26 de outubro de 2011

A calúnia venceu o Brasil

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A resposta para a pergunta que intitulava o meu post anterior (Brasil vencerá a calúnia?) foi dada hoje: infelizmente é não. Tivemos uma vitória rápida ao final da semana passada, mas o governo se acovardou de maneira lamentável. O poder da mídia de produzir crise continua intacto. É o que lhe resta. Fazer campanhas sem escrúpulos para derrubar ministros, como num videogame. Eu vou ter que mergulhar por alguns dias, porque engajei-me num projeto solitário que me obriga a voltar a estudar wordpress e php.

Marcia Denser: A literatura como sentença de morte

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(Mirisola, Denser e Sérgio Sá)


Algumas considerações sobre Charque, novo romance de Marcelo Mirisola

Por Márcia Denser, publicado originalmente no Congresso em Foco

Sempre que preciso escrever um grande texto (e este será um deles, vocês podem apostar), começo examinando minhas razões. Mas é bom avisar previamente do que se trata: será uma espécie de crítica ficcional (ou vice- versa) do novo livro, o 12º. de Marcelo Mirisola, Charque (S.Paulo, Barcarolla, 2011) a ser lançado na Mercearia São Pedro dia 31 de outubro próximo.

Voltando às razões: 1) Escrevo porque gosto de Mirisola, ele é meu amigo e porque há trinta anos eu esperava aparecer no Brasil um cara que tivesse a minha envergadura literária, como é o caso – raríssimo – de MM, e a gente sempre gosta do semelhante, right? (repito, a modéstia definitivamente não é uma das minhas qualidades).

Bom, essa não serve, ninguém escreve porque gosta do sujeito e eu sou famosa precisamente por ser INSUBORNÁVEL – e tomo toda a comunidade literária como testemunha; mas no caso de MM isso não seria problema; 2) Escrevo por vaidade, pra me mostrar – provar que sou melhor que o autor! – e esta eu coloco totalmente fora de cogitação, porque: 3) Escrevo pela Literatura, que anda uma merda, equivocada, esquecida da sua condição de Grande Arte, sua função primordial – a única que ganha Prêmio Nobel.

Naturalmente, ficamos com a terceira hipótese.

Nessa altura do campeonato literário de MM, o leitor terá algumas surpresas: em primeiro lugar esta É A Biografia Pra Valer do autor mais autobiográfico do país (aliás, considerado por quase todos – crítica, público & despachantes afins – como totalmente autobiográfico ao longo dos onze livros anteriores!). Só que antes era MESMO ficção. Quer dizer, poesia, esculacho e um talento inusitado.

Mas agora é pra valer.

Charque é um romance de aventuras, fatos e ficções – o que, atualmente, significa oscilar entre a poesia e o desacontecimento – mentiras & verdades (mais mentiras que verdades embora só estas doam, posto que verdades. Ainda).

Sem contar o estilo e suas avaliações hilariantes dessa sub-realidade de merchandising (a que nós chamamos vida), dessa sub-vida, deste sub-horizonte pop de postes e parabólicas onde atrapalhamos o trânsito do passado recente (dos 80 aos 2000); algo que ele realiza com a precisão do acaso ao percorrer aleatoriamente a geografia nacional – de Manaus a Maceió, de Serra Pelada às praias de Florianópolis, com quebradas, descidas e subidas (por sinal, mais descidas que subidas, aliás todas equivocadas); um trancetê de ponte aérea Rio-Sampa onde autor/ narrador no fundo, na verdade, o tempo todo e A DESPEITO DE SI MESMO (à sua revelia) persegue um objetivo central: sua função de escritor.

Sem que o leitor tenha a menor idéia do que está REALMENTE se passando. Nem ele.

Boto a mão no fogo como MM não sabia o que estava fazendo ao imaginar que simplesmente estivesse “reincidindo” na escritura do Azul do Filho Morto. Sim, claro. Ali ele puxou o fio da infância: lambidas nos azulejos, masturbações pro cão pastor capa-preta, as empregadinhas, a cueca pelo lado do avesso, o nono, o Palestra Itália, o cazzo e por aí vai.

Certo, o menino de Pinheiros, bochechudo, rico e bem careta – protótipo do paulichão de chinelo, o da poltrona, inclusive pelo sotaque, aquele que só escrevia pra parar de escrever no dia em que se casasse na igreja da Acharopita com uma Andressa ou Juliana ou Tatiana ou Adriana que o chamasse de “benhê”, tivesse cinco filhos, assistisse ao Domingão do Faustão, etc., até que a morte e o esquecimento o apagassem, a ele & respectiva famiglia, como de praxe ocorre a 99% duma população marasmática para a quem a “apatia” virou categoria olímpica.

Mas O Azul MM publicou faz dez anos, contudo – que fique bem claro – autores de primeiro time evoluem, se transformam, senão não seriam de primeiro time.

Degradando in-extremis a coisa (porque agora me emputeci), a função, o objetivo do escritor, não é fazer gracinhas ao longo de onze livros (embora, se já ficasse por aí, MM permaneceria tranquilamente uns trinta anos luz à frente do segundo colocado). A função do escritor é dizer ao que veio, realizar pra posteridade sua absoluta originalidade; explicar porque sua obra é como uma pedra angular do edifício literário que, se deslocada, todo o edifício cai. Se for de primeiro time.

E Marcelo é o único escritor brasileiro publicado pós-90 de primeiro time. É bom esclarecer essa história de “escritores” e escritores, cuja maioria absoluta, atualmente, não passam de “despachantes” – o termo é do Miri (“micro-empresário” era a definição dos anos 90 do Contardo Calegaris – ou assemelhado, sei lá, gênero colaboradores do Caderno Mais. Esses caras que escrevem “ensaios” em quantidades industriais e durante anos e não fazem a mínima diferença).

Já notaram como TUDO fica vertiginosamente velho ANTES de brotar e amadurecer?

E vocês não acham que aí tem algo muito ERRADO? Quer dizer, aqueles que ainda acham alguma coisa.

Mas malandro é gato que nasce de bigode, certo?

Vou começar novamente: Charque, décimo segundo livro de Mirisola, é um romance a respeito da absoluta falta de imaginação nacional; Charque é um épico da poesia cruel, ressentida e extremamente eficiente, que resulta do fato do sujeito só pensar em si próprio – inconscientemente. É a Lei de Gerson posta em prática, segundo MM.

Pra escrevê-lo, como autor da série rigorosamente literária, foi preciso muita paixão, muito encanto e muitíssimo culhão. Certo. MM não é mesmo um suicida de primeira viagem, até porque lê horóscopo antes de ir para a câmara de gás.

Charque é como se o autor fizesse, paralelamente, a liquidação da sua alma e a do Brasil, donde se tratar dum guia infalível para a própria morte social. Além de histórico-geográfica: dessa vez te confiscam a cidadania!(cruzes, com a espinafração do Machado, só para “Acadimia” vais virar um mix de louco com leproso. Isso se eles forem minimamente criativos, o que eu duvido).

É a autobiografia recorrente do inconfessável, simultaneamente do autor e do Brasil. Sem desmentir o falso priaprismo metanarcísico de MM antecipadamente rendido.

É a fuga submersa pra dentro e para baixo – ao centro involuntário da covardia e da dor. Não esquecendo o roteiro de viagens tipo “conheça o Brasil!”: seu guia de compras na faixa de Gaza, sua carona garantida para a desmemória. Perdeu, perdeu, meu amigo brasileiro – desde sempre, atualmente e doravante ­– você sempre perde. De caso pensado. É teu segredo de polichinelo, ou seja, inconfessável só para você mesmo. E não é para menos, não é mesmo? Você é o PIB da cacofonia com a macaqueação, Machado de Assis incluído, “o máximo do mínimo”, segundo Marcelo.

Do livro, uma única e monumental cagada: o título – que merda é essa?

Outra: Você enche o saco com a Marisete!Quem dá cartaz pra trouxa é lavadeira!Dá serviço e um banho de loja nessa tua ânima desocupada! E protéica: mulher, animal, putíssima, gato, cachorra (e todas feias, sujas, burras e rampeiras!) – dá vontade de te mandar cultivar açafrões no jardim gay do Caio. Sei lá, sobe o nível, meu chapa (mas, oooooooops, perdão, não é de VOCÊ que se trata exatamente, mas do Brecão, o nosso brasileirinho médio e des-agregado).

A dúvida relativa e a grande frase: “Ainda que a delicadeza me escape, num arroubo de afeto e outro de repulsa merecida, será que apesar de tudo:
- Depois da queda (ainda que morto o menino),
Servirão as mesmas asas para voltar?”

Pra onde, Mirisola?

Quanto às asas, o caminho se descobre caminhando: se não te aleijarem até lá, normal.

Asas?A propósito, aqui cabe uma advertência ao autor que meus mais de cinquenta me sancionam: só não continuo escrevendo assim por preguiça, covardia, moral baixa, comodismo, falta de tesão e vergonha na cara. Elementos que nada têm a ver com asas. Se liga, Marini!

Naturalmente, não vou contar o fim do livro, mas Mirisola descobre e realiza sua função de escritor. No último capítulo. Mas dou uma dica, algo que também descobri aos 38 anos escrevendo a primeira versão do meu romance Caim. Tá lá, na primeira página:

Nem remetente, nem destinatário,
Nem sacrificante nem sacrificado, nem algoz nem vítima,
Mas se tornar ela própria o sacrifício,
A palavra redentora que já não perguntava nem respondia,
Que se consumava,
Mas isto não é meu corpo,
Isto não é meu sangue,
Posto que sombra, não tenho posteridade,
O que se multiplica é minha iniqüidade.
O meu nome, a minha assinatura,
É uma sentença de morte.
A minha sepultura
A minha lápide,
A minha cruz.

Pois é, a tua também, Mirisola.

Foda-se!

22 de outubro de 2011

Brasil venceu a calúnia?

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(O abraço que Marco Aurélio Garcia deu em Orlando Silva
é um abraço que milhões de brasileiros queriam dar)


Foi uma sexta-feira turbulentíssima. A mídia apertou o cerco em torno de Orlando Silva. Seus exércitos iniciaram um bombardeio concentrado durante o dia inteiro, tentando produzir um fato consumado. Na verdade, desde o dia anterior, a mídia vinha divulgando que o Planalto "emitira sinais" de que Orlando deveria pedir demissão. A manchete do Jornal O Globo da quinta-feira era enorme, bombástica e definitiva: Planalto decide afastar Orlando Silva. E nesta sexta quase todos os principais jornalistas políticos anunciavam a queda do ministro como inevitável.

Até que, finalmente, chega a patroa. Dilma Rousseff voltou da África, deu declarações irritadas acerca das notícias sobre sua suposta decisão de afastar Orlando Silva, reuniu-se a portas fechadas com o ministro e, por fim, decidiu que ele permanece no cargo. Foi uma tremenda vitória contra a calúnia, contra a manipulação da notícia, e contra os desmandos enlouquecidos de uma mídia sem escrúpulos.

A tensão gerada pela onda crescente e delirante de denúncias vazias acabou, como era de se esperar, transformando-se em rancor também contra o governo, acusado de agir com pusilanimidade em face ao golpismo midiático. "O governo é covarde", tem sido uma acusação frequente.

De fato, é inegável que os políticos brasileiros têm medo da mídia. É preciso entender, porém, que a mídia não precisa passar pelo incômodo eleitoral. Ela tem dinheiro e estabilidade. Já o poder dos representantes políticos sofre de uma grande "fragilidade" (que também é sua força) democrática: é temporário e descartável.

Lembremos que o conflito entre mídia e governo tem sido um problema grave em todo mundo, e acontece de uma forma muito acentuada na América Latina. As instituições políticas por aqui não são respeitadas. Mas é injustiça dizer que o governo brasileiro e as lideranças políticas não estão reagindo.

Hoje o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, fez declarações contundentes contra o que ele chamou de fascismo pós-moderno.


A própria presidente tem feito, frequentemente, declarações bastante enfáticas contra o prejulgamento e o linchamento político. Hoje mesmo o Planalto divulgou uma nota dura, seca e direta, como uma bala:

Nota à imprensa

Após a reunião com o ministro do Esporte, Orlando Silva, a presidenta Dilma Rousseff disse que o governo “não condena ninguém sem provas e parte do princípio civilizatório da presunção da inocência”.

“Não lutamos inutilmente para acabar com o arbítrio e não vamos aceitar que alguém seja condenado sumariamente”, disse a presidenta.

Na reunião, o ministro informou à presidenta que tomou todas as medidas para corrigir e punir malfeitos, ressarcir os cofres públicos e aperfeiçoar os mecanismos de controle do Ministério do Esporte.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Agora, é evidente que o governo precisa agir com prudência. O governo é um animal pesado, que se movimenta e se comunica com extrema lentidão e dificuldade, pois cada ato e cada palavra devem ser sopesados para que se coadunem sem traumas à sua mentalidade algo esquizofrênica, com múltiplas personalidades.

No entanto, a cada passo dado, a cada palavra emitida, dá-se uma grande transformação. Um pequeno gesto governamental pode ter um enorme significado histórico. O sofrimento do ministro Orlando Silva e dos militantes do aguerrido PCdoB, certamente se converterá numa consciência política mais aguçada, mais astuta, mais forte.

A estratégia de criminalizar a política tem sido o padrão da mídia. O simples fato de uma pessoa ser "filiada" a um partido político torna-a suspeita, como se esta filiação não fosse, na verdade, um ato de transparência ideológica. E o ministério dos Esportes pagou até por seus acertos. Condenou-se sumariamente o ministério pelo fato dele estar fazendo cobranças judiciais contra ongs dirigidas por filiados do próprio PCdoB, como era o caso das entidades dirigidas pelo PM João Dias.O ministério provou que não perdoa ninguém.

Faltou, como sempre, bom senso. O Ministério dos Esportes foi entregue ao PCdoB para que este implantasse políticas em linha com os ideais do partido. É natural, se ele deve contratar entidades privadas, que sejam selecionadas algumas que partilhem dessas mesmas estratégias. Há irregularidades? Sim, sempre há. Mas novamente usemos o bom senso. Há dois tipos de irregularidades. Algumas são provocadas por confusão burocrática. Muitas correspondem a desvios de verbas. Não há nenhuma relação destas últimas, porém, com o PCdoB. Ao contrário, no ranking da corrupção, o PCdoB sempre figurou num dos últimos lugares.

O Ministério mostrou que tem estado atento às irregularidades, às quais correspondem a um percentual pequeno do montante total das ações. Não se pode culpar o ministério, ou o ministro, por erros de terceiros. O ministério é obrigado a dar um voto de confiança às entidades com as quais tem parceria. O governo não pode antever que empresas lhe passarão a perna. O que ele faz é examinar as contas, no âmbito dos próprios ministérios, junto ao Tribunal de Contas e através da Controladoria Geral da União, e, no caso de encontrar problemas, tomar as devidas providências.

O que causa espanto nesse processo todo é a estratégia articulada da mídia para derrubar o ministro. Divulgam-se denúncias uma após a outra, sem preocupação nenhuma com sua consistência. O importante é fazer volume e criar uma atmosfera de crise e linchamento, com vistas a pressionar o governo a tomar uma decisão rápida e intempestiva.

A compra de um terreno de 370 mil num lugar isolado do interior de São Paulo é considerado um crime. O fato da mulher do ministro dos Esportes dar assistência na produção de um documentário feito por uma ONG, sob encomenda do ministério da Justiça, é sensacionalizado. "Mulher de ministro recebe dinheiro do governo", diz a manchete. Ora, a mulher do Serra tem ONG que recebe há anos patrocínio do governo de São Paulo. Dona Ruth, que Deus a tenha, sempre teve ONG patrocinada com dinheiro público. E os últimos casos envolvem milhões de reais, e uma relação direta entre as esposas e o governo, enquanto a mulher do ministro ganhou apenas 40 mil para trabalhar num documentário sobre a ditadura, que obteve, através de uma outra ong, patrocínio de um ministério sem nenhuma relação com seu marido.

Não é o caso de justificar um erro com outro, mas apenas apontar uma injustiça. A mulher do ministro não estava cometendo nenhuma ilegalidade. A lei do nepotismo proíbe o ministro de empregar a sua mulher no ministério, mas não fecha à ela, arbitrariamente, as portas de toda instituição pública.

Em Vigiar e Punir, Foucault nos fala que a história da punição evoluiu de tal maneira que os castigos corporais foram substituídos, gradualmente, por castigos voltados ao espírito:

... e desde então os juízes, pouco a pouco, mas por um processo que remonta bem longe no tempo, começaram a julgar coisa diferente além dos crimes: a alma dos criminosos.

É assim que tem feito a imprensa, ao assumir o papel de um verdadeiro e terrível tribunal de exceção.

Num mundo cada vez mais dominado pela comunicação rápida, onde uma acusação rapidamente multiplica-se em milhões de links, comentários, piadas e juízos, uma calúnia corresponde a um sofrimento bem pior do que uma dor física, porque ataca diretamente a honra, ou seja, a alma do acusado. E dificilmente a ferida cicatriza, porque é extremamente complicado fazer a calúnia fazer o caminho de volta, apagando seus rastros. Na era da internet, as acusações precipitadas, os comentários maldosos, as piadas cruéis, permanecem na rede para sempre, constituindo uma espécie de castigo perpétuo.

Não é de se espantar que os políticos tenham receio da mídia! A mídia pode destruir não apenas a sua carreira política, mas algo muito mais importante: a sua honra, a sua dignidade, a sua alma.

Diante de um poder tão terrível concentrado em mãos inescrupulosas, é natural, ou antes, é necessário que uma parte da sociedade exija que haja um controle democrático da mídia. Não podemos mais ficar reféns dessa nova espécie de tirania, que de certa forma, parece a mais terrível de todas, porque tem o poder de vida e morte sobre a honra dos cidadãos.

Como diria Lênin: o que fazer? Eu vejo as pessoas pedirem uma Ley dos Medios, ou democratização dos meios de comunicação, sem no entanto saber muito bem do que estão falando. E o debate, é forçoso dizer, está sendo vencido pela mídia corporativa. Quanto a isso, tenho mantido uma postura bastante cética. Eu acho fundamental que seja discutido um novo marco regulatório das comunicações. Mas tanta coisa vai mudar quando houver a convergência digital e a entrada definitiva das telefônicas no mercado de televisão digital e a cabo; tanta coisa vai mudar quando a maioria da população tiver acesso a uma banda larga decente; enfim, estamos no limiar de mudanças tecnológicas - e consequentemente, culturais - tão profundas, que acho um pouco ingênuo a gente pretender que será uma lei federal que mudará substancialmente, no curto prazo, a correlação de forças dentro da mídia.

O problema principal, a meu ver, é de ordem prática e orgânica para os partidos e forças políticas do campo popular. Eles têm sido o alvo principal dos ataques midiáticos. Não devemos, no entanto, alimentar um complexo de derrota fora da realidade. A esquerda, com mídia golpista e tudo, tem crescido a um ritmo bastante acelerado no Brasil, e possivelmente crescerá ainda mais em 2012.

Enfim, este problema de ordem prática pode ser resolvido com a instalação, dentro dos partidos e governos, de assessorias de comunicação mais competentes e mais ousadas. A sociedade civil engajada, ou seja, a militância, tem se mostrado bastante presente, e é justamente a ausência do governo nesta seara que a obrigou a portar-se com admirável autonomia e desenvoltura. Há uma responsabilidade, na guerra da comunicação, que pertence à esfera privada, e neste campo também a mídia tem encontrado alguns obstáculos sérios. Há uma pedra no caminho da mídia: ou melhor, muitas pedras: os blogs progressistas.

Nestes momentos de tensão, as pessoas costumam se deixar levar por raciocínios e julgamentos apressados. Não se deve fazer uma análise política com paixão ou rancor. O governo tem se manifestado, nos últimos anos, com uma assertividade cada vez maior em relação aos ataques midiáticos. As declarações de Tarso Genro, acusando a existência de um fascismo pós-moderno (referindo-se, é claro, à mídia) seriam impensáveis há alguns anos. A maneira como Orlando Silva se portou durante esta crise, com altivez e serenidade, respondendo com muita objetividade a todas as calúnias, também mostra que os representantes políticos estão amadurecendo sim.



É preciso elogiar, sobretudo, o espírito combativo, solidário e enérgico do PCdoB e seus militantes, que diferentemente do PT, que costuma ceder a divisões internas, agiu como um bloco uníssono em defesa da honra de um grande quadro. Uma postura que certamente inspirou militantes e dirigentes de outros partidos.

Enfim, as instituições políticas brasileiras sofreram o enésimo ataque, e mais uma vez resistiram. Quero acreditar que, a cada ataque do conservadorismo midiático e golpista, as forças populares emergem fortalecidas. Afinal, não existe melhor exercício político do que a luta.

Devemos, portanto, combater essa tendência, tão constante em nosso povo que se tornou quase um vício, de nos autodepreciarmos. O Brasil venceu mais essa guerra. Orlando Silva resistiu. Devemos comemorar e usar esta experiência para as muitas batalhas que ainda virão. Provavelmente enfrentaremos derrotas, mas também aprenderemos com estas para vencermos mais à frente.

A necessária acomodação entre forças sociais antagônicas tem sido um terrível desafio para qualquer nação. Os EUA perderam quase 1 milhão de vidas com uma guerra civil onde o que estava em jogo era exatamente o mesmo que experimentamos no Brasil: a luta entre conservadorismo e progressismo. Mais tarde, viveu uma época de caça-às-bruxas que até hoje envergonha o povo americano. A Europa, por sua vez, antes de atingir seu atual estágio de desenvolvimento econômico, político e social, testemunhou o nascimento de ideologias fascistas que resultaram em massacres e guerras.

Não esperemos que seja fácil para o Brasil superar suas contradições. A mídia é a cabeça de uma poderosa hidra, e não tem poder por si só, mas por representar setores sociais situados no alto da pirâmide. Não a subestimemos. A mídia brasileira é talentosa, criativa, sabe se reinventar a cada derrota, e sabe que o Brasil, mal ou bem, precisa dela, já que ela é o meio pelo qual a maioria do povo tem acesso a informações necessárias à cidadania. Essa é uma guerra que lutaremos sem cairmos na tolice do maniqueísmo. Santo Agostinho ensinava que tudo que existe tem bondade, pois em caso contrário não existiria, nem poderia ser corrompido - pois o que é mal, por ser mal, não pode sequer ser corrompido. Tudo que existe vem de Deus, dizia ele; na minha versão atéia, isto significa que tudo que existe e tem força possui uma importância histórica e uma utilidade social (com exceção da escravidão, que é a negação da liberdade e, logo, da vida). Não adianta, portanto, pintarmos os atuais conflitos políticos como uma guerra do bem contra o mal. É ingênuo querer o fim da mídia corporativa ou achar que os políticos não deveriam dar mais entrevistas, nem comparecer a nenhum evento, etc. A única solução é um acordo. Um pacto de fortes. Não exatamente entre governo e mídia, mas entre governo, Justiça, sociedade civil e mídia. Precisamos de uma mídia independente dos governos. Mas não uma mídia caluniadora. As forças da História, de qualquer forma, estão em movimento, e em luta; diante da História, nobres são os que tombam de arma nas mãos. E numa democracia, a arma mais legítima - ou a única legítima - é a inteligência. Como dizia Morrison: the old get older, the young get stronger; they got the guns, but we got the number. Gonna win, baby, and take it over!

21 de outubro de 2011

Censura ao blog Falha de SP chega ao Congresso Nacional

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Prezados, eu quase nunca divulgo texto de terceiros por aqui. Não é nenhuma política específica do blog, mas é porque o espaço é humilde e preciso manter uma certa organização estética. Dessa vez, porém, abro uma exceção. Fiquei bastante tocado com o email (coletivo, mas mesmo assim sensível) que recebi do Lino, dono do blog censurado Falha de São Paulo. Ele e seu irmão vem sofrendo uma perseguição judicial muito cruel e revoltante, por causa de uma paródia absolutamente inocente. Este é um caso que agride violentamente a liberdade de expressão no país. Então eu peço a atenção de todos. Abaixo, o texto do Lino e Mário:


Car@ amig@,


Primeiro, mil perdões pelo e-mail coletivo. É indelicado, mas às vezes necessário. Caso você esteja recebendo esta mensagem por engano ou não seja de seu interesse, minhas sinceras desculpas.

Seguinte: como você deve saber, estamos sendo processados pela Folha por conta do blog de paródia Falha de S.Paulo (detalhes aqui:http://goo.gl/MNTC8). Nesta quarta-feira, 26 de outubro, acontece uma audiência pública no Congresso Nacional em Brasília para debater o caso, que vem sendo considerado censura por todos os que tomam conhecimento do processo –a única exceção são os advogados e a direção do jornal.

Acontece que essa história da audiência irritou a Folha. Na verdade, irritou o dono do jornal. Ontem o Otavinho, como é conhecido o proprietário da empresa, Otávio Frias Filho, soltou uma nota agressiva, fazendo inclusive ataques pessoais. Por um lado foi bom, assim o jogo fica mais aberto, caem as máscaras. Por outro, é difícil confrontar o maior jornal do país, amparado por um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, quando é apenas você, seu irmão e seus apoiadores voluntários.

Mas entendemos que a causa é coletiva, já que em caso de vitória do jornal o dano também é coletivo. Isso porque o processo é inédito, então ficaria aberta uma jurisprudência contra a liberdade de expressão em todo país.

Por esse motivo e pela entrada truculenta do dono da empresa na jogada, venho pedir sua ajuda. Conheça o caso, divulgue a censura e a audiência, não aceite essa postura da Folha. Se eles ganharem, perdemos todos. A vantagem é que, se eles perderem, ganhamos todos.

Novamente desculpe pelo mau jeito do e-mail coletivo, eu estava planejando escrever emails individuais e atenciosos para muitos de vocês, mas foi impossível.

Muito obrigado, abs, beijo,

Lino e Mário

TODAS AS INFORMAÇÕES SOBRE O CASO E A AUDIÊNCIA ESTÃO NO DESCULPEANOSSAFALHA.COM.BR

20 de outubro de 2011

Orlando & outras polêmicas

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Decidi voltar a fazer video-posts. Peço tolerância pela péssima dicção, produção precária, etc. Não sou locutor, apenas tento expressar minhas ideias.

Parte 1/2



Parte 2/2

Anonymous ataca revista Veja

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11 de outubro de 2011

Rubiáceas floridas para John Stuart Mill

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Hoje de madrugada, pouco antes do amanhecer, desabou uma chuvasca assustadora. Como o buraco do ar condicionado ainda está aberto, um vento muito forte, barulhento, escapava por ali, agitando as cortinas e esfriando o quarto-sala onde eu durmo. Levantei para tirar as roupas do varal externo e contemplar os relâmpagos. Quem bom estar em casa, pensei, antes de voltar para debaixo do edredon.

Lembrei então da entrevista que fiz à tarde com um diretor de cooperativa. Ele havia me dito que as perspectivas metereológicas para Minas Gerais eram boas para esta semana. O café precisa de muita chuva, para compensar os quase 120 dias sem água que passou na região. E precisava que chovesse agora, a tempo de provocar a abertura dos botões florais e garantir a renda dos quase cinco milhões de empregos gerados em suas lavouras.

Entretanto perdi o sono, e voltei para o computador, no escritório-salinha de jantar que montei perto da entrada. Não tirava da cabeça o desejo de baixar um livro de John Stuart Mill, sobre a liberdade de expressão, do qual sempre ouvira falar.

Baixei o livro e agora estou no meio da leitura. É muito emocionante. Ele imprime um tom dramático à sua defesa da liberdade, mas com uma argumentação tão racional quanto uma fórmula algébrica. O ritmo e a sintaxe do texto, por sua vez, têm aquela leveza e densidade poéticas dos grandes clássicos. Essa é uma das ideias que tenho de literatura, aliás, que não se trata apenas de ficção. Também os clássicos da filosofia, política e história constituem o patrimônio literário da humanidade. Um dia escrevo sobre isso.

O original em inglês está aqui, e eu dei upload numa tradução aqui. Intitula-se "On Liberty", ou "Sobre a Liberdade". Você também pode ler o capítulo sobre liberdade de expressão neste site.

Só volto a postar depois que digerir cada palavra, porque é um livro absolutamente imprescindível e urgente para mim neste momento. O café precisa de chuva para produzir suas lindas flores brancas com aroma de jasmin. Eu preciso ler este livro. A blogosfera e o Brasil precisam de liberdade. Como disse um maluco que tomou LSD e foi parar, por acaso, no sítio do John Lennon: tudo faz sentido agora, irmão.


Imagem: Wesley Duke Lee. 

10 de outubro de 2011

A paranóia sexista e anti-libertária da esquerda caduca

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(Deve ter algum sexismo na figura aí)

O meu post sobre o Rafinha Bastos suscitou reações carinhosas por parte dos amigos. Um blogueiro afirmou que eu deveria ter escrito sob efeito do álcool, depois que eu tinha surtado, que se tratava de uma opinião exótica (disso eu gostei) e que eu apenas me prejudicava (essa não entendi). Uma blogueira esclareceu que "ainda" não desejava que eu quebrasse os dentes, visto que esperava uma retratação. É lindo o espírito democrático! É lindo o espírito de paz e fraternidade entre os colegas!

Todo mundo reclama da falta de diversidade de opiniões na mídia, e de repente pretendem impor a mesma teocracia monolítica na blogosfera. Vários se manifestaram como se fosse absurdo o simples fato de eu ter emitido aquela opinião. Uma tuiteira passou dias me xingando de sexista e proferindo palavrões. Uma outra já me deu tanto block que deve ter construído uma muralha de concreto, embora minhas palavras - contra a minha vontade, já que eu não quero ser mais xingado - sempre arranjem um jeito de furar o bloqueio.

Já tentaram me explicar várias vezes o que é sexismo, mas ainda tenho dificuldades para entender completamente esse tema. Talvez alguma feminista possa "desenhar" para mim (elas sempre querem desenhar para que possamos compreender). Uma delas disse que se eu elogiar o jantar preparado por minha mulher, por exemplo, estaria sendo um "sexista benevolente".... Isso me confundiu um pouco. Na minha casa, onde sou eu o cozinheiro oficial, a recíproca seria válida?

Enviaram-me um artigo publicado na Carta Capital, da Rosane Pavam, onde somos brindados com uma longa xaropada - culta, é verdade, mas ainda sim uma xaropada - sobre o que é ou não humor. O texto é cheio de contradições insolúveis. Limito-me a reproduzir este trecho:

Chico Anysio, assim como Jô Soares, sempre proferiu piadas sexistas, machistas e misóginas, mas, como lembra o historiador Saliba, quase sempre encarnando outros personagens, como oligarcas e nhonhôs: “Os preconceitos estavam lá, todos, alguns em toda a sua crueza, mas eram reversíveis, mudavam de lado a todo o momento, os papéis eram trocados, retomando o universo do burlesco”.

Ou seja, se Rafinha inventasse "personagens", se "mudasse de lado a todo momento", podia continuar fazendo o que faz. Um humorista agora tem ser igual ao Chico Anísio para ser aprovado? Tudo isso segundo o historiador Saliba, não se esqueça. Viva o historiador Saliba! Os humoristas devem ler Bergson antes de abrir a boca! E o padrão de humor deve continuar sendo os programas da Globo!

Minha surpresa, no entanto, foi maior com o artigo de Marcos Coimbra, publicado no Azenha. O politólogo também demonstrou profundo conhecimento sobre humor, como se pode constatar na conclusão de seu texto:

Só se for para quem acha graça nas velhas piadas que ridicularizam mulheres, negros, indígenas, portugueses, nordestinos, homossexuais, loucos e deficientes.

Confesso que essa é uma opinião interessante. Coimbra, porém, esqueceu de acrescentar leprosos, anões, vesgos, fanhos (se bem que estes podem ser classificados no grupo "deficientes"; mas é legal detalhar), argentinos e paraguaios. Mais um pouquinho, e Coimbra incluía todo o espectro humano que, segundo ele, não pode virar objeto de piadas. Bem, pelo menos sobrarão os bichos, embora eu desconfie que algumas ongs lutarão para que estes não sofram com o nosso corrosivo e degenerado humor.

Escuso-me de comentar as suas comparações com as leis da Suécia. Neste campo da restrição à propaganda, assim como em tantos outros, sempre há alguma lei escandinava que a gente pode copiar. Deve ser por isso que a Suécia tornou-se uma potência no campo do audiovisual e da liberdade de expressão. Coimbra - ironizando a mídia - lembra que o "lulo-petismo" não chegou à Suécia. Pois é, de fato, lá chegou foi o neonazismo, no parlamento e no Executivo.

O mais curioso mesmo é que as pessoas - na falta de outro argumento - vem me atacar chamando-me de "reacionário", como esse, que me deliciou especialmente:
Com a vantagem que uma semana me dá, seus comentários me impelem a pensar que você está se transformando - se já não era - um reacionário de direita dos piores.

O engraçado é que eu pensava justamente que o meu erro tinha sido ideologizar o debate. Ou seja, eu acreditava que isso (o ímpeto de censurar e o espírito de linchamento) não fosse necessariamente uma coisa da esquerda, mas se tratava puramente de um tolo e ingênuo moralismo da classe média "politizada", travestido de indignação. Também tinha a esperança que as pessoas objetivavam restringir apenas a publicidade, que teria regras próprias, menos livres que outras formas de comunicação. Não, o desejo é restringir o humor também. Atenção, humoristas que gostam de dar  aquela "meia hora de bunda"! O bicho pode pegar para vocês também!

Como se pode constatar pela reação das pessoas à "sugestão" da ministra Iriny Lopes de que a Globo inserisse uma informação pública na novela das oito, há uma intenção real de interferir igualmente na ficção. Para a ministra, o certo não seria o governo fazer um anúncio no intervalo da novela - tem que enfiar a informação no meio da trama. Maravilha. Na novela do SBT sobre a ditadura, deveriam informar o telefone da comissão de direitos humanos da ONU no meio das sessões de tortura... Por que ninguém nunca pensou nisso antes!

Meus amigos, acho que meu amigo blogueiro está certo. Estou ficando louco. Toda cerveja que bebi na vida resolveu finalmente cobrar a conta da minha lucidez. Tenho opiniões exóticas. Meus dentes já começam a doer com a possibilidade de serem quebrados. E, por fim, tornei-me um empedernido e odioso reacionário!

Sim, só pode ser isso, porque é isso ou então eles que é que enlouqueceram todos! Eles é que estão bebendo muito! Eles é que se tornaram reacionários! E tomem cuidado, porque neste caso a realidade pode lhes quebrar os dentes!

Quando eu penso estar isolado numa ilha, rodeado de estranhos por todos os lados, eis que leio um artigo do Mino Carta, intitulado: "Já não se fazem gênios como antigamente?", que me deixa ainda mais desamparado. Não estava disposto a comentar esse texto, porque gosto muito do Mino, respeito-o profundamente, etc. Mas visto que ele aparece justamente nesse contexto de opiniões esdrúxulas, sou forçado a lembrar ao grande Mino que o tempo do Renascimento, descrito brilhantemente por Jacob Burckhardt, foi um tempo de tiranos crudelíssimos, massacres, exploração mais vil do povo. O trecho abaixo, portanto, que resume a tese do meu editor preferido, contém uma premissa equivocada.

Há uma conexão transparente entre todas as atividades humanas praticadas no mesmo momento, e a Renascença é extraordinário momento de mudança e renovação. A turva, aturdida hora que vivemos agora é de decadência.

Não vivemos nenhuma decadência. O sufrágio universal (incluindo aí o voto das mulheres) só começou a ser implantado nas democracias modernas a partir da década de 60, no século passado. O analfabetismo no mundo só agora tem caído substancialmente. Ainda há desgraça, fome e doenças no planeta, mas nada que se compare ao medievo, onde a longevidade média dos homens não ultrapassava os trinta anos. O mundo de hoje oferece oportunidades de ascensão social a um percentual muito mais alto da população do que na época de Michelângelo. Naquela época, os artistas dependiam de tiranos assassinos e papas corruptos para sobreviver, hoje podem vender seu trabalho diretamente ao público. Eu tenho infinita admiração pelo Renascimento italiano, Mino, e já tive o privilégio de estar em Florença por duas vezes (uma delas por quatro meses) e ler a Divina Comédia e Petrarca no original e namorar de perto o portão do Batistério e a torre planejada por Giotto na praça do Duomo, mas eu sei que as condições políticas daquele tempo eram bem piores do que vemos hoje no Brasil, por exemplo. E se não temos nenhum Dante Alighieri, tivemos um Dante Milano.

Observação importante: eu critico o Mino mas ele continua sendo meu editor preferido; não sou como alguns de vocês que, só porque não aprovam uma opinião, condenam a pessoa à fogueira eterna. A mesma coisa vale para Marcos Coimbra, um politólogo que respeito profundamente, apenas me concedo o atrevido direito de discordar nesse tema.

Observação importante 2: posso nunca ter tido nenhuma projeção midiática; sou apenas um reles blogueiro semi-anônimo; mas o respeito ao indivíduo e à dignidade que vocês cobram diariamente da grande mídia, espero que tenham comigo.

Temos um país repleto de problemas trágicos para serem solucionados. As grandes cidades brasileiras que eu conheço estão semidestruídas. Lixo na rua, saneamento precário, saúde pública deficiente. Tipo de problema que já não apoquenta muito os suecos. A Dilma teria se acovardado ao recuar no caso do novo imposto da Saúde? O Brasil precisa melhorar a gestão do setor, mas precisa também de mais recursos. E o governo - através da ministra Iriny Lopes - se desgastando perseguindo Rafinha Bastos, publicitários de empresas de lingerie e novelistas de tv!

Quanto aos programas de humor e telenovelas, continuo defendendo mais e mais liberdade, e zero interferência do governo. Em casos extremos, que a questão seja decidida pela Justiça, mas que esta julgue, por sua vez, sempre com bonomia e tolerância máxima. Há situações excepcionais que devem ser coibidas, como aquela tv que mostrou uma menina sendo estuprada em pleno dia. De resto, porém, deixemos de ser hipócritas, reacionários e censores. O sexismo na TV e no humor só poderá ser vencido pela luz, pela transparência, pela liberdade, não pela mão pesada, quase sempre desastrada nesses assuntos, do Estado.

7 de outubro de 2011

Desindustrialização, onde?

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Continuo monitorando os índices da indústria brasileira. A acusação de que o Brasil estaria se desindustrializando me preocupou muito, porque, se fosse verdade, então seria um problema sério, que me obrigaria inclusive a rever minha simpatia pelo governo do PT.

Outro dia mesmo li no jornal uma notícia de que a produção industrial havia caído em agosto ou setembro. Essas matérias informam muito pouco, e sempre distorcidamente, porque nunca nos proporcionam uma visão mais abrangente. Até os fatores sazonais são omitidos do leitor. Há meses em que a produção industrial declina, todos os anos, outros em que sobe, por isso é importante sempre você ter em mente um prazo mais longo, para enxergar mais claramente.

Então eu voltei ao IBGE, onde já temos dados históricos consolidados, com atualização até agosto de 2011, para a produção industrial brasileira. Preparei uma tabela cujos dados completos podem ser vistos aqui.

Eis que me deparo com um quadro curioso, mas não surpreendente. Ele é muito bem vindo neste momento, em que os tucanos parecem decididos a fazer um trabalho melhor de "comunicação", tentando provar aos brasileiros como o governo FHC foi bom. Pois bem, ofereço-lhes - aos tucanos - uma estatística que vai ajudá-los a esclarecer melhor o povo.

Em janeiro de 1995, o índice mensal da produção industrial brasileira de bens de capital ficou em 111,56. A base deste índice, que é igual a 100, é a média de todo ano 2000. Pois bem, repetindo, em janeiro de 1995, este índice estava em 111,56. Passam-se oito anos de governo, e em dezembro de 2002, o índice despencou para 84,47!

Vocês se lembram da imprensa fazendo estardalhaço com esses números à época? Pois deveria ter feito, porque o setor de bens de capital é sempre o mais importante de um país. É a base da indústria. É o setor que produz as máquinas. Tipo: uma fábrica que produz máquinas que serão usadas na indústria de alimentos, ou tecidos, ou automóveis. Quando um governo quer investir na industrialização, ele começa sempre investindo no setor de bens de capital.

Deve-se olhar portanto sempre a evolução do setor de bens de capital para se ter uma ideia clara da situação da indústria brasileira. Problemas pontuais, como os enfrentados pelos setores têxtil e calçadista, sempre vão acontecer, sobretudo enquanto houver anomalias cambiais no mundo, como é o caso da China. É muito difícil para uma indústria brasileira produzir uma roupa a um custo mais baixo que uma chinesa. No longo prazo, porém, com uma economia internacional regulada com inteligência, e corrigidas as anomalias cambiais, esses desequilíbrios vão se resolvendo. Por enquanto, a solução é fazer o que o governo já começou a fazer, embora talvez com excessivo atraso, que é identificar os setores mais prejudicados pela concorrência desleal estrangeira e adotar políticas específicas de fomento.

Fala-se muito do câmbio forte como um fator que estimula a desindustrialização. No entanto, as economias mais industrializadas do mundo há décadas possuem os câmbios mais fortes: Japão, EUA, Inglaterra, Alemanha.

O papo de desindustrialização, aventado inclusive por alguns sindicalistas do ABC paulista, é muitas vezes uma demanda apenas corporativa. Um lobby, melhor dizendo. E o governo muitas vezes se sensibiliza. Há momentos, todavia, em que é preciso deixar que a livre concorrência faça a sua parte. Não se pode culpar o câmbio ou a política industrial do governo em casos em que há simplesmente a incompetência do proprietário de uma fábrica. Não se trata de defender o capitalismo cruel, mas de respeitar um mínimo e necessário darwinismo econômico. Até porque o governo tem recursos limitados, e seria injusto aplicar verba numa empresa falida por incompetência em vez de construir um hospital.

O que o governo pode e deve fazer é gerir uma boa política social, proporcionando aos trabalhadores prejudicados pelo fechamento de uma fábrica um seguro-desemprego com valor digno e cursos de recapacitação, em todo o período que estiver sem trabalho. O absurdo fundamental de um Estado moderno é permitir que uma família não tenha renda. Isso prejudica o próprio capitalismo, porque essas pessoas também não vão consumir nada. Por isso as principais economias capitalistas do planeta são as que possuem os maiores programas sociais. Os EUA, a fortaleza global do capitalismo, tem um programa de Fome Zero desde o final da segunda guerra, com distribuição de tickets de alimentação para dezenas de milhões de americanos.

Voltando aos índices industriais, repare que estes cresceram de 88,41 em dezembro de 2001, para 209,45 em agosto de 2011. Ou seja, enquanto na gestão tucana o setor de bens de capital sofreu um acentuado declínio, nos quase dez anos de governo petista, o mesmo setor mais que duplicou no Brasil (cresceu 140% para ser preciso)! E pode-se constatar facilmente que avançaria ainda mais não fosse o recuo em 2009, provocado pela profunda crise financeira que abalou o mundo.

Nos outros setores da indústria, temos números parecidos: estagnação durante o governo FHC, e forte expansão na era Lula. E o que é melhor: a indústria continua crescendo este ano, com destaque para o setor de bens de capital, que é, como eu já disse, a menina dos olhos quando se trata de industrialização.






PS: Esse post foi publicado no blog do Nassif, e alguns comentaristas contestaram-no dizendo que esse aumento na produção de bens de capital teria se dado apenas por crescimento de encomendas de empresas como Vale. Bem, a Vale é a maior empresa privada do país, e se ela está encomendando máquinas, isso é ótimo. É óbvio que a industrialização brasileira é liderada por suas principais empresas. A Vale decidiu, após muita pressão do governo, e talvez mais ainda em função do interesse de suas concorrentes em montar siderurgias por aqui, investir na transformação do ferro em aço. Enfim, a pior coisa que pode acontecer é a gente transformar um assunto desse em papo de botequim, como sempre acontece quando as pessoas se limitam a fazer observações tais como: lá em Pindamonganba, fecharam 3 fábricas no ano passado! A atividade industrial hoje é muito dinâmica e concorrida, em vista do alto nível de especialização em que se encontra o capitalismo mundial. É normal, infelizmente, o fechamento de fábricas. O que deve nos preocupar, porém, é o nível geral da indústria no Brasil, e sobretudo, reitero, com o setor de bens de capital, que é a base da indústria.

Então eu retornei outra vez ao IBGE e achei a tabela abaixo (dados completos aqui), com a evolução dos diferentes segmentos do setor de bens de capital nos últimos anos.


Por ela, pode-se ver que um setor de bens de capital que vem sofrendo queda nos últimos anos é o do aparelhos de comunicação (celulares, etc). É lamentável, mas visto que o Brasil sempre produziu quantidades insignificantes destes equipamentos, não é nada que provoque nenhuma mudança drástica em nossa economia ou nas taxas de emprego. O mais grave mesmo é a queda no setor de materiais elétricos, que vinha apresentando um crescimento substancial até o fim de 2008; no longo prazo, porém, este setor também vem crescendo, já que o índice passou de 96 em dezembro de 2002 para 150 em agosto deste ano.

Eu não quero tapar o sol com a peneira. Tenho consciência que deve ter fábrica fechando em algumas partes do Brasil. A concorrência global é feroz. Estou questionando (questionando, não negando) a tese da desindustrialização, que ainda não vi refletida em nenhuma estatística. A pior coisa que pode acontecer com um país é sofrer um processo de desindustrialização, mas isso é diferente de haver mudanças, até mesmo estruturais, na realidade industrial de um país, com declínio de um setor e aumento em outros. Isso faz parte do capitalismo e reflete esse darwinismo econômico que é inevitável e cujos efeitos sociais devem ser tratados atentamente pelo Estado em questão, através de uma política trabalhista voltada a amortecer seus danos.

6 de outubro de 2011

Tocqueville e os rancorosos

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Terminei finalmente de ler um dos grandes clássicos da literatura política: O Antigo Regime e a Revolução. O autor faz uma avaliação bastante crítica, em vários pontos negativa, da revolução francesa; acho que é um contraponto legal para o livro que pretendo ler agora, do Jules Michelet, que tem uma visão bem mais compreensiva, diria até mesmo amorosa, do evento.

De vez em quando, porém, tomado como que por um entusiasmo a contragosto, Tocqueville faz digressões belíssimas sobre o espírito de justiça e igualdade que produziu e conduziu a transformação profunda que a França, e toda a Europa, viveriam. No último capítulo, onde resume tudo que disse nos anteriores, a conclusão é emocionante, tanto que eu transcrevo neste meu blog de apoio. Acho que esta citação pode servir para me defender dos influxos de violência que se erguem contra este blogueiro, depois da polêmica perigosa em que me envolvi no post anterior, embora os assuntos não tenham absolutamente nada a ver.

Tem uns posts que, antes de apertar a tecla enter, me obrigam a fazer o sinal da cruz, mesmo sendo ateu, porque eu sei que podem enfurecer o dragão da internet. Há oito anos que milito na blogosfera, e desenvolvi um casco bem duro. Mesmo assim, mentiria se dissesse que não fico abalado com a onda de ofensas, muitas delas a nível pessoal, que alguns gostam de fazer. A violência é maior por parte daqueles com menor capacidade de argumentação. A maioria discorda civilizadamente, mas agora, sobretudo no Twitter, há uma fauna de mau-educados que vou te contar. Tem uns que eu considero de má índole mesmo. Gente mau caráter, rancorosa, incapaz de participar de uma discussão sem apelar para baixaria. Ficam atiçando uns aos outros, como um bando de cães raivosos latindo entre si antes de partirem para cima da presa.

No post anterior, eu tinha consciência que estava remando contra a maré. Mesmo assim eu tinha que externar a minha opinião, até porque era uma sequência dos textos anteriores, sobre a polêmica envolvendo o comercial da Hope. O fato de uma maioria ter discordado, porém, não me abala. Um blogueiro que se preza não pode ter medo de multidão. Acho que esse é o momento perfeito para citar a frase de Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra". Essa frase costuma ser muito mal usada, mas agora encaixa-se maravilhosamente.

Mesmo que eu estivesse errado (e pode ser que eu esteja), é importante que haja sempre um debate, sobre qualquer assunto. No caso, permaneço convicto que tenho uma pitada de razão. Aliás, a reação violenta, brutal, de muita gente, confirmou o que eu pensava: há um clima de linchamento, que é muito diferente de manifestar discordância em relação às atitudes do humorista. Tanto é que o mesmo dragão que soltava fogo na direção do Rafinha, ao notar minha presença em campo aberto, acenando provocativamente, veio também para cima de mim.

Eu vi um montão de comentários pedindo que a Igreja Católica interferisse no assunto, lembrando que a mesma foi bastante ativa nas eleições. Ou seja, em vez das pessoas defenderem uma sociedade mais laica e mais livre, oferecem voluntariamente as mãos para os bispos algemá-las. Falou-se muito em valores da família, o que também me deixou ressabiado.

Na verdade, eu não vi quase ninguém querendo discutir o ponto central dessa história: quais são os limites da liberdade de expressão? Tudo bem, Rafinha falou merda, mas e daí. Quais são os parâmetros constitucionais que nos permitirão botar um humorista na linha? Qual a punição? Quem será o agente repressor?

Logo no início da Eneida, Virgílio escreve: "Tantaene animis caelestibus irae?", que se traduz para "Tanta ira em corações divinos?" Os corações dos internautas não são muito divinos, mas a pergunta vale: para que tanto ódio? Será que essa gente assiste, masoquistamente, ao CQC, só para ficar irritada? Confesso a vocês: eu nunca assisti. Quer dizer, assisti pedacinhos, o suficiente para saber que não é minha praia. Rafinha pode falar a merda que quiser, ser suspenso, demitido, recontratado, o raio que o parta. Não vou entrar em correntes de ódio. Ele pode falar que come a Wanessa Camargo, o bebê e a avó dela. Não estou nem aí. A Wanessa Camargo é uma moça rica que pode muito bem se defender. Se ele falasse assim com uma moça pobre, apareceriam certamente uma pá de rábulas para defendê-la e arrancar umas pratas do imprudente humorista. Ele ofendeu a Wanessa Camargo, não as mulheres em geral. Não vejo razão para transformar o episódio numa torquemada furiosa contra o comediante, nem contra toda uma tradição de humor trash que há muito tempo faz sucesso entre a garotada. Quanto à piada das feias que agradecem aos estupradores, trata-se de uma piada tosca de humor negro, na mesma linha daquelas sobre leprosos. Merece indiferença e talvez desprezo, mas não que seja distorcida numa "defesa do estupro".

A vítima dessa vez foi o Rafinha Bastos, mas muita gente já está com sangue na boca para ir na jugular do Pânico na TV. Daí voltaremos a ter apenas o humor "correto" e convencional da Rede Globo...

O Brasil viveu uma grande revolução social nos últimos anos e uma pequena revolução política na área da comunicação. Será uma pena que imitemos os erros apontados por Tocqueville e, empolgados com o poder popular das redes, implantarmos um novo "terror" contra aqueles que consideramos a aristocracia "podre" do humor televisivo. Ao final, todos serão degolados, inclusive os que hoje pedem a cabeça dos lordes. Os radicais franceses não perdoaram nem Robespierre nem Danton.

Aos que me xingaram e caluniaram na rede, eu só tenho uma resposta: o que vem de baixo não me atinge.

5 de outubro de 2011

Em defesa de Rafinha Bastos

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(Rafinha será tranformado em mártir pela esquerda moralista?)

Uma coisa leva a outra, e agora preciso levar essa polêmica até as últimas consequências. Permitam-me, contudo, exibir uma apólice de seguro de minha opinião: isto é só um debate, não tenho pretensão nenhuma de vir aqui brandir a verdade derradeira e definitiva na cara de ninguém. Pode ser que eu esteja completamente errado. Permitam-me também de vez em quando carregar um pouco nas tintas. Eu me referi, no Twitter, a esse fascismo de classe média, a esse moralismo enfurecido, apoplético, inquisitorial, que se manifesta também com muita força à esquerda. Peço desculpas aos que se sentiram ofendidos. Não chamo ninguém, em particular, de fascista. Acuso apenas esse fascismo etéreo, pairando no ar, essa nuvem de ódio e sectarismo, que tradicionalmente se disfarça de boas intenções.

Como esse moralismo, nas pessoas identificadas com ideologias de esquerda, sente-se constrangido em atacar o governo (deixo a ultra-esquerda de fora porque é insignificante numericamente) que, teoricamente, representa o seu campo, ele extravasa o seu rancor contra outras instâncias de poder. Há inimigos de alto calibre, como a grande imprensa, o vulgo PIG (Partido da Imprensa Golpista). Aí sim temos um gigante perigoso, um verdadeiro quarto poder na República, um poder selvagem, hobbesiano, que precisaria sofrer algum tipo de regulação democrática, para amainar a instabilidade política e as injustiças culturais que ele gera. A própria internet, e especialmente a blogosfera, no entanto, já correspondem um pouco esse monitoramento. Aliás, por isso eu acho que a blogosfera deveria, antes de tudo, investir em si mesma, em sua profissionalização e independência, para não ficar dependendo apenas que uma nova legislação, proposta pelo governo federal, vá resolver o problema. A própria ação dos blogs, se aprimorada, pode muito bem fazer parte do papel que caberia a "Ley dos Medios". Até porque uma Ley dos Medios nunca vai resolver todos os problemas decorrentes da concentração dos meios de comunicação. A big press manterá seu poderio. Talvez tenha que ser mais dissimulada. Será a mesma, contudo. A lei terá que ser feita, até porque a realidade do universo midiático vai sofrer uma revolução. A convergência digital está vindo, e daí só Deus sabe o que irá acontecer. Mas uma coisa a internet mudou de vez. A comunicação social é uma realidade hoje muito mais próxima do cidadão.

Entretanto, esse ódio "santo", e o digo sem ironia, porque ele é o ingrediente necessário a qualquer revolução ou mesmo qualquer mudança, às vezes escolhe um alvo fraco, ou seja, um indivíduo, um cidadão brasileiro. Aí eu acho errado.

Eu acho errado e perigoso essas correntes de ódio, como esse linchamento coletivo de Rafinha Bastos. Querem odiar a grande mídia? Tudo bem, é um adversário à altura. Mas focar esse ódio num jovem humorista?

Você pode não gostar do Rafinha Bastos. Pode achar que ele é um péssimo profissional. Eu também não simpatizo com ele, menos ainda com o CQC. Eu não gosto do Marcelo Tas, porque desde muito tempo entendi que ele é uma figura midiática ligado ao conservadorismo político. Ele dá palestras para a Juventude do DEM, participa de todos os movimentos midiáticos da direita.

Mas ele tem direito de ser assim. Tanto Marcelo Tas como Rafinha Bastos são cidadãos brasileiros que gozam de seus direitos civis e de sua liberdade de expressão, os quais eu defenderia até com a minha vida, se me permitem essa bravata.

No caso específico de Rafinha Bastos, você pode achá-lo um humorista desastroso, nocivo, mas não pode negar que isso é uma opinião sua, e que milhões de brasileiros pensam diferente. O cara foi considerado pelo New York Times como a figura mais influente do mundo no Twitter. Claro que o NY Times tem seus interesses, a sua parcialidade, etc, mas ainda assim é o NY Times. De qualquer forma, mesmo que o NY Times não tivesse dito nada, ainda sim Rafinha Bastos continuaria sendo uma das figuras mais influentes do Twitter, senão no mundo, ao menos no Brasil. Algum talento o cara tem.

Entretanto, Rafinha Bastos não é um gigante da mídia; é apenas um indivíduo. Você pode até achar que ele simboliza isso e aquilo que existe de mal, de preconceituoso, de reacionário, na sociedade, mas ele não é um símbolo. Ele é uma pessoa. A gente já assistiu como essa confusão, entre o que é símbolo ou mito e o que é apenas humano se mostra letal, em geral para o lado humano, visto que o símbolo não morre tão fácil.

Eu fico estupefato ao contemplar a desenvoltura com que as pessoas se arvoram em juízes da opinião pública e acorrem à praça para vociferar e lançar pedras na prostituta da vez. Rafinha Bastos é a Madalena de setores "politizados" da internet. Agora é chique participar de linchamentos?

Daí eu lembro daquelas multidões enfurecidas que se aglomeram em frente aos tribunais, quando temos julgamentos de protagonistas de crimes com grande cobertura midiática, como o casal Nardone. Na internet, temos fenômenos parecidos, mas com uma multidão mais refinada.

Afinal, quais foram os crimes cometidos por Rafinha Bastos?

Vamos elencar e analisar seus dois mais recentes e comentados "crimes":

1) Disse que mulheres feias deveriam agradecer a seus estupradores, porque eles estariam fazendo uma caridade.

Desnecessário dizer que se trata de uma grosseria inominável. Evidentemente, Rafinha jamais teve uma parente que sofreu esse tipo de agressão. Agora, a frase saiu da boca de um humorista, num contexto específico, em que ela se pretendia bem-humorada, ou sarcástica. Acusar Rafinha de pregar o estupro de mulheres, é um absurdo. A escola de piadas grosseiras, aliás, não teve início com Rafinha. Quem não se lembra da infinidade de piadas com leprosos? Na minha vida, já tive a oportunidade de ouvir e repetir dezenas de piadas com leprosos, com judeus, com louras burras. A dos leprosos eram bem engraçadas.

A piada do Rafinha, portanto, inscreve-se na série de piadas de humor negro, e assim deve ser entendida. Pode-se não gostar da piada, pode-se sentir irritado, pode-se até mesmo enviar emails pedindo a sua demissão; mas deve-se tomar muito cuidado para não fazer disso um linchamento. Daqui a pouco um maluco, depois de absorver tanto ódio na internet, agride o humorista fisicamente, e daí estaremos configurando, precisamente, a criação de um movimento fascista.

2) Disse que "comeria" Wanessa Camargo e seu bebê.

Outra grosseria. Mas, a meu ver, de bem menor gravidade. De seu jeito torto, quase bandido, Rafinha fez um elogio à Wanessa Camargo. Disse que ela, mesmo grávida, estava atraente. A circunstância era a mesma do caso interior. Rafinha estava participando de um quadro de humor, sob forte pressão psicológica para falar algo muito engraçado, que justificasse o seu salário de marajá na Band. A intenção dele, obviamente, não era defender o estupro de grávidas e bebês. Fizeram uma tempestade de um copo d'água, sobretudo porque a frase desagradou figuras poderosas. Rafinha é um empregado, pisou na bola e pode ser demitido, não sei, mas não vejo razão para elegê-lo como inimigo público número 1 da sociedade brasileira.

Conclusão: Rafinha cometeu um erro de avaliação, o que mostra que a sua profissão comporta riscos. A Band o contratou para que ele ajudasse a emissora a aumentar a sua audiência. A concorrência dos canais abertos tem sido cada vez mais acirrada. Como fazer frente à Globo? Se fôssemos depender da TV Brasil, me desculpem, a Globo teria 99% do mercado. Eu elogiei muito a ida de Teresa Cruvinel para a TV Brasil, mas, hoje, vendo retrospectivamente o seu trabalho, acho que foi medíocre. Jornalisticamente, a TV Brasil não inovou em nada, fazendo uma cobertura meia-boca, e às vezes beirando a covardia, ao não produzir pautas desafiadoras. Artisticamente, a TV Brasil também se mostrou fraca. A ideia que eu tenho da TV Brasil é que, ao ligar lá num sábado à noite, vou ver um documentário de indios nus da década de 60. Ora, já vi vários documentários de indios nus, não tenho nada contra, mas estou falando de trazer coisas mais vivas, mais estimulantes, mais polêmicas. A proposta de só mostrar filme brasileiro me parece um nacionalismo tosco. Exibe um montão de filme ruim, que pouca gente vê. Tanto filme interessante no mundo! E o cúmulo da incompetência: é o canal com mais problemas de transmissão de imagem. Eu moro na Lapa, ao lado da sede da TV Brasil e não consigo assistir de tão ruim que é qualidade!

Então, a concorrência fica a cargo dos caras do Pânico e do CQC. Que estão conseguindo, com apenas uma fração da verba que a Globo tem, fazer frente a um domínio de quase 40 anos.

Eu não estou aqui para atirar pedra em ninguém. A blogosfera acusa a grande mídia de acusar, julgar, condenar e executar a pena, mas está fazendo a mesma coisa.

Tem muita gente ruim no Brasil. Tem diretor de hospital desviando verba. Tem médico que deixa de atender paciente por pura maldade ou preguiça. Tem corrupção na política, nas empresas, nos jornais. Até mass killer agora já temos, e de crianças! Outro dia fiquei sabendo do golpe que deram no ator Sérgio Brito, um cara que todos admiramos e amamos. Uma coisa horrível. O Brasil contemporâneo é um grande fornecedor de almas para o inferno.

Rafinha Bastos é o menor problema que temos no Brasil. Não gosta dele? Mude o canal. Ignore-o. É besteira querer eliminá-lo. Todo esse clima de linchamento apenas irá transformá-lo em vítima, até mesmo um mártir. E o perigo, como disse em outro post, é colar na esquerda a etiqueta de pseudo-moralista e inimiga da liberdade de expressão. Em nome da democracia, somos obrigados a engolir um rol de figuras estranhas integrando ou apoiando o governo. Não custa nada usar a mesma tolerância com humoristas, sobretudo com aqueles que estão desafiando o monopólio da Globo.

4 de outubro de 2011

Exportações brasileiras de manufaturados crescem 18%

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estão no ar as informações sobre a balança comercial de setembro.

Eu poderia escolher o viés negativo, e dizer que a participação dos manufaturados no total exportado pelo Brasil em Jan/Set de 2011 caiu, como de fato caiu, de 39,5% para 36%. No entanto, essa informação, dada assim, sem mais explicações, incita à confusão que já vimos, sobre a primarização da economia brasileira. Para identificar se a informação distorce ou não, basta perguntar ao leitor, após ler uma matéria no jornal, se as exportações brasileiras de manufaturados estão crescendo. Se ele disser que não com voz chorosa, triste por ver seu país se desindustrializando, então confirmaremos que foi enganado. É como já disse antes. O país pode até estar se desindustrializando, mas seria muito bom que alguém apresentasse algum dado consistente que mostrasse isso. As exportações brasileiras de manufaturados cresceram 18% em Jan/Set 2011, atingindo 68 bilhões de dólares; e as de semi-manufaturados subiram 35%, rendendo 27 bilhões de dólares.

A queda na participação dos industrializados no total exportado acontece não porque a exportação de manufaturados tenha caído, mas porque as vendas de básicos explodiram.





Clique nas tabelas para ampliar.

Na segunda tabela, vemos que América Latina é o segundo principal mercado consumidor de produtos brasileiros. Em primeiro vem a Ásia, mas esta importa somente ferro e soja.


Observe bem os gráficos acima, e entenda bem o que está acontecendo no Brasil. Você pode não se interessar por economia, mas a economia certamente vai afetar a sua vida. De janeiro a setembro, entraram 190 bilhões de dólares em exportações, valor que constitui um recorde histórico. Diferentemente de outros momentos históricos, porém, nossa exportação é variada em itens e em destinos. Exportamos muitos produtos e para o mundo inteiro, o que hoje em dia é um grande trunfo nosso. Fôssemos mais dependentes dos EUA ou da União Européia, estaríamos lascados.

2 de outubro de 2011

Depilando as axilas

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Há tempos que observo como o debate em torno dos benefícios e danos trazidos pelas bandeiras do politicamente correto foi poluído pela briga ideológica. Há coisas que são simplesmente grosserias, e não politicamente incorretas. Mas evidentemente há momentos em que o limite é tênue entre uma coisa e outra. Desde que não envolva saúde pública e racismo explícito, acho que deveríamos ser mais tolerantes.

De qualquer forma, estou bastante convicto que não devemos incentivar a censura de publicidade por conta de uma interpretação subjetiva altamente discutível. Isso não vai dar certo. O petismo vai entregar de bandeja a bandeira da liberdade para uma oposição decadente, desesperada por se agarrar a uma tábua de salvação. É um erro político monstruoso. E digo político num sentido muito mais amplo do que o simplesmente eleitoral. Atormentados, desorientados, amargurados pela confusão ideológica que a realpolitik do governo federal lhes provoca, os esquerdistas parecem estar com sangue na boca para encontrar um inimigo que os façam sentir-se "na luta" novamente. Eu acredito na luta, mas meu adversário, definitivamente, não é a Gisele Bundchen, muito menos anúncios de lingerie. Ao contrário, minha opinião é que esse comportamento levianamente patrulheiro debilita profundamente a imagem da esquerda, reforçando acusações de que é ela contra a liberdade de expressão, que ela flerta com sentimentos totalitários.

Ouso dizer que isso pode ser o início do fim do petismo no Brasil, caso ele se deixe levar por esse moralismo barato, ocioso, arrogante e interventor. Sentindo-se ofendida pelo anúncio, a ministra deveria encaminhar um protesto pessoal ao Conar, ou chamar a sociedade para um debate em torno da imagem da mulher na publicidade brasileira. Nunca procurar censurá-lo através da estrutura do governo.

Aonde nos levará esse radicalismo? Vamos proibir a circulação das piadas do Costinha?

Entendo que há diferença entre a liberdade permitida à publicidade e a que se concede à arte. O jornalismo também possui liberdades distintas. Mas a liberdade enquanto conceito, enquanto liberdade de expressão, é uma só. Se não se permitisse à publicidade nenhuma liberdade, os anúncios seriam completamente insípidos. E quem pode provar que é melhor à sociedade assistir a comerciais insípidos do que enfrentar o risco de topar, aqui e ali, com algum sexismo na forma de humor? Quem poderá provar que, sob a rígida proibição do Estado, mensagens subliminares ainda mais sinistras não estarão sendo veiculadas? Não seria melhor deixar a publicidade livre, até para focar o controle em questões mais diretamente ligadas à saúde pública?

O que é o humor? O humor é justamente, segundo Freud, a liberação de um sentimento reprimido. O humor joga com o tabu, com o proibido, com nossos preconceitos. E assim o humor nos prepara gradualmente para nos libertarmos deles. A brincadeira com as mulheres é a maneira que a sociedade encontra de se preparar para um mundo novo, em que as mulheres recebem tratamento equânime, em que não há sequer necessidade de nenhuma condescendência. Homens e mulheres estão sempre fazendo piadas jocosas uns com outros, sobre seus supostos defeitos, vícios e manias. A realidade é assim. A publicidade e arte refletem isso. As piadas sobre homossexualismo tornam-se populares justamente no momento em que a sociedade brasileira começa a ver o gay como um cidadão tão digno como qualquer outro. Através das piadas, os preconceitos vão caindo, vão se diluindo, lavados pela catarse e pelo riso.

Estava conversando com minha esposa, uma empresária bem sucedida, ultra feminina, uma mulher que se um homem na rua lhe disser uma gracinha desrespeitosa, dá-lhe uma lição de moral arrasadora, que não leva um desaforo para casa e consegue tudo o que quer. Ser dominada ou humilhada por ser uma mulher é algo inconcebível para ela.

Ela considera equivocada a perseguição ao anúncio da Hope. Ela não se sentiu nenhum pouco ofendida; tem trezenas outras mil preocupações em sua mente e sua auto-estima e auto-confiança não são de geléia para tremerem tão facilmente. Olhem ao redor. Abram os olhos. Há milhares de outros anúncios muito piores que este da Hope rolando no país. Uma democracia não pode escolher, arbitrariamente, um deles e usá-lo como bode expiatório.

Tenho certeza que 99% das mulheres brasileiras entenderam o humor mostrado; pode não ter agradado, mas aí simplesmente não vão comprar o produto oferecido; neste caso, estaríamos diante de uma publicidade mau feita, visto que o objetivo é justamente atrair a mulher. Minha mulher nunca vai tirar a roupa para me contar uma notícia ruim. Ou até pode fazê-lo, mas não como castigo! A personagem da Gisele aparece rindo, aquilo é notoriamente - dentro da narrativa do anúncio - uma brincadeira inocente entre o casal. Não há nenhuma insinuação de que ela foi coagida, por violência física ou psicológica, a tirar a roupa. Uns acusam o absurdo de mostrar a mulher como má motorista. Ora, valha-me Deus! Aquela personagem é má motorista, não a mulher em geral!

Aquilo é ficção, entendem? Ficção! Uma brincadeira com uma imagem muito comum que temos das mulheres. Não são todas, claro. Talvez nem seja verdade. Mas é uma coisa que as pessoas falam, que as mulheres estouram seus cartões de crédito, o seu e dos maridos; assim como se fala que os homens costumam gastar seu dinheiro todo com cachaça. Que há de mal nisso? São clichês inocentes, fantasiosos, que não impedem o governo federal de escolher quase sempre as mulheres como responsáveis por gerir os benefícios sociais que o Estado oferece às famílias pobres. Que não nos impede de termos escolhido uma mulher para administrar o país.

Quantos filmes, quantas novelas, quantos livros já não foram escritos repetindo esses lugares-comuns? Quantos clichês sobre os homens não são veiculados na publicidade? Observe ainda que os homens são sistematicamente retratados como burros ou retardados na publicidade, sobretudo diante de mulheres bonitas.

Minha mulher estava me lembrando que durante a Antiguidade Clássica, havia quase um monopólio do nu masculino, retratando uma sociedade visceralmente machista. Talvez a ascendência atual do nu feminino tenha a ver com um movimento psicológico muito profundo, uma mudança tectônica do mundo em direção a um matriarcado. Enfim, é bem plausível que por trás de todo esse emaranhado de interesses comerciais e publicitários, movam-se tendências culturais ainda totalmente misteriosas e inacessíveis ao nosso entendimento. E o que me espanta é a arrogância com que as pessoas querem interpretar de maneira cabal e definitiva uma sociedade tão poderosamente complexa.

É perfeitamente saudável que as pessoas manifestem seu desacordo com o tal comercial. Que façam correntes, e passem horas do dia fazendo elocubrações complicadas sobre os males implícitos, secretos, obscuros, que estão por trás da performance da Gisele Bundchen. O que não posso aprovar é que o governo pressione o Conar a proibir o anúncio por causa disso. O certo, neste caso, seria deixar a sociedade civil tomar a iniciativa.

Abaixo, algumas piadas politicamente infames do Costinha:





1 de outubro de 2011

A guerra entre Íblis e Lúcifer

1 comentário

Reproduzo abaixo a matéria que foi publicada na última edição da Fórum, que foi uma edição comemorativa de 10 anos.



Eu liberto a terra e aprisiono os céus. Eu me jogo ao chão para permanecer fiel à luz, para fazer do mundo um lugar ambíguo, fascinante, dinâmico e perigoso. Para anunciar que irei além dele. O sangue dos deuses continua fresco em minhas roupas. O grito de uma gaivota ecoa em minhas páginas. Deixem-me simplesmente empacotar minhas palavras, e partir.

Essas palavras dramáticas, excerto de um poema intitulado No limite do Mundo,  foram escritas por Adonis, um dos maiores poetas árabes vivos. Servem de mote para este breve ensaio sobre as mudanças no mundo árabe ocorridas na última década.

Que mudanças são dignas de nota? Podemos começar observando que não foram exatamente os céus que foram aprisionados, mas sim quatro aviões; nem a terra alguma foi libertada; um portão se abriu, todavia, dando fuga aos piores demônios do inferno cristão e do inferno islâmico.

O céu terrivelmente belo em Nova York, pronto para receber 2.996 almas, a maioria das quais não dirigiu-se ao paraíso - eram infiéis.

O demônio do Islã se chama Íblis, é o correlato do Lúcifer cristão. Nesses últimos dez anos, ambos travaram uma sangrenta disputa para saber quem receberia mais condenados. É com orgulho que nós cristãos podemos afirmar que vencemos. Se Íblis recebeu 3 mil infiéis naquele fatídico ano, Lúcifer arrebanhou quase um milhão de almas de 2001 aos dias de hoje - isso considerando apenas as vítimas diretas e indiretas da última guerra no Golfo Pérsico.

E desde Dante sabemos muito bem o que acontece aos muçulmanos depois da morte. A diferença é que hoje acontece em vida mesmo.

Chi poria mai pur con parole sciolte
dicer del sangue e de le piaghe a pieno
ch'i' ora vidi, per narrar più volte?

Quem, mesmo em prosa, poderia
falar do sangue, e das feridas
horripilantes que eu ali via?

Dante descreve então a tortura inflingida a Maomé, levado para o oitavo círculo do inferno (dos semeadores de intriga e discórdia), cujo corpo é sistematicamente mutilado por um demônio. A cena, presente no capítulo 28 do Inferno, parece descrever o cenário de um café em Bagdá após um atentado terrorista:

Às pernas o intestino lhe escorria;
a mostra estavam nele, o coração
e a bolsa que o alimento recebia.

Depois da mutilação, porém, as feridas se fecham, preparando o corpo do condenado para receber outro golpe. Não parece a história recente do Iraque?

Não se pode falar de árabes, e da visão que temos de sua cultura, sem mencionar Edward Said, sobretudo a sua obra Orientalismo, clássico dos clássicos sobre o imperialismo cultural do ocidente. É realmente muito triste que o grande intelectual palestino, que estudou e lecionou nas maiores universidades americanas (Harvard, Yale e Columbia) tenha morrido antes de assistir a queda de Mubarak!

Said faz um levantamento minucioso e erudito de tudo que o Ocidente escreveu sobre os árabes nos últimos mil anos. E constata que o imperialismo europeu e depois o americano fundamentou-se também no domínio da cultura, sobretudo a partir da chegada de Napoleão ao Egito. O ditador francês entra em Cairo levando um comitê de “sábios”, encarregados de registrar e estudar tudo que encontravam. Desde então, surge na Europa a figura do “orientalista”, com ênfase durante muito tempo no oriente próximo, ou seja, no mundo árabe muçulmano.

No prefácio para a edição de 2003 de Orientalismo, Said lamenta que o debate internacional sobre o mundo árabe tenha se empobrecido assustadoramente nos últimos anos; o mais grave é que ele parece ter sido empobrecido deliberadamente pelos falcões de guerra. “Parece-me inteiramente expressivo do momento em que estamos vivendo o fato de que, ao pronunciar seu discurso linha-dura de 26 de agosto de 2002, sobre a necessidade imperativa de atacar o Iraque, o vice-presidente Cheney tenha citado, como seu único “especialista” em Oriente Médio – favorável à intervenção militar no Iraque -, um acadêmico árabe que, como consultor remunerado pela mídia de massas, repete todas as noites pela televisão seu ódio pelo próprio povo e sua renúncia ao próprio passado”.

Said, todavia, também faz algumas críticas aos árabes: “Nos países árabes e muçulmanos, a situação não chega a ser muito melhor. (…) a região escorregou para um antiamericanismo fácil que mostra pouco entendimento do que os Estados Unidos efetivamente são como sociedade.”

A conclusão de Said é que, “o humanismo é a única possibilidade de resistência”, sendo que “somos favorecidos pelo campo democrático fantasticamente animador do ciberespaço, aberto para todos os usuários de maneiras jamais sonhadas pelas gerações anteriores”.

O intelectual, portanto, meio que prevê a “primavera árabe”, a qual, aliás, parece ter se convertido num  verão infernal, a julgar pelos acontecimentos recentes na Líbia e na Síria.

Lendo o blog Syria Comment, de Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio e professor na Universidade de Oklahoma, não há como deixar de pensar naqueles orientalistas citados por Said em seu livro, com suas sociedades, centros, fundações, voltadas para o estudo das coisas árabes, e que foram todas, sem exceção, instrumentalizadas para servir ao imperialismo europeu.

Entrevistado por uma TV americana, Landis afirma que os árabes, “num certo sentido, abraçaram as ideias de George Bush sobre liberdade e democracia”. O blog de Landis é o mais lido nos EUA sobre o oriente médio; como reagir a esse tipo de sofisma idiota? Folheando o livro de Said, encontro uma citação de Shakeaspare (é uma fala do Bobo, no Rei Lear) que pode nos trazer um pouco de humor: “Eles mandam que eu seja açoitado por falar a verdade, tu mandas que eu seja açoitado por mentir; e às vezes sou açoitado por ficar calado”.

Os árabes, por vezes, vivem o pior dos mundos. Se apoiam a ditadura, sofrem com sua brutalidade; se apoiam a democracia, são acusados de conspirar ao lado dos americanos; e às vezes apanham simplesmente porque não apoiam nenhuma coisa nem outra.

Enfim, falar dos árabes é algo extremamente arriscado, sobretudo após ler Orientalismo, de Said, porque somos expostos a nossos próprios preconceitos e manias. A pior das manias é a arrogância de achar que conhecemos muito bem o Oriente Médio apenas porque lemos os artigos de Pepe Escobar.

Voltemos, portanto, a poesia de Adonis. “Eu convoco anjos e ambulâncias – eu me transformo em água e escorro para a piscina de minhas tristezas, ou me torno num horizonte e escalo os cimos do desejo. Eu sei que nós morremos apenas uma vez – e renascemos a toda hora. E sei que a morte somente é útil, se a gente a atravessar. Eu sei que o imediato é esta rosa, essa mulher, e que uma face humana está do outro lado do céu.”

Esta “face humana do outro lado do céu” é justamente o que procurava Said nos compêndios eruditos que os europeus escreviam sobre o oriente médio ao longo dos últimos duzentos anos. Said sonda centenas de livros tentando encontrar quem visse os árabes não mais como árabes, mas como seres humanos. Quem visse a cultura árabe não como um objeto de estudo que, como tal, deva permanecer estática, como um modelo vivo a quem ordenamos que não se mexa para que possamos retratá-lo à perfeição. Said defende a cultura árabe enquanto uma entidade viva, dinâmica, em movimento constante. Evoluindo às vezes, regredindo, pausando aqui e avançando enlouquecidamente acolá. Said defende a individualidade única de cada árabe, na contramão das generalizações esquemáticas e simplórias que as mentes mais brilhantes e eruditas costumavam fazer.

É interessante observar como Said não questiona a genialidade, o esforço e o talento dos estudiosos europeus que souberam apreender e decifrar linguas mortas, realizar escavações arqueológicas, e pesquisar a história do oriente desde seus primórdios, além da competência inegável na construção de ferrovias, portos, canais, pontes, indústrias e lavouras. A sua acusação é contra o tratamento frio e esquemático a uma cultura tão viva.  Ele percebe então que às potências imperialistas não interessava que essas culturas adquirissem consciência de sua força, dinamismo e vivacidade.

Não havia nada de errado com os árabes. Ao contrário, eles haviam constituído, na Alta Idade Média (séculos VIII e IX), um dos maiores impérios do mundo, estentendo-se da Espanha à China. Houve um momento em que o mundo árabe formou um crescente ameaçador ao redor da Europa, prestes a sorvê-la com a sua força militar e cultural. As primeiras universidades européias, em Córdoba, foram fundadas por árabes, os quais durante séculos protegeram os tesouros da civilização helênica, entre eles a obra de Aristóteles.

Nos últimos dez anos, os árabes viveram as revoluções tecnológicas com o mesmo entusiasmo e interesse demonstrado por qualquer outro povo. Os egípcios criaram blogs, alguns passaram a fazer ativismo político na rede, e todos usaram a internet para ampliar seu conhecimento sobre o mundo. O ocidente, por sua vez, pode conhecer melhor os árabes.

Podemos, por exemplo, conhecer a poesia do palestino Mahmoud Darwish, outro que Said aponta como um dos dois maiores poetas árabes contemporâneos :

Meu céu está cinza. Coce minhas costas. E desfaça meus cachos, você mesmo, estranho. E me diga o que se passa em sua cabeça. Diga-me coisas simples, diga-me o que uma mulher gostaria de ouvir. (…) Diga-me o que Adão disse em segredo para si mesmo. (…) Fale que duas pessoas, como eu e você, podem suportar toda essa semelhança entre a névoa e a miragem, e retornar em segurança. Meu céu está cinza; o que você pensa quando o céu se acinzenta?

(Trecho do poema “Dois pássaros estranhos no mesmo gallho”).

Nos últimos dez anos, portanto, os árabes não passaram todo o tempo voltados para Meca, rezando. Eles também escreveram poemas, amadureceram ideais democráticos, derrubaram torres gêmeas, derrubaram ditadores – e se tornaram os maiores compradores mundiais de frango brasileiro.

De qualquer forma, devemos ficar de olho aberto, pois há trechos no Alcorão que mais parecem memorandos do Pentágono, “se eles lutarem contigo, mate-os de uma vez. Essa é recompensa para aqueles de pouca fé.” (2.191 ).

(Imagem: Gustave Doré, ilustração do Inferno de Dante)

Clássicos do Camisa de Vênus & 1 Hendrix

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Silvia



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EU NÃO MATEI JOANA DARC



Bete Morreu



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Bola fora do governo

48 comentarios


Na minha humilíssima opinião, foi uma tremenda bola fora. Justamente o tipo de coisa que eles esperavam para cair de pau no governo "do PT". A ministra transformou o trabalho importante que faz à frente da secretaria num estereótipo previsível e desgastante, colando no petismo o estigma de adversário da liberdade de expressão. Com isso, reforça preconceitos ideológicos e joga toda uma categoria de profissionais liberais (publicitários, artistas, jornalistas, modelos, gente que lida diretamente com o risco de ser "censurado" pelo governo) contra o PT e contra a própria esquerda.

E acho que foi um erro não apenas pela questão política, mas um erro concreto, de avaliação do assunto. Se fosse um caso de saúde pública, tudo bem. Acho que a regulamentação da mídia faz sentido nesse ponto. Há muita reportagem furada, em jornais impressos e na TV, sobre uso de remédios, etc, e isso deveria passar por filtros de especialistas, de preferência nem ligados ao governo, mas a um conselho formado por acadêmicos totalmente isentos politicamente.

Entretanto, proibir uma propaganda da Gisele porque ela se insinua sensualmente ao marido? Ora, trata-se da situação mais humana do mundo! Humana, correta e necessária à continuidade da espécie. E o contrário também é verdadeiro! Um companheiro ou companheira estão sempre procurando seduzir um ao outro, e nada melhor do que um charminho especial para amenizar o impacto da confissão de um deslize. No meio desse debate, li que as mulheres já correspondem a quase 60% da mão de obra do país. Ou seja, elas já pagam as contas e não precisam mais provar nada a ninguém.

Temos os problemas de diferenças salariais, etc, mas acredito que estamos num rumo acelerado para uma era de total equanimidade entre os gêneros; e, ouso dizer, até com vantagem para as mulheres. A capacidade de comunicação de uma mulher, sua doçura no trato com o público, um senso maior de responsabilidade e a superioridade cada vez mais evidente (já comprovada estatisticamente) no nível de educação formal, prometem tempos em que as mulheres estarão, literalmente, por cima da carne seca. E eu estou contentíssimo com isso. Para mim, o mundo melhorará muito quando houver mais mulheres no comando dos negócios e da política, pela maior sensibilidade que elas demonstram ao lidar com problemas humanos, ecológicos e sociais; e sobretudo, por sua aversão maior à violência física, o que poderá pôr fim aos últimos conflitos bélicos que ainda atormentam e desestabilizam a ordem global.

Essa equanimidade, porém, não significa extinguir as características da mulher, incluindo aí seus defeitos, vícios e obsessões, se é que podemos chamá-los assim. Uma publicidade, assim como uma arte narrativa qualquer, deve explorar não apenas o lado bom do ser humano. Dante Alighieri escreveu uma trilogia maravilhosa: O Inferno, O Purgatório e O Paraíso; mas é o Inferno que sempre despertou o interesse do público. Ninguém sequer lê os outros dois. Pretender que se descreva a mulher, em comerciais publicitários, como um ser perfeito, que nunca usará sua beleza e sua sensualidade para obter o que deseja, é falsear a realidade. E confundir o poder de sedução de uma mulher, que é um conhecimento e um talento legítimos, que as mulheres estudam, exercitam e praticam desde a mais tenra idade - desde meninas! - com o trabalho de uma prostituta, é uma agressão à inteligência e ao bom senso. Detalhe: os homens também estudam e praticam a sedução desde garotos. Pode-se dizer que o poder de persuadir (e, portanto, de seduzir) tem sido uma das principais ambições do homem desde que a escrita foi inventada.

Vocês sabem que minha maior diversão, além de bater na direita, é dar umas porradas na esquerda de vez em quando. Essa é a hora: a esquerda tem que parar de ser cafona!

A cafonice da esquerda é um problema grave, porque naturalmente afasta de si toda uma categoria de profissionais da criatividade que exercem influência poderosa na opinião pública. Eu lembro de uma cena muito bem construida do filme "Meu irmão é filho único", que trata justamente disso. É a história de dois irmãos italianos: o mais velho se torna um famoso sindicalista de esquerda, charmoso e bem sucedido existencialmente; o outro, meio que para chamar a atenção, ingressa num movimento fascista. E tem esta cena, num anfiteatro de faculdade pública, onde os comunistas organizam audição de uma sinfonia de Beethoven a qual acrescentam uma "letra" repleta de clichês esquerdistas. O jovem fascista, desencantado com seu grupo, aceitara participar do evento. É um rapaz simples, não-intelectual, mas tem bom gosto suficiente para entender que se trata de uma barbaridade estética. Ele comenta isso com o irmão comunista, que o compreende e ri. O espectador então entende que o movimento comunista nasce de gente humilde, trabalhadores sem nenhuma sofisticação, ou estudantes que cultivam um idealismo simplório e romântico, e é normal que seja contaminado por sua estética "naif" e às vezes até grosseira.

Acontece uma coisa, todavia, que faz o irmão mais novo entender, definitivamente, que a "cafonice" da esquerda era - neste caso ao menos - inofensiva e singela, e que por isso deveria ser defendida da violência e arrogância de seus adversários. Um grupo de fascistas invade o anfiteatro portando paus e facas, num protesto violento contra a suposta agressão à obra de Beethoven. O irmão mais novo, então, completa sua conversão ao anti-fascismo. É óbvio que, numa situação como aquela, muito mais imoral que a cafonice musical dos comunistas é a intolerância brutal dos fascistas.

Voltando à Gisele, lembrem-se que ela falava com seu marido, não com seu patrão ou professor, o que faz ruir por terra todas as teorias conspiratórias sobre a "exploração" da sensualidade feminina.

Marta Suplicy escreveu em sua coluna de hoje na Folha um texto meio confuso sobre o tema; ao fim do qual, ela pede-nos para inverter a situação: "mude a Gisele para um bonitão. Vejamos: talvez na primeira cena ele teria de vir de bermuda mal ajambrada, com um copo de cerveja na mão e, nesse momento, apareceria "errado". Depois, ele apareceria como? Um bonitão, cara de inteligente, de gentil/doce, de intelectual... Ih, a mulherada é bem mais complexa."

Ora, não vi nada demais na inversão. Muitas mulheres super-aprovariam o bonitão bem vestido no lugar do outro mal ajambrado. Além disso, Marta imiscui-se num campo que não é o dela: o da publicidade, e põe de lado o principal: a liberdade de expressão, que não pode ficar na mão de burocratas sem humor e sem criatividade.

Ah, assista ao anúncio: