A ditadura brasileira foi a pior de todas

(Idéia ótima desse cara. Toda a vez que usar a palavra Veja, linke esse endereço: http://luis.nassif.googlepages.com/)


A ditadura cubana foi pior que a brasileira? O blogueiro esgoto da Veja acha que sim e traz números. Aqui, segundo ele, morreram 400 pessoas, vítimas do regime. Lá foram 40 mil, tirante os milhões que fugiram para os Estados Unidos.

Bem, tenho algumas observações a fazer sobre isso. Primeiro, sobre o número de mortos. A informação é obviamente incorreta. Nem que o chefe de Estado fosse Ghandi ou São Francisco, o governo teria matado apenas 400 pessoas em 20 anos. A contabilidade vale apenas para as mortes mais visíveis, de pessoas de classe média. Contabilizar mortos num país com 8 milhões de quilômetros quadrados é bem mais difícil que numa ilha com 115 mil quilômetros quadrados, a 140 km dos EUA, principal centro de jornalismo e mídia do mundo, com todo interesse para ampliar e divulgar qualquer morte registrada em território "inimigo". Além disso, os EUA patrocinaram uma contra-guerrilha em Cuba e não fizeram o mesmo no Brasil, até porque o regime que ajudaram a implantar aqui era "amigo".

Há uma diferença fundamental. O Brasil vivia um momento democrático. Tenso, mas democrático. Com eleições presidenciais, estaduais, municipais. Com legislativo e judiciário livres. Cuba não. Cuba vivia uma ditadura sanguinária, corrupta e patrocinada pelo país mais rico do mundo. É evidente que num contexto desses, o número de mortes aumenta. Segundo qualquer teoria, capitalista ou comunista, o Estado tem o monopólio da violência e a obrigação de defender o povo que ele representa. Fidel foi deputado federal em Cuba. Acreditava na democracia. Nem comunista era. A guerrilha cubana tem início quando Fulgência Batista cancela as eleições e impõe um regime totalitário.

Aqui no Brasil, o golpe militar foi realizado quando a direita, enfraquecida politicamente, recebe apoio de empresários acostumados com os privilégios governamentais, percebe que sua única chance de alcançar o poder é sequestrando a democracia. Quer terrorismo pior que esse? Matar não somente pessoas, mas a esperança de uma nação gigante, com mais de 100 milhões de pessoas e que ainda vivia o início de um processo de industrialização e autonomia econômica?

A revolução cubana foi uma autêntica revolta popular. A guerrilha castrista não tinha recursos, e viviam da ajuda de populares e intelectuais. A nossa ditadura foi uma porrada vinda de cima, dos altos escalões militares e do grande empresariado, com apoio do embaixador americano. Foi um "putch" militar. Fidel lutou contra uma ditadura que matava, torturava, que não permitia ao povo cubano ter esperanças, que vendia o país descaradamente aos mafiosos americanos. Há toda uma literatura sobre isso.

E há a tortura, praticada sistematicamente pelo Estado brasileiro. Cuba vivia uma guerra civil realmente grave, porque financiada por seu vizinho. As forças de segurança do Brasil esbaldaram-se no mais vil sadismo. Meu tio, Francisco do Rosário Barbosa, que não era filiado a nenhum partido nem militava em nenhuma causa (e se o fosse, o fato continua o mesmo) foi torturado medievalmente até a morte, com menos de 30 anos. Não penso o que penso por causa disso. Mas é um fato. Ele foi torturado pela polícia apenas por sadismo - sendo que dá até pena colocar o Sade nesse tipo de crueldade mesquinha sem a mínima relação com erotismo.

Se você acrescentar que a ditadura brasileira destruiu o sistema educacional e de saúde do país, terá uma excelente contabilidade mortuária para exibir ao futuro. A ditadura cubana, nesse ponto, proporcionou o melhor sistema de saúde e de educação de toda a América Latina, em alguns casos até melhor que os Estados Unidos. Se você contabilizar a redução da mortalidade infantil realizada pela revolução cubana, teremos que pensar se não é o caso de incluir esses números nessa guerrinha infantil em torno de quem matou mais.

A ditadura brasileira, por essas razões, foi muito pior que a ditadura cubana e a Veja e seus cachorrinhos brabos (que se consideram pitbulls porque ladram alto e mordem por trás) representam o rebotalho, o vômito fétido de uma nação que ainda não digeriu bem o que lhe aconteceu durante os anos de chumbo.

Ah, sobre os milhões que fugiram para os EUA, basta comparar com outros milhões que fugiram de qualquer outro país caribenho para ver que o regime castrista não influenciou tanto assim. Os latinos pobres, como qualquer pobre do mundo, vão atrás onde há empregos e possibilidade de riqueza.

5 comentarios

Anônimo disse...

Miguel, valeu! Desintegrastes a falácia do criminoso da vejaQmentira. Este e o outro devem ir pra cadeia, esta é minha opinião, porque acumularam crimes pra isto. abrç cid

Rafael M disse...

"A informação é obviamente incorreta. Nem que o chefe de Estado fosse Ghandi ou São Francisco, o governo teria matado apenas 400 pessoas em 20 anos."

Desculpa, mas você não disse nada. Não sei se o governo matou 400 ou 40.000, mas você não trouxe uma só linha que demonstrasse que o governo brasileiro matou mais do que os 400.

Você não diz porque a estatística contaria apenas mortes de classe média, você não mostra porque as mortes causadas por uma "autêntica revolta popular" seriam menos piores do que as causadas por uma "direita enfraquecida".

O que me faz chegar a conclusão de que o ponto central de seu texto, de que a ditadura brasileira seria pior do que a cubana, é mero chute, opinião pessoal fracamente embasada em opinião sobre os fatos.

Anônimo disse...

Miguel,
perfeito seu comentário. Exatamente no sentido de enriquecer, melhor dizendo, tirar da indigência o medíocre texto da Veja que li de uma que peguei emprestado. O pitbull (que me desculpem os cachorros, cujos ataques são instintivos) no mesmo arreganho baboso aproveita pra destilar ódio contra Niemeyer e Chico Buarque. Aliás, ataques do tipo do sabujo dos poderosos da veja, visam muito mais os que no Brasil e no resto da América Latina estão se tocando desde 1959 para a possibilidade de fazer frente à "democracia" made in USA. Afinal não foi ela que contratou sicários ou melou de sangue as mãos de seus gendarmes para sufocarem eleitos e/ou eleições livres como Arbenz na Guatemala, Getúlio e Jango no Brasil, Allende no Chile etc etc etc? É só olharmos atualmente para o saque do petróleo do Iraque e as manobras midiático-golpistas contra os índios Hugo Chaves (caído na capa da veja por 2 dias) e Evo Morales e o sindicalista nordestino Lula. Realmente não dá para contar os mortos pelas ditaduras pró-USA, diretamente ou pela perpetuação da miséria, desses guardiães da liberdade... pros sócios ricos deles.
Júlio César Montenegro - jcmontenegro@globo.com
P.S. Boto anônimo para que o comentário seja aceito. Há outro jeito?

Anônimo disse...

Parabéns, Miguel. A VEJA, como todo porta-voz da direita, tem a pretensão de desconstruir a História ou apagar da memória popular os acontecimentos e fatos que muitos de nós fomos partícipes na luta contra a ditadura militar.

O discurso que tenta desclassificar as comparações entre este governo e o des-governo tucano pefelista é um exemplo de tentativa grotesca de ignorar os erros e crimes cometidos pelos adeptos do Friedman. Seu ridículo corolário é creditar à política econômica fajuta do FHC os acertos deste governo tentando esconder os fatos que levaram este país quase à bancarrota. Sem contar também, é claro, as políticas de enxugamento, PDVs e outras falcatruas, que levaram milhões de trabalhadores ao desemprego, à miséria e à desagregação familiar. Fui testemunho disto como ativista sindical e militante partidário.

(jose justino)

Anônimo disse...

As mortes e torturas não computadas desde o ínicio da ditadura militar até sua derrocada foram ignoradas pela mídia e por muitos intelectuais. As Ligas Camponesas do Julião, por exemplo, sofreram várias baixas que não foram computadas. Aqueles cidadãos do Araguaia que foram torturados e executados na época da repressão à guerrilha não fizeram e ainda não fazem parte de obras como o "Tortura Nunca Mais".

Os sabujos e cães da ditadura não se contentaram em torturar e matar os militantes e guerrilheiros. A ação dos criminosos, policiais e milicos, iam da chantagem e extorsão de familiares daqueles à tortura e roubo de propriedades (que denominavam "botim de guerra"). O caso "Bom burguês" é um exemplo disso. Neste, o comando de tortura do Cenimar ficou com o dinheiro do Banco do Brasil como resultado das ameaças à família do militante Jorge Medeiros.

Cada estatal ou autarquia tinha uma tal de ASI, constituída de cachorrinhos da polícia política, funcionários ou não da entidade, responsáveis pela espionagem e deduragem dos funcionários. Essa "assessoria" ficava colada às presidencias, diretorias ou chefias das entidades.

A revista "Caros Amigos" está apresentando uma série (11 volumes, salvo engano) a respeito da ditadura militar. Uma lida superficial já demonstra a enorme diferença entre as realidades cubana e brasileira quando se trata de discutir qual foi a pior ditadura.

Aliás, a prisão de Guantánamo, onde se torturam "supostos" terroristas sequestrados em diversas regiões do mundo, é fruto da ditadura cubana?


(jose justino)

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