiado ao ver os jornais convocando manifestações ao mesmo tempo em que ressaltavam a sua "independência". Adotei uma postura deliberadamente hipócrita, voltariana, se é que se pode atribuir tal qualidade a si mesmo sem cair no ridículo - porque eu sabia que aquelas manifestações eram vazias, oportunistas, mais um capitulozinho medíocre no grande livro negro que a mídia escreve há décadas sobre as instituições políticas nacionais. Entretanto, como dizia Regina Duarte, eu tive medo. Muito medo.
A manifestação da Cinelândia foi um fracasso, é preciso que se diga com todas as letras. Esperavam mais de 30 mil e somente 2.500 compareceram. E olha que vieram algumas celebridades das artes, como Frejat e Fernandinha Abreu.
Agora eles estão tentando organizar outra manifestação no dia 12 de outubro. A mídia continua ajudando, divulgando e dando prestígio ao movimento. Não vaticinarei um novo malogro, mas não posso continuar agindo como um guarda do Palácio Real de Londres. Se eu ainda dava um certo crédito a essas manifestações anti-corrupção, a quantidade de abutres que se ouriçaram ao vê-las convenceu-me do contrário.
Não vou chamá-las, contudo, de golpistas, apesar de que elas exalam um fortíssimo cheiro. Um tiranete midiático vai usar técnicas bastante sutis para enganar a vontade popular e praticar uma espécie de golpe político. Mas se é mesmo tão sofisticado, o seu golpe já não pode ser considerado ilegal. É um golpe que não infringe, não diretamente ao menos, o princípio democrático, e portanto deve ser combatido com os instrumentos democráticos a nossa disposição.
No filme de Preminger que cito no início do post, tem um personagem - um senador jovem, voluntarioso, cercado de puxa-sacos -, que é o defensor mais apaixonado do presidente, mas é justamente ele que põe tudo a perder. Porque ele não entende alguns preceitos de uma democracia: uma vitória não precisa ser absoluta para ser uma grande e completa vitória; se não quisermos sermos mordidos, devemos deixar que os cães ladrem à vontade; demonstra-se força e prestígio não através do silêncio de nossos adversários, mas pela altivez e elegância com que enfrentamos seus impropérios. E partir para a baixaria - coisa que os rapazes das melhores famílias fazem sem disso se dar conta - apenas nos degrada.
Dito isso, não sou nada otimista em relação às lutas que travamos para democratizar a comunicação. A tal Ley dos Medios provavelmente não vai sair, e mesmo se sair não creio que dará resultados concretos. Concentração dos meios de comunicação? Ora, pode-se até proibir. Os gigantes se coligarão e driblarão a lei. Um Marinho leva a TV, outro Marinho leva o jornal, um terceiro Marinho leva o rádio. A fantasia esperta de nossos morenos Lampedusos. Cada um na sua, conforme a nova lei, e tudo continuará na mesma.
Por outro lado, após tantas vitórias, a gente às vezes até esquece do que está reclamando. Com o universo midiático relativamente pacificado, alguns blogueiros partem para o superficial, acusando a imprensa por eventuais escorregadelas semânticas ou sintáticas. Ironicamente, os gigantes da mídia, com todo seu imenso poderio, semelham garotos palestinos atirando pedras em tanques de guerra. Sendo que os tanques de guerra somos nós, as forças progressistas. Os partidos conservadores minguam em velocidade crescente. Li hoje que até o ACM Neto vai sair do DEM. E os tucanos correm desta vez sério risco de perder a sua cidadela.
O que falta, então? Por que nunca estamos satisfeitos?
Pois bem, eu vou dizer o que falta. É muito simples. Ou antes, não é nada simples. Falta realizar justamente agora o mais difícil. Falta a realização dos grandes projetos. Por isso é que se combate tanto a construção do trem-bala. Ele é um grande projeto. Na área da cultura, ainda esperamos o despontar de um boom cinematográfico que nunca chega. Temos visto somente espasmos de criatividade, geniais mas efêmeros. O mundinho literário é sempre cheio de auto-referências elogiosas, mas a verdade é que há muito tempo os dez livros mais vendidos são invariavelmente de autores norte-americanos. Isso não é normal, não é saudável, não tem explicação plausível. O Brasil precisa reconstruir-se culturalmente, mas de uma forma realmente autêntica, livre. Bem distante dos protestos verde-tecnológicos das viúvas de Gilberto Gil, dos clichês solipsistas dos garotos do Millenium, das xaropadas midiáticas, das panelinhas da Vila Madalena, etc. Eu acho que o brasileiro precisa é de solidão. Solidão, trabalho, renúncia. Mas eu permito que se vá, às quarta-feiras, ao live jazz da praça Tiradentes, para ouvir Miles Davis e contemplar o belíssimo edifício mourisco do Real Gabinete Portuguez (assim, com z mesmo). É muito melhor que o Rock in Rio, não tem engarrafamento, a cerveja é barata, o ingresso é grátis, e garanto que dificilmente encontrá algum cansado ou neo-cansado por aquelas bandas...
(Imagem: Juliano Guilherme)
# Escrito por
Miguel do Rosário
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sexta-feira, setembro 30, 2011
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20 de setembro de 2011
Péricles em Bonsucesso
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(Parede do ateliê de Nilton Pinho, artista plástico carioca)
Tem um lugar aqui no Rio, chamado Buraco do Lacerda, no bairro de Bonsucesso, que passamos a usar, em família, como sinônimo de inferno urbano. Virou uma expressão meio mitológica para gente, motivo das piadas de humor negro que aplicamos o tempo todo um ao outro. Se eu ganhar muito dinheiro (digo a ela), vou poder comprar uma belíssima barraca para você trabalhar como vendedora ambulante no Buraco do Lacerda. Eventualmente, posso adquirir um apartamento nas adjacências, para você morar perto do trampo.
O lugar é realmente horrível. Sujo, destruído, fedido, sempre engarrafado, com poças de água podre na rua esburacada e bueiros vazando merda. Para completar o quadro dantesco, há sempre viciados de crack vagando pelo local, alguns segurando pedras ou barras de ferro, sabe-se lá porque.
Outro dia, um garoto (imagino que seja um garoto, espero que seja, para escrever algo tão idiota e ingênuo) publicou um enorme artigo no Segundo Caderno do Globo denunciando que os cariocas e o seu poder público estavam acabando com o maravilhoso caos da cidade. Ele referia-se - imagino - a instalação de unidades de segurança nos morros e às operações para trazer melhoramentos urbanos às favelas. O texto é todo cheio de metáforas gordurosas, o garoto deve ser um neto de Fernando Henrique Cardoso que depois de fumar uns baseados sentiu algo estranho e eufórico no estômago; ao invés de ir ao banheiro e descarregar a energia por lá pegou um laptop e mandou um texto para o Globo, que naturalmente adorou. A razão de ser do artigo é que, acabando o caos, o Rio sofreria grave prejuízo a nível literário e cinematográfico. Escritores e cineastas, diante de um Rio higienizado e resolvido, não teriam mais material para se inspirarem.
Ora, parabéns ao poder público pelas UPPs e UPAs, e às obras de urbanização, mas elas cobrem um percentual medíocre da cidade. O Rio tem caos, sujeira, horror e tragédia suficiente para algumas décadas. Admito que tive sentimentos diabólicos, bandidos, de ir ao encontro do tal rapaz, encostar-lhe uma arma na cabeça, e conduzi-lo encapuzado até o Buraco do Lacerda, largando-o por lá, no meio dos viciados de crack, para ele curtir e se inspirar bastante.
Essas fumaças de violência, porém, não passam disso, de fumaça. Sou um cara totalmente da paz. Se eu fosse colega do tal janota, não faria mais que atacá-lo com perdigotos cheios de sarcasmo, mas ainda sim amistosos, compreensivos e hipócritas...
Afinal a gente tem que ser democrático, não?
Eu pensava nisso depois de ler uma série de artigos sobre a democracia na Grécia Antiga, e particularmente um sobre Péricles, um dos grandes líderes da época de ouro da democracia ateniense.
Aliás, uma errata. Sabe a historinha sobre o cara que passou o dia ouvindo insultos de um sujeito, no caminho de casa ao trabalho, na ida e na volta, e que, à noite, ainda mandou seu empregado escoltar o sujeito até onde ele morava? Não era Julio César. Era Péricles. A história é contada, se não me engano, por Plutarco, e tem um significado especial, que é mostrar a tolerância de Péricles para com seus adversários políticos, mesmo os oligarcas e aristocratas mais odiosos.
Segundo o artigo de Anne Bernet, publicado na revista História Viva, Péricles desarmou seus críticos com a seguinte afirmação:
Qualquer um que vise os mais nobres objetivos deve aceitar a hostilidade, e tem razão em fazê-lo, pois a cólera não dura muito tempo, enquanto a celebridade assegura a glória eterna.
A postura de Péricles (com o sujeito que o insultava e a sua fé na tolerância) me faz pensar em nossas lutas ideológicas domésticas, onde os jornalões figuram como a vanguarda mais agressiva do exército do conservadorismo, e os blogueiros, seus adversários mais aguerridos.
Por exemplo, hoje, no Globo, há um artigo de Rodrigo Constantino, intitulado "Às ruas!", onde mais uma vez constatamos a gana com que setores da imprensa tentam beber no pote da justa indignação popular.
No entanto, a imprensa privada tem o pleno direito, garantido na Constituição e em nossos valores democráticos, de apoiar a bandeira que lhe convir. Tem até mesmo o direito à hostilidade, e não acho que devamos mais nos estressar em demasia com isso. Assim como qualquer cidadão, a imprensa tem o direito de denunciar o poder público e externar seu ódio aos valores e ideias que considera nocivos ao país e ao mundo.
Tem um livro de Maquiavel menos famoso que O Príncipe, mas que na verdade é a sua melhor obra: Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, em que o florentino revela-se, decididamente, um entusiasta da democracia e da liberdade política. Nessa obra, há um trecho intitulado: Quanto le accuse sono utili alle republiche, tanto sono perniziose le calunnie. Não precisa nem traduzir, né? Na verdade, o título já diz tudo. Maquiavel traz exemplos da história antiga para provar a sua teoria, que será a mesma de Montesquiet, no Espírito das Leis: a calúnia deve ser combatida a todo custo, porque ela envenena o próprio coração da democracia, que é a liberdade de expressão. Ou seja, os caluniadores são os piores parasitas da democracia, porque eles semelham a um fascínora que se aproveita de um ambiente onde se permite que todos usem armas em público, desde que não as usem uns contra os outros, para violar essa regra sagrada e assassinar a reputação de um colega.
A solução é complexa, como ocorre com todas as coisas realmente importantes na vida. A captura e a punição a um caluniador mexe com os fundamentos morais de uma democracia, um sistema político até hoje instável ideologicamente, sempre se equilibrando, com dificuldade, entre os repuxões brutais dos defensores da igualdade política, à esquerda, e da liberdade, à direita. E, no entanto, ambos dependem um do outro para não caírem no abismo. Igualdade sem liberdade se converte em tirania, o que destrói a própria igualdade. E liberdade sem igualdade se transforma em opressão, matando qualquer impulso livre.
Esses dilemas, no entanto, antes de nos desanimar, deveriam nos provocar um grande entusiasmo espiritual, porque eles nos indicam um motivo de luta, um objetivo nobre, num mundo onde às vezes o desespero político parece dominar as mentes mais arrojadas. Não se trata, aliás, apenas de democracia, mas de alguma coisa ainda mais nobre que ela, alguma coisa que estava por trás, que estava ao fundo, quando um grego maluco decidiu que era melhor dar poder à maioria, ao povo, do que deixá-lo para sempre nas mãos de uma aristocracia arrogante. Trata-se de justiça, de paz, de amor, de conceitos extremamente antigos, extremamente contemporâneos, capazes de serem assimilados, em toda sua grandeza, por qualquer ser humano, independente de seu grau de cultura ou riqueza.
E já que um post recente fez sucesso justamente pela citação final de um poema de Rimbaud, segue um trecho de outro, intitulado "Democracia":
Adeus ao aqui, não importa onde. Recrutas de boa vontade, teremos a filosofia feroz; ignorantes para a ciência, astutos para o conforto; arrebente-se o mundo que vai. Esta é a verdadeira marcha; avante, a caminho!(Tradução colhida aqui).
# Escrito por
Miguel do Rosário
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terça-feira, setembro 20, 2011
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1 de setembro de 2011
Anti-imperialismo tropical
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Termino a última matéria do dia junto com o primeiro chop, num barzinho de Lisboa. O chop custa menos que na terra do sabiá. Passeando pela cidade, paramos diante de uns anúncios de imóveis e constatamos que um apartamento em Lisboa custa menos da metade que um similar no Rio. O hotel e a alimentação aqui são igualmente mais baratos que na minha cidade. Imagino que, não fosse as leis protecionistas da União Européia, o Brasil poderia engolir sua antiga colônia. O antigo sonho imperial lusitano terminou com um brasileiro bebendo e escrevendo no Bairro Alto.
Penso nisso enquanto medito sobre os imperialismos de hoje e ontem. Acabo de ler mais uma matéria do Pepe Escobar na qual ele faz diversas menções positivas ao Kadafi, o que me fez sentir mais remorso por ter me posicionado tão duramente contra o velho ditador líbio.
Evidentemente, eu me deixei levar pela onda de entusiasmo que varreu a intelectualidade ocidental ao ver os árabes derrubando tiranos e pedindo democracia e liberdade. Afinal, esses valores não são bandeiras da direita americana, como às vezes parece. São valores que fundamentam a nossa própria espiritualidade, para usar uma palavra bem forte.
Pepe Escobar e todos os analistas apontam a grande hipocrisia ocidental, que consiste em dar apoio às ultra totalitárias dinastias sauditas. De fato. O Ocidente vem destruindo os melhores países do norte da África, em prol de valores absolutamente filisteus. Primeiro foi o Iraque, um dos poucos regimes verdadeiramente laicos da região. Agora a Líbia, o único país árabe que fazia alguma coisa em prol da miserável África subsaariana. Enquanto os europeus se limitam a dar esmolas que, em última instância, apenas devastam ainda mais os últimos vestígios industriais do continente negro, Kadafi articulava o fortalecimento da União Africana e a criação de uma moeda única.
Bem, isso é o que agora falam os defensores de Kadafi, e me sinto inclinado a acreditar neles, por causa do meu remorso diante da guerra, mas é evidente que a ditadura líbia cometeu um erro fundamental, que é subestimar o valor da liberdade política. Tudo bem, a Arábia Saudita, o Barhein, etc, também cometem os mesmos erros e não são destruídos pela Otan. Mas a ditadura é um erro em toda parte: e uma hora ou outra, esse erro converte-se em alguma forma de tragédia, além de ser uma tragédia em si.
Há algum tempo que venho meditando sobre esse novo imperialismo e suas conexões com os antigas edições do mesmo fenômeno. São muito parecidos, por mais que as tecnologias tenham avançado. Quando vejo Hillary Clinton na tv falar que o governo da Síria tem de mudar, e que os sírios merecem isso e aquilo, tenho a sensação estranha de que aquilo é uma ficção bizarra. A diplomacia americana é incrivelmente tosca e agressiva. Com que direito os EUA se arrogam donos do futuro da Síria? Que visão de democracia imbecil é esta segunda a qual os povos não tem direito de decidir por si mesmos o seu futuro?
Por outro lado, é tão interessante observar como esses imperialismos, sem exceções, declinam e desaparecem. Da mesma forma, tento ver um lado positivo em tudo isso. Já li Voltarei e sei quando o otimismo pode ser idiota, mas é que eu penso nos imperialismos grego e romano. Eles também espalharam morte, devastação e injustiça. Destruíram culturas, sistemas políticos e formas originais de organização social. Moldaram a nossa história mesclando lições de arquitetura, filosofia e membros decepados.
Eram outros tempos, todavia. Ou supõe-se que eram outros tempos. Ao ver as matanças na Líbia, humanidade não parece ter mudado tanto. Enfim, nós brasileiros, assistimos Portugal quase exterminar toda uma raça de índios. E hoje, eu, bisneto de índios do Planalto Central, bebo um chop em Lisboa com um sensação algo vingativa de que sou mais bonito e mais rico de que todos esses portugueses a meu redor. O tempo passou, o imperialismo lusitano caducou e a história das injustiças encerra-se, como sempre, com alguém sentado num bar, divagando pacifica e melancolicamente, sobre as violências do passado e as loucuras do presente.
PS: prezados, terei que reduzir o ritmo dos trabalhos aqui até o dia 17 ou 18 de setembro, porque tenho uma prova para qual preciso ler toneladas de texto num curto espaço de tempo. Depois disso, volto com força total.
Penso nisso enquanto medito sobre os imperialismos de hoje e ontem. Acabo de ler mais uma matéria do Pepe Escobar na qual ele faz diversas menções positivas ao Kadafi, o que me fez sentir mais remorso por ter me posicionado tão duramente contra o velho ditador líbio.
Evidentemente, eu me deixei levar pela onda de entusiasmo que varreu a intelectualidade ocidental ao ver os árabes derrubando tiranos e pedindo democracia e liberdade. Afinal, esses valores não são bandeiras da direita americana, como às vezes parece. São valores que fundamentam a nossa própria espiritualidade, para usar uma palavra bem forte.
Pepe Escobar e todos os analistas apontam a grande hipocrisia ocidental, que consiste em dar apoio às ultra totalitárias dinastias sauditas. De fato. O Ocidente vem destruindo os melhores países do norte da África, em prol de valores absolutamente filisteus. Primeiro foi o Iraque, um dos poucos regimes verdadeiramente laicos da região. Agora a Líbia, o único país árabe que fazia alguma coisa em prol da miserável África subsaariana. Enquanto os europeus se limitam a dar esmolas que, em última instância, apenas devastam ainda mais os últimos vestígios industriais do continente negro, Kadafi articulava o fortalecimento da União Africana e a criação de uma moeda única.
Bem, isso é o que agora falam os defensores de Kadafi, e me sinto inclinado a acreditar neles, por causa do meu remorso diante da guerra, mas é evidente que a ditadura líbia cometeu um erro fundamental, que é subestimar o valor da liberdade política. Tudo bem, a Arábia Saudita, o Barhein, etc, também cometem os mesmos erros e não são destruídos pela Otan. Mas a ditadura é um erro em toda parte: e uma hora ou outra, esse erro converte-se em alguma forma de tragédia, além de ser uma tragédia em si.
Há algum tempo que venho meditando sobre esse novo imperialismo e suas conexões com os antigas edições do mesmo fenômeno. São muito parecidos, por mais que as tecnologias tenham avançado. Quando vejo Hillary Clinton na tv falar que o governo da Síria tem de mudar, e que os sírios merecem isso e aquilo, tenho a sensação estranha de que aquilo é uma ficção bizarra. A diplomacia americana é incrivelmente tosca e agressiva. Com que direito os EUA se arrogam donos do futuro da Síria? Que visão de democracia imbecil é esta segunda a qual os povos não tem direito de decidir por si mesmos o seu futuro?
Por outro lado, é tão interessante observar como esses imperialismos, sem exceções, declinam e desaparecem. Da mesma forma, tento ver um lado positivo em tudo isso. Já li Voltarei e sei quando o otimismo pode ser idiota, mas é que eu penso nos imperialismos grego e romano. Eles também espalharam morte, devastação e injustiça. Destruíram culturas, sistemas políticos e formas originais de organização social. Moldaram a nossa história mesclando lições de arquitetura, filosofia e membros decepados.
Eram outros tempos, todavia. Ou supõe-se que eram outros tempos. Ao ver as matanças na Líbia, humanidade não parece ter mudado tanto. Enfim, nós brasileiros, assistimos Portugal quase exterminar toda uma raça de índios. E hoje, eu, bisneto de índios do Planalto Central, bebo um chop em Lisboa com um sensação algo vingativa de que sou mais bonito e mais rico de que todos esses portugueses a meu redor. O tempo passou, o imperialismo lusitano caducou e a história das injustiças encerra-se, como sempre, com alguém sentado num bar, divagando pacifica e melancolicamente, sobre as violências do passado e as loucuras do presente.
PS: prezados, terei que reduzir o ritmo dos trabalhos aqui até o dia 17 ou 18 de setembro, porque tenho uma prova para qual preciso ler toneladas de texto num curto espaço de tempo. Depois disso, volto com força total.
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Miguel do Rosário
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quinta-feira, setembro 01, 2011
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22 de agosto de 2011
Carducci, cinema e a guerrilha anti-berlusconi
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(Egodesintegration, de Valerio de Filippis, pintor italiano contemporâneo)
Carducci é um dos poetas mais ensinados nas escolas italianas. Os literatos do país, no entanto, consideram-no excessivamente monumental. É acusado de ser acadêmico, um pouco artificial ou "forçado". Mas é respeitado por todos como um dos maiores poetas do chamado "resorgimento", ou seja, os anos de intensos conflitos sociais e políticos (com ampla participação da intelectualidade) que levaram à unificação da Itália, em 1861. Quer dizer, Carducci veio um pouco depois, e escreve para uma Itália já unida, mas seus poemas capturam os últimos vestígios desse movimento, já num ambiente de grande desilusão com os rumos políticos do país.
Na verdade, o artificialismo de Carducci é deliberado, porque ele se considerava um anti-romântico, cujos representantes no país ele combatia. Mas também é anti-clerical, progressista e republicano, posicionando-se desde sempre como adversário do agressivo conservadorismo aristocrático que assombrava toda a Europa desde o fim do Renascimento. De origem humilde, e tendo que ganhar a vida como professor, Carducci soube lutar contra os aristocratas usando suas próprias armas: a erudição, o domínio da cultura clássica e uma incomparável virtuose poética.
Estou estudando a história e a obra de Carducci porque me interesso pela poesia e pelo idioma italiano, que considero quiçá a mais musical das línguas latinas, talvez pelo fato de ter sido a que mais conservou a antiga melodia de nossa querida "nona", o latim.
Por uma felicidade, retorno - fisicamente - à Itália, de onde escrevo essas linhas, acompanhando minha mulher, que é júri de cinema num delicioso festival de curta-metragens em Piacenza.
A região da Emilia-Romagna, onde fica Piacenza e cuja capital é Bolonha, tornou-se uma espécie de fortaleza contra o pensamento berlusquiano, possivelmente porque uma das poucas universidades que escaparam à impiedosa tesoura governamental encontra-se aí, de maneira que sua ideologia em prol do investimento público (em oposição às ideias neoliberais da região da Lombardia, de Milão e Forza Italia, partido de extrema direita que é um dos sustentáculos de Berlusconi) espraia-se pelos arredores.
Piacenza, situando-se na fronteira com a Lombardia, é uma área de guerra cultural, portanto, e uma parte de seus habitantes há anos constroem muros para barrar os influxos berlusquianos que chegam de Milão. Lendo um poema de Carducci sobre o espírito de luta e resistência dos franceses que, ao fim do século XVIII, moravam nos limites do país com Áustria e Alemanha (cujas monarquias tentavam obrigar a França a engolir seus ímpetos revolucionários e restituir o poder a seus antigos donos), eu comparo esse espírito à abnegação sonhadora dos organizadores do 10º Concorto, o evento de que lhes falei. Trabalham todos voluntariamente para realizar um dos festivais de curta-metragem mais interessantes do país. Iniciativas como essa pipocam em toda Itália, e são sempre lideradas por intelectuais anti-berlusquianos; apesar da massacrante desilusão em que vivem os italianos progressistas de hoje, em virtude da opressiva situação política, eles continuam fazendo seu trabalho de militância cultural, através do qual disseminam aqueles antigos valores que estão por trás de todas as grandes transformações sociais e políticas que algum dia viveram as sociedades, européias ou não.
Mas eu falava de Carducci. Um rapaz com que conversava há pouco no saguão do hotel indicou-me um poema dele que foge a seu estilo grandioso. Quem poderá culpá-lo, todavia, por abandonar a frieza acadêmica (fria, pomposa, mas tecnicamente admirável) para expressar, num poema mais íntimo, a dor excruciante e irreparável da morte de seu filhinho querido, cujo nome, Dante, nos confirma o amor sincero que reserva à poesia italiana?
O poema é inspirado num antiquíssimo canto fúnebre grego (língua que Carducci ensinava), onde o autor ressalta o contraste entre uma bela romãzeira (melograno), que volta a florir todos os anos, e a sua própria existência, cujas flores parece que jamais retornarão, após a perda de um ente tão amado.
Transcrevo o original em italiano; em seguida, uma tradução de minha lavra.
Pianto Antico
L'albero a cui tendevi
La pargoletta mano,
Il verde melograno
Da' bei vermigli fior,
Nel muto orto solingo
Rinverdi tutto or ora
E giugno lo ristora
Di luce e di calor.
Tu fior de la mia pianta
Percossa e inaridita
Tu de 'inutil vita
Estremo unico fior,
Sei ne la terra fredda,
Sei ne la terra negra;
Né il sol piú ti rallegra
Né ti risveglia amor.
Giugno 1871
Lamento antigo
Árvore a qual tocava
a pequenina mão,
a verde romãzeira
das belas rubras flores,
no jardim agora mudo
viçosa estava há pouco;
recupera em junho tudo,
não terá mais dissabores.
Tu, flor da minha planta
machucada e ressequida,
Tu, da inútil vida
Derradeira única flor,
Jaz agora em terra fria,
Jaz agora em terra negra;
Nem o sol mais te alegra
Nem te desperta o amor.
Junho, 1871
Giosue Carducci
(tradução: Miguel do Rosário)
*
Aproveito a oportunidade e partilho com vocês as indicações que recebi desse amigo, um cineasta bastante culto, acerca dos nomes mais representativos da poesia italiana moderna:
Giacomo Leopardi - Segundo meu amigo, é o maior; muito distante, em qualidade e profundidade, de todos os outros.
Ungaretti
Montale
Hugo Foscolo
Dino Campana
Meu amigo também me sugeriu estudar a poesia de D'Annunzio, para entender a existência de Berlusconi.
Por fim, indicou-me alguns escritores em prosa:
- O anti-fascista Emilio Galda.
- Nicola Lagioia, uma escritora cujos livros mostram muito da Itália dos anos 2000.
- E confirmou-me a qualidade de Roberto Saviano, sobretudo sua obra-prima Gomorra, já muito famosa no Brasil.
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Miguel do Rosário
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segunda-feira, agosto 22, 2011
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6 de agosto de 2011
O pêndulo dos aflitos, ou quando tudo começou
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(Narciso, por Caravaggio)
Em julho de 2008, entrei numa aula de box e a consequência foi abandonar o emprego. Eu estava em boa forma física na época, correndo várias vezes por semana no aterro do flamengo, pedalando minha bicicleta até a Urca ou Ipanema, fazendo longas caminhadas. Senti-me preparado, portanto, para vôos mais altos e aceitei a sugestão do zelador do meu prédio de praticar box numa academia vagabunda e semi-clandestina da rua do riachuelo. Na Lapa, a profissão de zelador tem um excelente status e aquele porteiro, Cláudio, era um sujeito bem original: além de seus conhecimentos avançados em box (pouco depois ingressaria na federação nacional e se tornaria professor), era também um pintor de talento, recebendo encomendas de médicos e terreiros de umbanda. Um quadro seu foi misteriosamente roubado de um consultório, o que me levou a comentar que seus trabalhos havia se tornado objeto de cobiça das grandes quadrilhas internacionais.
Não foi uma boa idéia. Voltei do box com fortes dores no braço, que só aumentaram no dia seguinte, deixando-me praticamente aleijado por dois meses. Resultado, comuniquei a empresa para a qual eu prestava serviços que não podia mais continuar.
Eu desejava fazer isso há tempos. Nada como ficar aleijado temporariamente, sem nenhuma proteção trabalhista, para ganhar coragem! Na verdade, porém, minha decisão fora tomada (ainda de forma meio inconsciente), algumas semanas antes, ao assistir uma peça do Bortolotto, intitulada "Efeito Urtigão", num teatro da Tijuca. Alguma coisa naquela história me tocou profundamente: a coragem e a renúncia, sobretudo.
Então veja como são as coisas: uma peça de teatro e uma aula de box fizeram-me abandonar o emprego e dedicar-me exclusivamente ao blog. Quer dizer, eu estava aleijado ainda, e nem escrever podia. Mesmo assim, organizei uma festa lá em casa: a festa do desempregado, com cerveja grátis para todo mundo, música boa e amigas bonitas. No apezinho de quarto e sala acotovelaram-se dezenas de amigos e desconhecidos, dançando ao som das músicas que alguém selecionava no youtube.
Sem poder escrever, dediquei-me às artes plásticas. Um dia publico aqui os trabalhos que fiz naquele período. E fiquei um tanto nervoso em relação às minhas finanças. Nunca trabalhara em nada que não fosse relacionado à sentar a bunda diante de um computador. Dessa vez, porém, com o braço direito ainda meio aleijado, resolvi fazer algo diferente. Como rapaz bom e humilde que sou, decidi começar de baixo: vender cerveja na Lapa.
Bem, resumo da história: foi um fracasso. Eu e meu irmão caçula (que veio me dar uma força) não vendemos quase nada, e acabamos por beber boa parte da cerveja. Ser ambulante na Lapa não era tão fácil como eu imaginava. Os pontos estavam todos tomados, alguns há uns quinze anos, e as áreas principais eram restritas aos membros da Associação.
Algumas semanas depois, felizmente, meu braço melhorou e pude voltar a escrever. Estava sem emprego e sentindo-me maravilhosamente livre com todo aquele tempo disponível. Voltei a postar no blog, a publicar em revistas, e criei a Carta Diária. Assim teve inicio uma fase diferente do Óleo do Diabo.
Entretanto, repassando o histórico dos últimos anos, vejo que essa história de "fases" do blog é uma viadagem recorrente. No fundo, não tem fase nenhuma, apenas o desenvolvimento natural de ansiedades, sonhos e frustrações. Tento me consolar, às vezes, dizendo que, ao menos, eu me arrisco.
De qualquer forma, quero sugerir aqui uma bela crônica do Mirisola, insistir para que vocês assistam ao filme Ilusões Óticas no cinema, e fazer uma propaganda da minha Carta Diária.
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sábado, agosto 06, 2011
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31 de julho de 2011
Motel Solano Trindade
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Curiosa vida. Numa hora Solano Trindade recita poemas no Vermelhinho, aquele boteco em frente à ABI, diante de figuraças como o Barão de Itararé, o próprio, banha, cachaça, piadas; eis que, sessenta anos depois, um blogueiro bêbado pratica desatinos idiotas num motel sombrio de Duque de Caxias. Tipo se levantar à noite, sonâmbulo, e mijar num canto do quarto, qual um exu mal ajambrado e babaca.
Eu tenho dívidas, confesso. Malditos livros sobre a idade média, filmes antigos, oitocentos posts sobre política, alguns condomínios atrasados. Ambições mesquinhas. Vaidade. Fernando Pessoa escrevia cartas comerciais para ganhar dinheiro. Eu tenho raiva dos poetas vendendo livrinhos xerocados na porta da Biblioteca Nacional. Gosta de poesia, me perguntam. Não, eu respondo.
Eu não gosto de poesia, seus putos.
Mas fui à Caxias dirigindo meu carro velho, um pouco nervosamente por estar há mais de dez anos sem pegar estrada, e além disso, não sei se o Haiti é aqui, mas a Faixa de Gaza (ali na Leopoldo Bulhões), com certeza, é.
Cheguei depois da exibição do filme, mas a tempo para a festa no vão do Sesc, um trambolhão gigantesco desenhado por Oscar Niemeyer, encravado esquisitamente no caótico centro de Caxias. A tempo, enfim, de curtir música boa, beber cervejas a quatro reais no botequim do outro lado da rua, encontrar meu velho amigo Renato que apareceu do nada, e ter amnsésia depois de torrar uma pequena fortuna.
Assisti ao filme em casa, no dia seguinte, um belo documentário sobre o inesquecível poeta Solano Trindade, amigo dos comunas da década de 40, rival e parceiro de Abdias Nascimento, uma espécie de Luther King pinguço, macumbeiro e mulherengo. Um poeta.
E eu não gosto de poesia.
Porque a poesia não existe, seus putos.
O que existe é o poeta, dizia Dante Milano.
Solano participou de treze filmes, entre eles alguns clássicos do cinema nacional, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Pesquisava manifestações folclóricas e produzia espetáculos que marcaram muitas gerações. Suas festas, em Caxias ou em Embu, São Paulo, duravam três dias. Como diria outro negão, anos depois, Solano era o cara.
A minha diversão durou apenas até duas e pouca da manhã. Dormi num motel perto do centro, minha mulher com medo que algum psicopata arrombasse a porta de madrugada e nos matasse (a porta, aliás, estava mesmo arrombada).
As ruas cheias de craqueiros alucinados. Caxias, a quarta economia do país, e o melhor hotel está cheio de mosquitos. Godi, Fiorenza, poi che se' sì grande, che per mare e per terra batti l'ali, e per lo 'nferno tuo nome si spande!
Goza, Caxias, pois que és tão grande, que por mar e terra bate asas, e até no inferno teu nome se expande!
E todos com receio do senhor Zito, com tantos capangas e nenhuma capa preta. Nada disso. A Lurdinha, dessa vez, está na mão do povo! Quer dizer, do HB, o que é quase a mesma coisa.
Então lá estava o blogueiro na festa de nove anos do cineclube Mate com Angu, coroada com um filme sobre Solano Trindade. Aindo prefiro Dante Alighieri, mas Solano é coisa nossa. Ele, o prefeito-mafioso, um bom café da manhã num motel vagabundo. E as lembranças, algo nebulosas, culpadas, magníficas, de uma grande farra entre camaradas.
Eu tenho dívidas, confesso. Malditos livros sobre a idade média, filmes antigos, oitocentos posts sobre política, alguns condomínios atrasados. Ambições mesquinhas. Vaidade. Fernando Pessoa escrevia cartas comerciais para ganhar dinheiro. Eu tenho raiva dos poetas vendendo livrinhos xerocados na porta da Biblioteca Nacional. Gosta de poesia, me perguntam. Não, eu respondo.
Eu não gosto de poesia, seus putos.
Mas fui à Caxias dirigindo meu carro velho, um pouco nervosamente por estar há mais de dez anos sem pegar estrada, e além disso, não sei se o Haiti é aqui, mas a Faixa de Gaza (ali na Leopoldo Bulhões), com certeza, é.
Cheguei depois da exibição do filme, mas a tempo para a festa no vão do Sesc, um trambolhão gigantesco desenhado por Oscar Niemeyer, encravado esquisitamente no caótico centro de Caxias. A tempo, enfim, de curtir música boa, beber cervejas a quatro reais no botequim do outro lado da rua, encontrar meu velho amigo Renato que apareceu do nada, e ter amnsésia depois de torrar uma pequena fortuna.
Assisti ao filme em casa, no dia seguinte, um belo documentário sobre o inesquecível poeta Solano Trindade, amigo dos comunas da década de 40, rival e parceiro de Abdias Nascimento, uma espécie de Luther King pinguço, macumbeiro e mulherengo. Um poeta.
E eu não gosto de poesia.
Porque a poesia não existe, seus putos.
O que existe é o poeta, dizia Dante Milano.
Solano participou de treze filmes, entre eles alguns clássicos do cinema nacional, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Pesquisava manifestações folclóricas e produzia espetáculos que marcaram muitas gerações. Suas festas, em Caxias ou em Embu, São Paulo, duravam três dias. Como diria outro negão, anos depois, Solano era o cara.
A minha diversão durou apenas até duas e pouca da manhã. Dormi num motel perto do centro, minha mulher com medo que algum psicopata arrombasse a porta de madrugada e nos matasse (a porta, aliás, estava mesmo arrombada).
As ruas cheias de craqueiros alucinados. Caxias, a quarta economia do país, e o melhor hotel está cheio de mosquitos. Godi, Fiorenza, poi che se' sì grande, che per mare e per terra batti l'ali, e per lo 'nferno tuo nome si spande!
Goza, Caxias, pois que és tão grande, que por mar e terra bate asas, e até no inferno teu nome se expande!
E todos com receio do senhor Zito, com tantos capangas e nenhuma capa preta. Nada disso. A Lurdinha, dessa vez, está na mão do povo! Quer dizer, do HB, o que é quase a mesma coisa.
Então lá estava o blogueiro na festa de nove anos do cineclube Mate com Angu, coroada com um filme sobre Solano Trindade. Aindo prefiro Dante Alighieri, mas Solano é coisa nossa. Ele, o prefeito-mafioso, um bom café da manhã num motel vagabundo. E as lembranças, algo nebulosas, culpadas, magníficas, de uma grande farra entre camaradas.
(Equipe de produção de O Vento Forte do Levante, um honesto
e competente documentário sobre o poeta Solano Trindade).
e competente documentário sobre o poeta Solano Trindade).
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domingo, julho 31, 2011
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28 de maio de 2011
Esclarecimentos sobre minha ideologia
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(Van Gogh, o mestre)
Nos últimos tempos, tenho sido bastante polêmico, divergindo bastante de muita gente, amigos, de outros blogueiros progressistas, em diversos temas. Como é de praxe na política, as pessoas acabam levando isso para o lado pessoal. Uma vez um comentarista me acusou de fazer polêmica apenas para chamar a atenção. Agora um outro disse estar surpreso pelo meu blog ainda estar linkado aos blogs "de esquerda". Preciso esclarecer algumas coisas.
Não faço polêmica pela polêmica. O que eu afirmo aqui é porque eu acredito. Contudo eu gosto de polêmica. Não tenho medo de ter uma opinião diferente, que contrarie a maioria, ou pelo menos um grupo que se considere (mesmo que não seja) a maioria. O que eu vejo, sempre, são as pessoas tentando ganhar no grito. Não constituem a maioria, mas são os mais barulhentos, e que usam determinada circunstância política para falarem mais alto. Assim que as circunstâncias mudam, são forçados a baixar o volume da voz, e aí vemos outros comentaristas emergirem.
Acredito na social-democracia, ou pelo menos no que isso significava antes do PSDB difamar a expressão. Ou seja, um regime democrático deve ter saúde e educação públicas gratuitas e universais, ponto.
De resto, minha única posição mais radical à esquerda refere-se ao sistema bancário: acho que os bancos privados são uma reminiscência medieval. Se a moeda é única e estatal, o crédito também deveria sê-lo. Os Estados deveriam ter apenas um banco público e estatal. Com isso, evitaríamos esse absurdo que é termos uma crise bancária a cada dez anos, forçando os governos a se endividarem para salvar o mundo de uma bancarrota.
Gosto muito da ideia de autarquias públicas, independentes do governo. Tipo assim, um Instituto Nacional de Educação, onde os diretores das filiais nos estados seriam eleitos pelos próprios professores, com participação da sociedade como um tudo. Eu vi isso funcionar muito bem na Colômbia, com a Federación Nacional de Cafeicultores.
Tenho, porém, opiniões muito próprias e até, diríamos, originais sobre o que seria o socialismo, o capitalismo, direita ou esquerda. Já escrevi muito sobre isso ao longo dos últimos oito anos.
Por exemplo, não acho que o capitalismo exista. Para mim existe um problema conceitual que vem confundindo há séculos as lutas trabalhistas. Neste sentido, sou crítico da filosofia marxista. O capitalismo não é uma ideologia. Quer dizer, existe uma ideologia capitalista, mas não se pode confundi-la com o processo histórico-econômico. Ao dizer que o mundo de hoje é o que é em virtude do capitalismo, a esquerda confere ao capitalismo uma força muito maior do que ele tem na verdade. O mundo hoje é simplesmente mundo, sem adjetivos ideológicos. ELe é o que é em virtude do desenvolvimento natural das forças produtivas, do desenvolvimento da vida. Dizer que a nossa civilização é capitalista é como dizer que os macacos e as aves também são capitalistas. O homem é um animal, e como tal se organiza em função de suas possibilidades cognitivas e existenciais.
Da mesma forma, o conceito de esquerda também não existe. Não existe um conceito definido sobre o que é ser de esquerda. A coisa mais palpável são frases do Norberto Nobbio sobre "estar ao lado dos oprimidos", o que é vago demais. Qualquer evangélico conservador ou político populista alega ser de esquerda pelos mesmos motivos. O presidente do DEM ao assumir, recentemente, declarou-se de esquerda. Roberto Freire repetia que o Serra estava muito mais à esquerda que Lula e Dilma. E durante muito tempo Lula repetiu que não se considerava "de esquerda", mas apenas um torneiro-mecânico; mais tarde sofisticou a informação dizendo que era um homem "com tendências socialistas".
No entanto, a gente consegue sempre, no ambiente concreto da luta política, identificar as forças de esquerda ou direita. As diferenças acentuam-se durante um embate eleitoral, mas sempre haverá confusão.
Eu me considero de esquerda, mas isso não quer dizer que eu ache maravilhoso todos os lugares comuns esquerdistas. Ao contrário, um dos focos do meu trabalho é a - digamos - elevação espiritual da esquerda, no sentido de aprimorar seus conceitos, estratégias e objetivos. Isso é uma luta, no seio da qual seus representantes costumam agredir-se mutuamente.
Eu não agrido ninguém, quer dizer, também dou minhas bordoadas aqui e ali, mas quase sempre em legítima defesa, e sobretudo procuro não julgar os outros como se eu fosse dono da razão.
O fato é que ser de esquerda não nos faz inteligentes. Muito pelo contrário, as pessoas ditas de esquerda costumam abraçar-se facilmente a clichês, jargões ideológicos.
Em "A estrutura ausente", de Umberto Eco, há um capítulo que fala sobre "as interações entre retórica e ideologia".
"Mas se retórica e ideologia estão tão intimamente ligadas, poderão os dois movimentos proceder independentemente um do outro?", pergunta-se Eco.
Segundo Eco, a ideologia é "a conotação final da totalidade das conotações do signo ou do contexto dos signos". Ou seja, a ideologia tem uma substância, um conteúdo, mas também possui uma forma. Não se trata, precisamente, de uma definição acerca de ideologia política. É uma ideologia de forma geral. Mas a ideologia política, hoje e sempre, confunde-se com a ideologia comum das pessoas. Com um pouco de sensibilidade e sorte, consegue-se adivinhar a ideologia da pessoa apenas por alguns gestos e frases. Até mesmo expressões faciais nos permitem intuir (às vezes) a que facção ideológica ela pertence.
É justamente isso que às vezes confunde os meus leitores. Eu combato a necrose ideológica decorrente do uso de lugares comuns. Por exemplo, ser de esquerda não é ser contra os Estados Unidos. Acho isso uma tolice. A pessoa está lá, digitando no Twitter, no Blogspot, usando a Internet, e querendo expulsar o Obama do território brasileiro! Além disso, ao apegar-se somente à frase feita, ao lugar comum, a pessoa perde o poder de análise. Nestes imbróglios sobre o oriente médio, por exemplo, culpa-se os EUA por tudo. Certo, os americanos têm culpa no cartório, mas a culpa principal é das próprias elites árabes, que venderam-se facilmente à ideologia americana, de um lado, ou abraçaram com volúpia sistemas de governo ditatoriais.
Aqui nas Américas, a mesma coisa. A culpa da ditadura militar que vivemos não é dos EUA, embora eles tenham ajudado. É nossa, de nossas elites. Durante muito tempo canalizamos mal a nossa revolta. Tínhamos que focá-la nos verdadeiros culpados pelo golpe de Estado: os donos da mídia, as elites econômicas e a classe média moralista e manipulável.
Um dos grandes avanços propriamente ideológicos trazidos por Lula foi justamente o de pararmos de culpar os países ricos por nossa pobreza e passarmos a olhar de frente nossos próprios defeitos, para corrigi-los. Toda a novidade trazida por Lula veio de sua ideologia original, quase anti-esquerdista. Lula quase não usava jargões esquerdistas, e apenas por isso conseguiu conquistar o povão e, mais tarde, todas as classes sociais. O jargão, o lugar comum, o clichê, só fazem sucesso entre um grupo reduzido de militantes.
Eu queria saber tambem qual a explicação, dentro da ciência política, para a emergência dessa ideologia impaciente, radical, irritadiça, sempre que um governo de esquerda ganha uma eleição. Aconteceu no Chile, lembrou-me Wanderley Guilherme dos Santos. Allende foi emparedado pelo radicalismo. Aconteceu na República de Weimar, na Alemanha do entreguerras. Aconteceu no governo de João Goulart. O resultado sempre foi desastroso.
A defesa do meio ambiente é algo fundamental no mundo de hoje, e no Brasil em particular. Mas não é propriamente uma bandeira da esquerda, ainda mais num país que precisa desesperadamente se desenvolver para superar mazelas sociais. É uma bandeira da civilização. Não pensem que eu ponha o meio-ambiente em segundo plano. Evidentemente sou contra o desmatamento, qualquer um, seja de grandes ou pequenos. Não acho, porém, que este será resolvido com aplicação de multas para 3 ou 4 milhões de proprietários rurais, que era o estava em vias de acontecer. Acho a ideia do Aldo Rebelo bastante sensata, que é forçar o produtor, em troca da anistia, a ingressar num programa de regulamentação ambiental. Em vez do governo tomar um calote, e a floresta continuar desmatada, ele ensinará o produtor o que fazer e como fazer. Também não podemos expulsar os pequenos produtores de suas terras por causa de uma legislação draconiana. O resultado seria desastroso: os pequenos não sairiam, haveria um problema social, e não resolveríamos igualmente o impasse ambiental. A solução, mais uma vez, é monitorar, regulamentar, ensinar o produtor a respeitar o meio ambiente.
Tenho esperança que o Congresso Nacional, depois que o Código Florestal for revisado pelo Senado, passar pelos últimos ajustes na Presidência e voltar à Câmara dos Deputados para se tornar lei, será um Código bastante sensato, que contemple as necessidades do agronegócio, do produtor familiar e do meio ambiente. E se não for perfeito, será melhor do que o anterior, e sempre poder-se-á aprimorá-lo ao longo do tempo. Talvez seja ingenuidade, sim, ou talvez seja simplesmente esperança!
Outro ponto que gerou atrito entre este blog e alguns leitores foi um post sobre Bin Laden. Mais uma vez, acho que as pessoas se deixaram levar pelo lugar-comum de culpar os americanos. Bin Laden era o cabeça de uma organização militar não-convencional. Um julgamento justo para Bin Laden apenas seria possível se a Al Qaeda depusesse as armas, como fez o Ira, na Irlanda. Como aconteceu, tratava-se de uma situação de guerra, onde os soldados americanos que invadiram a casa do terrorista enfrentaram risco e portanto podiam perfeitamente alegar legítima defesa. O Chomsky escreveu um texto falando que seria como um outro país invadisse a Casa Branca, assassinasse o presidente e lançasse seu corpo ao mar. Ora, foi exatamente isso que a Al Qaeda tentou fazer. Um dos aviões sequestrados no 11 de setembro (se não me engano), seria jogado contra a Casa Branca. Acho um erro, enfim, que a esquerda assuma a defesa de Bin Laden, porque isso a afasta do bom senso comum e a põe na marginalidade política. Escrevi já milhões de artigos detonando os EUA, detonando a guerra no Iraque e no Afeganistão. Mas entendo que Bin Laden era o inimigo número 1 dos EUA, e que sua morte foi justificada por ser o homem mais perigoso do mundo, um verdadeiro homem-bomba. A violência sempre existirá entre os homens, mas a ideologia democrática define que esta deva ser monopólio dos governos. No futuro, o combate ao terrorismo deve ser tocado apenas pelo exército da ONU, e não de nenhum país em particular.
Por fim, quero deixar claro que não tenho certeza absoluta de nada. Meu ídolo na filosofia é Sócrates e seu jeito irônico, sua dialética e simplicidade. ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα. Só sei que nada sei. (Escrevi em grego só para tirar onda, não sei grego. Ainda. Daqui a uns sessenta anos, talvez aprenda. A frase pronuncia-se assim: hen oída hoti oudén oída). Sou apenas um blogueiro diletante e presunçoso, que gosta de dar pitaco sobre tudo. Não me odeiem, por favor. Pra ser franco, eu sofro à beça quando me vejo obrigado a discordar de meus colegas "de esquerda", mas não posso agir de outra maneira. Tenho que dizer o que penso. De qualquer forma, todos nós morreríamos de tédio se houvesse sempre o consenso. E há um ponto bastante positivo em nossas divergências. A gente está começando a esquecer a grande mídia. Nossos debates tem, aos poucos, escapado da simples crítica ao "PIG" e ganhado independência. Em alguns casos, nem damos mais bola ao que diz a imprensa, e fazemos o debate entre a gente, com informações que colhemos diretamente na realidade, através desse maravilhoso "portal" que é a internet.
Juro que estou disposto a mudar de opinião, sempre que me forem apresentados argumentos convincentes. Nem tenho ideia fixa. Também não tenho nenhuma obrigação com o governo Dilma. Às vezes dá vontade até de falar um palavrão, tipo: quero que o governo se... que a Dilma se... Mas isso seria ridículo. Pode parecer piegas e demagógico, e talvez seja mesmo, mas meu único interesse é o bem do povo brasileiro. A gente que gosta de política parece que tem um gene a mais (ou a menos) e sente na carne o que acontece a nosso redor, na sociedade.
Frequentemente falo besteira, sobretudo no Twitter, onde estou exposto aos repuxos do meu sarcasmo, irritação, desejo de ser "engraçadinho", etc. Tanto que às vezes prometo a mim mesmo que não usarei mais o Twitter. Peço que sejam tolerantes comigo nessa rede social, onde geralmente boto meu bom comportamento de lado e ajo como um verdadeiro delinquente. Estou tentando me cuidar, porque o número de seguidores está crescendo e a responsabilidade aumentando, mas nunca deixarei de ser irreverente (ou tentar sê-lo).
E já que abri os portões da pieguice, seguem os primeiros versos de Tabacaria, um poema batido, mas lindíssimo de Fernando Pessoa, que uso à guisa de conclusão e para resumir como eu me sinto:
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
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Miguel do Rosário
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sábado, maio 28, 2011
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18 de maio de 2011
Arquivo: A luz irrompe onde nenhum sol brilha
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Tô resgatando uns posts (nem tão) antigos, publicados no meu outro blog, o Hell Bar. Faço isso de vez em quando para concentrar todos os textos no Óleo. Esse aí, de 2006, recebeu um comentário hoje, então me lembrei dele e resolvi publicá-lo aqui. Naquela época, eu tinha dois blogs, um mais literário, o Hell, e outro mais político, o Óleo. Mas foi ficando meio esquizofrênico, como se eu tivesse duas personalidades, então resolvi focar num blog só, mesmo sabendo que poderia perder alguns leitores, que estranhariam os textos políticos.
A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.
( tradução: Fernando Guimarães)
**
E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO
E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
( tradução: Fernando Guimarães)
PS: Por último, pero not least, dêem um chego no site do Claudinei, para ler o texto do Mirisola sobre a Flip.
Esse cara é o Dylan Thomas, poeta britânico nascido em 1914. Não me lembro direito como o conheci. Acho que foi através do conto O Perseguidor, de Cortázar, no qual o personagem principal, o saxofonista Johnny Walker - inspirado no músico realíssimo Charlie Parker - é leitor assíduo de Dylan. Ou então foi através de alguma biografia de Robert Allen Zimmerman, nosso querido Bob Dylan, que homenageou seu ídolo tomando-lhe emprestado o sobrenome. Vale dizer que o músico Dylan fez jus ao empréstimo. Quem sabe um dia eu, enchendo o saco do meu próprio sobrenome, não resolvo me chamar Miguel Dylan? Não, melhor não.
Na época em que eu lia Dylan pela primeira vez, no início dos 90's, aconteceu uma coisa chata. Meu pai teve um infarte e foi hospitalizado. Eu estava fora de casa, acho que em outra cidade. Voltando ao Rio, peguei um ônibus para visitá-lo no CTI. Consegui a proeza de escrever um poema no próprio ônibus. Um poema inspirado em Dylan Thomas, no texto intitulado A morte perderá seu domínio. Lembro que foi uma poesia muito forte, ou pelo menos me pareceu assim (infelizmente, perdi esse poema), que tinha o objetivo bem ambicioso de salvar a vida do meu pai. Minha poesia falava algo como não se deixar levar pelo caminho mais fácil, não se deixar seduzir pelo canto sedutor da morte. Não pude vê-lo naquele dia, mas entreguei o poema ao médico, para que repassasse a meu pai após a operação de safena. Quando retornei ao hospital, no dia seguinte, seus olhos brilhavam, febris, vivíssimos. Disse-me que tinha amado o poema. Aquilo foi importante pra mim. Tive a impressão de que o poema ajudou-lhe num momento difícil. Ele viveu, depois disso, muitos anos. Ainda pôde trabalhar muito e consumir muitos litros de uísque.
José Barbosa do Rosário, meu pai, foi um grande sujeito. Exagerava na bebida, mas sempre foi muito trabalhador e absolutamente íntegro. Chegou do sertão mineiro com 21 anos de idade e algumas notas escondidas na cueca. Nada ver com aquele infeliz assessor do irmão do Genoíno, pego com cem mil dólares no cuecão. Meu pai carregava seus parcos recursos num bolso costurado na roupa de baixo porque minha avó achava - com razão - que o Rio tava cheio de ladrão.
O velho teve dois grandes sofrimentos na vida. Um foi a destruição mental do irmão Cirilo, internado aos vinte anos numa clínica psiquiátrica obscurantista que torrou seus neurônios de tanto choque elétrico. O tio Cirilo ainda está vivo. Eu e meu pai fomos visitá-lo em vários hospícios dos arredores do Rio.
O segundo trauma foi a morte bárbara de seu outro irmão, Francisco, torturado medievalmente por policiais da nona DP do Rio de Janeiro, no finalzinho da ditadura, 1981, o que motivou meu pai a escrever seu único livro, Quando a polícia mata.
Dia desses conto mais histórias do meu pai e dos meus famíliares do Triângulo Mineiro. Adianto só que um tio avô meu era jagunço autônomo, cobrava para matar e colecionava orelhas de suas vítimas numa bolsa de couro que levava sempre consigo, à guisa de curriculum vitae.
É isso, deixo vocês agora, com 2 poemas do Dylan Thomas, tirados de um site com excelentes traduções de Ivan Junqueira e Fernando Guimarães. Para os feras do inglês, pode-se ler originais do poeta por aqui.
Na época em que eu lia Dylan pela primeira vez, no início dos 90's, aconteceu uma coisa chata. Meu pai teve um infarte e foi hospitalizado. Eu estava fora de casa, acho que em outra cidade. Voltando ao Rio, peguei um ônibus para visitá-lo no CTI. Consegui a proeza de escrever um poema no próprio ônibus. Um poema inspirado em Dylan Thomas, no texto intitulado A morte perderá seu domínio. Lembro que foi uma poesia muito forte, ou pelo menos me pareceu assim (infelizmente, perdi esse poema), que tinha o objetivo bem ambicioso de salvar a vida do meu pai. Minha poesia falava algo como não se deixar levar pelo caminho mais fácil, não se deixar seduzir pelo canto sedutor da morte. Não pude vê-lo naquele dia, mas entreguei o poema ao médico, para que repassasse a meu pai após a operação de safena. Quando retornei ao hospital, no dia seguinte, seus olhos brilhavam, febris, vivíssimos. Disse-me que tinha amado o poema. Aquilo foi importante pra mim. Tive a impressão de que o poema ajudou-lhe num momento difícil. Ele viveu, depois disso, muitos anos. Ainda pôde trabalhar muito e consumir muitos litros de uísque.
José Barbosa do Rosário, meu pai, foi um grande sujeito. Exagerava na bebida, mas sempre foi muito trabalhador e absolutamente íntegro. Chegou do sertão mineiro com 21 anos de idade e algumas notas escondidas na cueca. Nada ver com aquele infeliz assessor do irmão do Genoíno, pego com cem mil dólares no cuecão. Meu pai carregava seus parcos recursos num bolso costurado na roupa de baixo porque minha avó achava - com razão - que o Rio tava cheio de ladrão.
O velho teve dois grandes sofrimentos na vida. Um foi a destruição mental do irmão Cirilo, internado aos vinte anos numa clínica psiquiátrica obscurantista que torrou seus neurônios de tanto choque elétrico. O tio Cirilo ainda está vivo. Eu e meu pai fomos visitá-lo em vários hospícios dos arredores do Rio.
O segundo trauma foi a morte bárbara de seu outro irmão, Francisco, torturado medievalmente por policiais da nona DP do Rio de Janeiro, no finalzinho da ditadura, 1981, o que motivou meu pai a escrever seu único livro, Quando a polícia mata.
Dia desses conto mais histórias do meu pai e dos meus famíliares do Triângulo Mineiro. Adianto só que um tio avô meu era jagunço autônomo, cobrava para matar e colecionava orelhas de suas vítimas numa bolsa de couro que levava sempre consigo, à guisa de curriculum vitae.
É isso, deixo vocês agora, com 2 poemas do Dylan Thomas, tirados de um site com excelentes traduções de Ivan Junqueira e Fernando Guimarães. Para os feras do inglês, pode-se ler originais do poeta por aqui.
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A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.
( tradução: Fernando Guimarães)
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E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO
E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
( tradução: Fernando Guimarães)
PS: Por último, pero not least, dêem um chego no site do Claudinei, para ler o texto do Mirisola sobre a Flip.
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Miguel do Rosário
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quarta-feira, maio 18, 2011
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13 de maio de 2011
Sobre o silêncio dos ególatras (brain storm)
4 comentarios
(Caravaggio)
Um tanto de estafa, gerada pela tensão de organizar um evento - e a necessidade de adiantar outros trabalhos, atrasados justamente pelo envolvimento na produção do nosso encontro blogosdélico, dificultaram a atualização desse blog nos últimos dias. Uma ausência de inspiração, um cansaço profundo, sensações que acometem regularmente esse blogueiro bipolar. Espero, calmamente, minhas terminações nervosas vibrarem com o velho entusiasmo e energia de sempre. E ainda preciso perder uns quinze quilos, o que talvez seja meu objetivo mais importante, quebrar o tabu segundo o qual todo blogueiro é gordo.
Enfim, quem poderá destrinchar os mistérios do córtex cerebral, essa caverna obscura de onde se pode espreitar - embora nunca impunemente - o espírito, a imortalidade e o Red Tube?
Uma das coisas que mais me angustia é este frenesi alucinado das horas, que nos atropelam como se ali não estivéssemos. A gente massageia um pouco as têmporas e lá se vão duzentos minutos! Saímos para uma caminhada e perde-se toda uma tarde! Namoramos um pouco e de repente já estamos casados há dez anos! Tira-se algumas sonecas depois do almoço, e eis que o blog fica quase duas semanas sem novas postagens!
Francamente, eu preciso terminar de ler o Pantagruel, o Moby Dick, e encarar a história da revolução francesa, do Michelet. Essa é a parte boa. Tão boa que provoca leves e gostosas comichões no estômago. Dou-me ao luxo, inclusive, de adiar essas leituras e debruçar-me prazeirosamente, pela segunda ou terceira vez, sobre o Paradoxo de Russeau, do Wanderley Guilherme dos Santos.
Outra atividade a que tenho me dedicado nos últimos dias é a de sindicalista. O que é igualmente divertido. Trinta cervejas, vinte partidas de sinuca, e eis que se remexe, na barriga inchada de chop, o feto de nossa associação fluminense de blogueiros!
Lembrei-lhes (a meus amigos blogueiros proto-sindicais) de um conto de minha autoria que fala sobre uma poderosa federação de blogueiros, daqui a uns quatro séculos, a qual teria poder para eleger e derrubar presidentes (no bom sentido)... E tudo começou aqui...
- Vamos colocar seis mil blogueiros em Brasília, exigindo banda larga de 2 megas, pública e gratuita, para todos os brasileiros!
Ah, e o Faulkner, claro, a brochura de William Faulkner que a Priscila comprou num sebo da Califórnia.
Os planos de romance, os roteiros de cinema, os artigos para a Fórum, para a revista do café... As malditas traduções... Uma vidinha apressada de escritor (quer dizer, blogueiro) pós-moderno...
Além disso, receio que esteja me tornando reacionário. Apoio o novo código florestal (nesse ponto, ao menos, posso me escorar no Aldo Rebelo), o assassinato do Bin Laden, e o direito autoral. Pior ainda: assisto a novela das oito!
O que será de mim?
Continuo defendendo, em compensação, o fechamento dos bancos privados e a instituição do monopólio do crédito pelo Estado. Com isso, acabaríamos com essa obscenidade que é o mundo quebrar de dez em dez anos por causa das estrepolias das instituições financeiras, obrigando os governos a torrar trilhões de dólares para salvar a humanidade do caos. Isso é muita sacanagem. Ou falta de.
Ah, tem a Pornopopéia, do Reinaldo de Moraes. O melhor de todos...
19 de janeiro de 2011
Saudades de casa
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Meus amigos, continuo apanhando do wordpress, dos provedores, da vida. Bons tempos eram esses, do Óleo, em que não tinha nada disso. O bom e velho blogspot, sem domínio próprio, sem pagar nada, liberdade total.
Esclareço a todos que não tenciono matar o Óleo. O Gonzum é o chefe de família, mas este blog velho de guerra continua vivo!
O Gonzum agora tá com problemas técnicos com o provedor. Tô tentando resolver.Até por isso é que estou usando novamente o Óleo. É isso! O Óleo pode ser meu blog reserva! Sempre que tiver problema de acesso lá no Gonzum, eu passo a escrever daqui. Boa ideia.
De qualquer forma fui obrigado a reduzir a carga do blog para adiantar outros trabalhos. Além da preguiça, claro, eterna companheira dos que sonham. Principalmente ela, a preguiça. E os sonhos. Os sonhos, naturalmente.
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Miguel do Rosário
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quarta-feira, janeiro 19, 2011
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21 de setembro de 2010
Isolamento rural
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Passei um dia e meio na roça. Tinha que fazê-lo, por causa do meu irmão, a quem não via há tempos e estava com muita saudade. Urbanóide doente, tenho dificuldade para me adaptar ao isolamento total em que ele se encontra. O sinal de celular é instável, a internet mais ainda (apesar dos 120 reais que ele paga mensalmente). A TV, por outro lado, pega bem em função da antena parabólica.
O tempo escorre lentamente. Galinhas, galos, patos, perus, galinhas d'angola circulam no pátio, depois se metem pelos matos, à cata de algo para mastigar. De vez em quando, eles voltam correndo, motivados por algum boato de que há distribuição de comida. Se não há, retornam à labuta, frustrados.
(Continue lendo no Óleo Premium - só para assinantes da Carta Diária).
O tempo escorre lentamente. Galinhas, galos, patos, perus, galinhas d'angola circulam no pátio, depois se metem pelos matos, à cata de algo para mastigar. De vez em quando, eles voltam correndo, motivados por algum boato de que há distribuição de comida. Se não há, retornam à labuta, frustrados.
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Miguel do Rosário
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terça-feira, setembro 21, 2010
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19 de agosto de 2010
Para dominar o mundo às quatro da manhã
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O calor eleitoral está produzindo material bom na blogosfera. Reuno abaixo alguns links interessantes. A maioria de vocês deve estar careca de conhecer. Alguns talvez não.
- As províncias persas caem uma a uma em mãos dos gregos. Esse artigo de Altamiro Borges me fez pensar... que o centro da batalha deslocou-se para Sardes, capital do Império.
- O blog Tijolaço sem medo, atacando Serra de frente.
- O Conversa Afiada, mais engraçado e letal que nunca.
De minha parte, voltei a ser acometido por uma crise de irresponsabilidade política, que somente a leitura de Absalom! Absalom!, um romance incendiário, sutil, brutal, de William Faulkner, poderia me causar nesse momento. Como se eu estivesse hipnotizado de alegria pelas chamas que devastam a Berlim nazista. Minha loucura, todavia, tem uma estratégia. E Berlim fica na Barão de Limeira, São Paulo.
Lembro que um amigo qualificava a vitória de Lula em 2006 como um corte epistemológico, ou seja, um divisor de águas na maneira de pensar a política nacional, botando a mídia em seu devido lugar. Mas não. O corte será mesmo agora, em 2010. Porque eles atribuíram a vitória de Lula em 2006 e sua posterior popularidade a razões puramente subjetivas. O povo gosta de Lula, explicam, porque ele é legal, engraçado e inteligente. Mas a linha ideológica do governo, continuam, permanece errada.
Afinal não se joga, nesta eleição, apenas com o destino do Brasil, mas sobretudo com o futuro das Américas. A eleição de Dilma Rousseff pode desencadear uma nova sequência de vitórias dos partidos de esquerda latino-americanos, que tem sido violentamente atacados, de forma estrategicamente coordenada, por grupos midiáticos com estreito contato entre si. A luta ideológica na América Latina não vai bem. As mídias conseguiram produzir uma nova onda conservadora (a segunda, em vinte anos; a primeira veio nos anos 90; essa de agora, ainda no início, quiçá oxalá não vingue). Assim como os tiranos sanguinários da Itália pré-renascentista contratavam artistas e intelectuais para legitimarem um poder que haviam usurpado, na maioria das vezes, mediante traições e artimanhas deploráveis, os grupos midiáticos de hoje contratam, a peso de ouro, os rostos mais bonitos e os cérebros mais ágeis para vender suas idéias. Blogueiros acima do peso e intelectualmente ordinários como eu estão - por enquanto - a salvo.
Eles operam uma verdadeira alquimia semântica. O governo democrático, cujo poder emana do sufrágio universal e, portanto, da vontade do povo, é pintado como símbolo do despotismo - enquanto grupos midiáticos que floresceram à sombra da injustiça social e do totalitarismo político se autodescrevem como paladinos da liberdade e da democracia.
Somente uma nova sequência de vitórias no continente terá o poder de deter esse processo, através do qual este novo Leviatã ganha cada vez mais força e desenvoltura. Dentre estas, a de Dilma Rousseff seguramente é a mais importante. Suspeito que pode inclusive influenciar, de uma maneira que explico adiante, a escalada feroz do conservadorismo norte-americano.
Em 2012 haverá novas eleições nos EUA. Obama não vai bem nas pesquisas, os grupos conservadores tem se organizado de maneira exemplar para combatê-lo no campo ideológico. O que poderá salvar os EUA de cair nas mãos de uma direita bélica e furiosa, que não hesitaria em cometer uma loucura tal como atacar o Irã e possivelmente até mesmo a China?
Talvez um movimento coordenado por essa nova massa crítica, formada e instruída nas lides políticas da internet, essa hidra com milhares de cabeças, e que será enriquecida em breve (esse é o ponto-chave) por milhões de jovens que governos de esquerda tiraram da miséria - talvez esse movimento possa produzir material político, cultural e ideológico não apenas para derrubar o monstro midiático do continente, como também ajudar a esquerda norte-americana a convencer seus compatriotas a não votarem num belicista destrambelhado, a se desligarem, enfim, de seu nacionalismo tacanho e autodestrutivo e se unirem ao conjunto da humanidade. Isso sim poderia criar um novo Renascimento.
A internet globalizou a política e um blogueiro de Mato-Grosso (ou da rua do Resende) poderá lançar granadas ideológicas em Washington. Por isso é tão importante ampliar e baratear a banda larga.
O objetivo continua sendo, portanto, fortalecer o Mercosul, a Unasul, democratizar e fortalecer a ONU, e implantar um socialismo democrático e moderno em todo planeta. Desculpe se pareço grandioso, óbvio ou exagerado. Nem era para eu estar tão otimista, visto que não arrumei dinheiro sequer para ir a São Paulo, encontrar meus colegas. Estarei em São Paulo. Volto ao Faulkner.
# Escrito por
Miguel do Rosário
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quinta-feira, agosto 19, 2010
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21 de maio de 2010
Patetices de um rubronegro triste
12 comentarios
Eu tinha prometido a mim mesmo e a meus leitores que iria suspender por um tempo o personagem do blogueiro maluco que eu vinha cultivando meio que sem querer. Mantenho a promessa. O momento é grave no Brasil, com eleições que se mostram decisivas para nossa história e destino, e no mundo, onde os tambores de guerra voltaram a ruflar, para satisfação dos bilionários que prestam serviços ao Pentágono.
Mas tenho recaídas. Ontem, por exemplo. Cheguei em casa zuretado de cerveja depois de uma noite cheia de derrotas. O Flamengo não se classificou na Libertadores. Depois eu errei a senha do cartão do banco e ela foi bloqueada. Tive que pendurar a conta na boa vontade de um camarada. Até aí tudo bem. Não contava com a vitória do Flamengo mesmo, e economizei uma boa grana com a suspensão da senha (meu amigo foi embora logo, e eu também).
Em casa, liguei o computador e deparei-me com um Direct Message hostil, ou que assim me pareceu, de uma pessoa que eu gosto. No estado emocional em que eu me encontrava, agravado por uma solidão que já está me exasperando (minha mulher está em São Paulo), aquilo me entristeceu e depois me enfureceu. Achei uma injustiça ser tratado com tanta desconsideração. Mas estava com muito sono, então postei uma mensagem mal criada no blog e desmaiei.
Acordei oito horas depois com meu celular tocando. Era minha mãe, nervosíssima, perguntando o que havia acontecido. Aí eu me lembrei. O post não fora exatamente mal criado; era dramático e exagerado, intitulado "Blogueiro ferido", e mencionava ofensas e humilhação. Corri para o computador e apaguei o post. Tentei me explicar com a pessoa em questão, que deve ter ficado estupefata com a reação desproporcional a um bilhetinho sem nenhuma intenção bélica ou maligna.
O estrago estava feito. Alguns leitores, ainda inocentes para esse meu lado teatral, enviaram-me longas cartas de apoio.
E agora, Miguel, prestaste um papel ridículo mais uma vez? O que você é: uma avatar bêbado e duro do Gerald Thomas? Era a pergunta que eu fazia a mim mesmo. Então saí para almoçar num restaurante de 3,99 a refeição livre, aqui perto. Dividi a mesa com um senhor cujo prato tinha quatro ou cinco andares de comida, e que, diante da minha modesta refeição, perguntou-me:
- Você janta?
E apontou para meu prato e para o seu, explicando que devorava aquela quantidade de dia porque de noite não tinha o hábito de jantar. Eu contei-lhe que, de fato, jantara um prato de macarrão ao chegar em casa ontem à noite, depois das cervejas de consolação pela derrota rubronegra. Disse-lhe também que estava engordando muito rápido e precisava maneirar na comida.
Mas isso não tem nada a ver com a questão. Eu estava refletindo em como sair da enrascada moral em que me enfiara. Recordei-me de uma outra conversa, de várias conversas, sobre o enervante jogo de vaidades nas cúpulas universitárias. Doutores e professores travam guerrinhas psicológicas constantes, muitas vezes puramente infantis, em torno de futilidades. Isso acontece em toda parte.
Então descobri a saída. Ao fim do túnel, vislumbrei uma luzinha e agora mesmo caminho em direção à ela.
Pensei em duas grandes coisas: Dostoiésvki e a guerra do Irã.
Falemos primeiramente do Irã.
O que os EUA estão fazendo com o Irã é justamente isso. Uma guerra de nervos. Procuram desequilibrar emocionalmente as autoridades iranianas, com palavras duras que as atacam moralmente. O que o porta-voz da Casa Branca, a secretária de Estado, colunistas de mídia, falam de Ahmadinejad e do regime iraniano não são palavras ao vento. Essas palavras repercutem. Ferem. Humilham. Muitas vezes, a maneira como são ditas, a maneira desrespeitosa, ofensiva, arrogante, cala mais fundo em setores da sociedade persa do que eventuais sanções econômicas.
O homem é um ser emocional. Essa é a grande sacação do Lula. Você consegue reduzir a tensão política apenas conversando e tratando o outro com respeito. Com afeto mesmo. Essa é verdadeira mensagem cristã. Amar também seus inimigos.
Ontem eu li uma crônica do Zuenir Ventura que me deixou chateado. Ele diz que Lula se encontrou com o "monstro Ahmadinejad", enquanto deveria visitar presos políticos do país. Respeito muito o Zuenir, mas o que ele disse é de uma estupidez atroz. Primeiramente, ao se referir a Ahmadinejad como monstro, ele ajuda o lobby da guerra, que fez a mesmíssima coisa com Saddam Hussein. Monstro porquê? Os EUA mataram 1 milhão de iraquianos, e deixaram outros 10 milhões passando fome e tremendo de pavor e o Ahmadinejad é que é o monstro? A segunda sugestão equivale a pedir que Lula, antes de encontrar-se com Obama, dê uma passada em Guantánamo para trocar idéias com os internos. As palavras de Zuenir caem bem nos coquetéis que ele frequenta no Leblon, rodeado de assinantes do Globo, e por isso mesmo são pérolas de preconceito e tolice.
As pessoas começam a odiar o Irã e o Ahmadinejad sem saber bem o porque. Ah, ele negou o Holocausto. Já li inúmeros depoimentos sobre isso, inclusive do próprio Lula, que disse ter conversado pessoalmente com ele sobre essa questão. Ahmadinejad explicou ao Lula que não negava o Holocausto e sim que explicitava ao mundo que a II Guerra matara mais de 50 milhões de pessoas. Mesmo morrendo 6 milhões de judeus, havia quase 40 milhões não judeus que pereceram no conflito e ninguém fala deles. Lula contou que disse a ele algo como: "então explica isso, cacildes! Não vê que estão espalhando por aí que você nega o Holocausto?"
É uma discussão idiota, eu sei. Mas eu fico pensando o seguinte: as pessoas parecem esquecer uma coisa fundamental. Que foram os europeus, tão bonzinhos e humanistas, que mataram os seis milhões de judeus e as 50 milhões de pessoas. Não foram os iranianos. É muito estranho jogar toda carga negativa por trás do Holocausto pra cima do Ahmadinejad.
Hoje a Folha publica um artigo de um sujeitinho conhecido lá de Miami, o tal do Andres Oppenheimer, que fala a um público de ultradireita do sul racista americano e tem um histórico de barbaridades e mentiras escritas sobre o Brasil. O texto de hoje é simplesmente sórdido. Ele tenta humilhar o Brasil. Diz que Lula devia se concentrar em resolver o conflito entre Argentina e Uruguai em torno de uma fábrica de celulose... e outras grosserias que prefiro nem mencionar.
A outra coisa que pensei foi em Dostoiévski. Existe uma certa polêmica em torno da "ideologia" do maior escritor de todos os tempos. A esquerda russa, por muitos anos, taxou-o de "reacionário" por se ausentar dos grandes debates políticos nacionais, ou por outra razão qualquer. O velho Dósti nunca deu muita bola para isso. Ele era escaldado, enfim. Quando jovem participava de reuniões políticas de filhinhos-de-papai rebeldes, e havia sido o único preso (porque era o único pobre) por causa disso. Passou quatro anos fechado num presídio junto com bandidos comuns, depois mais sete anos exilado na Sibéria. Se havia alguém com motivos para não se envolver em política, era Fiodor Dostoievski.
Um dia, porém, um editor da maior revista de esquerda russa bateu à porta do velho escritor, pedindo-lhe desculpas pelos malentendidos dos últimos anos e solicitando um artigo. Consta que Dosti o recebeu muito bem, e não lembro se escreveu o artigo requerido.
Lembrei-me do velho Dosti (Henry Miller o chamava assim) porque suas histórias me ocorrem sempre que me encontro em dificuldades. Os temais centrais da sua literatura são a humilhação, o desespero, a bondade, a inocência, a vaidade, a violência. Foi o primeiro escritor a desnudar o lado patético do homem. Seus personagens oscilam do mais dionisíaco entusiasmo ao mais sombrio desespero. Lembrei-me dele porque vi que essa também era a minha salvação. Somos ridículos, sim, mas somos grandes. Humilhamo-nos por nossa própria incompetência, covardia e loucura, mas somos capazes de inacreditáveis atos de heroísmo e generosidade. Por isso mesmo eu li toda a obra de Dostoiésvki. Alguns mais de uma vez. Os Irmãos Karamazóv, três vezes. Os Demônios, duas. Porque eu me identifiquei com Dostoiésvki, com essa consciência de quão ridículos e frágeis nós somos; e ao mesmo tempo tocados por uma graça divina da qual nunca nos damos conta.
Afinal, mesmo os gestos mais patéticos, mais insignificantes e ridículos, tem um significado grandioso. Ás vezes esses são os mais importantes de todos. Podemos passar a vida tecendo conceitos de elevado valor moral, escrevendo textos que exercem influência na geopolítica universal, mas talvez seja um gesto de desprezo lançado à empregada, ao filho, a um amigo, o que pode lançar nossa alma definitivamente no inferno. Isso vale para pessoas, para chefes de Estado e para países. Guerras talvez pudessem ser evitadas se o lado emocional, o aspecto humano, fossem respeitados nas articulações políticas. Mas talvez não haja interesse em evitar a guerra... Talvez esses pequenos gestos traduzam sentimentos enormemente ruins. Ou não, né? Essa foi aliás a maior contribuição do Brasil à filosofia, a frase de Caetano. Ou não.
PS: Agora deixa eu entrar no mundo; acho que a porta já se abriu.
Mas tenho recaídas. Ontem, por exemplo. Cheguei em casa zuretado de cerveja depois de uma noite cheia de derrotas. O Flamengo não se classificou na Libertadores. Depois eu errei a senha do cartão do banco e ela foi bloqueada. Tive que pendurar a conta na boa vontade de um camarada. Até aí tudo bem. Não contava com a vitória do Flamengo mesmo, e economizei uma boa grana com a suspensão da senha (meu amigo foi embora logo, e eu também).
Em casa, liguei o computador e deparei-me com um Direct Message hostil, ou que assim me pareceu, de uma pessoa que eu gosto. No estado emocional em que eu me encontrava, agravado por uma solidão que já está me exasperando (minha mulher está em São Paulo), aquilo me entristeceu e depois me enfureceu. Achei uma injustiça ser tratado com tanta desconsideração. Mas estava com muito sono, então postei uma mensagem mal criada no blog e desmaiei.
Acordei oito horas depois com meu celular tocando. Era minha mãe, nervosíssima, perguntando o que havia acontecido. Aí eu me lembrei. O post não fora exatamente mal criado; era dramático e exagerado, intitulado "Blogueiro ferido", e mencionava ofensas e humilhação. Corri para o computador e apaguei o post. Tentei me explicar com a pessoa em questão, que deve ter ficado estupefata com a reação desproporcional a um bilhetinho sem nenhuma intenção bélica ou maligna.
O estrago estava feito. Alguns leitores, ainda inocentes para esse meu lado teatral, enviaram-me longas cartas de apoio.
E agora, Miguel, prestaste um papel ridículo mais uma vez? O que você é: uma avatar bêbado e duro do Gerald Thomas? Era a pergunta que eu fazia a mim mesmo. Então saí para almoçar num restaurante de 3,99 a refeição livre, aqui perto. Dividi a mesa com um senhor cujo prato tinha quatro ou cinco andares de comida, e que, diante da minha modesta refeição, perguntou-me:
- Você janta?
E apontou para meu prato e para o seu, explicando que devorava aquela quantidade de dia porque de noite não tinha o hábito de jantar. Eu contei-lhe que, de fato, jantara um prato de macarrão ao chegar em casa ontem à noite, depois das cervejas de consolação pela derrota rubronegra. Disse-lhe também que estava engordando muito rápido e precisava maneirar na comida.
Mas isso não tem nada a ver com a questão. Eu estava refletindo em como sair da enrascada moral em que me enfiara. Recordei-me de uma outra conversa, de várias conversas, sobre o enervante jogo de vaidades nas cúpulas universitárias. Doutores e professores travam guerrinhas psicológicas constantes, muitas vezes puramente infantis, em torno de futilidades. Isso acontece em toda parte.
Então descobri a saída. Ao fim do túnel, vislumbrei uma luzinha e agora mesmo caminho em direção à ela.
Pensei em duas grandes coisas: Dostoiésvki e a guerra do Irã.
Falemos primeiramente do Irã.
O que os EUA estão fazendo com o Irã é justamente isso. Uma guerra de nervos. Procuram desequilibrar emocionalmente as autoridades iranianas, com palavras duras que as atacam moralmente. O que o porta-voz da Casa Branca, a secretária de Estado, colunistas de mídia, falam de Ahmadinejad e do regime iraniano não são palavras ao vento. Essas palavras repercutem. Ferem. Humilham. Muitas vezes, a maneira como são ditas, a maneira desrespeitosa, ofensiva, arrogante, cala mais fundo em setores da sociedade persa do que eventuais sanções econômicas.
O homem é um ser emocional. Essa é a grande sacação do Lula. Você consegue reduzir a tensão política apenas conversando e tratando o outro com respeito. Com afeto mesmo. Essa é verdadeira mensagem cristã. Amar também seus inimigos.
Ontem eu li uma crônica do Zuenir Ventura que me deixou chateado. Ele diz que Lula se encontrou com o "monstro Ahmadinejad", enquanto deveria visitar presos políticos do país. Respeito muito o Zuenir, mas o que ele disse é de uma estupidez atroz. Primeiramente, ao se referir a Ahmadinejad como monstro, ele ajuda o lobby da guerra, que fez a mesmíssima coisa com Saddam Hussein. Monstro porquê? Os EUA mataram 1 milhão de iraquianos, e deixaram outros 10 milhões passando fome e tremendo de pavor e o Ahmadinejad é que é o monstro? A segunda sugestão equivale a pedir que Lula, antes de encontrar-se com Obama, dê uma passada em Guantánamo para trocar idéias com os internos. As palavras de Zuenir caem bem nos coquetéis que ele frequenta no Leblon, rodeado de assinantes do Globo, e por isso mesmo são pérolas de preconceito e tolice.
As pessoas começam a odiar o Irã e o Ahmadinejad sem saber bem o porque. Ah, ele negou o Holocausto. Já li inúmeros depoimentos sobre isso, inclusive do próprio Lula, que disse ter conversado pessoalmente com ele sobre essa questão. Ahmadinejad explicou ao Lula que não negava o Holocausto e sim que explicitava ao mundo que a II Guerra matara mais de 50 milhões de pessoas. Mesmo morrendo 6 milhões de judeus, havia quase 40 milhões não judeus que pereceram no conflito e ninguém fala deles. Lula contou que disse a ele algo como: "então explica isso, cacildes! Não vê que estão espalhando por aí que você nega o Holocausto?"
É uma discussão idiota, eu sei. Mas eu fico pensando o seguinte: as pessoas parecem esquecer uma coisa fundamental. Que foram os europeus, tão bonzinhos e humanistas, que mataram os seis milhões de judeus e as 50 milhões de pessoas. Não foram os iranianos. É muito estranho jogar toda carga negativa por trás do Holocausto pra cima do Ahmadinejad.
Hoje a Folha publica um artigo de um sujeitinho conhecido lá de Miami, o tal do Andres Oppenheimer, que fala a um público de ultradireita do sul racista americano e tem um histórico de barbaridades e mentiras escritas sobre o Brasil. O texto de hoje é simplesmente sórdido. Ele tenta humilhar o Brasil. Diz que Lula devia se concentrar em resolver o conflito entre Argentina e Uruguai em torno de uma fábrica de celulose... e outras grosserias que prefiro nem mencionar.
A outra coisa que pensei foi em Dostoiévski. Existe uma certa polêmica em torno da "ideologia" do maior escritor de todos os tempos. A esquerda russa, por muitos anos, taxou-o de "reacionário" por se ausentar dos grandes debates políticos nacionais, ou por outra razão qualquer. O velho Dósti nunca deu muita bola para isso. Ele era escaldado, enfim. Quando jovem participava de reuniões políticas de filhinhos-de-papai rebeldes, e havia sido o único preso (porque era o único pobre) por causa disso. Passou quatro anos fechado num presídio junto com bandidos comuns, depois mais sete anos exilado na Sibéria. Se havia alguém com motivos para não se envolver em política, era Fiodor Dostoievski.
Um dia, porém, um editor da maior revista de esquerda russa bateu à porta do velho escritor, pedindo-lhe desculpas pelos malentendidos dos últimos anos e solicitando um artigo. Consta que Dosti o recebeu muito bem, e não lembro se escreveu o artigo requerido.
Lembrei-me do velho Dosti (Henry Miller o chamava assim) porque suas histórias me ocorrem sempre que me encontro em dificuldades. Os temais centrais da sua literatura são a humilhação, o desespero, a bondade, a inocência, a vaidade, a violência. Foi o primeiro escritor a desnudar o lado patético do homem. Seus personagens oscilam do mais dionisíaco entusiasmo ao mais sombrio desespero. Lembrei-me dele porque vi que essa também era a minha salvação. Somos ridículos, sim, mas somos grandes. Humilhamo-nos por nossa própria incompetência, covardia e loucura, mas somos capazes de inacreditáveis atos de heroísmo e generosidade. Por isso mesmo eu li toda a obra de Dostoiésvki. Alguns mais de uma vez. Os Irmãos Karamazóv, três vezes. Os Demônios, duas. Porque eu me identifiquei com Dostoiésvki, com essa consciência de quão ridículos e frágeis nós somos; e ao mesmo tempo tocados por uma graça divina da qual nunca nos damos conta.
Afinal, mesmo os gestos mais patéticos, mais insignificantes e ridículos, tem um significado grandioso. Ás vezes esses são os mais importantes de todos. Podemos passar a vida tecendo conceitos de elevado valor moral, escrevendo textos que exercem influência na geopolítica universal, mas talvez seja um gesto de desprezo lançado à empregada, ao filho, a um amigo, o que pode lançar nossa alma definitivamente no inferno. Isso vale para pessoas, para chefes de Estado e para países. Guerras talvez pudessem ser evitadas se o lado emocional, o aspecto humano, fossem respeitados nas articulações políticas. Mas talvez não haja interesse em evitar a guerra... Talvez esses pequenos gestos traduzam sentimentos enormemente ruins. Ou não, né? Essa foi aliás a maior contribuição do Brasil à filosofia, a frase de Caetano. Ou não.
PS: Agora deixa eu entrar no mundo; acho que a porta já se abriu.
14 de maio de 2010
meditações antisalariais
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(O julgamento final, pintura de Giotto numa igreja de Pádua, Itália. Esse lado mais obscuro, barroco, de Giotto, quase um Bosch, não é tão conhecido. A pintura acima é um detalhe. O original, inteiro, está aqui.)
hoje foi um dia de curtir ressaca. e perdi tempo também numa palhaçada. recebi um telefonema ontem de noite, acordei e um rapaz dizia que haviam recebido meu currículo, e que gostaria de marcar uma entrevista. estranhei que ligassem tão tarde, mas estava meio grogue e anotei rapidamente os dados e horário. depois eu vi que não era de madrugada, ainda eram 18 horas, eu é que havia trocado o dia pela noite e meu relógio interno se destrambelhara.
entrei no site que me indicaram e observei, decepcionado, que era uma agência de empregos. deviam ter recebido meu telefone via mala direta. mas o rapaz havia mencionado algo sobre uma empresa que citara meu nome.
na verdade eu venho fugindo de emprego há dois anos, desde que desisti de trabalhar com aquele site americano, onde eu escrevia sobre café, mas já houve alguns momentos de desespero em que eu me inscrevi em sites do gênero.
tem pingado, contudo, assinaturas na minha conta de vez quando, dando-me condições de abastecer a geladeira e pagar minha cerveja, e a priscila está com perspectivas melhores de trabalho para este ano. meu desespero, portanto, está sob controle.
de qualquer forma, fui lá hoje, só por curiosidade, pois ainda não tenho vontade de trabalhar em lugar nenhum. quero esticar minha vagabundagem blogueira até a corda estourar. até porque não é vagabundagem, eu trabalho firme na internet.
o cara passou mais de uma hora dizendo que, sem me cobrar nada, apenas 30% dos dois primeiros salários, iria me "realocar" para o alto escalão de alguma grande empresa multinacional. falei que não queria ganhar menos de 7 mil reais por mês, e ele pareceu gostar. "somos caçadores de talento", disse, me fazendo sentir realmente um tesouro profissional ainda não descoberto pelos gigantes do capitalismo brasileiro. pensei até em exigir um salário maior, acima de 10 mil reais.
ao final da exposição, perguntou-me se eu havia entendido tudo. eu disse que sim, só queria saber se o pagamento deles se limitava ao percentual sobre meus dois primeiros salários. sim, é só isso, ele disse.
aí explicou que o treinamento a que eles me submeteriam, capacitando-me a seduzir as equipes de RH que enfrentaria no futuro próximo, tinha um custo mensal de 300 reais, durante seis meses.
eu enrolei um pouco, disse-lhe que minha renda não me permitia esse gasto. aí ele ofereceu a metade do preço, 166 reais por mês. um cara que assistia a entrevista, ao lado, fez um jogo de cena, e perguntou a seu colega: "tem certeza que você pode oferecer isso?"
ainda enrolando, expliquei que precisava pensar. ele parecia convicto que poderia me convencer a assinar um contrato naquele instante e dar-lhe seis cheques pré-datados de 166 reais, ao mesmo tempo que afirmava: "não quero um centavo seu agora".
argumentei que precisava pensar. ele se enervou, disse que não poderia garantir nada depois. era pegar ou largar, insistiu. tentou sondar exatamente quantos centavos eu ganhava por dia. eu disse que seria triste entrar nessa seara, e falei das assinaturas que vendia, da Carta Diária. era muito pouco, usado exclusivamente para alimentação e a brejinha sagrada. resignou-se afinal. topara com um duro de verdade, e mais astuto que ele.
enfim, nos despedimos. ele me levou até a porta, provavelmente xingando-me interiormente. eu segui pelo corredor, pensando comigo mesmo:
- ahah, tá pensando que me engana, seu bosta!
daí segui para o centro cultural banco do brasil, onde terminei a tarde lendo uma coisa bem leve, para conforto do meu cérebro ainda embotado pela ressaca. folheei um livro de pinturas de giotto. depois voltei para casa.
por falar em pintura, amanhã tem abertura de exposição na gentil carioca, praça tiradentes, a partir das 17 horas. apareçam, é sempre divertido. eu vou estar com um grupo de amigos.
1 de abril de 2010
Depois do filme ruim
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(Material Gestures - Room 2, de Asger Jorn)
Acabo de assistir Guerra ao Terror e mais uma vez odeio-me por gastar dinheiro com lixo. Desci na Lapa por volta da meia-noite. Os bares estavam cheios. A quarta-feira tem voltado a ficar agitada por aqui. Mas hoje estava um pouco mais que o normal. Deve ser porque amanhã é ponto facultativo. E também porque é dia primeiro e as pessoas receberam o salário. Dei uma volta, sem muita empolgação para beber. Saí na segunda-feira e até hoje estou meio baleado. Além disso, esqueci de guardar o dinheiro da matéria em casa. Estava tudo na minha carteira, e não gosto de sair bebendo com meu produto interno bruto dando sopa.
E queria escrever também. Tenho me sentido um blogueiro horrível. Preguiçoso, triste, reclamão, pedinte. Uma verdadeiro mendigo. Ridículo, enfim. Pior que isso. Lembrei inclusive de uma brincadeira que fazia quando criança. Colocar um espelho em frente ao outro, e viajar nos reflexos infinitos. É a mesma coisa quando me sinto assim, ridículo por me sentir ridículo, triste por estar triste, e por aí vai, interminavelmente.
Como a vida dá voltas. Com vinte e poucos anos, um promissor jornalista e poeta, o que tinha mais dinheiro em sua turma, e agora, dez anos depois, um desiludido com mania de fracasso. Sem ambição nenhuma. Com raiva de editais, concursos, emprego. Um terrível vagabundo hiper-sensível, bêbado, duro e viciado em adjetivos.
Porque depois de falar tanto sobre minha nova vida em São Paulo, tive que voltar ao Rio e acabei ficando por aqui. Estou com duas casas agora. Uma na Paulista, outra na rua do Resende. Ah, e uma terceira, definitiva, no coração de uma garota que está a seis horas e alguns reais por minuto de distância.
Eis-me, portanto, cansado dessa política diletante, exagerada, inútil. Desse discurso meio nerd, dessa militância acomodada e insegura. Dessa vaidade que secretamente me destrói.
O maior sonho da minha mãe é que eu desista disso tudo e arrume um emprego. Que faça um mestrado, um doutorado. Garanta o meu futuro. Ela tem razão. O problema são os moinhos. Não aqueles de Dom Quixote, e sim os de Cartola, os que reduzem as ilusões a pó (sem trocadilhos anti-aecistas, por favor). Eu contemplo a poeira esvoaçando, como a cinza de pessoas que já se foram, e dentro de mim as luzes se apagam.
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Verdade que esse filme me deixou mal. É incrível que tenha levado seis Oscars. Mesmo sabendo que o Oscar é um prêmio fajuto, ainda assim é surpreendente que um filme tão desprovido de roteiro, tão sofrivelmente frio, um filme B, para ser exibido numa sessão da tarde modorrenta, possa ter merecido tantos louros. Em se tratando de um filme que é uma propaganda pró-guerra, não é bom presságio.
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Ainda sou otimista, mas com um otimismo hipócrita e artificial. Uma necessidade meio covarde de terminar a história sempre com final feliz. Não consigo evitar. Vejam o que o candidato líder nas pesquisas declarou hoje num comício:
O ornamento do poder e a bajulação não me atraem. O meu único sentido é as questões do nosso povo.
Sei que não tenho mais nenhuma imparcialidade. Não creio que eu possa, por isso mesmo, mudar o voto de ninguém. Mesmo assim quero dizer que a frase de Serra me lembra uma outra do Veríssimo: "sou o cara mais humilde do mundo". Pelo menos me falaram que é do Veríssimo.
Serra se tornou um político tão convencional, com estratégias tão medíocres, que agora começo, de fato, a suspeitar que ele pode ganhar as eleições. Porque existe uma inocência tosca no povo. Esta é a grande ironia. Lula, taxado de ignorante, faz sempre um discurso que serve tanto aos intelectuais como ao povo. Dilma também. Serra decidiu dispensar os segmentos mais ilustrados, onde ele sente que tem apoio sólido, e se dirige exclusivamente ao povo. Mas não o faz como se falasse a pessoas simples, e sim a retardados mentais.
Acho que o fato de estar comprando e lendo o Globo nos últimos dias também não está contribuindo para meu bom humor. Deve ser isso.
O Globo mancheteia na página 10:
Serra entrega obra que 'passou por crivo do TCU'
E o governador diz (na matéria do Globo):
Esta obra passou pelo crivo do TCU, do TCE e do MP, o que prova que nós temos competência.
Ótimo. Mas será que eu estaria sendo tendencioso ao me irritar com o fato da reportagem não citar que a dita "competência" resultou na queda de um viaduto da mesma obra? Que a obra já dura 12 anos e ainda não tem data para ser concluída? Que foram descobertos vários indícios de irregularidade em trechos dela nos últimos anos? Isso é competência?
*
Sei lá, acho que só estou com sono. Muito sono, com desejo de dormir por vários dias. Ou é a mudança de estação. Ou o fato de estar lendo um desses livros de filosofia que não sabemos se é lamentável perda de tempo ou importante aquisição espiritual. Ou é apenas saudades do coração que deixei em São Paulo.












