30 de julho de 2006

Cara de pau continua

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A repetição da palavra mensaleiro, por todos os colunistas e colaboradores (virou quase que uma obrigação inseri-la em qualquer texto, para demonstrar um duvidoso "posicionamento ético") é absolutamente irritante. Quer dizer que o Professor Luizinho, do PT, com sua fidelidade canina ao governo Lula, é mensaleiro? Porque recebeu 15 mil reais? Não tem sentido. À mídia não interessa mais esclarecer, mas confundir.

Aí vieram com a história de que a maior parte dos sanguessugas eram da base governista. Malandragem grossa, porque o esquema vem do governo anterior, quando esses mesmo deputados também compunham a base governista de então. Na verdade, virou crime ser da base governista? Como cargas dágua o governo poderá governar sem uma base parlamentar?

A Folha vem todo dia com uma malandragem nova. Ontem, publicou que os lucros da Planam aumentaram no governo Lula. Omitiram o fato de que o Vedoin tem várias empresas-fantasmas e que, na gestão anterior, usava mais as empresas-fantasmas, e menos a Planam. Com Lula, que introduziu um sistema de fiscalização mais rígido, concentrou as atividades na Planam, de forma que é lógico que o faturamento da mesma cresceu a partir daí. A Folha também omitiu o fato de que a Planam é uma empresa com muitos negócios que não têm ligações com o governo. Teria que analisar quanto cresceu, portanto, seus negócios com o governo e não o seu faturamento em geral.

Hoje a Folha vem com uma verdadeira bomba, em termos de manipulação grosseira. Diz que a renda de mensaleiros e sanguessugas cresceu sob o governo Lula. Ora, a Folha omitiu que o Congresso Nacional aprovou enormes aumentos de salários nos últimos anos, não havendo o governo federal concorrido em nada para que isso ocorresse. Agora Lula tem culpa de que a renda dos outros cresça? Quer dizer: se eu começasse a roubar a partir de agora, por conta própria, e minha renda disparasse, a Folha vai noticiar no ano que vem: renda de escritor ladrão cresce sob governo Lula. É asim?!

De resto, é uma tentativa de lançar uma cortina de fumaça sobre o fato de que o governo Lula estar investigando profundamente a roubalheira dentro do Estado. Muito pouco se fazia antes. As estatísticas da Polícia Federal são impressionantes. O governo Lula aumentou expressivamente o efetivo, a verba e a independencia da PF. Isso a Eliane Catanede não disse, em sua nota de hoje, elogiando a PF. Aliás, a Catanede fez malabarismo, ao elogiar a PF e terminar a nota elogiando o governo FHC. Se citasse qualquer estatística, os leitores constatariam como o progresso foi notório após a posse de Lula. Seria uma notícia pró-Lula, tudo bem, mas seria a verdade. A Folha prefere escamotear a verdade à dar uma notícia pró-Lula. Para a Folha, os interesses eleitorais são mais importantes que a ética jornalística.

A Folha tá numa fase muito ruim. Até o Globo tá melhor. Os editores da Folha devem achar que seus leitores são idiotas. Quantos assinantes terá que perder a Folha antes de aprender que esse tipo de comportamento não produz nada de bom? De que, sobretudo, não é ético? Ah, voltamos a questão ética! Cadê a ética na imprensa? O negócio é cancelar assinatura. Este é a melhor forma de protesto contra qualquer veículo de comunicação pago.

Vem cá, cadê os colunistas a fazerem crítica dos posicionamentos da Heloísa Helena? Viraram todos socialistas, os hipócritas? Ah, deixa isso pra lá.

E o Ombudsman da Folha tá parecendo a rainha da Inglaterra. Tem só a pose, mas não manda nada, não consegue interferir em nada na linha editorial da Folha, e agora está sendo atacado pela direita, que identificou nele um perigo para suas estratégias midiático-eleitorais.

A Renata Lo Prete andou falando, e repetindo, que um petista, o tal Cirilo, seria o "operador do esquema de sanguessuga". Ora, o esquema é antigo, é tucano, beneficiou em sua maioria prefeituras tucanas e pefelistas, como é que o operador é petista, minha filha?

Falta a mídia aceitar o óbvio. Foi o próprio governo federal que iniciou as investigações sobre o esquema dos sanguessugas. Aliás, a CGU e a PF vêm fazendo um trabalho extraordinário e quero ver se aqueles colunistas que tanto berraram contra corrupção e pela ética terão a elegância de louvarem o belo trabalho destes órgãos.

Em relação às pesquisas eleitorais, cadê o Tribunal Superior Eleitoral, para punir os institutos de pesquisa, que mudaram método de apuração para beneficiar Alckmin, conforme denunciou muito bem o Nelson Breve, nesse artigo?

Por fim, fiquei estarrecido com a proibição do TSE à Revista Brasil, por supostamente apresentar uma linha editorial mais favorável ao governo. É o golpismo institucional em ação. Quer dizer a Veja pode fazer o que quiser, Estadão e Globo idem? Mas a Revista Brasil não, ela é proibida?! Isso é uma afronta à liberdade de imprensa! Cadê a turminha anti-totalitária? Cadê os histéricos contra qualquer limite à liberdade? Sumiram, os hipócritas, porque a liberdade só lhes interessa quando lhes convém.

24 de julho de 2006

Cara de pau da Folha

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A Folha, e a mídia corporativa em geral, é muito cara-de-pau. Estão agora tentando colar o escândalo dos sanguessugas no governo federal, quando todos sabem que foi justamente o governo, através da Controladoria Geral da União, que descobriu o esquema e repassou a investigação para a Polícia Federal, que também é ligada ao Ministério da Justiça. Tem mais: todos os contratos fraudados foram assinados na gestão anterior, no governo FHC, com José Serra no comando da pasta da Saúde. Custa falar a verdade, custa?

22 de julho de 2006

Explicações

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Bem, amigos, acho que devo algumas explicações sobre meu silêncio. Vamos lá. Estou na luta em defesa da democracia brasileira e, particularmente, do governo Lula, desde sua posse em 2003. Aperfeiçoei minhas armas no ataque ao governo FHC, editando o jornal impresso (depois também eletrônico) Arte & Política.

Com a vitória de Lula, passei a defender o governo, tendo obtido muitas pequenas vitórias, esclarecido muitos amigos que se aferravam a idéia meio sectária de "hay gobierno, soy contra", explicando a eles como essa atitude era, no fundo, bastante idiota, pois que eliminava qualquer dialética e livre arbítrio. Se estás sempre contra alguma coisa, não importanto que coisa seja essa, isso é uma atitude sectária. A frase em questão, atribuída a um anarquista italiano, é apenas uma dessas frases de efeito que não tem nenhum valor político ou filosófico. O próprio anarquismo, que eu defendia (e defendo, em termos republicanos, não sectários) , deveria, a meu ver, deixar de ser uma espécie de caldo onde desaguam todos os ressentidos políticos e deixar de renegar conquistas trabalhistas que lhes custaram tanto sangue e pensamento.

Eu percebia que conquistas como o sufrágio universal, a divisão dos três poderes, a Constituição, a democracia, o direito à greve, o salário mínimo, os direitos trabalhistas, deviam ser atribuídas eminentemente à luta dos trabalhadores. Não nos era interessante engolir a esperteza do discurso liberal, que gosta de assumir a paternidade da democracia, quando sabemos que a democracia moderna, com toda a legislação trabalhista e tributária, levou tantos séculos e tanto sangue de intelectuais e trabalhadores para se tornar dominante.

Bem, essa era, em suma, a base ideológica com que eu contava para defender o governo Lula. No primeiro ano, em 2003, me insurgi contra a tentativa maquiavélica da grande imprensa - muito bem sucedida, por sinal - de taxar o governo de neo-liberal pelas medidas de austeridade fiscal adotadas naquele ano. Eu sabia que o Orçamento Federal havia sido votado no governo anterior e a situação fiscal e cambial do país era péssima. A dívida interna estava descontrolada, com um grande percentual atrelado ao dólar. Tínhamos um draconiano acordo com o FMI. Havia um desemprego galopante e a imensa responsabilidade de fazer um governo de esquerda "dar certo", o que seria um exemplo (como o foi) para toda a América Latina, ou antes, para todo o mundo.

Senti-me muito isolado nessa minha luta. Todos os combatentes de hoje, Mauro Santayanna, Emir Sader, Wanderley Guilherme dos Santos, e tantos outros, estavam entre os que se posicionaram de forma muito dura contra o governo. De certa forma, eles também tinham razão, e a pressão que fizeram talvez tenha sido essencial para marcar o que desejava para o país a intelectualidade progressista. Mas eu enxergava também o perigo disso. E via também que havia bastante injustiça e pressa em algumas críticas. Os dilemas de Lula eram terríveis. Eu fui estudar o início de outros governos progressistas, e identifiquei, na História, um processo muito semelhante, tanto em governos democráticos quanto em governos revolucionários. O início sempre foi difícil, devido ao peso das expectativas. Identifiquei ainda uma espécie de ingenuidade esquerdista que se repetia como padrão nessas situações. E que, historicamente, sempre foi prejudicial. A revolução maoísta e russa, particularmente, foram prejudicadas por esse esquerdismo sectário, intelectualóide, infantil, que só ajudou a fortalecer a linha duras dos partidos dominantes.

Nesse momento, passei a colaborar com a revista Novae, editada por Manoel Fernandes Neto, que me proporcionou o acesso a um razoável universo de leitores. O retorno foi muito positivo para mim. Recebi muitas mensagens de apoio, de pessoas que se identificavam com minhas posições.

Em 2004, a coisa começou a mudar. Ficou claro que o novo governo tinha um projeto, e que esse projeto era sólido e estava dando certo. O país voltou a crescer, a gerar empregos, a reduzir seu endividamento. Os programas sociais avançavam, firmes e respeitados internacionalmente. A política externa de Lula era elogiada por todo o espectro progressista, não só aqui, como em todo mundo.

Nesse momento, com a situação mais ou menos controlada aqui dentro, eu voltei minhas armas para defender o governo Chávez, na Venezuela. Lia febrilmente o que acontecia por lá e me estarrecia ao perceber a manipulação em curso no país.

Em 2005, veio a crise política. Fui, como todos, pego de surpresa. A manipulação foi violenta. Houve um silêncio constrangido e nervoso por parte de toda a intelectualidade. Não me submeti, porém, em nenhum momento. Minha intuição política já me dizia que havia alguma coisa muita errada em tudo aquilo. Éramos bombardeados diariamente com mentiras e manipulações. Claro que haviam verdades, mas as mesmas verdades eram distorcidas, misturadas às mentiras.

Sem acesso às informações, que me permitiam lutar racionalmente, passei a lutar com a poesia, onde não precisava de racionalidade nem informação nenhuma. Escrevi poemas fortemente políticos, onde dei vazão à minha revolta contra o falso moralismo, a hipocrisia, a corrupção ideológica e a manipulação midiática.

Enfim, após meses de investigações, a sociedade passou a ter acesso a um universo de informações que lhe permitiu se posicionar com isenção sobre tudo que acontecera. E constatamos, perplexos, que estivemos, novamente muito próximos de um hediondo golpe contra a democracia. A sociedade brasileira havia sido vergonhosamente enganada - e ainda o é, por um conluio descarado entre mídia e interesses partidários.

Mas o Brasil é grande, e o povo brasileiro não é mais tão burro como a direita gostaria. O silêncio constrangido foi rompido. Os que acompanham o processo político se lembram muito bem quando isso aconteceu, a partir do último trimestre do ano passado. De repente, milhares de pessoas passaram a se manifestar, com muita força e coerência, sobre o processo político. Começaram a surgir os blogs. Os intelectuais vieram por último. Só depois que a sociedade passou a se manifestar com bastante veemência em defesa de Lula, os intelectuais sentiram-se confiantes para assumir posições mais diretas sobre política. A prudência dos intelectuais deve ser compreendida pelo fato de, diferentemente da maioria da sociedade, eles efetivamente vivem do que escrevem, e havia (ainda há) uma histeria anti-petista violenta, traduzida em sabotagem financeira aos que não comungam com ela.

O que importa, porém, é que eles chegaram, os intelectuais. Melhor que isso: diante da tibieza de grande parte dos intelectuais, do povo emergiram "novos intelectuais", não comprometidos com vícios ideológicos, ranço acadêmico e atitudes sectárias. O caso de Eduardo Guimarães é emblemático. Cansado de ver recusadas suas cartas aos jornais, criou seu blog e, aos poucos, foi ganhando confiança de que sua participação, dessa forma, seria realmente efetiva.

De uma hora pra outra, vimos que a intelectualidade progressista não estava limitada aos colunistas de Caros Amigos. Centenas de pessoas passaram a escrever e esclarecer posições com uma competência e isenção muitas vezes superior a muitos dos "medalhões" da esquerda.

Em relação aos intelectuais, quero destacar a emoção que tive ao observar o Wanderley Guilherme dos Santos (cujo filho é meu grande amigo e um grande artista plástico, autor da pintura que ilustra esse blog), analisando com lucidez corajosa a realidade política e denunciando o golpe branco que queriam dar em Lula. A entrada dele na briga foi fundamental para a "virada de jogo" que se deu depois, porque foi ele quem se manifestou mais diretamente e com mais coragem.

Para mim, essa foi a nossa grande vitória. Claro que desejamos agora a vitória completa, ou seja, a reeleição de Lula. A luta prossegue. Vamos chegar lá. No meu caso, a luta sistemática, acabou por gerar o problema no meu braço direito. Não é tão grave como eu pensavam. Não é Ler (Lesão de Esforço Repetitivo), mas uma espécie de artrose, ou inflamação. Por mim, interpretei como uma ferida de guerra e mais um aviso de que eu precisava, e preciso, de umas boas férias. Por um bom tempo.

Além do mais, minha participação não é mais tão crucial. Pode ser útil, necessária, mas não é mais tão crucial. Portanto, prefiro continuar descansando e me preparando para batalhas futuras. Sinto que virão e gostaria de me preparar para elas.

Sob o governo Lula, minha mãe, com mais de 60 anos, arrumou um bom emprego. E, há pouco menos de 1 ano, também eu arrumei um bom trabalho, dentro do meu ramo, devido à confiança que um grupo estrangeiro agora deposita no mercado nacional. Um trabalho que não me violenta ideologicamente e me permite tempo para estudar e ler.

Por isso, peço a compreensão de vocês. Quando falo que estou "vadiando", ou "de férias", na realidade trata-se de uma expressão brincalhona. Tenho meu trabalho, tenho meus estudos e monitoro a situação. No momento, há uma porção de gente que está dando conta perfeitamente do recado. Preciso descansar. Gostaria de escrever um livro, alguma coisa assim. A vida não é só política. Outros fatores, mais importantes ainda que a política, interferem positivamente na vida espiritual das sociedades.

Estou bem aqui. Não estou parado. Estou à espreita, como um jacaré, guardando minhas forças. Esperando o inimigo chegar bem perto...

Grande abraço em todos.

8 de julho de 2006

Crise e sugestões (Atualizado)

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Bem, agora confesso: estou sofrendo aguda crise de criatividade. Pelo menos estou lendo bastante. Terminando de ler alguns clássicos, como o Tom Jones, do Fielding; o Dom Quixote, de Cervantes; a Montanha Mágica, do Mann; e as As Aventuras de Picwick, de Dickens. Passei algumas tardes num boteco aqui perto lendo Notas de um velho safado, do Bukóswki. Entre meus objetivos para este ano também está Voyage au bout de La Nuit, do Céline; Flexa de Ouro, do Conrad, e o que mais vier pela frente. E como tem coisa pela frente!

Também voltei a ler os jornais. A Folha resolveu me dar 20 dias de assinatura grátis. Já sou assinante do Globo e hoje comprei o Estadão. Refestelei-me em notícias e opiniões. Aborreceu-me, porém, notar que está havendo quase uma padronização, sem grandes diferenças entre os principais jornais. Eles estão perdendo suas idiossincracias e ficando cada vez mais parecidos. Também senti falta de mais artigos e mais opinião. Sobretudo mais opiniões divergentes, em confronto

E o famigerado Reinaldão lançou seu blog, héin. Linda a foto dele, dedinho na boca, pose de inteligente. Ou intelijumento, como vovó dizia. O cara está cada vez mais reacionário e paranóico, vendo petista embaixo da cama, dentro do armário, atrás do móvel. Queria um dia escrever um romance e incluir o Reinaldão como personagem. Inventaria uma filha maconheira pra ele, mas bem inteligente, quiçá poetisa, música ou artista plástica, que começaria a namorar com - e pensar em casar - um cara... do PT! Isso daria margens a diálogos memoráveis e uma deliciosa crise de consciência no pai direitóide.

Aí vão sugestões de bons artigos.

Confusão na crise do mensalão
O histerismo de Heloísa

PS: vale entrar nos comentários aí embaixo e seguir a indicação do outro artigo do Fernando.