Carlos Lupi permanece no ringue. Pelo menos por mais alguns dias, ou semanas, quem sabe. Seu depoimento no Senado teve um efeito bastante positivo, e a presidente Dilma parece mais decidida do que em ocasiões anteriores a bancar o inevitável atrito com a mídia que a permanência de Lupi provoca.
É cedo, naturalmente, para Lupi cantar vitória. A revista Veja desta semana, ou qualquer outro jornal, poderá iniciar um novo round de denúncias. Mas terão que ser denúncias novas, e mais impactantes do que as que pipocaram até agora, e envolvendo diretamente o ministro.
Aliás, a razão para que a imprensa tenha ignorado as denúncias publicadas pela revista Istoé na semana passada talvez seja o fato de não envolverem diretamente o ministro, mas lobistas que gravitam em torno de sua pasta.
O Estadão aliviou a barra do ministro na manchete e matérias principais, ao enfatizar que a presidente resolveu bancar a sua permanência, até como um gesto visando dissolver as discórdias intestinas do PDT, seu antigo partido. A Dora Kramer, colunista política do Estadão, aplica umas dentadas em Lupi, mas sem muito efeito.
A Folha embarcou na acusação da Katia Abreu, de que o ministro teria usado diárias numa viagem de cunho partidário. É uma acusação de gravidade menor, porque as diárias ministeriais são emitidas automaticamente quando os ministros viajam, e eles podem sempre devolver o valor, em caso de constatação de que a viagem não teve função pública. De qualquer forma, o próprio Lupi havia dito que a viagem havia cumprido uma agenda metade administrativa (o que justificaria o uso das diárias) e metade partidária.
O Globo continua pegando pesado em sua campanha contra Carlos Lupi, mas publicaram entrevistas com Cristovam Buarque e Pedro Taques, senadores pedetistas que tem exercido um papel de oposicionistas disfarçados, nas quais estes admitem que o ministro se saiu bem em seu depoimento no Senado, fortalecendo-se.
No Jornal Nacional, o depoimento recebeu um bom destaque; no bloco, o momento mais negativo para Lupi foi a declaração de Pedro Taques dizendo que o PDT deveria desistir do ministério. A posição de Taques e Buarque, contra a própria participação do PDT no governo, no entanto, soam mais como opiniões de cunho pessoal, lastreadas em algum tipo de ressentimento, do que uma postura política responsável.
Gostaria de partilhar com vocês algumas reflexões que fiz após longas conversas com Ahmed Bahgat, o blogueiro egípcio que recepcionei por uns dias aqui no Rio.
Taí o cara. É um egípcio bem original. Budista, ultra-conectado às novas tecnologias (é diretor nessa área, numa ong), não liga muito para ideologias convencionais. Convenceu-me de que Kadafi era mesmo um ditador insano, e que os jovens árabes não querem saber de bem estar ou segurança sem liberdade. Quanto à revolução no Egito, da qual ele foi um dos protagonistas (o flat onde mora inclusive fica na praça Tahir), Ahmed está bem desencantado, como era de se esperar. Tem medo das eleições, porque a tendência é que os muçulmanos ganhem a maioria das posições no Congresso e o país se torne ainda mais conservador. Foi o que aconteceu na Tunísia, por exemplo, onde ocorreram as primeiras revoltas da chamada Primavera Árabe. Por conta disso, ele já está até se preparando psicologicamente para sair do país, porque admitiu que não suportaria viver num regime islâmico.
Ahmed, que veio ao Brasil convidado pelo I Encontro Mundial de Blogueiros, fez muitas perguntas sobre a situação política no Brasil e confesso que fiquei um pouco envergonhado da mesquinhez de nossos problemas. Temos uma revista Veja, mas no Egito 60% da população está abaixo da linha de pobreza (hoje são menos de 10% no Brasil, e a presidente prometeu zerar este índice até o fim de seu mandato). Aqui temos uma mídia caluniadora e golpista, mas livre. No Egito, os meios de comunicação privados foram agredidos pelo Exército.
Enfim, Ahmed confirmou uma coisa que venho matutando há um tempo. É claro que todas as conquistas sociais que realizamos vieram da luta política, portanto esta não pode esmorecer nunca. Um país começa a decair justamente quando a sua camada intelectual perde o interesse pela política, deixando livre o terreno para todo tipo de pilantras e usurpadores. Entretanto, mais importante do que realizar a luta política em si é refletir sobre o que lutar, como lutar. Qual o foco?
O imbróglio com Orlando Silva me deixou bem irritado, e aí eu comecei a pensar: será que estou me tornando um sujeito rancoroso? Não é um pouco ridículo acoplar o seu bem estar espiritual à estabilidade política do governo?
Também pensei muito sobre o poder da mídia. Não estaríamos entrando numa guerra perdida? É disso que se trata: vencer a mídia? O que significa isso? Produzir a falência dessas empresas? As coisas realmente serão melhores se isso acontecer ou surgirão outros órgãos ainda mais degradados moralmente?
Por fim, a pergunta mais constrangedora, e que por isso mesmo devemos fazê-la corajosamente a nós mesmos: não seria positivo, para a democracia brasileira, termos uma pujante imprensa de oposição? Não seria ela uma garantia objetiva, contundente, contra possíveis desmandos governamentais? Certo que ela costuma fazer, tradicionalmente, campanhas sórdidas, fundamentadas em mentiras, em depoimentos de criminosos, em escutas ilegais, etc. Ela é vil, muitas vezes. Mas não seria uma espécie de mal como aquele de Mefistófeles, que engendraria o bem? É preciso admitir que esse argumento tem sentido, visto que o Brasil tem experimentado um desenvolvimento muito forte, em quantidade e qualidade, e justamente em paralelo à um movimento midiático cada vez mais oposicionista.
Não é uma coisa em que eu acredite, mas eu preciso questionar. A leitura de "Sobre a Liberdade", do Stuart Mill, mexeu comigo. Ele diz que a disputa aberta e transparente entre opiniões divergentes é a única maneira eficaz de consolidarmos a nossa própria opinião.
E agora estou relendo pela enésima vez A República de Platão. Há um personagem, chamado Adimanto, que faz uma brilhante defesa da injustiça, do egoísmo e da maldade, enfatizando que não era isso em que ele acreditava, mas que, justamente por não acreditar, ele gostaria de ver aquele discurso ser esmagado por Sócrates. Como não havia ninguém para defender aquele discurso entre eles, Adimanto mesmo o faz, porque conhecia os argumentos de seus adversários.
Em nossas discussões sobre a função da mídia no Brasil, temos o cuidado de ouvir o outro lado? Mais que isso, estamos prontos a ouvir o outro lado com respeito, boa vontade e, sobretudo, com disposição de entender? Sim, porque uma coisa é, de armas na mão, ouvir seu adversário, disposto a trucidar-lhe na primeira escorregadela. Outra é você procurar entender inclusive aquilo que seu adversário não conseguiu explicar direito. Isso é um autêntico e nobre debate democrático! Se não houver boa vontade, de ambas as partes, para ceder e mudar de opinião, se há somente sectarismo e rancor, então não é um debate democrático, mas uma guerra de posições. Não há armas físicas, mas há belicismo, e, com isso, danos psicológicos, humilhação e arrogância.
Tem um outro personagem na República, Trasímaco, de quem eu estou sempre encontrando cópias na internet. Ele aparece no início do livro I. Sócrates discutia tranquilamente com amigos sobre o significado do conceito de "justiça". Daí que Trasímaco se insurge. Transcrevo abaixo, porque o texto de Platão é uma delícia. No curso de Filosofia Política que estou fazendo, em Yale, o professor diz que muitos consideram a República o melhor livro já escrito no mundo.
Repetidas vezes, enquanto falávamos, Trasímaco procurara tomar parte na conversa, mas fora impedido pelos amigos, que queriam ouvir-nos até o fim. Durante a nossa pausa, após minhas últimas palavras, não pôde mais se conter; erguendo-se do chão, como uma fera, lançou-se contra nós, como para nos dilacerar.
Polemarco e eu ficamos apavorados; porém Trasímaco, elevando a voz no meio do auditório, gritou: — Que tagarelice é essa, Sócrates, e por que agis como tolos, inclinando-vos alternadamente um diante do outro? Se queres mesmo saber o que é justo, não te limites a indagar e não teimes em refutar aquele que responde, mas, tendo reconhecido que é mais fácil indagar do que responder, responde tu mesmo e diz como defines a justiça. E abstém-te de pretender ensinar o que se deve fazer, o que é o útil, proveitoso, lucrativo ou vantajoso; exprime-te com clareza e precisão, pois eu não admitirei tais banalidades.
Ao ouvir tais palavras, fui tomado de assombro e, olhando para ele, senti-me dominado pelo medo; creio até que, se não o tivesse olhado antes que ele me olhasse, eu teria ficado mudo)
Mas, quando a discussão começou a irritá-lo, olhei-o em primeiro lugar, de modo que consegui dizer-lhe, um tanto trémulo:
Sócrates — Não fiques zangado, Trasímaco, porque, se eu e este jovem cometemos um erro em nossa análise, sabes que foi involuntariamente. Pois, se estivéssemos à procura de ouro, não nos inclinaríamos um para o outro, prejudicando assim as nossas oportunidades de descoberta; portanto, não penses que, procurando a justiça, coisa mais preciosa que grandes quantidades de ouro, façamos tolamente concessões mútuas, em vez de nos esforçarmos o mais possível por descobri-la. Não penses isso de forma alguma, meu amigo. Mas eis que a tarefa ultrapassa as nossas forças. Por isso, é muito mais natural para vós, os hábeis, ter compaixão de nós do que testemunhar-nos irritação.
Ao ouvir estas palavras, Trasímaco soltou uma risada sardônica e exclamou: — Ô Hércules! Aqui está a habitual ironia de Sócrates! Eu sabia e disse a estes jovens que não quererias responder, que fingirias ignorância, que farias por não responder às perguntas ,que te fizessem!
Trasímaco afirma ter uma noção muito mais correta sobre justiça. Depois de alguns rodeios, ele a revela:
Trasímaco — Ouve, então. Eu digo que a justiça é simplesmente o interesse do mais forte. Então, que esperas para me aplaudir? Vais-te recusar!
Trasímaco explica que o que entende como a força mais importante de uma cidade é o governo. Portanto, a justiça é aquilo que o governo decidir, seja numa tirania, numa oligarquia ou numa democracia.
Em seguida, Sócrates desconstruirá a afirmação de Trasímaco fazendo-o cair em contradição, como era seu hábito. No entanto, é bastante decepcionante ver Sócrates tentando derrubar seu adversário com pegadinhas dialéticas, em vez de se ater simplesmente ao argumento. O próprio Sócrates, no capítulo seguinte, admite que não estava satisfeito consigo mesmo, e que havia vencido Trasímaco sem apresentar uma argumentação verdadeiramente filosófica. Havia traído, portanto, a si mesmo. Após essa dolorosa mea culpa, confessa sentir-se desamparado diante das dificuldades que a questão se lhe apresenta. Mas, sob instâncias de seus pupilos, concorda em iniciar uma investigação dialética sobre a justiça, e aí tem início o livro, sendo o trecho anterior uma espécie de introdução.
Eu trouxe esse trecho para cá, porque tenho a impressão de que o debate em torno do problema da comunicação social no Brasil (e em todo mundo) está travado. A brutalidade do governo argentino contra a mídia privada daquele país é mostrada como se fosse um maravilhoso exemplo a ser seguido. Não é. Acho importante que os governos tentem resolver os dilemas da comunicação através de novas leis. Mas uma lei não produz justiça se não for uma lei boa, e não será boa se corresponder apenas à uma canetada chauvinista de uma autoridade. Se entendermos que os problemas da mídia devem ser resolvidos pela força bruta do governo, então estaremos repetindo os argumentos de Trasímaco, de que justiça é simplesmente a lei do mais forte.
O mau caratismo de meia dúzia de proprietários de jornais não é razão para legarmos a nossas futuras gerações uma legislação que corresponda a qualquer retrocesso em nossa liberdade de imprensa. Da mesma maneira, o mau gosto de meia dúzia de humoristas não pode ser usado para impormos mais regras do que já possuímos no campo da liberdade de expressão.
É importante conhecermos as legislações de outros países, mas com muito cuidado para não recairmos no velho preconceito de achar que tudo que vem de fora (sobretudo Europa e EUA) é bom.
O problema da mídia não seria antes um problema de caráter de alguns jornalistas ou donos de jornal, ao invés de um problema jurídico?
Com isso não estou dizendo que seja um problema menor. O problema moral muitas vezes é o mais grave num país.
No entanto, apenas um diagnóstico preciso poderá curar o que supõe-se ser uma doença.
Sim, admito que há uma doença. A mídia brasileira tem um poder desmesurado, muitas vezes nocivo ao bem comum. Há alguns pontos em que eu sou positivamente a favor de um controle por parte do governo, com apoio de entidades representativas da sociedade civil. Na questão médica, por exemplo. Com o crescimento populacional e o inchaço das grandes cidades, a comunicação se tornou vital para as políticas de saúde. Nisso, podia haver, se é que já não há, políticas severas de controle sobre o que se pode ou não publicar, embora mesmo nesse caso seja importante cuidar que seja um controle monitorado pelos diferentes poderes constitucionais (legislativo e judiciário) e entidades civis.
Por último, e mesclado a isso tudo, temos que pensar a internet não apenas como uma ágora política, mas também como uma grande vale de lágrimas, gritos loucos e manifestações bizarras. Com a doença de Lula, vejo que a situação se repete. A coleção de bizarrices anti-Lula igualmente não pode ser usada para se defender a criminalização da opinião, por mais esquizofrênica e homicida que ela seja. A internet criou um espaço de liberdade extremamente perturbador, com o qual teremos de aprender a conviver. Vejo muita gente acusando os outros de fazer apologia disso, apologia daquilo, e clamando por algum tipo de castigo. Ora, vamos ser sensatos e olhar para o estado de nossas repartições judiciárias e policiais! Os governos não conseguem resolver homicídios de verdade, imagine se os recursos forem dispersos para se combater abrobrinhas publicadas na internet!
Quando o sujeito publica uma insanidade na internet, isso não quer dizer que ele seja um crápula. Ele pode estar tendo problemas mentais (estou falando sério). Isso é muito comum e deve ser levado em conta sim. E se a pessoa tem problemas mentais, deve ser tratada com respeito, e não agredida ou linchada publicamente. Em suma, não devemos dar bola a todo tipo de comentário. Por um lado, é importante catalogar essas manifestações, para estudo e análise do comportamento social. Todos nós devemos estar mais ou menos atentos ao burburinho da internet. Por outro, entenda-se que muitas pessoas procuram justamente se exibir, e a repercussão de uma esquisitice apenas cumpre o objetivo doentio de seu autor.
O combate à bizarrice deve ser feito através da luta ideológica e da educação e não através da humilhação pessoal. A pessoa fala uma merda na internet, aí é perseguida por um bando de justiceiros travestidos de militantes políticos, perde o emprego, e quem sofre será o seu filho de dois anos que não tinha nada a ver com a história. Não sei se fica meio ridículo citar São Paulo, mas eu gosto muito da parte em que ele diz:
Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.
Romanos 2:1
Pois é exatamente isso o que acontece. Uma galera ficou julgando o Rafinha Bastos, mas aí eu vi que esses mesmos que se arvoraram em juízes do Rafinha diziam todo tipo de impropério na internet. Um sujeito ficou tão horrorizado quando eu retuitei uma piada onde constavam vocábulos pornográficos usados por Rafinha que teve um chilique e passou a me xingar pesadamente no Twitter. Ou seja, acusam Rafinha mas fazem o mesmo, ou aliás, fazem pior, porque o Rafinha fala suas merdas porque vive disso. Esses fazem de graça, por simples falta de educação.
Então, Miguel, o que você sugere fazer? Nada? Então você é mesmo um reacionário!
Sim, eu sugiro fazer alguma coisa. Minha sugestão é incluir no currículo escolar obrigatório aulas de crítica midiática. Crianças e adolescentes devem aprender desde cedo a olhar a mídia de maneira crítica, tentando sempre separar o joio do trigo. Para mim, esta é a única solução. É uma bandeira positiva, construtiva. A bandeira contra a mídia é uma bandeira negativa, mais ligada uma ideia de destruição de que de criação. No fundo, os que levantam essa bandeira gostariam de repetir os gestos daqueles velhos sindicalistas da década de 30, que entraram nas redações de alguns jornais e destruiram-lhes as máquinas. A mídia privada é uma grande Matrix, que só venceremos através da conscientização política de cada indivíduo, um por um.
Uma coisa é você ler os jornais sem consciência crítica. Você se tornará certamente um imbecil. Outra é você ler devidamente municiado por outras fontes de informação: neste caso, poderá desfrutar talvez de uma leitura agradável durante seu café da manhã. Quando não estão engajados em campanhas histéricas de falso moralismo, os jornais trazem sempre alguma informação interessante. Você pode achar que a Folha só merece ser usada para forrar o chão da casinha de cachorro, mas não pode negar que é o jornal mais lido no país e a fonte de informação mais influente junto a políticos, juízes, advogados, artistas, etc. Traz entrevistas com as principais lideranças da política, com sumidades da ciência e da arte que respeitamos.
Não acho producente sermos maniqueístas. Não vamos chegar a lugar nenhum pressionando a esquerda a entrar numa cruzada moral contra a mídia. Isso só vai gerar prejuízos para todo mundo, porque todo mundo, de esquerda ou não, precisa da mídia para divulgar seus serviços, seus produtos, suas ideias.
Aliás, a esquerda deve participar do debate sobre comunicação social com muita humildade, porque a história já mostrou que a grande mancha do socialismo real foi - e ainda é - a repressão à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa. A China continua perseguindo artistas e livre pensadores, então ainda precisamos pôr muita água nesse moinho antes de pretendermos que uma nova lei da mídia irá resolver todos os nossos problemas políticos. A lei da mídia será feita de qualquer jeito porque as plataformas de comunicação estão no meio de uma grande revolução tecnológica. Mas será uma lei mais técnica do que política, e assim deve ser.
Como blogueiro progressista, eu acho que é muito mais construtivo, repito, defendermos uma mudança nos currículos escolares, introduzindo uma matéria de crítica midiática, e fazermos periodicamente grandes debates nacionais, com presença de nossos principais pensadores, sobre o que seria ensinado às nossas crianças, jovens e adultos. Deveria ser criada uma cadeira acadêmica voltada exclusivamente para o desenvolvimento de uma consciência midiática crítica em cada cidadão. Confesso que nunca gostei muito daquele lema do maio de 68, mas agora senti uma vontade imperiosa de citá-lo, até porque foi pela educação pública que os ideais da revolução francesa realmente se concretizaram em toda Europa:
A resposta para a pergunta que intitulava o meu post anterior (Brasil vencerá a calúnia?) foi dada hoje: infelizmente é não. Tivemos uma vitória rápida ao final da semana passada, mas o governo se acovardou de maneira lamentável. O poder da mídia de produzir crise continua intacto. É o que lhe resta. Fazer campanhas sem escrúpulos para derrubar ministros, como num videogame. Eu vou ter que mergulhar por alguns dias, porque engajei-me num projeto solitário que me obriga a voltar a estudar wordpress e php.
(O abraço que Marco Aurélio Garcia deu em Orlando Silva
é um abraço que milhões de brasileiros queriam dar)
Foi uma sexta-feira turbulentíssima. A mídia apertou o cerco em torno de Orlando Silva. Seus exércitos iniciaram um bombardeio concentrado durante o dia inteiro, tentando produzir um fato consumado. Na verdade, desde o dia anterior, a mídia vinha divulgando que o Planalto "emitira sinais" de que Orlando deveria pedir demissão. A manchete do Jornal O Globo da quinta-feira era enorme, bombástica e definitiva: Planalto decide afastar Orlando Silva. E nesta sexta quase todos os principais jornalistas políticos anunciavam a queda do ministro como inevitável.
Até que, finalmente, chega a patroa. Dilma Rousseff voltou da África, deu declarações irritadas acerca das notícias sobre sua suposta decisão de afastar Orlando Silva, reuniu-se a portas fechadas com o ministro e, por fim, decidiu que ele permanece no cargo. Foi uma tremenda vitória contra a calúnia, contra a manipulação da notícia, e contra os desmandos enlouquecidos de uma mídia sem escrúpulos.
A tensão gerada pela onda crescente e delirante de denúncias vazias acabou, como era de se esperar, transformando-se em rancor também contra o governo, acusado de agir com pusilanimidade em face ao golpismo midiático. "O governo é covarde", tem sido uma acusação frequente.
De fato, é inegável que os políticos brasileiros têm medo da mídia. É preciso entender, porém, que a mídia não precisa passar pelo incômodo eleitoral. Ela tem dinheiro e estabilidade. Já o poder dos representantes políticos sofre de uma grande "fragilidade" (que também é sua força) democrática: é temporário e descartável.
Lembremos que o conflito entre mídia e governo tem sido um problema grave em todo mundo, e acontece de uma forma muito acentuada na América Latina. As instituições políticas por aqui não são respeitadas. Mas é injustiça dizer que o governo brasileiro e as lideranças políticas não estão reagindo.
Hoje o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, fez declarações contundentes contra o que ele chamou de fascismo pós-moderno.
A própria presidente tem feito, frequentemente, declarações bastante enfáticas contra o prejulgamento e o linchamento político. Hoje mesmo o Planalto divulgou uma nota dura, seca e direta, como uma bala:
Nota à imprensa
Após a reunião com o ministro do Esporte, Orlando Silva, a presidenta Dilma Rousseff disse que o governo “não condena ninguém sem provas e parte do princípio civilizatório da presunção da inocência”.
“Não lutamos inutilmente para acabar com o arbítrio e não vamos aceitar que alguém seja condenado sumariamente”, disse a presidenta.
Na reunião, o ministro informou à presidenta que tomou todas as medidas para corrigir e punir malfeitos, ressarcir os cofres públicos e aperfeiçoar os mecanismos de controle do Ministério do Esporte.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
Agora, é evidente que o governo precisa agir com prudência. O governo é um animal pesado, que se movimenta e se comunica com extrema lentidão e dificuldade, pois cada ato e cada palavra devem ser sopesados para que se coadunem sem traumas à sua mentalidade algo esquizofrênica, com múltiplas personalidades.
No entanto, a cada passo dado, a cada palavra emitida, dá-se uma grande transformação. Um pequeno gesto governamental pode ter um enorme significado histórico. O sofrimento do ministro Orlando Silva e dos militantes do aguerrido PCdoB, certamente se converterá numa consciência política mais aguçada, mais astuta, mais forte.
A estratégia de criminalizar a política tem sido o padrão da mídia. O simples fato de uma pessoa ser "filiada" a um partido político torna-a suspeita, como se esta filiação não fosse, na verdade, um ato de transparência ideológica. E o ministério dos Esportes pagou até por seus acertos. Condenou-se sumariamente o ministério pelo fato dele estar fazendo cobranças judiciais contra ongs dirigidas por filiados do próprio PCdoB, como era o caso das entidades dirigidas pelo PM João Dias.O ministério provou que não perdoa ninguém.
Faltou, como sempre, bom senso. O Ministério dos Esportes foi entregue ao PCdoB para que este implantasse políticas em linha com os ideais do partido. É natural, se ele deve contratar entidades privadas, que sejam selecionadas algumas que partilhem dessas mesmas estratégias. Há irregularidades? Sim, sempre há. Mas novamente usemos o bom senso. Há dois tipos de irregularidades. Algumas são provocadas por confusão burocrática. Muitas correspondem a desvios de verbas. Não há nenhuma relação destas últimas, porém, com o PCdoB. Ao contrário, no ranking da corrupção, o PCdoB sempre figurou num dos últimos lugares.
O Ministério mostrou que tem estado atento às irregularidades, às quais correspondem a um percentual pequeno do montante total das ações. Não se pode culpar o ministério, ou o ministro, por erros de terceiros. O ministério é obrigado a dar um voto de confiança às entidades com as quais tem parceria. O governo não pode antever que empresas lhe passarão a perna. O que ele faz é examinar as contas, no âmbito dos próprios ministérios, junto ao Tribunal de Contas e através da Controladoria Geral da União, e, no caso de encontrar problemas, tomar as devidas providências.
O que causa espanto nesse processo todo é a estratégia articulada da mídia para derrubar o ministro. Divulgam-se denúncias uma após a outra, sem preocupação nenhuma com sua consistência. O importante é fazer volume e criar uma atmosfera de crise e linchamento, com vistas a pressionar o governo a tomar uma decisão rápida e intempestiva.
A compra de um terreno de 370 mil num lugar isolado do interior de São Paulo é considerado um crime. O fato da mulher do ministro dos Esportes dar assistência na produção de um documentário feito por uma ONG, sob encomenda do ministério da Justiça, é sensacionalizado. "Mulher de ministro recebe dinheiro do governo", diz a manchete. Ora, a mulher do Serra tem ONG que recebe há anos patrocínio do governo de São Paulo. Dona Ruth, que Deus a tenha, sempre teve ONG patrocinada com dinheiro público. E os últimos casos envolvem milhões de reais, e uma relação direta entre as esposas e o governo, enquanto a mulher do ministro ganhou apenas 40 mil para trabalhar num documentário sobre a ditadura, que obteve, através de uma outra ong, patrocínio de um ministério sem nenhuma relação com seu marido.
Não é o caso de justificar um erro com outro, mas apenas apontar uma injustiça. A mulher do ministro não estava cometendo nenhuma ilegalidade. A lei do nepotismo proíbe o ministro de empregar a sua mulher no ministério, mas não fecha à ela, arbitrariamente, as portas de toda instituição pública.
Em Vigiar e Punir, Foucault nos fala que a história da punição evoluiu de tal maneira que os castigos corporais foram substituídos, gradualmente, por castigos voltados ao espírito:
... e desde então os juízes, pouco a pouco, mas por um processo que remonta bem longe no tempo, começaram a julgar coisa diferente além dos crimes: a alma dos criminosos.
É assim que tem feito a imprensa, ao assumir o papel de um verdadeiro e terrível tribunal de exceção.
Num mundo cada vez mais dominado pela comunicação rápida, onde uma acusação rapidamente multiplica-se em milhões de links, comentários, piadas e juízos, uma calúnia corresponde a um sofrimento bem pior do que uma dor física, porque ataca diretamente a honra, ou seja, a alma do acusado. E dificilmente a ferida cicatriza, porque é extremamente complicado fazer a calúnia fazer o caminho de volta, apagando seus rastros. Na era da internet, as acusações precipitadas, os comentários maldosos, as piadas cruéis, permanecem na rede para sempre, constituindo uma espécie de castigo perpétuo.
Não é de se espantar que os políticos tenham receio da mídia! A mídia pode destruir não apenas a sua carreira política, mas algo muito mais importante: a sua honra, a sua dignidade, a sua alma.
Diante de um poder tão terrível concentrado em mãos inescrupulosas, é natural, ou antes, é necessário que uma parte da sociedade exija que haja um controle democrático da mídia. Não podemos mais ficar reféns dessa nova espécie de tirania, que de certa forma, parece a mais terrível de todas, porque tem o poder de vida e morte sobre a honra dos cidadãos.
Como diria Lênin: o que fazer? Eu vejo as pessoas pedirem uma Ley dos Medios, ou democratização dos meios de comunicação, sem no entanto saber muito bem do que estão falando. E o debate, é forçoso dizer, está sendo vencido pela mídia corporativa. Quanto a isso, tenho mantido uma postura bastante cética. Eu acho fundamental que seja discutido um novo marco regulatório das comunicações. Mas tanta coisa vai mudar quando houver a convergência digital e a entrada definitiva das telefônicas no mercado de televisão digital e a cabo; tanta coisa vai mudar quando a maioria da população tiver acesso a uma banda larga decente; enfim, estamos no limiar de mudanças tecnológicas - e consequentemente, culturais - tão profundas, que acho um pouco ingênuo a gente pretender que será uma lei federal que mudará substancialmente, no curto prazo, a correlação de forças dentro da mídia.
O problema principal, a meu ver, é de ordem prática e orgânica para os partidos e forças políticas do campo popular. Eles têm sido o alvo principal dos ataques midiáticos. Não devemos, no entanto, alimentar um complexo de derrota fora da realidade. A esquerda, com mídia golpista e tudo, tem crescido a um ritmo bastante acelerado no Brasil, e possivelmente crescerá ainda mais em 2012.
Enfim, este problema de ordem prática pode ser resolvido com a instalação, dentro dos partidos e governos, de assessorias de comunicação mais competentes e mais ousadas. A sociedade civil engajada, ou seja, a militância, tem se mostrado bastante presente, e é justamente a ausência do governo nesta seara que a obrigou a portar-se com admirável autonomia e desenvoltura. Há uma responsabilidade, na guerra da comunicação, que pertence à esfera privada, e neste campo também a mídia tem encontrado alguns obstáculos sérios. Há uma pedra no caminho da mídia: ou melhor, muitas pedras: os blogs progressistas.
Nestes momentos de tensão, as pessoas costumam se deixar levar por raciocínios e julgamentos apressados. Não se deve fazer uma análise política com paixão ou rancor. O governo tem se manifestado, nos últimos anos, com uma assertividade cada vez maior em relação aos ataques midiáticos. As declarações de Tarso Genro, acusando a existência de um fascismo pós-moderno (referindo-se, é claro, à mídia) seriam impensáveis há alguns anos. A maneira como Orlando Silva se portou durante esta crise, com altivez e serenidade, respondendo com muita objetividade a todas as calúnias, também mostra que os representantes políticos estão amadurecendo sim.
É preciso elogiar, sobretudo, o espírito combativo, solidário e enérgico do PCdoB e seus militantes, que diferentemente do PT, que costuma ceder a divisões internas, agiu como um bloco uníssono em defesa da honra de um grande quadro. Uma postura que certamente inspirou militantes e dirigentes de outros partidos.
Enfim, as instituições políticas brasileiras sofreram o enésimo ataque, e mais uma vez resistiram. Quero acreditar que, a cada ataque do conservadorismo midiático e golpista, as forças populares emergem fortalecidas. Afinal, não existe melhor exercício político do que a luta.
Devemos, portanto, combater essa tendência, tão constante em nosso povo que se tornou quase um vício, de nos autodepreciarmos. O Brasil venceu mais essa guerra. Orlando Silva resistiu. Devemos comemorar e usar esta experiência para as muitas batalhas que ainda virão. Provavelmente enfrentaremos derrotas, mas também aprenderemos com estas para vencermos mais à frente.
A necessária acomodação entre forças sociais antagônicas tem sido um terrível desafio para qualquer nação. Os EUA perderam quase 1 milhão de vidas com uma guerra civil onde o que estava em jogo era exatamente o mesmo que experimentamos no Brasil: a luta entre conservadorismo e progressismo. Mais tarde, viveu uma época de caça-às-bruxas que até hoje envergonha o povo americano. A Europa, por sua vez, antes de atingir seu atual estágio de desenvolvimento econômico, político e social, testemunhou o nascimento de ideologias fascistas que resultaram em massacres e guerras.
Não esperemos que seja fácil para o Brasil superar suas contradições. A mídia é a cabeça de uma poderosa hidra, e não tem poder por si só, mas por representar setores sociais situados no alto da pirâmide. Não a subestimemos. A mídia brasileira é talentosa, criativa, sabe se reinventar a cada derrota, e sabe que o Brasil, mal ou bem, precisa dela, já que ela é o meio pelo qual a maioria do povo tem acesso a informações necessárias à cidadania. Essa é uma guerra que lutaremos sem cairmos na tolice do maniqueísmo. Santo Agostinho ensinava que tudo que existe tem bondade, pois em caso contrário não existiria, nem poderia ser corrompido - pois o que é mal, por ser mal, não pode sequer ser corrompido. Tudo que existe vem de Deus, dizia ele; na minha versão atéia, isto significa que tudo que existe e tem força possui uma importância histórica e uma utilidade social (com exceção da escravidão, que é a negação da liberdade e, logo, da vida). Não adianta, portanto, pintarmos os atuais conflitos políticos como uma guerra do bem contra o mal. É ingênuo querer o fim da mídia corporativa ou achar que os políticos não deveriam dar mais entrevistas, nem comparecer a nenhum evento, etc. A única solução é um acordo. Um pacto de fortes. Não exatamente entre governo e mídia, mas entre governo, Justiça, sociedade civil e mídia. Precisamos de uma mídia independente dos governos. Mas não uma mídia caluniadora. As forças da História, de qualquer forma, estão em movimento, e em luta; diante da História, nobres são os que tombam de arma nas mãos. E numa democracia, a arma mais legítima - ou a única legítima - é a inteligência. Como dizia Morrison: the old get older, the young get stronger; they got the guns, but we got the number. Gonna win, baby, and take it over!
O meu post sobre o Rafinha Bastos suscitou reações carinhosas por parte dos amigos. Um blogueiro afirmou que eu deveria ter escrito sob efeito do álcool, depois que eu tinha surtado, que se tratava de uma opinião exótica (disso eu gostei) e que eu apenas me prejudicava (essa não entendi). Uma blogueira esclareceu que "ainda" não desejava que eu quebrasse os dentes, visto que esperava uma retratação. É lindo o espírito democrático! É lindo o espírito de paz e fraternidade entre os colegas!
Todo mundo reclama da falta de diversidade de opiniões na mídia, e de repente pretendem impor a mesma teocracia monolítica na blogosfera. Vários se manifestaram como se fosse absurdo o simples fato de eu ter emitido aquela opinião. Uma tuiteira passou dias me xingando de sexista e proferindo palavrões. Uma outra já me deu tanto block que deve ter construído uma muralha de concreto, embora minhas palavras - contra a minha vontade, já que eu não quero ser mais xingado - sempre arranjem um jeito de furar o bloqueio.
Já tentaram me explicar várias vezes o que é sexismo, mas ainda tenho dificuldades para entender completamente esse tema. Talvez alguma feminista possa "desenhar" para mim (elas sempre querem desenhar para que possamos compreender). Uma delas disse que se eu elogiar o jantar preparado por minha mulher, por exemplo, estaria sendo um "sexista benevolente".... Isso me confundiu um pouco. Na minha casa, onde sou eu o cozinheiro oficial, a recíproca seria válida?
Enviaram-me um artigo publicado na Carta Capital, da Rosane Pavam, onde somos brindados com uma longa xaropada - culta, é verdade, mas ainda sim uma xaropada - sobre o que é ou não humor. O texto é cheio de contradições insolúveis. Limito-me a reproduzir este trecho:
Chico Anysio, assim como Jô Soares, sempre proferiu piadas sexistas, machistas e misóginas, mas, como lembra o historiador Saliba, quase sempre encarnando outros personagens, como oligarcas e nhonhôs: “Os preconceitos estavam lá, todos, alguns em toda a sua crueza, mas eram reversíveis, mudavam de lado a todo o momento, os papéis eram trocados, retomando o universo do burlesco”.
Ou seja, se Rafinha inventasse "personagens", se "mudasse de lado a todo momento", podia continuar fazendo o que faz. Um humorista agora tem ser igual ao Chico Anísio para ser aprovado? Tudo isso segundo o historiador Saliba, não se esqueça. Viva o historiador Saliba! Os humoristas devem ler Bergson antes de abrir a boca! E o padrão de humor deve continuar sendo os programas da Globo!
Minha surpresa, no entanto, foi maior com o artigo de Marcos Coimbra, publicado no Azenha. O politólogo também demonstrou profundo conhecimento sobre humor, como se pode constatar na conclusão de seu texto:
Só se for para quem acha graça nas velhas piadas que ridicularizam mulheres, negros, indígenas, portugueses, nordestinos, homossexuais, loucos e deficientes.
Confesso que essa é uma opinião interessante. Coimbra, porém, esqueceu de acrescentar leprosos, anões, vesgos, fanhos (se bem que estes podem ser classificados no grupo "deficientes"; mas é legal detalhar), argentinos e paraguaios. Mais um pouquinho, e Coimbra incluía todo o espectro humano que, segundo ele, não pode virar objeto de piadas. Bem, pelo menos sobrarão os bichos, embora eu desconfie que algumas ongs lutarão para que estes não sofram com o nosso corrosivo e degenerado humor.
Escuso-me de comentar as suas comparações com as leis da Suécia. Neste campo da restrição à propaganda, assim como em tantos outros, sempre há alguma lei escandinava que a gente pode copiar. Deve ser por isso que a Suécia tornou-se uma potência no campo do audiovisual e da liberdade de expressão. Coimbra - ironizando a mídia - lembra que o "lulo-petismo" não chegou à Suécia. Pois é, de fato, lá chegou foi o neonazismo, no parlamento e no Executivo.
O mais curioso mesmo é que as pessoas - na falta de outro argumento - vem me atacar chamando-me de "reacionário", como esse, que me deliciou especialmente:
Com a vantagem que uma semana me dá, seus comentários me impelem a pensar que você está se transformando - se já não era - um reacionário de direita dos piores.
O engraçado é que eu pensava justamente que o meu erro tinha sido ideologizar o debate. Ou seja, eu acreditava que isso (o ímpeto de censurar e o espírito de linchamento) não fosse necessariamente uma coisa da esquerda, mas se tratava puramente de um tolo e ingênuo moralismo da classe média "politizada", travestido de indignação. Também tinha a esperança que as pessoas objetivavam restringir apenas a publicidade, que teria regras próprias, menos livres que outras formas de comunicação. Não, o desejo é restringir o humor também. Atenção, humoristas que gostam de dar aquela "meia hora de bunda"! O bicho pode pegar para vocês também!
Como se pode constatar pela reação das pessoas à "sugestão" da ministra Iriny Lopes de que a Globo inserisse uma informação pública na novela das oito, há uma intenção real de interferir igualmente na ficção. Para a ministra, o certo não seria o governo fazer um anúncio no intervalo da novela - tem que enfiar a informação no meio da trama. Maravilha. Na novela do SBT sobre a ditadura, deveriam informar o telefone da comissão de direitos humanos da ONU no meio das sessões de tortura... Por que ninguém nunca pensou nisso antes!
Meus amigos, acho que meu amigo blogueiro está certo. Estou ficando louco. Toda cerveja que bebi na vida resolveu finalmente cobrar a conta da minha lucidez. Tenho opiniões exóticas. Meus dentes já começam a doer com a possibilidade de serem quebrados. E, por fim, tornei-me um empedernido e odioso reacionário!
Sim, só pode ser isso, porque é isso ou então eles que é que enlouqueceram todos! Eles é que estão bebendo muito! Eles é que se tornaram reacionários! E tomem cuidado, porque neste caso a realidade pode lhes quebrar os dentes!
Quando eu penso estar isolado numa ilha, rodeado de estranhos por todos os lados, eis que leio um artigo do Mino Carta, intitulado: "Já não se fazem gênios como antigamente?", que me deixa ainda mais desamparado. Não estava disposto a comentar esse texto, porque gosto muito do Mino, respeito-o profundamente, etc. Mas visto que ele aparece justamente nesse contexto de opiniões esdrúxulas, sou forçado a lembrar ao grande Mino que o tempo do Renascimento, descrito brilhantemente por Jacob Burckhardt, foi um tempo de tiranos crudelíssimos, massacres, exploração mais vil do povo. O trecho abaixo, portanto, que resume a tese do meu editor preferido, contém uma premissa equivocada.
Há uma conexão transparente entre todas as atividades humanas praticadas no mesmo momento, e a Renascença é extraordinário momento de mudança e renovação. A turva, aturdida hora que vivemos agora é de decadência.
Não vivemos nenhuma decadência. O sufrágio universal (incluindo aí o voto das mulheres) só começou a ser implantado nas democracias modernas a partir da década de 60, no século passado. O analfabetismo no mundo só agora tem caído substancialmente. Ainda há desgraça, fome e doenças no planeta, mas nada que se compare ao medievo, onde a longevidade média dos homens não ultrapassava os trinta anos. O mundo de hoje oferece oportunidades de ascensão social a um percentual muito mais alto da população do que na época de Michelângelo. Naquela época, os artistas dependiam de tiranos assassinos e papas corruptos para sobreviver, hoje podem vender seu trabalho diretamente ao público. Eu tenho infinita admiração pelo Renascimento italiano, Mino, e já tive o privilégio de estar em Florença por duas vezes (uma delas por quatro meses) e ler a Divina Comédia e Petrarca no original e namorar de perto o portão do Batistério e a torre planejada por Giotto na praça do Duomo, mas eu sei que as condições políticas daquele tempo eram bem piores do que vemos hoje no Brasil, por exemplo. E se não temos nenhum Dante Alighieri, tivemos um Dante Milano.
Observação importante: eu critico o Mino mas ele continua sendo meu editor preferido; não sou como alguns de vocês que, só porque não aprovam uma opinião, condenam a pessoa à fogueira eterna. A mesma coisa vale para Marcos Coimbra, um politólogo que respeito profundamente, apenas me concedo o atrevido direito de discordar nesse tema.
Observação importante 2: posso nunca ter tido nenhuma projeção midiática; sou apenas um reles blogueiro semi-anônimo; mas o respeito ao indivíduo e à dignidade que vocês cobram diariamente da grande mídia, espero que tenham comigo.
Temos um país repleto de problemas trágicos para serem solucionados. As grandes cidades brasileiras que eu conheço estão semidestruídas. Lixo na rua, saneamento precário, saúde pública deficiente. Tipo de problema que já não apoquenta muito os suecos. A Dilma teria se acovardado ao recuar no caso do novo imposto da Saúde? O Brasil precisa melhorar a gestão do setor, mas precisa também de mais recursos. E o governo - através da ministra Iriny Lopes - se desgastando perseguindo Rafinha Bastos, publicitários de empresas de lingerie e novelistas de tv!
Quanto aos programas de humor e telenovelas, continuo defendendo mais e mais liberdade, e zero interferência do governo. Em casos extremos, que a questão seja decidida pela Justiça, mas que esta julgue, por sua vez, sempre com bonomia e tolerância máxima. Há situações excepcionais que devem ser coibidas, como aquela tv que mostrou uma menina sendo estuprada em pleno dia. De resto, porém, deixemos de ser hipócritas, reacionários e censores. O sexismo na TV e no humor só poderá ser vencido pela luz, pela transparência, pela liberdade, não pela mão pesada, quase sempre desastrada nesses assuntos, do Estado.
(Rafinha será tranformado em mártir pela esquerda moralista?)
Uma coisa leva a outra, e agora preciso levar essa polêmica até as últimas consequências. Permitam-me, contudo, exibir uma apólice de seguro de minha opinião: isto é só um debate, não tenho pretensão nenhuma de vir aqui brandir a verdade derradeira e definitiva na cara de ninguém. Pode ser que eu esteja completamente errado. Permitam-me também de vez em quando carregar um pouco nas tintas. Eu me referi, no Twitter, a esse fascismo de classe média, a esse moralismo enfurecido, apoplético, inquisitorial, que se manifesta também com muita força à esquerda. Peço desculpas aos que se sentiram ofendidos. Não chamo ninguém, em particular, de fascista. Acuso apenas esse fascismo etéreo, pairando no ar, essa nuvem de ódio e sectarismo, que tradicionalmente se disfarça de boas intenções.
Como esse moralismo, nas pessoas identificadas com ideologias de esquerda, sente-se constrangido em atacar o governo (deixo a ultra-esquerda de fora porque é insignificante numericamente) que, teoricamente, representa o seu campo, ele extravasa o seu rancor contra outras instâncias de poder. Há inimigos de alto calibre, como a grande imprensa, o vulgo PIG (Partido da Imprensa Golpista). Aí sim temos um gigante perigoso, um verdadeiro quarto poder na República, um poder selvagem, hobbesiano, que precisaria sofrer algum tipo de regulação democrática, para amainar a instabilidade política e as injustiças culturais que ele gera. A própria internet, e especialmente a blogosfera, no entanto, já correspondem um pouco esse monitoramento. Aliás, por isso eu acho que a blogosfera deveria, antes de tudo, investir em si mesma, em sua profissionalização e independência, para não ficar dependendo apenas que uma nova legislação, proposta pelo governo federal, vá resolver o problema. A própria ação dos blogs, se aprimorada, pode muito bem fazer parte do papel que caberia a "Ley dos Medios". Até porque uma Ley dos Medios nunca vai resolver todos os problemas decorrentes da concentração dos meios de comunicação. A big press manterá seu poderio. Talvez tenha que ser mais dissimulada. Será a mesma, contudo. A lei terá que ser feita, até porque a realidade do universo midiático vai sofrer uma revolução. A convergência digital está vindo, e daí só Deus sabe o que irá acontecer. Mas uma coisa a internet mudou de vez. A comunicação social é uma realidade hoje muito mais próxima do cidadão.
Entretanto, esse ódio "santo", e o digo sem ironia, porque ele é o ingrediente necessário a qualquer revolução ou mesmo qualquer mudança, às vezes escolhe um alvo fraco, ou seja, um indivíduo, um cidadão brasileiro. Aí eu acho errado.
Eu acho errado e perigoso essas correntes de ódio, como esse linchamento coletivo de Rafinha Bastos. Querem odiar a grande mídia? Tudo bem, é um adversário à altura. Mas focar esse ódio num jovem humorista?
Você pode não gostar do Rafinha Bastos. Pode achar que ele é um péssimo profissional. Eu também não simpatizo com ele, menos ainda com o CQC. Eu não gosto do Marcelo Tas, porque desde muito tempo entendi que ele é uma figura midiática ligado ao conservadorismo político. Ele dá palestras para a Juventude do DEM, participa de todos os movimentos midiáticos da direita.
Mas ele tem direito de ser assim. Tanto Marcelo Tas como Rafinha Bastos são cidadãos brasileiros que gozam de seus direitos civis e de sua liberdade de expressão, os quais eu defenderia até com a minha vida, se me permitem essa bravata.
No caso específico de Rafinha Bastos, você pode achá-lo um humorista desastroso, nocivo, mas não pode negar que isso é uma opinião sua, e que milhões de brasileiros pensam diferente. O cara foi considerado pelo New York Times como a figura mais influente do mundo no Twitter. Claro que o NY Times tem seus interesses, a sua parcialidade, etc, mas ainda assim é o NY Times. De qualquer forma, mesmo que o NY Times não tivesse dito nada, ainda sim Rafinha Bastos continuaria sendo uma das figuras mais influentes do Twitter, senão no mundo, ao menos no Brasil. Algum talento o cara tem.
Entretanto, Rafinha Bastos não é um gigante da mídia; é apenas um indivíduo. Você pode até achar que ele simboliza isso e aquilo que existe de mal, de preconceituoso, de reacionário, na sociedade, mas ele não é um símbolo. Ele é uma pessoa. A gente já assistiu como essa confusão, entre o que é símbolo ou mito e o que é apenas humano se mostra letal, em geral para o lado humano, visto que o símbolo não morre tão fácil.
Eu fico estupefato ao contemplar a desenvoltura com que as pessoas se arvoram em juízes da opinião pública e acorrem à praça para vociferar e lançar pedras na prostituta da vez. Rafinha Bastos é a Madalena de setores "politizados" da internet. Agora é chique participar de linchamentos?
Daí eu lembro daquelas multidões enfurecidas que se aglomeram em frente aos tribunais, quando temos julgamentos de protagonistas de crimes com grande cobertura midiática, como o casal Nardone. Na internet, temos fenômenos parecidos, mas com uma multidão mais refinada.
Afinal, quais foram os crimes cometidos por Rafinha Bastos?
Vamos elencar e analisar seus dois mais recentes e comentados "crimes":
1) Disse que mulheres feias deveriam agradecer a seus estupradores, porque eles estariam fazendo uma caridade.
Desnecessário dizer que se trata de uma grosseria inominável. Evidentemente, Rafinha jamais teve uma parente que sofreu esse tipo de agressão. Agora, a frase saiu da boca de um humorista, num contexto específico, em que ela se pretendia bem-humorada, ou sarcástica. Acusar Rafinha de pregar o estupro de mulheres, é um absurdo. A escola de piadas grosseiras, aliás, não teve início com Rafinha. Quem não se lembra da infinidade de piadas com leprosos? Na minha vida, já tive a oportunidade de ouvir e repetir dezenas de piadas com leprosos, com judeus, com louras burras. A dos leprosos eram bem engraçadas.
A piada do Rafinha, portanto, inscreve-se na série de piadas de humor negro, e assim deve ser entendida. Pode-se não gostar da piada, pode-se sentir irritado, pode-se até mesmo enviar emails pedindo a sua demissão; mas deve-se tomar muito cuidado para não fazer disso um linchamento. Daqui a pouco um maluco, depois de absorver tanto ódio na internet, agride o humorista fisicamente, e daí estaremos configurando, precisamente, a criação de um movimento fascista.
2) Disse que "comeria" Wanessa Camargo e seu bebê.
Outra grosseria. Mas, a meu ver, de bem menor gravidade. De seu jeito torto, quase bandido, Rafinha fez um elogio à Wanessa Camargo. Disse que ela, mesmo grávida, estava atraente. A circunstância era a mesma do caso interior. Rafinha estava participando de um quadro de humor, sob forte pressão psicológica para falar algo muito engraçado, que justificasse o seu salário de marajá na Band. A intenção dele, obviamente, não era defender o estupro de grávidas e bebês. Fizeram uma tempestade de um copo d'água, sobretudo porque a frase desagradou figuras poderosas. Rafinha é um empregado, pisou na bola e pode ser demitido, não sei, mas não vejo razão para elegê-lo como inimigo público número 1 da sociedade brasileira.
Conclusão: Rafinha cometeu um erro de avaliação, o que mostra que a sua profissão comporta riscos. A Band o contratou para que ele ajudasse a emissora a aumentar a sua audiência. A concorrência dos canais abertos tem sido cada vez mais acirrada. Como fazer frente à Globo? Se fôssemos depender da TV Brasil, me desculpem, a Globo teria 99% do mercado. Eu elogiei muito a ida de Teresa Cruvinel para a TV Brasil, mas, hoje, vendo retrospectivamente o seu trabalho, acho que foi medíocre. Jornalisticamente, a TV Brasil não inovou em nada, fazendo uma cobertura meia-boca, e às vezes beirando a covardia, ao não produzir pautas desafiadoras. Artisticamente, a TV Brasil também se mostrou fraca. A ideia que eu tenho da TV Brasil é que, ao ligar lá num sábado à noite, vou ver um documentário de indios nus da década de 60. Ora, já vi vários documentários de indios nus, não tenho nada contra, mas estou falando de trazer coisas mais vivas, mais estimulantes, mais polêmicas. A proposta de só mostrar filme brasileiro me parece um nacionalismo tosco. Exibe um montão de filme ruim, que pouca gente vê. Tanto filme interessante no mundo! E o cúmulo da incompetência: é o canal com mais problemas de transmissão de imagem. Eu moro na Lapa, ao lado da sede da TV Brasil e não consigo assistir de tão ruim que é qualidade!
Então, a concorrência fica a cargo dos caras do Pânico e do CQC. Que estão conseguindo, com apenas uma fração da verba que a Globo tem, fazer frente a um domínio de quase 40 anos.
Eu não estou aqui para atirar pedra em ninguém. A blogosfera acusa a grande mídia de acusar, julgar, condenar e executar a pena, mas está fazendo a mesma coisa.
Tem muita gente ruim no Brasil. Tem diretor de hospital desviando verba. Tem médico que deixa de atender paciente por pura maldade ou preguiça. Tem corrupção na política, nas empresas, nos jornais. Até mass killer agora já temos, e de crianças! Outro dia fiquei sabendo do golpe que deram no ator Sérgio Brito, um cara que todos admiramos e amamos. Uma coisa horrível. O Brasil contemporâneo é um grande fornecedor de almas para o inferno.
Rafinha Bastos é o menor problema que temos no Brasil. Não gosta dele? Mude o canal. Ignore-o. É besteira querer eliminá-lo. Todo esse clima de linchamento apenas irá transformá-lo em vítima, até mesmo um mártir. E o perigo, como disse em outro post, é colar na esquerda a etiqueta de pseudo-moralista e inimiga da liberdade de expressão. Em nome da democracia, somos obrigados a engolir um rol de figuras estranhas integrando ou apoiando o governo. Não custa nada usar a mesma tolerância com humoristas, sobretudo com aqueles que estão desafiando o monopólio da Globo.
Há tempos que observo como o debate em torno dos benefícios e danos trazidos pelas bandeiras do politicamente correto foi poluído pela briga ideológica. Há coisas que são simplesmente grosserias, e não politicamente incorretas. Mas evidentemente há momentos em que o limite é tênue entre uma coisa e outra. Desde que não envolva saúde pública e racismo explícito, acho que deveríamos ser mais tolerantes.
De qualquer forma, estou bastante convicto que não devemos incentivar a censura de publicidade por conta de uma interpretação subjetiva altamente discutível. Isso não vai dar certo. O petismo vai entregar de bandeja a bandeira da liberdade para uma oposição decadente, desesperada por se agarrar a uma tábua de salvação. É um erro político monstruoso. E digo político num sentido muito mais amplo do que o simplesmente eleitoral. Atormentados, desorientados, amargurados pela confusão ideológica que a realpolitik do governo federal lhes provoca, os esquerdistas parecem estar com sangue na boca para encontrar um inimigo que os façam sentir-se "na luta" novamente. Eu acredito na luta, mas meu adversário, definitivamente, não é a Gisele Bundchen, muito menos anúncios de lingerie. Ao contrário, minha opinião é que esse comportamento levianamente patrulheiro debilita profundamente a imagem da esquerda, reforçando acusações de que é ela contra a liberdade de expressão, que ela flerta com sentimentos totalitários.
Ouso dizer que isso pode ser o início do fim do petismo no Brasil, caso ele se deixe levar por esse moralismo barato, ocioso, arrogante e interventor. Sentindo-se ofendida pelo anúncio, a ministra deveria encaminhar um protesto pessoal ao Conar, ou chamar a sociedade para um debate em torno da imagem da mulher na publicidade brasileira. Nunca procurar censurá-lo através da estrutura do governo.
Aonde nos levará esse radicalismo? Vamos proibir a circulação das piadas do Costinha?
Entendo que há diferença entre a liberdade permitida à publicidade e a que se concede à arte. O jornalismo também possui liberdades distintas. Mas a liberdade enquanto conceito, enquanto liberdade de expressão, é uma só. Se não se permitisse à publicidade nenhuma liberdade, os anúncios seriam completamente insípidos. E quem pode provar que é melhor à sociedade assistir a comerciais insípidos do que enfrentar o risco de topar, aqui e ali, com algum sexismo na forma de humor? Quem poderá provar que, sob a rígida proibição do Estado, mensagens subliminares ainda mais sinistras não estarão sendo veiculadas? Não seria melhor deixar a publicidade livre, até para focar o controle em questões mais diretamente ligadas à saúde pública?
O que é o humor? O humor é justamente, segundo Freud, a liberação de um sentimento reprimido. O humor joga com o tabu, com o proibido, com nossos preconceitos. E assim o humor nos prepara gradualmente para nos libertarmos deles. A brincadeira com as mulheres é a maneira que a sociedade encontra de se preparar para um mundo novo, em que as mulheres recebem tratamento equânime, em que não há sequer necessidade de nenhuma condescendência. Homens e mulheres estão sempre fazendo piadas jocosas uns com outros, sobre seus supostos defeitos, vícios e manias. A realidade é assim. A publicidade e arte refletem isso. As piadas sobre homossexualismo tornam-se populares justamente no momento em que a sociedade brasileira começa a ver o gay como um cidadão tão digno como qualquer outro. Através das piadas, os preconceitos vão caindo, vão se diluindo, lavados pela catarse e pelo riso.
Estava conversando com minha esposa, uma empresária bem sucedida, ultra feminina, uma mulher que se um homem na rua lhe disser uma gracinha desrespeitosa, dá-lhe uma lição de moral arrasadora, que não leva um desaforo para casa e consegue tudo o que quer. Ser dominada ou humilhada por ser uma mulher é algo inconcebível para ela.
Ela considera equivocada a perseguição ao anúncio da Hope. Ela não se sentiu nenhum pouco ofendida; tem trezenas outras mil preocupações em sua mente e sua auto-estima e auto-confiança não são de geléia para tremerem tão facilmente. Olhem ao redor. Abram os olhos. Há milhares de outros anúncios muito piores que este da Hope rolando no país. Uma democracia não pode escolher, arbitrariamente, um deles e usá-lo como bode expiatório.
Tenho certeza que 99% das mulheres brasileiras entenderam o humor mostrado; pode não ter agradado, mas aí simplesmente não vão comprar o produto oferecido; neste caso, estaríamos diante de uma publicidade mau feita, visto que o objetivo é justamente atrair a mulher. Minha mulher nunca vai tirar a roupa para me contar uma notícia ruim. Ou até pode fazê-lo, mas não como castigo! A personagem da Gisele aparece rindo, aquilo é notoriamente - dentro da narrativa do anúncio - uma brincadeira inocente entre o casal. Não há nenhuma insinuação de que ela foi coagida, por violência física ou psicológica, a tirar a roupa. Uns acusam o absurdo de mostrar a mulher como má motorista. Ora, valha-me Deus! Aquela personagem é má motorista, não a mulher em geral!
Aquilo é ficção, entendem? Ficção! Uma brincadeira com uma imagem muito comum que temos das mulheres. Não são todas, claro. Talvez nem seja verdade. Mas é uma coisa que as pessoas falam, que as mulheres estouram seus cartões de crédito, o seu e dos maridos; assim como se fala que os homens costumam gastar seu dinheiro todo com cachaça. Que há de mal nisso? São clichês inocentes, fantasiosos, que não impedem o governo federal de escolher quase sempre as mulheres como responsáveis por gerir os benefícios sociais que o Estado oferece às famílias pobres. Que não nos impede de termos escolhido uma mulher para administrar o país.
Quantos filmes, quantas novelas, quantos livros já não foram escritos repetindo esses lugares-comuns? Quantos clichês sobre os homens não são veiculados na publicidade? Observe ainda que os homens são sistematicamente retratados como burros ou retardados na publicidade, sobretudo diante de mulheres bonitas.
Minha mulher estava me lembrando que durante a Antiguidade Clássica, havia quase um monopólio do nu masculino, retratando uma sociedade visceralmente machista. Talvez a ascendência atual do nu feminino tenha a ver com um movimento psicológico muito profundo, uma mudança tectônica do mundo em direção a um matriarcado. Enfim, é bem plausível que por trás de todo esse emaranhado de interesses comerciais e publicitários, movam-se tendências culturais ainda totalmente misteriosas e inacessíveis ao nosso entendimento. E o que me espanta é a arrogância com que as pessoas querem interpretar de maneira cabal e definitiva uma sociedade tão poderosamente complexa.
É perfeitamente saudável que as pessoas manifestem seu desacordo com o tal comercial. Que façam correntes, e passem horas do dia fazendo elocubrações complicadas sobre os males implícitos, secretos, obscuros, que estão por trás da performance da Gisele Bundchen. O que não posso aprovar é que o governo pressione o Conar a proibir o anúncio por causa disso. O certo, neste caso, seria deixar a sociedade civil tomar a iniciativa.
Abaixo, algumas piadas politicamente infames do Costinha:
Na minha humilíssima opinião, foi uma tremenda bola fora. Justamente o tipo de coisa que eles esperavam para cair de pau no governo "do PT". A ministra transformou o trabalho importante que faz à frente da secretaria num estereótipo previsível e desgastante, colando no petismo o estigma de adversário da liberdade de expressão. Com isso, reforça preconceitos ideológicos e joga toda uma categoria de profissionais liberais (publicitários, artistas, jornalistas, modelos, gente que lida diretamente com o risco de ser "censurado" pelo governo) contra o PT e contra a própria esquerda.
E acho que foi um erro não apenas pela questão política, mas um erro concreto, de avaliação do assunto. Se fosse um caso de saúde pública, tudo bem. Acho que a regulamentação da mídia faz sentido nesse ponto. Há muita reportagem furada, em jornais impressos e na TV, sobre uso de remédios, etc, e isso deveria passar por filtros de especialistas, de preferência nem ligados ao governo, mas a um conselho formado por acadêmicos totalmente isentos politicamente.
Entretanto, proibir uma propaganda da Gisele porque ela se insinua sensualmente ao marido? Ora, trata-se da situação mais humana do mundo! Humana, correta e necessária à continuidade da espécie. E o contrário também é verdadeiro! Um companheiro ou companheira estão sempre procurando seduzir um ao outro, e nada melhor do que um charminho especial para amenizar o impacto da confissão de um deslize. No meio desse debate, li que as mulheres já correspondem a quase 60% da mão de obra do país. Ou seja, elas já pagam as contas e não precisam mais provar nada a ninguém.
Temos os problemas de diferenças salariais, etc, mas acredito que estamos num rumo acelerado para uma era de total equanimidade entre os gêneros; e, ouso dizer, até com vantagem para as mulheres. A capacidade de comunicação de uma mulher, sua doçura no trato com o público, um senso maior de responsabilidade e a superioridade cada vez mais evidente (já comprovada estatisticamente) no nível de educação formal, prometem tempos em que as mulheres estarão, literalmente, por cima da carne seca. E eu estou contentíssimo com isso. Para mim, o mundo melhorará muito quando houver mais mulheres no comando dos negócios e da política, pela maior sensibilidade que elas demonstram ao lidar com problemas humanos, ecológicos e sociais; e sobretudo, por sua aversão maior à violência física, o que poderá pôr fim aos últimos conflitos bélicos que ainda atormentam e desestabilizam a ordem global.
Essa equanimidade, porém, não significa extinguir as características da mulher, incluindo aí seus defeitos, vícios e obsessões, se é que podemos chamá-los assim. Uma publicidade, assim como uma arte narrativa qualquer, deve explorar não apenas o lado bom do ser humano. Dante Alighieri escreveu uma trilogia maravilhosa: O Inferno, O Purgatório e O Paraíso; mas é o Inferno que sempre despertou o interesse do público. Ninguém sequer lê os outros dois. Pretender que se descreva a mulher, em comerciais publicitários, como um ser perfeito, que nunca usará sua beleza e sua sensualidade para obter o que deseja, é falsear a realidade. E confundir o poder de sedução de uma mulher, que é um conhecimento e um talento legítimos, que as mulheres estudam, exercitam e praticam desde a mais tenra idade - desde meninas! - com o trabalho de uma prostituta, é uma agressão à inteligência e ao bom senso. Detalhe: os homens também estudam e praticam a sedução desde garotos. Pode-se dizer que o poder de persuadir (e, portanto, de seduzir) tem sido uma das principais ambições do homem desde que a escrita foi inventada.
Vocês sabem que minha maior diversão, além de bater na direita, é dar umas porradas na esquerda de vez em quando. Essa é a hora: a esquerda tem que parar de ser cafona!
A cafonice da esquerda é um problema grave, porque naturalmente afasta de si toda uma categoria de profissionais da criatividade que exercem influência poderosa na opinião pública. Eu lembro de uma cena muito bem construida do filme "Meu irmão é filho único", que trata justamente disso. É a história de dois irmãos italianos: o mais velho se torna um famoso sindicalista de esquerda, charmoso e bem sucedido existencialmente; o outro, meio que para chamar a atenção, ingressa num movimento fascista. E tem esta cena, num anfiteatro de faculdade pública, onde os comunistas organizam audição de uma sinfonia de Beethoven a qual acrescentam uma "letra" repleta de clichês esquerdistas. O jovem fascista, desencantado com seu grupo, aceitara participar do evento. É um rapaz simples, não-intelectual, mas tem bom gosto suficiente para entender que se trata de uma barbaridade estética. Ele comenta isso com o irmão comunista, que o compreende e ri. O espectador então entende que o movimento comunista nasce de gente humilde, trabalhadores sem nenhuma sofisticação, ou estudantes que cultivam um idealismo simplório e romântico, e é normal que seja contaminado por sua estética "naif" e às vezes até grosseira.
Acontece uma coisa, todavia, que faz o irmão mais novo entender, definitivamente, que a "cafonice" da esquerda era - neste caso ao menos - inofensiva e singela, e que por isso deveria ser defendida da violência e arrogância de seus adversários. Um grupo de fascistas invade o anfiteatro portando paus e facas, num protesto violento contra a suposta agressão à obra de Beethoven. O irmão mais novo, então, completa sua conversão ao anti-fascismo. É óbvio que, numa situação como aquela, muito mais imoral que a cafonice musical dos comunistas é a intolerância brutal dos fascistas.
Voltando à Gisele, lembrem-se que ela falava com seu marido, não com seu patrão ou professor, o que faz ruir por terra todas as teorias conspiratórias sobre a "exploração" da sensualidade feminina.
Marta Suplicy escreveu em sua coluna de hoje na Folha um texto meio confuso sobre o tema; ao fim do qual, ela pede-nos para inverter a situação: "mude a Gisele para um bonitão. Vejamos: talvez na primeira cena ele teria de vir de bermuda mal ajambrada, com um copo de cerveja na mão e, nesse momento, apareceria "errado". Depois, ele apareceria como? Um bonitão, cara de inteligente, de gentil/doce, de intelectual... Ih, a mulherada é bem mais complexa."
Ora, não vi nada demais na inversão. Muitas mulheres super-aprovariam o bonitão bem vestido no lugar do outro mal ajambrado. Além disso, Marta imiscui-se num campo que não é o dela: o da publicidade, e põe de lado o principal: a liberdade de expressão, que não pode ficar na mão de burocratas sem humor e sem criatividade.
Tem um filme simpático do Otto Preminger, de 1962, intitulado Tempestade em Washington, que aborda o tema da chantagem na alta política americana, e que eu assisti pela primeira vez há poucos dias. A história se passa inteiramente no Congresso e os personagens são todos senadores, além do presidente. Como usualmente acontece nas histórias holliwoodianas, apontam-se os podres do sistema, mas essas zonas escuras servem apenas para os roteiristas exibirem, orgulhosamente, o amor que votam aos ideais democráticos e à liberdade. Se esses ideais não passavam de palavras vazias, e eram defendidos (como hoje) ao mesmo tempo em que se massacravam os mesmos valores nos países em desenvolvimento, isso é outra história. Nem acho que é para tanto.
Eles - os americanos - acreditam, nos ideais, mas ainda não entenderam que um princípio democrático nunca será moderno e nunca será de fato autêntico e coerente consigo mesmo enquanto não açambarcar a humanidade inteira. E isso já não é uma utopia ingênua. A instabilidade econômica global, as ameaças virais que pairam, sinistras, sobre a raça humana, os desequilíbrios ecológicos, só encontrarão respostas quando surgir um comando político centralizado no mundo. Moeda única, regras únicas, uma educação que tenha ao menos algumas plataformas unificadas. Eleição de uma língua franca (possivelmente o inglês), que deveria ser ensinada como segundo idioma a todos os homens, através de cursos públicos patrocinados pela própria ONU nos países mais pobres.
Mas é melhor parar com esse papo senão daqui a pouco estou votando em Marina Silva, e eu não gostaria de cometer um desatino assim.
Pesquisando na web sobre esse filme, topei com um post que seria uma excelente resenha, não pecasse pela inferência idiota e forçada que faz da realidade tupiniquim. Ele diz que assistir ao filme lhe produziu imensa vergonha de nossos políticos, porque, na história de Preminger, os senadores se digladiam por ideais e não por interesses mesquinhos e cobiça, como acontece - diz o blogueiro - no Brasil. Ora, compre um remédio pra sarna! Esse complexo de vira-lata enche o saco. O sistema político americano sempre foi podre, sempre viveu atolado em corrupção. Os interesses mesquinhos no mundinho estadunidense são tão arraigados que o lobby se tornou uma indústria bilionária, além de legalizada, e sem mencionar a desagradável mania que os congressistas ianques tinham (e ainda tem, como se viu em 2002 com a Venezuela) de apoiar golpes de Estado mundo afora.
O filme é bom, mas trata-se de uma ficção que mostra um pouquinho do lado podre da política americana. Só um pouquinho, para não assustar as donas de casa.
Entretanto, acho que foi interessante esbarrar com mais essa vira-latice; é um caso bem representantivo de como pensa um setor importante da sociedade brasileira. Os famigerados estratos médios produzem, em ritmo frenético, imbecis deslumbrados com a própria cultura. Suas manifestações textuais invariavelmente parecem discursos proferidos do alto de um púlpito sagrado, mesmo quando simulam (sobretudo quando fazem isso), com ar blasé, informalidade e non-chalance.
Daí eu lembro do nosso glorioso Merval Pereira e de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Até hoje não comentei o fato. Lembro que, assim que o soube, imaginei que o colunista do Globo mereceu esta honra pela sua habilidade em usar o futuro do pretérito. Jamais houve jornalista ou escritor com mais talento para manejar expressões tais como "fulano teria dito", "sicrano teria ouvido". Afora o monstruoso dom que tem para sondar os pensamentos secretos e íntimos dos poderosos. Quantas vezes Merval não destrinchou o inconsciente de Lula? Se não acertou nenhuma vez, não é por sua culpa, naturalmente, visto que é um gênio imortal. A culpa é de Lula que mudou de ideia...
Claro, a eleição de Pereira foi um típico "aparelhamento". Não vou dizer que ele seja um analfabeto, como fez um colega. Não. A gente tem que perder essa mania pedante de chamar todo mundo de analfabeto. Merval Pereira sabe ler muito bem e se trata, obviamente, de um sujeito tremendamente astuto, com uma invejável capacidade de trabalho. Aliás, eu tiro o chapéu para esses caras. Miriam Leitão, Merval, Jabor, trabalham com uma energia que me enche de admiração. A Miriam Leitão escreve uma coluna diária no Globo. Fala na CBN também todo dia. Aparece na Globonews. Tem um blog. Para culminar, desempenha sempre um papel importante nos filmetes publicitários que a Globo exibe de vez quando. A moça tem garra!
No discurso em que homenageou Merval, o super acadêmico Eduardo Portella não escondeu as razões que fizeram seus pares escolherem o jornalista para ocupar uma vaga na ABL. Foi um movimento político muito bem premeditado. Assim como tem sido essa festinha toda para que surja uma nova legião de cansados enfurecidos.
Confesso que fiquei bem ressabiado ao ver os jornais convocando manifestações ao mesmo tempo em que ressaltavam a sua "independência". Adotei uma postura deliberadamente hipócrita, voltariana, se é que se pode atribuir tal qualidade a si mesmo sem cair no ridículo - porque eu sabia que aquelas manifestações eram vazias, oportunistas, mais um capitulozinho medíocre no grande livro negro que a mídia escreve há décadas sobre as instituições políticas nacionais. Entretanto, como dizia Regina Duarte, eu tive medo. Muito medo.
A manifestação da Cinelândia foi um fracasso, é preciso que se diga com todas as letras. Esperavam mais de 30 mil e somente 2.500 compareceram. E olha que vieram algumas celebridades das artes, como Frejat e Fernandinha Abreu.
Agora eles estão tentando organizar outra manifestação no dia 12 de outubro. A mídia continua ajudando, divulgando e dando prestígio ao movimento. Não vaticinarei um novo malogro, mas não posso continuar agindo como um guarda do Palácio Real de Londres. Se eu ainda dava um certo crédito a essas manifestações anti-corrupção, a quantidade de abutres que se ouriçaram ao vê-las convenceu-me do contrário.
Não vou chamá-las, contudo, de golpistas, apesar de que elas exalam um fortíssimo cheiro. Um tiranete midiático vai usar técnicas bastante sutis para enganar a vontade popular e praticar uma espécie de golpe político. Mas se é mesmo tão sofisticado, o seu golpe já não pode ser considerado ilegal. É um golpe que não infringe, não diretamente ao menos, o princípio democrático, e portanto deve ser combatido com os instrumentos democráticos a nossa disposição.
No filme de Preminger que cito no início do post, tem um personagem - um senador jovem, voluntarioso, cercado de puxa-sacos -, que é o defensor mais apaixonado do presidente, mas é justamente ele que põe tudo a perder. Porque ele não entende alguns preceitos de uma democracia: uma vitória não precisa ser absoluta para ser uma grande e completa vitória; se não quisermos sermos mordidos, devemos deixar que os cães ladrem à vontade; demonstra-se força e prestígio não através do silêncio de nossos adversários, mas pela altivez e elegância com que enfrentamos seus impropérios. E partir para a baixaria - coisa que os rapazes das melhores famílias fazem sem disso se dar conta - apenas nos degrada.
Dito isso, não sou nada otimista em relação às lutas que travamos para democratizar a comunicação. A tal Ley dos Medios provavelmente não vai sair, e mesmo se sair não creio que dará resultados concretos. Concentração dos meios de comunicação? Ora, pode-se até proibir. Os gigantes se coligarão e driblarão a lei. Um Marinho leva a TV, outro Marinho leva o jornal, um terceiro Marinho leva o rádio. A fantasia esperta de nossos morenos Lampedusos. Cada um na sua, conforme a nova lei, e tudo continuará na mesma.
Por outro lado, após tantas vitórias, a gente às vezes até esquece do que está reclamando. Com o universo midiático relativamente pacificado, alguns blogueiros partem para o superficial, acusando a imprensa por eventuais escorregadelas semânticas ou sintáticas. Ironicamente, os gigantes da mídia, com todo seu imenso poderio, semelham garotos palestinos atirando pedras em tanques de guerra. Sendo que os tanques de guerra somos nós, as forças progressistas. Os partidos conservadores minguam em velocidade crescente. Li hoje que até o ACM Neto vai sair do DEM. E os tucanos correm desta vez sério risco de perder a sua cidadela.
O que falta, então? Por que nunca estamos satisfeitos?
Pois bem, eu vou dizer o que falta. É muito simples. Ou antes, não é nada simples. Falta realizar justamente agora o mais difícil. Falta a realização dos grandes projetos. Por isso é que se combate tanto a construção do trem-bala. Ele é um grande projeto. Na área da cultura, ainda esperamos o despontar de um boom cinematográfico que nunca chega. Temos visto somente espasmos de criatividade, geniais mas efêmeros. O mundinho literário é sempre cheio de auto-referências elogiosas, mas a verdade é que há muito tempo os dez livros mais vendidos são invariavelmente de autores norte-americanos. Isso não é normal, não é saudável, não tem explicação plausível. O Brasil precisa reconstruir-se culturalmente, mas de uma forma realmente autêntica, livre. Bem distante dos protestos verde-tecnológicos das viúvas de Gilberto Gil, dos clichês solipsistas dos garotos do Millenium, das xaropadas midiáticas, das panelinhas da Vila Madalena, etc. Eu acho que o brasileiro precisa é de solidão. Solidão, trabalho, renúncia. Mas eu permito que se vá, às quarta-feiras, ao live jazz da praça Tiradentes, para ouvir Miles Davis e contemplar o belíssimo edifício mourisco do Real Gabinete Portuguez (assim, com z mesmo). É muito melhor que o Rock in Rio, não tem engarrafamento, a cerveja é barata, o ingresso é grátis, e garanto que dificilmente encontrá algum cansado ou neo-cansado por aquelas bandas...
Saiu hoje a nova pesquisa CNI/Ibope sobre o nível de aprovação do governo. Não vejo nenhuma novidade digna de nota, apesar do aumento da popularidade da presidente, mas como eu acompanho esse tipo de informação há bastante tempo, deixo o registro aqui. Publico apenas duas tabelas, sendo que uma é um quadrinho com o perfil sócio-econômico dos entrevistados.
(Parede do ateliê de Nilton Pinho, artista plástico carioca)
Tem um lugar aqui no Rio, chamado Buraco do Lacerda, no bairro de Bonsucesso, que passamos a usar, em família, como sinônimo de inferno urbano. Virou uma expressão meio mitológica para gente, motivo das piadas de humor negro que aplicamos o tempo todo um ao outro. Se eu ganhar muito dinheiro (digo a ela), vou poder comprar uma belíssima barraca para você trabalhar como vendedora ambulante no Buraco do Lacerda. Eventualmente, posso adquirir um apartamento nas adjacências, para você morar perto do trampo.
O lugar é realmente horrível. Sujo, destruído, fedido, sempre engarrafado, com poças de água podre na rua esburacada e bueiros vazando merda. Para completar o quadro dantesco, há sempre viciados de crack vagando pelo local, alguns segurando pedras ou barras de ferro, sabe-se lá porque.
Outro dia, um garoto (imagino que seja um garoto, espero que seja, para escrever algo tão idiota e ingênuo) publicou um enorme artigo no Segundo Caderno do Globo denunciando que os cariocas e o seu poder público estavam acabando com o maravilhoso caos da cidade. Ele referia-se - imagino - a instalação de unidades de segurança nos morros e às operações para trazer melhoramentos urbanos às favelas. O texto é todo cheio de metáforas gordurosas, o garoto deve ser um neto de Fernando Henrique Cardoso que depois de fumar uns baseados sentiu algo estranho e eufórico no estômago; ao invés de ir ao banheiro e descarregar a energia por lá pegou um laptop e mandou um texto para o Globo, que naturalmente adorou. A razão de ser do artigo é que, acabando o caos, o Rio sofreria grave prejuízo a nível literário e cinematográfico. Escritores e cineastas, diante de um Rio higienizado e resolvido, não teriam mais material para se inspirarem.
Ora, parabéns ao poder público pelas UPPs e UPAs, e às obras de urbanização, mas elas cobrem um percentual medíocre da cidade. O Rio tem caos, sujeira, horror e tragédia suficiente para algumas décadas. Admito que tive sentimentos diabólicos, bandidos, de ir ao encontro do tal rapaz, encostar-lhe uma arma na cabeça, e conduzi-lo encapuzado até o Buraco do Lacerda, largando-o por lá, no meio dos viciados de crack, para ele curtir e se inspirar bastante.
Essas fumaças de violência, porém, não passam disso, de fumaça. Sou um cara totalmente da paz. Se eu fosse colega do tal janota, não faria mais que atacá-lo com perdigotos cheios de sarcasmo, mas ainda sim amistosos, compreensivos e hipócritas...
Afinal a gente tem que ser democrático, não?
Eu pensava nisso depois de ler uma série de artigos sobre a democracia na Grécia Antiga, e particularmente um sobre Péricles, um dos grandes líderes da época de ouro da democracia ateniense.
Aliás, uma errata. Sabe a historinha sobre o cara que passou o dia ouvindo insultos de um sujeito, no caminho de casa ao trabalho, na ida e na volta, e que, à noite, ainda mandou seu empregado escoltar o sujeito até onde ele morava? Não era Julio César. Era Péricles. A história é contada, se não me engano, por Plutarco, e tem um significado especial, que é mostrar a tolerância de Péricles para com seus adversários políticos, mesmo os oligarcas e aristocratas mais odiosos.
Segundo o artigo de Anne Bernet, publicado na revista História Viva, Péricles desarmou seus críticos com a seguinte afirmação:
Qualquer um que vise os mais nobres objetivos deve aceitar a hostilidade, e tem razão em fazê-lo, pois a cólera não dura muito tempo, enquanto a celebridade assegura a glória eterna.
A postura de Péricles (com o sujeito que o insultava e a sua fé na tolerância) me faz pensar em nossas lutas ideológicas domésticas, onde os jornalões figuram como a vanguarda mais agressiva do exército do conservadorismo, e os blogueiros, seus adversários mais aguerridos.
Por exemplo, hoje, no Globo, há um artigo de Rodrigo Constantino, intitulado "Às ruas!", onde mais uma vez constatamos a gana com que setores da imprensa tentam beber no pote da justa indignação popular.
No entanto, a imprensa privada tem o pleno direito, garantido na Constituição e em nossos valores democráticos, de apoiar a bandeira que lhe convir. Tem até mesmo o direito à hostilidade, e não acho que devamos mais nos estressar em demasia com isso. Assim como qualquer cidadão, a imprensa tem o direito de denunciar o poder público e externar seu ódio aos valores e ideias que considera nocivos ao país e ao mundo.
Tem um livro de Maquiavel menos famoso que O Príncipe, mas que na verdade é a sua melhor obra: Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, em que o florentino revela-se, decididamente, um entusiasta da democracia e da liberdade política. Nessa obra, há um trecho intitulado: Quanto le accuse sono utili alle republiche, tanto sono perniziose le calunnie. Não precisa nem traduzir, né? Na verdade, o título já diz tudo. Maquiavel traz exemplos da história antiga para provar a sua teoria, que será a mesma de Montesquiet, no Espírito das Leis: a calúnia deve ser combatida a todo custo, porque ela envenena o próprio coração da democracia, que é a liberdade de expressão. Ou seja, os caluniadores são os piores parasitas da democracia, porque eles semelham a um fascínora que se aproveita de um ambiente onde se permite que todos usem armas em público, desde que não as usem uns contra os outros, para violar essa regra sagrada e assassinar a reputação de um colega.
A solução é complexa, como ocorre com todas as coisas realmente importantes na vida. A captura e a punição a um caluniador mexe com os fundamentos morais de uma democracia, um sistema político até hoje instável ideologicamente, sempre se equilibrando, com dificuldade, entre os repuxões brutais dos defensores da igualdade política, à esquerda, e da liberdade, à direita. E, no entanto, ambos dependem um do outro para não caírem no abismo. Igualdade sem liberdade se converte em tirania, o que destrói a própria igualdade. E liberdade sem igualdade se transforma em opressão, matando qualquer impulso livre.
Esses dilemas, no entanto, antes de nos desanimar, deveriam nos provocar um grande entusiasmo espiritual, porque eles nos indicam um motivo de luta, um objetivo nobre, num mundo onde às vezes o desespero político parece dominar as mentes mais arrojadas. Não se trata, aliás, apenas de democracia, mas de alguma coisa ainda mais nobre que ela, alguma coisa que estava por trás, que estava ao fundo, quando um grego maluco decidiu que era melhor dar poder à maioria, ao povo, do que deixá-lo para sempre nas mãos de uma aristocracia arrogante. Trata-se de justiça, de paz, de amor, de conceitos extremamente antigos, extremamente contemporâneos, capazes de serem assimilados, em toda sua grandeza, por qualquer ser humano, independente de seu grau de cultura ou riqueza.
E já que um post recente fez sucesso justamente pela citação final de um poema de Rimbaud, segue um trecho de outro, intitulado "Democracia":
Adeus ao aqui, não importa onde. Recrutas de boa vontade, teremos a filosofia feroz; ignorantes para a ciência, astutos para o conforto; arrebente-se o mundo que vai. Esta é a verdadeira marcha; avante, a caminho!
Tive que me afastar da internet nos últimos dias por motivos pessoais (não é doença, como uma leitora entendeu, ao ler meu post intitulado "Mãos trêmulas"; é um lance acadêmico), mas agora já posso voltar à normalidade blogueira. Daí que no ônibus mesmo em que retornava do último compromisso que me deixou fora daqui, já pensando num post, eu imaginei o seguinte. Que essa coisa de escrever sobre política me angustia porque me sinto como um cara que entra no bar todo pimpão, pronto para relaxar bebendo uma cervejinha, e se dá conta de repente de que ele não é um freguês, mas um barman, e que está ali não para curtir, mas para trabalhar!
É assim que eu me sinto.
Então de vez em quando eu me rebelo, e ajo como um barman que resolvesse beber em serviço. É tão fácil, tão tentador, com todas aquelas garrafas ali na sua frente. Escrevo crônicas amalucadas, cometo poemas, reclamo dos ossos do ofício e resmungo promessas de saltar o balcão e rir junto com todos aqueles universitários que vem aqui beber e divertir-se diariamente.
Só que aí, mal começo a beber, algumas paranóias vem me afligir. Que todos estão me olhando com reprovação, como faríamos se víssemos o pediatra da família tomando um porre e falando palavrão no churrasco para o qual o convidamos. Ou com piedade (ou condescendência), que imagino ser o que sentiríamos ao testemunhar um ótimo barman pôr em risco o seu emprego no restaurante ao beber acintosamente diante dos fregueses.
Já falei alhures que manter um blog por muito tempo, e tratá-lo com um mínimo de seriedade, é um desafio psicológico tremendo. Toda aquela turma que usava o blog apenas como um hobby light, para vazar de vez em quando um pensamentozinho pessoal, ou alguma indignação fugaz, migrou para o Facebook. Os escritores, por sua vez, meio que fugiram da blogosfera por causa do excesso de luz, que atrapalha a atmosfera de penumbra e mistério em que eles preferem viver, por razões nobres ou mesmo por mediocridade. Não é interessante descobrirmos que aquele romancista tão talentoso é um ingênuo, um babaca, ou um calhorda - quando o cara é muito bom, isso até não tem tanta importância, mas quando ele é médio pra baixo, esses defeitos, se descobertos, podem destruir sua carreira.
De qualquer forma, todos, por razões nobres ou não, enfrentam o principal obstáculo para levar adiante um blog: dá trabalho pra cacete e não dá dinheiro. A menos que você tenha talento para fazer um puta site voltado para cultura pop: mas aí também terá de trabalhar muitas horas por dia nisso, e pôr de lado qualquer veleidade intelectual que porventura tenha alimentado. Terá que blogar pensando exclusivamente em termos estatísticos (visitação, comentários) e financeiros (banner, etc).
Mas chega de papo furado e vamos ao que interessa. Hoje testemunhei uma cena interessante. Estava numa sala cheia de gente, esperado começar a prova. Uma senhora vestindo uma camisa onde se lia Amazônia, bem grande, com provavelmente alguma inscrição ecológica embaixo, e também com um adesivo lembrando do acidente do bondinho de Santa Teresa, levantou-se de sua cadeira e pediu a atenção de todos. Conseguiu rapidamente, até pelo inusitado, ou possivelmente porque todos achavam que tinha algo a dizer sobre o que fazíamos ali. Explicou que era uma ativista, e que estava convidando todo mundo para participar da manifestação contra corrupção, na Cinelândia, no dia 20 deste mês.
Vocês sabem que eu não tenho simpatia por essas passeatas insufladas pelos meios de comunicação, e sou contra a corrupção assim como sou contra homicídios. Nem fui com a cara da mulher, que tinha pinta de ser uma tremenda mala sem alça, dessas bem sem-noção que desandam a fazer discurso nas horas mais impróprias.
Mesmo assim, tive a impressão de ser uma boa pessoa, uma dessas mulheres engajadas politicamente, por razões espontâneas ou por ter vivido algum acontecimento doloroso que a fez querer ter mais participação na vida política a seu redor. Não é preciso nem ser um experiente blogueiro, nem leitor de Max Weber, para saber como isso é importante para a democracia - que os cidadãos participem mais da vida política de seu país.
Hoje o site do Globo aparece com uma lista interminável de celebridades que apóiam a mobilização social contra a corrupção. Até criaram uma logo especial para isso:
Do jeito como a questão é colocada, é quase impossível deixar de apoiar. O próprio discurso, que eu também veiculei aqui, de que estaria havendo manipulação de um sentimento legítimo da população, acaba se esvaindo no poder avassalador da mídia. Você é a favor ou contra a corrupção? Então apóie as manifestações! Não há meio termo.
Mas não apoiar porque? Não é uma coisa boa?
A militância de esquerda assiste a tudo com perplexidade, vendo esse bando de "bárbaros", que não entendem nada de política, articularem-se e reunirem-se, e ainda contarem com apoio maciço e entusiástico dos senhores feudais dos mass media. Falam em golpe, lembram das manifestações de 64, mas desta vez não me parecem estar conseguindo muita recepção para suas teses. E, a meu ver, as razões são as seguintes:
o movimento anti-corrupção teve início como um ato de apoio à "faxina" da presidente; a tese, portanto, de que haveria, por trás das manifestações, uma tentativa de golpe midiático contra Dilma, não colou.
ao mesmo tempo, ao não se caracterizar como um movimento de oposição ao governo federal, que ainda é muito bem avaliado pela população, ele produziu, ao menos, silêncio por parte das organizações aliadas da situação: UNE, CUT, MST, etc; e mesmo declarações de apoio algo constrangidas, como dos dirigentes partidários e membros do Executivo.
a própria presidente movimentou-se politicamente, nesses primeiros nove meses de mandato, para desconstruir a polaridade e desfazer o maniqueísmo ideológico que predominou tão intensamente no periodo eleitoral; foram gestos arriscados, custaram um bocado de desgaste junto aos setores mais à esquerda, mas a ajudaram a desconstruir o ódio irracional, quase religioso, que um segmento importante da sociedade desenvolveu contra o PT e contra o governo federal; a alta popularidade de Lula escondeu esse ódio, que veio à tôna quando se desdobrou a terrível espiral do silêncio no segundo turno de 2010.
algumas denúncias de corrupção divulgadas pela grande imprensa em primeira mão foram certeiras; os jornais derrubaram ministros e ganharam muitos pontos junto à sociedade "letrada", os famosos "formadores de opinião", que na verdade é a classe média das metrópoles, inflada nos últimos anos pelos milhões que ascenderam socialmente.
A meu ver, portanto, não tem sentido polarizar com essas forças. Somos todos contra a corrupção, então vamos todos marchar de mãos dadas. Há um aspecto positivo em toda essa pressão midiática, que é forçar o governo e o congresso a aprovarem portarias e leis que promovam um combate mais severo contra os desvios de dinheiro público. Manipulada ou não, essa é uma bandeira essencial ao futuro do país. Algumas mudanças já estão em curso, conforme se pode ver por essa nota que pesquei hoje no Noblat:
Ao governo, portanto, cabe responder mostrando serviço. Baixando portarias e demonstrando coragem na hora de "limpar" as áreas contaminadas pela chaga da corrupção. O apoio popular (mesmo que inflado midiaticamente) serve como escudo para se proteger dos ataques dos fisiológicos, sobretudo do PMDB. Dilma, conhecedora dos clássicos de política, vem seguindo à risca os ensinamentos de Weber: ética rigorosa, temperada pelo senso de responsabilidade política e pelo sentido de proporção. A tarefa é delicada, mas possível e necessária. Dilma já engoliu e digeriu os hidrófobos antilulistas. O que falta mesmo é acertar os ponteiros com a sua própria militância, cuja belicidade amadurecida em anos de luta na guerra da comunicação ainda não se ajustou à postura conciliadora e pacífica da presidenta.