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6 de fevereiro de 2011

De volta a Clermont-Ferrand!

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(A catedral de Clermont-Ferrand, construída com rocha negra vulcânica, tem um aspecto imponente, ao estilo altivo, poderoso e deslumbrante das igrejas na idade média. Sua grandeza, destoando do casario simples da cidade, servia para mostrar quem é que mandava).


Estou em Clermont-Ferrand, cidadezinha encrustada bem no centro da França onde já estive duas vezes. Acompanho minha consorte, organizadora de uma mostra de curta-metragens latino-americanos junto ao Festival Internacional de Curta-Metragens que acontece todos os anos na cidade e é o maior do gênero no mundo.

Ficarei por aqui uma semana, depois vou-me a Paris, onde permaneço até o dia 19 de março.

Aproveito a estadia para observar o que está acontecendo no mundo árabe. A França é um excelente ponto de observação, visto que sua imprensa e seus intelectuais dedicam-se 24 horas a analisar o que está acontecendo por lá.

Quanto ao blog, aos poucos vou reconfigurando seu design e trazendo novos conteúdos. Confesso que estou  bem mais aliviado agora que tomei a decisão de voltar ao blogspot. O wordpress é muito bom para hospedar sites comerciais, institucionais, etc, mas para meus objetivos, a plataforma blogger é bem mais prática.


Permitam-me ainda fazer propaganda da minha Carta Diária. Preciso vender bastante assinatura para comprar baguetes e me manter vivo. 

Algumas informações sobre Clermont-Ferrand: é uma cidade universitária, muito simpática. Como todas as cidades francesas, possui uma grande comunidade árabe. O que não faltam são lanchonetes de kebab, conhecido entre nós como sanduíche grego.

Também há muitos brasileiros, sobretudo trabalhando na Michelin, cuja sede é aqui. 

As universidades oferecem cursos para estrangeiros a custo bastante acessível, possivelmente o mais econômico de toda França, e está aí a ligação que minha mulher tem com a cidade: ela estudou e morou aqui por dez meses em 2001. Por ser uma cidade universitária, há uma quantidade enorme de alojamentos e pensões voltados especialmente para o público jovem, a preços também bastante acessíveis. 

Ontem chegamos tarde e como o alojamento que ficaríamos não tem atendentes 24 horas, viemos para um hotelzinho perto da estação. Assim que conseguirmos estabelecer o contato, iremos para o alojamento Le Phare, cuja diária custa apenas 25 euros (57 reais). Os quartos são excelentes, tem banheiro, e inclui o café da manhã. O hotel onde estamos provisoriamente custa 38 euros e tem wifi (internet sem fio) ilimitada e gratuita. 

Uma das coisas que mais me impressiona na Europa são os trens. Rápidos, confortáveis, pontuais. Viemos de Paris a Clermont-Ferrand em três horas, sentados em poltronas macias com mesinhas à frente.  

A cidade tem um herói importante, Vercingetorix, chefe gaulês que deu muito trabalho a Julio César, ganhando inclusive algumas batalhas. Há uma estátua dele na praça principal da cidade, a Place Jaude.

Aqui perto tem ainda estações de esqui, mas não teremos tempo. Não estou de férias. Continuo trabalhando normalmente, pela internet. Obrigações: fazer a Carta Diária; duas notas diárias sobre café para um site americano; atualizar o Gonzum; terminar o blog de uma amiga; escrever algumas resenhas para o Festival de Curtas da cidade; ajudar minha mulher a organizar a mostra de curtas latinos; ler os jornais para acompanhar a situação no mundo árabe; redigir longo artigo para uma revista brasileira; monitorar jornais e blogs brasileiros para saber as últimas peripécias do PIG...

Por enquanto é só. Daqui a pouco trago mais novidades.

4 de fevereiro de 2010

O blogueiro em Clermont-Ferrand

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Aconteceu o seguinte. Para explicar como vim parar aqui é preciso contar um pouco da história de Priscila Miranda, minha mulher. Uma jovem carioca de 29 anos nascida e criada na Penha, zona norte do Rio.

A gente já conhece Clermont-Ferrand, capital da Auvergne, linda cidadezinha universitária encravada bem no meio da França. A Priscila estudou quase um ano aqui em 2001. O avô dela (ela foi criada pelos avós) havia perdido a casa num leilão e, com parte do dinheiro que restou, mandou a neta fazer o curso no exterior com o qual sempre havia sonhado. O avô dela é outro personagem cuja história dava um belo e comovente romance sobre bondade e estoicismo.

É o tipo de coisa que muda a vida de um jovem, quando este agarra a oportunidade com as duas mãos. Este curso em Clermont é subsidiado pelo governo francês, então é relativamente barato e vem gente do mundo inteiro estudar na cidade. Ela não falava uma palavra de francês. Depois de dez meses de curso, voltou falando fluentemente, o que lhe abriu diversas portas.

Eu reencontrei a Pri depois de sua volta de Clermont. A gente foi morar junto. Casou-se. Ela virou guia de turismo em língua francesa. Nós dois sempre cinéfilos, e sempre na corda bamba. Daquele jeito. Dá-lhe que ela recebeu dois turistas da Ilha da Reunião, território francês na África, e os dois gostaram da Pri e a chamaram para lhes ajudar a levar uns 20 artistas brasileiros para esta ilha. Ela levou. Eu fui junto. Tudo isso em 2006. Lembro que nem pude votar no segundo turno das eleições. Levamos o Mundo Livre, o Eryk Rocha, um amigo meu fotógrafo Felipe Varanda, mais uns sambistas, uns capoeiristas, etc. O evento foi uma droga. Era uma feira comercial, sem público qualificado, e que foi um fracasso naquele ano. A ilha ainda estava bem vazia, por causa de uma espécie de dengue que ocorrera lá no ano anterior.

Mas todo mundo foi pago, relativamente bem pago. E na volta, que passava por Paris, eu e a Pri resolvemos fazer uma loucura e ficamos em Paris, memo perdendo a passagem (que não era do tipo reembolsável). Ficamos em Paris por dois meses. Alugamos um studio de um persa, perto do parque Luxemburgo. A Pri arrumou emprego numa loja do amigo desse persa. Eu ainda trabalhava para um site americano de café, e escrevia minhas notas para lá diariamente. A gente ficou muito apertado de grana, mas deu para curtir um pouco, ainda com o dinheiro que havíamos ganhado na ilha.

E aí fomos à Clermont-Ferrand, não só participar do Festival de Curta-Metragens, como aproveitar o fato de que a Pri ainda tinha amigos na cidade e um deles nos emprestou um lugar para morar, um moquifo nos fundos de um prédio. Ficamos mais dois meses por ali. Eu sempre trabalhando pro americano, mas com muito tempo livre. Escrevi várias matérias aquele ano sobre os curtas que assisti, inclusive para a Agência Carta Maior. E enfiava-me nas bibliotecas da cidade, como sempre faço. Lembro que li Faulkner, o Light in August, no original. Por isso evoluí tão pouco no francês falado: passava a tarde na França lendo em inglês.

Passamos por outras aventuras na Europa. Fomos à Itália, já ilegais. A Pri trabalhou um restaurante em Florença. Mas encurto a história. Retornamos ao Brasil. E agora voltamos à Clermont-Ferrand, novamente para participar do Festival Internacional de curta-metragens. A Pri conseguiu passagens e alojamento para gente e mais duas amigas. E dessa vez, além de cobrir o festival, viemos organizar uma mostra paralela de curtas latino-americanos.

A gente não ganha nada ainda com isso, mas é que montamos uma empresa de distribuição de filmes latino-americanos e o evento serve como uma iniciativa do projeto. Dezenas de cineastas de todas as partes do continente enviaram filmes, que estamos exibindo em dois lugares aqui em Clermont. É o off-Clermont - Amérique Latine a la select.

Nos próximos dias, irei escrever mais sobre essa experiência. E sobre os curtas, e sobre curta-metragismo. Sobre o Festival Internacional de Curta-Metragens de Clermont-Ferrand, que é o maior do mundo, e sobre a pequena mostra que organizamos (quer dizer, a Pri organizou, eu ajudei em algumas coisas).

Ah, e hoje haverá palestra. Eheh, eu darei uma palestra sobre "política latino-americana" e a Pri sobre cinema. E estamos quase morrendo de frio por aqui. A viagem também me renderá algumas observações sobre política e economia e cultura européia.

Mas continuo monitorando atentamente a política brasileira, claro. Minha cabeça continua aí no Brasil.