30 de novembro de 2008

TV Gonzum: Sobre o fim dos bancos privados

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Nesta segunda edição de TV Gonzum Show, explico minha teoria sobre a necessidade de se eliminar os bancos privados.



Feche sua conta em banco privado e abra num banco público, cujos lucros são auditados por instituições idôneas e que vão para a conta do Estado, que, com todos os seus defeitos, é quem constrói estradas, hospitais e escolas. Bancos privados quebram, mais cedo ou mais tarde, e ainda têm cara de pau de bater à porta da viúva. Lembram do Proer? Pois é. O Estado teve que bancar o equivalente hoje a mais de R$ 80 bilhões. E agora os Estados europeus e americanos tiveram que gastar trilhões de dólares para pagar a incompetência de bancos privados...

Arquivo: Jandira, Obama e o movimento estudantil

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(esse é um artigo de algumas semanas atrás, publicado originalmente no blog da Bienal e no Vermelho. Publico aqui para tê-lo em meu arquivo)


Enfim uma excelente notícia para o movimento estudantil do Rio de Janeiro. O novo prefeito do PMDB, Eduardo Paes, nomeou Jandira Feghali, do PCdoB, sua adversária no primeiro turno, secretária de Cultura do município. É uma pasta extremamente importante não apenas pela tradição do Rio em produção cultural, mas porque possui relativa independência em relação ao poder central e, o mais importante, movimenta um bom volume de recursos financeiros, o que permitirá à Jandira realizar políticas culturais que poderão realmente fazer diferença.

Jandira terá que lidar com um grande abacaxi: dar um destino ao elefante branco construído por César Maia, a faraônica obra Cidade da Música, que ainda tem contratos não pagos, e cujo orçamento, inicialmente estimado em pouco mais de R$ 30 milhões, já consumiu mais de R$ 500 milhões.

O aspecto positivo para a juventude e o movimento estudantil é que o movimento estudantil organizado, a UNE e UEE, cujos dirigentes também são quadros comunistas, têm um excelente trânsito junto à Jandira, de maneira que a pasta de Cultura, pela primeira vez em muitos anos, quiçá pela primeira vez em sua história, ficará nas mãos da esquerda.

Naturalmente, será um enorme desafio para Jandira, mas não podemos esquecer que a conjuntura política será bastante favorável, visto que a nova gestão municipal inscreve-se num quadro de estreita aliança com as instâncias estadual e federal.

Por outro lado, a nomeação de Jandira também constitui um movimento significativo no tabuleiro político fluminense, um gesto inteligente e generoso do novo prefeito, Eduardo Paes, para conquistar a confiança da esquerda. Recém-convertido à centro-esquerda, Paes fez o caminho contrário de seu oponente no último pleito, Fernando Gabeira, que deslocou-se à direita e aliou-se ao PSDB e ao DEM de César Maia. Em virtude de seu amplo leque de alianças, esperava-se que Paes fosse faturar com facilidade a prefeitura. Não foi assim. Inflado pela preferência explícita da midia e transformado em ícone da rebeldia juvenil, Gabeira chegou ao segundo turno e ultrapassou Paes nas pesquisas.

Conforme explicou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, a esquerda carioca ficou encurralada num primeiro momento, porque Paes ainda carregava o estigma conservador, de parlamentar tucano, verdugo anti-lulista e midiático de CPI. Mas o candidato, forçado pelo risco da derrota, optou pela única forma de ganhar as eleições. Em vez de aproximar-se de Crivella, e apelar para o lado mais populista (e conservador) da política estadual, Paes acenou para a esquerda politizada, à esquerda real. E a esquerda veio, exigindo, é claro, contrapartidas, como agendas progressistas para a saúde, educação e cultura.

Para a saúde, Eduardo Paes, embora não tenha aceito integralmente o programa de Jandira Feghali, de longe o mais completo dentre os candidatos, nomeou para a pasta uma autoridade de grande prestígio e idoneidade, o médico cardiologista Hans Fernando Dohmann, que seguramente representa um avanço extraordinário em relação à política desastrosa de César Maia (DEM), que havia entregue o cargo ao PSDB, a Ronaldo Cézar Coelho, um banqueiro sem qualquer vivência na área da saúde, que levou o setor ao mais tenebroso caos.

Mas é a nomeação de Jandira Feghali para a pasta de Cultura o gesto mais claro de vontade política de Eduardo Paes de fazer aliança com a esquerda carioca e integrar-se verdadeiramente ao conjunto de forças reunidas em torno da figura simbólica do presidente Lula.

Jandira assume o governo num momento especial. Até agora, a esquerda, mesmo assumindo o poder em quase todos os países da América Latina, era considerada, pelas elites e mídias corporativas, uma espécie de epidemia ideológica passageira. Descontando o fato de que a "epidemia" em breve completará uma década, o continente acaba de vivenciar uma reviravolta geopolítica. O único ponto de apoio dos conservadores radicais que ainda infestam a política latino-americana, encastelados sobretudo na mídia corporativa, acaba de ser eliminado. A direita americana, quem diria, foi vencida por um negro. Um senador negro com histórico de atuação mais à esquerda do Congresso tornou-se presidente dos Estados Unidos da América. Os conservadores brasileiros - e de toda América Latina - vivem um pesadelo. Imaginem o que pensam os colunistas e apresentadores de tv da Bolívia e Venezuela, que chamavam Evo Morales e Chávez de "macacos". Agora terão que dizer o mesmo de Barack Hussein Obama, o homem mais poderoso do mundo.

É neste novo e emocionante ambiente geopolítico que devemos pensar e agir a partir de agora. A vitória de Obama deverá, aos poucos, contaminar ideologicamente o planeta inteiro, e o Rio não escapará dessa onda. Sempre é importante lembrar que a vitória de Obama só foi possível por causa do apoio maciço que obteve junto à juventude. Os movimentos estudantis norte-americanos alinharam-se integralmente à campanha do negro filho de imigrantes africanos.

Então chegamos ao movimento estudantil nacional. A UNE hoje está fortalecida, com mais recursos e, em breve, terá uma sede de primeiro mundo no Rio de Janeiro. É claro que isso representará um grande impulso à politização estudantil. Parte do desinteressse dos jovens pela política estudantil pode ser explicado pela precarização e abandono a que as instituições do segmento foram relegadas pela ditadura e depois pelos governos neoliberais. Vendo que suas instituições hoje são respeitadas e têm mais recursos, os jovens sentir-se-ão novamente atraídos e, com isso, esperamos inverter a tendência atual à alienação política que predomina entre a juventude. Essa tendência tem sido abertamente incentivada pela mídia, que nunca mostra jovens politizados em séries e novelas, e quando os mostra é num contexto negativo, caricatural ou passadista. Somente em filmes de época, os jovens vêem seus iguais pensando e agindo politicamente. Glamourizou-se a futilidade, que adquiriu inclusive veleidades de inteligência. Jovens conversam seriamente sobre desenhos e seriados infanto-juventis, como antes discutiam sobre cultura e política. E ainda tem o mais grave: esporadicamente, como se fosse "ativados" por força invisível, esses mesmos jovens, assumidamente anti-políticos, tornam-se ferozes militantes políticos! E quem ativa esse jovens? Quem pressiona-lhes o misterioso botão que lhes transforma subitamente em militantes furiosos que se alinham, não coicidentemente, às mesmas causas defendidas pela grande mídia? Ora, a própria mídia! Como isso acontece?

Bem, não sei bem como isso acontece, mas sabemos como libertar a consciência política do jovem, deixando que ele pense com sua própria cabeça e não conforme um artigo de Arnaldo Jabor. Política é como arte: aprende-se fazendo, participando, trabalhando. O jovem deve participar da política usando o talento que possui: na música, na poesia, na oratória, na dança, no teatro, no cinema. Glauber Rocha fez Deus e Diabo na Terra do Sul com 23 anos, o que mostra o potencial artístico, revolucionário, intelectual, que todo jovem possui, e que muitas vezes é mutilado ou atrofiado pela falta de treino.

A fortalecimento da União Nacional dos Estudantes já é uma realidade. O próximo passo é a consolidação das Uniões estaduais. Com esse objetivo, de revigorar a si mesma, ao movimento estudantil, e ajudar na reconstrução do pensamento político junto à juventude, a União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro (UEE/RJ) está organizando a Bienal de Artes, Ciência e Cultura, a ser realizada nos dias 20 a 23 de novembro deste ano. Estamos recebemos mostras de arte e ciência e organizando shows, festas, apresentações, conferências e debates. As inscrições para as mostras e outras informações sobre a programação estão no blog da Bienal (http://www.bienalueerj.blogspot.com/). Convidamos todos, mesmo os que não são estudantes e não moram no Rio de Janeiro, a visitarem nosso blog, onde poderão assistir vídeos e ler textos sobre a Bienal e sobre o movimento estudantil, além de acompanhar a intensa vida cultural da cidade maravilhosa.

Arquivo: A Bienal e o auxílio luxuoso do movimento estudantil

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(esse é um artigo de algumas semanas atrás, publicado originalmente no blog da Bienal, no site da UNE e no Vermelho. Publico aqui para tê-lo em meu arquivo)


Um brilho puro e louco nos olhos. A capacidade ilimitada de sonhar, rir, amar. Uma determinação maníaca de ser feliz e transformar o mundo. Quem é tão biruta de agir assim? Quem senão a juventude? A juventude! Há exatamente quarenta anos, o governo decretou o AI-5, o golpe fatal nos direitos civis do Brasil e uma bomba atômica nos sonhos da juventude. A partir daí, o país tratará os jovens como seus principais adversários. A polícia prendia jovens na rua simplesmente por serem jovens, terem cabelos compridos e não conseguirem esconder a fúria no olhar. Quantos milhares de jovens não tiveram seus sonhos destruídos em porões de tortura, em exílios dolorosos e miseráveis, em tempos sombrios onde a alegria e a subversão, ou seja, os dons mais queridos, mais inerentes à juventude, foram erigidos em inimigos públicos número um! De lá pra cá, muitos tentaram manipular a juventude, direcionar-lhe a energia anárquica, a generosidade sem limites, a inocência orgulhosa. Num mundo cínico, arrogante e fútil, porque tantos jovens ainda são atraídos por discursos revolucionários? Pior: ainda se organizam em partidos, ainda disputam centros acadêmicos, ainda militam no movimento estudantil?

Claro, alguns segmentos sociais gostariam que a juventude rebelde existisse apenas em seriados de tv. Diante da impossibilidade de conter seu natural ímpeto subversivo, muitos gostariam que o mesmo se restringisse a camisas de chê guevara, a uma rebeldia estética, hipócrita e inofensiva. Ah, mas a coisa é pior do que se pensa. O movimento estudantil, emergindo aos poucos dos escombros da ditadura, que traumatizou e mutilou a subversão criativa da juventude, começa a botar suas longas asas pra fora. Não esperam simpatia dos mesmos que os perseguiram, mas também não guardam rancor. Os jovens representam a vingança mais terrível contra os reacionários (que ainda se penduram nos derradeiros cabides do regime militar), porque não reagem emocionalmente aos inimigos do passado: ignoram-lhes solenemente. Estão noutra.

E agora ainda têm o desplante de organizar formidáveis Bienais de Cultura! É irônico que, ao mesmo tempo em que curadores famosos e fundações ricas realizam a "Bienal do Vazio", em São Paulo, onde o fato mais notório é um andar inteiramente desocupado, e cujos debates se voltam exclusivamente para labirínticos tópicos acadêmicos e chororôs por falta de verba, os jovens estudantes fluminenses realizam, com recursos bem mais modestos, a sua primeira Bienal de Cultura, Ciência e Tecnologia, com o seguinte tema: Arte em novas tecnologias. Sem chororô, sem furibundos debates na mídia. Trabalham, organizam, e fazem o que é possível. E fazem bem.

A Bienal de Cultura do Rio, a se realizar nos dias 20 a 23 de novembro, contará com shows, festas, debates, oficinas, exibição de filmes, grupos de dança, peças teatrais, e promete se tornar um evento marcante no calendário cultural do estado. A União Estadual dos Estudantes (UEE), entidade responsável pela organização do evento, deverá trazer e alojar mais de 600 estudantes de diferentes cidades fluminenses. E tudo acontece na Lapa, um dos bairros mais fascinantes do mundo, por sua efervescência musical incomparável, seu democratismo econômico e geográfico, sua arquitetura oitocentista, sua história.

Será uma oportunidade magnífica de conhecer o que há de mais vibrante e original na cultura fluminense. Aconselhamos a todos os interessados a entrar no blog da Bienal, imprimir a programação e anotar cuidadosamente os eventos dos quais desejam participar. Lembre-se: a Bienal é aberta a todos, estudantes, não-estudantes, jovens e velhos.

A abertura da Bienal, dia 20, quinta-feira, acontece no Circo Voador, a legendária casa de show por onde já passaram, e continuam passando, todos os grandes nomes da música brasileira. BNegão, Renegado, Marcelinho da Lula têm presença confirmada.

Os dias seguintes terão debates, oficinas e talk-shows durante a tarde. E imperdíveis festas à noite. Sempre na Lapa. Para saber mais detalhes sobre a programação dos shows, consulte o nosso blog bienalueerj.blogspot.com, ou diretamente neste link. A programação dos debates está aqui.

A juventude brasileira, com auxílio luxuoso do movimento estudantil, continua transviada, maravilhosamente transviada, e tem consciência da importância política e existencial de tudo isso, de maneira que só nos resta afirmar que a Bienal de Cultura do Rio será uma oportunidade de todos viverem momentos inesquecíveis de diversão, conhecimento, arte, amor e paz!

* Miguel do Rosário, 33, é editor do blog da Bienal de Arte, Ciência e Cultura do Rio de Janeiro, e responsável pelo blog OleodoDiabo.blogspot.com.

Anti-golpismo dominical

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Gostaria que esse artigo fosse lido, com carinho especial, pelo assessor da presidência para relações internacionais, Marco Aurélio Garcia.


Uma vez eu estava na Bahia, participando de um congresso, e conheci um jornalista. Perguntei sobre o que ele costumava escrever. Ele me respondeu: "eu sento o pau no ACM!" Era muito engraçado, claro. Ele fazia parte de uma minoria de jornalistas que combatiam um político que chegou a dominar mais de 90% das prefeituras baianas, governo do Estado, Senado, e as bancadas legislativas federal, estadual e municipais. Eles lutavam com apoio de minorias ígualmente combativas e esclarecidas, impulsionados exclusivamente por suas consciências. Não havia internet, que permitiria a esses agentes interagirem melhor entre si mesmos e com o resto do país, de forma que nunca ficaremos sabendo, pelo menos enquanto não se publicarem livros sobre o tema, os nomes e as lutas desses jornalistas anônimos que resistiam ao império do falecido Antonio Carlos Magalhães.

Claro que eles não se dedicavam somente à luta contra ACM. Cometiam poemas, crônicas de amor, eram compositores, escreviam artigos sobre arte e turismo. Mas isso todos faziam. O que lhes distinguia de outros jornalistas era sua resistência ao caudilho baiano.

Ás vezes fico pensando no que eu sou. Escrevo sobre tudo. Cometo poemas, contos, crônicas, ensaios, artigos, resenhas. Faço tudo isso por prazer. Nâo estou interessado em louros. Me basta saber que o blog está sendo lido e comentado. Mas eu, assim como aquele jornalista baiano, também tenho uma bandeira que resume minhas lutas: sentar o cacete no jornal Globo. Tenho pra mim que não existe empresa que represente, de forma mais clara, o reacionarismo medieval que ronda a cabeça de nossas elites desde a fundação do país. Minha postura, eu sei, coloca-me numa situação de pária aqui no Rio. Entretanto, sem querer ser místico, mas já sendo, faço isso porque uma força superior, uma força histórica, assim me guia.

Tentando entender porque ajo assim, andei frequentando o arquivo histórico da Biblioteca Nacional e descobri o que já imaginava. O Globo luta contra os trabalhadores desde seus primórdios. Tudo que você possa imaginar que beneficiou o Brasil e os trabalhadores foi antes duramente combatido pelo Globo: salário mínimo, criação da Eletrobrás, da Petrobrás. Tudo. Estou apenas resumindo. E quando eu falo isso, receio que as pessoas não percebam a gravidade do fato. O sistema elétrico brasileiro estava em mãos de companhias britânicas, e metade do país vivia às escuras, porque não interessava a essas empresas ampliar a rede para áreas pobres e pouco desenvolvidas. E que continuariam pobres e pouco desenvolvidas justamente por não terem acesso as redes elétricas. O Globo, no entanto, atacava a criação de Eletrobrás porque recebia dinheiro de empresas britânicas. Leiam História da Imprensa Brasileira, de Nelson Werneck Sodré. Poderia me estender por muitas páginas, descrevendo as campanhas do Globo contra os interesses nacionais, mas cumpre falar do momento presente.

Entretanto, paradoxalmente, eu gosto do Globo. É um adversário antigo meu. Sentiria saudades se ele não existisse. Quero que ele exista. Minha luta não é para "derrubar" o Globo, e sim para que as pessoas adquiram consciência de que o Globo é um jornal que submete qualquer assunto a seus interesses, violentando todo escrúpulo jornalístico. Queria, sobretudo, que nossos valorosos (ou nem tanto) parlamentares enxergassem isso e não subissem à Tribuna, como eles fazem, com um exemplar do Globo debaixo do braço, tentando impor à nação uma agenda política elaborada nos últimos andares de um edifício da rua Irineu Marinho.

Gosto tanto do Globo, ia dizendo, que fiz uma assinatura, há poucos dias. Foi um gesto arriscado, uma opção por uma vida com emoções fortes. Dificilmente terei manhãs tranquilas durante os próximos doze meses. Hoje, por exemplo, um domingo nublado no Rio de Janeiro. Poderia acordar, tomar meu café da manhã e iniciar a leitura de um novo livro. Ou escrever uma resenha para o Gonzum (meu sebo virtual). Ou concluir logo o artigo que estou escrevendo para a Inteligência. Em vez disso, peço ao porteiro para pôr o jornal no elevador. Aguardo um pouco, vou até o corredor, levemente preocupado em ser flagrado com roupa de dormir, espero o elevador chegar, abro a porta, pego o Globo e volto para o apartamento. Pronto. Minha paz já era.

Consolo-me pensando (ou me enganando) que a paz não me interessa. Ao menos terei assunto! E não me faltará revolta! Enfim, a manchete do Globo deste domingo, 30 de novembro, é a seguinte:

VIZINHOS AMEAÇAM O BRASIL COM CALOTE DE US$ 5 BILHÕES
"Assessor da Presidência diz que "isso tudo tem cheiro de desastre"


Bem, mesmo sendo vacinado contra o Globo, levei um susto. Não um susto muito grande, porém, porque do Globo espero tudo. Qualquer dia desses, eles virão com algo como "Chávez declara guerra ao Brasil", e, na matéria, verificaremos que não é nada disso. É a mesma coisa hoje. Leio a matéria e encontro um apanhado de informações confusas genéricas, que pedem toda minha perspicácia para compreender. Em primeiro lugar, os tais US$ 5 bilhões referem-se a dívidas de mais de 30 anos, embora o Globo faça tudo para transparecer que se trata de um rombo que irá arrasar nossas contas públicas. A matéria engana em todos os sentidos. Os países estão fazendo auditoria das dívidas, o que é diferente dizer que não pagarão. Podem pagar integralmente ou podem discutir o valor, o que é natural em qualquer dívida.

Ah, e o tal assessor da presidência? Nem sinal dele na matéria. Lançou-se uma frase de efeito debaixo do manchetão, apenas para iludir os incautos que fuçam capas nas ruas, nas bancas de jornais. O Globo, aliás, sempre jogou com o público de rua. Até meados da década de 70, seus editoriais eram publicados na primeira página, para atingir a opinião pública de menor poder aquisitivo, que tem a inteligência de não gastar seu parco dinheirinho comprando jornal golpista...

O que me revolta, especificamente, é que o Globo não diz que as exportações brasileiras para o Equador cresceram quase 600% nos últimos seis anos. E que uma suposta briga diplomática, incentivada pela mídia, entre Brasil e Equador, implicaria em danos econômicos ao país muito maiores ao causado por um suposto calote no BNDES, porque seriam danos que causariam desemprego. As empresas brasileiras hoje dependem dos mercado sul-americanos, portanto seria absurdo que o Brasil criasse uma briga com esses países por conta de dívidas de mais de 30 anos, cujos valores certamente podem ser rediscutidos.

O Globo não é comprometido com os interesses econômicos nacionais. Hipocritamente, tenta insuflar um nacionalismo burro, alienado, em leitores que, justamente pela falta de informação do próprio Globo, não sabem a importância crucial, para a economia brasileira, de relações comerciais tranquilas com seus vizinhos. Essas pendências de dívida podem ser resolvidas calmamente, e os valores são irrisórios se comparados ao volume de comércio praticado.

A situação, todavia, é ainda mais grave do que se pensa. Com a crise no primeiro mundo, sobretudo EUA e Europa, o Brasil ficará ainda mais dependente de seus vizinhos. Brigas diplomáticas, portanto, não são, definitivamente, bem vindas. O Equador, por conta da atitude agressiva do governo brasileiro, seguramente influenciado pela onda chauvinista da mídia, já ameaçou cortar compras de produtos brasileiros. É tudo que os EUA querem. Que os países sul-americanos deixem de comercializar entre si e voltem a comprar exclusivamente produtos norte-americanos. Delenda Serra.

*

Lembrando: minha quixotesca luta contra o Globo precisa de solidariedade. Ajude o blogueiro fazendo uma assinatura da revista impressa Manuskripto. Ou comprando um livro no sebo virtual Gonzum.

29 de novembro de 2008

Sobre a privatização da telefonia

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Eles vêm com esse discursinho de que a privatização modernizou o sistema telefônico do país, que antes ninguém tinha celular e tal. Balela! Ninguém tinha celular porque não existia celular. Vendo esses anúncios monstruosos das telefônicas, fico pensando que, se a telefonia não tivesse sido privatizada, o preço das ligações poderia estar muito mais baixo. Todo mundo tem celular hoje mas ninguém pode ligar porque o preço da ligação é absurdo. E criaram a Anatel, que dificulta ainda mais um possível controle do governo sobre as tarifas telefônicas.

Eles poderiam ter privatizado uma parte do sistema telefônico, para atrair investimentos estrangeiros, mas ter mantido o controle do Estado. A ideologia neoliberal tucana nunca pensa no custo para os cidadãos. Só pensam no lucro de empresas das quais são sócios. Abaixo os bancos privados. Delenda Serra.

Como lidar com a mídia?

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Semanas atrás, publiquei uma enquete neste blog com a seguinte pergunta: Como lidar com a mídia? Mais de duzentos responderam em poucos dias. A enquete ainda duraria mais uns 30 dias, mas, quando fiz a mudança no design do blog, ela foi cortada sem que eu tivesse controle. As opções de resposta eram:

1) Investir na blogosfera
2) Cobrar uma atitude do governo
3) Cobrar dos partidos
4) Eu gosto da mídia
5) Sei lá!
6) Deixá-la se auto-enforcar.

A opção ganhadora, isolada com 69%, foi: Investir na blogosfera. Em segundo lugar, também isolada, com algo em torno de 30%, veio a opção Deixá-la se auto-enforcar. Em seguida, com percentual baixinho, vieram Cobrar do governo e Cobrar do partido. Dois ou três gatos-pingados escolheram Sei Lá! e uma pessoa afirmou gostar da mídia.

Os resultados mostram que as pessoas estão começando a levar a blogosfera à sério, e a acreditar que a internet pode fazer diferença nas disputas políticas daqui para a frente. Também revela que há descrença quanto à conveniência de um enfrentamento direto, por parte do presidente, contra a mídia corporativa.

O balé subaquático dos fischs

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Por Fernando Soares Campos

O jovem Albert Einstein estava sentado numa pedra à beira de um belo lago da Alemanha dos anos 1920. Na mão esquerda, uma vara de pesca; a direita, punho cerrado, sustentava o queixo que insistia em cair diante do cenário hollywoodiano que enchia seus olhos de poesia e a brilhante cabeça de pensamentos relativos à sua existência no Planeta: Quem fui? Quem sou? Donde vim? Súbito! Pronde foi o peixe que fisgue?!

De verdade, ele não havia fisgado coisa alguma, pois o esperto fisch apenas comia pelas beiras, fazendo a linha tremelicar. Pacientemente baixou a vara (de pesca, claro), tocou a ponta no espelho d’água, provocando um daqueles círculos marolados que as crianças provocam nos poços do rio Ipanema, arremessando seixos, apostando quem faz o maior número de toques e torcendo para fazer as marolas atingirem a margem oposta.

Einstein ainda pensou em encerrar a pescaria num dia em que o lago não estava pra pescador, porém decidiu fazer mais uma tentativa. Recolheu a linha, espetou mais uma minhoca no anzol e, com habilidade de pescador escolado nas lidas dos judeus pobres que preferiam pescar a ganhar o peixe através da bolsa-família do governo alemão, arremessou a cobra-cega à própria sorte. Desta vez ficou atento à possível fisgada de um freund-gold, espécie bastante cobiçada pelas loiríssimas mädchens da época.

Desligado que nem eu, Einstein novamente se distraiu com seu esporte predileto: meditar tranqüilo, tranqüilo; daquela vez, tentando se decidir sobre duas propostas de emprego: uma oferecida pelo avô de Herr Bornhausen; outra, pelo pai de seu infanto-amigo Oscar Wind, filho de Gelei Müller, judeu que nem ele, mas ainda de calças curtas.

A empresa dos Bornhausen era uma das maiores da Europa no ramo de emprestar com uma mão e receber com a cabeça, tronco e membros eretos. Enquanto a microempresa do pai de seu amiguinho Oscar Wind, fabricante de cola de sapateiro, começava a dar prejuízo, em vista da concorrência desleal; pois, quando há lealdade na concorrência, ninguém pode duvidar, todos saem ganhando; basta dar uma espiadinha no Mercado de Carne de Santana do Ipanema e região. Outro dia eu conto mais sobre lealdade de concorrentes; por enquanto, vamos ao que nos interessa.

Enquanto Einstein ponderava as vantagens e desvantagens de cada empresa, lá no fundo do lago um lambari-dourado, que fazia intercâmbio cultural em águas germânicas, encontrou-se com um deutsch colega e decidiram jogar conversa fora no Kerr Riba Bar, ambiente aconchegante a bordo de uma nau flagrada pelos alemães em missão de espionagem, durante a Primeira Grande Guerra.

Depois de brindarem as tulipas de chop e beliscarem os pasteis de camarão, o lambari-dourado puxou uma prosa versátil.

Perguntou ao deutsch companheiro de malocas subaquáticas:

— O que seria melhor: ser cabeça de sardinha ou rabo de tubarão?

— Depende — falou, mas não pensou.

Se tivesse pensado, o deutsch não teria vacilado diante de um reles latino metido a esperto.

— Depende do quê?

— Sei lá! Talvez das águas por onde navegue, das ilhas por onde aporte, das jacentes por onde ande...

O freund-gold degustou o chop salgado, cofiou o bigode e se recostou na antepara. Ficou a espiar por uma escotilha de boreste. Avistou um cardume de fisch que redemoinhava num fantástico balé submarino. Entre eles, eis que surge um tubarão martelo a martelar as águas claras do mar.

Corta para Einstein na posição de pescar. Ponta da vara apontando para o horizonte, linha em oblíqua descensão, lá na ponta um peixão se debatendo, estrebuchando. O bicho não queria subir, resistia ao tranco do pescador.

Agora veja: enquanto o robalo se debatia no tranco, a sua parceira robala provocava inveja a um cardume de sardinha, aguardando sua vez de ser fisgada; pois se sentia o máximo diante da possibilidade de vir a ser comida pelo notável cientista, àquela altura do campeonato já com o Nobel na ponta da linha.

Lembram daquela brincadeira de telefone: uma lata numa ponta e outra lá tinha na extremidade oposta. Pois bem, foi aí que o robalo que subia passou pela escotilha e viu os amigos no maior papo no Kerr Riba Bar. Quase teve um troço, só de imaginar que, poucos minutos antes o lambari-dourado o havia convidado para aquela confraternização, e ele, num tremendo domingo de pesca, resolve passear pelos bosques arrecifados, de bobeira, tendo a tiracolo sua robala carnavalesca.

Agora imagine o sufoco: o robalo fisgado subindo, deixando lá embaixo a rolala sonhadora...

Mas, como já foi dito, não há mal que não traga um bem, mesmo que seja em forma de outro mal. O robalo roubado de sua sorte era mudo como todos os robalos, mas não era surdo como quase todas as cobras. Havia feito um curso de verão através do intercâmbio da Universia Brasil e, para sua sorte, o curso era de sinais labiais. Veja o destino como é cruel: o sujeito estudou a vida toda, porém o que aprendeu só iria lhe servir no corredor da morte.

Einstein, ainda meditativo, portanto indeciso sobre a escolha da empresa para a qual trabalharia, sentiu finalmente a linha puxando e a vara tremelicando... Tremelicando, mas tremelicando de forma especialíssima, em Morse. E o que dizia a vara, ou melhor, o que recebia através da linha. Nada mais, nada menos que a leitura labial que o robalo condenado fazia sobre o papo dos amigos no Kerr Riba Bar. Qual seja:

— Se eu fosse você, aceitaria ser cabeça de sardinha; entretanto, considerando que eu sou eu, e Nicuri é o diabo solto na capoeira, prefiro ser rabo de tubarão.

A vara de Einstein tremelicou, tremelicou, até que, tremelicadamente ereta, decidiu-se:

Mar vermelho sob céu azul tanto collori de violeta quanto de azul-turquesa depende da intensidade dos ingredientes aplicados.

É relativo, né?

Einstein não colocou a viola no saco sem antes dedilhar os acordes finais do réquiem 639.

Tempos depois.... Cardume feliz! Navegando por mares nunca dantes navegados.

Mais uma palhaçada

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Na falta de assunto, o Globo decidiu acreditar na ladainha do PSDB e iniciou uma campanha ridícula contra a Caixa Econômica Federal e contra a Petrobrás. Não vai dar em nada, porque o empréstimo da Caixa para a Petrobrás, de R$ 2 bilhões, cumpriu as normas da lei. Mas já criou, pelo menos entre os "inocentes do Leblon", um pequeno escândalo e uma grande indignação contra os "aloprados" e "sindicalistas" que tomaram conta das estatais. O que me impressiona é a ousadia do Globo em criticar a gestão da Petrobrás, empresa que vem ganhando diversos prêmios internacionais de gestão, que já está entre as 10 maiores empresas do mundo, entre as três maiores das Américas, de longe a maior da América do Sul. Na época de FHC, havia sido sucateada, o que gerou o afundamento de uma de nossas maiores plataformas. Prejuízo de bilhões, morte de engenheiros. Isso era boa gestão para o Globo e para Arnaldo Jabor, que na época do acidente escreveu diversos artigos defendendo a "gestão" tucana, tentando provar à sociedade que se tratava de uma "fatalidade". Não foi fatalidade. Foi resultado do sucateamento, da terceirização irresponsável, as mesmas causas do buraco do metrô paulista.

Sobre o empréstimo da Caixa à Petrobrás, essa indignação é hipócrita e os jornais estão desinformando as pessoas, como sempre. Porque é uma operação excelente para a Caixa. Todo banco quer emprestar para a Petrobrás. A Caixa não emprestou para a Petrobrás com juro subsidiado. Como banco ganha dinheiro? Ou melhor, como deveria ganhar? Emprestando dinheiro. A Caixa é um banco. Agiu como banco. Para o Globo e para a oposição, os bancos não devem emprestar. Devem segurar o dinheiro. Se o Itaú-Unibanco emprestasse para a Petrobrás, ninguém reclamaria. É saudável que as estatais se relacionem.

Na verdade, o que a oposição fez, com ajuda da mídia, foi um ataque especulativo, com vistas a causar queda nas cotações da Petrobrás. Feito isto, eles, os golpistas, compram as ações e lucrarão milhões.

O empréstimo da Caixa à Petrobrás será benéfico para ambas as empresas e para o povo brasileiro, porque a Petrobrás irá pagar juros à Caixa Econômica, e os lucros irão para o Estado bancar hospitais e universidades.

Continuo minha campanha contra bancos privados. Não tenha conta em banco privado. Os juros são mais altos e a qualquer momento eles podem quebrar (como quebraram nos EUA e na Europa) e irão cobrar a conta na viúva. Bancos privados são uma excrescência medieval. O capitalismo moderno deve ter apenas banco estatal, cuja gestão pode ser controlada pelas instituições democráticas. O capital é muito importante para ficar em mãos de playboys irresponsáveis. O dinheiro tem que circular. O capital deve ir para as empresas e para os indivíduos e não ficar estacionado em cofres de banco.

28 de novembro de 2008

Entrevista de Tereza Cruvinel para o Comunique-se

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Reproduzo a entrevista abaixo, feita para o portal Comunique-se, porque, em verdade, eu também estava presente. O jornalista Matsura fez uma excelente entrevista. O texto é bem pertinente aos assuntos que discutimos aqui no blog, sobretudo no que concerne às complicadas relações entre a comunicação de massa e a política.


Tereza Cruvinel avalia o primeiro ano da EBC e fala sobre 2009

Por Sérgio Matsuura, do Rio de Janeiro

“Continuo sendo essencialmente jornalista, mas eu acho que estou sendo uma boa executiva”. Dessa maneira a presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Tereza Cruvinel, define a sua atuação à frente do projeto de implantação da TV pública no País. Num longo bate-papo com o Comunique-se, realizado nesta terça-feira (25/11) na sede da EBC no Rio de Janeiro, Tereza analisa o primeiro ano de funcionamento da empresa e faz previsões para 2009.

Olhando para o ano que passou, Tereza fala dos problemas da implantação de uma nova empresa. Explica a dificuldade de fazer novos programas e os problemas para a ampliação da cobertura. Cita casos polêmicos, como a saída de Orlando Senna e Luiz Lobo.

Para o futuro, adianta que medidas a EBC está adotando para resolver os problemas burocráticos que “engessam” o seu funcionamento. Fala sobre um provável concurso público em 2009 e um possível corte orçamentário por causa da crise econômica.

Leia a primeira parte da entrevista com Tereza Cruvinel. A segunda parte será publicada nesta quinta-feira (27/11).

C-se – Antes de tudo, como você analisa o primeiro ano da EBC, que comemora aniversário no próximo dia 02/12?

Tereza Cruvinel - A EBC, enquanto empresa, chega ao final do ano muitos quilômetros além do estado que ela tinha quando começou. Era uma empresa nova, não tinha orçamento, não tinha absorvido a Radiobrás. Ainda existia uma confusão institucional muito grande. A lei só foi aprovada em março, a empresa existia como fantasma. Se a lei não fosse aprovada, a EBC iria acabar. Depois disso, nós aceleramos muito o planejamento da empresa. Agora estamos fazendo mudanças na nossa estrutura organizacional para que ela fique mais adequada a sua finalidade. Então, considero que a empresa chega ao fim do ano muito melhor estruturada do que ao nascer.

C-se - Quais seriam essas mudanças organizacionais?

Tereza Cruvinel - Toda empresa tem estatutos. Os estatutos são regramentos. Então eles dizem, por exemplo, que tal coisa só pode ser resolvida de tal modo, por tal diretor. Se o diretor viaja isso fica amarrado. Isso que estamos tentando mudar. Na estrutura propriamente dita, definimos melhor o papel da diretoria geral, criamos uma diretoria jurídica e uma secretaria executiva, para ajudar na gestão.

C-se - O jornalismo sofreu alguma mudança?

Tereza Cruvinel - Não, nada muda no jornalismo.

C-se - E na TV Brasil, como foi o primeiro ano de funcionamento?

Tereza Cruvinel - Vou fazer um balanço rápido da TV Brasil. Ela também chega ao final do ano em uma situação muitíssimo melhor. No ponto de vista de programação, este ano nós lançamos Revista Brasil, Caminhos da reportagem, De lá pra cá, Três a um, Bossa Nova, Amálgama e Tal como somos. São sete programas novos, sem contar os dois telejornais, que dá um total de nove. Então nós chegamos ao fim do ano com nove programas novos e ainda podemos lançar mais alguma coisa.

C-se – Pode falar um pouco mais sobre a programação?

Tereza Cruvinel - Ainda tem muita programação da TVE na grade. Trocar 20 horas de programação não é fácil em qualquer televisão, muito menos no setor público. Para produzir em casa, nós temos dificuldades com o sucateamento dos equipamentos. E para contratar parcerias, com produtoras independentes, tem todo um procedimento burocrático. Tem regulação, licitação, essas coisas todas que tornam o processo mais complicado. Esse ano nós gostaríamos de ter feito mais, mas não foi possível porque nós estávamos nos estruturando para ter melhores condições. Para as produções próprias, estamos realizando uma grande licitação de equipamentos de produção e transmissão. E para a contratação de parcerias, estamos criando novos procedimentos jurídicos para tornar o processo de contratação mais simplificado.

C-se – Qual o valor dessas licitações?

Tereza Cruvinel - Elas devem superar R$ 100 milhões.

C-se - Vocês estão pensando em produzir programação nova em São Paulo, não é?

Tereza Cruvinel - Primeiro nós vamos chegar com a nossa programação lá. Depois, num segundo momento, vamos ter produções em São Paulo. E o primeiro produto tem que ser, claro, um telejornal local.

C-se – Tereza, muito se fala sobre a falta de cobertura da TV Brasil. Esse problema realmente existe?

Tereza Cruvinel - A TV Brasil tem apenas quatro canais abertos próprios. Ela nunca foi uma rede, como se fala. A TV Brasil é carregada obrigatoriamente por todos os canais por assinatura. A TV Brasil também é exibida pelas bandas C, que alcança 50 milhões de brasileiros que vêem televisão por parabólicas. Também entramos na programação das 24 emissoras educativas e universitárias que são nossas parceiras na Rede Pública de Televisão. Para 2009, estamos solicitando 39 canais de retransmissão ao Ministério das Comunicações. Eu acredito que serão concedidos porque a lei nos assegura essa prioridade. São canais que nós vamos instalar em grandes e médias cidades. Analógicos, abertos. Não vamos cobrir capitais. Demos prioridade às cidades onde a implantação da TV digital ainda vai demorar. A seleção foi minuciosamente estudada, levando em consideração lugares onde a gente não tenha transmissão e a Rede Pública não chega.

Nessa sexta-feira, dia 28, no Palácio do Planalto, estaremos assinando um protocolo com o Senado, com a Câmara, com o STJ e com o Ministério da Educação. Todos esses poderes têm redes digitais a montar. Com isso, nós vamos compartilhar a infra-estrutura para fazer a rede digital no Brasil. Então, são cinco parceiras para rachar os custos. Isso reduz significativamente os custos de implantação da nossa rede digital.

Queria que as pessoas soubessem como as redes comerciais trabalharam para se transformarem em rede. Fazer rede não é assim não, é um longo processo. Para as TVs comerciais não é fácil. Muito menos para uma TV pública que tem só quatro canais próprios. Agora, no ano que vem, com as 39 retransmissoras, teremos uma realidade melhor. E vamos cobrar que as TVs por assinatura cumpram plenamente a lei, coisa que elas não fazem. Nem todas estão carregando o sinal da TV Brasil.

C-se – Um ponto que é muito criticado é a audiência. Como a emissora enxerga essa questão?

Tereza Cruvinel - A natureza da nossa programação é diferente. Você leva muito mais tempo para fidelizar o telespectador com uma programação como a nossa. O cara que gosta de cinema nacional, ele começa a freqüentar a Faixa de cinema. O infantil, por exemplo, é muito bem visto. Fidelizar cliente, com uma programação como a nossa, é muito difícil, mas nós temos absoluta convicção de que não vamos fazer concessões na qualidade da programação para ganhar audiência.

C-se - Você falou que nesse primeiro ano a EBC passou por algumas dificuldades. Você pode destacar algumas delas?

Tereza Cruvinel - Primeiro foi a própria lei, num ambiente de muita incompreensão do que fosse TV pública, que chegou a ser chamada de TV Lula, Lula News. Ignorâncias misturadas com má-fé. Alguns não sabiam, outros não queriam entender. Então, foi um período muito difícil. Outro foi o momento que precedeu a incorporação da Radiobrás, que só aconteceu em 12/06. Sem isso, nós não tínhamos um centavo próprio. Outro momento difícil foi a saída de Orlando Senna. Ele saiu porque apontou grandes dificuldades de gestão que realmente existiam. E o momento do caso Luiz Lobo, que foi julgado pelo Conselho Curador. O Conselho constatou que o nosso telejornalismo é tecnicamente correto e politicamente isento. E durante todo o ano a gente sofreu com a Anatel para colocar o canal de São Paulo no ar. Isso sem falar nos problemas burocráticos, como contratação, licitação, coisas assim. Mas as dificuldades maiores foram essas.

C-se - Por falar em licitação, como está a escolha da empresa que vai produzir a Revista África?

Tereza Cruvinel - Uma produtora recorreu porque não apresentou os documentos necessários na época certa e isso gerou um atraso. Nós ainda vamos fazer a Revista América Latina, mas vamos fazer a África primeiro.


*

Segunda Parte

"A lei engessa", lamenta Tereza Cruvinel

Sérgio Matsuura, do Rio de Janeiro


Na segunda parte da entrevista com Tereza Cruvinel, a presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) lamenta que poucos planos tenham sido botados em prática no primeiro ano, já que existe um "engessamento" - a empresa depende de licitações e leis para realizar mudanças e fazer acontecer.

O ano de 2009, segundo ela, é ideal para concurso, já que não será eleitoral.

Leia a segunda parte da conversa com Tereza Cruvinel.

C-se - Quando o Orlando Senna saiu, ele falou muito do engessamento. A EBC continua engessada?

Tereza Cruvinel - Engessamento são essas coisas, mas nós já “desengessamos” bastante a empresa. Nós estamos criando a diretoria jurídica, ocupada pelo doutor Luiz Henrique Martins dos Anjos, um advogado da União altamente qualificado. Estamos criando mecanismos que facilitem isso que ele chamava de engessamento. A lei engessa. Eu também poderia ter ido embora, porque ela era realmente muito engessada. Eu preferi ficar. Então o que a gente tem feito? Construído mecanismos de gestão, mecanismos jurídicos que nos tornem mais ágeis.

Nós conseguimos aprovar um decreto criando um regimento mais simplificado de compras, que já nos dá mais agilidade. Nós estamos regulamentando alguns artigos da nossa lei. Nós queremos regulamentar a contratação de programas por pitching. É preciso combinar legalidade com agilidade. Isso que é “desengessar”. Se fosse fácil fazer a TV pública ela já existiria no Brasil há muito tempo.

C-se - No primeiro ano foram aplicados R$ 350 milhões. Para 2009 vocês já têm uma verba prevista?

Tereza Cruvinel - A gente tem R$ 350 milhões reservados no orçamento que o Governo enviou para o Congresso, mas a gente não sabe o que o Governo fará diante da crise internacional, se ele vai fazer cortes orçamentários. Se houver, pode nos atingir. Mas não é nada que vá ameaçar o funcionamento da empresa. Os cortes são lineares, não específicos para a TV Brasil ou para a EBC. O que pode acontecer é a gente não conseguir fazer tudo o que queria no ano. E nós temos que buscar mais parcerias com o setor privado, nós temos que nos virar. Não podemos ficar só esperando o Governo.

C-se – Como funcionam essas parcerias com o setor privado?

Tereza Cruvinel - As parcerias são feitas com base na Lei Rouanet. Nós temos, hoje, algumas parcerias, mas precisamos avançar mais. Agora estamos com um projeto com o Sesi sobre um programa novo. Em 2009 nós vamos lançar o programa Imagens do Brasil, que não foi possível lançar esse ano. A gente espera que o setor privado invista muito nesse fundo porque é um fundo para financiar produções independentes para a exibição na TV pública.

C-se – A verba deste ano já foi toda empenhada?

Tereza Cruvinel - Você tem três rubricas no orçamento público: pessoal, custeio e investimento. Pessoal, gasta-se, porque é o pagamento de folha. Custeio, nós já estamos com o nosso orçamento completamente esgotado, tendo até que deixar alguma coisa para o ano que vem. Agora, nós reservamos R$ 100 milhões para licitação. Essa que está em curso e esperamos conseguir concluí-la para gastar esse dinheiro e termos uma execução orçamentária muito boa. Execução orçamentária boa é aquela que você consegue gastar, corretamente, legalmente, mas consegue gastar.

C-se – Esse ano os funcionários fizeram uma greve. Como foi resolvido esse problema e como está sendo a discussão em torno do Plano de Carreira?

Tereza Cruvinel - A greve foi desnecessária, talvez um problema mais de comunicação do que um conflito propriamente dito. Quando tudo foi explicado, os funcionários voltaram a trabalhar imediatamente. Havia uma sobreposição de discussão de implantação do Plano de carreiras com a data-base. Separamos, negociamos e fizemos o acordo. O plano de carreira nós resolvemos discutir mais porque existem algumas questões que os funcionários não aceitaram bem. A idéia é que o plano aproxime mais os salários dos nossos funcionários com os do mercado. Agora ele não vai mais ser implementado este ano. Nós ainda vamos discutir alguns aspectos dele. Um plano de carreira é uma coisa duradoura e não pode ser feito assim. Se há coisas a discutir, vamos discutir.

C-se - Como está a situação dos funcionários da Acerp?

Tereza Cruvinel - A Acerp é uma organização social do terceiro setor. Não é Estado. Logo, ela não pôde, por força de lei, ser absorvida pela EBC como foi a Radiobrás. Agora, a situação deles está resolvida de forma estável. Não existe razão para se falar em demissões em massa. Não há nenhuma ameaça à estabilidade dos servidores. O contrato de gestão que mantém a Acerp funcionando será renovado agora em dezembro.

C-se - Existe alguma previsão de concurso público ou contratação?

Tereza Cruvinel - A EBC deve fazer concurso em 2009. Não sei quando, nem para que cargos, mas certamente ela precisará. Nós estamos expandindo, com a criação da sede de São Paulo. E o jornalismo carece de mais recursos humanos. Estamos criando programas novos e parte deles também será feito em São Paulo. Então, é possível que haja concurso em 2009, até porque é um ano bom para fazer concurso por não ser eleitoral.

C-se - Tereza, como foi a sua adaptação? Você escrevia para um jornal, de grande circulação, e agora está na presidência de uma empresa pública.

Tereza Cruvinel - Eu sinto saudade da televisão. Eu faço pouco vídeo. E tenho muita saudade de escrever. Mas às vezes eu faço algumas coisas. Escrever não tenho podido, a não ser documentos internos. Nas eleições eu fiz comentários e amanhã vai ao ar o Três a um com o Fernando Henrique de que eu participei. A gente faz alguma coisinha para matar a saudade. E na transição o jornalismo me ajudou muito, porque eu aprendi como funcionam as coisas, tanto no setor público como no privado. E já aprendi muito sobre engenharia, transmissão. Foi tudo muito rápido. Agora, continuo sendo essencialmente jornalista, mas eu acho que estou sendo uma boa executiva.

C-se - Para finalizar, qual o grande desafio para o ano de 2009?

Tereza Cruvinel - Na TV Brasil, particularmente, continuar avançando com a programação. Conseguir realizar todos os programas que não pudemos fazer esse ano. Nós temos muitas idéias, mas a gente precisa realizá-las. No aspecto de cobertura, ver se a gente consegue ampliar a nossa presença no Brasil. Agora, para a EBC como um todo, nós precisamos de um salto tecnológico. Nossa situação de tecnologia, em todas as áreas, é muito precária. Essa é a nossa grande deficiência.

Arte, política e mercado

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Por João Villaverde

Eu acho que não se pode falar de cultura sem se falar de política. E não se pode falar de política sem se falar das liberdades individuais. Ou sem se falar do clima no qual se cria a cultura. É mais importante, me parece, do que discutir as questões relativas ao processo econômico ou ao processo de censura especificamente. Aquilo que se vive, o cotidiano mesmo. Quer dizer, a cultura entendida como o sentido mais amplo das relações sociais e do processo da criatividade humana num determinado país, numa determinada época.
Leon Hirzman, 1975

O fim da repressão, da censura e da ditadura militar em 1985 aplacou os movimentos políticos e as artes de uma maneira que a sociedade até hoje não se levantou.

Os anos 1990 trouxeram novos ideais, com Collor e Fernando Henrique Cardoso. Agora, o movimento era de inserir o Brasil no mundo moderno. Como? Passando as instituições do Estado para mãos privadas, ou simplesmente abolindo a participação pública nas artes. Sob Collor a Embrafilme, a Funarte e toda participação do Estado nas artes foi desmantelada. Se isso pode ter sido benéfico para a liberdade de expressão desvinculada do financiamento estatal, criou um movimento contrário: agora se está em mãos de fundos de investimentos, nacionais ou estrangeiros, ou de galerias e colecionadores privados.

Sob FHC foram criadas as leis de incentivos fiscais concedidos pelo Estado para que empresas privadas ou públicas invistam em artes. No campo audiovisual e no teatro, o jogo ficou reduzido ao financiamento de empresas (basicamente instituições financeiras), aproveitando o abatimento de impostos previstos pelo Estado para a distribuição em larga escala. Nas artes plásticas esses agentes funcionam como compradores, enquanto a produção é financiada por colecionadores (por vezes, as mesmas instituições financeiras) ou por galerias. A centralização do acesso – tanto do produtor quanto da sociedade em geral – ficou ainda mais concentrada, num modelo mais elitista que o vigente anteriormente.

E estamos falando de um país que privilegia a camada de renda mais alta da sociedade há 508 anos.

Historicamente, as artes plásticas sempre foram um feudo da burguesia “esclarecida” (leia-se endinheirada), que tinha acesso à cultura dos países ricos, podendo importar valores e obras para cá. Os primeiros movimentos nacionais nesse campo foram os modernistas das primeiras décadas do século XX, seguidas do movimento concretista dos anos 50. Mas a primeira arte genuinamente nacional no campo das artes plásticas foi o movimento cultural dos anos 60 e 70, que gerou a defesa da cultura nacional, das características do povo e das disputas políticas internas. Foi esse movimento que foi esquecido tão logo a abertura política começou a ser desenhada, ainda no fim dos anos 70.

É preciso ter em mente o processo histórico para poder discutir os novos artistas e entender o porquê da arte ser como ela é.

Não há uma criação estética relevante no país. Mesmo se atendo ao aspecto simplista das aparências, os artistas de hoje se parecem muito com os jovens americanos: tênis All-Star, calças justas ou bermudas largas, camisetas pretas justas ou coloridas com inscrições em inglês, óculos escuros e bonés. Isso não é uma crítica, mas uma constatação.

O país dos pescadores, dos índios, dos negros, da favela, dos 40 milhões que dependem dos R$ 95 mensais (quantia máxima dos benefícios do Bolsa Família) repassados pelo Estado para comer, do frevo, do samba, etc., é ignorado, como de costume.

Há duas semanas, na quarta-feira 19, conversei com o artista plástico Rodolpho Parigi, de 31 anos. O Rodolpho pertence a novíssima geração de artistas plásticos do mainstream brasileiro. Estudou na FAAP, uma das mais caras faculdades da América Latina. Contou que, no primeiro ano (2003) eram 30 alunos na sala. Quando se formou, no ano passado, sobraram ele e mais quatro. Mas não era uma questão de grana. Rodolpho era o único bolsista entre os que entraram no mesmo ano. Era uma questão de paixão pelo trabalho, pelas artes.

Aliás, um parêntesis. Isso é absolutamente normal nos cursos da FAAP. Muito caros, a concorrência é pequena. Acaba atraindo, em sua maior parte, o inúteis endinheirados que não tem preocupação alguma com o futuro. A renda tá garantida. Escolhem o campo das artes pelo deslumbramento, não pela emoção. Abandonam tão logo percebem que a coisa, antes de pragmática é radical. Viver de arte no Brasil não é fácil. Mesmo para os mais ligados ao poder. Fecha parêntesis.

Rodolpho surgiu em 2006, quando iniciou sua série de trabalhos "apropri_ação", pintando sempre em cor preta, paredes brancas. Começou a ser contratado por colecionadores e galerias para fazer o trabalho. E a mudança de patamar veio no fim do ano, quando Bernardo Paz - famoso colecionador, casado com Adriana Varejão - adquiriu duas obras suas.

"A partir daí foi uma mudança total. Passei a ser contactado por diferentes galerias, colecionadores, comecei a ter horários, coerência de discurso, assistentes...". Rodolpho entrou para o mercado. Seus trabalhos, hoje, tem o preço mínimo de R$ 20 mil. Desses, 50% ficam com a galeria. Ele agora se prepara para sua primeira exposição individual, em fevereiro do próximo ano.

Durante a conversa ele disse estar lendo um livro sobre cores e política. Ele ficou impressionado com a idéia de que escolhemos a cor de nossas roupas a partir de nossos ideais sociais e políticos. Aproveitei a deixa para perguntar sobre seu trabalho, se ele é político ou não.

"Não, não é. Minhas influências são todas sexuais. Aliás, adoro o fato de meu trabalho ser extremamente comercial. Mas não posso ser um vendido, perder minha postura de artista por causa do mercado. Ao mesmo tempo, o mercado existe. Tenho de levar isso em consideração". O dilema fica claro.

E o país segue, sem que haja uma tendência de crítica ou contestação política diante do mundo em que vivemos. A popularização das artes é necessária, mas antes é preciso resolver os problemas imeadiatos. Afinal, é muito descolamento social fazer um desenho bonito enquanto os serviços públicos definham há séculos.

27 de novembro de 2008

Exercício para escrever como Santayana n.1

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Por Miguel do Rosário

Tenho procurado ser elegante. Realizar uma crônica política culta, irônica, e, valendo-me de minha privilegiada posição de blogueiro independente, tornar-me um sereno e temido crítico da imprensa corporativa. Meu ídolo é Mauro Santayana. Há momentos, porém, em que o sangue ferve e meu nervosismo tropical torna difícil manter a fleuma britânica que tenho me imposto. Hoje está sendo assim. A divulgação dos números de emprego e dívida pública para outubro comprovam que a mídia, mais uma vez, jogou contra o país. A taxa de emprego aumentou em todos os setores, em plena crise! A divida pública caiu fortemente, em função da valorização do dólar. O Brasil está crescendo na crise!

Minha irritação aumenta quando eu percebo que os poucos empresários que vem reduzindo investimentos e demitindo, o fazem não por observarem queda em demanda, mas por estarem "menos confiantes". Ou seja, a mídia tem conseguido envenenar a atmosfera nas altas rodas industriais. E ainda quero evitar um outro pensamento, incômodo, insuportável, de que as elites poderiam se mancomunar para forçar uma recessão econômica no país, com vistas à facilitar a ascenção política da oposição.

Ontem, Miriam Leitão e Merval Pereira entrevistaram a mesma fonte: Armínio Fraga, títere tucano, gerente de campanha do Gabeira, ex-presidente do BC numa época em que os juros chegaram a quase 50% ao ano e o Brasil se vergava a crises ocorridas em qualquer ilha do Pacífico. Fraga, assim como outros de sua laia (olha a fleuma indo pro espaço...), não procuram tranquilizar a opinião pública, não procuram apontar caminhos pelos quais o Brasil, assentado em poderosos e quase inesgotáveis recursos naturais, poderá atravessar a crise financeira mundial sentindo apenas a sua "marolinha" batendo-lhe suavemente no rosto. Não, ele quer apavorar. A crise financeira foi agarrada pelo chifre, assim como foi a febre amarela, o cartão corporativo, o dossiê, o escambal, para ser manipulada politicamente.

É um jogo perigoso, todavia. Os donos da mídia, isolados em seus coquetéis, em suas mansões, em suas viagens internacionais, não percebem a mudança profunda já ocorrida na opinião pública brasileira. A internet enfiou uma faca no tórax do porco, e o bicho grita grita e grita. As pesquisas de opinião revelam o desprestígio crescente da imprensa. Ainda existe muita gente, na classe média, pendurada nas opiniões pré-fabricadas da mídia. Mas essas pessoas se vêem cada vez mais perplexas e confusas diante da realidade. A América Latina foi inteiramente colorida de vermelho, restando apenas um país, Colômbia, governado pela direita. E seu presidente Uribe, é acusado pela justiça federal de seu próprio país, de aliar-se ao narcotráfico e ao paramilitarismo.

E agora, causando uma reviravolta geopolítica no continente, um negro de esquerda assume o poder nos Estados Unidos. Um negro que prometeu dialogar com Chávez e romper o bloqueio à Cuba. Um negro que já revelou sua afinidade com o Brasil. Os segmentos mais americanizados da classe média brasileira assistem, confusos, os EUA se abrasileirarem! Os frutos da vitória de Obama ainda reverberarão por muito tempo, até porque encontram agora terreno propício, em nossa América morena e democrática, para germinarem, crescerem e se multiplicarem.

Naturalmente, a política tem seus mistérios, assim como a história, mas é evidente que as chances de José Serra se reduziram com a vitória de Obama. Serra representa a ala mais conservadora do PSDB, mais ligada ao DEM, a segmentos da opinião pública extremamanente reacionários. Serra esteve presente ao lançamento do livro "País dos Petralhas", de Reinaldo Azevedo, ícone maior da extrema-direita nacional, que havia tratado Obama com escárnio e racismo. Azevedo estava entre os que desacreditavam totalmente da possiblidade de vitória de Obama. Como é possível? Os EUA, um país de direita? De brancos? Votar num negro? Um senador democrata com o maior histórico de votações à esquerda do Congresso? Pois é. Obama ganhou e agora a base ideológica que sustenta os sonhos de Serra à presidência recebeu um duro golpe.

Sem contar que a administração Serra tem sido desastrosa. Ele consegue a proeza de, em meio a um crescimento econômico sem igual na história recente brasileira, realizar uma gestão retrógrada e incompetente, em que seus secretários de Estado, em vez de governarem, ficam batendo boca com seus próprios médicos e policiais, em praça pública.

Os professores de SP ganham mal. Os policiais ganham mal. Os médicos ganham mal. Está certo que, a nível federal, ainda existem médicos que ganham mal, mas o governo, ao menos, tem consciência disso e não vai para o jornal humilhar seus próprios funcionários, como fez um secretário de Serra, que debochou do médico Davi de Lacerda, afirmando, em carta enviada ao jornal Folha de SP, que ele havia dito "gabolices sobre sua formação no exterior, do tipo ´venci nos EUA´". Ora, que mesquinhez! Em primeiro lugar, isso é abuso de poder! Um secretário de Estado não pode usar o seu cargo e seu poder para humilhar um jovem médico. Poderia ter respondido ao artigo de maneira protocolar, educada, mas não usando esse tom jocoso, desrespeitoso.

Enfim, chega. Já perdi as estribeiras. Termino com meu lema. Delenda Serra.

Gutemberg revisited

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Por Miguel do Rosário

E pensar que um dos três criadores do Google, antes que a empresa fosse fundada e se tornasse um império, preferiu sair da sociedade pra terminar o terceiro grau! Sempre dou risada quando lembro dessa história. É uma lição de vida. Quando vejo essas polêmicas mesquinhas sobre se fulano fez ou não faculdade, recordo-me das figuras com quem cruzei em meus anos de labuta universitária. De uma coisa tenho certeza, boa parte sai dali ainda mais ignorante do que entrou, porque se tornam mais arrogantes, qualidade que, perdoada em casos excepcionais (no Mirisola, por exemplo), manifesta-se insuportável em pessoas com escassa vocação para as literatices e sacanagens da vida.

Sinto-me, entretanto, bem mais seguro. Antes, ainda hesitava sobre o valor da internet para a criação literária. Depois de quase 800 posts somente nesse blog, tanta diversão, amigos, cervejas e livros, não posso continuar recusando o amor da minha vida. Sim, parece clichê de holliwood. O sujeito passa o filme todo sem perceber que sua melhor amiga é, na verdade, a sua verdadeira cara-metade, a sua paixão mais profunda.

É que as mudanças ainda não chegaram ao inconsciente, nem dos escritores, nem dos leitores, e muitos menos da imprensa, ainda presa a dogmas conservadores. Agora sei, contudo, que a internet se tornará, mais breve do que se espera, o principal suporte para a literatura e para o jornalismo, em todo mundo.

As próprias diferenças entre os estilos tendem a se diluir. Quando leio um texto, procuro sua poesia externa e interna, e julgo seu valor estético juntamente com sua densidade política. É a internet mudando paradigmas de produção e consumo da literatura. Os leitores do meu blog e de outros procuram-me também pela forma como eu escrevo, pela diferença, porque sentem que os novos conteúdos políticos da modernidade exigem formas originais de expressão.

Não é preciso reinventar a roda. As diferenças ocorrem nos detalhes, em maneiras novas, curiosas, de articular os verbos, e também numa postura ética singular, muito mais autêntica, estranha, pura, agressiva.

Jornalistas convencionais ficaram presos a esquemas obsoletos de pensar e expressar as novas realidades econômicas e políticas. Essa é a decadência notória de um Clóvis Rossi, com seu decadentismo senil e, paradoxalmente, tão naíf. Cínico... e naíf.

Inexistem mudanças totais, naturalmente, até porque se fizermos uma volta de 360 graus, voltamos para o mesmo lugar. As grandes mudanças começam a partir de pequenos desvios.

Já sofri muito, porque artistas sofrem muito. De vaidade, sobretudo. Ansiamos por reconhecimento, como vira-latas carentes seguindo estranhos nas ruas. Esse é o ponto-fraco do artista, até mesmo dos bons artistas. Tive sorte, no entanto, de conhecer artistas autênticos, totalmente desinteressados de fama, dinheiro ou glória. Interessados somente em seu amadurecimento como "técnicos" da arte. Loucos, gênios, criativos. Mas técnicos.

A constatação de que a internet é, maravilhosamente, o grande canal do futuro, permitiu à minha vaidade respirar aliviada. É que eu andava angustiado com meus passeios por livrarias e sebos, vendo milhares e milhares de títulos perdidos nas estantes, anônimos, tristes, mortos. A internet oferece uma nova relação entre leitor e autor. Uma relação mais democrática, mais transparente, mais autêntica. Não teremos mais escritores conhecidos apenas por suas belas carinhas e sorrisos cativantes. O escritor, assim como um jogador de futebol, ou um músico, terá que mostrar seu talento escrevendo, ao vivo, na frente de seus leitores. Claro que isso não significa nada se o escritor não tiver talento, gênio e vocação. Eu sou, particularmente, adepto da teoria da excepcionalidade do artista. Essa história de que todo mundo pode ser artista é uma grande besteira. É o mesmo que dizer que todo mundo pode ser um grande jogador de futebol, ou um grande neurocirurgião, ou um grande político. Os homens são diferentes, radicalmente diferentes um dos outros, e seus talentos, portanto, também o são.

O fato é que ainda há escritores que têm prestígio somente entre "iniciados". Seus livros, vendidos por mais de R$ 40, restringem-se a um mercado de "luxo". É quase uma literatura "daslu". A internet rompe também esse apartheid, permitindo que todos tenham acesso, gratuitamente, aos textos mais modernos e sofisticados produzidos no mundo. Muitos não resistirão à essa luz, outros terão sua energia e criatividade revigoradas.

No caso da imprensa, creio que ela poderá implodir em fragmentos independentes. Cada jornalista terá seu próprio blog especializado, onde discorrerá sobre economia, ou cultura, ou política, com a autenticidade que somente um relativo grau de independência permite. Haverá grupos poderosos, que poderão comprar e contratar grande números de blogueiros especializados, mas os independentes, por uma questão numérica simples, serão sempre maioria.

Lendo o Globo de hoje, senti comiseração pelas matérias sobre Hugo Chávez, tão notoriamente tendenciosas que, mesmo para um feroz conservador, representa um tóxico informativo que resulta apenas em miséria intelectual.

Um dos valores mais nobres da internet, porém, foi ter ressuscitado o debate ideológico, que se fingia de morto desde o fim da União Soviética e a tentativa de convertê-lo em monólogo neo-liberal. Sem debate ideológico não há política, e sem política não há democracia, nem sequer civilização.

Naturalmente, os atores ainda precisam amadurecer. Lembro-me de um jovem anarquista de periferia que pregava o fim do voto universal, porque acreditava somente "no poder direto do povo". Quebrei a cabeça para imaginar como esse povo poderia exercer, democraticamente, qualquer espécie de poder, sem a ferramenta mais revolucionária e humanista jamais inventada, o voto? Seria levantando os braços? Seria no grito? No primeiro caso, teríamos severos problemas de escassez de desodorantes. No segundo, ficaríamos todos surdos.

Por estas e outras razões, pretendo um dia, e aqui mesmo, escrever algumas teorias a respeito de um novo anarquismo. Quando satanizou o Estado, o anarquismo moderno europeu tinha como referência o absolutismo monárquico e o czarismo russo. Mesmo com a implantação das democracias, não havia ainda o voto universal. Mulheres, pobres, analfabetos, e demais excluídos, ficaram de fora, por séculos, do banquete democrático servido na Europa e nos Estados Unidos. Os negros americanos, para darmos um exemplo interessante, só conquistaram plenos direitos civis a partir da década de 60.

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Sobre as cotas raciais, eu sou a favor. Mas acho que já se podia discutir um limite de aproximadamente 10 anos para o seu desmantelamento.

25 de novembro de 2008

Labaredas da liberdade

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(Bispo do Rosário)


Por Miguel do Rosário

Como dizia Cazuza: senhoras e senhores, trago boas novas, eu vi a cara da morte e ela estava viva. No meu caso, porém, não foi a morte. Foi o mundo. Quer dizer, no caso de Tereza Cruvinel, presidente da TV Brasil. O mundo está vivo, afirmou a valorosa guerreira, recrutada por Lula para defender a tv pública nacional, em entrevista gentilmente concedida, ao vivo e a cores, ao escritor Miguel do Rosário. A América Latina vive um momento muito bom, com seus governantes adotando políticas para superar injustiças sociais históricas, observou Cruvinel, e Jorge Mautner, também presente, completou: A eleição de Obama é a eleição de um brasileiro - o Brasil está no poder.

Não uso aspas porque estou citando tudo de memória. Tentei anotar mas, sobretudo no caso de Mautner, não dá. Agora vou imitar o Juruna, e andar sempre com gravador no bolso. Mautner, divertido e brilhante orador, disse mil coisas geniais, e numa delas, referindo-se às mudanças que uma tv pública forte e autêntica pode trazer à cultura brasileira, usou a expressão "labareda da liberdade", título desse artigo.

Onde anda minha Tereza? Há pouco mais de um ano, Cruvinel assinava a principal coluna política do jornal O Globo, e foi mais um daqueles (ou daquelas) que não resistiram à pressão chauvinista, vinda dos últimos andares das empresas de comunicação, para alinhar-se aos patrões na virulenta briga política e partidária contra o governo Lula.

O problema do jornalista que trabalha para a grande imprensa é que ele não trabalha para uma empresa só. Ele presta serviço para um conglomerado de empresas que partilham a mesma ideologia. Comprar uma divergência política com o Globo, portanto, é assinar um atestado de óbito na imprensa corporativa escrita. Os canais de tv aberta, por viverem uma concorrência muita agressiva com a Globo, ainda abrem espaço para jornalistas rompidos com a família Marinho. Desde que eles se comportem direitinho, obviamente.

Eu lembro da coluna da Tereza no Globo. Percebia-lhe, nas entrelinhas, a angústia de se ver envolvida numa maquiavélica trama azul e amarela para derrubar Lula. Cruvinel não defendia o governo Lula em suas colunas. Ao contrário, atacava-o de vez em quando. Mas o fazia com uma sensatez e uma civilidade que, nitidamente, não satisfaziam a sede de sangue de um Ali Kamel, de um Reinaldo Azevedo, de um Civita, de um Mainardi. Tanto que foi vilmente agredida pelo blogueiro da Veja, em artigo racista em que usava jocosamente o termo "cabrôca" para se referir à Cruvinel, que é de fato uma bela e atraente morena, uma autêntica mulher brasileira. Azevedo tem um enorme talento para humilhar pessoas, usa-o constantemente, e é pago regiamente para fazê-lo. Eu a conheci virtualmente, a Tereza, nesta época. Escrevi um artigo defendendo-a, ela me agradeceu por email, e trocamos algumas mensagens.

Nada como um dia após o outro. Enquanto Reinaldo Azevedo é hoje um blogueiro de extrema-direita desprezado por 99% da opinião pública, inclusive por jornalistas conservadores, como Luis Nassif, e Mainardi foi desmascarado como lobbista de Daniel Dantas e já tem um pé na cadeia, a história, essa adolescente incorrigível, elegeu um negro socialista para comandante supremo dos Estados Unidos, a "cabrôca" preside o que será, em breve, a maior tv pública das Américas, e Lula foi reeleito em 2006, com uma vitória esmagadora, contando hoje com mais de 80% de aprovação popular!

E eu ali. E o Jorge Mautner, que também participava da entrevista. Mautner, como todo coerente intelectual de esquerda, é um fanático defensor da tv pública. É essencial, é uma necessidade absoluta, disse o escritor-músico-intelectual.

Cruvinel mostrou-se visivelmente aborrecida com matéria publicada ontem no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo. Meus leitores, que são macacos-velhos em imprensa golpista, já podem imaginar o teor da matéria. O título é algo assim: TV de Lula não engrena, e traz informações totalmente distorcidas sobre audiência. Cruvinel explicou que a matéria trazia informações sobre audiência apenas no município do Rio de Janeiro, e que existem graves falhas nas metodologias de produção estatística de audiência no Brasil, até por causa das ultra-novas tecnologias de difusão e captação de imagens. Ela explicou que existem mais de 50 milhões de brasileiros que assistem tv, inclusive a TV Brasil, via antena parabólica, e que esses dados não constam das convencionais grades de audiência. A TV Brasil, além disso, por lei, consta obrigatoriamente nas tvs por assinatura - apesar de algumas não cumprirem a norma. Esses dados também não constam dos números usados pela Folha para desprestigiar a TV Brasil.

O jornalista da Folha, naturalmente (pela Folha ser o que é), não procura compreender as dificuldades inerentes a uma TV recém-criada. Cruvinel explicou que a TV Brasil, criada por medida provisória há um ano, só foi oficialmente implantada em março, após complicadíssimas votações no Congresso e, sobretudo, no Senado, onde a oposição partidária, com apoio histérico da mídia corporativa (Globo à frente), tentou de tudo para impedir a sua existência. A incorporação da Radiobrás ocorreu somente em junho e só a partir daí a TV Brasil contaria com verba própria.

Por fim, houve dificuldades enormes para entrar em São Paulo. Claro. Dá até vontade de rir. Misteriosamente, o estado mais industrializado, informatizado, moderno, do país, está sendo o último a receber a programação da TV Brasil. Mas, enfim, a TV Brasil está entrando em São Paulo a partir das próximas semanas.

Cruvinel explicou, em suma, que somente agora a TV Brasil superou os primeiros obstáculos técnicos, jurídicos, políticos, financeiros, e pode se dedicar ao que seria a sua missão primordial: produzir e distribuir programas culturais inteligentes, autênticos e originais. É o que está fazendo. Nas próximas semanas, estréiam programas de grande qualidade, dirigidos por alguns dos intelectuais e artistas mais importantes do país: Marçal Aquino, na literatura; Marcelo Gomes, no cinema; Felipe Ehrenberg nas artes visuais; e o grande Jorge Mautner, na cultura em geral.

Perguntei ao Mautner se ele achava que a eleição de Obama pode trazer mudanças positivas para o Brasil e significar mudanças geopolíticas. Claro, ele disse, e mudanças que irão colocar o Brasil na liderança do mundo. A vitória de Obama é uma vitória nossa. Mautner lembrou que Obama disse, na primeira entrevista a um repórter tupi: "eu sou brasileiro". Ele é um vira-lata, um autêntico "moreno", que reúne criatividade, coragem e prudência, como todo brasileiro que se preza.

Essa mudança geopolítica - a eleição de um negro de esquerda nos EUA - provocará mudança ideológica no status do Estado, e isso naturalmente beneficiará órgãos estatais, como a TV Brasil, que terão mais prestígio.

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Notícia recente publicada em todos os jornais informa que Obama contratou, como assessores próximos, intelectuais de um conhecido "think tank" esquerdista, e que já sinalizou que adotará as idéias e projetos desse instituto. Queria ver a cara de Olavo Carvalho, nosso não tão querido filósofo nazista, ao ler essa bomba. Ele saiu do Brasil, fugindo do Lula, e refugiou-se em Washington, crente que lá estaria protegido dos malditos esquerdistas, e eis que os malditos tomam a Casa Branca! Olavão, eu já disse alhures, deveria urgentemente buscar abrigo na Polônia, presidida por dois gêmeos retardados, psicopatas e conservadores.

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Cruvinel explicou que a tv pública implantará no Brasil um sistema de multicanais, que possibilitará a criação de tvs legislativas para cada câmara de vereadores de cada município brasileiro. Será analogicamente mesmo, num primeiro momento, distribuído pelas vias tradicionais.

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A TV Brasil, nos últimos meses, fez grandes investimentos para re-estruturar e melhorar a qualidade das imagens transmitidas. Construiu torres novas nas grandes cidades e estabeleceu dezenas de parcerias com retransmissoras de todo país, públicas e privadas.

Em 2008, a verba da TV Brasil foi de R$ 350 milhões. Cruvinel explicou que os recursos são gastos de três maneiras: pessoal, custeio e investimento. A parte de pessoal e custeio já foi inteiramente gasta. Eles reservaram R$ 100 milhões para os investimentos no conteúdo. Em 2009, a verba destacada é novamente de R$ 350 milhões.

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Algumas idéias anarquistas que o papo com Mautner me inspirou:

1) Proibição de bancos privados. Deveria existir somente o Banco do Brasil. O BB rouba a gente mas pelo menos o dinheiro é usado para saúde e educação. Para onde vai o dinheiro do Itaú? Do Bradesco? Para conta de playboys otários. Banco privado faz mal ao próprio capitalismo, porque rouba dinheiro da maioria dos empresários, agricultores, assalariados, artistas. A pessoa, se quisesse, poderia abrir conta num banco estrangeiro. Mas a União deveria decretar o monopólio estatal do sistema financeiro no país, e proibir o lucro do banco oficial. O Banco do Brasil, por lei, não poderia cobrar nada de seus clientes. O banco já obtém lucro suficiente apenas movimentando o dinheiro guardado. Não precisa cobrar juros. Ainda mais um banco oficial. A China faz isso e é por isso que a China cresce 15% ao ano. E isso não é comunismo. Ao contrário. Os bancos privados são os maiores adversários do capitalismo, porque eles drenam o dinheiro para si mesmos, dificultando a circulação do capital pelas atividades econômicas. Não sei se Marx percebeu ou disse isso. Eu digo. Bancos privados são como senhores feudais do capital. Eles travam a circulação do dinheiro. Os únicos bancos do mundo deveriam ser os próprios governos, pois são os únicos entes que podem ser fiscalizados pela população. A civilização humana não pode depender de instituições cujo funcionamento e hierarquia não são democráticos. O desespero levou governos do primeiro mundo a entenderem isto. Qual foi a única solução que os governos encontraram para resolver a crise mundial? Eles compraram os bancos. Minha opinião é que os governos deveriam comprá-los todos, os bancos, pra sempre. Não faz sentido o Estado ter gasto trilhões de dólares comprando os bancos e depois se desfazer deles, criando o risco de outra quebradeira no futuro.

2) Construção de estradas que permitam o tráfego humano a pé e de bicicleta, restrição do uso de carros privados nas grandes cidades, e investimentos maciços na construção de ciclovias e calçadas decentes para as pessoas poderem caminhar melhor por toda parte.

3) Construção de duas grandes linhas férreas no Brasil, norte X sul, leste X oeste, para transporte de pessoas e mercadorias. Um trem de alta velocidade hoje é mais veloz que avião, e pode inclusive ser subterrâneo, de maneira que poderíamos ligar o norte ao sul do pais em poucas horas, criando novos fluxos de comércio que possibilitariam a geração de muita riqueza e cultura. É um investimento de trilhões de reais, e que demandaria uns cinco ou dez anos para ficar pronto, mas valeria a pena. Esse projeto poderia ser pago com o dinheiro do pré-sal.

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A polêmica dos índios

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Por João Villaverde

O Brasil é campeão em assuntos delicados levados da pior maneira possível pela imprensa, pela oposição (em alguns casos, são a mesma coisa), pelo governo, enfim. Somos pródigos. E não estou com aquele criticismo mesquinho de gente que tem nojo do país, como Arnaldo Jabor, Demétrio Magnolli, Dora Kramer, etc. Esse pessoal torce para as coisas irem mal, porque dessa forma eles tem assunto para encher o espaço que os jornais e tevês dão.

Vejamos. Temos o desenrolar da Satiagraha, das eleições municipais, as questões regionais e federais, as reuniões do G-20, a crise americana, Obama, etc. Todos os temas são tratados, grosso modo, da pior maneira possível. Falta estudo e falta um mínimo de reflexão. As coisas são recebidas de bate - pronto. E o resultado a gente vê todo dia.

Outra história que está recebendo um tratamento ridículo foi a "polêmica" criada em torno da declaração do José Gomes Temporão, ministro da Saúde, pedindo menos corrupção e mais trabalho da Funasa, a Fundação Nacional de Saúde. Foi isso.

Fizeram um carnaval. Colocaram a frase na boca do pessoal do PMDB, que logo veio pedir que o ministro voltasse atrás nas declarações. Ao mesmo tempo, o presidente da Funasa, Danilo Fortes – muito ligado a Renan Calheiros - , ousou defender que Temporão o demitisse. Alguns jornais chegaram a dizer que Lula demitiria Temporão e tudo o mais.

A Funasa é uma fundação errada que nasceu errada e tem tudo para dar errado. A idéia de tirar da Funai a assistência médica dos índios brasileiros foi um tiro no pé. Para tratar de povos indígenas, mais do que respeito, é preciso conhecer. É preciso saber tratar. É preciso saber o que pode dar certo e o que não pode. Para isso é preciso comprometimento. Não apenas dos profissionais que fazem o serviço (os médicos), mas do pessoal que solta o dinheiro e faz o treinamento. Toda a organização tem de saber trabalhar e ter comprometimento.

Não estou dizendo que a Funai tem. Teve no período em que o Mércio Gomes era o presidente, porque ele ainda conseguia contornar a enorme falta de verbas. Mas ainda assim, de uma maneira geral, o órgão de relacionamento com tribos indígenas é a Funai. Lá que estão - ou deveriam estar - os conhecedores, os antropólogos, os médicos, o pessoal de base, enfim, servidores públicos comprometidos com a missão de tratar com índios.

A criação da Funasa foi errada porque não nasceu do ideal de descentralizar a relação do Estado com os povos indígenas, criando diversas agências e fundações. Mesmo isso estaria errado. Por mais extensa que seja nossa nação indígena, os portugueses e a elite brasileira que se seguiu já fez boa parte do trabalho do "desenvolvimento econômico". Restam poucas tribos. Nesse sentido, centralizar as decisões numa Funai fortalecida parece ser o correto.

E a Funasa é uma fundação errada porque, além de mais esvaziada que a Funai, ela é quase que totalmente terceirizada para interesses partidários. É de um imobilismo atroz. Nem Godard seria capaz de filmar a lentidão da Funasa. Ele próprio ficaria entediado.

Aliás, passada a perseguição natural ao Temporão, as matérias mais recentes começam a analisar a questão como ela é, ao menos, falando de orçamento – a questão indígena ainda está fora do foco (como é de se esperar). Matéria da Folha de ontem chama a atenção para relatórios produzidos por órgãos de controle interno do governo sobre a atuação de suas autarquias.

A Funasa controla um terço dos investimentos de todo o Ministério da Saúde. Isso equivale a R$ 4,5 bilhões. Isso mesmo, quatro e meio bilhões de reais – mais que vários ministérios. A mais recente investigação do TCU (Tribunal de Contas da União) encontrou irregularidades em todos os 65 convênios auditados. Balanço feito pela CGU (Controladoria Geral da União) contabilizou prejuízo de R$ 33,8 milhões nos mais graves casos de superfaturamento e demais irregularidades identificados nos últimos três anos

Agora, mesmo seguindo a linha de raciocínio estabelecida pelos órgãos de imprensa e pelo pessoal do PMDB, não foi o fim da Funasa o que Temporão defendeu. Temporão defendeu o fim da corrupção no órgão e cobrou maior comprometimento dos servidores da Fundação.

Foi uma declaração radical peró no mucho. Mas nossos conservadores já acharam demais. E como o ministro já não goza de boa simpatia da imprensa e dos políticos - ele nem é tão ligado ao PMDB assim - iniciou-se o carnaval ridículo de forçar sua saída.

O debate sobre a Funasa está tão na praça que na terça-feira passada, índios de aldeias do Parque do Xingu (MT) ocuparam a sede da Funasa em Canarana (525 km de Cuiabá) e fizeram 12 funcionários reféns. Alguém ficou sabendo disso?

E se ficou, sabem quais são as reivindicações? 1) A permanência da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) no atendimento médico dos indígenas e 2) a criação de uma secretária no Ministério da Saúde para questões indígenas, proposta em projeto de lei do ministro José Gomes Temporão.

É consenso entre os indígenas - que são os maiores interessados nessa questão toda - que a Funasa não funciona. Ao menos não nos termos em que a situação está posta. E a opinião deles, como há 508 anos, é solenemente ignorada.

Mesmo que os formadores de opinião levassem em conta esse protesto e as reivindicações, diriam que as afirmações de Temporão sobre a Funasa eram "populistas", por irem de encontro com a demanda dos indígenas.

Aliás, os anos 2000 serão marcados no futuro pelas ciências sociais pela divisão entre “populistas” e os “gerentes”. Toda e qualquer ação de política social é logo taxada de “populismo”, como se isso fosse um palavrão tremendo. Bom mesmo é contingenciar verbas, cortando gastos e investimentos. Aí sim se ganha o tão desejado adesivo de “gerente”. Todo esse vocabulário reducionista já foi plenamente incorporado pelos nativos e é exportado para as análises feitas de políticas em vizinhos da América Latina. Por exemplo: Morales é “populista”, mas Uribe é “gerente”.

Sobre as grandes questões nacionais – a questão da assistência aos índios é apenas uma delas - o discurso da imprensa e dos negativistas golpistas que ambicionam a vida em um país de primeiro mundo já está colocado. Os fatos que se danem.

24 de novembro de 2008

Novo colaborador: Fernando Soares Campos

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Eis um novo colaborador para um blog, um antigo amigo da web, veterano combatente das trincheiras trabalhistas e divertidíssimo satirista político.


Matriciado e mal pago

Por Fernando Soares Campos

Tem dias que acordo como se estivesse saído de uma das dimensões de Matrix. Dia desses, às 4 da matina, dia clareando, depois do banho com Edith Piaf, preparei e tomei o breakfast; fui para a sacada e acendi o charuto que Breno Accioly me mandou do Mato Grosso do Sul, onde se encontra passando uma temporada com o meu amigo João Neto Chagas, o Anjo Destrambelhado. Baforei o cubano-paraguaio, meditei sobre a possibilidade de assistir aos jogos da Copa 2010 bem acomodado na cobertura do prédio onde moro, aqui no Itanhangá. A vista é boa, mas ainda não consigo avistar a costa da África do Sul; entretanto, a exemplo das bolsas de valores de todo o mundo, a maré pode baixar mais que o normal, aí é só deflagrar a Auriverde e comemorar com um churrasco ao som da musiquinha que eventualmente a Rede Globo lançar para o evento.

Mas o que tudo isso tem a ver com acordar matriciado? Acontece que, depois disso aí em cima, vim aqui, abri o pc, acessei minha conta no gmail e fui conferir as mensagens recebidas. Uma delas informava: "Presidente russo encontra-se com Lula e empresários no Rio na próxima semana". O primeiro parágrafo já nos atualiza razoavelmente: "O presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, inicia na próxima segunda-feira (24), uma visita de três dias ao Rio de Janeiro. De acordo com informações do Ministério das Relações Exteriores, o chefe de governo russo terá reuniões com empresários, com o presidente Lula e com o governador fluminense, Sérgio Cabral.".

Até aí, nada demais se não fosse o fato de que eu, até aquele exato momento, imaginava que o presidente russo ainda era o Putin (diga mesmo: num parece nome de personagem do Henfil?). E olha que sou colaborador do site da Pravda, jornal russo criado, inicialmente, por Trotsky, na Áustria, e depois por Lênin, em meio ao processo revolucionário que todos nós conhecemos, mesmo que seja como eu o conheço, de ouvi dizer.

Leio e colaboro para a Pravda (verdade), e você deve estar pensando que estou brincando, quando falo que não sabia quem era o novo presidente da Rússia. Juro que é verdade, como a tradução do termo Pravda para o português. Pelo visto, está arriscado dia desses eu tomar conhecimento de que o presidente do Brasil voltou a ser FHC ou um dos seus maquiavélicos discípulos, somente depois de acessar o Globo, a Folha de São Paulo, ou qualquer outro jornal online, que agora só embrulha peixinho de aquário virtual que minhas amigas orkuteiras costumam me enviar. Bom, aí terá sido tarde demais, pois faz muito tempo que não clico nos links que os trariam até o meu velho monitor cansado de guerra. Acho que isso, hoje, é exercício de jornalistas em busca de noticiar notícias no Observatório da Imprensa. Quanto às minhas colaborações para o OI, em geral elas se originam nas matérias que recebo diretamente de amigos, ou através da lista que o meu amigo Castor Filho, engenheiro, aposentado como eu, faz questão de manter para atualizar pessoas desligadas do mundo pós-capitalismo.

Fui ao site da Pravda a fim de conferir a notícia da sucessão presidencial na Rússia, mas dei de cara com fatos mais atualizados: "O presidente russo Dmitri Medvedev pretende visitar vários países latino-americanos no final deste mês de novembro. Esta segunda-feira (10) o secretário de Conselho da Segurança Nikolai Patruchev encontrou-se com o ministro de Assuntos Estratégicos brasileiro Roberto Mangabeira Unger para precisar os detalhes da visita do presidente russo ao Brasil, segundo informa Ria-Novosti".

Logo abaixo, uma notícia complementa as informações de que preciso para me atualizar e sentar os pés no chão depois da odisséia que vivi no Sertão Alagoano, durante a campanha eleitoral deste ano: "Cerca de 80% dos russos acreditam que o ex-presidente e atual primeiro-ministro do país, Vladimir Putin, é o líder melhor nos últimos 100 anos, segundo uma sondagem efetuada pelo Centro de Estudos da Opinião Pública (Vtsiom)". Porém, ao ler o nome do novo (pra mim, claro) presidente russo, imaginei um camarada mais ou menos com a cara de Nikita Kruschev, com o corpanzil e tudo. Resolvi conferir. Despachei o Goober, meu cavalo alado que adquiri da Wells & Fargo num leilão da New York Stock U$, e rapidinho ele estava de volta com informações "quase" precisas: Dmitri Anatoliévitch Medvedev Дми́трий Анато́льевич Медве́дев, assim mesmo, juro! E até me trouxe a folha corrida do cidadão:

Mandato:7 de maio de 2008
Precedido por:Vladimir Putin
Nascimento:14 de Setembro de 1965 (43 anos)
Leningrado, URSS
Profissão:Político, advogado e administrador

Mas desta vez o Goober ganhou apenas meio saquinho de amendoim; pois, em vez de pegar uma foto do presidente Dmitri Medvedev etc., ele me trouxe uma do governador Sérgio Cabral. Veja:



Esse Goober está ficando velho, já não consegue faturar um páreo sem a ajuda do... (como é mesmo o nome do prefeito eleito do Rio de Janeiro?)

Contudo dentro de poucas semanas o campanário da Catedral anunciará o Natal na Lapa, e eu já estou razoavelmente atualizado até o final do ano, quando, prometo, caso a Rede Globo esteja sorteando algum brinde, assistir à Retrospectiva 2008, ao apagar das luzes de 2009. Sim, porque, pelo que me consta, as de 2008 ainda nem foram acesas.

Nota de falecimento: Leonardo Martinelli, 37 anos

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Acho que qualquer texto ou discurso sobre a morte é um clichê. Pouparei-vos, portanto, disto. Anuncio aqui o falecimento de um grande amigo, Leonardo Martinelli, aos 37 anos, neste fim de semana. A causa da morte ainda não foi esclarecida, mas ao que parece foi consequência de sua vida desregrada & excessos. Leo era um grande poeta e um ser humano fascinante. Abaixo alguns links de artigos, poemas, dele e sobre ele.

1) http://www.jornaldepoesia.jor.br/lmartinelli1.html
2) http://www.germinaliteratura.com.br/livros_scomum_por_lmartinelli.htm
3) http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/11/leonardo-martinelli-1971-2008.html
4) http://www.portalliteral.com.br/artigos/lu-menezes-indica-leonardo-martinelli
5) http://incomunidade.blogspot.com/2007/05/leonardo-martinelli.html
6) http://www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/livros/0034.html
7) http://www.cosacnaify.com.br/noticias/verdadedapoesia.asp

Por fim, o blog do Leo era este:
http://maformacao.blogspot.com/

Outras informações sobre Leo:
Nasceu, estudou e morreu no Rio de Janeiro.
Formou-se em Letras/Literatura na UERJ.
Publicou um livro de poemas intitulado Dedo no Ventilador.

23 de novembro de 2008

Idéias ultrapassadas

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Uma coisa ridícula que ganhou corpo nos últimos anos é o ensino superior à distância. Ensino à distância sempre existiu. Seja por carta, fitas cassetes, VHS, etc. (aqueles inesquecíveis cupons que vinham no meio dos gibis nos anos 80), sempre existiu. Há também aqueles que são incapacitados de se locomoverem às escolas. Por exemplo, a maioria dos estudantes da Open University, no Reino Unido, é constituída por trabalhadores que têm grave problema de locomoção, trabalhadores em tempo integral, prisioneiros, etc.

Nesse sentido, de atender a demanda reprimida, me parece razoável que o Estado crie opções e escolas.

Em outros casos é terceirizar a relação humana para a interação com a tela de um computador. É diminuir um espaço já diminuto na vida de um indivíduo. Estuda-se cada vez menos, graças à rápida absorção para o mundo do trabalho. Nas faculdades privadas, os primeiro anistas já estão estagiando. Faculdade virou sinônimo de diploma. Isso é grave. E mais grave ainda é deixar o banho-maria se estender para o ensino à distância.

O governo FHC promulgou o Plano Nacional de Educação (PNE) em 2001. O PNE previa metas a serem alcançadas até 2011 (dez anos depois). E eram (são) metas ambiciosas: 30% dos jovens de 18 a 24 anos devem estar inscritos em cursos superiores, sendo que 40% das vagas devem se dar em instituições públicas. Como o governo sai dessa? Criando o projeto Universidade Aberta do Brasil (UAB) nas federais ou pela Universidade Virtual (Univesp) em São Paulo. O governador José Serra (PSDB) inclusive permitiu que até mesmo o ensino médio tenha 20% de sua carga horária à distância.

Sabe qual foi a motivação do Serra em baixar essa norma? A exigência da lei do piso salarial nacional dos professores da educação básica, em 2008, de reserva de um terço da jornada docente para planejamento e preparo de aulas, correção de trabalhos, entre outras atividades. Após o governador contestar a lei por suposto impacto financeiro, a Secretaria da Educação cogitou contabilizar os breves minutos entre aulas na reserva citada!

Pois esse homem é o grande presidenciável de 2010.

***

Na noite da quinta-feira o portal da revista Exame publicou artigo do casal Jack e Suzy Welch sobre a grave crise que as montadoras americanas estão passando. O título, que ganhou grande chamada na Uol durante toda a sexta-feira, é auto-explicativo: “A falência é a melhor solução”.

É preciso abrir um parêntesis. Jack Welch foi presidente da General Eletric (GE) e desde que deixou o cargo se tornou o papa dos livros corporativos de “auto-ajuda” de CEOs (termo amplamente massificado nos anos 90) e de dicas de gestão. Escrevendo sempre ao lado da esposa, Suzy, os Welch se tornaram a coqueluche da literatura empresarial globalizada. Todos os “líderes” americanos – e, por extensão, de todos os países colonizados culturalmente, como nós – tem livros e artigos do casal pelo escritório. Fecha parêntesis.

No artigo, o casal Welch defende um meio termo entre as idéias colocadas em debate pelos democratas e republicanos. São contra a ajuda bilionária do governo dos Estados Unidos às três montadoras à beira da falência (plano democrata) – Ford, GM e Chrysler. Mas também não aprovam a falência das três (plano republicano). Para eles, é preciso uma fusão entre GM e Chrysler. A Ford fica de fora por sua “forte característica familiar”.

O ponto positivo? “Estima-se que a fusão das duas empresas possa gerar até 15 bilhões de dólares em sinergias decorrentes da redução da capacidade instalada e de cortes de despesas administrativas em excesso - uma economia que reduziria o custo de produção dos carros e elevaria o gasto com pesquisa e desenvolvimento”. Citam também as demissões que ocorreriam, mas é pelo bom funcionamento do sistema.

A conta não fecha.

A situação é crítica nos Estados Unidos. A falência das montadoras acarretaria em demissões de centenas de milhares de pessoas, que perderiam salário e benefícios de aposentadoria e cobertura de saúde. Com isso, parte relevante do comércio de bens e serviços decairia ainda mais. Mais que isso. O baque moral seria trágico. A falência de símbolos do sistema yankee rebaixaria a capacidade de retomada.

Se optasse pela ajuda do governo – estimada em US$ 25 bilhões – estaria onerando ainda mais o contribuinte americano, criando um passivo que estouraria lá na frente. Os tão falados “CEOs” das companhias seriam “desculpados” e, mesmo que demitidos, já embolsaram todos os lucros gordos do passado. As companhias teriam de mudar completamente de rumo, optando por linhas de montagem mais enxutas e competitivas, com modelos de carros mais econômicos e condizentes com a situação econômica e os preços da gasolina.

A idéia de fusão, defendida pelo casal Welch, apaziguaria a situação da moral, criando uma grande montadora americana, mas acarretaria em demissões – pelos cargos repetidos nas duas empresas – e não resolveria a questão do modelo ultrapassado de automóveis produzidos. Além do mais, boa parte das plantas está pulverizada em outros países, aproveitando uma mão-de-obra mais barata.

Vivemos o ocaso do sistema de organização econômica antiga. Mas também o ocaso dos “gênios” e “estrategistas” antigos. A literatura de auto-ajuda corporativa também terá de mudar.

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Hoje é um dia histórico para estar no Rio. O país do futebol pode assistir ao nascimento do primeiro clube a conquistar seis vezes o título de campeão nacional.

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Da série de relançamentos de grandes cineastas brasileiros, a versão restaurada de "São Bernardo" (1973), do Leon Hirszman, em DVD, está imbatível. O longa pertence a uma fase de filmagem de grandes histórias nacionais, ficcionais ou não, como o ótimo "Os Inconfidentes" do Joaquim Pedro (73) e, mais abaixo, "Toda Nudez Será Castigada" (também de 73), do Jabor.