30 de abril de 2010

Mas sua filha gosta

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Ao contrário de nossos matutos, a mídia internacional deu grande destaque ao fato do presidente Lula figurar como número 1 da lista dos 25 políticos mais influentes do planeta. Pesquisei no mundo inteiro e verifiquei que foram raríssimos os que fizeram a ressalva sobre a lista não ser um "ranking", e mesmo esses focaram no fato do presidente aparecer em primeiro lugar, no "topo".

Dentre os que fizeram ressalva, está o Clarín, jornal conservador que faz oposição à Cristina Kirchnner; ainda assim, optou pela manchete: "Lula, no alto do pódio, entre os mais influentes do mundo".

Abaixo, um apanhado de alguns sites que visitei. Para ver melhor, clique sobre a imagem. Volto a escrever lá embaixo.

















*

O constrangimento foi geral nas redações. Apesar de, em seu portal na web, ter sido de longe a matéria mais lida e comentada, o Estadão não botou na capa e publicou apenas nota no pé da página. O Globo também não deu na capa, mas publicou quase uma página inteira, enfatizando contudo não o prêmio, seu significado e repercussão, e sim o fato de Michael Moore, que comenta sobre Lula, não ter mencionado o mensalão, problemas na saúde pública, etc, como se o cineasta pudesse sintetizar todos os problemas do governo e do país num texto com menos de uma lauda. O Globo sequer informou a seus leitores que Lula ocupou o topo da lista.

A Folha deu na capa o seguinte:



Ou seja, assim como o Globo, a Folha também ocupou o espaço para "explicar" a seus leitores que não se tratava de um ranking. Pelo menos informa que ele é citado em primeiro lugar, embora não tire a conclusão lógica do fato.

*

Alguns colunistas comentaram a notícia na imprensa de hoje. Separei dois textos que me chamaram a atenção: um de Barbara Gancia, na Folha; e outro de Fernando de Barros e Silva, no mesmo jornal.

Reparem nesse trecho da coluna de Gancia:

Ah, e como a gente precisa que gostem de nós! Norte-americano não está nem aí se o resto do mundo quer ver os EUA riscados do mapa; suíço, holandês, canadense, belga, sueco e finlandês tampouco estão se lixando se você aprovou ou não o país dele. Já o italiano faz questão de criticar a Itália junto com você. E só os mais humildezinhos, digamos, uma Honduras, uma Gana, uma Nigéria, um México, uma Venezuela ou... um Brasil têm aquele patriotismo rasgado, de chorar pela pátria quando toca o hino.

Ué, vocês sabiam que o brasileiro era tão patriota? Eu achava que, ao contrário do que diz Barbara, os americanos é que eram. Não tem um filme americano em que não apareça a bandeira deles. Na Europa, o nacionalismo é tão grande que já mataram dezenas de milhões por causa disso. No Brasil, sempre ouvi as pessoas só falando mal do Brasil, sobretudo entre os missivistas de jornal. Nos últimos anos, com Lula, é que temos visto emergir um orgulho maior pela nacionalidade, mas nada que seja tão piegas e exagerado. Ou seja, Barbara esculacha o brasileiro por um patriotismo que só ela vê. Sem contar que ela compara o Brasil a Gana e Nigéria...

Sobre o texto do Fernando, eis um trecho:

No perfil que escreveu do petista, o documentarista Michael Moore diz platitudes, mas é certeiro ao afirmar: "O que Lula quer para o Brasil é o que nós costumávamos chamar de sonho americano".
Um mundo de consumidores banais e felizes. Uma sociedade remediada na sua selvageria pela força integradora do dinheiro. Do socialismo, nem o cadáver. Esse é o horizonte em que se movem Lula e sua utopia mundana. Moore viu o que muito petista ainda não entendeu.

O antilulismo desses caras é tão doentio, tão radical, que eles preferem se tornar antiamericanos (renegando portanto a si mesmos) a aceitarem um elogio ao presidente. O sonho americano a que se refere Michael Moore é o velho sonho de liberdade e oportunidade para todos. Reduzir a grande nação americana, pátria do rock, do blues, do jazz, da literatura beat, de uma gigantesca e eclética indústria de cinema, que desenvolveu a informática moderna e inventou a internet, a uma "sociedade remediada na sua selvageria pela força integradora do dinheiro" seria coerente na boca de um militante do PSTU, não num assumido conservador ianque como Fernando de Barros e Silva.

Como já dizia Jorge Maravilha, eles podem não gostar do Lula, mas o povo gosta.

29 de abril de 2010

Massas cheirosas saqueiam estoques de Rivotril

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Preparem-se para um grande show de comédia. A revista Time elegeu o presidente Lula a pessoa mais influente do mundo. O texto sobre Lula, assinado pelo cineasta Michael Moore, abre a reportagem de capa. A mídia nacional entrou em pânico. Divulgou o anúncio, mas logo depois deu início a uma improvisada operação de redução de danos. Entraram em contato com o departamento de relações públicas da revista, que avisou que não há ranking. O fato do nome de Lula aparecer ladeado pelo número 1 e o fato do texto sobre Lula abrir a reportagem foram apenas "decisão editorial".

O candidato Serra, depois de parabenizar Lula, corrigiu a informação logo depois:


Ou seja, Jesus não precisou mandar dessa vez. Os porquinhos decidiram, por si mesmos, se lançar do penhasco. Até onde eu sei, o próprio prêmio da Time é uma decisão editorial. Tudo numa revista é decisão editorial. Se o texto sobre o presidente vem em primeiro lugar e se o seu nome aparece na dianteira, eu creio que, para a grande massa cheirosa que lê essa revista em todo mundo, Lula é o homem mais influente deste planetinha que, à diferença de algumas massas que o habitam, de cheiroso não tem nada (desculpem o mau humor, mas é que lembrei da Resende alagada ontem, e do perfume encantador que emanava das águas).

Ora, o RP da revista foi diplomático. Deve receber consultas semelhantes de pessoas ligadas a personalidades insatisfeitas com o número posto a seu lado. Imagino que se colocassem o presidente Lula em último lugar, ao lado do número 100, sem que houvesse nenhum texto comentando sua participação na lista, a mídia brasileira esbaldar-se-ia sobre a medíocre posição ocupada por Lula e não consultaria a Time para saber se há ranking ou não. Se FHC ou Serra estivessem no lugar de Lula, creio que os porquinhos guinchariam tão alto que perigariam abafar o choro do corinthianos desta quinta-feira.

Os estoques de Rivotril devem estar perto do fim em alguns bairros nobres. Por outro lado, se o presidente é aprovado por quase 90% da população brasileira, um prêmio desse tipo, ainda mais considerando que não é o primeiro (El País, Le Monde, etc, também prestigiaram Lula), é motivo de grande orgulho nacional, um fato salutar num país com notórios problemas de autoestima. Nossa mídia, infelizmente, não parece raciocinar dessa forma.

A ginástica que o Globo se obriga para explicar a seus leitores que, apesar de Lula figurar no topo da lista, ao lado do número 1, e de seu texto abrir a reportagem, o prêmio não é um ranking, apenas explicita sua imagem de pirracento, rancoroso e corroído pela mais ácida inveja.

28 de abril de 2010

A covardia da Folha contra Norma Bengell

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A quarta-feira amanheceu alegremente ansiosa no Rio. Só se fala no clássico Flamengo e Corinthias. O aspecto positivo de trabalhar em Lan House é que a gente ouve as piadas ao redor. Ouço que a torcida do Flamengou contratou dez travestis para assistir ao jogo no Maracanã e atazanar Ronaldo. "Como ele vai perder o jogo, ao menos tem garantido uma noite de amor", diz um dos gerentes da Lan.

Deixemos o futebol, porém, para mais tarde, e nos concentremos na agenda política. O Tijolaço levantou o escândalo do dia. Aquele que Nassif chama, sarcasticamente, de ex-Eduardo Graeff, um tucano da alta cúpula do PSDB, tesoureiro do partido, estrategista da campanha de Serra, foi pego em flagrante.

Brizola Neto, autor do Tijolaço, apurou que o mencionado bicudo não apenas "comanda os brucutus", mas que "é o próprio Brucutu". A figura aparece como responsável por sites cujo próprio endereço físico é uma baixaria, como o "petralha.com.br".

O post de Brizola caiu na rede e foi reproduzido em toda a parte, gerando uma enorme onda de indignação. Lembremos que Serra afirmou que não patrocinaria "baixarias" em campanha.

Ontem à noite, o deputado havia descoberto outra baixaria do PSDB. No próprio site do partido, em destaque, figura o link para o blog Gente que Mente, dedicado a denegrir a imagem de quadros do PT e da esquerda em geral.

Como o próprio Brizola, como todo mundo aliás, eu também me pergunto qual seria a reação da grande mídia, incluindo sua miríade de colunistas eternamente indignados por qualquer ninharia da campanha dilmista (vide o escarcéu que fizeram por causa da foto da Norma Bengell), se descobrissem que o site oficial do PT dá link, em destaque, a um blog semelhante, ou se um petista graduado fosse responsável por blogs de baixaria.

Tudo que eu disse até agora não é novidade. Repeti aqui apenas para enfiar o prego mais fundo na consciência das pessoas. José Serra patrocina o baixo nível na campanha presidencial. E a mídia não só lhe dá guarida, como rivaliza com ele em baixaria.

Não quero deixar de citar, como parte da mesma estratégia de baixaria, a decisão do deputado José Carlos Aleluia, de publicar um texto apócrifo, falsamente atribuído à apresentadora Marília Gabriela, denegrindo Dilma Rousseff. A jornalista já avisou que vai mesmo processar Aleluia. Bem feito.

E agora eu tiro da manga uma carta que a blogosfera ainda não tinha visto. Antes, uma breve lembrança das circunstâncias do caso.

O blog oficial da Dilma publicou foto da passeata dos Cem Mil de 1968. Trata-se de uma foto imensamente conhecida, em que Normal Bengell, de minissaia, aparece em destaque. Os detratores de Dilma criaram um escândalo em torno disso, acusando o site de pretender passar à impressão de que Norma Bengell era Dilma Rousseff.

Colunistas sérios como Jânio de Freitas, Elio Gaspari e Ruy Castro entraram na onda. Fez-se um ataque de ordem moral. Ampliou-se o caso como se tratasse de um escândalo ético de proporções bíblicas.

Qualquer um que encare a questão com um mínimo de bom senso veria que não houve intenção maliciosa. Norma não tem nada a ver com Dilma. Foi um erro bobo, do tipo que é impossível evitar, dos diagramadores do site. Querer desviar a campanha para discussões pueris como essa é outra baixaria, que pelo visto é encampada por muitos jornalistas que se acham o suprassumo da seriedade e da ética.

Daí que foram entrevistar a atriz Normal Bengell, a qual, surpreendentemente, afirmou que "não via nada demais no caso" e passou a fazer elogios a Dilma, culminando com uma enfática declaração de voto: "tomara que ela ganhe".

Mais uma vez, bem feito. Caso encerrado, certo? Não.

Os jornais de hoje continuam insistindo no caso. José Nêumanne Pinto, colunista do Estadão e comentarista do SBT, publica um artigo fortemente ofensivo à Dilma. O próprio título é mau educado, chamando a ministra e candidata à Presidência da República, de "dona Dilma". Mas Neumanne é um tolo. Lembro que por ocasião do estardalhaço oportunista e reacionário com o lançamento do último programa de direitos humanos, Nêumanne foi para a TV pregar um golpe: "E os militares, onde estão os militares?", vociferava o conservador que, de súbito, mostrou-se um carbonário radical da ultradireita.

O mais absurdo, o mais nojento, o mais assustador, no entanto, partiu, como de praxe, da Folha de São Paulo. O pasquim serrista publicou, na sua edição impressa desta quarta-feira 28 de abril, uma cartinha de um leitor do Canadá contendo uma séria acusação à Norma Bengell.

Com isso, o jornal cumpre vários objetivos: vinga-se de Bengell, que ousou defender Dilma  e torcer por sua vitória; desmerece a sua opinião e a possível influência que esta pode ter eleitoralmente entre os leitores da Folha; e manda um recadinho terrorista bem claro: defendeu Dilma ou PT, leva tiro.

A covardia é explícita. Ataca uma atriz já idosa, sem recursos financeiros ou psicológicos para se defender à altura. Bota a acusação na boca de um leitor, e ainda mais do Canadá. Pratica um verdadeiro homicído de reputação. Ataca a honra de uma artista que muito contribuiu para a cultura brasileira.

As peles de cordeiro, pelo jeito, não estão mais cabendo nos lobos.

27 de abril de 2010

Aviso e correções

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Acabo de corrigir vários erros horríveis nos posts anteriores. Repetições, cacos, concordâncias erradas. É uma luta interminável.

O blog encerra as atividades por hoje porque agora tenho que me dedicar a duas missões importantes:

1) Fazer a Carta Diária. Ainda estou esperando a sua assinatura. Hoje farei uma análise da mídia.

2) Escrever um texto sobre a praça Tiradentes, que integrará um conjunto de reportagens sobre o tema, a serem publicadas no jornal Arte & Política. A praça já foi o maior centro boêmio, artístico e intelectual do Rio de Janeiro. O João Caetano se chamava Real Teatro Dom João (depois teve outros nomes), e foi durante muitas décadas o maior teatro do país. Por ali circulava Machado de Assis, que começou escrevendo para a Marmota Fluminense, impressa na tipografia de Francisco de Paula Brito, um negro que virou um dos editores mais corajosos da cidade. A tipografia ficava nos fundos de uma loja de chá, pertencente também a Paula Brito, e igualmente localizada num edifício da praça.

Rubens Barbosa e os 10% de verdade

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Hoje, no Globo, me deparei com um artigo de Rubens Barbosa falando mal do Mercosul. Até aí tudo bem, ele é tucano, foi embaixador no tempo de Fernando Henrique, e essa turma gosta mesmo é de tirar o sapato para os EUA. O artigo também foi publicado no Estadão.

Acontece que me intrigou o seguinte trecho do texto:

Com as sucessivas medidas restritivas e contrárias à tarifa externa comum (TEC), desapareceu a agenda de liberalização comercial, principal característica da fase atual do Mercosul, a união aduaneira. A perda de relevância comercial para os países membros (o Mercosul representou cerca de 16% do comércio exterior brasileiro em 1998, contra menos de 10% em 2009) não estimula maiores esforços para a superação das dificuldades.

Estranhei. Ué? Mercosul perdeu espaço na pauta das exportações brasileiras?

Os leitores desse blog sabem das minhas manhas estatísticas. Então lá fui eu fuçar o Sistema Alice, em busca de informações detalhadas sobre a informação de Barbosa.

E o que descobri? O que eu já suspeitava. Não se trata exatamente de uma mentira, mas de uma distorção malandra. Em 1998, o Mercosul, de fato, representou até mais do que o apurado por Barbosa, 17%, contra 10,3% em 2009.

Ocorre que, em 1998, as exportações brasileiras totalizaram 51 bilhões de dólares, contra 153 bilhões em 2009. Em 2008, antes da crise internacional, as exportações brasileiras haviam atingido 198 bilhões de dólares.

Ou seja, Barbosa usa um percentualzinho chulé para distorcer a realidade, dando a entender que estávamos melhor antes do que agora. Em 1998, o Brasil registrou déficit na balança comercial de 6 bilhões de dólares, ou seja, importou mais do que exportou. Em 2009, houve saldo de 25 bilhões de dólares.

Mais uma: em 1998, o Brasil registrou déficit no comércio com o Mercosul de 538 milhões de dólares. Em 2009, ano ruim, teve saldo positivo de 2,7 bilhões, após registrar saldo de 6,8 bilhões em 2008.

Ou seja, o Mercosul gerou imensa quantidade de divisas para o país e o tucanão de cabelos lambidos vem com esse chororô de crocodilo. Quer enganar quem?

De 1998 para 2009, as exportações brasileiras para o Mercosul cresceram 78%. A queda na participação do Mercosul no bolo total aconteceu porque as vendas brasileiras para outros destinos cresceram muito mais. Só para a China, as exportações brasileiras cresceram 1580% no período, puxando os percentuais para si. Em se tratando de estatísticas de percentual, se um ganha pontos, outro perde.

Além disso, a qualidade das exportações brasileiras para o Mercosul também cresceu, com o preço médio subindo de 774 dólares a tonelada em 1998 para 1.494 dólares a tonelada em 2009.

Entretanto, um raciocínio se impõe. Segundo Rubens Barbosa, o Mercosul é ruim e estaria engessando as exportações brasileiras. Ora, em vista do aumento espetacular das exportações nos últimos anos, eu gostaria de saber onde é que o Mercosul atrapalhou?

Se o Mercosul corresponde a 10% das exportações brasileiras, contra 17% no passado, é porque o país ampliou substancialmente o leque dos destinos de seus produtos, e não porque o Mercosul deu errado. Parece-me que esses 10% deveriam ser aplicados, isso sim, ao percentual de verdade no texto do embaixador.

Clique nas tabelas para vê-las por inteiro.



Comentários sobre Belo Monte

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Tenho evitado falar sobre esse tema porque não entendo nada de hidrelétricas. Mas nos últimos dias li bastante coisa sobre e arrisco-me a tecer alguns comentários.

Em primeiro lugar, os principais especialistas em energia do país concordam que o Brasil precisa construir hidrelétricas e que as energias alternativas, como eólica e solar, não têm capacidade para substituir as fontes tradicionais. O que não impede, naturalmente, que o país invista nelas. Se o governo não está fazendo, é um erro.

A maioria das pessoas que pensam a questão da energia no Brasil aprovam a construção de Belo Monte.

O que parece estar incomodando muito setores da mídia é o esforço do governo em oferecer preço baixo aos consumidores. Essa nunca foi uma preocupação relevante nas (raras) obras feitas por tucanos.

O projeto ganhou projeção internacional por conta de uma espécie de contaminação viral internáutica. As pessoas entram no twitter e, em menos de 140 caracteres, "informam" ao mundo que a usina irá destruir a floresta amazônica. Então, say no to #belomonte.

Marina Silva diz que é uma obra muito "cara". Ora, a estimativa do governo é que Belo Monte deve custar algo em torno de 19 bilhões de reais. O "mercado" estima que o valor deva ultrapassar 30 bilhões.

Você acha caro, Marina? Pois eu lhe recordo que, segundo o Tribunal de Contas da União, o "apagão" de Fernando Henrique Cardoso, causou um prejuízo de 45 bilhões de reais ao Brasil.

Com uma diferença singela. Os 19 ou 30 bilhões de Belo Monte serão gastos em geração de empregos. Os 45 bilhões do apagão tucano apenas serviram para ampliar o desemprego e a pobreza.

Eu defendo a natureza, claro. Não sou ecoxiita, mas também não sou nenhum estúpido anti-ambiental como esses engraçadinhos da ultradireita. Se me provarem que Belo Monte representa um desastre ambiental, então ficarei contra.

Mas ninguém me provou isso.

Hidrelétricas, todavia, sempre implicam em algum custo ambiental. A de Itaipu, por exemplo, inundou as famosas Sete Quedas, uma das maiores maravilhas do mundo. Dói pensar nisso. A de Belo Monte, ao que me consta, inundará uma área pequena, que já se inunda naturalmente em época de cheia. O dano à floresta será praticamente zero, porque a área devastada será insignificante e o projeto incorporou inúmeros cuidados ambientais que o país nunca teve em hidrelétricas anteriores. É claro, porém, que haverá algum custo. Mas é inevitável. Nenhuma hidrelétrica do mundo, e ainda mais do porte da que será feita, jamais foi construída sem beliscar a natureza.

Um trecho do artigo de Marina:

Surpreendem também as condições à disposição dos interessados em comercializar a energia gerada pelo rio Xingu. Tem-se R$ 13,5 bilhões em crédito subsidiado pelo BNDES, com prazo de 30 anos para pagamento, a juros de 4% ao ano.

Isenção de impostos sobre os lucros, o comprometimento do capital de empresas estatais e de fundos de pensão e, de quebra, o absurdo comprometimento de licenciamento ambiental com prazo preestabelecido para a obra começar já em setembro.

Mesmo assim, as duas empresas privadas que melhor conheciam o projeto não participaram do leilão.

Preferem a posição de contratadas aos de investidoras, enquanto outras, vitoriosas, ameaçam desistir dos benefícios aparentemente irrecusáveis. Imaginem se todas essas condições excepcionais fossem para melhorias da eficiência do sistema elétrico e para redução da demanda por energia?

Marina prefere omitir que a saída dessas empresas deveu-se à exigência do governo de que oferecessem preços baixos, forçando-as, portanto, a uma lucratividade reduzida. Também omitiu que o consórcio vencedor inclui a Eletrobrás, que desde o início participou dos estudos de Belo Monte. Também não diz que as empresas perdedoras devem participar da construção da usina.

A senadora igualmente finge ignorar o fator urgência. Adiar por mais um ou dois anos a construção de uma usina importante irá restringir o crescimento brasileiro. Quem pagará, como sempre, é o pobrinho da periferia.

Quanto ao uso da verba em conservação, manutenção e melhora de eficiência, nada impede que o governo disponibilize recursos para isso. Como senadora, ela deveria propor projetos de lei nesse sentido; e não só propor, mas articular politicamente para aprová-los. Queria ver Marina Silva pôr de lado seu purismo e pedir votos a Fernando Collor e Sarney para aprovar seus projetos ambientais. Como não articula, não aprova nada. SUA pureza continua intacta, mas Gaia continua sendo violentada.

Por outro lado, seria interessante que os críticos de Belo Monte, a começar pela senhora Marina Silva, oferecessem uma alternativa viável e que apresentassem estudos sérios e incontestáveis. Que fizessem alarde dessas alternativas, e que, reitero, se articulassem politicamente para torná-los realidade. Taí, este seria um bom exercício para uma oposição que periga se tornar inútil.

O artigo da senadora termina assim:

Definitivamente precisamos expandir a oferta de energia, mas não necessitamos, para isso, manter a cultura do desperdício e comprometer o patrimônio ambiental e os recursos do país, quando temos alternativas de geração.

Marina está certa quando afirma que o governo deve reduzir o desperdício. Ponto para ela, mas isso é óbvio. E quais alternativas? Ela não diz, claro, porque os especialistas em energia no Brasil e no mundo sabem que nenhuma usina de energia eólica ou solar pode substituir uma hidrelétrica em termos de quantidade e custo da energia gerada. E uma coisa não exclui a outra. Que se invistam em alternativas TAMBÉM.

Belo Monte, aliás, é só o começo. O Brasil terá que construir várias novas hidrelétricas. É o preço do desenvolvimento. Em todas, haverá o dilema ambiental, que deve ser enfrentado com inteligência e pragmatismo.

Está me parecendo que o debate em torno de Belo Monte foi contaminado pelo clima eleitoral. A mídia de oposição, como de praxe, é contra porque o governo é a favor.

De qualquer forma, acho que o governo cometeu vários erros no processo. Poderia tê-lo transformado num debate em torno das energias alternativas. Mas é sempre fácil a gente criticar, do conforto de uma lanhouse, a ação das autoridades. Ainda mais se tratando de erros políticos ou de relações públicas.

O que importa é que Belo Monte é necessária, porque o Brasil precisa urgentemente de novas hidrelétricas e este é o projeto mais maduro. Os erros políticos podem ser consertados depois.

26 de abril de 2010

Em defesa de Yoani Sanchez

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Permitam-me ir contra a corrente. Acho que a satanização da blogueira cubana Yoani Sanchez por grupos de esquerda é ingênua e contraproducente. É natural que a mídia anticubana, ou seja, quase toda a mídia ocidental, a própria Casa Branca, além dos serviços de inteligência mais ideológicos (como a CIA), prestem algum tipo de apoio à blogueira, em virtude de sua posição crítica em relação ao governo de seu país.

O que não acho legal é a esquerda democrática entrar nessa guerrinha atacando a blogueira, uma moça de grande coragem e talento inegável na arte de se comunicar pela internet.

A entrevista divulgada pelo Vermelho há poucos dias, vem intitulada "Repórter desmascara blogueira cubana Yoani Sánchez em entrevista". E, no entanto, não vi o repórter desmascar ninguém. Pareceu-me mais um policial do que um repórter. A insistência para que ela mostrasse as "fotos" onde aparece agredida não me pareceu ética. Trata-se de um ser humano com direito à privacidade, e além disso uma mulher, com seu direito à vaidade, e não tem obrigação nenhuma de exibir ao mundo fotos suas.

Mesmo que ela tivesse exagerado em seu relato sobre as agressões que sofreu do governo cubano, isso não é motivo para demonizá-la. É fato que ela foi detida por 25 minutos. O terror que a moça passou nesse período, porém, só ela pode saber, e se ela se sentiu agredida, tem todo o direito a expressar esse medo. Tem direito inclusive a exagerar. Cabe a Justiça cubana, ou, em última instância, a uma corte internacional determinar se ela difamou deliberadamente as autoridades. Assim como cabe a cada um de nós refletir se é saudável intimidar blogueiros, nem que seja com retenções relâmpagos.

A blogueira deu uma resposta curta e elegante à entrevista, na qual acusa o repórter de ter editado suas próprias perguntas, para parecer mais informado do que realmente era no momento em que a questionava. Não posso saber se é verdade, mas suspeito que sim, porque a entrevista tem perguntas demasiado longas, cheias de citações e referências que seria estranho alguém fazer durante uma conversa informal no hall de um hotel. É muito fácil "desmascarar" alguém numa entrevista editando posteriormente suas perguntas. Nesse caso, o repórter teria que dar direito à entrevistada de também editar suas respostas. Não seria uma entrevista, e sim um debate, um confronto de idéias, mas seria justo.

Eu entendo o contexto histórico que produziu a ditadura cubana. Tenho sempre defendido o país em meu blog. Mas tenho também consciência que a ilha encontra-se numa encruzilhada. Ela terá que se abrir, democratizar-se, e ao mesmo tempo defender ideais de justiça social que nunca foram realidade nos "democráticos" regimes latino-americanos.

Por outro lado, a demonização da blogueira por forças da esquerda, a meu ver, é contraproducente, porque a torna uma pessoa ainda mais importante, mais conhecida, mais influente.

*

Imagino Yoani como uma dessas pessoas com que eu poderia manter uma conversação divertida e agradável sobre diversos assuntos, com exceção de política. Isso tem sido muito comum ultimamente. C'est la vie. Há pessoas com quem eu evito abordar temas políticos, e a conversa flui tranquilamente. Uma das minhas esperanças é não perder muitos amigos nesse período eleitoral.

*

Há segmentos da esquerda que resvalam para um maniqueísmo tosco. Acham a blogueira Yoani má, e daí vale tudo para "desmascará-la". Essa entrevista, a meu ver, foi covarde. A garota vive uma situação difícil, sendo crítica do governo em Cuba. Ela pode exagerar, pode até mentir às vezes, mas fazer uma entrevista com esse teor ajuda a envenenar o ambiente em torno dela e pode convencer alguém a agredi-la, inclusive fisicamente.

*

Ideologia política não é prova de caráter. É muito comum encontrarmos pessoas cheias de belos ideais políticos mas que, na vida prática, agem com arrogância, mesquinharia, egoísmo e maucaratismo. Vemos pessoas reacionárias agindo com benevolência, gentileza. E vice-versa. Vemos de tudo nessa vida.

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A repercussão que essa entrevista boba, rancorosa, teve em toda parte, pareceu-me de uma ingenuidade monstruosa. E não desculpo a ingenuidade. Deram ainda mais mídia à moça. Ao atacá-la, elevaram-na ainda mais no pedestal dos mártires do capitalismo ocidental. Agora sim ela recebe o prêmio Nobel.

Carta Diária de hoje continua analisando última sondagem do Ibope

Seja o primeiro a comentar!

Hoje eu fiz uma longa e interessante análise do extenso relatório do Ibope. Mas conforme eu havia explicado, agora é somente para assinantes. Quem quiser fazer uma assinatura, tem acesso a uma fonte de informação original, com análises e dados dificilmente encontrados em outro lugar. Além disso, ajuda a fortalecer a blogosfera independente.

25 de abril de 2010

O potencial de Dilma

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(Clique no gráfico para vê-lo por inteiro).

O Estadão publicou hoje matéria na qual admite que Dilma Rousseff tem um grande e inexplorado potencial de votos. Confira o gráfico acima. Mesmo depois de tanta campanha, apenas 14% afirmam conhecê-la bem. E 7% dizem que nunca ouviram falar dela. Já o seu adversário, José Serra, é bem mais conhecido: 29% dos entrevistados do Ibope declararam que o conhecem bem, e somente 1% confessam que nunca ouviram falar do vampiro. A maioria dos que não conhecem Dilma são pobres. O nordeste é a região onde ela é menos conhecida. Visto que Lula atinge seus maiores níveis de popularidade justamente no nordeste e entre os pobres, é óbvio que esses votos tendem para a petista.

Estadão ataca a UNE, de novo

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Os jornalões não deixam a garotada em paz. O maior sonho da imprensa bicuda era que os estudantes dançassem conforme a música que ela, a imprensa, toca. Mas eles não o fazem. Em editorial deste domingo, o Estadão faz outro ataque violentíssimo à União Nacional dos Estudantes (UNE). Achei que valia a pena, neste caso, fazer aquele esquema dos comentários em vermelho.


Editorial Estadão: O valor da UNE

Depois de ter sido aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o projeto que autoriza a União a doar até R$ 30 milhões para a construção da nova sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) agora só depende da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para ser convertido em lei. O movimento estudantil está pedindo que o texto seja posto em votação em maio ou, no máximo, em junho, uma vez que a legislação proíbe esse tipo de repasse nos cinco meses que antecedem as eleições.

A UNE tem fortes ligações com o governo do PT e sente-se à vontade para pedir urgência. Desde a ascensão de Lula ao poder, a UNE tornou-se uma entidade chapa-branca, que apoia todas as iniciativas administrativas e políticas do Palácio do Planalto.

[Mentira. A UNE sempre divergiu da política econômica do Banco Central, tendo organizado inclusive inúmeras manifestações. De resto, o governo Lula dialoga com os estudantes, diferentemente de FHC, que nunca sequer recebeu nenhuma liderança estudantil. Lula conversa com eles e acatou muitas de suas sugestões. É claro que a UNE apoiará iniciativas que ela mesma sugeriu. Essa é uma das fórmulas da popularidade de Lula, e a mídia oposicionista, burra, ainda não aprendeu, acostumada que está com as decisões autoritárias, sem diálogo com os movimentos sociais, que caracterizam as gestões tucanas. ]

Em troca, indicou antigos dirigentes estudantis para cargos de segundo escalão, principalmente no Ministério do Esporte, e passou a receber recursos para divulgar programas dos Ministérios da Educação, da Saúde, da Cultura e da Igualdade Racial, promover "caravanas da cidadania" em universidades federais, realizar jogos estudantis e organizar ciclos de debates.

[E daí? Não há nada de antiético nisso. Dirigentes estudantis não são plutocratas como os tucanos: empreiteiros, financistas milionários, donos de canais de tv. São pessoas com talento para política e, portanto, com plena capacidade de exercer funções políticas dentro do governo. Precisam trabalhar para ganhar a vida. O Estadão não vê problema na prefeitura de São Paulo pagar pequenas fortunas a aspones inúteis como Roberto Freire et caterva, mas implica com meia dúzia de empregos mal pagos que alguns ex-dirigentes estudantis conseguem cavar no governo.]

Os repasses de recursos públicos quase quadruplicaram nos dois mandatos do presidente Lula. Em 2004, a UNE recebeu R$ 599 mil. No ano passado, as transferências chegaram a R$ 2,95 milhões. Entre 2004 e 2009 a UNE recebeu quase R$ 10 milhões da administração direta e de empresas estatais, como a Petrobrás, a Eletrobrás, a Caixa Econômica e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

[A UNE já cansou de informar que esses repassem resultam, na maior parte, de emendas de parlamentares, inclusive de parlamentares do PSDB e DEM. De qualquer forma, os repasses aumentaram porque a base de comparação é fraca. FHC deixou a UNE à míngua, sem recursos, sem participação, marginalizada. É muito engraçado que o Estadão, que recebe milhões de verbas oficiais de governos de todos os níveis, critique a maior entidade estudantil da América Latina por receber 2,95 milhões. O Estadão recebe muito mais que isso. A UNE é uma entidade respeitada por sua história, e luta para obter verbas para realizar suas políticas. Ridículo imaginar que é possível dinamizar a UNE sem dinheiro. O Estadão, ao atacar violentamente a UNE, prejudica sua imagem junto à sociedade civil, e dificulta que o movimento consiga arrecadar verbas junto à iniciativa privada, o que, de qualquer forma, sempre será polêmico, visto que a iniciativa privada, quando der dinheiro à UNE, irá querer cooptá-la. Já as verbas públicas operam com lógica republicana. A UNE, assim como o Estadão, conseguiria dinheiro do Estado mesmo fazendo oposição, desde que o Estado não seja governado por bicudinhos vingativos, reacionários e mesquinhos.]

E, há dois anos, o presidente Lula prometeu financiar a reconstrução da sede da entidade no Rio de Janeiro, que foi metralhada, depredada e incendiada no primeiro dia do golpe militar de 64. Os escombros ficaram sob responsabilidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, quando líderes estudantis começaram a se mobilizar para retomá-lo, o que ainda restava foi demolido em 1980, no governo João Figueiredo.

Como a UNE não é uma entidade pública, o governo não poderia transferir dinheiro dos contribuintes para custear as obras. Para contornar as proibições legais, Lula recorreu ao expediente da "indenização". Primeiro, reconheceu a responsabilidade da União na destruição do prédio da entidade, que ficava na Praia do Flamengo.

E, sob a alegação de que quem é omisso, negligente ou conivente tem de ressarcir os prejuízos causados, assinou o projeto que autoriza a União a transferir para a UNE uma "reparação" no montante equivalente a seis vezes o valor do terreno, pelo valor de mercado. A pedido do governo, a área foi avaliada há cerca de dois anos pela Caixa Econômica Federal, em R$ 5 milhões.

Para se autossustentar, caso venha a perder no próximo governo as boquinhas que conquistou nos dois mandatos do presidente Lula, a UNE pretende erguer, além de um centro cultural, uma biblioteca, um auditório e um museu, um restaurante, dois teatros e um prédio de 13 andares - com espaços com entradas independentes que poderão ser alugados para empresas privadas, empresas públicas e sociedades de economia mista.

[Depois de três parágrafos descritivos, o Estadão inicia o quarto com uma baixaria. Boquinha? Quem tem boquinha é o Roberto Freire, que não faz nada e ganha salário da prefeitura de São Paulo. Se tem algum dirigente estudantil trabalhando no governo, o Estadão poderia ter a hombridade de dizer quem é, quantos são, o que fazem, quanto ganham. Aí poderíamos compará-los com aquele traste do PPS.]

O repasse a título de "reparação", os convênios com vários órgãos da administração federal e a concessão de benesses, como o monopólio na expedição de carteiras estudantis, mostram como o governo Lula cooptou movimentos sociais, patrocinou ONGs vinculadas ao PT e financiou entidades pseudofilantrópicas mantidas por centrais sindicais. Em troca de dinheiro público, essas entidades perdem sua representatividade.

[Aí já virou um saladão mucho crazy. O Estadão estava falando da UNE e agora parte para ONGs vinculadas ao PT e entidades... Ora, mantenha o foco, senhor editorialista! Acabo de ler que o governo de SP acertou o pagamento de 456 milhões de reais a empreiteiras, a título de atrasos de anos anteriores. Lindo, não! Eles não tem nenhum pudor em fazer milhares de assinaturas da Folha e Estadão, mas a UNE, a subversiva, deve morrer de fome. ]

É por isso que a UNE não exerce hoje o importante papel político que exerceu no passado, quando formou atuantes líderes que atualmente estão no proscênio da vida pública.

[São uns cínicos. O Estadão sempre combateu a UNE. Não apenas o Estadão, todos os jornais atacavam a UNE na década de 60, usando os mesmos argumentos de hoje. Os mesmos. Chamavam a UNE de chapa-branca porque apoiava João Goulart e, como a mídia fazia oposição ferrenha ao governo, diziam que a UNE havia perdido seu importante papel político. A UNE perdeu importância sim, mas sobretudo por causa da despolitização do jovem, processo para o qual a ditadura militar, apoiada pelo Estadão, muito contribuiu. ]

Dirigida nas duas últimas décadas por estudantes profissionais vinculados ao PT e ao PC do B e moralmente desfigurada por negociar apoio político ao governo em troca de regalias e privilégios, a União Nacional dos Estudantes carece de autoridade e de credibilidade. Seus "posicionamentos" não valem mais do que um bilhete usado de metrô.

[Mãe, traz mais um misto-quente! O editorialista do Estadão parece um garoto mimado de 60 anos que ainda vive com a mãe. Os posicionamentos da UNE não valem nada? Ué, senão valem nada, porque escrever um editorial sobre ela? Por acaso se chuta cachorro morto? Nada disso, mané. Esse editorial é prova de que a UNE está viva. Tem peso político. Continua incomodando os mesmos engomadinhos de gravata borboleta que há cinquenta anos escrevem a mesma coisa. Mãe, outro toddynho!]

Mídia não confia em Ciro Gomes

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A imprensa de oposição ainda usa as declarações de Ciro para dar pontos a Serra, mas já decidiu construir barreiras que o protejam do homem-bomba. O preço foi alto, mas o deputado conseguiu ganhar a primeira página de todos os jornais. Não tenho acompanhado a TV, mas sei que, se apareceu nas manchetes impressas e eletrônicas, também deve ter sido destaque na telinha.

Quem já trabalhou com assessoria de comunicação sabe como é difícil plantar na imprensa uma notinha boba de uma ou duas linhas. Imagine o preço de projetar um nome em todas as manchetes? Very very expensive.

No caso de Ciro Gomes, não digo que ele vendeu sua alma, seria exagero. Ele apenas alugou-a por uns dias.

Tanto não a vendeu que diversos colunistas de bico longo dedicaram-se hoje a desconstruir Ciro. O fósforo já foi usado. Não serve mais.

Clóvis Rossi: "Mas qual a autoridade de Ciro para decretar quem é melhor que quem?"

Eliane Catanhede: "Política é a arte de somar, articular, manipular, e ele só divide, confronta, se isola."

*

As palavras de Ciro desagradaram muita gente. De fato, ele se isolou.No Panorama Político, do Globo, somos informados que "o clima no PSB é de muita irritação com Ciro Gomes. Os socialistas não engolem a afirmação de que não estão no nível que a História impõe a eles".

Quer dizer, é claro que agradaram aos emplumados. Mas seus porta-vozes sabem que Ciro Gomes, seja discreta seja enfaticamente, deverá seguir a orientação de seu partido e apoiar Dilma Rousseff. Nos momentos mais quentes da campanha, duvido que Ciro opte por uma postura apagada ou omissa.

Eu acredito que o deputado possui tutano suficiente para refletir sobre o efeito de suas palavras e sobre a consequência de seus atos.

Além disso, tenho minhas suspeitas de que, assim como a mídia usou Ciro, ele também usou a mídia. Ele vem tentando captar votos do eleitorado conservador de São Paulo. Mas acho que a própria mídia percebeu a manobra e não vai facilitar a vida do deputado.

Marina, a neocon verde

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Leio que Marina Silva declarou, nos EUA, que "o Irã tem desrespeitado direitos humanos" e criticou a política externa do Brasil, que tem procurado estabelecer diálogo com o regime dos aiatolás.

Tudo isso é tão emocionante. Marina agora quer o apoio da direita americana. Ela tem razão sobre o Irã, e ao mesmo tempo está profundamente equivocada. Em primeiro lugar porque participa deliberadamente da satanização midiática de um país, cumprindo os interesses da indústria bélica. Em segundo porque eu pensei que os problemas internacionais do Irã tinham a ver com seu desejo de adquirir a tecnologia nuclear, e não com sua política de direitos humanos.

Metade dos países africanos desrespeitam os direitos humanos de forma muito mais grave que o Irã. Aqui em Honduras, já temos seis jornalistas assassinados em poucos meses. Aliás, no Brasil mesmo, a legião de crianças usuárias de crack cresce diariamente. A violência nas cidades atinge níveis espantosos. Falta muito para que o Brasil possa dar lição de moral em direitos humanos para outros países. Sabe qual o índice de criminalidade no Irã? É quase zero. Acho que seria muito mais honesto se Marina Silva falasse dos problemas de seu próprio país, e não desse pitaco sobre o que não sabe. Pior: não participasse desse joguinho nojento da mídia americana (e suas subsidiárias mundo afora) de ir minando a imagem do Irã para preparar a opinião pública para uma outra guerra.

Eu já falei que não gosto do Irã. Mas realmente fico perplexo em ver como Marina Silva está incorporando o figurino do ultra-conservadorismo ecológico. Um pouquinho de verde aqui, outro acolá, e dá-lhe repetir o que publicam os falcões no Washington Post.

O Irã tem problemas graves, sim. Mas qual é? O mundo agora vai tirar uma onda de juiz do Irã? Por que só do Irã? Paquistão, China, Costa do Marfim, Arábia Saudita, também tem presos políticos e também desrespeitam os direitos humanos.

E por falar nisso, observo que o Globo tem feito ofensas ao Irã que ultrapassam sua leviandade costumeira. Para começar, a acusação de fraude. Acho isso um desrespeito terrível. Por acaso o Globo tinha repórteres no Irã para saber se houve fraude de fato? A suposta fraude não foi encontrada pelas autoridades competentes. Elas admitiram problemas, mas nada que pudesse mudar o resultado eleitoral.

Quem acusou a fraude, logo no dia seguinte ao pleito, foi o candidato perdedor. Outra palhaçada. Isso não é democrático. Se o candidato, que não por acaso era apoiado pelos EUA, suspeitava que pudesse ocorrer fraude, deveria ter feito denúncias antes da votação, e chamado observadores internacionais. Numa eleição, há um acordo moral de que ambos os candidatos respeitarão o resultado e confiarão na autoridade eleitoral. Se não houver essa confiança e esse respeito, não existe democracia.

A acusação de fraude tem o objetivo político de desacreditar o Irã. Quase todo o oriente médio é regido por monarquias totalitárias, ditaduras sem nenhuma perspectiva de democracia, e não ouvi Marina Silva ou editorialistas do Estadão fazerem qualquer crítica; e quando vemos, no Irã, o povo escolher democraticamente seus governantes, diz-se que não valeu, que houve fraude. Não creio que essa estratégia incentive a democracia a se disseminar pelo mundo.

Então é assim. O Irã frauda eleições, tem presos políticos, quer produzir mísseis nucleares. São maus. São feios. São bobos. Devemos, portanto, lançar umas bombas atômicas por lá para resolver o problema. Depois Marina Silva planta umas árvores em algum lugar e estará tudo certo.

24 de abril de 2010

Não, Ciro. Serra não é mais preparado para enfrentar crise

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Brizola Neto, em seu Tijolaço, comenta as manipulações feitas em torno das declarações de Ciro Gomes, exagerando sempre suas críticas ao governo e à Dilma, e omitindo os petardos que ele solta, como de praxe, contra o serrismo.

Não dá, todavia, para tampar o sol com a peneira. Ciro conhece de perto a disposição antilulista da mídia e tem inclusive se utilizado dessa contraforça para se projetar. É muito fácil. Basta criticar o PT em temas mais ou menos óbvios, de forma não muito violenta para não queimar pontes, nem suave demais a ponto de não chamar a atenção dos hidrófobos antipetistas da big press, obcecados em coletar e divulgar qualquer crítica a seus inimigos.

O Ciro de ontem resolveu elevar a dose de antipetismo para, proporcionalmente, ganhar mais mídia. Quanto mais violento for seu ataque ao PT e, particularmente, à menina dos olhos do petismo, a sua candidata Dilma Rousseff, mais holofotes se acenderão para Ciro Gomes desfilar.

Conseguiu. O nome Ciro aparece em todas as manchetes de jornal.

Ou seja, Ciro Gomes sabe o que fez.

A mídia parou de xingar Ciro Gomes, pintado agora como um campeão. Destemperado, mas valente.

As forças dilmistas, como era de se esperar, assistem a cena estarrecidas, com medo de qualquer manifestação que bote ainda mais fogo na fogueira.
Segundo a pesquisa Ibope, Ciro Gomes marcou 8% na pesquisa estimulada. Isso corresponde a quase 10 milhões de votos. Ele é uma figura importante no xadrez eleitoral, e sabe disso. Suas manifestações serviram como advertência, tanto aos governistas, quanto para a oposição. Ciro tem expertise midiática. Na verdade, ele se tornou uma espécie de celebridade.

Mas Ciro, outra vez, deslumbra-se com a luz dos holofotes. Por mais intensa que esta seja, o poder não está em quem está sob a luz, e sim em quem liga ou desliga a lâmpada. E não é Ciro quem faz isso.

O deputado está nitidamente confundindo política com uma cultura de celebridade, e querendo impor a sua opinião política, que é válida, mas é SUA opinião pessoal, ao povo brasileiro. Isso não se impõe. Conquista-se. Ser presidente da República não pode ser puramente uma ambição pessoal. O candidato deve estar no centro de um conjunto de forças políticas, partidárias e sociais, para ser um representante dessas idéias, e não de SUAS idéias.

Daí que o parlamentar declarou, no meio dessa confusão, que pode abandonar a política e virar "intelectual". Toda frase de Ciro recende a uma arrogância que me assusta. Em primeiro lugar, ele parece menosprezar a função do intelectual. Se quer virar intelectual, ótimo. O Brasil precisa tanto de intelectuais como de políticos, contanto, claro, que seja um intelectual competente e corajoso. Afinal, da mesma forma que há políticos corruptos e incompetentes, também há intelectuais desprezíveis.

Em segundo lugar, Ciro simula um ceticismo em relação à política que não é coerente, nem com sua astúcia, nem com as circunstâncias históricas. Nunca houve política ideal em lugar nenhum do mundo. Muito menos no Brasil. Provavelmente nunca haverá. A política, por ser um ringue onde se disputa o poder, sempre atrairá os espíritos mais violentos e mais ambiciosos. Isso é natural e por isso mesmo que os cidadãos devem se organizar para lidar da melhor forma possível com esse Leviatã.

As circunstâncias históricas atuais, por outro lado, também não respaldam o sarcasmo e o cinismo de Ciro Gomes, porque estamos testemunhando mudanças sócio-econômicas profundas no país e o deputado sabe disso. Em meio à névoa neo-maquiavélica em que partidos e forças sociais se digladiam, pode-se vislumbrar o povo caminhando, silenciosamente, discretamente, indiferentemente, em direção à um futuro um pouco melhor. É um silêncio cheio de orgulho, porque os governos não lhe fazem favor algum. É uma conquista de seus próprios direitos, e que lhe custou, nos últimos séculos, muita fome, muito trabalho, muito sofrimento. Ciro Gomes sabe disso. Ciro Gomes sabe que dezenas de milhões de nordestinos já morreram de inanição e doenças. Ciro Gomes sabe que as capitais do Sudeste foram construídas por braços nordestinos, ao mesmo tempo que o Nordeste agonizava.

Ciro Gomes sabe, enfim, que o Nordeste passa por uma fase de grande transformação social, registrando índices de crescimento econômico muito superiores ao do resto do país.

Não quero acreditar que Ciro, mesmo sabendo e testemunhando tudo isso, quer pular para o outro lado do balcão e defender os conservadores do Sudeste.

Irá Ciro agora defender que Serra está mais preparado que Dilma para enfrentar crise? Por quê? Serra não será um ditador. Será a cabeça de um conjunto de forças políticas, e essas forças, na minha opinião, não estão nada preparadas para enfrentar nenhuma crise, principalmente porque foram essas mesmas forças as grandes produtoras de crises no Brasil. A ideologia política do serrismo não passa de um êmulo tropical e mambembe das idéias estrangeiras que geraram a última grande crise econômica mundial.

O governo Serra não apenas não estaria preparado para enfrentar crises, como seria o pivô de muitas crises. Sua conhecida intransigência e seu centralismo autoritário deflagrariam conflitos em toda parte: com prefeitos, com governadores, com movimentos sociais, com sindicatos, com outros partidos.

Além disso, Serra se elegeria com um reduzido grupo de partidos. Os únicos aliados do PSDB são partidos decadentes, reacionários. Quase não são mais partidos. PPS e DEM já articulam integrar-se ao PSDB para escaparem a uma humilhante extinção natural. Ninguém mais quer votar em PPS e DEM. Esse é o governo mais preparado para crise?

Não tem sentido.

Um governo mais preparado para enfrentar uma crise é um governo forte, que lidera um amplo leque de alianças partidárias, que exerce com sucesso a mediação entre segmentos sociais fortemente antagônicos. Serra não serve para fazer esta mediação porque os tucanos defendem apenas um lado. Serra não tem apoio de nenhuma entidade sindical, trabalhista, estudantil, indígena, camponesa. Nenhum instituição com um mínimo de enraizamento popular apóia ou apoiará Serra.

Não, Ciro, Serra não está preparado.

Ao longo de sua carreira, Serra afastou-se do povo brasileiro, e de seus interesses.

Serra não está preparado para representar o Brasil lá fora.

Ele já começou atacando o Mercosul, uma das maiores conquistas da América do Sul das últimas décadas. Ao mesmo tempo em que defende que o Brasil amplie suas exportações de manufaturados, Serra não vê (por cegueira ideológica) que é o Mercosul, e a América Latina, o destino de 90% de nossos manufaturados.

Serra defende o belicismo neocon dos norte-americanos e já escreveu um artigo fortemente ofensivo ao Irã.

Contribuirá, portanto, para as articulações pró-guerra que os poderosos lobbies armamentistas semeam na mídia corporativa mundial.

Não, Ciro. Serra não está preparado. E, pelo jeito, tampouco você está.

23 de abril de 2010

Carta Diária de hoje analisa a íntegra do Ibope

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Aí vai a edição de hoje, com alguns comentários sobre a íntegra do relatório do Ibope, que o Diário de Pernambuco acaba de divulgar. Não esqueçam de fazer uma assinatura para continuarem lendo.

E Ciro vira mesmo Coriolano?

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Meu artigo sobre Ciro, modéstia à parte, acertou na mosca. O nobre parlamentar continua flertando com o personagem de Shakespeare, o general romano Caio Márcio, também conhecido pelo nome Coriolano. A figura existiu historicamente, e foi biografada por Plutarco.

Deixem-me, portanto, terminar de contar a história da peça. Coriolano, um patrício reacionário que odiava a plebe, é banido da cidade. Cheio de ressentimento, ele se dirige à Ancio, cidade dos Volscos, os piores inimigos de Roma, apresenta-se a Tulo Aufídio, até pouco seu adversário número 1, e se oferece para ajudar a destruir sua antiga pátria.

Esperemos, naturalmente, que Ciro Gomes seja mais esperto que isso. A mídia vem atiçando, sutilmente, o lado mais inflamável do ex-candidato. Hoje a Dora Kramer nos conta que Ciro, de fato, evitou deliberadamente criticar Serra, para ganhar o eleitorado antilulista. O cálculo é válido, inteligente até - se considerarmos que Ciro quase se lançou candidato ao governo de São Paulo, o estado mais conservador do país.  Mas é perigoso também. Cativando o cidadão conservador, o próprio Ciro se tornou um.

O comportamento de Ciro mostrou-se errático, esquizofrênico. Ele iniciou seu périplo eleitoral fazendo críticas extremamente duras à Serra e à big press, que se popularizaram muito através da internet. Depois disso, no entanto, o parlamentar mudou de estratégia. Passou a criticar o PT, o que lhe abriu as portas da mesma mídia que ele havia criticado tão acerbamente.

Tudo bem, política é assim mesmo. Um jogo de morder e assoprar o tempo todo. Não se pode ser ingênuo, todavia. A mídia é vingativa e só não é mais brutal com Ciro justamente porque anseia que ele ao menos não auxilie Dilma Rousseff. E está conseguindo. Por meio de elogios, chantagens, ofensas, a mídia conseguiu manipular a vaidade de Ciro e intrigá-lo com a campanha da ministra.

Alguém deve lembrar a Ciro que o final de Coriolano é triste. Movido por seu rancor vingativo, ele se junta aos volscos para atacar Roma, mas quando, já no acampamento militar diante de sua cidade natal, recebe a visita de sua mãe instando-o a não cometer um ato de traição tão vil, ele se comove e desiste. De volta à Ancio, é linchado pelos populares, furiosos com sua indecisão.

As atitudes de Ciro, intempestivas, coléricas, solitárias, não repercutem bem em nenhuma parte. O roçado de escândalos, frase que o parlamentar proferiu num dia de Roberto Jefferson, atravessou a cerca e chegou à sua própria horta. Afinal, depois de tantos rasgados elogios ao presidente Lula, a omissão de Ciro Gomes na luta eleitoral deste ano, não é nada menos do que escandalosa.

22 de abril de 2010

Carta Diária de hoje fala dos eunucos políticos do Brasil hodierno

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Carta Diária desta quinta-feira.

MSM protocola ação para investigar todos os institutos

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O blogueiro Eduardo Guimarães tomou uma iniciativa importantíssima para que tenhamos uma atmosfera eleitoral menos poluída. A ONG por ele presidida, Movimento dos Sem Mìdia, protocolará ação para pedir ao Ministério Público Federal que investigue todos os institutos que fazem pesquisa eleitoral, para que a sociedade possa ser melhor esclarecida quanto à idoneidade de cada um.

Uma eleição presidencial é o ápice democrático de qualquer país. Não se trata apenas da vitória ou derrota dos candidatos. O ato em si tem um valor moral incomensurável. É o momento em que os povos podem se sentar à mesa com os deuses e erguer um brinde orgulhoso à liberdade de poder influenciar seu próprio destino.

Cumpre à Justiça e ao Ministério Público, portanto, zelarem para que esse banquete transcorra tranquilamente. Assim como a mulher de César, as eleições não apenas devem ser limpas, elas tem de parecer limpas, para que a sua função moral seja cumprida. Os institutos de pesquisa tornaram-se, sabidamente, atores influentes no processo. Deve-se respeitá-los, portanto. Deve-se protegê-los de perseguição política, como a de que o Sensus foi vítima, com mídia e PSDB unidos para desmoralizar seu trabalho. Aliás, vale lembrar que o PSDB protagonizou o "mico" do ano:



A arrogância tucana não tem limites, porque é exacerbada pela cumplicidade midiática. Mesmo reconhecendo que acusou o Sensus usando dados errados, o partido não se desculpa e diz que vai adiante em sua cruzada estrambólica e infantil contra o tradicional instituto.

A sociedade, todavia, assistiu perplexo essa covardia de ver a Folha, proprietária de uma empresa de pesquisa, atacar  um concorrente dessa maneira covarde. A ação do jornal faz pensar senão seria nocivo à idoneidade democrática que um poderoso grupo de mídia tenha em suas mãos um instrumento que afete tão diretamente o processo eleitoral, como é um instituto de pesquisa.

A iniciativa de Eduardo Guimarães, portanto, resgata um pouco de poder para quem o poder realmente pertence, a nós, ao povo. Justiça, Ministério Público, governo federal, partidos políticos, eleições, tudo isso existe apenas com o objetivo de servir ao cidadão brasileiro. É verdade, além disso, que o Brasil precisa fortalecer suas instituições puramente civis. E o MSM é um bom exemplo.

Por essas e outras que este blog é um simpatizante entusiasta do MSM, e apóia mais esta iniciativa da entidade. Convido todos os visitantes deste blog a entrarem também no espaço do Eduardo Guimarães para deixarem lá uma mensagem de apoio.

Ciro, o patrício moral da política

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Estou lendo um livro do Shakespeare que, acho eu, pouca gente conhece. É uma peça política intitulada Coriolano, contando as vicissitudes de um aristocrata da Roma Antiga, um "patrício" que odiava profundamente a plebe, ainda mais porque a plebe havia obtido grandes vitórias políticas e constitucionais, como o direito de destituir os cônsules e de eleger seus próprios tribunos, que gozavam de enormes e importantes prerrogativas.

Coriolano - é o nome desse personagem - era, por outro lado, um guerreiro de extraordinário valor. Sua coragem e destreza nas difíceis guerras que Roma enfrentava a todo momento, e que fizeram a cidade viver sob o fio da navalha por séculos, sempre à beira de ser destruída por tantos inimigos, eram reconhecidas por todos.

Como de praxe, o livro me remete ao presente. Essa é uma característica deliciosa das grandes obras de arte. Seu universalismo as tornam sempre contemporâneas. Quem é o Coriolano de hoje?

Esperem. Deixem-me contar um pouco mais da história para vocês entenderem melhor.

Ao final da guerra, Coriolano, no auge de seu prestígio, é indicado para cônsul, função máxima na Roma republicana. Para ser confirmado no cargo, no entanto, ele deveria cumprir uma tradição: pedir humildemente os votos e o apoio da plebe. Isso é uma humilhação terrível para Coriolano. Instado por amigos e familiares, ele cede e pede os votos, mas o faz com tanta má vontade que, apesar de conseguir os votos, a plebe logo depois muda de idéia e decide retirar seu apoio. Coriolano então deve voltar à praça e se humilhar perante o povo. Deve pedir desculpas e suportar ofensas e admoestações que os tribunos populares lhe fizerem. Depois de ouvir um longo sermão de sua mãe, que insiste na importância de engolir seu orgulho e fazer o que deve ser feito, Coriolano vai ao encontro da plebe.

Não resiste, porém, às primeiras provocações. Chamado de traidor da pátria por um dos tribunos, Coriolano tem um acesso de fúria e joga tudo para o alto. A partir daí destila abertamente sua ira antipopular. Os tribunos e o povo, furiosos, o condenam ao exílio - por muito pouco ele não é executado de maneira cruel, lançado do alto de uma rocha.

A história segue, mais tramas virão. Em futuros posts, eu conto mais e continuo as comparações, mas essa sinopse é suficiente para vocês entenderem o paralelo que vou fazer. Ciro Gomes é nosso Coriolano. É um homem corajoso, de valor inegável, com disposição para a luta, mas possuidor de um orgulho que beira a soberba. Sua verve ácida contra a política de alianças do governo Lula me lembrou muito as condenações de Coriolano à plebe sem caráter. Ciro Gomes é um aristocrata moral. Um patrício. Não tem estômago forte o suficiente para sentar-se à mesa com a plebe política que constitui o esteio do poder em Brasília. Mas é preciso. O gênio de Shakespeare deixa isso bem claro. Este é o preço da democracia, esse é o custo da liberdade. Um político com ambições de estadista não pode ser um intolerante moral. Em primeiro lugar, essa intolerância embute preconceito social e muita hipocrisia. Ciro Gomes não se insurge contra a corrupção ao redor de seu amigo, o tucano Tasso Jereissati. O "roçado de escândalos" a que Ciro se refere estará sempre na horta dos outros, nunca na sua.

Ciro Gomes cometeu graves erros políticos. Ele deveria, para começar, ter se lançado ao governo de São Paulo. O PT paulista havia se rendido. Um leque amplo de partidos estava disposto a se unir com muito entusiasmo em torno de sua candidatura. A UNE, que é sediada em São Paulo, preparava-se para se engajar encarniçadamente na campanha de Ciro para governador. Era um cálculo político perfeito. Um combate acirrado no ninho tucano obrigaria mídia e PSDB a gastarem suas energias ali mesmo, enfraquecendo-os na disputa nacional.

O deputado, todavia, pareceu se deslumbrar com as luzes que se acendiam sobre seu rosto sempre que fazia críticas ao PT. O astuto Ciro Gomes teve seus dias de inocente útil. A mídia usou-o e agora tenta apresentá-lo como carta fora do baralho.

Eu não entendo tanto de política para saber se é possível ainda lançá-lo ao governo de São Paulo. Acredito que Ciro perdeu o "time". Mas ele é ainda uma peça importantíssima no tabuleiro eleitoral. Os quase 10% de votos que ele tem representam aproximadamente 13 milhões de eleitores, e o fato de uma parte destes eleitores estarem migrando para José Serra quando Ciro não consta na pesquisa, revela quão importante será que o deputado, desde já, se posicione com mais transparência e objetividade em relação à Dilma ou Serra.

A plebe, cuja ira se acende tão facilmente, perdoa com a mesma presteza aqueles que a respeitam e se portam com humildade. A única alternativa para Ciro, nesse momento, na minha também humilde opinião, é pedir desculpas aos tribunos e ao povo por sua soberba dos últimos meses e, com a mesma coragem que ele demonstra na guerra contra os grupos reacionários que dominam a mídia nacional, ele se curve aos interesses maiores da nação e entregue-se de corpo e alma à missão de derrotar a direita e eleger Dilma Rousseff.

21 de abril de 2010

Comentários sem moderação, mas identificados

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Amigos, implantei um sistema que me parece mais prático e racional. Os comentários não são moderados, mas o comentarista precisa se identificar de alguma forma, acessando a caixa de comentários através de sua conta Google, Blogspot, Wordpress, ou IdOpen, etc. Tem lá uma lista. Assim não preciso ficar entrando na net o dia inteiro para liberar comentários (por enquanto tá com quase nada de comentários, mas às vezes o povo gosta de um post e o troço explode de gente). Ainda está em fase de teste, de qualquer forma. Vamos ver se assim é melhor.

Tudo isso, imaginem, é para se defender dos trolls mal educados. Obrigando-os a se identificarem, posso rastreá-los e acioná-los judicialmente.

Analisando a íntegra da pesquisa Sensus

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Na Carta Diária desta quarta-feira, o blogueiro analisa o relatório completo da pesquisa do instituto Sensus, divulgado hoje na internet.

Brasília e o povo

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A principal crítica que se faz à Brasília é ter criado uma espécie de ilha da fantasia. Os políticos não ouviriam mais os clamores da população, como antes. Não concordo. O que o governo federal ouvia no Rio nunca foi o clamor da população brasileira, e sim a gritaria dos cariocas. Quando Rodrigues Alves autorizou Pereira Passos, prefeito do Rio, a reformar o Rio de Janeiro, no inicio do século XX, não ouvimos a população brasileira protestar contra o fato da cidade consumir um terço do orçamento federal daquele ano em obras locais. O Rio, claro, não reclamou. O Rio, aliás, ficou lindíssimo, parecendo uma nova Paris, ou Buenos Aires. Pena que vinte ou trinta anos depois, começaram a derrubar tudo que tinham construído. A estupidez e a corrupção demoliram os edifícios mais belos do Rio de Janeiro, aqueles com fachadas esculpidas por artistas escolhidos em edital público, de seis ou sete andares. Está certo que o Rio precisava de prédios grandes para abrigar o novo capital, mas tínhamos a Presidente Vargas vazia para isso mesmo. Em vez de construírem na Presidente Vargas, preferiram destruir os belíssimos prédios art-decó da Rio Branco.

Enfim, voltando à Brasília. Não creio que a minguada rua do Catete fosse o local mais adequado para a população brasileira se manifestar. Nunca poderíamos assistir manifestações como a das Diretas Já, ou da comemoração pela posse de Lula, ou tantas outras, na estreita rua do Catete.

A transferência da capital para Brasília cumpriu uma função política e moral, de fazer o governo federal olhar o país como um todo, instalado num mirante central, que possibilita uma visão imparcial e equânime para todas as unidades da federação.

Funcionalmente, também. Quem conhece o Palácio do Catete, hoje Museu da República, e passeia pelo Centro, sabe que o Rio não tinha mais condições de ser o centro político de um país que deixava de ser uma província tímida do mundo e se preparava para se tornar uma potência econômica global.

Os problemas sociais de Brasília não são defeitos congênitos, e sim doenças parasitárias, que podem ser tratadas adequadamente, e quero acreditar que serão. Os problemas políticos, por sua vez, além de refletirem vícios nacionais, e não apenas brasilienses, derivam em grande parte da ditadura, quando se enraizaram e se consolidaram elites e máfias locais.

Perder sua condição de centro político foi duro para o Rio. Mas essa não foi a causa principal da decadência econômica vivida pelo estado nas últimas décadas. Ao contrário, o fato de ser capital produziu uma cultura moral nociva no estado, anti-empreendora, resignada, preguiçosa, sempre mais ligada nos problemas nacionais do que em suas mazelas locais. O Rio tem de aprender a olhar a si mesmo com humildade, e tratar de seus problemas com um mínimo de autonomia. A causa principal da decadência econômica foi o fechamento de suas indústrias e o abandono de suas lavouras. Antes desse novo boom da indústria petrolífera fluminense, o Rio não tinha mais indústrias de peso. Até hoje não tem mais agricultura comercial relevante. A topografia acidentada não é desculpa, porque o Espírito Santo, com a mesma topografia, tem uma das agriculturas mais dinâmicas do país.

O Rio está renascendo. Com as novas refinarias e indústrias. Com o porto de Sepetiba. Com a retomada das exportações pelo porto do Caju. Faltam projetos agrícolas, e nesse ponto o governo do estado bem que podia ajudar.

Mas falemos da capital federal.

Pessoalmente, eu não gosto de Brasília. Eu gosto de cidades onde podemos circular a pé. Falta à Brasília reduzir sua dependência do automóvel particular. Precisa construir ciclovias, melhorar o transporte público interno, moralizar o serviço de táxi. Na minha opinião, deveria também estimular maior ocupação dos espaços vazios, trazendo mais vida à cidade e dando maior sensação de segurança aos cidadãos.

O Centro Cultural Banco do Brasil, por exemplo, situa-se num lugar totalmente isolado. Brasília precisa de centros culturais próximos, precisa de mais bibliotecas públicas, cinemas, enfim, de uma vida cultural no centrão, e não em lugares de difícil acesso.

Tenho consciência de que esse texto, cheio de expressões como "precisa de" e "tem que", reflete ingenuidade e autoritarismo. Mas não é disso que são feitas as utopias - e as cidades?

O fator Serra

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Deixemos as pesquisas de lado, por enquanto. A campanha acabou de começar. As alianças partidárias estão se configurando. Ainda teremos debates na TV, propaganda gratuita, muitas águas irão rolar por esses rios. Analisemos tudo com muita calma. Vamos repassar as características do principal adversário de Dilma Rousseff. Não faço o mesmo com Dilma porque achei que ficaria ridículo, no mesmo espaço, mandar bala no tucano e rasgar seda para a petista. Fá-lo-ei num outro post, ao menos. Esforçar-me-ei, todavia, para não repetir o que todo mundo já sabe. O público aqui, creio eu, é bem informado, quase especializado.

José Serra

Tem posição crítica e negativa em relação ao Mercosul. Defende sanções contra o Irã. Tem um perfil intervencionista em termos econômicos. Seria uma espécie de Chávez da direita. Já ameaçou romper contratos e governar com medidas provisórias. O que faz sentido, visto que, mesmo ganhando, Serra dificilmente terá maioria parlamentar. Seu histórico político recente não é bom. Elegeu-se prefeito por São Paulo e, depois de prometer ao vivo, na TV, cumprir seu mandato até o fim, descumpriu a promessa e concorreu ao governo do estado. Sua gestão em São Paulo foi considerada "sem brilho" até mesmo pela Folha de São Paulo, jornal fortemente aliado. Desaparece nas crises, numa tentativa de não colar sua imagem a nenhum tipo de problema. Buraco no metrô? Cadê o Serra? Sumiu. Cai viaduto? Some de novo. Enchentes em São Paulo? Evapora.

A eleição de Serra constituiria uma reviravolta geopolítica na América Latina, um golpe nas esquerdas de todo continente. Mas a consequência mais grave, em termos globais, seria o apoio ao belicismo americano contra o Irã, produzindo uma nova fronteira de conflitos no mundo. O Irã, todavia, não é Palestina, um estado falido, miserável, desesperado. Tampouco é o Iraque, um país que não tinha um exército organizado. Uma guerra contra o Irã despertaria uma nova onda terrorista em todo planeta, e se o governo brasileiro, sob liderança de Serra, apoiar essa barbaridade, nosso país se tornaria alvo do ódio muçulmano e vítima potencial de atentados terroristas.

Outro ponto negativo: elegendo-se com forte apoio midiático, e ao mesmo tempo com toda esta fragilidade parlamentar, o governo Serra ficaria dependente das famiglias que dominam a comunicação de massa no Brasil. Frias, Mesquitas e Marinhos estariam no poder, visto que Serra não poderia negar-lhes nada, sob o risco de ser derrubado politicamente. Escândalos serão sistematicamente abafados. Esses grupos, fortalecidos e consolidados à sombra do regime militar, tornaram-se o símbolo máximo, para boa parte da população esclarecida, de uma tirania midiática de caráter fortemente conservador, e recuperariam boa parte de seu poder político sob a batuta de um governo tucano.

Ainda sobre as pesquisas

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Os jornais de hoje continuam repercutindo os duros ataques que o PSDB faz contra o instituto Sensus. Otimista inveterado, creio que a pendenga terá resultado positivo para a democracia, porque forçará o Supremo Tribunal Eleitoral e a classe política a olhar a questão das pesquisas com mais cuidado. Qualquer decisão do TSE terá de valer, necessariamente, para todos os institutos. O feitiço virará contra o feiticeiro.

A perseguição ao Sensus, de qualquer forma, está comovendo setores importantes da política e da opinião pública. Mais uma vez, assistimos a imprensa usando todo seu poder para realizar um assassinato de reputação. Só porque o Sensus decidiu não frequentar as tertúlias do Millenium, tornou-se alvo da ira tucano-midiática.

Em primeiro lugar, a mídia fez o acordo, imoral a meu ver, de não divulgar os números do Vox Populi ou Sensus. Não posso conceber que um órgão de imprensa deixe de publicar, deliberadamente, pesquisas de intenção de voto feitas por institutos tradicionalíssimos, cujos trabalhos são registrados na justiça eleitoral. Cumpre às autoridades judiciárias determinar se a pesquisa é idônea e aos partidos políticos opinarem se é tendenciosa. A interferência da imprensa nesse processo, omitindo acintosamente algumas pesquisas e divulgando outras, constitui uma afronta ao direito dos cidadãos de se informarem.

Quanto ao PSDB, tem todo o direito de contestar a pesquisa Sensus, mas o partido age sem isonomia, pois critica somente o número que não lhe beneficia. A sanha tucana contra o Sensus não poderia ser mais parcial. O que a sociedade espera não é um ataque unilateral a uma empresa de pesquisa, e sim maior transparência, profissionalismo e isenção por parte de todos os institutos. Esse blog, humildemente, faz as seguintes sugestões:

  1. Padronizar os grupos sociais, como faixas etárias e de renda, para que a sociedade possa comparar os números entre si. Por exemplo, o Datafolha não separa, num grupo à parte, as famílias que ganham menos de 1 salário. Os outros institutos sim. Isso dificulta a comparação entre os dados, o que permitira ao cidadão e à imprensa elaborarem médias.
  2. Obrigar os institutos a divulgarem os relatórios completos das pesquisas em seus websites alguns dias depois da publicação dos números principais.
  3. Obrigar os institutos a publicarem com mais detalhes a metodologia usada.

Leituras do dia

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Hoje tem material interessante na blogosfera. Sugiro as seguintes leituras:

1) Em entrevista para o Diário de Pernambuco (via Nassif), Lula critica a disputa interna petista em Minas Gerais; diz que Michel Temer, como vice de Dilma será importante para a governabilidade no caso de vitória da candidata; reafirma que Dilma terá direito à reeleição em 2014; e sugere que o PT de São Paulo se esforce para conquistar o centro e o empresariado, forças determinantes no estado. Isso e outras coisas.

2) Mauro Carrara, em artigo publicado no Viomundo, diz que a classe média jovem brasileira, apesar de conectada, tem uma visão muito negativa da esquerda, e que a militância dilmista precisa fazer a lição de casa, saindo dos guetos internauticos e produzindo material para fora de seu micro-universo.

3) Já tinha lido isso no Painel, da Folha. Confirmo a notícia agora no Nassif: Ibope encomendado pela Associação Comercial de SP e feito de 13 a 18 de abril aponta Serra com 36% e Dilma com 29%. Os sete pontos que os separam eram cinco na pesquisa anterior (35% a 30%), oscilação dentro da margem de erro.

Comentário: sindicato dos trabalhadores não pode bancar pesquisa; mas associação comercial pode, né?

Por enquanto, é isso.

20 de abril de 2010

Carta Diária Óleo do Diabo - Terça-Feira 20 de abril de 2010

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Amigos, segue a Carta Diária de hoje. Espero que vocês gostem. Por razões óbvias, os assuntos principais serão política e eleições.

Estarei disponibilizando a Carta, gratuitamente, até sexta-feira. Depois disso, só para assinantes. Claro que o blog continua vivo, mas fatalmente, em virtude desse "investimento" todo na Carta, será menos atualizado do que eu gostaria. Se pudesse, dividir-me-ia em vários, para dar conta de tantas coisas.

De qualquer forma, depois que atingir um número maior de assinantes, creio terei oxigênio para dar mais atenção a este espaço.

Observo que o documento está em formato PDF. Creio que, a esta altura do campeonato, todos possuem instalado um leitor de PDF no computador. Trata-se do Acrobat Reader, disponível na web gratuitamente. Desta maneira, vocês poderão, se quiser, imprimir o documento e espalhar por aí. Acredito que é uma maneira de transformarmos a internet numa plataforma de comunicação com potencial de atingir o cidadão não conectado a rede.

Mesmo quando os documentos forem divulgados apenas para os assinantes, autorizarei a reprodução dos mesmos em xerox para distribuição local.

Cordialmente.

19 de abril de 2010

Blogosfera em fogo!

1 comentário

Caramba! Acabo de dar um passeio pela blogosfera e fiquei impressionado. O negócio tá pegando fogo! O clima está assustador. É hacker invadindo site dos outros. É a imprensa pró-Serra vindo como um rolo compressor. Se em tempos normais, o blogueiro tinha dificuldade em destrinchar as centenas de pequenas, médias e grandes manipulações diárias da imprensa, imagina como está agora? Até semana passada, eu vinha num ritmo legal, que estava me satisfazendo.

Vamos ver se consigo retomá-lo.

No entanto, penso, de fato, em priorizar minha Carta Diária. Já tenho um bom número de assinantes e preciso cuidar melhor deles. Farei ainda uma contribuição à campanha da Dilma, dando uma assinatura de graça para o comitê.

Minha intenção, portanto, é "encorpar" a Carta Diária, focando minha energia nesse trabalho. A partir de amanhã, irei "abrir" a Carta Diária ao público do blog, até sexta-feira, com objetivo, naturalmente, de divulgar o serviço.

Não estou fazendo isso para "ganhar dinheiro", no sentido vulgar. Se meu objetivo fosse esse, nunca seria blogueiro, e ainda mais blogueiro de esquerda. A meta é alcançar a independência e aperfeiçoar meu trabalho.

Sei que há muitos blogs melhores que o meu, e que não ficam pentelhando seus leitores com esses subperonismos pecuniários... Não posso fazer nada. Gostaria de acreditar que o meu tem um diferencial qualquer. Sonhar não custa nada, né? Seja como for, trabalharei duro. Darei o meu melhor. Até amanhã.

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Blogueiro na Carta Diária

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Prezados, esta semana darei prioridade à Carta Diária. Minhas análises estarão por lá.

17 de abril de 2010

Contratempos & Moderação

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Essa aí pode ir para a série O Blogueiro Atrapalhado. Além de todos os imbróglios, ainda perdi a chave de casa e estou aqui esperando o chaveiro aparecer, cobrando uma taxa estratosférica de emergência. Aiaiai. Não conto mais porque recuso-me a dar início a outro festival de autocomiseração. Está tudo bem. Preciso, no entanto, de alguns dias para me ajeitar novamente.

Quero informar também que o blog volta a ter os comentários moderados, para combater a invasão de trolls, que começa a crescer por aqui também. Trolls agridem não apenas o blogueiro mas também as pessoas que participam, então extirparei o mal pela raíz: ignorando-os.

Eu tento evitar isso (sistema de moderação) porque fico longas horas longe da internet e os comentários podem demorar a serem publicados. Aliás, este post está com a seção de comentários fechada.

Quem quiser falar comigo, basta me mandar um email, escrito na parte de cima do blog, à direita.

14 de abril de 2010

Comentando as últimas pesquisas

7 comentarios


Serra, dessa vez disfarçado de Monica Bellucci, planejando a demolição
(ele não disse que demolir prédio é relaxante?) da sede do Instituto Sensus.


Atualização: Datafolha divulga nova pesquisa. Assim que eu puder (e de preferência quando o instituto divulgar a íntegra), eu comento essa também.

Muita calma nessa hora. Contra o desespero tucano, que passou a agredir a pesquisa Sensus, reforçando ainda mais o comportamento policialesco e chicaneiro que a oposição vem exibindo desde que a perspectiva de derrota começou a inchar-lhe sob as axilas, vamos usar objetividade, calma e bom senso. Não interessa à Dilma nenhuma dúvida ou suspeita em relação às pesquisas. Ela é apoiada por um presidente cuja popularidade descomunal é consenso em todos os institutos. Seu crescimento nas pesquisas deve-se a um fenômeno tão simples quanto um sol brilhando: transferência de votos.

Já que a oposição agarra-se ao Datafolha, daremos, uma vez mais, crédito ao instituto controlado pela empresa de Otavio Frias Filho. O histórico de agressões da Folha, que pertence ao mesmo dono, ao presidente Lula e à ministra Dilma, exclui qualquer suspeita de favorecimento à candidata governista.

No início de março, o Datafolha divulgou uma pesquisa onde Dilma Rousseff atingia 28% das intenções de voto para presidente da República, contra 32% de Serra. Uma diferença de apenas quatro pontos, configurando uma espécie de empate técnico, já que a margem de erro é de 2 pontos percentuais. Estes números significavam um forte crescimento de Dilma Rousseff e queda de Serra, pois em dezembro a primeira tinha 23% das intenções de voto e o segundo, 37%. A diferença, portanto, caíra de 14% para 4%.

Os números eram consistentes porque se amparavam em outros apurados na mesma pesquisa, sobretudo na sondagem espontânea. Fui lá no site do Datafolha, recuperei os dados e recortei os referentes à espontânea. Reitero que me refiro à pesquisa de 1 de março.


Observe: o percentual de pessoas que afirmou votar em Lula, Dilma, candidato de Lula e candidato do PT (1%) somou 25%, contra apenas 7% que optaram pelo nome Serra. Uma diferença de 18% em favor de Dilma!

Na estimulada, o cenário 1 da pesquisa de 1 de março foi o seguinte:


Observação: Dilma, apesar de perder de 32% a 28% para Serra no total, empata com o tucano entre os homens, em 32%.

*

Pois bem, agora vamos olhar a pesquisa do Datafolha de 29 de março, que tanta alegria trouxe ao ninho tucano. Nela, o instituto informou que o candidato do PSDB à presidência voltara a abrir vantagem sobre Dilma Rousseff (PT). A diferença do percentual do tucano em relação à petista, que era de quatro pontos na sondagem anterior, saltou para nove pontos. Serra ganhou quatro pontos e chegou a 36% das intenções de voto, e Dilma oscilou negativamente um ponto, caindo para 27%.

Entretanto, uma coisa chama a atenção na pesquisa. A alta de Serra e o declínio de Dilma não se refletem na espontânea, onde o tucano marca 8% (apenas 1 acima da pesquisa anterior), enquanto a petista cresce 2 pontos, atingindo 12%. Entre os homens, Dilma atinge 16% e amplia a vantagem para 6 pontos em relação ao governador de São Paulo.

Juntando as opções candidato do Lula (que não aparece na tabelinha abaixo porque perdeu várias posições) e candidato do PT (ainda em 1%), o grupo que soma Lula e Dilma totalizou 24%, queda de apenas 1 ponto sobre a pesquisa anterior. Se o tucano tem 8%, a diferença entre as opções governistas e ele caíram de 18% para 16%. Considerando que a margem de erro é de 2%, pode-se dizer que ela se manteve estável.



Na estimulada, cenário 1, o Datafolha do dia 29 de março trouxe os seguintes resultados:


Serra com 36%, Dilma com 27%. Entre os homens, porém, um empate técnico, 35% contra 32%. A vantagem de Serra, mais uma vez, se dá entre as mulheres, onde ele atingiu 37% das intenções de voto, contra 22% da petista. Essa diferença entre homens e mulheres, no entanto, não é normal, e mostra um jogo embaralhado, confuso. As mulheres, em geral menos preocupadas com questões políticas, demoram mais a definir seu voto. A vantagem tucana entre as ladies, portanto, é instável.

*

Não precisamos nos ater somente ao Datafolha. Vamos passear um pouco pelos bosques do Ibope, outro instituto salvo da ira tucana em virtude das frequentes declarações de seu presidente, Carlos Montenegro, em favor de José Serra. Em meados de março, o Ibope divulgou uma pesquisa feita entre os dias 06 e 10 de março, ou seja, apenas 15 dias antes da famosa pesquisa Datafolha (25 e 26 de março) que apontou brusca ascensão do candidato oposicionista.

Primeiramente, uma voltinha na espontânea:


Dilma Rousseff marcou 14% das intenções de voto espontâneas, contra 10% de Serra. Entre os homens, Dilma atinge 18%, contra 11% do tucano. Lula, por sua vez, marcou 20% no Ibope. Somando os votos de Lula e Dilma, chegamos a um total de 34%, contra 13% das intenções somadas de Serra e Aécio (3%). Uma diferença de 21% em favor das forças governistas!

E agora um rolé na pesquisa estimulada, no cenário mais comum, com Ciro e Marina:


Dilma tem 30%, Serra marca 35%. Diferença de 5%, também muito próximo de um empate técnico. Com um detalhe, Dilma vem crescendo gradativamente nos últimos meses. Serra está parado. Repare ainda que, entre os homens, Dilma atingiu 36% das intenções de voto, contra 34% do tucano. A vantagem do tucano se dá entre as mulheres, onde ele marcou 37%, contra 25% de Dilma.

Essa vantagem de Dilma entre os homens é muito importante, porque mostra um eleitorado ainda em formação, agitado, turbulento. Mas que vem, aos poucos, entendendo melhor o cenário eleitoral e percebendo quem é quem. E votando em Dilma.

*

Não terminou ainda. Tenham paciência. Falta comentar o último Vox Populi, divulgado pelo Jornal da Band no dia 3 de abril. Essa pesquisa resulta de sondagens realizadas nos dias 30 e 31 de março. É a primeira, portanto, feita depois do Datafolha divulgado 29 de março, cuja sondagem realizou-se nos dias 24 e 25 do mesmo mês.

Seguindo o padrão dos comentários anteriores, e também a ordem encontrada nas próprias pesquisas, vamos começar pela espontânea:

Espontânea: Se a eleição para Presidente da República fosse hoje, em quem você votaria?



Dilma atinge 16% na espontânea, empatando com Lula, e atingindo 20% entre os homens. Com isso, abre uma vantagem de 4 pontos sobre Serra, que marcou 12%, sendo 14% entre os homens.

Na estimulada, temos o seguinte quadro para o cenário 1, com Ciro e Marina:

Se a eleição para Presidente da República fosse hoje e os candidatos fossem estes em quem você votaria?

Com uma diferença de apenas 3 pontos, a pesquisa mostra Serra e Dilma tecnicamente empatados.

*

Por fim, chegamos à pesquisa Sensus, divulgada ontem, que mostra Serra e Dilma empatados em 32%.

Eu gostaria de saber uma coisa. Perante tudo que foi apresentado aqui, vocês concordam que estamos diante de números perfeitamente cabíveis e coerentes? Todos os institutos, inclusive a pesquisa Datafolha do início de março, mostravam Serra e Dilma praticamente empatados, com diferença entre 3 a 5 pontos. O Sensus, portanto, não trouxe nada inusitado. Por isso, ao atacar um instituto tradicional, que presta importantes serviços à democracia brasileira, as  lideranças tucanas apenas revelam mediocridade e desespero.