24 de maio de 2010

Le Monde: "os livros de história guardarão essa data"

Traduzi finalmente o editorial do Le Monde do dia 19 de maio. O jornalão francês, embora tenha fama de esquerda, defende sempre, incondicionalmente, as posições européias. Eu morei alguns meses na França e lia o Le Monde todos os dias. Ele nunca fica ao lado da África, do oriente médio ou da América Latina. Tanto que eu preferia ler o Le Figaro, conhecido como "de direita", mas que eu considerava muito menos hipócrita que o Le Monde.

Antes de lerem o editorial abaixo, aviso que ele, como de praxe, defende a posição do governo francês contra o Irã. A França é maior potência nuclear da Europa. Quase 80% de sua energia vem de usinas nucleares, controladas pela estatal EDF, e ainda sobra muito para exportar para toda a União Européia. Por falar em estatal, lembro-vos que na França as grandes companhias de infra-estrutura, aviação, energia e telecomunicações são todas estatais ou com importante participação do Estado.

Por que a Europa, que já matou centenas de milhões de pessoas em duas grandes guerras nos últimos cem anos, pode usar tecnologia nuclear, e o Irã que não ataca nenhum país há mais de duzentos anos, não pode?

O editorial do Le Monde, contudo, mesmo criticando levianamente o Irã, trata o acordo obtido por Brasil e Turquia como um marco geopolítico, e que a segunda-feira de 17 de maio será uma data a ser guardada nos livros de história. O Sul emergente, enfim, se ergue e exige mais poder. Trata-se de um precedente, segundo o jornal, de quebra do monopólio dos cinco países que compõem o Conselho de Segurança da ONU na solução de problemas internacionais de ordem nuclear ou militar.

"As ambições políticas do Sul são legítimas. Elas devem ser recebidas de forma positiva", diz o Le Monde.



Leia abaixo o texto:

Editorial Le Monde 19/05/2010
Questão nuclear do Irã: o Sul emergente exige seu espaço nas negociações

O Sul emergente já havia feito uma entrada barulhenta na cena internacional em temas como meio ambiente e comércio. Esta semana, porém, marca uma nova etapa, um precedente capital na ascensão de poder desses países.

Ei-los atuando num terreno que era, até então, um quase monopólio das "grandes potências" tradicionais: a proliferação nuclear no oriente médio, em suma, nas relações de força de uma região-chave para Europa e Estados Unidos.

Os livros de história guardarão essa data, esta segunda-feira 17 de maio quando Brasil e Turquia propuseram à ONU um acordo negociado com Teerã sobre o problema nuclear iraniano.

Independente do que se pense sobre o acordo em si, a mediação turco-brasileira, da forma como foi feita - ninguém a havia solicitado [nota do tradutor: não é bem assim, Obama enviou uma carta, mas enfim, foi uma iniciativa independente], muda profundamente as coisas. Ele invade, de fato, o domínio reservado aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia.

A estes países, a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan é a seguinte: em 2010 não vamos permitir que vocês dirijam sozinhos uma ordem internacional onde o peso de nações como as nossas tem aumentado a nosso favor (o sul emergente vai do Egito à África do Sul, da Nigéria à Indonésia).

AMBIÇÕES POLÍTICAS LEGÍTIMAS

Para aqueles que ainda não compreenderam bem o que se passou, Brasil e Turquia puseram, na terça-feira, os pingos nos "is". Eles querem integrar o grupo dos cinco + 1 que, dotados de um mandato eterno, cuidam do caso nuclear iraniano.

Trata-se dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, citados acima, e a Alemanha. Estes seis países acusam o Irã de violar seus compromissos internacionais e de ignorar sucessivas resoluções da ONU. Eles suspeitam que Teerã persiga um programa de enriquecimento de urânio apenas com um objetivo: militar.

As ambições políticas do Sul são legítimas. Elas devem ser recebidas de forma positiva. Mas sobre esta questão iraniana, o ceticismo dos Cinco tem fundamento. Eles saudaram prudentemente a iniciativa turco-brasileiro como "um passo na direção certa."

No entanto, para mostrar sua desconfiança em relação à substância do acordo anunciado em Teerã, os cinco não esperaram menos que um dia para afirmarem que mantêm a pressão sobre o Irã. Eles chegaram a um acordo sobre um rascunho de projecto para impor novas sanções contra a República Islâmica.

Eles estão certos. O documento turco-brasileiro propõe que uma parte, apenas uma parte do urânio iraniano, seja armazenado no estrangeiro em troca de combustível enriquecido em condições que permitam apenas o uso civil. Isso não faz nada para privar o Irã da possibilidade de produção de material físsil para uma arma nuclear.

Os iranianos disseram segunda-feira: eles pretendem continuar seu programa de enriquecimento... Os cinco têm o direito de exigir mais.

Tradução: Miguel do Rosário.

3 comentarios

Iv Avatar disse...

O baronato da mídia só quer fazer marketing contra Lula mesmo sabendo que Lula vai ser agraciado com o Nobel da Paz,,tudo se encaminha prá isso,, o Irã já contactou a AIEA para assinar os termos do acordo, vi isso no Nassif,,,mas para o monopólio da fala e da informação nada disso interessa,,a verdade não interessa,,só interessa que o Serra seja eleito,,,

Anônimo disse...

Se os meios de comunicação não entrarem nos eixos da democracia, estamos fodidos e mal pagos
Paulão

Alberto Porém Jr. disse...

Oi Miguel.
Este editorial é bom.
Mas o de hoje mata a pau.
http://www.lemonde.fr/opinions/article/2010/05/24/le-bresil-de-lula-sur-tous-les-fronts_1362155_3232.html

É de fazer tucano chorar no pé da santa.
Dizem a más linguas que FHC cancelou a assinatura que ele tinha desde que morava em Paris...

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