31 de março de 2008

Ainda sobre os panelaços na Argentina

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Vamos esclarecer algumas coisas. O problema não está em pessoas da classe média argentina saírem às ruas batendo panela, embora eu ache isso um tanto ridículo. Os próprios blogueiros de buenos aires estão refletindo sobre os panelaços dos anos 90, que derrubaram ministros das fazenda. Adiantou alguma coisa? Na verdade, não. Derrubaram ministros, inclusive alguns bons ministros, que pegaram o abacaxi incomensurável cultivado pelo governo Menen, o otário que mais levou à sério as reformas neoliberais sugeridas pelos americanos. Aliás, por falar em americanos, nada como um dia após o outro. A cobra está sendo intoxicada pelo próprio veneno. Enquanto o mundo inteiro cresce, só os EUA têm crise, devido à estupidez neoliberal. O neoliberalismo é uma ofensa ao liberalismo. Não tem nada de liberal no neoliberalismo. Até mesmo a teoria do Estado mínimo é uma balela. O neoliberalismo tenta se vender como verdadeiro capitalismo quando não passa de uma tática semi-mafiosa na qual grupos financeiros ligados ao poder ganham milhões às custas de transferir par si a renda de milhões de trabalhadores e empresários.

Voltando à Argentina, o problema não está na panela. Está em quem bota fogo na panela. Em Buenos Aires, há manifestações quase diárias sobre tudo e todos. A maioria são sérias, com faixas explicativas, demandas específicas. Naturalmente, a maioria são de sem-terras pedindo terras, desempregados pedindo empregos, e assim vai. A diferença deste novo panelaço é justamente... a falta de demandas. As pessoas simplesmente saem batendo panelas pelas ruas, à noite, depois de ouvir pelo rádio e pela televisão que outras pessoas estariam indo às ruas “espontaneamente”. O conceito de “espontâneo”, naturalmente, possui um sentido muito especial. Esqueçamos o fato de ser falso, já que manifestações convocadas por locutores de rádio e televisão a cada 10 minutos não podem ser, tecnicamente, classificadas de espontâneas. Esqueçamos isso. O que os blogueiros argentinos, além da falsidade do caso, notaram é que, para a mídia argentina, a espontaneidade diferenciaria o panelaço das passeadas “organizadas” por sindicatos, movimentos sociais, associações e qualquer tipo de organização civil. São espontâneas. Tão espontâneas que as pessoas nem sabem o que estão fazendo lá. A causa da revolta, teoricamente, seria o discurso de Cristina atacando a greve dos agricultores. Bem, não quero entrar no mérito da política agrícola do governo argentino. Certamente, há quem defenda e quem ataque, com argumentos válidos para todos os lados. O caso, como sempre, virou guerrinha ideológica. Muitos lembraram, inclusive a Cristina, que estes agricultores que estão despejando leite na estrada e deixando estragar milhares de quilos de carne, sob o olhar complacente da mídia e dos ricos argentinos, foram os mesmos que defenderam e sustentaram a ditadura militar.

Os blogueiros portenhos estranharam outras coisas. A mídia repete que são pessoas comuns saindo às ruas, novamente distinguindo-os dos “animais” de sindicatos, movimentos sociais e associações. O que eles não notaram, mas eu notei, é a repetição da ladainha na mídia brasileira.

Já disse: em Buenos Aires, que tem características não reunidas em nenhuma cidade brasileira, que é ser capital política, administrativa, financeira, cultural e sindical do país, há manifestações, e grandes, quase todos os dias. Mas a mídia brasileira só quer saber do panelaço dos riquinhos.

26 de março de 2008

Blogueiros desmascaram golpismo argentino

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Achei muito estranho este novo panelaço em Buenos Aires. Quem acompanha a história recente do país, sabe que, por mais problemas que haja na gestão dos Kirchnner, eles literalmente "salvaram" a pátria, fazendo o país crescer a taxas chinesas e o desemprego retornar a patamares razoáveis. Além disso, a vitória de Cristina Kirchnner, há somente alguns meses, foi esmagadora. Como não aconteceu nada de muito grave desde então, porque cargas d'água os argentinos iriam fazer "cacerolazo"? Na época de Menen ou De La Rua, explicava-se: a economia estava descendo ladeira abaixo e o desemprego explodindo, mas agora? Tudo bem ser crítico ao governo Kirchnner, mas daí partir para a gritaria?

Desconfiei e hoje fui a caça de blogs argentinos. Dito e feito. Os blogueiros políticos estão perplexos com o que houve. A mídia fazia convocação a cada 15 minutos e repetia que era "espontâneo". Tudo para desgastar Cristina, que sofre com uma oposição de direita raivosa sediada nas redações dos grandes jornais e canais de tv.

Confira esse blogueiro argentino aqui. E esse aqui também.

O impressionante é a pressa e quase ansiedade com que a mídia brasileira repercute o que diz a mídia argentina, mostrando que, na América Latina, formou-se uma verdadeira irmandade midiática reacionária, que opera no continente de norte a sul.

25 de março de 2008

O socialista de hoje é um capitalista de esquerda?

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A humanidade está sempre reinventando os atores que desempenharão os papéis de profeta, fariseu, ignorante. E sempre reconfigurando o modelo mais poderoso, o coringa que atravessa todos os tipos e que os dissolve, ao fim das batalhas de cada geração, na mesma massa borbulhante e atrevida - o cidadão comum.

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Quando se decreta o fim de uma idéia, em verdade se procura aplicar mais um golpe nela. As idéias, todas elas, têm flancos macios para receber punhaladas. Mas não morrem tão fácil. Ao contrário, absorvem a força dos que lhes atacam.


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O erro sempre foi entender as ideologias enquanto dicotomias absolutas: capitalismo X socialismo, capital X trabalho. Marx explicou que o trabalho é uma forma de capital, neste caso de propriedade do trabalhador, e que o sistema moderno de trocas comerciais são resultado de uma evolução milenar da humanidade. Uma evolução conturbada, sangrenta, árdua. No últimos milhares de anos, os homens experimentaram diversas formas de governo, organização social e religião. O comércio, no entanto, é a instituição mais antiga. A revolução francesa tinha como objetivo principal libertar o comércio das garras do Estado, da aristocracia, da Igreja. O comércio tinha que pertencer ao povo, aos comerciantes, sob um regime jurídico que consolidasse a nova ordem. O erro do socialismo foi esse, a ingenuidade de querer restituir ao Estado o controle absoluto sobre o comércio, regredindo a uma condição medieval. O que levou Marx a esse erro colossal? Terá sido esse anti-semitismo, tipicamente (mas não só) germânico, místico, obscuro, às vezes disfarçado de comunismo, de associar o simples comerciante a uma força maligna? Um anti-semitismo que consumia inclusive judeus? Repare que esse comunismo arcaico floresceu com mais força na Alemanha, Rússia e China, países que passaram ao largo da renovação cultural vivida na França e EUA, no final do século XVIII, com as revoluções francesa e americana, e que abandonaram mais tarde a vida idílica (?) e estável do Medievo.

Existem, provavelmente, no inconsciente da humanidade, grandes guerras ainda não totalmente resolvidas, entre as civilizações agrícolas e as comerciais. Os gregos acreditavam que, por trás das guerras dos homens, haveria disputas entre os deuses. Estavam certos, em parte. Nos conflitos pontuais da humanidade, mesmo nas inocentes discussões entre blogueiros, há forças arquétipas milenares e poderosas lutando entre si.

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O socialismo vive enquanto idéia em construção. Uma ideologia é, antes de tudo, um sentimento, e não é por outra razão que os tipos psicológicos tendem, de forma quase inexorável, por intuição, a formas de pensar que lhes sejam mais afins.

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O socialista hoje é um capitalista de esquerda. A frase é polêmica, mas advém da própria confusão conceitual e terminológica produzida pelos ideólogos do capitalismo. O sistema moderno dominante de organização econômica e política é baseado na democracia, no sufrágio universal, em Constituições mais ou menos homogêneas, em princípios humanitários universais, num comércio regulado de forma justa e livre. Não se pode confundir liberdade com caos. Se o nome aplicado a esse sistema for "capitalismo", então somos todos capitalistas. Mas o adversário do socialista (ou capitalista de esquerda) contemporâneo não é esse capitalismo. Seu adversário é o capitalista de direita, que por isso mesmo se auto-reveste, com pompa e armas engalanadas, de anti-comunista, mesmo sabendo que seu adversário não é, exatamente, o comunista, mas também e sobretudo o capitalista de esquerda.

Qual a diferença entre os dois? O capitalista de direita, pelo menos os seus representantes do Brasil assim o fazem, defende o Bush e a guerra no Iraque, independente das mentiras e das consequências nefastas, em vidas, em danos materiais e em resultados na luta contra o terrorismo.

O capitalista de esquerda, ou o socialista contemporâneo, é contra a guerra. Também é contra o terrorismo. Contra as Farc. Contra a violação dos direitos na China. Contra o stalinismo. Também não lhe agrada o anti-americanismo falastrão de Chávez, embora o apóie enquanto presidente eleito e representante legítimo do povo venezuelano.

O capitalismo de direita não quer programas sociais, vê com antipatia as políticas de expansão de crédito, faz um silêncio irritado diante da elevação do salário mínimo e recusa-se, terminantemente, a dar crédito ao governo Lula pelos excelentes índices econômicos registrados nos últimos anos. O capitalismo de direita tem partido. É o PSDB. Por mais que tente flertar com algum centro-esquerdismo, ou mesmo centro, o PSDB irremediavelmente, tornou-se o receptáculo do direitismo tupinambá. Todos as correntes do direitismo nacional fluem para o PSDB, assim como grande parte das forças esquerdistas fluem, de uma forma ou outra, para o PT, o que explica a obsessão dos direitistas nacionais de enxergarem no PT o seu grande inimigo e tacharem qualquer pessoa que não comungue em suas cartilhas de "petista". No fim das contas, as quatro últimas eleições presidenciais foram uma disputa entre PT e PSDB. E tudo indica que a próxima repetirá o duelo.

Esse bipartidarismo, no entanto, não dá conta da complexidade política brasileira. Há muitos redemoinhos e mesmo desvios nos rios que nos levam a esse duplo destino. Continuamos a conversa mais tarde.

24 de março de 2008

Ainda sobre os Judas

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E o carinha veio dizendo que o Amorim também não tinha direito aos vídeos que produzia para a Record ou para o Globo. É muito cinismo. Os vídeos estão lá. Não foram apagados. Além disso, o trabalho de Amorim para o Conversa Afiada era estritamente pessoal. Não havia um texto seu em que o caráter pessoal não era repetido, em que as suas posições políticas não se mostravam claras. Não coma gato por lebre, era o refrão do Conversa Afiada, que era simplesmente o ÚNICO site de notícias e opinião, alojado em grande portal, que mantinha um discurso crítico sobre o governo Serra, que é o estado mais rico e com mais poder de voto do país.

Expliquei ao blogueiro Judas a importância de haver sempre o contraditório no debate das grandes políticas públicas, e citei o caso da guerra no Iraque, em que os jornalões americanos todos embarcaram nas mentiras de Bush, produzindo milhões de mortes e trilhões de dólares em prejuízos. Ele só respondeu com escárnio.

Evidente que a extinção do site do Amorim não produzirá milhões de mortes. O que eu queria explicitar é a importância da informação. Ele, o Judas, havia dito que o IG, no máximo, tinha cometido o "erro" de não informar ao publico. Só isso. Falta de informação. O que me espanta é a ignorância de subestimar a gravidade oculta sob "falta de informação". O cara é estúpido ou cínico demais. Com falta de informação, eu posso dizimar uma população, se não informar corretamente, por exemplo, como se portar diante de uma epidemia letal, ou não advertir que um furacão está chegando a uma região densamente povoada. A falta ou presença de um jornalista numa democracia pode ser a fiel da balança para a eleição de um mau ou bom presidente da república, outro fator que mexe profundamente com milhões de vidas.

Em pleno século XXI, um blogueiro (vejam só, um blogueiro!) minimizar uma agressão covarde a um outro blogueiro, por parte de um grande portal, pertencente a poderosos grupos de comunicação, dizendo que o portal errou por "falta de informação" mostra como o farisaísmo já envenenou também a internet.

O Conversa Afiada estava listado em milhares de sites em todo país. Estes links todos terão que ser refeitos, o que representa enorme perda de público para Amorim. O caso dos links dos sistemas de busca também é grave, pois as pessoas escreviam Serra, Delegado Bruno, Mensalão, e caíam nas matérias de Amorim, que apresentavam uma versão diferente da que vemos em outros lugares. O IG podia cancelar o contrato, mas deixar o site no ar durante alguns meses, para que os milhares de sites e blogs que linkam o Conversa Afiada tivessem tempo de fazer a mudança no endereço e para que os sistemas de busca pudessem ser atualizados.

Foi covardia sim e o que mais espanta é a covardia dupla dos que buscam escarnecer do caso, misturando questões ideológicas ou estéticas totalmente extemporâneas. Eles criticam a maneira de Amorim escrever, em frases curtas, como se houvesse uma forma "literária" ou "jornalística" que pudesse ser censurada e outra não. Outros falam em "tropas" ou "blogueiros" petistas revoltados com Amorim, incorrendo em preconceito vulgar, mesquinho, burro. A revolta contra essa arbitrariedade não vêm de forças partidárias. Não tem nada a ver com a questão partidária. Até porque Amorim não tinha relação alguma com o PT. Ao contrário, tem até um histórico longo de reportagens críticas sobre o Partido dos Trabalhadores.

O que se viu, no entanto, foi que um grupo muito grande, inclusive majoritário na net (pelo que se depreende de inúmeras pesquisas e também do próprio concurso promovido pelo IG, o Ibest), ressente-se do predomínio de correntes de opinião conservadoras nos grandes jornais, além de detectar fortes tendências manipulativas nos mesmos órgãos, e estão refluindo em grande escala para a internet, a procura do contraditório. Amorim, assim como inúmeros blogs políticos, recebia esses grupos e interagia com eles. Não é por outra razão que o Conversa Afiada estava em primeiro lugar no concurso do Ibest. Esses grupos podem ser identificados, de uma forma ou outra, sim, com uma esquerda e com um sentimento de apoio ao presidente Lula. E daí?

Diminuir a força e o tamanho desses grupos simplesmente taxando-os de "petistas" é burrice e preconceito. Não são petistas. E os petistas que os compõem também são cidadãos com o mesmo valor humano que seus críticos. Até onde eu sei, o PT é um partido legal e os petistas, portanto, são representante legítimos da democracia brasileira, além do que a dignidade de um cidadão não pode ser vilipendiada por pertencer a um partido político. Se todos defendemos a democracia, então temos que respeitar os partidos políticos e, sobretudo, seus filiados.

Uma parte dos blogueiros e internautas judas procura minimizar o episódio apenas tentando desqualificar Paulo Henrique Amorim pelo fato dele trabalhar para o Edir Macedo, dono da Record e líder máximo da Igreja Universal do Reino de Deus. Ora, Amorim é um jornalista contratado pela Record, assim como milhares de outros funcionários, para fazer determinado serviço. Entra aí um preconceito, agora bem latente, de nossas elites católicas contra o protestantismo no Brasil. Ora, no atual estágio dos debates religiosos no país, a Igreja Católica é que está na linha de frente do obscurantismo, patrocinando campanhas contra o aborto, contra o casamento gay e contra a pesquisa com células tronco. De qualquer forma, Amorim é só um empregado da Record. Como empregado - ele o admite com franqueza rara - tem um espaço bem limitado de liberdade. E daí? Que diferença isso faz? Para mim, isso mostra com força ainda maior a importância que tinha para ele, como jornalista e como cidadão, ter um espaço de opinião em que pudesse desfrutar de maior liberdade. E revela quão grande foi a violência a que foi submetido. Uma violência que atinge não só ele, mas toda a classe jornalística e todos os blogueiros, inclusive os judas que fingem não dar importância ao caso.

Culminando a babaquice, eu, diante do escárnio incrível do cara diante da desgraça abatida sobre o Conversa Afiada, citei uns versos de Maiakósvki. O cara responde que poderia citar vários autores russos, mas os mesmos foram mortos por Stálin, e pergunta se eu concordo com isso. É muita estupidez. É claro que não concordo. Agora não se pode nem citar Maiakóvski, que esses bolas murchas vêm acusando a gente de stalinismo? Citar Maiakósvki é ser stalinista? Citar Eisenstein, então, nem se fala... Aliás, os expurgos e crimes de Stálin só foram possíveis por "falta de informação". Aliás, o que o IG fez com Amorim não foi um expurgo stalinista?

21 de março de 2008

Os judas mostram a cara

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Certos acontecimentos negativos oferecem oportunidade para conhecermos melhor as pessoas. O caso do PHA foi emblemático. Um site de notícias e opinião é brutalmente agredido, através do corte abrupto e sem notificação e depois pelo sequestro de todo o conteúdo armazenado. Muitos blogueiros, por incrível que pareça, acham normal. O IG era dono, então pode fazer o que quiser. O PHA é que tinha que ter um backup. O PHA é que se dane. Tripudiam em cima do caso, como se fosse engraçado um portal cortar o sinal de um site e sequestrar seu conteúdo material. Usam todo o tipo de tese maluca para defender o lado mais forte, o IG. São os novos judas. São blogueiros e não defendem nem blogueiros. O fato de existir um contrato de trabalho não dá direitos divinos ao portal. Existe uma coisa bem mais importante, chamada Justiça, com J maiúscula, e outra chamada Ética, com é maiúsculo. Essa turminha que fica falando em liberdade de imprensa, em ética, agora mostrou a cara. O rabo ficou à mostra. São uns canalhas. Amorim conseguiu na Justiça recuperar seus arquivos. Espero o desenrolar jurídico desse caso. Os EUA invadiram o Iraque em nome de uma tal de liberdade, gastaram uns 500 bilhões de dólares até o momento e causaram a morte de quase 1 milhão de pessoas (afora o sofrimento causado, que nunca entra na conta), tudo provocado pela falta de um contraditório nos debates públicos e essa turminha ainda acha engraçado o que aconteceu com Amorim. Essas mesmas pessoas tentam passar a idéia de que Amorim tinha poucos leitores, tinha pouca influência e seu trabalho não tinha qualidade. Mentira. O site Conversa Afiada incomodava o mainstream. Era lido por deputados, senadores e autoridades da república. Era lido por jornalistas. Era muito influente entre os formadores de opinião.

Outros procuram tripudiar em cima do estilo de texto de Amorim, com frases curtas, muita piada. Esses mesmos acham que escrevem bem. Criou-se um cânone muito babaca na internet. Preconceituoso, besta, medíocre. Os textos de blog devem ser escritos, de acordo com esse manual secreto, com fluência germânica, a la Thomas Mann, ter muitas referências literárias, para mostrar que o autor leu bastante e, para ser chique, fazer todo o tipo de ataque ao PT.

Confiram o blog do Ombudsman do IG. São centenas de mensagens muito fortes, de leitores profundamente chocados com o que aconteceu. Há uma tentativa, por parte de portais, grande imprensa e blogueiros judas, de abafar o caso. O "último post" do Mino Carta recebeu 764 comentários. A coisa pegou fogo no blog Cidadania. Por que a manifestação de um Mino Carta, uma lenda viva no jornalismo brasileiro pelas revistas que criou e editou por tantos anos, não é levada em conta?

Para mim, o que aconteceu com Amorim representou um marco negativo na história da internet brasileira. Muitos não vêem isso. Os blogueiros judas não viram nada de mais. Claro que se a pessoa atingida fosse um ícone qualquer da direita, eles converter-se-iam, juntamente com os colunistas de salão, em furiosos paladinos da liberdade.

Tripudiam em cima do fato de Amorim trabalhar para a Record, que pertence ao Edir Macedo, como se o Brasil fosse o paraíso dos jornalistas e como se o fato de Amorim trabalhar para Macedo o maculasse moralmente. Essas pessoas pensam com moral de escravo. Um jornalista não é um escravo do patrão. Na Inglaterra, há leis que protegem os jornalistas de assédio ideológico, que lhes permitem liberdade para dizer o que pensam. Liberdade de imprensa é impedir que jornalistas e seus leitores sejam desrespeitados, humilhados, como aconteceu no caso de Amorim.

Fala-se muito em liberdade de opinião no Brasil. Mas todo aquele que discorda da opinião da grande mídia é sempre demitido sumariamente. Ou seja, há uma censura econômica terrível. Isso é deprimente. Isso não é liberdade.

PS: Leiam o amorfo, pusilânime, acovardado e oblíquo artigo de Alberto Dines sobre o caso Amorim e, sobretudo, os interessantes comentários de seus leitores, 99% dos quais indignados com a brutalidade contra Amorim. Pinço um dos mais de 70 comentários publicados:


marcos omag , sao paulo-SP - auxiliar administrativo

Enviado em 22/3/2008 às 1:36:44 AM

Quando um obscuro blogueiro chinês tem seu blog apagado do Baidu (maior site de busca da China), a imprensa estrila.Agora, quando um expressivo jornalista brasileiro,cujo site chega a ter 4 milhões de pageviews mensais tem o seu conteúdo apagado do hospedeiro, suas referências apagadas nos principais mecanismos de busca e pior, o seu agora ex-hospedeiro tenta justificar o injustificável com uma notia oficial que zomba da inteligência dos leitores (o tal Caio chegou a escrever que o jornalista demitido, na verdade "partiu") a imprensa mostra seu apreço seletivo a liberdade de expressão com um silêncio que grita a sua hipocrisia.

Violência contra Amorim

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O jornalista Paulo Henrique Amorim conseguiu recuperar o conteúdo de seu site, através de uma liminar de justiça. O fato revela a brutalidade desmedida de que foi vítima. Muitos não estão percebendo a gravidade do ocorrido. Para mim está claro. A internet brasileira foi estuprada. Perdeu a virgindade. Não foi somente Amorim que foi agredido, mas a própria liberdade. Afinal, o que é liberdade de imprensa? O fato do IG ser o patrão não lhe confere direitos absolutos. O que o IG fez simplesmente não se faz, não se pode fazer com ninguém.

A recuperação dos arquivos não é suficiente. Ao cortar o site bruscamente, o IG cometeu diversos atentados contra a liberdade:

1) Cortou milhares de links de pesquisa dos softwares de busca aos áudios, vídeos e textos produzidos pelo Conversa Afiada.

2) Causou um enorme e desnecessário dano moral ao jornalista Paulo Henrique Amorim, obrigado a pagar advogados e a interromper o seu trabalho à frente do site.

3) O Conversa Afiada tinha empregados, os quais também foram agredidos pela medida repentina.

4) Os leitores de PHA, que são muitos (não esqueçam que o site dele estava em primeiro lugar no prêmio do IBEST, considerado pelo próprio IG como o Oscar da internet brasileira), foram enxotados, desrespeitados, perderam tempo tentando inutilmente entrar no site.

5) Criou-se um precedente perigoso.


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Alguns blogueiros viram a demissão de PHA apenas como um acontecimento empresarial. Outros trataram de botar na mesma fogueira o PT, Lula, etc. Uma coisa não tem nada ver com a outra. Se tivessem feito isso com qualquer blogueiro, de qualquer tendência, seria um absurdo do mesmo jeito. Está claro para mim que a indiferença e mesmo o incontido prazer com que a violência contra Amorim foi recebida seguramente advém de suas posições políticas, notoriamente na contra mão da grande mídia. Se o atingido fosse um blogueiro alinhado com as posições da mídia, alevantaria-se uma grande revolta entre colunistas e membros do alto clero da opinião pública nacional.

A violência contra Amorim é injustificável. Se o diretor do IG indispôs-se com Amorim, que brigasse na mão, que caísse na porrada com o jornalista. Tirar do ar o site foi uma covardia, sim. Alguns falaram eu foi apenas "um vacilo" do IG, "falta de informação", mas isso é minimizar uma coisa muito grave. É uma questão de princípios. "Falta de informação", nos dias de hoje, pode significar a vida ou morte de milhões de pessoas.

Outros também falam que Amorim, se quisesse mesmo ser independente, deveria fazer seu blog fora de portais. É o que ele fez e fará. Mas isso não justifica a covardia do IG. Além disos, a independência e a liberdade de opinião deve ser defendida dentro e fora dos portais. Um jornalista ou blogueiro, pelo fato de ser contratado, não é um escravo intelectual. Vejo, com muita tristeza, que parte da blogosfera brasileira herdou esse patrimonialismo reacionário, que confere aos "senhores" um direito quase divino, de vida, morte, e que não precisa respeitar a dignidade de jornalistas e seus leitores. Acho que as pessoas confundem isso com "defesa do capitalismo", como se os trabalhadores não tivessem nenhum papel ou direitos no capitalismo. Esse é um capitalismo chinfrim, de terceiro mundo. Um capitalismo de escravos.

20 de março de 2008

A ABI não vai falar nada?

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Estou aguardando um pronunciamento da Associação Brasileira da Imprensa (ABI) e da Federação dos Jornalistas sobre o caso de Paulo Henrique Amorim. O sequestro dos arquivos de Amorim constitui uma inaceitável agressão à liberdade. Quando um governo estrangeiro prende ou censura um blogueiro, a nossa mídia repercute automaticamente, agora quando um grupo empresarial promove a sabotagem de um blog de um jornalista brasileiro famoso, um jornalista que já foi âncora dos principais jornais do país, a nossa mídia não faz nada? Se fazem isso com um jornalista famoso, o que não fariam com um desconhecido?

Isso não pode ficar assim. O IG tem o direito de rescindir contratos, mas não de cometer "assassinatos intelectuais". Não sei se existe uma lei proibindo esse tipo de coisa. Se não tem, é só porque a internet é um fenômeno novo. Mas é imoral, autoritário e canalha. Se a ABI não se pronunciar rapidamente, será cúmplice desta injustiça. Blogueiros colocam toda a sua produção intelectual na internet, e não aceitam que se abra o precedente de terem sua obra sequestrada. O IG tinha a obrigação moral de dar tempo ao PHA de transferir seus arquivos e fazer a comunicação a seus leitores.

19 de março de 2008

Somos todos PHA

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Sabotaram o homem. Despejaram-no, sem aviso prévio, de seu endereço na web. Li por aí que apagaram seus arquivos antigos, o que me recuso a acreditar por enquanto, já que seria uma canalhice tão grande que deve constituir crime contra a propriedade intelectual.

A alegação de que o site do PHA não tinha visitação suficiente é ridícula. O Conversa Afiada era um dos sites mais conhecidos do país. Bem humorado, escrachado, franco, assertivo, original, foi um site que conseguiu conquistar um vasto segmento da opinião pública nacional. Através de sua linguagem direta e seu humor particularíssimo, Amorim agregava valor e graça aos grandes - e pequenos - debates políticos domésticos.

A explicação, aliás, é negada pelo IBEST, um concurso de internet patrocinado pelo próprio IG. O Conversa Afiada está em primeiro lugar no certame, à frente de sites dos maiores partidos políticos do país, como o Vermelho, o PT, etc. A única página do IG que me interessava era o site do PHA. Todos os meus amigos, de bar e de blog, também são leitores assíduos do PHA, um jornalista que, seguramente, causa inveja em muita gente por sua independência, espirituosidade e pela insofreável alegria que emana de seus textos irônicos e inteligentes.

Ainda contradizendo a tese do "baixo público", PHA foi capa da revista Caros Amigos, devido justamente a seu trabalho no blog. Foi entrevistado pela Revista do Brasil, pela Trip, pela Folha de São Paulo, justamente por seu trabalho na internet. Que raio de critério é esse?

O fato pegou a blogosfera de surpresa e produziu uma justa onda de indignação. O IG é uma empresa privada e tem direito de rescindir o contrato que quiser. Mas a forma grosseira com o que o fez, sem deixar na página nem um aviso aos internautas, sem permitir ao Amorim que transferisse, com tranquilidade, seus arquivos para o outro espaço, revela uma truculência que nos deixou, leitores e cidadãos, perplexos. Essa truculência representou uma propaganda negativa fortíssima para o IG. Esse tipo de notícia costuma repercutir de forma muito intensa na internet. Até mesmo entre não leitores e não simpatizantes do PHA, uma atitude dessas é um escândalo. Existe uma espécie de pacto sagrado na web, que é o direito da expressão. Na web convivem os grupos mais radicais, mais extremistas, e ninguém cogita defender a censura de seus adversários, até porque isso representaria uma deslealdade, uma vitória sem valor. Os que não gostam do que PHA escreve ou pensa, devem vencê-lo através de argumentos, não puxando-lhe o tapete de maneira tão abjeta.

A sordidez do ocorrido é o rabo que a IG deixou à mostra sobre os interesses por trás da coisa. Amorim sempre foi muito transparente em relação a seus desafetos e, portanto, não é nada absurdo cogitar sobre figuras políticas e empresariais que estariam interessadas em sabotar seu trabalho.

Uma coisa é certa. Amorim fazia um belíssimo trabalho no Conversa Afiada. Tinha os escrachos, as piadas, mas havia também excelentes entrevistas com importantes autoridades estaduais, federais, com parlamentares, senadores, etc. Aliás, reitero: quero saber se os arquivos se perderam. Se os arquivos foram realmente apagados, vou defender que o Movimento dos Sem Mídia entre em ação contra o Portal IG por atentar contra a liberdade de expressão, a cidadania e os interesses nacionais, visto que as entrevistas constituem arquivos importantes para pesquisadores e pessoas comuns conhecerem mais o Brasil.

Outra coisa que chama atenção é sobre o silêncio constrangido, covarde, hipócrita, de jornalistas e jornais que vivem vociferando contra supostos atentados contra a liberdade da imprensa. Fiéis acionam jornais porque se sentem ofendidos com uma reportagem que apresenta sua religião sob um viés negativo e esses jornalistas e jornais logo dão início a protestos violentos contra o que seria uma agressão à liberdade. E agora, que um portal, sem aviso prévio ou pós, tira do ar um dos sites políticos mais visitados do país, ninguém fala nada?

Fora do mundo confortável dos portais corporativos, PHA, com 66 anos de idade, agora é - por enquanto - um guerrilheiro comum da web. Torço para que consiga desenvolver um trabalho que lhe proporcione retorno existencial e financeiro. Hoje somos todos Paulo Henrique Amorim. O Brasil precisa do contra-ponto midiático que ele representava.

*

Agora, o negócio é arregaçar as mangas e bola pra frente. Divulguem o novo site do PHA, linkem-no com destaque em seus blogs e sites. É o mínimo que podemos fazer.

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/

17 de março de 2008

Filme do Bezerra desembarca no Youtube

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Finalmente. O documentário Onde a Coruja Dorme está no Youtube, em duas partes.

Parte 1
Parte 2

Aproveite para ver os vídeos relacionados na coluna da direita, na página do youtube.

16 de março de 2008

Eleições 2008: Boas perspectivas para o Rio

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As eleições municipais no Rio trazem boas perspectivas de mudança. A melhor delas é o fim da dinastia César Maia. A entrada de Gabeira na disputa acirrou a concorrência e qualificou o pleito. Não gosto do Gabeira porque acho que ele tem jogado muito para platéia. Mas não deixa de ser irônico que a direita nacional (leia-se PSDB) tenha se curvado a um ex-guerrilheiro, defensor da maconha e ecoxiita de primeira linha.

Se o Gabeira ganhar as eleições será uma ótima oportunidade para ele viver a experiência de vidraça. De qualquer forma, se ele não descambar pavorosamente para a extrema-direita, inclusive na questão das drogas, como acontece às vezes com alguns ex-guerrilheiros, ex-comunistas e ex-hippies mundo afora, ele pode ter a oportunidade de fazer uma boa administração. Mas terá que fazer alianças políticas com Sérgio Cabral e com Lula. Vamos ver.

Se o vencedor for o Crivella, não sei bem o que vai acontecer. Seguramente, o Globo, anti-evangélico até os ossos, inclusive por razões comerciais (a Record, sua concorrente, pertence ao Edir Macedo) não irá dar trégua. Mas o Crivella não é o bicho papão que o Globo diz. Seus interesses têm um cunho fortemente social que pode ser interessante para o município há décadas governado pela direita - nas raríssimas vezes que a esquerda governou, foi em momentos macro-econômicos nacionais desastrosos.

Hoje, com a economia vivendo um bom momento, o próximo prefeito do Rio de Janeiro poderá fazer uma administração para ficar na história, desde que não a use como trampolim político (como Serra fez em São Paulo) para ser governador ou presidente.

O candidato que o César Maia queria impor, Solange Amaral, só dá traço nas pesquisas e provavelmente continuará dando. Assim gorou o acordo patético que Maia fez com Garotinho para o PMDB ficar com a vaga de vice. O que me espanta é o PMDB, maior partido fluminense, cogitar ser vice de uma candidata apática como Solange Amaral, do DEM. Só mesmo o Garotinho, mais preocupado em marcar oposição ao Lula do que propor algo de novo e positivo para o Rio, pra entrar numa canoa furada dessas. Outro dia, li uma notícia que Garotinho tinha sido internado com falta de memória e confusão mental. É, depois daquela greve de fome ridícula que ele fez contra as denúncias do Globo, não me surpreenderia se eu topasse com o Garotinho vagando pelas ruas, catatônico, falando sozinho, xingando o Lula.

Eduardo Paes, ex-PSDB, agora PMDB, preferido do Sergio Cabral, também não é uma opção ruim para a cidade. Não por seu histórico pessoal, que não é lá essas coisas, mas por ser aliado do Sérgio Cabral, que vem fazendo um bom governo (à parte a truculência ainda não resolvida da Polícia). De qualquer forma, pela primeira vez em muitos anos, teremos um leque de bons candidatos para o Rio.

A falsa cruzada anti-tributária do Globo

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E o Globo continua sua saga anti-impostos. Nada que espante muito. Em 1954, o Globo afirmava, orgulhoso: "em suma, desejamos falar sempre por aquela imensa maioria de brasileiros que o sr.João Gourlart, em seu arrivismo oratório, denomina 'os reacionários' ".

Chato eu vir aqui cumprir o papel de advogado do diabo, quer dizer, dos impostos, mas me preocupa observar como esta nova bandeira da oposição vai, aos poucos, tomando corpo. O que está em jogo não é somente a questão tributária, mas os altos interesses nacionais. A classe média, mais uma vez, entra como massa de manobra das elites. A classe média brasileira é muito abestalhada. Acha que é rica em relação aos pobres e pobre em relação aos ricos. Ideologicamente, é o segmento mais cobiçado pelas diferentes forças partidárias, midiáticas, políticas. De fato, é fundamental, para uma determinada força política, conquistar a classe média. Não para alcançar o poder, pois quem decide eleição hoje é o voto do pobre e as doações de campanha dos ricos. O apoio da classe média, todavia, é importante para consolidar o poder no longo prazo. Por isso, o DEM, orientado pelo arguto César Maia, está procurando se firmar como o partido da classe média.

No entanto, do meu ponto-de-vista, o que acontece é uma grande operação de iludir a classe média, de fazê-la pensar que ficará melhor ao lado dos ricos do que dos pobres. A grande mídia, por exemplo, tenta se vender como defensora dos interesses da classe média quando, em verdade, seu único interesse está na classe alta. A disparidade de renda entre a reduzida mas poderosa classe alta e a classe média, no Brasil, é abissal. E a classe média, deslumbrada com suas conquistas materiais diante da maioria pobre, não enxerga com clareza essas diferenças, até porque não são exploradas pela mídia.

A manchete do Globo de hoje (domingo, 16/03/2008) é: Brasileiro paga mais IR que contribuintes de países ricos. Bem, em primeiro lugar, temos uma mentira, ou desinformação, logo desmentida no subtítulo: "Seis das nações de IDG mais alto têm impostos menor para a classe média". Não se trata de brasileiros, mas de classe média. Tudo bem, distorção sem tanta importância. Passemos para a matéria principal, na capa do caderno de Economia.

O jornal traz uma tabela (imagem no início do texto) com seis colunas. São elas: nome dos países selecionados, posição no ranking do IDH (desenvolvimento humano), taxa de analfabetismo, expectativa de vida, renda per capita anual e alíquota do IR (Imposto de Renda) da classe média.
A colunas que interessa diretamente à matéria é a da alíquota do IR, que mostra que a classe média brasileira paga 27,5% de IR enquanto a classe média da Islândia (país número 1 do ranking da ONU) paga somente 23,5%. Outros países também tem alíquota menor que a do Brasil.

O que a matéria omite é o seguinte: a renda per capita da Islândia é de US$ 36.510 anuais, contra US$ 8.402 no Brasil. Ou seja, o islandês que paga 23,5% de IR desembolsa, por ano, US$ 8.397, enquanto o brasileiro gasta anualmente US$ 2.310 de IR. Considerando que o preço de uma aspirina é igual no Brasil e na Islândia, o poder de compra dos impostos, per capita, são muito superiores na Islândia do que no Brasil. Em termos absolutos, portanto, o islandês paga um IR mais de três vezes superior ao que paga o brasileiro.

A matéria diz que a classe média paga impostos por serviços públicos que não usa, reiterando o lugar comum de que os impostos no Brasil são altos e o serviço público é uma droga. Sobre o primeiro item, outra balela. A classe média usa, e muito, o serviço público, e quando paga plano de saúde ou educação privada, tem desconto no IR. O segundo item é uma idiotice, porque se o serviço público no Brasil é ruim, é evidente que não é cortando sua fonte de recursos que ele vai melhorar.

Acho interessante que se discuta a questão tributária no Brasil. Mas seria interessante que a imprensa fizesse pressão para que o Legislativo aprovasse uma reforma tributária que tornasse a cobraça de impostos mais racional e mais justa no país. Ora, e o que diz Miriam Leitão? Escuta essa: "O Brasil não fez até agora, nem fará, estas reformas este ano. Do ponto de vista legislativo, 2008 está quase terminando". Estamos na metade de março! E o Congresso esteve em recesso até o dia 2 de fevereiro! Como Leitão quer que o Congresso aprove uma das mais importantes reformas estruturais em tão pouco tempo? Por que ela, como força política que é, como quarto poder, não incentiva que a reforma tributária seja aprovada este ano? Por que não interessa a ela que o Brasil efetivamente se modernize?

Em sua coluna de hoje, aliás, Miriam Leitão superou a si mesma em matéria de agourar o futuro do país. Olha só que pérola: "O Brasil não está preparado para nenhum cenário (...) Se tudo der certo, haverá colapso (...) Se for contaminado [pela crise americana], o país enfrentará uma crise (...)"

É isso mesmo. O futuro é ruim mesmo se "tudo der certo". Essa é a Miriam Leitão que eu conheço. Parabéns por essa injeção de otimismo.

E ontem (sábado, 15/03), o Globo publicou um editorial interessante, sugestivamente intitulado "Um bicho papão". O próprio título revela a infantilização do leitor "ideal" do Globo, identificado como um anti-lulista, reacionário, "homem de bem", furioso, admirador do capitão Nascimento. Embora leve o chapéu "Outra opinião", o texto de Sacha Calmon, advogado, retrata fielmente as opiniões mil vezes repetidas do jornal. Olha o que diz o texto: "na verdade, a estabilidade deve ser creditada à macroeconomia do real, jamais aos diretores do BC lulista". Está aí a velha retórica, infantil, birrenta, de continuar atribuindo qualquer fator positivo da economia atual a governos passados e tudo de ruim ao governo atual. Leiam esse raciocínio: "Os norte-americanos baixam juros e tributos para crescer o setor privado (...)". Sacha se refere às medidas recentes do governo americano, para controlar uma das piores crises financeiras da história recente. Olha só, Sacha usa como referência um país em crise, que está injetando dezenas de bilhões do Tesouro Nacional (our, my, your money) em bancos, um país cujo governo gastou centenas de bilhões de dólares numa guerra idiota, que resultou em 1 milhão de mortos, aumento do terrorismo, aumento dos preços do petróleo, aumento da insegurança internacional, além da destruição total de um belo e rico país.

E ainda fala de juros altos sem lembrar que, por incrível que pareça, os nossos juros estão em seu patamar mais baixo em mais de duas décadas.

Voltando à Miriam Leitão, ela volta a menosprezar o crescimento do PIB. Teve início a tarefa hercúlea de minimizar os danos políticos provocados pelo anúncio do crescimento econômico de 5,4% registrado em 2007. O Brasil deve ser o único país do mundo onde economistas e colunistas de jornal ficam tristes quando o PIB cresce. Mais uma vez, compara-se Brasil à China. Ora, meus caros, a China é comunista, tem partido único, governo absolutamente centralizado, sem liberdade de imprensa. Não tem previdência rural, e a previdência social corresponde a um valor irrisório. O Brasil cresce com democracia, com todas as liberdades e seus custos, que são altos. Também não vale comparar com a Índia, com seu sistema de castas e a sua miséria grassando, impune e não combatida, em todo país. Também não vale comparar com a Rússia, maior exportadora de petróleo do mundo, num momento em que o petróleo está quase 120 dólares o barril.

O crescimento econômico brasileiro em 2007 tem que ser comparado, em primeiro lugar, com o crescimento econômico brasileiro dos últimos anos. Em segundo lugar, tem que ser analisado em profundidade. Que regiões, que setores, que camadas sociais cresceram? Outra questão fundamental: cresceu com inflação? Considerando esses dados, o crescimento verificado no Brasil não tem paralelo no mundo. Cresceu sem inflação, cresceu distribuindo renda, incluindo milhões de pessoas no mercado de consumo, cresceram as regiões mais pobres, cresceram os setores estruturais, a indústria de base, que prepara o país para mais crescimento no futuro, a venda de computadores, que já ultrapassou a de televisores. Sem contar que foi em 2007 que o Brasil registrou a descoberta dos novos campos gigantes de petróleo e gás, o que não é, definitivamente, um detalhe insignificante a ser omitido em análises econômicas.

O que acho curioso é os analistas afirmarem a importância do Brasil repensar o sistema tributário e quando o governo acena com a reforma tributária para este ano, não haver nenhuma pressão para que a mesma seja aprovada. Ao contrário, a oposição sinaliza com um comportamento apenas negativo, de obstruir os trabalhos legislativos, e contam com a... simpatia da mídia! É esquizofrênico, é contraditório. Tudo por quê? Para a reforma tributária não ser aprovada durante o governo Lula?

E ainda temos essas distorções da realidade tributária. O Brasil é um país caro, um país com mais de 40% de seu território ocupado pela chamada Amazônia Legal, uma região que gera pouca riqueza, mas que é crucial para o equilíbrio ambiental do mundo. Os impostos no Brasil são altos, mas é importante explicar as causas disso. Temos uma renda per capita baixa e uma grande massa populacional que paga pouco ou nada de imposto. Conforme as massas pobres forem sendo incluídas no mercado de consumo, como já está ocorrendo, e a um ritmo bastante acelerado, "a conta" do governo poderá ser dividida por mais gente. O crescimento do PIB e do PIB per capita também ajudará a reduzir a carga tributária, porque permitirá que o governo reduza os percentuais tributários sem prejudicar seu orçamento, que também precisa continuar crescendo, para fazer frente às necessidades de investimentos estrututais, sociais, ambientais e culturais.

Essa cruzada anti-tributária da mídia, do jeito que está sendo conduzida, aparenta ser apenas mais um movimento político-partidário, para jogar a classe média contra o governo. Por exemplo, se a mídia estivesse tão interessada em reduzir os tributos da classe média, ajudaria a pressionar a aprovação do imposto sobre as grandes fortunas, que existe em todos os países desenvolvidos. Aliás, essa é uma das razões principais da carga "relativamente" leve sobre as classes médias européias: suas elites financeiras são draconiamente tributadas. Porque será que a Miriam Leitão não fala sobre isso, héin?

O Globo, assim como a mídia, vem construindo, uma verdadeira mitologia anti-estatal. Essa é, a meu ver, a maior esquizofrenia da oposição partidária. PSDB e DEM querem o poder do Estado, mas compartilham dessa visão anti-estatal. O mínimo que se pede de autoridades do Estado é que valorizem o papel do Estado. Tucano-demos, além disso, são demagogos na questão tributária, visto que, no poder, foram o governo que mais elevou a carga tributária. Nos oito anos de FHC, a carga tributária cresceu 42%, enquanto nesses cinco anos de Lula, o crescimento foi de apenas 6%, com uma outra diferença básica: enquanto na era fernandista o desemprego e a informalidade da economia cresceram, nos anos lulistas ocorreu o contrário, caiu o desemprego e caiu a informalidade, o que explicaria inclusive esse aumento da carga. Sem falar das operações da PF e da Receita contra grandes sonegadores, que aumentaram muito de intensidade nos últimos anos.

Ah, detalhe, você sabia que o principal imposto do país é o ICMS, cobrado pelas federações? Ninguém quer falar nisso, né? Ninguém quer falar também que uma das metas do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, é justamente reduzir significativamentea carga tributária no Brasil, sobretudo da União.

Nos planos do PAC, consta a redução dos gastos com pessoal, por parte da União, dos atuais 5,3% do PIB em 2007 para 4,7% em 2010. Outro detalhe, o ano com gasto recorde com pessoal foi o último de FHC, 5,4% do PIB. E os tucanos ainda tiram onda de defensores de Estado mínimo... com ajuda da mídia, essa prestidigitadora que pregou no rabo do governo Lula a faixa de "gastador e empreguista de cumpanheiros".

O principal fator, entretanto, que obriga o Estado a cobrar tanto imposto é o endividamento público do país. Ganha uma tapioca quem adivinhar qual foi o governo que mais endividou o país na história recente? Ganhou quem disse: os tucanos! Pois é, parece até birra minha, achar que tudo de ruim foi feito por FHC. Já andei elogiando o Plano Real, e a estabilidade fiscal do governo FHC, mas pensando bem, nem por isso ele merece muito crédito, já que o Real foi feito mesmo pelo Itamar Franco e a estabilidade fiscal fernadista foi apenas teórica, já que embasada inteiramente na explosão do endividamento público, interno e externo.

A projeção do PAC é reduzir o endividamento público brasileiro dos atuais 48,3% do PIB (2007) para 39,7% ao final de 2010. Se o governo conseguir isso, e torçamos para que consiga (xô urubus), ganharemos bilhões para investir e desonerar impostos. A classe média brasileira, apesar do Globo e da Miriam Leitão, terá a possibilidade de ser mais feliz. Isso se deixar de ser otária e parar de acreditar que o Globo defende seus interesses. O que o Globo defende, seus trouxas, são os interesses dos milionários! Parem de acreditar que a mídia apenas defende o capitalismo, etc. O trabalhador humilde é o esteio de qualquer capitalismo que se preze. Nenhum capitalismo se consolida sem um vigoroso mercado consumidor, ou seja, sem tirar as pessoas da pobreza, sem dar acesso aos bens e serviços do mundo moderno. Portanto, há que se fazer política social, industrial, tributária e monetária visando o trabalhador simples e a classe média.

Parte de nossa direita é composta por um setor infantilizado, arrogante, deslumbrado com suas estantes (pensam que são os únicos que lêem e escrevem bem), que se acham moralmente superiores. São viúvas de uma guerra fria obsoleta, tristes por constatar que, sob governos de esquerda, o capitalismo sul-americano se humaniza, se consolida, se fortalece; tristes por ver que o socialismo que combatiam também se modernizou, tanto em linguagem quanto em objetivos. O socialismo aprendeu a conviver com a democracia e a liberdade; mais ainda, o socialismo aprendeu a conviver com a propriedade, não mais considerada um bicho-papão, mas um direito do cidadão, e que, desde que fiscalizada pelo Estado, desde que pague os devidos impostos (justos, não extorsivos), não constitui um mal à sociedade. Isso assusta e confunde a direita.

15 de março de 2008

Evento legal no dia 20/03 - quinta-feira

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Aí um evento legal, organizado pela Priscila. Com direito à filme surpresa, exposição de artes plásticas, festa, música, tudo grátis e na Lapa! Clique na imagem para ampliar e saber mais.

13 de março de 2008

Por que existem as Farc?

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Escreve Chomsky, no capítulo Consentimento sem Consentimento, do livro O Lucro ou as Pessoas?, editora Bertrand, 2002, página 57:

"A campeã de violações aos direitos humanos no hemisfério é a Colômbia, também o país que mais tem recebido assistência e treinamento militar norte-americano nos últimos anos. O pretexto é a guerra contra as drogas, um mito, segundo relatam constamente os principais grupos de defesa dos direitos humanos, a igreja e outras instituições que investigam a espantosa crônica de atrocidades, e os estreitos vínculos existentes entre narcotraficantes, latifundiários, militares e seus sócios-paramilitares. O terror estatal devastou as organizações populares e praticamente destruiu o único partido político independente por meio do assassinato de milhares de ativistas, dentre os quais candidatos à presidência, prefeitos e outros mais."

Por que existe Farc somente na Colômbia e não no Equador, Colômbia, Peru, Venezuela, Chile, Argentina ou Brasil? Na ânsia de produzir factóides anti-esquerdistas, a nossa mídia omite explicações que situariam as Farc em seu contexto político e histórico, liberando energias sociais que uma visão lúcida dos problemas possibilita. A direita brasileira, representada por setores midiáticos, continua afagando o presidente Alvaro Uribe, mesmo tendo ele violado a sagrada soberania do Equador, e depois de ter sido claramente condenado por todos os países latino-americanos, pela França e pela Organização os Estados Americanos (OEA). O corporativismo ideológico é algo impressionante. Só porque Uribe é de direita, ele é defendido com unhas e dentes, numa questão em que ele não tinha razão nenhuma. Para evitar o desgaste de Uribe, procura-se demonizar as Farc, num processo de alienação histórica que descontextualiza e omite as razões que levaram a Colômbia a ser o único país sul-americano a ter, em pleno século XXI, um poderoso movimento insurgente agindo em seu território.

A razão primeira reside no fracasso das democracias nas décadas de 50 e 60, todas derrubadas por golpes militares patrocinados pelos Estados Unidos. Uma tendência que foi particularmente cruel na Colômbia, por razões que os historiadores ainda devem explicações mais detalhadas, que resultou numa cultura de eliminação sistemática de políticos não alinhados ao para-militarismo e com a mais suave veleidade esquerdista. Essa foi a razão que deu sustentação moral à criação das Farc e o apoio que o movimento encontrou no seio da sociedade colombiana.

Hoje as Farc estão ultrapassadas por conta da evolução política do continente. A vitória, sofrida, mas avassaladora, de forças de esquerda em toda a América do Sul, e a política progressista que vem sendo implementada no continente, com resultados econômicos e sociais impressionantes, tira qualquer razão de ser de movimentos de guerrilha.

Na verdade, as Farc, hoje, representam um incômodo para todas as forças populares sul-americanas. A suposição de que Chávez, Correa, Morales, ou seja lá quem for, sustentam politica ou financeiramente as Farc, é absurda, porque estes são presidentes eleitos com esmagadora maioria de votos, de maneira que se tornaram símbolos do valor supremo da democracia. O poder dos presidentes sul-americanos emana dos altos valores democráticos, valores que são negados pelas Farc. O que Chávez quer, o que todos nós queremos, é o fim da guerra civil na Colômbia, guerra iniciada exatamente em 9 de abril de 1948, quando Jorge Eliecer Gaitán, candidato à presidência da república, foi assassinado numa esquina de Bogotá. O crime produziu uma onda de desespero em todo país e houve o famoso Bogotazo, em que milhares de pessoas saíram às ruas, histéricas, desesperançadas, e incendiaram e quebraram tudo que viam pela frente.

Esta guerra civil, como qualquer outra guerra civil, só pode acabar com um gesto de magnanimidade do governo colombiano. A guerrilha, ao iniciar um processo de libertação em massa de reféns, está fazendo um gesto muito claro de paz. Por que o governo de Uribe não faz também? Não se trata de "negociar com terroristas". Trata-se de procurar soluções que tragam distensão política ao país e criem condições para a desmobilização da guerrilha colombiana.

Não é Chávez, Correa e Morales que querem a guerra. Quem quer a guerra são as Vejas do continente. Por isso, o abraço de Uribe em Chávez, e a reconciliação entre Colômbia e Venezuela, foram vitórias dos que realmente desejam a paz. A paz dos fortes, a paz de guerreiros em descanso, que fiquem bem claro. Por que, em virtude do fascismo midiático que grassa em todo continente, ainda teremos muitas batalhas pela frente.

12 de março de 2008

Voltando ao latim & otras cositas

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O latim deveria voltar a ser ensinado nos colégios. Como matéria opcional, ao menos. Quando estudei Letras na Uerj, fiquei triste e decepcionado quando a direção da universidade decidiu reduzir o número de matérias de latim de oito para dois. Era a aula que eu gostava mais, que mais me interessava.

Com a internet, posso estudar latim novamente e ainda compartilhar essa alegria com vocês. Confiram aqui um curso de latim clássico, online e gratuito. No Google Books, também há várias gramáticas e cursos de latim. A maioria em inglês e bastante antigas. Digite Latin Course e faça a busca. Minha dica é essa aqui (em pdf). Ah, tem o livro do meu tio também.

Aqui um link para textos da Bíblia em latim e o áudio do mesmo texto. É latim vulgar, no caso, mas dá uma idéia da beleza, concisão e lógica da língua que originou o português e que influenciou profundamente todas as línguas ocidentais. Sim, se você observar bem, até as línguas anglo-saxônicas inspiraram-se no latim para se modernizarem. Não apenas o vocabulário - mais de dois terços das palavras do inglês vêm do latim - a própria estrutura da língua, sua lógica interna, seus processos de formação de tempos verbais, suas declinações, seus pronomes.

É interessante observar ainda que há termos em latim que se transformaram em palavras em inglês, mas não em português. O "altough", por exemplo, que significa "embora" ou "no entanto", tem como raíz a palavra latina "autem", com os mesmos sentidos. "Beautiful", palavra muito popular no inglês, mas que não existe em português, também vem do latim, de "beatum", abençoado. "Brother" vem de "brethen" ou "frater", irmão em latim.

O maior prêmio do estudante de latim é conseguir ler os clássicos da literatura romana no original: Virgílio, Catulo, Ovídio. A internet, mais uma vez, oferece excelentes oportunidades para isso. Clique aqui para ir a um site com texto e áudio de poemas dos autores citados.

Outro prêmio é uma consciência mais orgulhosa do que significa o qualificativo "Latina" pendurado em nossa "América".

*

Hoje participei, pela primeira vez, do Clube da Leitura, um agradável evento que acontece de duas em duas semanas na livraria Baratos da Ribeiro. Lêem-se contos de autores consagrados e dos participantes, tudo regado a salgadinhos, cerveja e bate papo.

*

Sobre esta bagunça entre o Brasil e a Espanha, queria fazer uma observação. O problema principal não é a Espanha impedir brasileiros de entrar em seu território. Esse é um problema grave, de agressão ao direito universal de ir e vir das pessoas, mas não a questão central. O problema maior é a humilhação e os maus tratos que os brasileiros estão sofrendo, passando fome, sede, desconforto e ficando horas sem comunicação com seus advogados, família, autoridades. Os estrangeiros que estão sendo rechaçados em nossos aeroportos o são com o máximo de dignidade possível. Recebem cafezinho, água, lanches, são bem tratados, e voltam imediatamente para seus países, sem passar pela humilhação de ficarem dias em cárcere privado, incomunicáveis, sem alimentação suficientem como ocorre com os brasileiros na Espanha.

*

Por fim, um poema de Catullus, um dos primeiros grandes poetas do classicismo latino.

Carmen 5

Vivamos, minha Lésbia, e amemos:
Os olhares de censura da sociedade,
não têm o valor de um mísero tostão.

O sol pode se pôr e novamente brilhar:
Quando a nossa breve luz se apagar
Doce e eterna será a nossa noite.

Dá-me mil beijos, depois outra centena,
E mais outros mil, e outros cem,
Então mais mil ainda, e mais um bocado:
Quando beijarmos vezes sem conta
Misturaremos tudo, para que nos percamos
E para que ninguém possa nos invejar
Ao saber que tantos, tantos,
Foram nossos beijos.


Tradução Miguel do Rosário

*

Depois de anlisar com mais cuidado, concluí que o melhor curso de latim, depois do curso do meu tio (que tem a vantagem de ser em português), é este, porque dá para você fazer os exercícios oralmente.

9 de março de 2008

Parabéns à paz

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A paz selada entre os presidentes Uribe, Correa e Chávez, na reunião realizada na República Dominicana, foi uma extraordinária resposta aos que torciam pela guerra e pela desagregação política da América do Sul. Parabéns aos três presidentes por colocarem os altos interesses e a paz acima de suas rixas pessoais, políticas ou ideológicas.

O aperto de mão entre os dirigentes latinos foi um exemplo de que as "repúblicas de banana" podem ser, às vezes, mais civilizadas e democráticas do que as dita "desenvolvidas".

Contribuição para um debate sobre a carga tributária brasileira

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Muito se tem falado sobre a alta carga tributária brasileira e, como não confio plenamente nas informações que circulam pela mídia, principalmente em temas como este, em que há interesses pesados de grandes empresas em jogo, por motivos óbvios e, de certa forma, legítimos, decidi investigar por conta própria, consultando diversas fontes. É um assunto chato e não sei se terei saco de voltar a ele posteriormente.

Trata-se de um tema de enorme relevância para a economia brasileira e, a partir do momento em que a oposição mais dura ao governo o elege como prioridade, ele necessaria e democraticamente passa a ocupar o centro dos debates. Não podemos deixar, todavia, que as forças conservadoras se apropriem tão facilmente da bandeira pela redução dos impostos.

Como disse, fiz minhas pesquisas, li artigos e consultei fontes oficiais e verifiquei que a carga tributária brasileira encontra-se atualmente em torno de 33% do PIB, segundo a nova metodologia do IBGE, ou em 38%, se usássemos o cálculo antigo. De fato, a carga tributária no país cresceu a ritmo bastante acelerado nos últimos anos, passando de 25,09% em 1993, quando se inicia o governo FHC, para 35,8%, em 2002, último ano deste. Um aumento de 42,8%. Com Lula, a carga continuou crescendo, embora em ritmo mais lento, passando dos já citados 35,8% em 2002 para 38,2% em 2007. Aumento de 6,5%.

No entanto, os números são frios e o diabo reside, como se sabe, nos detalhes. Uma característica particularmente cruel e nociva da carga tributária brasileira é o peso sobre a folha salarial, o que prejudica principalmente as pequenas e médias empresas, sobretudo aquelas que atuam em setores que usam mais mão-de-obra. O peso atual dos impostos sobre a folha salarial está em torno de 42%. Outros cálculos dão um peso de 67%. Um funcionário que ganha, por exemplo, R$ 1,5 mil por mês, custa ao empregado, além do salário, mais R$ 1,01 mil em impostos.

Há que se reduzir a carga tributária brasileira, sim, mas é preciso conhecermos bem a realidade. O governo, a oposição, a mídia e a academia deveriam patrocinar estudos para que a sociedade pudesse analisar com isenção e informação o que poderia ser feito para melhorar a qualidade da arrecadação fiscal no país.

O Brasil optou por um modelo tributária semelhante ao europeu. Os países europeus, aliás, continuam com cargas tributárias bem superiores à do Brasil. A França, por exemplo, tem carga tributária superior a 40%. A Inglaterra, país mais liberal, tem uma carga de 37%. Os países do norte da europa, modelos de qualidade de vida, são os campeões em impostos, com cargas que oscilam entre 42 e 51%.

Em artigo publicado no site da Associação Brasileira de Contribuintes (ABT), o economista Delfim Neto explica que a principal razão do crescimento da carga tributária nos últimos 20 anos foi a Constituição de 1988, na qual o país optou por uma séria de proteções sociais que não existem em outros países em desenvolvimento, com os quais jornalistas e empresários procuram comparar o Brasil, como os tigres asiáticos ou mesmo outras nações latino-americanas. Mal ou bem, com todos os problemas que conhecemos, o Brasil tem um sistema universal de saúde e educação, e uma previdência social com uma universalidade e eficiência que não existe na China ou na Índia, por exemplo, incluindo uma previdência rural totalmente subsidiada - conceito polêmico, eu sei, visto que os trabalhadores rurais efetivamente trabalharam e contribuíram para a economia nacional, mas o que significa "subsidiada" aqui é explicar que não houve contribuição financeira direta para construção de um fundo de aposentadorias rurais.

Além do mais, o Brasil é um país caro, em função de suas enormes extensões territoriais. Os recursos naturais que possuímos, como minério de ferro e terra para produzir soja, tem valor agregado muito baixo, são isentos da maior parte dos impostos e, portanto, não permitem pagam os custos enormes para assegurar a segurança, a saúde, a educação e a integridade nacionais.

Isso não é desculpa para que o país não reduza impostos. Mas é preciso ser realista sobre os obstáculos que se há de enfrentar. Temos uma Constituição que temos que respeitar. Poderíamos mudá-la. Mas creio que os brasileiros, ao votarem tão maciçamente em partidos de centro, centro-esquerda e esquerda, como PMDB, PT, PDT, PPS, PSDB, preferem um modelo de Estado que permita o bem estar social. Há que se respeitar a vontade popular.

Os Estados Unidos têm uma carga tributária em torno de 25% do PIB. Mas qual o PIB americano? US$ 13,7 trilhões. Isso significa, grosso modo, que o governo americano tem um orçamento US$ 3,42 trilhões. A carga tributária no Brasil corresponde a 33% do PIB, segundo a nova metodologia do IBGE, que convém respeitar por ser mais racional (desconta a devolução do imposto de renda aos contribuintes, o que não era contabilizado antes). O PIB brasileiro em 2007 foi de US$ 1,07 trilhão, de forma que a carga tributária equivale a aproximadamente US$ 353 bilhões. Trocando em miúdos: o governo americano tem mais de 3 trilhões de dólares para pagar segurança e obras, num país onde o setor privado investe pesado, enquanto o governo brasileiro tem 353 bilhões para aplicar num país onde o setor privado é, historicamente, anímico em termos de investimentos.

Com esses dados, podemos fazer a seguinte comparação. A carga tributária per capita nos EUA é de US$ 11,26 mil por habitante, contra US$ 1,91 mil no Brasil. Podemos ver pelo lado negativo, de imaginar cada americano pagando esse dinheirama toda para o governo, anualmente. Ou podemos ver pelo lado positivo, de imaginar o governo americano aplicando, em pesquisas, segurança, educação, ordem institucional, essa verba para cada cidadão. Como sabemos que grande parte deste dinheiro financia guerras e acabam na conta de grandes corporações militares privadas, a conclusão sobre a carga tributária nos EUA não é tão otimista.

Seja qual for o ângulo, a comparação entre as cargas tributárias per capita de Brasil e EUA torna o debate mais complexo e mostra que nossa carga, embora alta na relação com o PIB, não representa muito em termos per capita ou mesmo em valores absolutos. A carga tributária brasileira, em outras palavras, é alta porque o PIB nacional ainda é baixo em relação ao tamanho de sua população, e porque temos leis previdenciárias e trabalhistas muito mais rigorosas do que em outros países, como China e Índia, onde os trabalhadores ganham mal e suas aposentadorias são ínfimas. Na China, ainda se estuda a inclusão dos trabalhadores rurais no sistema de previdência social.

Finalizando, acho que o debate sobre a carga tributária no país é saudável e necessário. Mas é preciso enfrentá-lo sem radicalismos e, sobretudo, embasado na realidade e nas necessidades nacionais. O próprio crescimento e dinamismo atual da economia brasileira mostram que, se a carga tributária continua sendo um problema, seria exagero acusá-la de estar impedindo o desenvolvimento econômico e social do país. Em todos os países e em todos os tempos, os empresários sempre reclamaram dos impostos. A sociedade deve buscar aumentar a sua competitividade e desenvolver a economia sem prejudicar os serviços públicos de que a população necessita, sobretudo a parte mais pobre da população, mais dependente da estrutura do Estado.

Links:
1) Lista dos países com maior carga tributária, na relação com o Produto Interno Bruto.
2) Artigo do Delfim Netto, falando sobre a carga tributária e a Constituição de 1988.
3) Carga tributária no Brasil de 1991 a 1997.
4) Carga tributária no Brasil de 1998 a 2002 (página 16).
5) Carga tributária no Brasil de 2001 a 2005 (página 9).

6 de março de 2008

Ninguém critica o Uribe?

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Por que ainda me surpreendo? Nenhum colunista ou apresentador de nossa grande imprensa vai criticar o Uribe? Todos os editoriais e colunas fazem contorcionismo para minimizar o crime internacional do presidente colombiano e tentam transformar a crise por ele deflagrada, ao violar a soberania internacional, para atacar Chávez, Correa e Lula? A Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou Uribe. Todos os países da região condenaram Uribe. Até Sarkosy, o presidente direitista da França, condenou Uribe. E nenhum de nossos "colonistas", como diz o Amorim, irá fazer uma crítica simples, direta, franca, à atitude de Uribe? O que vemos são inofensivas críticas à violação territorial do Equador, imediatamente seguidas de mal ajambradas explicações sobre uma suposta permissividade do governo equatoria para com os guerrilheiros. Ora, as Farcs agem em território colombiano há mais de 30 anos. O governo colombiano recebe bilhões de dólares, além da assessoria militar direta, dos Estados Unidos para combater as Farcs, e mesmo assim não consegue controlar a movimentação das Farcs, porque o diminuto e pobre Equador teria que ser mais bem sucedido? Quer dizer que, se os guerrilheiros atravessarem a fronteira brasileira e se hospedarem num hotel em Rio Branco, Acre, o governo colombiano irá bombardear o Brasil? O Equador é que paga pela incompetência de Uribe, politica e militar, de desmobilizar as Farcs?

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Também não vi ninguém comentar por aqui o fato de que, com a crise imobiliária americana, todos os países que fizeram acordos comerciais diretos com os Estados Unidos, elevando sua dependência daquele país, deverão sofrer danos financeiros bem maiores do que aqueles que optaram por uma maior diversificação de mercados. É por essas e outras que a direita sul-americana é chamada de burra e retrógrada, chafurdando numa mentalidade pré-capitalista que só trouxe prejuízos econômicos e sociais para o nosso continente.

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Voltando ao Uribe. O cara tem histórico de ligação com o narcotráfico, invade outros países, quer mudar a Constituição para obter um terceiro mandato, mata covardemente a figura que estava negociando a libertação dos reféns - o que mostra a falta de compromisso de seu governo com os esforços humanitários de vários países - e nossos jornalões continuam cultuando sua imagem? Que fanatismo ideológico é esse? Vale tudo para defender a direita?

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O Ali Kamel escreveu um editorial "denunciando" que os beneficiários do Bolsa Família estavam usando o dinheiro do programa para adquirir eletrodomésticos, entre outras coisas, e não somente alimentos. Em editorial, o Globo apóia a "denúncia", atacando a validade de um programa elogiado por todos os organismos internacionais, e que deve ser copiado até pela prefeitura de Nova York, comandada por um político conservador.

Kamel e Globo acham que os pobres são bichos? Que suas necessidades se limitam à comida? É uma posição tão estúpida que não tenho vontade nem de responder. Lembro daquele frei mala que acha que o nordestino deve viver à base de água. Indústria, agricultura, serviços, são forças do mal. Ele quer manter o seu rebanho submisso e miserável, sem as "tentações" que o desenvolvimento econômico fatalmente irá trazer para as regiões nordestinas beneficiadas pelo desvio de parte da água do São Francisco.

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Finalmente alguém tomou uma atitude contra o Ministro Marco Aurélio Mello. Depois da surra verbal que tomou de Lula e da pressão que o PT iniciou contra ele, com ameaça de processo e mesmo de impeachment, o ministro talvez contenha aquela língua de cobra.

4 de março de 2008

Uribao, Leitao, Estadao e mensalao: meditacoes sobre a esquizofrenia midiática

6 comentarios

O imbróglio entre Colômbia e Equador provocou, em nossa inefável mídia, as reaçoes mais esquizofrenicas dos últimos tempos. Como de praxe, é sempre o samba de uma nota só. Editoriais, colunistas, comentaristas, dizem a mesma coisa. Lucia Hippólito, Miriam Leitao, Sardenberg, Estadao, e demais megeras desdentadas cantam juntinhos no desafinado coro dos golpistas de ar-condicionado.

Como sao todos a mesma coisa, pego dois como exemplo e já estou bem servido. Um é o editorial do Estadao do dia 4 de março de 2008. Inicia assim: "A incursão das forças colombianas contra um acampamento das Farc localizado no lado equatoriano da fronteira - da qual resultou a morte do Raúl Reyes, segundo homem na hierarquia da organização terrorista - constituiu, sem dúvida, uma violação da integridade territorial e da soberania do Equador."

Outro exemplo é a coluna da Miriam Leitao desta terça-feira 04 de março: "A Colômbia não podia ter entrado com tropas no Equador. É violação do território. Mas o Equador e a Venezuela não podem mais ser áreas de abrigo dos bandidos das Farc. A posição mais correta no caso é a que reconhece os erros dos dois lados. "

Admitem, como se vê, que Uribe errou, e errou feio. Mas... Mas... MAAAAASSS... Em todos, há um grande e sonoro "mas", onde desfiam-se desculpas estapafúrdias para justificar o injustificável. Acusam, sem provas, Venezuela e Equador de serem lenientes com as Farc em seus territórios, equiparando um ato inconteste, uma agressao militar a um país amigo, uma violaçao do direito sagrado de soberania, a suspeitas levianas, inconsistentes e que, de qualquer forma, nao justificariam o ato de Uribe. Se o governo da Colômbia, com toda a ajuda militar e financeira que recebe dos Estados Unidos, depois de décadas de conflito com as Farc, nao conseguem controlar ou evitar a movimentaçao da guerrilha em seu território, como pode exigir que outros países, que nem tem obrigacao nenhuma de combater as Farc, porque elas nao sao inimigas de seus governos, enfim, como pode exigir que esses países evitem deslocamentos dos guerrilheiros em seu território?

O Estadao chega ao cúmulo de terminar seu editorial condenando Chávez e Correa. Ou seja, Uribe ataca unilateralmente um país vizinho, rompendo a sagrada paz internacional sul-americana e o culpado é o país atacado!

A Miriam Leitao gostou do tema e está produzindo bastante. Num post de seu blog, ela vai mais longe e aproveita a bafafá latino para dar sua mordidinha básica no Lula:

"No Bom Dia Brasil
Brasil precisava ter condenado presença da Farc no Equador

A manifestação do governo brasileiro com relação à crise entre Equador e Colômbia foi fraca e teve um lado só: condenou a invasão do território do Equador pelo exército colombiano. Isso fere de fato a soberania do Equador, e o governo está certo em condená-la. Mas o Planalto erra ao não condenar também o Equador diante das evidências claríssimas de que o território do país estava sendo usado pelas Farc. O presidente equatoriano Rafael Correa não mostra a mesma indignação ao saber que seu território estava ocupado por narcoterroristas."

Tropa de elite, osso duro de roer, pega um pega geral, também vai pegar você. Leitao tá parecendo o Capitao Nascimento. Sai matando, sem escrúpulo nenhum. Se Uribe decidiu partir pra guerra só agora, Miriam já o faz há tempo. Moral da história: a falta de escrúplos é consequência da guerra e o grande trunfo da direita é sua inabalável auto-confiança moral mesmo chafurdando na mais fétida lama.

Felizmente, nao estou sozinho. Leiam o que escreveu um leitor da própria Miriam, comentando o post da jornalista.

"Apelido: Andre_Luis - 4/3/2008 - 15:01

Míriam está errada. À luz do direito internacional (à luz jurídica, que não engloba juízo de valor de caráter político, econômico ou militar), houve apenas ilícito internacional de uma parte, a Colômbia, por ter desrespeitado a soberania equatoriana sobre seu território. Não houve ilícito internacional pelo suposto apoio venezuelano-equatoriano às Farc; em 1º lugar, tal auxílio é suposto, enquanto o ato colombiano é inconteste; em 2º lugar, independente de quaisquer opiniões pessoais (a meu ver, por exemplo, a Farc é uma laia de criminosos) ou definições de ordem jurídica interna colombiana, os governos equatoriano e venezuelano (ou qualquer outro) são, à luz do dir. int., licitamente soberanos para acomodar ou ñ em seu território quem lhes convenha (independente de ser moralmente errado ou certo, o que importa é se o ato em tela é um ilícito à luz do direito internacional). Apenas um ilícito internacional poderia suscitar declaração pública de reprovação pelo Brasil, e apenas a Colômbia neste caso o cometeu. "

Valeu André, poupou-me alguns neurônios. Adoro a internet por causa disso. Miriam falou besteira. Se o Itamaraty ouvisse Miriam, teria já estourado uma guerra nos Andes.

Tem outro ponto, no entanto, que quero abordar. Voces sabiam que Uribe está tentando fazer uma reforma nas leis do país para permitir um terceiro mandato? A própria mídia, em algumas das matérias que têm feito sobre o presidente colombiano em meio à essa crise, tem abordado, muito sutilmente (como convém fazer com amigos), esse detalhe. Depois de meses de longos editoriais contra o viés ditatorial por trás das tentativas de Chávez e Evo Morales de mudarem as leis de seu país para eliminar a restriçao contra a reeleiçao, depois de insistir por outros meses no factóide do terceiro mandato de Lula - sempre reverberando supostos objetivos totalitários -, eis que agora ninguém faz editorial contra os planos de Uribe de disputar a presidência pela terceira vez. Da mesma forma, a midia nunca deu ênfase ao fato de que Fernando Henrique Cardoso, na metade final de seu mandato, e por iniciativa do Executivo, mudou a Constituiçao brasileira para que pudesse participar mais uma vez do pleito...

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Ainda nao consigo engolir o mensalao. Ja tentei de todo jeito encontrar alguma coerência nessa história, e nada. A mídia apenas desinforma. Criaram um folclore e alimentam-no com caretas de nojo da Regina Durante e a voz da Ivete Sangalo no volume máximo. O mensalao virou uma espécie de dogma, apesar da inconsistência dos fatos. Se a mídia acha que o mensalao existiu mesmo, ou antes, se tem tanta certeza - tanta que hoje acreditar no mensalao tornou-se quase uma obrigaçao ideológica da direita, da ultra-esquerda e dos famosos "indignados úteis" - porque nao esclarece as seguintes dúvidas:

1) Se existiu o mensalao, porque nenhum parlamentar, nem mesmo os mais ferrenhos adversários de Lula, afirmaram que receberam ou afirmaram ter visto ou sabido de alguém que recebeu dinheiro para votar com o governo? No caso da compra de votos para a reeleiçao de votos do FHC, havia uma gravaçao onde parlamentares admitiam ter recebido mais de 100 mil reais para votar a favor da reeleiçao. E ali estávamos em face de um projeto explícito de busca de ampliaçao de poder, através de sua prorrogaçao por mais um mandato, o que mobiliza ambicoes apaixonadas e dá consistência racional às razoes para produzir tal ilícito. Mas pagar mensalao para votar reforma de previdência? Uma reforma que só trouxe hostilidade ao governo? Tenha dó.

2) Por que a palavra de Jefferson vale tanto, mesmo sem ele ter conseguido provar nada? Para lançar as graves acusaçoes que fez, o mínimo que se pedia de Jefferson é que apresentasse algum documento, gravaçao, bilhete, que comprovasse a existência do mensalao. Como uma figura de reputaçao tao suja como Jefferson pôde ser legitimado como fiador de uma teoria que denigre profundamente a honra do Congresso Nacional e a Presidência da República, as duas mais importantes e democráticas instituiçoes federais, e que, diferentemente da Justiça, sao periodicamente submetidas ao julgamento político e eleitoral da sociedade. Por que a palavra dele vale tanto?

3) Quais foram as votaçoes que o governo "pagou" com o mensalao? Por que Jefferson nunca disse? Por que nunca perguntaram a ele? Se houve votaçao paga, eu gostaria muito de saber quais foram. Se eu acreditasse no mensalao, nao me contentaria com isso, em saber que sim, que o mensalao existiu, mas correria atrás de informaçoes sobre quais votacoes e quem votou a favor ou contra.

4) O Congresso Nacional tem 513 deputados. Quantos deputados teriam que ser "pagos" para votar com o governo? Para ter certeza absoluta da vitória, teria que pagar 255 deputados, a maioria simples. Se precisa de dois terços, a coisa complicaria ainda mais. Para "comprar" metade do Congresso nacional, o governo teria que desembolsar 12,5 milhoes por mês para parlamentares, usando como referência o valor mensal de R$ 50 mil do mensalao, conforme as palavras de Roberto Jefferson, o "moisés do mensalao".

5) A mídia poderia fazer um levantamento das principais votaçoes ocorridas no período quando, supostamente, teria havido o mensalao. Ponham as cartas na mesa. Onde está o espírito de investigaçao? Por que as CPIs nao procuraram saber quais foram as votaçoes. Foi a reforma da previdência? Foi a votaçao do salário mínimo? Sabendo as cotacoes, teríamos como observar que interesses estariam por trás das mudanças.

6) Por que petistas teriam recebido dinheiro para votar com o governo petista? Eram rebeldes? Se dessem mensalao à Heloísa Helena, ao Babá, à Luciana Genro, haveria uma lógica. Eles nao queriam votar com o governo e o pagamento serviria para fazê-los pensar melhor. Mas pagar mensalao ao Luizinho, um dos lideres do governo na Câmara, e só 15 mil reais, isso eu nao entendo. O Jefferson falou que o mensalao era de 50 mil reais. Era uma quantia mensal de 50 mil reais, paga para o parlamentar votar junto com o governo. O deputado Luizinho, repito, recebeu apenas depósito de 15 mil reais, sacado por um assessor. Pelos critérios de Jefferson, que é a testemunha única do mensalao no Brasil, Luizinho nao pode, tecnicamente ser chamado de mensaleiro. Há que se ter um mínimo de coerência terminológica.

7) Nenhuma das votaçoes ocorridas no período do suposto mensalao versavam sobre aumento do poder executivo, seja prolongamento do tempo de gestao seja destravando a proibiçao de concorrer a um terceiro mandato. Eram votaçoes importantes, mas que nao justificavam, sob nenhum ângulo, a organizaçao de um sistema de pagamento a parlamentares.

8) O sigilo do voto dos parlamentares, e o fato de termos 513 deputados no Congresso, também ajudam a enfraquecer a tese do mensalao, que supoe um risco grande demais para resultados tao indiretos, pífios e - por causa do voto secreto - incertos.

9) Ninguém quer admitir o que é mais fácil, que o mensalao foi mesmo distribuiçao das sobras de campanha aos partidos aliados. A tese de comprar apoio político é perniciosa, porque criminaliza um fato normal, que sao as alianças político-eleitorais de partidos e candidatos, inclusive com acordos financeiros. E quando um partido participa de uma eleiçao junto com outro partido, dividindo despesas e planos eleitorais, isso implica parceria política e alinhamento nos debates e votaçoes na Câmara.

10) Quais sao as relaçoes de Daniel Dantas com Marcos Valérios? Vários jornalistas ja denunciaram a proximidade entre esses dois personagens. Por que ninguém vai investigar isso mais à fundo?

Lênin no inferno

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Essa do Paulo Coelho, com certeza ele pegou na internet e traduziu. A história é engraçada:

http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/2007/02/20/lenin-desce-aos-infernos/

Uribe ligado ao narcotráfico

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Leiam essa matéria publicada na Newsweek, que fala sobre o envolvimento de Uribe com o narcotráfico. Hoje ele é o queridinho da direita sulamericana a qual, enfraquecida politicamente, se escora nas mídias para sobreviver e influenciar o destino do continente.

Leiam isso aqui

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http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2008-03-02_2008-03-08.html#2008_03-03_02_47_48-10045644-27

Sobretudo a parte sobre a sinuca:

10. Um servidor do setor de manutenção do Ministério das Comunicações ganhou notoriedade por ter mandado reparar o forro de uma mesa de sinuca. O móvel encontra-se na garagem do ministério há 16 anos, desde 1992. Traz a plaqueta de “patrimônio da União”. É usado como passatempo dos motoristas, nos horários de folga. Para a CGU, a despesa foi absolutamente legal.

E isso também.